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Complexo de Édipo na Psicanálise: Estrutura, Desejo e Lei

  • Foto do escritor: Dan Mena Psicanálise
    Dan Mena Psicanálise
  • 17 de dez. de 2025
  • 9 min de leitura

Atualizado: 21 de dez. de 2025

Dan Mena — Psicanálise, Desejo e Leitura Crítica do Contemporâneo
Dan Mena — Psicanálise, Desejo e Leitura Crítica do Contemporâneo

Por que o Édipo não é uma fase, mas uma operação simbólica na constituição do sujeito? Poucos conceitos da psicanálise foram tão difundidos, e ao mesmo tempo, tão mal compreendidos quanto o complexo de Édipo. Muitos o reduzem a uma caricatura moral ou a uma suposta fase infantil superada.


Ele costuma aparecer como algo datado, ultrapassado ou mesmo “refutado” pela psicologia contemporânea. Essa leitura empobrece não apenas o conceito da estrutura, mas a própria compreensão do sujeito.

Na psicanálise, o complexo de Édipo não designa especificamente um episódio biográfico, nem um drama familiar literal. Ele nomeia uma estrutura, a forma pela qual o desejo é atravessado pela lei, pela falta e pela linguagem.


É nesse ponto que o Édipo permanece atual, o que é necessário para pensar a clínica, o sofrimento psíquico e a constituição do indivíduo. É contra essa redução que a psicanálise mantém sua posição. “A psicanálise não se ocupa de adaptar o sujeito ao mundo, mas de sustentar o ponto em que o desejo não encontra mais garantias.” – Dan Mena Ao longo deste artigo, você vai compreender claramente por que o complexo de Édipo não é uma fase, não é um drama familiar e tampouco um conceito ultrapassado, senão, mas uma operação simbólica ainda decisiva para elucidar o sofrimento psíquico em nossos dias.

O Complexo de Édipo Não é uma Fase do Desenvolvimento

Uma das distorções mais comuns é tratar o Édipo como uma etapa cronológica do desenvolvimento infantil, algo que começa e termina entre os três a cinco anos. Essa leitura psicologizante ignora o essencial da sua base, o Édipo não é um evento, mas uma operação simbólica.

O que está em jogo aqui não é o desejo concreto pela mãe, nem a rivalidade real com o pai, mas a entrada do sujeito em uma ordem na qual o desejo não pode ser plenamente satisfeito.


O complexo introduz a experiência da interdição, que não proíbe apenas, mas lhe dá estrutura.

Sem essa articulação, o desejo permanece grudado ao objeto, sem mediação simbólica. O Édipo, portanto, não “passa” inadvertidamente: ele se inscreve ou falha em se fixar, com consequências clínicas decisivas. É esse deslocamento conceitual que impede a redução do Édipo a uma cronologia. “Quando a lei falha em se inscrever simbolicamente, ela retorna no real sob a forma de sintoma, seja excesso ou violência.” – Dan Mena “Na minha prática clínica de anos, observei que a falha de inscrição simbólica frequentemente se manifesta como angústia inespecífica, um achado que diálogo com a formulação edipiana clássica”

Função Paterna e Metáfora do Édipo em Freud e Lacan
Função Paterna e Metáfora do Édipo em Freud e Lacan

Em Freud: Desejo, Proibição e Formação do Sujeito

Em Freud, o complexo de Édipo aparece como um núcleo organizador da vida psíquica. Ele media três elementos fundamentais:

o desejo pela figura primordial de cuidado;

a interdição desse desejo;

a identificação que surge como saída possível do impasse.

A proibição do incesto não é simplesmente uma ordem moral ou social. Ela funda a possibilidade de deslocamento do desejo, abrindo o campo da cultura, da linguagem e do laço social. O sujeito se constitui justamente nesta renúncia, nunca completa a um gozo impossível.

Por isso, Freud localiza no Édipo na sua origem;

do supereu;

da culpa;

das formações sintomáticas.

