Parasita: Uma Análise Psicanalítica do Desejo e da Perversão Social
- Dan Mena Psicanálise

- 7 de nov de 2025
- 21 min de leitura
Atualizado: 14 de dez de 2025

O Cheiro da Inocência Perdida
Desde sua estreia em 2019, o filme sul-coreano Parasita (Gisaengchung), dirigido pelo mestre Bong Joon-ho e produzido pela Barunson E&A, elevou à categoria de obra cinematográfica para se estabelecer como um fenômeno cultural e um diagnóstico social de nosso tempo.
Vencedor da Palma de Ouro e de quatro Oscars, incluindo, Melhor Filme e Melhor Diretor, a obra não se limita a narrar a história de duas famílias.
Os Park, abastados e ingênuos, e os Kim pobres e astutos, operam uma incisão na ferida aberta da estrutura de classes contemporânea. Não se trata apenas de ‘’quem parasita quem’’, mas de como a própria desigualdade se inscreve no psiquismo, pervertendo o desejo e cristalizando o trauma.
Sob a perspectiva da psicanálise, entrelaçada com a teoria crítica e a filosofia, vou cavar quanto nossos próprios desejos, medos e fantasias enquanto sociedade.
O filme nos apresenta a três protagonistas centrais cujos perfis psicológicos são elementares para a análise. Kim Ki-woo, o filho mais velho da família Kim é o arquétipo do sonhador, cuja ambição de ascensão social é simbolizada pela "pedra do scholar" que carrega, uma projeção de desejo que o aprisiona na fantasia de ‘’ser o que não é’’.

Sua busca por pertencimento é a mola propulsora da intrusão. Em contraste, Park Dong-ik, o pai da família rica, encarna a negação da realidade. Sua bondade superficial e sua aversão ao "cheiro" dos Kim exibe uma inocência burguesa que é uma cegueira ideológica, um mecanismo de defesa contra a verdade incômoda da exploração.
Kim Ki-taek, o pai da família Kim, que representa o resignado, cuja identificação com o agressor (o sistema) o leva a uma passividade que só é quebrada por um ato falho final, um surto de violência que é a irrupção do Real traumático no filme.
A partir deste olhar, a obra se torna um campo de testes para a intersecção entre o inconsciente individual e a ideologia social. A luta de classes é aqui analisada como um trauma social que retorna compulsivamente, a inveja e o desejo são seus vetores, e o capital, o grande perverso das relações, especialmente as familiares.
Ao longo dos próximos tópicos, vou entrar na obra de Bong Joon-ho, para desmascarar a ideologia e decifrar os signos da riqueza, questionando a própria percepção da realidade.
Particularmente, o filme foi absolutamente merecedor de todas as premiações recebidas. Passei a admirar Bong Joon-ho, um diretor incrível.
A Inveja como Propulsor da Fantasia de Classes
O Desejo Inconsciente que Estrutura o Filme
O cerne da análise que faço de Parasita reside na compreensão do desejo inconsciente que impulsiona a trama. O "olhar pervertido" da obra, questiona: qual é o desejo que o filme satisfaz ou frustra em nós, espectadores?
O desejo inconsciente que estrutura a narrativa não é o da ascensão social, mas o da substituição, a fantasia de que a diferença de classe é apenas uma questão de performance e oportunidade.
A família Kim, não deseja apenas o dinheiro dos Park; ‘’ela quer ser os Park’’, ocupar seu lugar, desfrutar de sua inocência burguesa, que é o verdadeiro objeto da sua inscrição.
Essa emoção destrutiva que visa arruinar o bem do outro, em Parasita, transforma a carência em astúcia.
A inveja dos Kim não é material, é um controverso da estrutura psíquica dos Park, que vivem em um estado de negação confortável, protegidos pelo dinheiro, e de qualquer contato com o Real da miséria.
O capital atua como um ‘’Grande Outro’’ que promete a todos a possibilidade de gozo ilimitado, mas o distribui de forma desigual. A família Kim, ao se infiltrar na casa, tenta roubar não apenas a riqueza, mas a utopia que a sustenta.
"A inveja é a sombra do desejo que, ao invés de buscar o objeto, busca a destruição do ‘’Outro’’ que o possui." - Dan Mena
A ideologia capitalista nos ensina; é a pura ficção que nos permite suportar a realidade da exploração. A família Park vive isso plenamente, acreditando que sua riqueza é fruto de uma ordem natural e que a pobreza é uma falha moral.
A inveja dos Kim é a reação a essa inventividade, uma tentativa de provar que a diferença é apenas uma questão de acesso, e não de essência.
O filme, ao nos fazer torcer pela astúcia dos Kim, nos concatena com esse inconsciente de subverter a ordem, de romper a barreira simbólica de classes.
O que o filme apresenta, e o lado inconsciente da sociedade em anular essa diferença, mas não pela via da revolução, e sim pela da identificação e da substituição individual.
A tragédia se instala quando o Real, o porão e o cheiro, irrompem, mostrando que a ordem é estrutural e não pode ser simplesmente encenada.
Mas seria a inveja apenas um sentimento individual, ou o sintoma de uma estrutura social que se alimenta da comparação incessante?
Até que ponto a performance de classes é uma tentativa de recalcar o trauma da exclusão?
Qual é o preço psíquico de desejar ser o ‘’Outro’’?
“O desejo não é a busca pelo que falta, mas a ferida psíquica que se abre entre o que somos e a fantasia de classes que o capital impõe.” - Dan Mena
O Trauma da Diferença Social que Não se Simboliza
O Excesso Traumático
A psicanálise lacaniana nos oferece uma ferramenta fundamental para a análise de Parasita, especialmente através da tríade Real, Simbólico e Imaginário.
Essa contenda de classes, como trauma social, se manifesta no filme como a chegada do Real, aquele excesso traumático que a linguagem, o Simbólico e a fantasia, o Imaginário, não conseguem conter.
O elemento mais potente e recorrente dessa alavanca é o cheiro.
O odor é o significante mestre da diferença, um vestígio sensorial que resiste à simbolização. A família Kim pode se vestir, falar e até mesmo imitar a postura dos Park (o Imaginário), mas o cheiro, esse resíduo orgânico e incontrolável, denuncia sua origem, sua morada subterrânea, sua proximidade com a carência.
O cheiro é o ‘’objeto a lacaniano’’, causa do desejo que, ao mesmo tempo, é o resto irredutível, o que não se encaixa no simbólico da riqueza.
Para os Park, o exalado é o que quebra a fantasia de pureza e isolamento de sua casa, isso embate com a verdade de que a miséria está mais próxima do que eles gostariam de admitir.

