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- O Trauma.
“O trauma é uma ferida invisível, cujas cicatrizes moldam nossas relações sociais e a particular jornada interior.” Dan Mena. Por Dan Mena. Compreendendo o trauma. O trauma, na visão geral ocorre quando uma pessoa se depara com situações que representam uma ameaça real à sua vida ou integridade física. Acontece se testemunhamos eventos que envolvem morte, lesões graves, roubos, incêndios, ameaça à vida, etc. Esses incidentes evocam reações intensas, como medo, desespero, pavor e horror, frequentemente ultrapassando a nossa capacidade e tolerância de resposta típica, inibindo os mecanismos usuais de defesa. Um evento traumático é caracterizado por sua intensidade e imprevisibilidade, ameaçando a integridade física ou psicológica de alguém incapaz de lidar com ele, resultando em reações dramáticas. A resposta psicológica a um evento dessa natureza é conhecida como “trauma”. A compreensão dessa mecânica psicológica está conectada à evolução de outras; sociais, políticas e culturais, que podem criar um mundo marcado por eles em larga escala, abrangendo questões demográficas, econômicas, territoriais, religiosas, entre outras. No entanto, também se manifestam em níveis micro, como o abuso infantil, estupro, violência de gênero, racismo e outras formas de agressão, levantando questões sobre a moralidade pessoal e familiar, que deixam uma marca emocional duradoura. Essas experiências podem resultar em distúrbios psíquicos, manifestados por sintomas, inibições, ansiedades ou angústias, como ataques de pânico. Ao contrário do'' trauma físico'', que causa lesões visíveis no corpo, o ''trauma psíquico'' é subjetivo e pessoal. Pode ser traumatizante para um sujeito, pode não ser para outro, sua intensidade pode variar amplamente. Por exemplo, o abuso sexual na infância é lancinante para todos, mas como cada um irá vivenciar essa circunstância que determinará seu impacto e gravidade envolve o particular. Essas vivências podem ser reprimidas e se tornarem parte do inconsciente, mesmo que o sujeito não esteja consciente do que ocorre naquele momento. Boa leitura. O trauma pela visão psicanalítica. Proponho lembrarmos que é o trauma do ponto de vista psicanalítico não está ligado necessariamente a um acontecimento trágico, embora possa ser isso também. Tecnicamente, o que chamamos em psicanálise de trauma é uma experiência desagradável e enfadonha, uma vivência que o nosso aparelho psíquico não deu conta de metabolizar, ordenar e compreender. O que a nossa mente faz então quando isso acontece?. Ela se fragmenta, se divide para poder elaborar o evento e isolar o registro, fazendo com que a experiência traumática dessa aflição fique isolada do arquivo experiencial. Destarte, não tem como descartar registros psíquicos definitivamente, o que acontecerá e que nossa psique vai simplesmente manter esse arquivo separado, ele continuará no aparelho mental insulado e apartado. Eis o problema, o registro perturbador não é separado de fato, fica lá, ''stand by''. Por outro ângulo, acontece que nossa mente tem uma forte tendência a integração, então, o mesmo processo que levou o aparelho psíquico a separar o assentamento da ocorrência, (porque no primeiro momento não obteve o sucesso na sua integração), fara novas tentativas cíclicas de retorno, para tentar compreender essa experiência e se restabelecer. Ilhado, esse episódio vai se mover provocando sofrimento, adoecimento e mal-estar, pois para deixar de provocar angústia precisa obter um lugar de anabolismo. Imagine Maria, uma criança pequena vivenciando suas primeiras experiências no mundo. Esses traquejos de deslocamentos vão moldar sua compreensão do ambiente ao seu redor. Agora, considere uma situação como por exemplo, testemunhar ou sofrer um acidente grave de carro. Esse incidente deixará uma marca profunda em sua mente, o que tornará seu trauma complicado. Porque isso acontece?. Quando somos muito jovens ainda não desenvolvemos plenamente a capacidade de expressar nossos sentimentos, afetos e apreensões com palavras. Em vez disso, usamos gestos, expressões faciais e comportamentos para comunicar nossas emoções. Quando Maria passa por esse abalo, não consegue verbalizar essa tensão, o que vai introjetar medo, confusão e tristeza. Essas impressões poderosas ficaram “trancadas” em seu arcabouço mental, gerando efeitos altamente negativos. Com o tempo, dita comoção vai se manifestar de várias maneiras em Maria, como pesadelos, ansiedade, evitando situações sociais de todo tipo, que estarão certamente relacionadas ao acidente. Essas reações serão o resultado das emoções não processadas ligadas ao baque. Nosso trabalho será ajudar Maria a desbloquear essas emoções e revisitar o que está reprimido no seu inconsciente. Isso envolve falar livremente sobre o que a traumatizou, permitindo que ela crie sua narrativa, encontre palavras e forme estruturas para descrever a situação de maneira mais profunda, reempossando, dando um lugar ao acontecimento pregresso. Ao explorar essas emoções dolorosas de forma segura e apoiada, ela poderá começar a lidar com o trauma, o integrando sistematicamente na sua história de vida, de uma maneira que não seja mais avassalador e lhe permita recuperar o controle do processo. A evolução do conceito. No início de sua carreira, Freud foi confrontado com relatos frequentes de abuso sexual sofrido por seus pacientes, muitas vezes nas mãos de cuidadores, irmãos, familiares e até pais. Inicialmente, ele desenvolveu a teoria da sedução, que considerava o trauma sexual infantil como causa das neuroses. No entanto, posteriormente abandonou essa ideia, acreditando que ditos relatos de desrespeitos por seus pacientes eram na verdade, mentiras e fantasias. Essa mudança de atitude foi influenciada por várias razões, incluindo suas próprias descobertas de devaneios edipianos ligados aos seus pais e a própria autoanálise. Como resultado, o trauma sexual infantil foi relegado à categoria de fantasias, dando lugar ao desenvolvimento da teoria do ''Complexo de Édipo''. O postulado freudiano sugeriu que eventos agoniantes na infância, incluindo abusos reais e desejos reprimidos, poderiam ser fontes de traumas psicológicos. Compreender a complexidade e seus potenciais efeitos na vida cotidiana, nas relações interpessoais foi primacial para uma intelecção abrangente. Na primeira infância, os processos mentais se caracterizam pela ausência de uma simbolização adequada. Nesse estágio, os impactos traumáticos podem ser particularmente intensos e desafiadores de se processar, devido à falta de capacidade de simbolização. Essa dinâmica melindrosa, envolve tanto elementos do mundo externo quanto do interno do sujeito, desencadeando uma fantasmagórica confusão psíquica. Além disso, esse contexto não apenas coloca o sujeito em uma posição vulnerável, mas também envolve uma condição elementar e precípua: o desamparo. Nesse estágio, a criança ainda não desenvolveu completamente a habilidade de representar suas experiências por meio de símbolos e palavras. Portanto, sua comunicação depende principalmente de expressões não verbais, como gestos e expressões faciais. Esse período inicial da vida desempenha um papel indeclinável na formação da capacidade emblemática e a aquisição linguística do indivíduo. Assim, as repercussões emocionais e aflitivas podem deixar uma marca profunda na psique do infante, uma vez que não sendo elaborados nem integrados de maneira adequada, propiciam a origem dos traumas. Essa ausência de representatividade figurativa vai contribuir para o processo traumatizante. Freud, se centra na ideia de que o trauma resulta de eventos perturbadores ou experiências que afetam o indivíduo de maneira significativa mediante a seguinte síntese; Complexo de Édipo: O trauma pode se originar de experiências na primeira infância relacionadas ao Complexo de Édipo, onde a criança desenvolve sentimentos conflituosos em relação aos pais. O trauma sexual infantil foi inicialmente considerado uma fonte de neuroses. Mudança de perspectiva: Posteriormente abandona a ideia de que o trauma sexual era a principal causa das neuroses e acredita que muitas das histórias relatadas por seus pacientes eram fantasias, não eventos reais. Fantasia e desejo reprimido: Sugeriu então que o trauma poderia ser resultado de desejos reprimidos ou fantasias que causam conflito psicológico, diante que exitações reprimidas podiam ser tão perturbadores quanto eventos traumáticos reais. Inconsciente e repressão: Destaca a importância da repressão, onde ditas experiências de comoção ou desejos perturbadores são empurrados para o inconsciente, os tornando inacessíveis à consciência. Essa repressão que causará angústia e sintomas psicológicos. Complexo de Édipo e trauma: A relação entre o Complexo de Édipo, fantasias sexuais infantis e a inibição de desejos é central na compreensão do trauma na teoria freudiana, pois essas práticas seriam cruciais para o desenvolvimento psicológico e podem desencadear traumas. Em “Além do Princípio do Prazer”, (1920) ele cita; “O que sofre repetição é sempre um evento, e não o que era doloroso na primeira vez. Esta característica intriga qualquer pessoa que ouça falar disso pela primeira vez; ele parece contradizer nossa expectativa de que o que foi sofrido, e suportado uma vez, não será mais resignado na próxima. Na verdade, o que era espinhoso inicialmente só raramente se encontrará na repetição; o que está em seu lugar é uma representação mnêmica, que não era penoso em si, mas que se torna, ao ser ligado a um certo evento por meio da recordação.” Lacan reinterpreta a teoria freudiana pelo conceito de; ''O Nome do Pai''. O “Nome-do-Pai” é uma construção conceitual que representa a função paterna, essa que vai além da figura do pai biológico. Simboliza a entrada da criança na ordem simbólica, ou seja, no mundo da linguagem, da cultura e das normas sociais. Não se refere apenas à figura do pai biológico, mas um ícone da autoridade, a lei e a ordem metafórica que entram em jogo na vida do sujeito. Seria esta responsável por introduzir a criança nessa dimensão, o separando de uma relação simbiótica com a mãe. Isso é essencial para o progresso saudável da identidade e sua psique. O Nome-do-Pai também impõe limites, estabelece regras e normas sociais que moldam o nosso comportamento. Sua função é absolutamente relevante para a regulação das relações entre o sujeito, a mãe e o mundo exterior, sua ausência, fragmentação ou falha podem levar a problemas psicológicos, como angústia e dificuldades na estruturação do self. A Lei Simbólica: A “Lei Simbólica” se interconecta ao Nome-do-Pai. No sistema simbólico de signos, significados e normas compartilhadas pela sociedade, aquelas que governam a interação entre os indivíduos. Ela representa a ordem cultural e linguística na qual os sujeitos estão inseridos. Impõe limites, regras e restrições às ações e desejos, influenciando como nos relacionamos e comportamos. A entrada do sujeito nesse contexto ocorre através do Nome-do-Pai simboliza a autoridade e a lei dentro dessa ordem. O trauma, em termos lacanianos ocorre quando há uma falha nessa função do Nome-do-Pai. Isso pode acontecer quando o pai não exerce sua jurisdição de poder ou quando a criança não é devidamente submetida às normas da cultura. Como resultado, a criança pode ficar presa em uma relação fixada e simbiótica com a mãe, onde não há diferenciação adequada entre o self e o ''outro''. A função paterna e a angústia. Às relações entre o sujeito, a mãe e o mundo exterior vão ocupar um lugar de destaque, quando dito eixo está enfraquecido ou ausente, a criança pode experienciar angústia. Isso ocorre, porque a falta de limites simbólicos cria um vazio na psique, levando a uma sensação de