Assim, o sintoma surge como compromisso entre o desejo e a lei. Onde o Édipo não opera de forma estruturante, o sintoma assume outras formas, geralmente mais graves. É nessa mediação que o sujeito começa a se estruturar. “O inconsciente não é um reservatório de conteúdos ocultos, mas o efeito insistente da própria linguagem sobre o corpo que fala.” – Dan Mena

Lacan e O Édipo Como Estrutura Simbólica

Jacques Lacan radicaliza essa leitura ao deslocar o Édipo do plano imaginário para o registro simbólico. O centro não é o pai real, mas a função paterna, aquilo que introduz a lei da linguagem e separa o sujeito do desejo do ‘’Outro’’.

O Édipo não depende de configurações familiares específicas, ele opera sempre que há:

um desejo que captura o sujeito;

uma lei que o limita;

uma linguagem que o representa.

A chamada “metáfora paterna” não é uma pessoa ou indivíduo, mas, uma função simbólica que permite ao sujeito não ser tudo para o ‘’Outro’’. É esse trânsito que institui a falta como condição do desejo.

Quando essa função falha, não estamos diante de um “Édipo mal resolvido”, mas de uma estrutura clínica distinta, como no caso da psicose. É esse deslocamento que retira o Édipo do registro da imagem e o inscreve na linguagem. “Não é o sofrimento que conduz o sujeito à análise, mas o fracasso reiterado das soluções ofertadas que prometiam sua eliminação.” – Dan Mena

O Equívoco do “Édipo Não Resolvido”

Falar em “complexo de Édipo não resolvido” é um erro conceitual frequentemente utilizado. Ele sugere que o Édipo seria algo a ser concluído com sucesso, como uma tarefa do desenvolvimento.


Na clínica, o que encontramos não é sua resolução, mas a inscrição ou falha dela da lei simbólica. Não se trata de resolver, mas de verificar:

Como o sujeito se posiciona frente à falta?

Como o desejo se articula à lei?

O gozo é limitado (ou não)?

A insistência na ideia de sua ordenação, achata a leitura clínica e desloca a psicanálise para um modelo normativo que é estranho a psicanálise. O Édipo não se resolve — ele se inscreve ou falha em se inscrever.

Complexo de Édipo na Psicanálise: Desejo, Lei e Estrutura do Sujeito
Complexo de Édipo na Psicanálise: Desejo, Lei e Estrutura do Sujeito
Édipo, Neurose e Psicose

O complexo de Édipo tem destinos distintos conforme sua estrutura clínica.

Na neurose, opera como eixo organizador:

O desejo é recalcado;

A lei é internalizada;

O sintoma aparece como o retorno do recalcado.

Na psicose, a função paterna não se faz presente da mesma forma. Não há metáfora paterna operante, e o sujeito permanece mais exposto ao gozo do ‘’Outro’’, sem a mediação simbólica que a lei introduz.

Essa diferença não é quantitativa, mas estrutural. O Édipo não é mais fraco ou mais forte: ele opera ou não. É a estrutura que define o destino do Édipo, não a sua intensidade. “A clínica psicanalítica não visa suprimir a falta, mas permitir que o sujeito deixe de ser governado por ela sem jamais chegar a sua completa anulação.” – Dan Mena

Por Que o Complexo de Édipo Ainda Importa Hoje

Em um contexto pop  e cultural marcado pela recusa da falta, pela ilusão de gozo ilimitado e pela negação da lei, o complexo de Édipo continua sendo uma ferramenta fundamental de leitura.

A tentativa contemporânea de abolir limites, hierarquias simbólicas e diferenças estruturantes não elimina o Édipo, apenas produz novas formas de sofrimento e angústia. Onde a lei não se firma simbolicamente, ela retorna no real, seja de maneira violenta ou sintomática.

A psicanálise não defende o Édipo como modelo familiar, mas como operador simbólico sem o qual o sujeito fica à deriva do próprio desejo. É justamente onde a falta é recusada que o Édipo retorna como problema. “Toda tentativa de normalizar o desejo vai produzir apenas novas formas de angústia, pois o desejo só se sustenta onde a norma cria sua falha.” – Dan Mena

O Mito do Arcaico

O complexo de Édipo não é um ícone ultrapassado, nem uma teoria moralizante. Ele é uma das formas mais rigorosas de pensar como o sujeito se constitui a partir da falta, da lei e da linguagem.