"O Real é o cheiro que a riqueza tenta lavar, mas que adere à pele da verdade." Dan Mena
O porão, a morada secreta do ex-empregado, é a materialização arquitetônica do Real. É o espaço do recalque social, onde a verdade da dependência é escondida. "A alma é o porão onde a sociedade esconde a sujeira que a ideologia insiste em negar." Dan Mena A casa dos Park, com sua transparência e design minimalista, representa a ordem simbólica da classe dominante, uma base que tenta manter o Real à distância.
A chuva, que inunda o bairro dos Kim e destrói seu lar, enquanto apenas molha o jardim dos Park, é o evento traumático que expõe essa fragilidade icônica dos pobres e a solidez da fantasia dos ricos e abastados.
O trauma, na psicanálise, é o evento não simbolizado que retorna na forma de compulsão à repetição em Freud. Esse embate é o trauma social que insiste em retornar, seja através do cheiro, da violência no porão, ou do ato final de Kim Ki-taek.
O assassinato do Sr. Park, desencadeado pela repulsa do odor, é a explosão do Real, o momento em que o trauma, não simbolizado, adentra na forma de violência pura, quebrando a lide imaginária da convivência pacífica.
Essa marca indelével da exclusão, seria a única forma do Real se manifestar na vida dos ricos?
Como a negação da diferença de classe se torna um mecanismo de defesa coletivo?
O que o porão, como espaço de recalque, nos diz sobre a arquitetura da ideologia?
“O trauma da classe não é a falta de dinheiro, mas o cheiro que adere à alma, o significante mudo que denuncia a impossibilidade de ser o ‘’Outro’’.” - Dan Mena