desorientação e insegurança. O real e o trauma. O “Real” como algo que está além da linguagem e da simbologia está correlacionada ao encontro com o Real. Eventos traumáticos podem ser tão perturbadores que escapam à capacidade de simbolização e compreensão conceitual. O trauma é, portanto, uma experiência que permanece inacessível à linguagem e à representação. Como ''ferida narcísica'' significa que irá tocar a imagem e identidade do indivíduo. A colisão com o indigesto pode nos levar a uma sensação de despersonalização, perda de sentido e desintegração do self. Podemos sentir que nossa identidade está fragmentada devido ao trauma. A nossa estrutura psíquica está estruturada como sujeitos em como nos relacionamos com o Real, o Simbólico e o Imaginário. Através do diálogo com o analista, você pode simbolizar e dar sentido às experiências traumáticas. Isso permite uma integração mais saudável e uma relação diferente com o problema. Em seu Seminário “O Eu na Teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise” (1954 – 1955). Lacan cita: “O trauma não reside apenas no fato dê o que é imaginado tenha acontecido realmente. Está ligado ao fato de que o que aconteceu estava em perfeita conformidade com as representações, em outras palavras; ao fato de que o sujeito tinha pleno conhecimento disso.” Neste tema gosto de me aproximar de Ferenczi e suas cooperações; Trauma como afeto: Destacou a importância dos afetos na compreensão do trauma. Ele argumentou que ela não se limita apenas a eventos externos, mas também envolve reações emocionais intensas, como medo, raiva e desamparo. Essas afinidades podem ser duradouras e impactar profundamente a psique do indivíduo. Apatia emocional: Observou que os pacientes que experimentaram traumas, muitas vezes desenvolviam uma apatia emocional, uma espécie de entorpecimento como mecanismo de defesa. Essa apatia é vista como uma tentativa de proteger a psique da sobrecarga. Trauma precoce: Explorou o conceito de trauma precoce, enfatizando que negligências ou abuso, podem ter efeitos profundos e duradouros na progressão emocional e psicológica da criança. Conhecido por sua abordagem empática e inovadora na relação terapêutica, que ele chamou de “análise didática”. Enfatizou a importância de criar um ambiente terapêutico seguro e de apoio para pacientes que sofreram trauma, onde a expressão de afetos reprimidos e a reconstrução da relação com o analista eram centrais para o processo de cura. Confiança e respeito pelo paciente: Defendeu que os analistas deveriam demonstrar confiança e respeito pelo paciente, reconhecendo a validade de suas experiências e emoções, especialmente quando se tratava de traumas passados. Ampliou a compreensão do trauma na psicanálise ao destacar a importância dos afetos, da apatia emocional, do trauma precoce e da relação terapêutica empática na abordagem e tratamento. Diferentes formas de traumatizar uma criança: Para além do amor apaixonado e dos castigos, existe um terceiro meio de dominar uma criança, que é o de lhe impor o terrorismo do sofrimento. As crianças são obrigadas a suportar todo tipo de conflitos familiares, e carregar sobre as suas costas o pesado fardo emocional dos outros membros da família. Não o fazem por puro desinteresse, mas para poderem voltar a gozar a paz que lhes falta e a ternura que lhes está associada. Uma mãe que lamenta continuamente os seus sofrimentos podem transformar o seu filho num colaborador carinhoso, ou seja, um verdadeiro substituto materno, sem considerar os interesses da criança. (Ferenczi 1932). Em resumo, ele sugere que: — O trauma é um fenômeno real, mais abundante do que parece à primeira vista. — Está implicado na dinâmica mental do sujeito, mas é real, aconteceu na realidade. — Pode ser de tipo sexual, mas também de outros tipos. — Destaca as más relações com os pais como traumáticas. — Uma caraterística fundamental, que dá peso patogênico ao traumatismo, é a falta de ressonância do ambiente com a vítima traumatizada. — As consequências afetam profundamente a estruturação do psiquismo e talvez a soma do sujeito. — O sujeito se defende desesperadamente contra esta desestruturação, incluindo a identificação com o agressor e o acometedor e a assunção das projeções patológicas dos adultos. — O analista pode voltar a traumatizar o seu paciente se não conseguir estabelecer uma relação direta com o paciente. Por exemplo, se não reconhecer a sua identidade, nem a suposta verdade das suas afirmações ou se não permite que o mesmo se identifique com suas falhas. Ao simbolizar o trauma, se abre a possibilidade da transformação, reduzindo o seu impacto negativo na vida do indivíduo. Não se trata apenas de falar sobre os acontecimentos perturbadores, mas de construir novos significados em torno deles. Através da exploração de associações, sonhos e sintomas, procura-se o significado das experiências negativas. É como resultado, esta construção de sentido fornece uma nova perspectiva. Isso permite ao indivíduo integrar o choque na sua história de uma forma menos desconsolada. Todas as formações psicopatológicas, assim como as técnicas normais de controle, têm em comum o objetivo de evitar formas extremas de angústia, algo tão primitivo que só pode ser descrito em termos econômicos. “Esta forma de angústia automática poderia ser caracterizada como o traumatismo inicial, o traumatismo puro, sem sentido, totalmente perturbador” (Baranger 1987). Esta “experiência traumática”, segundo Benyakar, “inundada por uma angústia automática, desprovida de representação, é a lacuna psíquica que impossibilita ao sujeito pensar ou significar um acontecimento ocorrido”. Mas, conforme o que vimos, o trauma envolve sempre as pessoas que nos são mais próximas. A capacidade adaptativa, mesmo de crianças muito pequenas, para responder a ataques sexuais e outros ataques passionais são muito maior do que se imagina. A confusão traumática só é atingida, na maior parte das vezes, quando o ataque é a resposta. (Ferenczi — 1932). "A tragédia da criança é que ela é completamente dependente dos adultos, enquanto a tragédia do adulto é que ele não compreende, e daí subestima, essa dependência que ele realmente compartilha com a criança." Nesta citação, Ferenczi destaca como as crianças dependem dos adultos para cuidado e proteção, tornando-as vulneráveis às experiências traumáticas quando esses adultos não estão à altura de suas responsabilidades. Vejamos então, a importância da compreensão por parte dos maiores, pais, cuidadores e familiares dessa dependência infantil incomensurável, para que possamos sempre oferecer um ambiente seguro e apoiar o desenvolvimento saudável. Traumas primários normais e patogênicos secundários. Litchman (2000) menciona “défices estruturais primários” neste processo de elaboração, citado por Altmann de Litvan em 1995, fala de traumas primários normais no desenvolvimento e distingue entre “traumas primários normais” e “traumas patogênicos secundários. Os primeiros podem se transformar nos segundos como resultado da interação de influências ambientais negativas e fatores constitucionais. Ao considerarmos estas alterações do self, pensamos que todos estamos expostos a “esse trauma constitutivo precoce o que nos leva a resgatar a ideia da situação traumática, que se diferenciara da do trauma como situação patogênica. Um trauma pode ser entendido como necessário, porque? Ao separar a criança da fusão materna vai lhe permitir uma organização adequada do psiquismo e uma inscrição numa ordem simbólica. Tudo leva a crer que, em tais situações, o referido processo de estruturação e organização do fantasmático infantil teria falhado, dando origem a espaços mais ou menos amplos do psiquismo onde o sentido não pode ser encontrado, o que remeteria para as formas do arcaico. Esta experiência será traumática porque estará inundada de afetos e carente de uma cena, desenvolvendo um défice marcado na capacidade de representação. Consequências do trauma no adulto. Repressão: A mente tem mecanismos de defesa que podem levar à repressão de memórias traumáticas. Isso significa que, em alguns casos, o indivíduo pode não se lembrar conscientemente do evento, mas o trauma continua a influenciar seu comportamento e emocionalidade de maneira inconsciente. Revivência: Em situações de estresse ou quando confrontado com experiências que lembram o trauma, o adulto pode experimentar a revivência do trauma. Isso pode envolver flashbacks, pesadelos e reações emocionais intensas relacionadas ao evento traumático. Transtorno de estresse Pós-Traumático: A psicanálise reconhece o ''TEPT'' como um transtorno que pode se desenvolver após a exposição a eventos traumáticos. Os sintomas incluem experimentação do trauma, evitação de situações relacionadas ao trauma e sua excitação. A psicanálise entende como o trauma afeta a psique do indivíduo e como esses sintomas podem estar relacionados à repressão e à resistência. Depressão e ansiedade: Eventos traumáticos estão frequentemente associados a sintomas de depressão e ansiedade. A psicanálise explora como esses transtornos podem ser expressões de conflitos internos relacionados ao trauma não resolvido. Comportamentos de repetição: Adultos que sofreram trauma podem repetir padrões de comportamento disfuncionais em suas vidas, muitas vezes sem estar cientes do motivo subjacente. Esses comportamentos podem incluir relacionamentos abusivos, autossabotagem ou outras formas de autoproteção inconsciente. Dificuldades nas relações interpessoais: Traumas não resolvidos podem afetar a capacidade do indivíduo de estabelecer relacionamentos saudáveis. Isso pode manifestar-se em dificuldades de confiança, evitação de intimidade emocional e padrões de relacionamento disfuncionais agressivos. Busca de significado: Consideramos que o trauma pode levar o indivíduo a buscar significado do evento traumático. A terapia psicanalítica pode ser vista como um processo no qual o paciente explora a interpretação dele e suas implicações na vida presente. Resiliência e potencial de cura: Embora a psicanálise reconheça o impacto negativo do trauma, também enfatiza o potencial da possível cura. Através da indagação das memórias reprimidas, da expressão emocional e construção de um relacionamento terapêutico seguro, é possível aliviar os sintomas e promover o crescimento pessoal. Continuamos com às nossas vidas. Crescemos, vivemos novas experiências e nos adaptamos às diferentes perícias que nos chegam. Até que um dia um determinado acontecimento dispara o gatilho da memória desse acontecimento. Isto pode gerar diferentes sintomas. A psicanálise oferece uma visão clara das consequências do traumatismo no adulto, salientando como ditos acontecimentos podem afetar o psiquismo e o funcionamento psicológico. Até hoje, as contribuições de Freud continuam a ser revistas. Assim, autores problematizam suas ideias sobre a origem do tema central, propondo uma diferença entre o trauma mental destrutivo e o afetivo. Propõem estes, que o lance destrutivo não rompe o escudo protetor, mas transgride o princípio do prazer-desprazer. Assim, no decurso do seu domínio posterior se conduz a uma neurose traumática. Um trauma afetivo pode ser evitado sob a regra do princípio do prazer-prazer e conduzir a uma psiconeurose. Ao postular que pode ser tanto destrutivo como afetivo, nossa compreensão de desses acontecimentos externos podem afetar a realidade psíquica de um indivíduo e a mesma ser alargada. Frases de psicanalistas que refletem o conceito dentro da nossa área de estudo: “O trauma é o eco do passado que ressoa no presente, demandando atenção e compreensão de quem o vive.” Dan Mena. “O trauma não é o que aconteceu conosco, mas o que deixou em nós.” Levine. “Na psicanálise, o trauma é visto como um evento que deixa uma