Quando o relegam a instâncias inferiores, como a um episódio infantil ou descartam em nome de promessas terapêuticas rápidas, estão recusando a própria complexidade do sofrimento psíquico. A clínica nos mostra, diariamente, que o Édipo não desapareceu, senão que, retornou sob novas formas e vestes quando não é simbolicamente elaborado.

Pensar o Édipo hoje é sustentar a psicanálise em seu ponto mais ético, aquele que não promete adaptação plena, mas oferece escuta ao desejo em sua dimensão mais estrutural. É essa articulação que mantém o Édipo conceitualmente vivo. “Tratar o Édipo como relíquia teórica é recusar a ética da psicanálise, pois aquilo que não se simboliza retorna insistentemente nas formas contemporâneas mais variadas do sofrimento.” – Dan Mena Sobre o autor

Este artigo nasce da minha prática clínica e da pesquisa teórica que sustento ao longo dos anos. Sou Dan Mena, psicanalista, supervisor clínico e pesquisador em psicanálise e neurociência do desenvolvimento. Caso deseje conhecer de forma mais detalhada minha formação, credenciais e percurso acadêmico-clínico, você pode acessar as informações completas no link abaixo.

👉 Conheça minhas formações e especializações Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Totem e tabu (1913). Rio de Janeiro: Imago, 1974.

FREUD, Sigmund. Neurose, Psicose e Perversão. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 5: As formações do inconsciente (1957–1958). Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 4: A relação de objeto (1956–1957). Rio de Janeiro: Zahar, 1995. FAQ – Complexo de Édipo na Psicanálise

O que é o complexo de Édipo na psicanálise?

Na psicanálise, o complexo de Édipo não designa um evento biográfico nem um drama familiar literal. Ele nomeia uma estrutura simbólica pela qual o desejo do sujeito é atravessado pela lei, pela falta e pela linguagem, organizando sua relação com o Outro e com o laço social.


O complexo de Édipo é apenas uma fase do desenvolvimento infantil?

Não. Reduzir o Édipo a uma fase cronológica do desenvolvimento é um equívoco psicologizante. O Édipo não é um estágio que começa e termina, mas uma operação simbólica que se inscreve — ou falha em se inscrever na estrutura do sujeito.


O complexo de Édipo envolve desejo sexual pelos pais?

Essa é uma leitura literal e empobrecida do conceito. O que está em jogo não é o desejo concreto pela mãe ou a rivalidade real com o pai, mas a forma como o desejo é mediado pela interdição, permitindo sua inscrição simbólica e seu deslocamento.


Por que Freud considerava o complexo de Édipo central na psicanálise?

Freud localiza no Édipo o núcleo organizador da vida psíquica. É a partir dele que se estruturam o supereu, a culpa e as formações sintomáticas. O sintoma surge como um compromisso entre o desejo e a lei, efeito direto dessa operação.


Qual é a diferença entre a leitura de Freud e a de Lacan sobre o Édipo?

Lacan desloca o Édipo do plano imaginário para o registro simbólico. O centro deixa de ser o pai real e passa a ser a função paterna, responsável por introduzir a lei da linguagem e separar o sujeito do desejo do ‘’Outro’’.


O que significa a “função paterna” no complexo de Édipo?

A função paterna não se refere a uma pessoa concreta, mas a uma função simbólica que permite ao sujeito não ocupar o lugar de objeto absoluto do ‘’Outro’’. Ela institui a falta como condição do desejo e possibilita a entrada do sujeito na linguagem.


Existe algo como “complexo de Édipo não resolvido”?

A noção de “Édipo não resolvido” é conceitualmente equivocada. Na clínica, não se trata de resolução, mas de inscrição ou falha de inscrição da lei simbólica. O Édipo não se resolve; ele opera ou não opera na estrutura.


Qual a relação entre o complexo de Édipo, a neurose e a psicose?