A Casa dos Park como Fantasia Burguesa
O que Sustenta a Realidade
A casa da família Park, com sua arquitetura modernista, minimalista e transparente, é mais do que um cenário, é a materialização da ideologia capitalista em sua forma mais sedutora.
Não é somente um conjunto de ideias falsas, mas a ironia que estrutura a realidade social, fazendo com que a exploração pareça natural e inevitável.
Esse espaço de aparente pureza e harmonia, onde o trabalho dos Kim é invisível, e o dinheiro parece brotar espontaneamente.
A ideologia da meritocracia é o pilar dessa fantasia. Os Park acreditam, ingenuamente, que sua riqueza é merecida, que a pobreza dos Kim é resultado de sua falta de esforço.
A Sra. Park, em sua simplicidade, é a encarnação dessa crença. Ela não é má, é cega pela ideologia. Sua bondade é classista, só pode existir enquanto a diferença é mantida e o Real da miséria esteja contido.
"A inocência burguesa é a forma mais sutil de violência, pois nega a existência da ferida que ela mesma causa." Dan Mena
A ideologia oculta em Parasita é a que prega a coexistência pacífica entre as classes, desde que cada um permaneça em seu lugar.
A família Kim, ao se infiltrar, perturba essa prescrição, mas o faz utilizando os próprios recursos ideológicos, a performance, a mentira e a simulação.
Eles se tornam parasitas não por natureza, mas por necessidade de sobrevivência em um sistema que só reconhece o valor de troca.
"A performance identitária é a máscara que vestimos para tentar enganar o ‘’Grande Outro’’ da classe social." Dan Mena
O filme critica essa postura ao mostrar que a riqueza dos Park depende, literalmente, da negação e da escravitude da classe baixa. O porão, o espaço do trabalho e da dependência oculta, é neste caso, o sintoma.
Um ponto alto, onde a ficção se rompe e a verdade da estrutura social é exposta. A doutrina dos Park é tão forte que eles não conseguem sequer perceber a fraude dos Kim, pois estão muito ocupados em manter a aparência de sua idealização fantasiosa.
Os conceitos nesta leitura, são um mecanismo de defesa coletivo contra a verdade.
A meritocracia é a fantasia que nos permite dormir em paz, mas qual é o custo psíquico dessa cegueira voluntária?
Se a riqueza é uma fantasia, o que acontece quando ela é invadida pelo Real?
Até que ponto a ingenuidade dos Park é uma forma de violência?

“A ideologia é a lupa que distorce o Real, transformando a subserviência em destino e a cegueira de classe em virtude.” - Dan Mena
A Mitologia Moderna da Riqueza Limpa
A Desconstrução dos Mitos Contemporâneos
Os signos são símbolos que constroem os mitos contemporâneos. Em Parasita, a riqueza da família Park é envolta em uma mitologia moderna de minimalismo e desapego.
O ato central desconstruído pelo filme é o da "Riqueza Limpa". A casa dos Park, com sua arquitetura impecável, sua ausência de desordem e sua integração com a natureza, é o ícone dessa riqueza que se pretende imaculada, como se tivesse sido gerada sem esforço, sem suor e, crucialmente, sem a exploração de ninguém.
O mito é que o dinheiro dos Park é "limpo", desvinculado da sujeira do trabalho e da miséria. O minimalismo da casa é um signo de distinção, uma tentativa de comunicar que a classe alta não precisa de excessos para provar seu valor.
No entanto, o filme desmantela esse arcabouço através da linguagem contrastante. O cheiro é o anti-signo, o que contamina a pureza do mito.
Ele é o vestígio da realidade que a mitologia tenta recalcar. A ‘’pedra de scholar’’ que Ki-woo recebe é outro ponto significativo.
Representa a crença na ascensão social através do mérito e do estudo, o que se revela ineficaz e, ironicamente, se torna uma arma de violência.
No filme, a pedra assume uma poderosa metáfora:
A Promessa Vazia: A pedra é dada à família Kim como um presente que supostamente traria sorte e riqueza. Ela simboliza a esperança de ascensão social e a crença na meritocracia, a ideia de que o esforço individual pode levar à prosperidade.
O Peso da Ambição: Ironicamente, essa pedra se torna um fardo e um peso literal para o filho, Ki-woo. Em vez de trazer sorte, ela é usada como arma e acaba sendo um objeto que o arrasta para a violência e para o porão, simbolizando o Real da miséria.
A Ilusão da Riqueza: Representa também a ilusão de que a riqueza e a ascensão social podem ser alcançadas por meio de um objeto mágico ou de um golpe de sorte, e não por uma mudança na estrutura social.
Certamente, um ícone da fantasia que a família Kim tenta desesperadamente manter, mas que se mostra brutalmente ineficaz contra a realidade da luta de classes.
A "pedra de scholar" em Parasita é um símbolo de ambição e falsa esperança, que se transforma em um objeto de violência e trauma ao longo da narrativa.
A família Kim, ao se apropriar dos signos da riqueza (roupas, linguagem, postura), tenta entrar no mito, mas o cheiro e o porão (o Real) provam que a barreira simbólica da classe é intransponível, confrontado com a realidade suja da dependência.
Os Park dependem dos Kim para manter sua fantasia de desapego (cuidar dos filhos, da casa, dirigir), mas essa submissão é negada e transformada em uma relação de serviço impessoal.
A fábula opera mudando a história. A ideologia dos Park transforma sua posição de classe em algo natural, como se fosse o destino.
Parasita expõe essa artificialidade, mostrando que a pureza da casa é mantida por uma camada de sujeira oculta, o porão, e que a "natureza" da riqueza é uma construção social e econômica.
Se a fortuna econômica é um mito de pureza, o que o cheiro revela sobre a verdadeira natureza do capital?
Como a arquitetura minimalista da casa dos Park funciona como um signo de distinção e exclusão?
Qual é o mito que a classe baixa constrói para si mesma?
“O mito da riqueza limpa é a utopia que o capital nos vende, mas o cheiro da miséria é o Real que insiste em denunciar a sujeira da submissão exploratória.” - Dan Mena

