A Empregada: Quando o Desejo Mora na Casa - O Inconsciente por Trás de The Housemaid
- Dan Mena Psicanálise
- há 2 dias
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A Empregada: Quando o Desejo Mora na Casa - O Inconsciente por Trás de The Housemaid
Há casas onde o silêncio não é ausência, mas um grito contido. Onde as paredes guardam segredos que o tempo não apaga, e o ar parece pulsar com desejos que nunca foram ditos. The Housemaid (A Empregada), de Kim Ki-young - Review de 2025, é essa casa, um espaço onde o invisível se torna presença.
Neste filme, a casa não é apenas abrigo, mas um corpo vivo, marcado por feridas. Cada cômodo guarda vontades proibidas, cada gesto carrega o peso de uma culpa que corrói por dentro. O que se esconde atrás das portas fechadas é um jogo silencioso entre o querer e o temer, o poder e a fragilidade.
O desejo se infiltra na ordem, desmancha certezas e revela muito da complexidade que nos habita. A empregada, o chefe, a esposa: figuras que compõem essa coreografia, são o real e o imaginário que se confundem, onde o impossível se torna inevitável.
Este filme é um convite para escutar o que não se diz. Ao abrir essa porta, pergunto: que segredos sua casa guarda? Quais você esconde sob o véu da normalidade?

The Housemaid é um marco incrível do cinema sul-coreano que transcende o simples thriller doméstico para se tornar alvo de análise da nossa psique, das estruturas sociais que cercam as relações familiares e de poder.
"O desejo não se limita ao corpo, ele é a força que desestabiliza a ordem simbólica e social." – Dan Mena
Apresenta uma narrativa densa, onde a culpa, a vingança, assim como a reparação simbólica se entrelaçam em um jogo psicológico que levanta as brechas psíquicas do sujeito e da sociedade. Neste artigo, proponho uma leitura psicanalítica inédita, fundada a partir da análise dos três protagonistas centrais.
Vou usar uma abordagem interdisciplinar, integrando conceitos da psicanálise freudiana e lacaniana, psicologia clínica, filosofia contemporânea e sociologia, para oferecer uma compreensão global.
"A casa é um organismo onde o real, o simbólico e o imaginário se entrelaçam em conflito constante." – Dan Mena
Meu objetivo é ir além da superfície narrativa, penetrando no campo do simbólico, do real e do imaginário, para entender como essa linguagem cinematográfica trabalha com tensões de classe, gênero e sexualidade, questões que reverberam na contemporaneidade.
"O ‘’Outro’’ é a presença que revela nossas fissuras e desafia a ilusão da unidade subjetiva." – Dan Mena
Contexto Histórico e Cinematográfico de The Housemaid
Lançado originalmente em 1960, num momento de grande transformação social e política na Coreia do Sul. O país vivia um processo de modernização acelerado, que era marcado por tensões entre tradições patriarcais e a emergência dos novos valores urbanos que surgiam.
A obra abre essas contradições, utilizando a casa como um microcosmo da sociedade. Kim Ki-young, conhecido por sua abordagem ousada e inovadora, que mistura elementos do melodrama e horror, olha alto na crítica social. Seu roteiro é marcado por uma visão para o inconsciente, desde o desejo reprimido às forças destrutivas.
A escolha da empregada como personagem central é estratégica: ela representa o ‘’Outro’’, o elemento disruptivo que desestabiliza a ordem familiar e social.
"O desejo reprimido é um fantasma que assombra o sujeito, impulsionando atos extremos e rupturas." – Dan Mena

A casa, símbolo do lar e da segurança, se torna o palco de uma tragédia, onde os quereres se tornam a arma e a culpa para uma espécie de prisão.
O Perfil Psicológico dos Protagonistas
A Empregada
Ela é a encarnação do desejo pulsional e da transgressão. Sua entrada na casa representa a invasão do real no simbólico, a quebra da ordem estabelecida. Psicologicamente, ela manifesta traços de uma subjetividade marcada pela marginalização.
O Chefe da Casa
Ele é o sujeito dividido entre o superego rígido e o desejo inconsciente. Representa o patriarca que tenta manter o controle, mas é vulnerável às seduções do inconsciente. Sua relação com a empregada indica a fragilidade do seu eu e a tensão entre o desejo e a culpa.
A Esposa
Eis o sintoma da casa, a figura que sofre a perda do lugar e a ameaça do ‘’Outro’’. Seu perfil psicológico é marcado pela repressão, ciúme e uma tentativa desesperada de manter a ordem. Ela encarna a função do superego, mas também é a vítima da dinâmica destrutiva que foi instaurada. "O delírio é a linguagem do sujeito que tenta dar sentido ao insuportável da existência." – Dan Mena
O desejo, é o fator estruturante da subjetividade, mas também fonte de conflito e sofrimento. Em The Housemaid, ele não é apenas sexual, mas simbólico, uma busca por reconhecimento. A dinâmica familiar é atravessada por forças inconscientes que escapam ao controle racional.

