Graduação em Psicanálise: Quando o Diploma Substitui a Formação
- Dan Mena Psicanálise

- 27 de dez. de 2025
- 9 min de leitura

Graduação em Psicanálise: Quando o Diploma Substitui a Formação
A cena que inaugura o problema
Ele(a) tinha diploma. Grade curricular concluída é um histórico impecável.
Mas, diante do sofrimento do paciente, algo não acontecia: a escuta não se sustentava.
Não se trata de incompetência individual nem de má-fé. Falo de um deslocamento silencioso e muito perigoso no modo como a psicanálise vem sendo apresentada, prometida e, em certos contextos, confundida com uma formação universitária habilitante.
O risco não está no estudo da psicanálise em instituições formais, isso sempre existiu inicialmente na Europa até os dias atuais, mas na substituição da experiência clínica pela lógica do diploma.
Pelo contrário, é altamente desejável que o psicanalista possua uma formação universitária anterior, sólida em outros campos do saber: como Filosofia, Psicologia, Teologia, Letras, Ciências Sociais ou Medicina.
''Formação não é acúmulo de saber; é deslocamento do lugar de quem sabe.'' - Dan Mena

Essas formações ampliam o horizonte simbólico, refinam a leitura cultural e sustentam a densidade da escuta. O problema aparece quando essa base acadêmica passa a ser apresentada como suficiente, ou quando se pretende que a psicanálise, ela mesma, funcione como graduação substitutiva, apagando a especificidade ética e clínica da formação analítica.
A psicanálise não nasce como profissão regulamentada, nem como currículo, nem como conjunto de créditos. Ela se conceitua como experiência, um atravessamento subjetivo que reorganiza o lugar do saber, da palavra e do desejo.
Quando esse circuito se inverte, os efeitos não aparecem de imediato. Eles emergem propriamente na clínica, no manejo da transferência, no uso do silêncio, na ética da intervenção.
Não pretendo panfletar contra universidades, nem fazer um manifesto corporativista. É uma leitura clínica, particular minha, do que acontece quando a lógica universitária e mercadológica ocupa o lugar da formação analítica.
''A clínica começa onde o saber vacila.'' - Dan Mena
Estudar psicanálise não é se formar psicanalista
Desde Freud, a psicanálise circula na universidade, quanto a isso, sem novidades. Está presente na psicologia, na medicina, na filosofia, nas letras, na sociologia. Há pesquisas sólidas, pós-graduações sérias, produção teórica consistente. Nada disso está em questão neste momento.
O ponto decisivo é outro: estudar psicanálise não equivale a uma formação como psicanalista.
O percurso eu diria em psicanálise, não é um substantivo genérico. É um processo específico que envolve, de maneira indissociável os três pilares fundamentais:
Análise pessoal (não como exigência burocrática, mas como experiência ética);
Supervisão clínica (como transmissão de um saber que não se reduz a técnica);
Estudo teórico contínuo (como elaboração e não como consumo).
Esses elementos não funcionam como um ato de somar o que é preciso. Eles se articulam. É dessa mecânica que se abre a possibilidade de ocupar um lugar clínico. Quando a formação é apresentada como currículo concluído, algo fundamental se perde: a dimensão do tempo subjetivo.
''Onde o diploma responde, a escuta recua.'' - Dan Mena

O diploma como fetiche contemporâneo
Vivemos a cultura que promete certificação para tudo. O diploma opera como fetiche simbólico: ele oferece a ilusão de um lugar garantido, reconhecido, autorizado por instâncias externas.
Destarte, é sim relevante que o psicanalista que se autoriza como tal, possa apresentar uma trajetória: cursos, especializações, participação em seminários, reconhecimentos, ações sociais, literaturas próprias, principalmente: experiência com pares, etc.
Na psicanálise, essa promessa entra em choque com um princípio estrutural: o analista não é autorizado por um papel, mas por um percurso. A famosa fórmula: “o analista só se autoriza de si mesmo… e de alguns outros”, não legitima o improviso, senão afirma a centralidade do reconhecimento pelos(as) psicanalistas guias do trajeto e da experiência clínica. Para deixar claro;
Dizer que “o analista só se autoriza de si mesmo… e de alguns outros” não significa fazer o que quiser ou se declarar analista por conta própria.
Estabelece que ninguém recebe um carimbo automático para ocupar esse lugar.
A autorização nasce quando alguém atravessou sua própria experiência analítica e, ao mesmo tempo, é reconhecido por outros colegas que sabem, por experiência, o que esse lugar exige.
Quando o diploma passa a ocupar esse lugar de garantia, se cria um curto-circuito: o sujeito se identifica com o título antes de sustentar a função primordial. O resultado não é apenas teórico. Ele se insurge como empobrecimento da escuta, rigidez técnica, medo do silêncio e intervenções defensivas, entre outros fatores.
''A transferência não reconhece currículos.'' - Dan Mena
Os efeitos que não aparecem nas estatísticas
O problema não é visível em planilhas. Ele não se encontra como um erro administrativo.
Surge no encontro clínico.
Alguns efeitos recorrentes:
a confusão entre aconselhamento e interpretação;
a pressa em “resolver” o sintoma;
a dificuldade de sustentar a transferência sem se defender;
o uso do saber como proteção narcísica;
a captura do paciente por um discurso de adaptação.
Feliz ou infelizmente, nada disso se ensina em apostilas. Esses efeitos indicam ausência de atravessamento. Sinalizam que a formação foi substituída por uma promessa de habilitação. ''A universidade ensina; a clínica transforma.'' - Dan Mena