cicatriz na mente, afetando a psique do indivíduo.” Freud. “O trauma é o encontro com o inesperado que nos deixa vulneráveis e transformados.” Herman. “A psicanálise nos ensina que o trauma não se limita ao que acontece, mas à forma como o indivíduo lida com o que aconteceu.” Anna Freud. “O trauma é a sombra que segue aqueles que não enfrentaram suas experiências dolorosas.” Winnicott “Na psicanálise, o trauma é visto como uma ruptura na continuidade da vida psíquica, que exige um esforço de reparação.” Klein “O trauma é como uma memória que continua a ecoar na mente, afetando o presente e o futuro.” Janet. “A psicanálise nos lembra que o trauma não é apenas o que aconteceu, mas como o indivíduo percebe e elabora essa experiência.” Bowlby. A rota do trauma. Na jornada da vida, cada um de nós carrega consigo seus traumas, um fragmento importante que transcende as fronteiras do simbólico. Essas feridas emergem como a vivência do desamparo primordial, que não estão necessariamente vinculadas a comoção do nascimento como muitas vezes presumimos, mas sim, sob à insuficiência da linguagem que transborda em expressar nossa essência. Esta é, verdadeiramente a experiência inaugural do ser, uma falha íntima e natural na habilidade linguística em capturar a nossa impossível totalidade. Assim, nos defendemos para não cair na armadilha da psicose. Recordamos, lembramos, evocamos e memoramos, recorrendo à repressão, onde lhe outorgamos significados que se transformam em nossos fantasmas do amanhã. Criamos fórmulas que vão articular os contornos da nossa existência, que desenham o peculiar imperativo modo de buscarmos aprazimento e prazer...o gozo. Desta forma, o sintoma se infiltra como um intruso subversivo do nosso cotidiano, onde buscamos se abrigar em nossas defesas contra o trauma. Então descobrimos que esse excesso no gozo que tanto priorizamos, nos força a se escudar da busca por satisfação, como reféns que somos dos desejos e quereres inconscientes. Esse aspecto perturbador mora no quarto ao lado, o do corpo que goza, utopicamente, também com o traumático. Não há trauma sem uma experiência de satisfação… paradoxal não é?. O caráter dessa aflição não está atrelado à inércia ou indiferença do acometido(a), ele se faz presente em toda nossa extensão fisiológica, marcando um território, querendo uma resposta entre o vazio do real e a resposta simbólica. É assim que toda a narrativa de uma vida pode se construir, em torno desse contingente, que, por força do destino se transforma em algo que pode ser letal, sinistro e trágico para o indivíduo. No cerne dessa complexidade, reside não apenas o desarrimo e a orfandade que nos habitam, mas incluí, a incrível resiliência que nos impulsiona a encontrar significado mesmo nas sombras do trauma, construindo com determinação um caminho em direção à restauração profunda do nosso ser. Ao poema; Definitivo — Um poema sobre a dor e o sofrimento — Drummond. Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas, que foram sonhadas e não se cumpriram. Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade. Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar. Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender. Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada. Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar. Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz. Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!! A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional… Por Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- Toxicomania.
Toxicomania. ''O desejo de fugir do concreto por meio do uso de substâncias entorpecentes revela uma luta entre o princípio do prazer e o da realidade, agindo na psique do indivíduo''. Dan Mena. Por Dan Mena. A história do homem e sua conexão com drogas é longa, se estima que remonte a mais de oito mil anos. Seu uso começa a ser colocado em prática por motivos de saúde, recreativos, religiosos ou introspectivos. É provável que desde sempre tenhamos experimentado todo tipo de essências e plantas, por consequência adotado, criado e passado a consumir substâncias que alteram o sistema nervoso central. De fato, é difícil estimar ou determinar quais foram às primeiras utilizadas. Pelos achados arqueológicos sabemos que o álcool e os opiáceos foram os precípuos psicoativos manuseados. O ópio, do grego opós = sumo das papoulas, é um alcaloide que se tem registro como uma das drogas mais antigas empregues pela humanidade. Já a popular cerveja era produzida há cerca de sete mil anos pelos antigos egípcios que a utilizavam em celebrações religiosas. Essas sociedades primitivas deixaram vestígios concretos e amplamente documentados. O mel era armazenado e atingia o ponto de fermentação, então encontramos os primeiros vinhos, o tabaco, que já era fumado por várias culturas pré-colombianas em comemorações espirituais e cerimoniais antes da chegada dos conquistadores a América. O sujeito é um fantasma na toxicomania. O sujeito do psicoanálises é aquele do discurso, do significante, lugar onde ele se encontra velado e inexistente na toxicomania. Esse, que singularmente deve ser entendido como o que se distância e nega a palavra que universalmente nos constituí. Logo adentra num indeferimento da linguagem, onde parece afundar em um estado de profundo sofrimento, premissa, na qual a análise tradicional encontra sérias dificuldades em penetrar. Essa condição não se manifesta por meio de sintomas claros, nem é guiado por uma demanda reconhecível, resultando em uma deleção dessa plausível narrativa. O objetivo da análise psicanalítica não pode se concentrar unicamente em combater o ato do consumo da substância tóxica, pois os resultados esperados dessa abordagem são comprovadamente insatisfatórios. Neste cenário, o psicanalista se vê confrontado com uma situação na qual o próprio objeto da toxicomania, bem como sua dependência parecem transcender os limites da análise convencional. Tecnicamente o problema se esvazia ao sugerir de certa forma a inexistência do próprio conceito, enquanto objeto analítico. O sujeito impactado não pode ser sustentado apenas pela investigação clínica, visto que não se encaixa nos moldes clássicos da análise. Quando consideramos essa compulsão como uma manifestação na qual parece o portador estar anestesiado, sua existência inquestionável e o seu espaço na análise se tornam evasivas. Dentro dessa dimensão é evidente que a adição, compulsão e vícios, não conseguem delinear um sujeito em sua totalidade. Em vez disso, sua opção potencial é que ele(a) compreenda seu próprio impedimento, oferecendo menos resistência e enfrente sua condição de sujeição. Tais vicissitudes nos revelam que carregam consigo um imbróglio de tribulações, sejam de ordem familiar, sociais, legais, profissionais e de desequilíbrios familiares. Não é fortuito que alguns psicanalistas tenham buscado relacionar o fenômeno a outras patologias como a perversão, melancolia e a uma psicopatologia autônoma de natureza depressiva. Desde a modernidade, pelo embasamento deste nosso novo estilo de vida, há indiscutivelmente elementos que oportunizam o ingresso a dita desestrutura, tanto pelas exigências sociais, pressões profissionais, demandas familiares, acadêmicas, econômicas, que funcionam como gatilhos de pressão para alcançar um imaginário êxito, sucesso, construção da imagem em detrimento da realidade como um préstimo de influência para a compreensão dessa ocorrência habitual nestes dias. ''A relação entre o sujeito e as substâncias tóxicas é muitas vezes um espelho das relações intrincadas entre desejo, culpa e satisfação. Pode ser considerado um traço, retificado por uma busca incessante pelo objeto perdido ou um paraíso vivido outrora. Se acomoda em uma estrutura psíquica perturbada, utilizando a negação da angústia existencial que permeia a vida do acometido''. Dan Mena. Boa leitura. Compreender desde a perspectiva da psicanálise. Em ''Toxicomanias e Psicoanálises'', Le Poulichet explica que a dependência de uma substância é influenciada por dois fatores: um fisiológico e outro psicológico. Ambos são influenciados por um terceiro, o contexto socioeconômico e cultural em que estamos inseridos. Condições da vida contemporânea… “trazem consigo um modo pré-depressivo onde a perda de valores, a abdicação dos pais cada vez mais sobrecarregados pela velocidade da vida, perda da capacidade de viver com os filhos e a falta de sentido de responsabilidade, contribuem para o desenvolvimento de um modo pré-depressivo”. Essas esferas, empurram o indivíduo para a toxicodependência que representa o mal-estar cultural da nossa época. Dependências podem ser consideradas um descontrole, uma vez que o indivíduo pode decidir não as consumir, usar esporadicamente em pequenas quantidades, no entanto, após um certo tempo de consumo supostamente controlado, a pessoa perde o domínio e começa a utilizá-las compulsivamente. Tanto Freud quanto Lacan afirmam que o tema engloba dois problemas diferentes. Em primeiro lugar, a dependência nem sempre é dirigida a uma substância química em si; e, em segunda instância; o uso de agentes desta natureza nem sempre implicam em dependência. A deslocação do significante é necessária para um objeto adquirir a posição de vínculo. Neste sentido, "um indivíduo não se define pela toxicomania, mas pela estrutura inconsciente onde a droga é um efeito e não uma causa" (López, 2007). No início da sua teoria, Freud estabeleceu que todos temos pulsões, uma necessidade herdada primitivamente que exige que a mente seja satisfeita. Alimentação, sexo, autopreservação, estabilidade emocional, etc. e, deste ponto de vista, qualquer coisa, não necessariamente uma substância química pode se tornar uma interdependência. Da mesma forma, o conceito de inconsciente explica as manifestações psíquicas das quais não temos consciência. ''Inconsciente; significa adormecido, alheio ao que se passa à nossa volta" (Kahn 2002). ''Por outras palavras, se alude à parte da vida mental que funciona ocultamente e exerce uma influência poderosa sobre as atitudes e os comportamentos''. (Kahn, 2002). Toxicodependentes arranjam motivos psíquicos para obter uma certa estabilidade quando a eficácia do sintoma não está disponível. A droga pode, portanto, atuar como um substituto ou um suplemento. É utilizada como um decalque supridor quando a própria existência dele(a) está em risco. É sempre uma tentativa de dominar o corpo enigmático, uma contrapartida a falta e ausência do ''Outro''. O tóxico cumpre uma função imaginária de fechar os orifícios do corpo, zonas erógenas, ao gozo do ''Outro''. No entanto o uso da droga como sua correspondência não é um sinal inequívoco de psicose, pois também pode ocorrer em outras estruturas. Para Le Poulichet, a "clínica da substituição" deve trabalhar na elaboração do corpo nos conjuntos pulsionais mediante construções transferenciais. O analista não deve fazer desaparecer o "objeto-droga", do paciente, o que mutilaria imediatamente a pessoa que ainda não constituiu um corpo, mas produzir essa transformação a partir da "elaboração de um sintoma", perfazendo que o real seja alienado a recursos imaginários e simbólicos. Nem sempre estamos no modo racional. Grande parte da nossa vida mental é inconsciente, portanto, nem sempre caminhamos no modo racional, ficamos expostos e desatentos às motivações que dela decorrem. A nossa matéria tenta elucidar o que leva um indivíduo a fazer o que faz, a pensar o que pensa e a acreditar no que pensa, é um ponto básico da prática psicanalítica, que pode explicar claramente o porquê das dependências na atualidade. Diferentes elementos permitem aliviar a dor existencial que nos acompanha ou a impossível satisfação dos desejos com que lidamos. Esta dor de existir pode ser referida