O Capital como Negador da Lei Simbólica
A Subversão da Função Paterna e Materna
Dita perversão em Parasita não se limita a desvios sexuais, mas se estende à estrutura social e familiar. O capital, como um ‘’Grande Perverso’’, subverte a ‘’Lei Simbólica’’, a função paterna, ao prometer um gozo ilimitado através do consumo e da acumulação, negando a castração e a falta que constituem o sujeito.
"O gozo do capital é a maldade que nos promete o tudo, mas nos entrega a falta." Dan Mena
Em ambas as famílias, a função paterna e materna é distorcida pela lógica do mercado.
Na família Park, a Sra. Park, a mãe, é a encarnação da mãe fálica (na terminologia freudiana), que acredita ter o poder de satisfazer todos os desejos dos filhos através do dinheiro, mas que é dependente dos serviços externos.
O Sr. Park, o pai, é uma figura paterna esvaziada de autoridade simbólica, reduzido a um provedor de recursos e a um objeto de repulsa (o cheiro). Sua função é substituída pela do dinheiro.
Na família Kim, a corrupção se manifesta na inversão de papéis. O Pai Kim (Ki-taek) é inicialmente passivo e resignado, deixando que a astúcia dos filhos e da esposa conduza a infiltração.
A família opera como uma microempresa a serviço da ascensão, onde o laço afetivo é instrumentalizado pela lógica do mercado. A imoralidade aqui é usar a família para fins de acumulação e sobrevivência.
O capital, ao se infiltrar nas relações familiares, transforma o valor de uso, afeto, cuidado e solidariedade em valor de troca; serviço, dinheiro e performance. A família Kim só se torna "funcional" quando age como um time de golpistas.
Essa negação da Lei que impõe limites e a substituição desta regra pela pulsão de gozo (o consumo desenfreado, a acumulação sem limites).
O porão, com sua família secreta, é o sintoma dessa devassidão, a família que foi descartada e escondida para que a elucubração da família Park pudesse se manter.
"A castração simbólica é o limite que o capital em sua onipotência desumana tenta incessantemente abolir." Dan Mena
Como o capital esvazia a autoridade simbólica da figura paterna, o transformando em mero provedor?
A instrumentalização da família para a ascensão social é uma perversão ou uma adaptação ao sistema?
O que acontece com o afeto quando ele é regido pela lógica do valor de troca?
“A família, sob o jugo do capital, deixa de ser o berço do afeto para se tornar a microempresa da sobrevivência, onde o valor de troca perverte o laço de sangue.” - Dan Mena