Na neurose, o Édipo opera como eixo organizador: o desejo é recalcado, a lei é internalizada e o sintoma emerge como retorno do recalcado. Na psicose, a função paterna não se inscreve da mesma forma, deixando o sujeito mais exposto ao gozo do ‘’Outro’’.


O complexo de Édipo ainda é relevante na clínica contemporânea?

Sim. Mesmo em contextos culturais que recusam a falta e promovem a ilusão de gozo ilimitado, o Édipo permanece fundamental para compreender o sofrimento psíquico. Quando a lei não se inscreve simbolicamente, ela retorna no real, muitas vezes de forma sintomática.


A psicanálise defende o complexo de Édipo como modelo familiar?

Não. A psicanálise não sustenta o Édipo como modelo de família, mas como operador simbólico. Ele não prescreve formas de organização familiar, mas permite pensar a constituição do sujeito, do desejo e da lei na linguagem.

Artigo acadêmico sobre o Complexo de Édipo em Freud, Lacan e Winnicott https://revistas.usp.br/psicousp/article/view/42162 (Artigo da Revista Psicologia USP sobre abordagens do complexo de Édipo) Portal de Revistas da USP

Entendendo o que é Complexo de Édipo https://psicanaliseemformacao.com/entendendo-o-que-e-complexo-de-edipo/ (Explicação didática, com referências a Freud e Lacan) psicanaliseemformacao.com

O Papel do Complexo de Édipo no Desenvolvimento Psíquico https://efep.com.br/o-complexo-de-edipo/ (Texto que contextualiza o conceito freudiano e suas implicações) efep.com.br

Resumo disciplinar sobre o Complexo de Édipo (Sociedade Internacional de Psicanálise) https://sociedadedepsicanalise.com.br/resumo-da-disciplina-de-psicanalise-complexo-de-edipo/ (Exploração histórica e teórica do conceito) sociedadedepsicanalise.com.br

Artigo “O que é o Complexo de Édipo?” – American Society of Freudian Psychoanalysis https://freudacademy.com/o-que-e-o-complexo-de-edipo/ (Conceito, história e formulação clássica freudiana) freudacademy.com Quer aprofundar ainda mais esse olhar clínico sobre o sujeito?

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Uma visão clínica e simbólica do sujeito contemporâneo. Links Internos sobre o tema Complexo de Édipo - a Castração



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Dan Mena – Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise (CNP 1199, desde 2018);

Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise (CBP 2022130, desde 2020);

Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University – Florida Department of Education, EUA (Enrollment H715 / Register H0192);

Pesquisador em Neurociência do Desenvolvimento – PUCRS (ORCID™;Especialista em Sexologia e Sexualidade – Therapist University, Miami, EUA (RQH W-19222 / Registro Internacional).


2 comentários

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Marvellous Adeolu
Marvellous Adeolu
17 de dez. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

A clear and rigorous reminder that the Oedipus complex is not a developmental phase but a symbolic operation that structures desire. By emphasizing law, prohibition, and inscription rather than chronology or family drama, the article restores Oedipus to its true clinical and theoretical relevance.

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Dan Mena Psicanálise
Dan Mena Psicanálise
21 de dez. de 2025
Respondendo a

Thank you Marvellous Adeolu for this careful and precise reading. Your comment demonstrates a solid understanding of the conceptual and clinical stakes involved in the discussion of the Oedipus complex. I particularly appreciate your emphasis on Oedipus as a symbolic operation rather than a developmental stage.


This distinction is central to the argument of the article: removing Oedipus from a chronological or family-drama framework and restoring it as a structuring operation of desire, law, and inscription in the subject.


Your recognition reinforces the importance of maintaining theoretical rigor in clinical discourse, especially in a contemporary context that often reduces complex symbolic operations to simplified developmental narratives. It is precisely this reduction that risks emptying psychoanalysis of its ethical and clinical…


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Este conteúdo é baseado em 10 anos de prática clínica em psicanálise, respaldada por minha formação e registros profissionais junto ao; Conselho Nacional de Psicanálise (CNP 1199) e Conselho Brasileiro de Psicanálise (CBP 2022130).  
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