como uma paixão pela evitação do sofrimento. O próprio ato do consumo de todo tipo de alucinógenos e intoxicantes químicos são utilizados para aliviar essa agonia, acabam por produzir subordinação e sujeição a elas, afunilando inevitavelmente para a produção de mais dor. O termo condição dolorosa citado por Freud fala desse hermetismo e seus significados. Essa condição ocorre quando há uma sobrecarga libidinal em alguma parte do corpo, quando um órgão é representante de uma ideia reprimida ou simplesmente, quando há uma insatisfação não realizada, (López, 2007). ''O padecimento emocional pode atravessar por uma anulação tóxica" (Freud, 1884/1980). Qual seria a profundidade da pergunta? O que ele quis dizer?; Que se pode fazer desaparecer a tortura de uma tribulação durante algum tempo. Nessa direção, a substância aditiva tem uma função: evitar a aflição, ao funcionar como uma barreira, a limitando, mas não intervindo na sua causa principal nem possibilitando a obtenção do gozo. Embora estas tenham sido ideias precursoras sobre o efeito das essências químicas, a primeira explicação que extraímos sobre as toxicomanias vem do campo da sexualidade infantil. A masturbação é o primeiro hábito a partir do qual vão surgir outros vícios, como ligações com o álcool, a maconha, cocaína, tabaco, etc., e que estes últimos, surgem como substitutos dos primeiros, (Abraham, 1908). Ele fala sobre relações psicológicas entre sexualidade e alcoolismo, onde menciona como a mecânica da sua ingestão funciona, sendo uma tentativa de compensar a impossibilidade de ter, manter e obter relações sexuais, (Gavlovski 2011). A masturbação é então considerada o vício primitivo de outros subsequentes que serão substitutos para ele, (López 2007). Em 1898, em ''Sexualidade e Etiologia da Neurose'', Freud afirma que nem todos iremos experimentar a introdução de intoxicantes, más, desenvolvemos posteriormente dependências correspondentes, compensando assim uma possível ausência de gozo. Nos casos em que não é possível estabelecer ou recompor uma vida sexual normal, a recaída é sempre certa. Esta última afirmação leva Freud a formular uma hipótese; "o aparelho psíquico só responde à lei da vantagem (…) seria logo incapaz de renunciar a uma satisfação se não lhe fosse oferecida em troca uma "compensação", isto é, um "plus de gozo" em troca desse gozo direto a que se renuncia". Além da simples privação da substância. O tratamento da toxicodependência requer uma abordagem holística que vai além da simples privação da substância ou objeto ao qual o indivíduo está viciado. De acordo com López (2007), essa abstinência deve ser acompanhada pelo aumento das satisfações do sujeito. Freud, em 1905, identificou semelhanças entre a neurose e a dependência, estabelecendo uma relação entre ambas, onde dita contenção da satisfação sexual era um elemento central. Em 1928, em sua obra "Dostoiévski e o parricídio", identifica um "novo vício", o do jogo, que substituía o onanismo na sua dinâmica; (o termo onanismo carrega o mesmo sentido geral de masturbação: o ato de autogratificação sexual, más, alude a uma conotação de pecado que o autor do livro Onania passa em sua obra, de alguma forma tomado pela psicanálise posteriormente.). Essa busca pela felicidade desempenha um rol apreciável na tóxico-dependência, na medida que somos motivados pela busca do comprazimento para evitar o desprazer e experimentar sensações prazenteiras. Em sua obra "O Mal-estar na Cultura" de (1930), destacou a importância de métodos destinados a evitar a dor psíquica, como distrações poderosas e satisfações substitutas. A droga como um removedor de dores, aliviando a carga da existência se vê mais relacionada com a redução das tensões do que com a busca direta pelo próprio regozijo. Seria portanto seu uso um subterfúgio, uma engrenagem do mecanismo de defesa para lidar com a insatisfação sexual e a dor de existir. Por outro ângulo, observemos a relação entre humor, intoxicação e cultura. O humor, ao rejeitar a possibilidade do sofrimento ocupa um lugar preponderante nos métodos desenvolvidos pelo aparelho psíquico para escapar as consternações. Em contraste, a dependência serve como um meio de evitar a realidade, é nesse trânsito será menos bem-sucedida do que o bom ânimo, pois o toxicodependente falha ao tentar encontrar esse alívio por essa via. A arte, seja no entanto no teatro, literatura, pintura, escultura, artesanato, etc; permitem que experimentemos o prazer mediante a elaboração de personagens fictícios, proporcionando um escape seguro, equilibrado e moderado a um embate. Compreender esses aspectos psicológicos será substancial para desenvolver estratégias eficazes de tratamento, que possam ir além da simples proposta de abstinência, abordando as reais necessidades emocionais e psíquicas dissimuladas. ''As adições e toxicomanias jogam em estruturas diferentes, com uma função distinta, não só nessas estruturas mas também em cada sujeito particularmente. Desta forma, podemos explicar a existência de uma variedade de relações dos sujeitos com as drogas ou mesmo as idênticas associações em diferentes posições subjetivas''. (Lora e Calderon 2010). Como podemos sintetizar nossa visão do tema; Natureza da dependência e a busca pela felicidade. Às pulsões, necessidades que buscam serem satisfeitas, como a alimentação, o sexo e a estabilidade emocional; "o homem procura a felicidade, quer se tornar feliz e não o deixar de ser", (Freud, 1930). Essa busca por contentamento pode levar à dependência, já que as pessoas frequentemente procuram substâncias para evitar a dor e experimentar sensações prazerosas. Subterfúgios e intoxicação: A dependência como uma forma de evitar a dor e o desprazer da vida, seja por meio de substâncias tóxicas ou outros vícios, a um "removedor de dores", "a intoxicação é uma forma de reduzir as tensões", (Freud, 1930). As substâncias intoxicantes servem como subterfúgios para aliviar a insatisfação. Substituição e compensação: Pode ser uma forma de substituição para necessidades insatisfeitas, como a sexualidade; "o álcool é frequentemente utilizado como uma forma de compensar a impossibilidade de ter relações sexuais", (Freud, 1908). Isso sugere que a dependência pode surgir como um suplente para outras formas de deleitamento. Humor e defesa: O humor e a intoxicação são sistemas de defesa contra a dor psíquica. O primeiro é mais bem-sucedido do que a alantíase, porque se manifesta na linguagem e permite o acesso ao gozo. O álcool como uma substância que transforma o humor e enfraquece as forças coercivas da realidade, (Freud, 1930). Isso implica ser uma dependência é uma defesa contra a dor de existir. A relação entre as dependências segundo Lacan. Um passo adiante temos uma releitura de Lacan, que se baseou na reconstrução dos conceitos psicanalíticos de Freud, embora ele não tenha desenvolvido uma teoria completa ao respeito, suas contribuições abordam o fenômeno. Em 1938, publicou "A família': o fator complexo concreto da psicologia familiar", aqui introduziu a ideia de complexo em contraposição ao de instinto. Ele delineou o desenvolvimento psíquico em três estruturas sucessivas: o complexo de desmame, o de intrusão e o de Édipo. A relação entre as dependências, especialmente as toxicomanias de natureza oral, e o desmame, com sua influência determinante em fatores culturais onde o mesmo se torna um regulador. Assim, esse fator é assiduamente considerado um trauma psíquico, com possíveis efeitos devastadores, como a dependência. A rejeição ao desmame é repetida posteriormente pelo dependente por meio de um consumo tóxico compulsivo e crescente, evidenciando a relação estabelecida entre a compulsão dele(a) e o trauma dessa separação maternal. Dita repetição está conectada à fantasia da posse ilimitada do seio materno, que, por sua vez, representa a negação em aceitar o evento. Na época ainda não se haviam desenvolvido conceitos como o significante e a castração simbólica. Portanto, sua abordagem inicial das toxicodependências tinha uma interpretação mecanicista. Em 1946, no texto; "Sobre a causalidade psíquica", revisita o assunto do complexo de desmame e situa esse trauma ao nascimento. Essa abordagem ressaltou que; conforme descrita em "As toxicomanias à luz da psicanálise, uma revisão bibliográfica", se relaciona o desmame como resultado de um trauma não elaborado. Sua compreensão posterior foi além da perda do seio materno, sinalizando ele com uma ausência estrutural mais profunda, que se enunciava na forma da morte, que será resgatado pelo complexo de castração. A superação desse complexo envolve a simbolização da perda por meio do jogo, uma transposição para a linguagem de uma realidade inatingível. A falha em realizar essa passagem leva a uma repetição do fracasso em obter uma identificação com o gozo perdido, regularmente axiomático na ingestão de substâncias tóxicas. Já a relação com o desejo se organiza em um discurso no inconsciente que evita partir de premissas falsas, uma instância da relação perversiva que tenciona se esquivar do encontro com a insuportável falta de realidade. Na "Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano" (1959). "Da psicanálise nas suas relações com o real" (1967), sonda e fala sobre sua própria experiência com alucinógenos, concluindo que a intoxicação não é um meio válido para conhecer o inconsciente, mas, em vez disso, serve como recurso para sepultar o inconsciente. Uma trilha fictícia que proporciona uma ilusão de atingir uma verdade elevada e extraordinária que não vai passar de uma fantasia. A dependência tóxica, do ponto de vista da medicina, propõe um prisma divergente entre esperar por uma cura científica, pretendendo que o médico retire o paciente de sua condição de doente. Essa diferenciação, introduziu uma falha entre a demanda e o desejo do mesmo(a), agregando pressuposições éticas. Muitos dos medicamentos prescritos atualmente estão ligados ao gozo do corpo, levando o(a) dependente a outra dependência agravada, a dos psicotrópicos, que usa sabe do que estou falando. Além do princípio do prazer. As implicações do consumo de substâncias psicoativas, que abrangem os domínios social, familiar, profissional, estudantil e pessoal, representam um desafio secular de grande magnitude que exige prontamente uma resposta adequada. Em seu trabalho "Além do Princípio do Prazer" (1920), Freud já se debruçava na relação complicada entre a pulsão de morte e os comportamentos destrutivos conectados que estão ligados ao consumo de drogas. Embora seja importante reconhecer que a toxicodependência não é um objeto de análise em si, é igualmente ponderável considerar essa conduta como um antecedente que pode servir como um ponto de partida para uma análise mais abrangente da origem das necessidades do uso de drogas. Em seu seminário; "O Desejo e sua Interpretação" (1959), Lacan convoca a importância da linguagem na formação do desejo, incluindo a busca do alívio por seus meios. A discussão sobre a capacidade da toxicodependência em representar um sujeito válido para análise merece consideração. Notemos que embora o problema possa parecer destituído de sintomas articulados, à linguagem e à demanda em situações que efetivamente capturam a essência de um sujeito que podem ser identificadas dentro desse contexto. Em "Estudos sobre a Histeria" (1895), vemos que os sintomas psíquicos têm uma relação próxima com o inconsciente e a expressão linguística. Quando o tema é adequadamente compreendido, sê procura por uma tentativa de achar uma solução, um mecanismo de enfrentamento que visa preservar o equilíbrio mental do cliente. Ela canaliza as energias libidinais do exterior, criando uma forma de encapsulamento narcísico que embora seja uma defesa, representa uma ferida emocional aberta que exige