A Experiência da Chuva: Manipulação Emocional
O impacto subjetivo do filme, a forma como a direção, a atuação e o ritmo manipulam as emoções do espectador, pode ser visto na sequência da chuva.
Ela é o ápice desse manejo emocional, um momento de virada que transforma a comédia de costumes em tragédia social. A chuva não é apenas um evento climático, é um agente de caos e revelação.
Isso opera uma distinção brutal entre as classes. Para os Park, é um inconveniente que estraga um acampamento e permite uma noite romântica na sala de estar; para os Kim, uma catástrofe que destrói seu lar e os força a uma fuga desesperada e humilhante.
Uma identificação inicial com a astúcia dos Kim, que se transforma em horror e empatia pela sua vulnerabilidade.
A direção de Bong Joon-ho utiliza o ritmo e a montagem para intensificar essa experiência. A cena da descida frenética dos Kim pelas escadas e vielas até sua casa, contrasta com a ascensão tranquila dos Park em seu carro, é um golpe emocional angustiante que nos força a sentir a diferença de classe não como um conceito abstrato, mas como uma situação real e física de descida e submersão.
O espectador é forçado a acarear a injustiça da situação, e sentir a água suja invadindo sua alma, os ratos e a imundícia no lar dos Kim.
A estratégia emocional é absolutamente relevante para a crítica social do filme. Ao nos fazer sentir de perto a humilhação dos Kim, o filme quebra a cegueira ideológica que nos permite ignorar o desamparo. A chuva é o momento em que a fantasia de coexistência pacífica se desfaz, e o Real da desigualdade se impõe com força destrutiva.
Tal articulação emocional de Kael é, aqui, uma forma de conscientização, que utiliza a arte para nos coagir a sentir o que a ideologia nos ensina a ignorar.

"O cinema, como sonho diurno, nos permite confrontar o trauma que a vigília ideológica nos proíbe de ver." Dan Mena
A rótula emocional do filme é uma forma de nos confrontar com o trauma social, mas seria a arte capaz de gerar uma mudança real?
O contraste entre a ascensão e a descida é apenas cinematográfico ou mostra a estrutura psíquica verdadeira da luta de classes?
Qual é o papel da empatia na quebra da ideologia?
“A arte não é um reflexão da realidade, mas a chuva que inunda a alma, nos implicando a sentir a sujeira da injustiça que a ideologia nos ensina a dessaber.” - Dan Mena
O Dilema da Realidade e a Condição do Ser
O Realismo Ontológico e a Essência da Luta de Classes
Esse realismo ontológico, a ideia de que o cinema tem a vocação de registrar a realidade em sua ambiguidade está escancarada em Parasita, Bong Joon-ho joga bem com essa percepção, utilizando um realismo social agudo para construir uma parábola hiper-realista sobre a nossa condição contemporânea.
O filme não busca um reflexo fiel e documental da realidade sul-coreana, mas constrói uma realidade própria, a casa labiríntica, o porão secreto, que é mais fático em seu simbolismo social do que em sua literalidade.
A escolha do diretor é mostrar a essência dessa escaramuça, a verdade que se esconde sob a superfície da convivência, usando um realismo da meta-realidade.
A casa dos Park, é um espaço que se pretende transparente e aberto, mas que esconde um segredo sombrio, o porão. Essa dualidade é a essência da sociedade de classes, uma tábua da riqueza e da ordem que omite a dependência e a miséria.
O filme utiliza o enquadramento e a iluminação inteligente para reforçar essa sinalização, com os Kim geralmente filmados em planos fechados e escuros, contrastando com a luminosidade e a amplitude dos Park.
A parábola realista de Parasita nos diz que a nossa condição é inseparável do social. A liberdade e a moralidade dos personagens são determinadas por sua posição na estrutura de classes.
Os Park podem se dar ao luxo de serem "bons" e "ingênuos" porque o dinheiro os protege das escolhas morais difíceis e éticas. Os Kim são forçados à usar da astúcia e à mentira para sobreviver.
A escolha do diretor de construir essa fábula esclarece a autenticidade e a performance identitária.