Universidade, mercado e supereu institucional
A expansão de cursos na área responde a uma demanda real: mais pessoas interessadas em psicanálise, mais sofrimento psíquico, mais busca por escuta. O problema é quando essa expectativa é traduzida exclusivamente em oferta de mercado.
A lógica neoliberal da educação opera por volume, velocidade e escalabilidade. A psicanálise opera por tempo, singularidade e implicação do sujeito. Quando a primeira engole a segunda, surge um supereu institucional que ordena: “se forme rápido”, “certifique-se”, “comece a atender agora”.
Esse supereu não liberta. Ele pressiona. E a clínica, é o paciente, que por consequência paga o preço.
''Certificação sem experiência produz silêncio defensivo.'' - Dan Mena
Formação não é acessório: é ética
Há quem argumente que a graduação “democratiza” e nivela a psicanálise. A questão é: democratizar o quê?
O acesso ao estudo universitário sempre existiu, como já comentei no inicio. O que não pode ser democratizado por decreto é a experiência subjetiva da formação.
Exigir análise pessoal como condição curricular seria antiético. A tornar dispensável é esvaziar a formação. Eis o impasse. A universidade não consegue resolver esse ponto sem trair a ética analítica.
A psicanálise, ao contrário, sempre sustentou um controle pelos pares, (supervisores) um laço comunitário que não é corporativo, mas, uma aliança clínica. É isso que se perde quando a formação é convertida em diploma.
Não é nostalgia, é responsabilidade clínica
Este debate não é de forma alguma saudosista. Não se trata de defender modelos fechados ou elitistas. Falo de responsabilidade clínica. Quem ocupa o lugar de analista lida com sofrimento, com transferência, com desejo. Não há atalhos seguros para isso.
A psicanálise pode e deve dialogar com a universidade, com o digital, com a cultura contemporânea. O que ela não pode é abdicar de sua ética de formação sem pagar um preço alto demais.
''O mercado promete atalhos para o impossível.'' - Dan Mena
O que está em jogo, afinal
O que está no ‘’game’’ não é alcançar um título. É o lugar da clínica na cultura atual.
Quando a formação se reduz ao diploma, o analista corre o risco de se tornar um operador de discurso. Quando a experiência sustenta o caminho, algo diferente acontece: a escuta se abre, o saber vacila, o desejo encontra espaço.
A pergunta que fica não é administrativa. É clínica:

Que tipo de analista estamos formando quando prometemos formação sem experiência?
O Dia em que o Diploma Tentou Fazer Análise
Talvez tudo isso soe um tanto exagerado para quem acredita que a psicanálise funciona como qualquer outro curso: assiste às aulas, faz as provas, imprime o diploma e pronto: está “apto”.
Nesse imaginário fictício, o inconsciente vira conteúdo programático, a transferência um capítulo opcional e o sofrimento do outro um campo de estágio supervisionado por planilhas.
''O analista se forma quando aceita não saber.'' - Dan Mena
É confortável pensar assim não é?. Dá segurança. Evita a angústia de não saber.Mas a psicanálise nunca prometeu conforto a ninguém. Ela não se organiza para tranquilizar o analista, muito menos para certificar identidades profissionais.
Quem procura garantias talvez esteja no lugar errado, certamente, não é o paciente.
Não se trata de negar a faculdade ou a universidade, como já disse no início: ela já existe centenáriamente, nem de cultuar um misticismo clínico. Quero fechar com um certo sarcasmo necessário ao tema: o inconsciente não lê diploma, sintoma não respeita grade curricular e a escuta não se sustenta por decreto.
Se isso incomoda, talvez já seja um bom começo de formação.
''Formação psicanalítica não é produto; é percurso.'' - Dan Mena