um exame cuidadoso. Em seu trabalho; "Agressividade em Psicanálise" (1966), Lacan acrescenta o fator da agressividade, o qual é muitas vezes mascarado pela dependência como uma resposta a conflitos internos não resolvidos na adição, compulsão e vícios. Não é o sujeito em si, mas um hóspede, um parasita que se instala no indivíduo o consumindo vagarosamente. Seguindo Lacan, em seu seminário; "O Desejo e sua Interpretação" de (1959), se aproxima da ideia que o fenômeno representa uma fuga do sujeito da realidade e da demanda social, mas não é a própria identidade do sujeito que esta em jogo. A abordagem clínica deve considerar a distinção entre a posição teórica em relação ao dilema e o respeito pela experiência do sujeito. Como analistas, reconhecemos que o objetivo da terapia não deve se focar em eliminar o consumo de drogas, mas sim, tornar essa utilização uma consequência natural do processo terapêutico. Conforme foi sugerido em "Agressividade na Psicanálise" (1966), onde tais impulsos podem ser transformados em atos construtivos e positivos, se a terapêutica permitir que o paciente trafegue pelas suas emoções e conflitos internos de maneira segura. A questão é criar as condições para que o desejo, anestesiado pelo vício, desperte do estado narcotizado e comece a articular por uma demanda. Freud, em "Além do Princípio do Prazer" (1920), entrelaça a investigação quanto a essa repetição compulsiva como uma tentativa do ego em lidar com o trauma. Sendo assim, é básico que o analista forneça um espaço livre, no qual o paciente possa expressar livremente suas emoções e desejos reprimidos. Uma prática caracterizada pelo fenômeno. Portanto, ao invés de encerrarmos a janela no tratamento da toxicodependência na abordagem psicanalítica, abrimos todas às portas para uma análise mais aguda e cavada, onde os conceitos e teorias que sustentam a prática podem se desdobrar, integrar e iluminar sob aspectos anteriormente escuros da influência das substâncias psicoativas. Essa interpelação exige sim uma compreensão delicada e um compromisso com a complexidade da psicodinâmica da dependência, permitindo uma aproximação terapêutica mais eficaz e compassiva. O dependente como indivíduo da contemporaneidade tem a ver com o nome dado, ele(a) está(ao) inscritos, assim, como uma forma de designar uma prática; a toxicodependência, neste ponto, ele(a) nasce como um(a) protagonista; o dependente. Ele(a) deseja provar pelo consumo de drogas ou outras substâncias que o inconsciente não existe. Não é, portanto, um sujeito que está presente, senão aquele que se estabelece como uma figura pela sua prática, é independente desse lugar que ocupa ao afirmar sua adição e compulsão necessária para escapar à função fálica, essa que deseja extinguir do âmbito do concreto, escapar da dimensão do gênero. Essa fantasiosa estratégia que estabelece, lhe possibilita suportar dita convivência insustentável com o mal-estar na cultura. Dizer que ele não é um sujeito... falar que ele(a) não está nas leis do significante e que está sujeito às leis do inconsciente, e, portanto, uma narrativa que precisa ser encampada no terreno do desejo. O ''Outro'' não existe, e suas representações éticas subsistem como um condicionamento do próprio sintoma, uma vez que ele(a) esta fixado como sujeito pela prática e não pelo fenômeno em si. As dependências sejam tóxicas ou não, aumentaram sensivelmente na nossa sociedade a um ritmo frenético, difícil de medir, mais sabemos que é um grande problema de saúde pública. Diante desta situação a psicanálise tem muito a contribuir e dizer, ajudamos a compreender o tema sob uma visão muito singular, aquela que se passa com a pessoa por detrás da toxicodependência que ninguém quer ver. Temos ferramentas de articulação teórica e prática na clínica, capazes de responder à altura desta situação preocupante, que se faz presente em todas as camadas da sociedade sem nenhuma diferenciação. Ao poema; Não é o vício — Fernando Pessoa. Não é o vício Nem a experiência que desflora a alma: É só o pensamento. Há inocência Em Nero mesmo e em Tibério louco Porque há inconsciência. Só pensar Desflora até ao íntimo do ser. Este perpétuo analisar de tudo, Este buscar duma nudez suprema Raciocinada coerentemente, É que tira a inocência verdadeira Pela suprema consciência funda De si, do mundo, de todos. Guarde, guarde Fora do vício e do vil mundo além Em gruta ou solidão o eremita; Se o pensamento vir tudo (...) Pensar, pensar e não poder viver! Pensar, sempre pensar, perenemente, Sem poder ter mão nele! Ah eu sorrio Quando às vezes eu noto o inconsciente Riso vazio do bandido, Rindo-se da inocência! Se ele soubesse O que é perder a inocência toda... Não a inocência vã do corpo ao olhar, Ou vulgar e banal conhecimento, Mas a inocência bela do viver; De sentir — seja mesmo como ele Esse (...) escravo do deboche-seja! Sentir um sentir que abertamente Se não ache vazio. O Tédio! O Tédio quem me dera Tê-lo! Se os (...) Soubessem o que eu sinto. Eles não pensam E eu... e eu... Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- Sonhos Eróticos.
“Os sonhos eróticos, são janelas para o mundo inconsciente, revelando desejos e conflitos disfarçados à luz da nossa consciência.” Dan Mena. Por Dan Mena. O quê está por trás dos sonhos eróticos? Frequentemente interpretados como expressões de nossas fantasias sexuais reprimidas, eles vão além das simples representações de desejos circundados. Embora possam parecer surreais, em algum momento tecemos o enredo da sua realização sob algum tipo de dissimulação. Como projeções do inconsciente que são, se apresentam pela via de caracterizações simbólicas, muitas vezes impensadas, aquelas que não conseguimos enfrentar no contexto do concreto, destarte, sua elaboração também insere estruturas conectadas com ansiedades, medos e anelos não realizados. Essas manifestações não devem ser lidas textualmente, mas sim como metáforas psíquicas complexas do nosso mundo interior. Há uma diferença sutil entre fantasias e sonhos eróticos, por essa razão é vital distinguir que; abstrações são desejos pensados ou imaginados mesmo que tenham sido sufocados e recalcados, já os sonhos, por outro ângulo, são manifestações do inconsciente que podem incorporar elementos excitantes e refletem preocupações mais labirínticas. Portanto, decifrar um sonho libidinoso meramente como uma concepção sexual reprimida é uma simplificação excessiva dos mesmos. A individualidade deles no ambiente feminino é particularmente desafiador devido à sua singularidade, cada mulher detém uma personalidade única, o que significa que seus apetites sensuais voluptuosos não podem se universalizar. Quando elas experienciam um determinado sonho que envolva tesão por ''outra(o)'', por exemplo; não configura precisamente uma atração lésbica ou desejo sexual genuíno pelo mesmo sexo, mas sim, pode envolver diversas inquietações ligadas a questões de identidade, pugnas com relacionamentos heterossexuais complicados, inquietações com o futuro é a insegurança emocional. Os homens por sua vez são objeto de estudos significativos, temos uma frequência erótica de escopos muito maior, se comparados com às mulheres. Os sonhos lúbricos masculinos são reiteradamente acompanhados de respostas fisiológicas, embalando áreas que devem incorporar e considerar não apenas a dimensão sexual, mas conjuntamente anexar sua psicologia individual como sonhadores luxuriosos. A interpretação dos sonhos eróticos requerem uma compreensão extensa e cavada da peculiaridade de cada indivíduo, bem como uma apreciação da sua riqueza simbólica, subjetiva, emblemática e tropológica das manifestações oníricas. O estudo contínuo, e sua investigação são uma janela fascinante para o mundo intrincado da nossa mente. Para a psicanálise, estão no centro primordial da nossa clínica, escutar e poder debruçar sobre suas narrativas pode ser um grande passo para o despertar do paciente, que mediado(a) pela técnica da associação livre, dará voz ao seu subconsciente. Dito assentamento, abrirá uma passagem libertadora ao desdobramento contínuo de descobertas e avanços em direção ao autoconhecimento. Boa leitura. Frequentemente misteriosos e enigmáticos, são uma janela para o reino do inconsciente. Na psicanálise, os sonhos ocupam um lugar indispensável como expressões matrizes dos desejos e embates que nos atravessam. Neste artigo, me proponho esquadrinhar e vasculhar eles, percorrendo esse exuberante espaço erótico, sob a minha visão e a companhia irrecusável de mestres renomados; psicanalistas como Freud, Jung, Lacan, Ferenczi e Melanie Klein, onde compreenderemos essa riqueza, ampliando nossa cognição sobre o tema. A importância deles para nossa teoria. A contextualização da relevância dos sonhos é fundamental para entender o papel que desempenham na teoria e na prática psicanalítica. Desde os primórdios da psicanálise, Freud reconheceu o valor dessas eclosões psicológicas como portas entreabertas para o inconsciente, uma área da mente inacessível à consciência, mas que é, absolutamente protagonista também na formação da personalidade. Os sonhos não são meras fantasias aleatórias ou produtos da mente que acontecem durante a vigília; são mensagens codificadas, repletas de significados. Sua análise, abrange a aplicação de uma técnica essencial, pela qual auxiliamos e guiamos o paciente a decifrar os sinais do sistema linguístico, os conteúdos de suas manifestações, concupiscências e excitamentos, ansiedades, traumas e oposições que podem estar ocultos. Eles nos permitem compreender, dar luz as esferas mais sondas da psique, articulando ditos desacolhimentos, recusas e rejeições, desagregações familiares, traumas e muitos outros panoramas que influenciam o comportamento e o bem-estar emocional. Além disso, essas exposições fornecem informações valiosas sobre o desenvolvimento psicossexual, as relações interpessoais e a dinâmica psicológica. A conjuntura dos sonhos na psicanálise são a base para a compreensão da relevância erótica na teoria freudiana. Oferecem uma visão valiosa e patrocinam insights sobre a sexualidade, transigem para que os indivíduos se compreendam mais e busquem uma maior harmonia entre o consciente e o inconsciente. É porque temos sonhos eróticos? Realização: São uma forma de realização de desejos frenados, onde a negação da sua aceitação para a moral social pelo consciente leva à sua expressão pelo conteúdo. Uma busca autêntica pela satisfação sexual reprimida, muitas vezes arraigada na infância. Censura e distorção: A restrição onírica; (conflito psíquico do sono provocado pelo recalque, onde ocorre uma diminuição do rigor da desaprovação e o aparecimento de sentimentos, representações, imagens desagradáveis, que podem ser justificadas por um fracasso nessa estrutura). Se referem ao processo de transformação dos conteúdos latentes (desejos reais), no sentido das acepções manifestas, (elementos dos sonhos). A crítica que fazemos de si, exame, juízo e julgamentos, atuam como um mecanismo de defesa que impedem que ditos impulsos intoleráveis cheguem à consciência. Nos sonhos com uma carga sexualizada, esses desejos podem ser mascarados por meio de emblemas, alegorias, ícones, metáforas e eventos simbólicos para evitar que o sonhador reconheça a verdadeira natureza do seu querer. Esse dispositivo instrumentalizado da condenação psíquica que fazemos, protege nossa mente consciente da angústia resultante da confrontação direta, que por N motivos não nos permitimos realizar de fato. Censura onírica sob um sonho erótico. Imagine um sonho lúbrico onde o cerceamento onírico está em ação, amparando a mente consciente de conteúdos que podem ser considerados insuportáveis para João. Neste caso: João é um homem casado de 41 anos, durante sua análise me compartilha um sonho