Quem é o verdadeiro parasita? Aquele que se infiltra por necessidade ou aquele que vive da exploração invisível dos menos favorecidos?
A parábola de Bong Joon-ho é mais eficaz para a crítica social do que um documentário?
A nossa condição atual é determinada pela classe social ou a classe social é apenas um sintoma da nossa condição?
O que a dualidade entre a superfície e o porão expõe sobre a moralidade contemporânea?
“A realidade no cinema não é o que se vê, mas a verdade estrutural que se esconde inconsciente no porão da alma e da sociedade.” - Dan Mena
O Ciclo de Violência e Luta de Classes em Freud
A Destrutividade Inconsciente e o Retorno do Recalque
A análise atinge aqui sua máxima potência ao examinar a pulsão de morte e a compulsão à repetição em Freud, forças motrizes no clímax de Parasita.
A luta de classes, como trauma social, gera uma energia destrutiva que, quando não simbolizada, retorna na forma de violência pura.
A pulsão de morte (Thanatos), é a tendência inerente do organismo a retornar a um estado inorgânico, uma força destrutiva que se manifesta na agressão e na autodestruição. Em Parasita, essa pulsão se direciona para a violência crescente entre as famílias Kim e a do porão, e culmina no assassinato do Sr. Park pelo Pai Kim.
Esse ato, não é um crime racional, é a irrupção da pulsão de morte, a descarga de uma agressão acumulada pela humilhação e pela negação de sua humanidade (o cheiro).
"A pulsão de morte é a energia que o trauma social, não simbolizado, utiliza para retornar e exigir sua repetição." Dan Mena
A compulsão à repetição é a tendência do inconsciente de reviver experiências traumáticas, na tentativa fracassada de poder dominar seu retorno.
Uma peleja classista é o trauma que se repete. A família Kim, ao se infiltrar, repete o ciclo dessa dependência, apenas invertendo os papéis.
O Pai Kim, ao se esconder no porão, reitera o destino do ex-empregado, se tornando o novo fantasma da casa, o Real do recalque.
O ciclo de violência e dependência se repisa, mostrando que a estrutura de classes é um sistema que se auto-reproduz, um trauma que insiste em retornar.
"O abalo traumático não escolhe suas vítimas, mas são elas que escolhem como transformar a dor em narrativa de sobrevivência." Dan Mena

O assassinato do Sr. Park é o ato falho final, o momento em que o inconsciente social se manifesta. O Pai Kim não mata o Sr. Park por ódio pessoal, mas pela repulsa do cheiro, o significante da sua própria exclusão.
Ele mata o símbolo da negação, o que o impede de ser reconhecido. Essa manifestação da pulsão de morte é dirigida ao objeto, que representa a barreira intransponível da classe.
A única saída para a compulsão à repetição seria a simbolização, a transformação da dor em narrativa e em ação política consciente. O final do filme, com Ki-woo prometendo comprar a casa, é a tentativa de sublimação, de alterar a pulsão destrutiva em um projeto de vida.
No entanto, a cena final, com a promessa se dissolvendo na realidade, sugere que o ciclo repetitivo e a pulsão de morte permanecem ativos.
A violência final é uma catarse ou apenas a repetição do trauma social? A pulsão de morte é uma força individual ou é alimentada pela estrutura de classes? A promessa de Ki-woo é uma sublimação real ou apenas uma nova fantasia ideológica?
“A pulsão de morte não é o fim, mas o retorno incessante do trauma que a ideologia insiste em recalcar, nos condenando à repetição da violência.” - Dan Mena
A Ferida que Permanece Aberta
Parasita é uma obra que nos entrega a ferida aberta da nossa própria sociedade. Nesta análise psicanalítica que faço, desvendo a inveja como propulsor, o desejo como falta estrutural e a luta de classes como trauma, o que me oprime a reconhecer que a desigualdade não é apenas uma questão de distribuição de renda, mas uma patologia que se aloja na alma.
O capital, em sua lógica perversa, não apenas explora o trabalho, mas coloniza o inconsciente do trabalhador, transformando o afeto em performance e a família em instrumento de ascensão.
O que resta ao final é a sensação de que a violência não foi resolvida, mas apenas o recalque colocado em um novo porão.
O Pai Kim, escondido, se torna o fantasma da consciência social, o Real que a sociedade sul-coreana (e global) prefere ignorar. A promessa de Ki-woo de comprar a casa, embora comovente, é a última e mais dolorosa fantasia ideológica, a crença de que o problema da classe pode ser resolvido pelo esforço individual e pela acumulação, e não pela transformação estrutural da civilização moderna.
O filme nos deixa com a imagem de Ki-woo voltando à sua semi-subterrânea, a promessa se desfazendo em fumaça, e a fase final se fechando.