Bibliografia
BIRMAN, Joel. Mal-estar na atualidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. FINK, Bruce. O sujeito lacaniano. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
FREUD, Sigmund. A questão da análise leiga. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na cultura. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
GREEN, André. A loucura privada. Rio de Janeiro: Imago, 1990.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, J.-B. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
MILLER, Jacques-Alain. Silet. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
ROUDINESCO, Elisabeth. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
FAQ - Graduação em Psicanálise: Quando o Diploma Substitui a Formação
Graduação em psicanálise forma psicanalistas? Não. Forma estudantes de psicanálise. A passagem ao lugar de analista não decorre de um currículo concluído, mas de um percurso clínico que envolve experiência subjetiva, supervisão e reconhecimento pelos pares.
Estudar psicanálise na universidade é um erro? Não. O erro está em confundir estudo universitário com formação analítica. A universidade transmite saber; a clínica exige atravessamento.
Qual o risco de tratar a psicanálise como profissão regulamentada? O risco é reduzir a ética da escuta a protocolos, apagando a singularidade do sujeito e transformando o analista em operador de discurso.
Por que o diploma se torna um problema na clínica? Porque ele pode funcionar como garantia imaginária, produzindo rigidez técnica, medo do silêncio e defesas narcísicas diante da transferência.
O que significa dizer que o analista não é autorizado por um papel? Significa que nenhum título substitui a experiência analítica e o reconhecimento clínico. A função analítica não é concedida, é sustentada.
A famosa frase “o analista só se autoriza de si mesmo” legitima o improviso? Não. Ela afirma responsabilidade, não arbitrariedade. A autorização emerge do percurso e do laço com outros analistas, não da vontade individual.
Por que a experiência analítica é insubstituível? Porque é nela que o sujeito confronta sua própria divisão, condição mínima para sustentar a escuta do outro sem ocupar o lugar de saber total.
O que se perde quando a formação vira currículo fechado? Perde-se o tempo subjetivo. A formação analítica não obedece ao relógio institucional nem à lógica de conclusão.
A graduação “democratiza” a psicanálise? Democratiza o acesso ao estudo, não à formação clínica. A experiência analítica não pode ser distribuída por decreto.
Qual a diferença entre estudar teoria e sustentar a clínica? Estudar teoria amplia repertório. Sustentar a clínica implica suportar o não saber, a transferência e o mal-estar sem recorrer a garantias externas.
Por que o mercado educacional entra em conflito com a psicanálise? Porque o mercado opera por escala e rapidez, enquanto a psicanálise exige tempo, implicação e singularidade.
O que é o supereu institucional na formação? É a voz que ordena produtividade, certificação e aceleração, produzindo culpa e pressa onde deveria haver elaboração.
Quais efeitos clínicos surgem quando a formação é insuficiente? Confusão entre aconselhamento e interpretação, pressa em resolver sintomas, uso defensivo do saber e dificuldade de sustentar a transferência.
Esses problemas aparecem em avaliações formais? Não. Eles emergem no encontro clínico, onde planilhas e grades curriculares não operam.
Ter graduação em outras áreas ajuda na formação analítica?Sim. Filosofia, Psicologia, Letras, Teologia ou Medicina ampliam o horizonte simbólico. O problema surge quando isso é apresentado como suficiente.
A psicanálise deve se afastar da universidade? Não. Deve dialogar sem se submeter. O risco não é o contato, mas a substituição da ética analítica pela lógica institucional.
Existe um “atalho” seguro para se tornar analista? Não. Toda promessa de atalhos costuma custar caro ao paciente.
Como saber se alguém está sustentando o lugar de analista?
Não pelo diploma, mas pela qualidade da escuta, pelo manejo da transferência e pela capacidade de sustentar o não saber sem se proteger.
Links Externos
International Psychoanalytical Association — https://www.ipa.world
Freud Museum London — https://www.freud.org.uk
École de la Cause Freudienne — https://www.causefreudienne.net
Société Psychanalytique de Paris — https://www.spp.asso.fr
Revista International Journal of Psychoanalysis — https://onlinelibrary.wiley.com
Links Internos
Palavras-chave
graduação em psicanálise, formação clínica, ética psicanalítica, diploma e clínica, autorização do analista, supervisão clínica, análise pessoal, psicanálise universitária, mercado educacional, supereu institucional, transferência, escuta clínica, desejo, laço social, ensino da psicanálise, clínica contemporânea, formação do analista, psicanálise e universidade, risco clínico, prática psicanalítica
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SOBRE O AUTOR
Este artigo nasce da minha prática clínica e da pesquisa teórica que amarro ao longo dos anos. Sou Dan Mena, psicanalista, supervisor clínico e pesquisador em psicanálise e neurociência do desenvolvimento.
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https://uiclap.bio/danielmena
Dan Mena – Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise(CNP) Conselho Nacional de Psicanálise - REG - N.º - 1199, desde 2018);(CBP) Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise - REG - N.º - 2022130, desde 2020);Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University – Florida Department of Education, EUA (Enrollment H715 / Register N.º H0192);Pesquisador em Neurociência do Desenvolvimento PUCRS - (ORCID™);Especialista em Sexologia e Sexualidade pela Therapist University, Miami, EUA N.º (RQH W-19222 / Registro Internacional).





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