sensual, voluptuoso, recorrente. Narra ele que se encontra em um lugar paradisíaco, sob uma paisagem exuberante, acompanhado de uma pessoa que lhe é familiar, más, o cenário e as ações são vagas e distorcidas. Embora perceba estar tomado por uma sensação de grande excitação e desejo no ambiente, o conteúdo implícito do sonho é obscuro e ambíguo. O sonho erótico de João ilustra sua censura onírica agindo. Os elementos do sonho, como a paisagem deslumbrante e a figura familiar, são os símbolos do seu desejo sexual e a atração que sente por X. No entanto, esse corte deforma e deturpa os detalhes específicos que poderiam ser os ditos considerados inaceitáveis ou limitantes para sua mente consciente, por tal razão são velados. Essa proibição impositiva de ver claramente o que está sob um marco reprovativo, desempenha um papel zelador na mente cônscia, que, ao mesmo tempo, permite dar vazão aos desejos eróticos para serem expressos de maneira mais confortável e emblemática. Em vez de apresentar o conteúdo concreto do sonho de maneira explícita a João, sua psique inconsciente utiliza símbolos e metáforas para transmitir o desejo sem o despertar ao julgamento, provavelmente moral e consciente. O cenário exuberante e a figura familiar representam a aspiração sexual de João por alguém conhecido… que nesse momento não tem rosto, más, a mente inconsciente disfarça esses elementos dele para evitar uma confrontação direta com suas próprias fantasias. Isso permite que ele compreenda seus desejos de uma maneira menos agressiva para seus princípios e padrões sociais estabelecidos no percurso da sua vida. O autoexame e juízo onírico, surgem como um vínculo na manifestação dos quereres para salvaguardar a mente consciente de João, assim como; sentimentos de vergonha, culpa, humilhação, desonra e ansiedade que podem estar associados a eroticidade dessa quimera utópica que o atravessa. Os ícones que despontam nesse sonho cíclico e repetitivo, permitem que seu inconsciente se comunique de maneira mais segura, sem ativar a censura. Ao decodificar seus sonhos pela análise, ditas alegorias e translações presentes vão ganhar clareza, oferecendo informações sobre sua psicologia sexual. A partir dessa elaboração, poderá trabalhar na resolução de quaisquer conflito, desassossego e inquietações relacionadas a sua sexualidade, intermediado por uma ferramenta de autorregulação que permitirá a expressão controlada dos seus desejos. Repressão sexual: É o processo pelo qual desejos e impulsos são mantidos no inconsciente, longe da consciência. A desaceitação sexual envolve o ocultamento de desejos considerados imorais pela sociedade ou pela própria pessoa. Destarte, podem estar relacionados a experiências infantis, tabus familiares, desenvolvimento social rígido e a cultura. Funcionam como uma válvula de escape, facilitando e propiciando que sejam temporariamente liberados no mundo dos sonhos, onde a reprimenda será relaxada. Complexo de Édipo e incesto: Descreve a dinâmica das relações familiares, particularmente em relação à sexualidade infantil. Crianças experimentam desejos sexuais inconscientes em relação a um dos pais, (Complexo de Édipo) e sentimentos ambivalentes em relação ao outro. Esses sonhos eróticos muitas vezes refletem essas complexas dinâmicas de laços estreitos e a tensão relacionada à sexualidade infantil. Os desejos sufocados em torno dele, podem emergir nos sonhos sob a forma de imagens e situações sexuais altamente libidinosas. Liberação controlada: Estabelece uma forma de desonerar a libido de maneira regulada e segura. Emancipa e independiza via uma desopressão, lugar onde os indivíduos podem se permitir experimentar suas fantasias sexuais sem os riscos e as consequências associadas à expressão direta de tais desejos. A psicanálise sugere que os sonhos transitam como um redutor indispensável da pressão e da tensão decorrentes da repressão dos desejos, o que, por sua vez, pode contribuir sensivelmente para o bem-estar emocional. A deformação onírica. No âmbito da análise psicanalítica, emerge uma constatação recorrente: a presença de sonhos de natureza erótica que antecedem o ato sexual, são permeados pela incapacidade notável de esconder a identificação, feições das mulheres que protagonizam esses enredos oníricos. Esse fenômeno é acompanhado por desafios consideráveis na realização de relações sexuais satisfatórias. Estas podem ser marcadas por frustrações decorrentes da inabilidade do homem em efetuar uma penetração precisa, pelo despertar abrupto motivado por angústias intensas ou pela prolongação indefinida de carícias e beijos que não culminam na consumação do orgasmo e o ato sexual. A vivência desses sonhos inquietantes muitas vezes lança os indivíduos em estados de exaustão, fadiga, sudorese e, ocasionalmente, em taquicardia. No referencial teórico da psicanálise, o cenário do indivíduo incapaz de discernir o rosto feminio em seus devaneios noturnos é paradigmático de uma deformação do conteúdo imaginoso. Essa alteração de deformidade, pretende primordialmente preservar o anonimato da fêmea, objeto dos pensamentos libidinosos, certamente enraizados em fantasias incestuosas, conectadas a figuras maternas, irmãs, tias, entre outras. Esse desvio, surge como uma estratégia psíquica para evitar a clareza da identidade da mulher envolvida, uma tentativa de conter os desejos proibidos que aparecem nas diversidades psicossexuais. O despertar súbito, por outro lado, sugere uma primeira percepção da incongruência entre a situação retratada nos sonhos e a figura feminina mencionada. Este colapso onírico é acompanhado quase sempre por uma crise de angústia, que se configura como uma resposta emotiva da mente à concretização desse ato proibido. Indivíduos que enfrentam a impotência sexual, associam suas abstrações incorporando representações delas, um exemplo; sonhar com armas de fogo defeituosas resultando em disparos ineficazes na hora do uso. Esses lampejos lúbricos se traduzem na crença de estar empunhando uma arma qualquer, que no momento de acionar o gatilho se transforma em um objeto inócuo, como um pedaço de ferro, uma madeira ou objeto plástico. Ditas vinculações simbolizam a insuficiência do sujeito em relação à sua impotência e irresolução sexual. A configuração desse cenário é produto de reflexos conflitantes interiorizados, sentimentos de inadequação, ansiedades associadas à sexualidade, também a falta de potencia, desempenho adequado e necessário ao ato sexual. Sinalizações desta natureza, proporcionam uma fonte de compreensão das heterogeneidades psicológicas. “Os sonhos representam uma espécie de realização de desejos, como as pessoas sempre mantêm a esperança de que os seus desejos secretos possam ser satisfeitos neles”, (Freud, 1900). Nessa dimensão, os sonhos eróticos podem ser entendidos como ocorrências da repressão, censurados pelas normas sociais e tabus. Encontramos nos sonhos um porto de liberação controlada, onde o indivíduo pode navegar pelo seu subconsciente em profundidades emocionais e sexuais. O universo das fantasias de Klein. Klein acreditava que os sonhos eróticos tinham raízes escavas nas quimeras inconscientes, particularmente aquelas ligadas a objetos parciais, como seios, pernas e genitais. Em sua obra; “O Sentimento de Solidão e a Fantasia,” investiga e afirma, que às manifestações das ansiedades no plano subconsciente advêm das fases mais precoces da vida; “Os sonhos eróticos nos revelam a riqueza do mundo fantasmático do inconsciente, onde objetos parciais desempenham um papel peremptório nas fantasias.” Posições psicológicas precoces como sementes. O conceito de ''posições psicológicas prematuras'', destacam a conformação esquizo-paranoide e a situação depressiva como fases críticas no desenvolvimento infantil. Na paranoide, a criança vive um mundo de ambivalência, onde amor e ódio se entrelaçam, moldando as primeiras líbidos. Abstrações de perseguição, desconfiança e delírio afloram nesse estágio, declamando o turbilhão emocional do infante ao se confrontar com suas próprias emoções intensas. Na acomodação depressiva, eles internalizam uma compreensão mais sofisticada do mundo, reconhecendo a mãe como uma figura separada com sentimentos próprios. Ilusões que se apresentam nessa etapa, refletem uma interação complexa de culpa, remorso e desejo de reparação. A criança, agora mais consciente das consequências de seus impulsos hostis anteriores, tece teimosias de reconciliação e cuidado, tentando equilibrar os desejos destrutivos com a necessidade de conexão materna. Um aspecto essencial das fantasias se localizam na ambivalência afetiva e emocional. Envolvem sentimentos de embate de amor e ódio em relação às figuras parentais ou objetos de desejo. Essa obscura imprecisão, dá origem a narrativas internas herméticas e embaraçadas, onde a mesma pessoa ou objeto da volúpia, pode ser tanto amada quanto temida, refletindo a natureza contraditória das nossas emoções. Essa duplicidade das concupiscências, onde os elementos podem assumir significados múltiplos e variados, permitem que os mesmos se adaptem e evoluam, refletindo a fluidez dos afetos e a capilaridade da mente em criar narrativas multifacetadas. Se entrelaçando com essas elucidações temos as pontes dos ''objetos transicionais''. Esse conceito ampliado, inclui brinquedos ou objetos de apego, que se interpõem a expressão das fantasias infantis. Eles servem como vínculos conectivos entre o mundo interno e externo da criança, permitindo que ela percorra e processe suas emoções de maneira segura. Ao investir significado nesses objetos, criam um espaço resguardado para experimentar seus encantamentos sexuais e ilusões, os ajudando a lidar com emoções superabundantes e a desenvolver habilidades emocionais essenciais. Ao mergulharmos na conceituação kleniana dessas ideias, podemos apreciar o latente capital da elaboração precoce das manias infantis, aquelas que ampliaremos como adultos, mas também, mostram a capacidade altamente criativa da mente adaptada ao longo do tempo, na insondável jornada como sapiens. O prisma dos arquétipos de Jung. Jung escreveu em; "O Homem e Seus Símbolos": "Os sonhos eróticos são uma manifestação da busca pela totalidade, um anseio por integrar o masculino e o feminino dentro de nós." A visão dele enriqueceu a discussão sobre sonhos eróticos ao incorporar o sentido dos arquétipos, explorando como os símbolos nos sonhos refletem nossa busca por integridade e individuação. Sonhos não são apenas manifestações de desejos individuais, mas também, expressões de arquétipos, padrões universais inerentes à psique. Dentro do seu espectro, se manifestam como imagens e narrativas que transcendem as nossas experiências pessoais, tocando em algo fundamentalmente universal para o ser. A sexualidade para Jung, é um elo ligado aos esquemas de ambos os sexos, que encontram eco nas histórias mitológicas, nos contos de fadas, que permeiam o imaginário coletivo. Assim, os sonhos eróticos são encarados como uma simbiose desse arcabouço, enunciando não apenas os desejos individuais, más, aspectos atemporais da nossa condição. Preciso acrescentar a substância da ''caracterização da sombra'', representada pelos panoramas negados pela mente. Esse fantasma espectral, pode se manifestar na forma de desejos proibidos, tentações, tesão, lubricidades que nos escalam, e não estamos dispostos a reconhecer conscientemente. Funcionam como convites para integrar esse lado oculto do self, que anseia por um equilíbrio entre os impulsos reprimidos e a expressão saudável da sexualidade. Conteúdos como a ''anima'' (a representação feminina no inconsciente masculino) e ''animus'' (a representação masculina no inconsciente feminino), são figuras arquetípicas que podem aparecer como amantes misteriosos e sedutores, espelhando