A verdadeira virada conceitual que Parasita nos impõe é a de que as (castas contemporâneas) mantêm, antes de tudo, uma luta fatal e psíquica.
É a batalha entre a pulsão de vida, o desejo de ascensão, a solidariedade familiar e a pulsão de morte (a destrutividade da inveja, a violência do Real).
O filme nos questiona:
Até que ponto estamos dispostos a confrontar o cheiro da nossa própria miséria e da alheia? A tragédia final não é o assassinato, mas a impossibilidade de simbolização, a condenação à repetição do trauma.
A obra nos oferece uma pergunta sobre a nossa própria cumplicidade sobre o tema. Ao rirmos da astúcia dos Kim e nos horrorizar com a violência, estamos apenas consumindo a tragédia como entretenimento, ou estamos dispostos a quebrar o ciclo? O cheiro que o Sr. Park tanto repudiava não era o dos Kim, mas o odor da verdade que ele se recusava a cheirar.
E nós, espectadores, estamos dispostos a sentir o cheiro do Real que se esconde sob o tapete da nossa ideologia? A resposta a essa pergunta é o verdadeiro legado do filme Parasita.
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Como o cheiro se relaciona com a psicanálise no filme? O cheiro é o "objeto a" lacaniano, o resto irredutível que denuncia a origem de classe e resiste à simbolização, quebrando a fantasia dos Park.
Qual é a ideologia crítica em Parasita? A ideologia da meritocracia, que prega que a riqueza é merecida e a pobreza é uma falha individual, mascarando a exploração estrutural.
O que a chuva simboliza na narrativa? A chuva é um agente de caos que expõe a diferença de classe, sendo um inconveniente para os ricos e uma catástrofe para os pobres.
A família Kim é realmente parasita? O filme sugere que o verdadeiro parasita é o sistema capitalista, que força a dependência e a exploração mútua para a sobrevivência.
O que é a perversão das relações familiares pelo capital? É a instrumentalização do afeto e do laço familiar pela lógica do mercado, transformando a família em uma microempresa de ascensão social.
O que o porão representa? O porão é o espaço do recalque social, onde a verdade da exploração e da dependência é escondida para manter a fantasia da riqueza limpa.
O assassinato do Sr. Park é um ato racional? Não, é a irrupção do Real traumático, a manifestação da pulsão de morte desencadeada pela humilhação do cheiro.
O que é a "pedra do scholar" que Ki-woo carrega? É um símbolo de ascensão social e riqueza, mas que se revela ineficaz e se torna uma arma, representando a ilusão da meritocracia.
Como a arquitetura da casa dos Park reflete a ideologia? O design minimalista e transparente da casa é a materialização da fantasia burguesa de "riqueza limpa", isolada da sujeira do trabalho e da miséria.
O que você diria sobre a inveja em Parasita? Veria a inveja como o motor que impulsiona a fantasia de substituição, onde a família Kim deseja ser os Park, e não apenas ter o que eles têm.
Qual é o papel da Sra. Park na crítica social? Ela encarna a "cegueira ideológica" da classe dominante, cuja bondade só existe pela negação da realidade da exploração.
O que é a pulsão de morte no contexto do filme? É a energia destrutiva que retorna no clímax, manifestada na violência, como resultado do trauma social não simbolizado.
O que significa a promessa de Ki-woo d e comprar a casa? É a tentativa de sublimação do trauma, transformando a pulsão destrutiva em um projeto de vida, mas que o filme sugere ser uma nova fantasia ideológica.
O que o filme revela sobre a nossa condição? Ele revela que a nossa condição é inseparável da social, e que a moralidade e a liberdade são determinadas pela posição na estrutura de classes.
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HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Para uma Sociologia das Ausências e uma Sociologia das Emergências. Revista Crítica de Ciências Sociais, n. 63, 2002.
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Dan Mena – Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise (CNP 1199, desde 2018); Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise (CBP 2022130, desde 2020); Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University – Florida Department of Education, EUA (Enrollment H715 / Register H0192); Pesquisador em Neurociência do Desenvolvimento – PUCRS (ORCID™); Especialista em Sexologia e Sexualidade – Therapist University, Miami, EUA (RQH W-19222 / Registro Internacional).





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