Quando reprimido emerge como um fantasma, assombra os personagens, os levando a prática de atos extremos. A culpa, por sua vez, funciona como mecanismo de defesa e punição, criando um ciclo de repetição.
A Vingança e a Reparação Simbólica
A vingança na narrativa do filme é mais do que um ato de retaliação. A empregada, ao se vingar, não apenas destrói a ordem da casa, mas também dilata as falhas do sistema simbólico que a oprime. Este processo complexo da culpa e do ressentimento, não se limita ao plano consciente. A vingança vira um mecanismo de afirmação do sujeito, ainda que destrutivo, e um modo de confrontar o ‘’Outro’’ que o exclui. "O superego é tanto guardião da ordem quanto agente da repressão e do sofrimento psíquico." – Dan Mena
A Construção Delirante da Realidade
Inspirados em Lacan podemos entender que o real é aquilo que escapa à simbolização e que, quando invade esse simbólico, provoca o delírio. Em The Housemaid, a presença da empregada é o real que irrompe abruptamente, desorganizando a construção da realidade familiar.
O delírio, aqui, não é apenas psicopatológico, mas uma tentativa de dar sentido ao que é de fato insuportável. A edificação delirante da realidade é uma defesa contra a fragmentação do sujeito, uma forma que usamos para lidar com a perda do real.
"A psicose social se manifesta nas tensões entre o privado e o público, o pessoal e o político." – Dan Mena

Impacto Social e Crítica de Classe e Gênero
The Housemaid é um filme que abraça uma crítica social contundente. A casa representa a estrutura do patriarcado capitalista, onde as relações de poder são naturalizadas e a exploração da classe trabalhadora permanece invisível. A empregada, como figura marginalizada, lembra constantemente a opressão de gênero e classes. "O inconsciente não se cala; ele pulsa, invade e exige ser escutado para que o sujeito se reinvente." – Dan Mena Ditas tensões entre o privado e o público, o pessoal e o político, mostram como o desejo e a violência são atravessados por questões socializadas. A crítica de gênero é explícita na forma como a sexualidade feminina é controlada e punida. "Nossa fragilidade reside na tentativa constante de controlar o incontrolável dentro de si." – Dan Mena
Entre Freud e Lacan
A leitura psicanalítica que faço de The Housemaid permite compreender as estruturas inconscientes que movem sua narrativa. Freud nos ajuda a entender o papel do desejo, da culpa e do superego, enquanto Lacan faz a sua análise com conceitos como o real, o simbólico e o imaginário, além da foraclusão do Nome-do-Pai.
O filme é um estudo sobre a psicose social e individual, onde o delírio e a construção da realidade são estratégias para lidar com a perda e a fragmentação do sujeito. A psicanálise possui as ferramentas para decifrar essas dinâmicas e compreender o sofrimento psíquico que aqui se apresenta.
"A linguagem é o espaço onde o desejo encontra forma, mas também onde se perde em ambiguidades." – Dan Mena

Relevância Atual e Reflexões
Apesar de ter sido produzido inicialmente há mais de seis décadas, The Housemaid mantém uma relevância impressionante para o olhar atual e contemporâneo. As questões de desejo, poder, culpa e reparação continuam a tocar fortemente em nossas sociedades, marcadas por desigualdades absurdas e conflitos internos. A análise do filme sob o olhar da nossa matéria e das ciências sociais nos convoca a ponderar sobre nossos lares e seus fantasmas. Sem dúvidas, carrega um convite para olhar para dentro, para o inconsciente coletivo e individual, e para as bases que moldam nossas vidas. "A identidade é um mosaico de ausências e presenças, de desejos vividos e reprimidos." – Dan Mena
The Housemaid circunda o território incômodo do desejo, onde a ordem se desfaz e o sujeito se confronta com suas próprias rupturas emocionais. A casa, que deveria ser refúgio, se torna campo de batalha entre o que queremos esconder e o que insiste em aparecer.
Mas a verdadeira questão é: até que ponto estamos dispostos a encarar o querer sem transformá-lo em culpa, vingança ou destruição? O que nos assusta não é o desejo em si, mas o que ele denota, nossas fragilidades, verdades ocultas e as sombras que carregamos.
E se a violência maior não residisse na transgressão, mas na tentativa desesperada de silenciar o que pulsa dentro de cada um? A reparação que buscamos talvez seja, na verdade, um chamado para acolher tudo isso como parte indissociável do que somos, e não como um inimigo a ser eliminado.