a busca pela completude dos opostos dentro de cada indivíduo. Anima: A “anima” é o arquétipo feminino no inconsciente coletivo dos homens. Ela representa os aspectos femininos inatos na psique masculina. Todo homem tem uma parte feminina em seu inconsciente, que se manifesta através da anima. Não se refere apenas às mulheres reais que um homem conhece, mas também às qualidades femininas, emoções e padrões de comportamento que existem dentro dele. Incorporar a anima é um processo importante para o desenvolvimento psicológico do homem, o auxiliando a entender e aceitar melhor sua parte composta de natureza feminina. Animus: O “animus” é o arquétipo masculino no inconsciente coletivo das mulheres. Ele corresponde aos aspectos masculinos inatos na psique feminina. Assim como os homens têm uma anima, as mulheres têm um animus. Se manifesta mediante pensamentos, ideias e características masculinas na psique da mulher. Sua agregação envolve aceitar esses aspectos masculinos internos, permitindo que a mulher equilibre sua mente e desenvolva uma cognição mais completa de si. Ditas conexões entre o inconsciente coletivo, que é inato e geneticamente determinado desde o nosso nascimento, e, o inconsciente pessoal, moldado pelas experiências individuais ao longo da vida. Ambos fatores, abrigam padrões universais, arquétipos e temas comuns compartilhados por todos, incluindo símbolos e mitos recorrentes. Por contraste, o inconsciente individual é singular para cada ser, formado por vivências, memórias, traumas e pensamentos específicos acumulados ao longo do tempo. Animus e Anima, atuam como mediadores entre essas camadas do inconsciente, emergindo em elementos como sonhos, imagens e emoções, aproximando conteúdos do inconsciente coletivo para o pessoal. Esses processos promovem a harmonia na psique, possibilitando uma compreensão mais completa do self, dos relacionamentos interpessoais e do ambiente circundante. Sonhos eróticos são ferramentas de crescimento pessoal. O objetivo final da terapia psicanalítica é o processo de individuação, uma jornada de inclusão e desenvolvimento pessoal. Os sonhos eróticos com sua carga simbólica e arquetípica, desempenham um papel decisivo nesse processo. Ao enfrentar os significados profundos desses sonhos, o indivíduo pode alcançar uma compreensão mais assertiva de si, consentindo os diversos enfoques de sua sexualidade e identidade. Eles não apenas revelam os desejos ocultos, mas também oferecem um portal para a psique. Ao mergulhar nessas imagens oníricas, podemos descobrir não apenas nossas paixões mais íntimas, mas também os contornos da nossa condição, oferecendo assim uma visão fascinante e enriquecedora da sexualidade. Dan Mena: “Ao serem desvendados os sonhos eróticos, descortinam não apenas os anseios individuais, mas também os prismas da sexualidade para a percepção da diversidade e o emaranhado das experiências eróticas.” O Simbólico e o Imaginário. Lacan, em seus escritos de; “Os Escritos Técnicos de Freud”, cita; “Os sonhos eróticos são arenas, onde o sujeito confronta seu desejo e a Lei Simbólica. Eles desenham a tensão entre o desejo individual e as normas sociais”. São expressões do inconsciente estruturados pela linguagem, onde o simbólico e o imaginário desempenham suas atuações significativas. “Os sonhos eróticos são uma encruzilhada, onde o sujeito contrapõe, acareia interesses sexualizados e as normas sociais, uma dança complexa entre o desejo pessoal e a volúpia do ''Outro''”, dito entendimento, é, meticulosamente explorado nessa obra magistral. A linguagem é a chave para desvendar o universo dos sonhos eróticos, não é apenas um meio de comunicação, más, um sistema icônico que molda nossa percepção da realidade. Tanto as imagens sensuais como às experiências eróticas são expressas por metáforas, evidenciando os quereres das camadas fundas do inconsciente. Observar pela linguagem onírica, pode destapar não apenas excitações sufocadas, mas também, dissidências sexuais e emocionais. Em ''O Estádio do Espelho'' e a ''Sexualidade: Reflexos Profundos nos Sonhos Eróticos'', avança na formação da identidade e do ''eu'', a partir da percepção do próprio corpo. Esse lugar, onde o fisiológico se torna um terreno fértil para a expressão das ansiedades sexuais. Imagens eróticas refletem não apenas líbidos reprimidos, senão que acrescentam inseguranças e aspirações relacionadas à nossa imagem projetada. O modo como o captamos no sonho erótico revela enleios, mas também a autoimagem. A mente é dividida em três registros interconectados: o simbólico, o imaginário e o real. Nesses registros se entrelaçam, o simbólico, que representa o mundo da linguagem e dos significados culturais, eles moldam como interpretamos traquejos salazes. O imaginário, por outro lado, está relacionado às imagens e assanhamentos que surgem na lascívia, encapsulando as idealizações psicológicas dos desejos sexuais. Por último, o real é o diagrama gravado no arquivo mais elusivo, porque trata do know-how puro e imediato, muitas vezes inexprimível em palavras. O real se manifesta de maneira intensa e visceral, sensações, sentimentos e vontades são escrituradas no sonho erótico, de fato, experiências concretas, a apesar da sua natureza fantasiosa. Ao explorar este tema, especificamente através da lupa simbólica do imaginário e do real, se descortinam o hermetismo e a obscuridade da perícia erótica e suas interseções evidentes com o inconsciente. Contemplar os domínios da sexualidade entre a linguagem e a imagem corporal e se apropriar de uma bagagem lídima do terreno psíquico. No “O Seminário, Livro 5: ''As Formações do Inconsciente”. Faço uma observação quanto que essas citações abaixo são uma interpretação minha, já que o estilo de escrita de Lacan é denso e altamente teórico. “A sexualidade é uma das maneiras pelas quais o sujeito toma forma no desejo do ''Outro''.” “A sexualidade é o ponto de partida e o de chegada da análise.” “O inconsciente é estruturado como uma linguagem. A sexualidade é o campo em que essa estruturação é mais claramente observada.” Dan Mena, inspirado em Lacan. Trauma, sedução e sonhos eróticos. Nas experiências traumáticas na infância e sua manifestação dos sonhos eróticos na vida adulta gosto de abeirar com Ferenczi. Ele escreveu em; “A Confusão da Língua entre os Adultos e a Criança”: onde cita; “Os sonhos eróticos frequentemente têm raízes em episódios traumáticos da infância. Representam uma tentativa de lidar com o trauma e sua influência duradoura”. São uma forma de autoanálise, mediante uma tentativa de elaborar e resolver perícias impactantes infantis. Em sua obra, mergulha nessa relação de eventos perturbadores, nessa fase e a sua posterior manifestação dos sonhos sexuais transladados a vida adulta. Estes provocam um abalo, abrem uma ferida extensa na psique, que esculpe e modela como os desejos e esses embates amadurecem. Traumas específicos, especialmente aqueles relacionados à sexualidade e ao abuso pueril, podem se tornar sementes sólidas para a formação desses combos eróticos perturbadores. A comoção pregressa, age como um catalisador, transfazendo o(s) ato(os) em imagens oníricas que buscam de alguma forma processar essa investida traumática original. A dificuldade primitiva fundamental de comunicação entre a criança e o mundo adulto, em particular em situações onde ocorre o abuso ou trauma. Quando uma criança é exposta a experiências sexuais inadequadas, sua capacidade de articular a sexualidade fica severamente limitada. O emblemático dessa(s) circunstância(as), é assim internalizado de maneiras que escapam à linguagem e ao discernimento verbal. Essa confusão da narrativa desse encontro, e sua impossibilidade de se fazer locução se profere de maneira simbólica. As imagens, sensações e as emoções são transpassadas aos sonhos, que se tornam a própria linguagem, via uma tentativa do inconsciente de expressar o indizível, de processar o trauma de maneira a se evadir, fugir daquilo que escapa ao domínio consciente. Assim, os sonhos eróticos se transformam em uma arena onde o trauma infantil encontra uma voz silenciosa, mas poderosa, criando um terreno onde a experiência traumática é revisitada e, talvez, reinterpretada. O papel do analista na análise do tema na infância, necessita de uma escuta muito personalizada, empática e cuidadosa. Se tornar um guia para o paciente ou ajudar a traduzir a sua singularizada oculta linguagem é uma tarefa árdua e laboriosa. Ao criar um ambiente seguro e de confiança, penetramos a exegese do conhecimento das imagens devaneantes, que podem levar a uma resolução terapêutica conclusiva. ''Sonhos eróticos são como peças de um quebra-cabeça, quando interpretados adequadamente proporcionam esclarecimentos importantes. Eles desafiam as fronteiras entre o consciente e o inconsciente, o desejo, a repressão, o individual e o coletivo. Ao serem assimilados abrem a porta para a integração psíquica''. Dan Mena (2023). Nesse mundo misterioso, encontramos um reflexo do que somos, do que fomos e do que poderíamos ser. Como psicanalistas, continuamos a sondar esses abismos e continuar a jornada. Os sonhos como a ''Via Régia'' para o Inconsciente. Freud dize com sagacidade: “Os sonhos são a via régia para o inconsciente.” Essa afirmação se fundamenta na tese freudiana de que são portadores de desejos ocultos e pensamentos reprimidos, oferecendo um vislumbre do inconsciente. Ao integrar eles na prática analítica, psicanalistas podemos trabalhar os enigmas da mente, revelando anseios e traumas há muito esquecidos. Vejamos outras frases de psicanalistas; Dan Mena: “Sonhos eróticos nos permitem adentrar nos paradoxos da libido, onde o prazer e a repressão coexistem em múltiplas camadas de significado, presentes nas manifestações do desejo sexual.” Carl Jung: “Os sonhos eróticos podem servir como mensagens da psique, indicando a necessidade de equilibrar a anima e o animus para atingir a totalidade.” Melanie Klein: “A análise dos sonhos eróticos nas crianças pode nos ajudar a entender a formação de fantasias inconscientes e os primeiros conflitos emocionais.” Jacques Lacan: “Os sonhos eróticos são um campo fértil para explorar as dinâmicas do desejo, da linguagem e do simbólico.” Dan Mena: “Ao serem desvendados os sonhos eróticos, revelam não apenas os anseios individuais, mas também aspectos da sexualidade para a compreensão da diversidade e complexidade das experiências eróticas.” Sándor Ferenczi: “Os sonhos eróticos na vida adulta podem estar relacionados a experiências traumáticas na infância e à falta de simbolização adequada.” Anna Freud: “Os sonhos eróticos desempenham um papel na fase de latência, permitindo à criança explorar suas próprias curiosidades sexuais enquanto mantém a modéstia social.” Nancy Chodorow: “A análise dos sonhos eróticos nos ajuda a compreender a formação das identidades de gênero e a influência das relações interpessoais na sexualidade.” Dan Mena: “A interpretação dos sonhos eróticos nos convidam a investigar os impulsos inconscientes e as normas culturais, demonstrando como as fantasias sexuais desafiam as convenções sociais e revelam nosso desejo por liberdade e autêntica expressão.” Em todos os sonhos há um desejo reprimido. No entanto, os sonhos eróticos também tendem a disfarçar outros aspectos relacionados com os nossos medos e ansiedades; questões que reprimimos por medo de as enfrentar ou assumir. Como os psicanalistas interpretamos sonhos, na prática? A interpretação de um sonho no trabalho analítico consiste em deduzir o significado latente do conteúdo do sonho manifesto. Utilizarei um exemplo lúdico é muito recorrente na clínica. Se imagine sonhando a seguinte situação… você está num determinado local, no meio de uma multidão, onde têm pessoas desconhecidas e estranhas ao seu