Este filme nos desafia a questionar: estamos prontos para abrir a porta da casa onde o nosso desejo mora? Ou preferimos levantar muros que nos aprisionam em versões mutiladas de nós mesmos, negando essa verdade?
O inconsciente não se cala para sempre, ele vive, pulsa, invade, exige ser escutado. Portanto, ele não é um inimigo, mas uma força vital que, embora inquietante, é essencial para a construção da subjetividade.
"A cultura molda o sujeito, mas é no inconsciente que se trava a verdadeira batalha pela liberdade." – Dan Mena

The Housemaid nos lembra que o desejo é uma casa sem trancas, e a chave está em nossas mãos. O que faremos com ela? Bibliografia FREUD, Sigmund. O mal-estar na cultura. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
FREUD, Sigmund. Psicopatologia da vida cotidiana. Rio de Janeiro: Imago, 1995.
FREUD, Sigmund. Totem e tabu. Rio de Janeiro: Imago, 1974.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
LACAN, Jacques. O seminário, livro III: As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
KRISTEVA, Julia. Poderes da perversão. Rio de Janeiro: Imago, 1988.
MILLER, Jacques-Alain. A foraclusão do Nome-do-Pai. São Paulo: Escuta, 2005.
GREEN, André. O trabalho do negativo. Rio de Janeiro: Imago, 1999.
DOLTO, Françoise. A imagem inconsciente do corpo. Rio de Janeiro: Imago, 1985.
ZIZEK, Slavoj. O sublime objeto da ideologia. São Paulo: Boitempo, 2008.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34, 2010.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
FAQ The Housemaid
O que torna The Housemaid um filme tão marcante no cinema sul-coreano?
The Housemaid transcende o thriller doméstico ao explorar profundamente o inconsciente, o desejo e as tensões sociais, tornando-se um marco cultural e psicológico.
Como o filme utiliza a casa como símbolo?
A casa é um corpo vivo, um microcosmo onde desejos reprimidos, culpas e conflitos se manifestam, revelando as fissuras da subjetividade e da sociedade.
Qual o papel da empregada na narrativa?
Ela representa o “Outro”, a força disruptiva que invade a ordem familiar e social, simbolizando o desejo pulsional e a transgressão.
Como o desejo é retratado no filme?
O desejo vai além do sexual, sendo uma força simbólica que desestabiliza certezas e expõe a complexidade do sujeito.
Quais são os perfis psicológicos dos protagonistas?
A empregada é transgressora e marginalizada; o chefe da casa, dividido entre superego e desejo inconsciente; a esposa, repressiva e vítima da dinâmica familiar.
De que forma a culpa atua na trama?
A culpa funciona como mecanismo de defesa e punição, criando um ciclo de sofrimento e repetição entre os personagens.
O que significa a vingança na perspectiva psicanalítica do filme?
A vingança é uma reparação simbólica, um modo de afirmação do sujeito diante da exclusão e opressão.
Como o conceito lacaniano do real aparece em The Housemaid?
A presença da empregada é o real que irrompe, desorganizando a realidade simbólica da casa e provocando delírios.
Qual a importância da construção delirante da realidade?
É uma defesa psíquica para lidar com o insuportável, tentando dar sentido ao real fragmentado.
Como o filme aborda as questões de classe e gênero?
Expõe a exploração da classe trabalhadora e a opressão da sexualidade feminina dentro da estrutura patriarcal capitalista.
De que forma Freud e Lacan ajudam a interpretar o filme?
Freud esclarece o papel do desejo, culpa e superego; Lacan aprofunda com os conceitos do real, simbólico, imaginário e psicose.
Por que The Housemaid continua relevante hoje?
Porque aborda temas universais como desejo, poder e culpa, que ainda permeiam as relações sociais contemporâneas.
Como o filme pode ser usado para reflexão clínica?
Ele ilustra dinâmicas inconscientes, conflitos subjetivos e mecanismos de defesa presentes na clínica psicanalítica.
Qual a relação entre desejo reprimido e atos extremos no filme?
O desejo reprimido emerge como fantasma que assombra e impulsiona comportamentos extremos e destrutivos.
O que o filme nos convida a questionar sobre o desejo?
Se estamos dispostos a acolher o desejo como parte vital da subjetividade ou se preferimos silenciá-lo, construindo muros que nos aprisionam.
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Sobre o Autor
Este artigo nasce da minha prática clínica e da pesquisa teórica que amarro ao longo dos anos. Sou Dan Mena, psicanalista, supervisor clínico e pesquisador em psicanálise e neurociência do desenvolvimento. Caso deseje conhecer de forma mais detalhada minha trajetória, formação, credenciais e percurso acadêmico e clínico, você pode acessar as informações completas no link abaixo.
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https://uiclap.bio/danielmena Dan Mena – Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise (CNP) Conselho Nacional de Psicanálise - REG - N.º - 1199, desde 2018); (CBP) Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise - REG - N.º - 2022130, desde 2020); Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University – Florida Department of Education, EUA (Enrollment H715 / Register N.º H0192); Pesquisador em Neurociência do Desenvolvimento PUCRS - (ORCID™); Especialista em Sexologia e Sexualidade pela Therapist University, Miami, EUA N.º (RQH W-19222 / Registro Internacional)