convívio. Nesse ambiente, não existe a moral nem o controle social, portanto não existem julgamentos, chacotas, acusações, gozações, a estética não conta nem é classificada, categorizada, encarada ou reputada. Nesse enquadramento, você estaria livre, experimentando de certa forma uma condição verdadeira, primitiva e original ao ser nos seus primórdios. Assim, o sonho se assemelha a um certo paraíso conhecido, onde todos estão nus e não há constrangimento em relação ao corpo alheio, nem ao ''outro''. Adentrando numa possível interpretação do analista: esse cenário poderia evocar o medo de expor uma fragilidade ou de não corresponder às expectativas impostas sobre si, ou pelos outros. Sonhos exibicionistas ostentam uma representação da infância do sonhador, uma fase, na qual não sentia vergonha, inibição, timidez, bloqueios ou fabulações. Esse cenário, onde não há restrições morais ou controles sociais e urbanos, pode espelhar um anseio por uma impossível e suposta conquista de liberdade, isenta de julgamentos externos que podem estar moldando interações diárias desse indivíduo. Podemos seguir depreendendo; o sujeito pode estar atravessando uma fase de grande pressão sob sua personalidade, desejando se encontrar com a autenticidade, a verdadeira essência que nesse momento está disfarçada. O ambiente, desprovido de roupas e de padrões estéticos, sugere uma necessidade dele(a) retornar às suas origens simples ou uma situação passada, tida como ideal, feliz ou suprema. Estar nu, pode iconizar a exposição da sua vulnerabilidade, se revelando sem as máscaras que precisou levantar para se proteger do julgamento coletivo. Seguimos… a ausência de constrangimento em relação ao corpo alheio, indica uma aceitação do próprio corpo e uma desaparição de comparações ou a implicância de competições externas. A liberdade que o sonho lhe proporciona nesse estado de nudez, reflete um desejo acentuado de ser aceito(a) e amado(a), pelo que se enxerga no sonho genuinamente, sem as camadas de expectativas externas que muitas vezes o(a) afastam da verdadeira identidade. ''Esse traslado possível, um retorno a nossa essência, pode servir como um lembrete poderoso da necessidade de aceitar e abraçar nossas vulnerabilidades, reconhecendo que a verdadeira fidedignidade conosco reside na aceitação de quem somos, sem os fingimentos, hipocrisias e disfarces que tentamos articular para nos encaixar socialmente ou agradar a outros''. Dan Mena. Freud nos alertou para os perigos do que chamou de “delírio interpretativo” ou “interpretação selvagem”. Para evitar cair nessa armadilha principiante, aconselhou que os analistas seguissem uma série de regras estritas, incluindo a precaução de não interpretar enquanto o sujeito está dormindo, pois isso poderia levar a resultados imprecisos. Cada símbolo pode ter um significado específico, seja relacionado a desejos sexuais, traumas infantis, ressentimentos maternos, anseios por sucesso social e profissional ou qualquer outra manifestação do inconsciente. Destarte, eu tenha colocado nesse modelo ''uma'' plausível significação com diversos ângulos embaçados na narrativa do paciente, de forma alguma será uma regra para outros iguais ou similares, apenas a título de exemplificação. Exercer cautela ao aceitar literalmente todas as compreensões possíveis e seus aspectos oferecidos, é o preceito fundamental, estas, se baseiam na experiência pessoal do analisando. Portanto, tais considerações podem ser precisas para os indivíduos aos quais se aplicam, mas não necessariamente vão se ajustar a outras que não foram ouvidas no seu dizer na análise. Quando os sonhos não devem ser interpretados a título geral? Fisiológicos: Causados por estímulos físicos externos, como barulhos, luzes ou desconforto físico, e não têm origem no conteúdo do inconsciente do paciente. Reminiscência: Que são simples repetições de experiências vividas recentemente e não envolvem conflitos ou questões inconscientes. Tautológicos: Aqueles que simplesmente se repetem, ou que já é conhecido pelo paciente. Traumáticos recentes: Os que envolvem eventos traumáticos muito recentes e o paciente continua no processo de elaboração, onde é aconselhável serem deixados de lado até que o paciente esteja pronto para lidar com eles. Censurados: Sonhos, claramente censurados e distorcidos pelo próprio paciente, o que pode indicar resistência ou dificuldade em enfrentar certos aspectos do inconsciente. Quando um indivíduo desvenda o sentido oculto de seus sonhos, traz à luz elementos do seu subconsciente, permitindo, no âmbito da psicanálise, a resolução de seus embates interiorizados. Ao analista se atribui a pauta de comunicar ao cliente o entendimento, elações e sentido das narrativas emblemáticas, atribuindo esses ícones à sua própria experiência pessoal. Neste ponto, o paciente toma posse desse significado, o integrando a sua experiência e se tornando consciente da interpretação. Determinados padrões coexistem no subconsciente coletivo, que vão sendo esculpidos ao longo da trajetória da nossa civilização, sinalizando com aspectos, ângulos e leituras compartilhadas universalmente pela maioria. A interpretação individual desses conceitos muda conforme a situação vivida por cada pessoa e situação específica. Vejamos alguns símbolos com suas possíveis conexões; sonhar com… Uma aranha — mãe, par, esposa dominadora ou alguém importante com características parecidas. O mar — o ventre materno como o ciclo existencial da vida. Uma igreja ou capela — a figura maternal, porém protetora e não possessiva. Itens afiados que adentram na mulher, facas, espadas, armas, um pico elevado — o órgão masculino. Ser, sonhar em ser prostituta ou uma delas estar no sonho — caprichos e desejos sexuais não realizados. Mulher sensualizada, sexy, bonita — anseio por autonomia sexual, remorso e insegurança pessoal. Profissionais do sexo — desejos sexuais insatisfeitos ou não realizados como fantasiados, autoestima frágil e dúvidas em relação ao seu desempenho sexual. Homens, sonhar com prostitutas que implicam pagamento — baixa autoestima e falta de confiança em sua capacidade sexual. Intimidade com o parceiro — reforçam a atração sexual por ele(a), ao passo que com terceiros, insatisfação sexual no relacionamento habitual. Infidelidade — medo do envelhecimento, declínio sexual e a necessidade de se manter jovem, sedutor(a) e atraente. Indica receios em relação a compromissos e obrigações. Infidelidade — uma forma de escapar de uma relação que não é mais estimulante. Incestuosos — falta de maturidade emocional, traumas passados de abuso sexual, saudade das nossas origens, o anseio por um novo começo numa relação. Homossexuais — geralmente não têm um valor terapêutico significativo, uma vez que o inconsciente é livre de restrições morais e preconceitos. Sexo público — desconforto com o corpo. Noite violenta — desejo de libertar-se da opressão da vida cotidiana. Sonhar com ex — carência afetiva na relação atual, fim de relacionamento com feridas mal resolvidas, insegurança ao iniciar um novo relacionamento. Qualquer um de nós pode ser envolvido por um delicioso sonho erótico que revele não apenas fantasias dominantes, mas também mensagens ocultas e, por vezes, pequenas perversões. Esses devaneios noturnos, por mais desconcertantes que possam ser, servem como portais para o entendimento íntimo da nossa energia sexual, dos relacionamentos e de nossa postura, aquela que adotamos em relação à sexualidade. Nem todos esses cruzamentos oníricos são agradáveis; alguns, de fato, podem ser profundamente desconfortáveis, evocando sentimentos de vergonha, humilhação ou desprazer. No entanto, é na conscientização destes fragmentos de nossos desejos e medos que encontramos uma oportunidade única para o autoconhecimento. Ao registrar esses traquejos em seus detalhes mais privados, podemos desenredar camadas ocultas do nosso psiquismo. Cultivar a lucidez nos sonhos, a habilidade de discernir o que sonhamos enquanto ainda imersos no mundo devaneante, é uma técnica valiosa. Em meio aos símbolos e metáforas florescentes que compõem a linguagem dos sonhos, os de natureza erótica se manifestam como alegorias de nossas emoções, afetos e situações cotidianas. Vistos sob uma dimensão cuidadosa, lançam uma luz intensa sobre nossos verdadeiros sentimentos em relação a outras pessoas ou a determinadas situações. Assim revelam obstáculos e desafios que de forma consciente ou inconsciente precisaremos em algum momento superar. A prática de criar nossas próprias fantasias sexuais antes de adormecer não é apenas eficaz para invocar o lúbrico e salaz, mas também nos oferecem a capacidade de moldar encontros com o perfil de nossos quereres. Somos dotados de habilidades incríveis, inclusive a de criar um cenário sensualizado sob medida, onde todas as possibilidades se desdobram diante de nós. Sonhos sensuais, quando vivenciados com consciência, não apenas proporcionam satisfação física e emocional, más, são uma forma segura e ilimitada de explorar a sexualidade. Como muito bem observou Calderón de la Barca, “a vida é um sonho e os sonhos são sonhos”, denotando, que a realidade vivenciada e o mundo em que adentramos quando fechamos os olhos para a vigília não são tão distantes, ao contrário, se fundem entre o desejo a fantasia e a imaginação. Ao poema; Sonhos Sensuais - Jonas Icaro. Sonhos Sensuais São Segredos Sinto Seu Suor Seus Sons Seduzem Sincronismo, Sexo! Seu Sofá Sabe Sensíveis Seios Sugo! Sorrio Sarcástico Sobe, Senta Sua Saliva Sinto Salgada Seus Sulcos Saboreio Sou Safado, Sei! Shiu! Silencio, Severo, Sereno, Simples, Sincero, Só Sativa Sem Stress Sono! Sonhos Sensuais. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- A Verdade.
A Verdade é uma Construção sob a Perspectiva de Lacan e a Influência da Linguagem. Desvendando a Verdade na Psicanálise. O Que é Verdade? "Eu, a verdade, falo" Lacan . Por Dan Mena. A Construção da Realidade Subjetiva. Experimentamos um certo deleite ao desafiar as normas do juízo, ao questionarmos as leis do entendimento e desconsiderar a lógica, por essa via somos levados a uma jornada muito intrigante. Essa satisfação se vê ampliada, quando verificamos que a verdade é permeada pela ambiguidade. A questão se devemos aceitar ou não suas consequências equidistantes, lugar do dilema ético, esse que tem confundido pensadores ao longo dos séculos. Ao proferirmos uma fala de maneira supostamente imprecisa ou assertiva; a pessoa que a ouve deve acolher as suas decorrências, independentemente do que foi dito? Por outro lado, há uma verdade última que merece ser compartilhada de forma inquestionável? A história revela, que a noção de veracidade é dinâmico, que evolui com o tempo de acordo com mudanças sociais e culturais. Ela não é uma entidade monolítica, mas uma construção articulada e multifacetada, cuja compreensão foi moldada por filósofos ao longo dos séculos. À medida que adentramos, tanto nas perspectivas antigas quanto contemporâneas, somos lembrados da necessidade contínua de uma reflexão e diálogo sobre a natureza do corpo linguístico. Ao examinarmos às diferenças distantes do que pode ser a verdade, encontramos diferentes planos de leitura. Platão, por exemplo, via a verdade como algo eterno e transcendental, uma realidade que transcende a sua indeterminação. Aristóteles, enfatizava a sua correspondência com a realidade, o que implica que ela seja dúbia, dependendo das circunstâncias. Kant, por meio de sua “Crítica da Razão Pura,” introduziu a ideia de que é talhada pela experiência e pela razão, sugerindo que a sua busca é inerente à natureza da compreensão do ser. Pensadores como Foucault, questionaram sua objetividade e argumentaram que é esculpida pelo poder e as estruturas de autoridade da sociedade. “A verdade é uma coisa deste mundo: ela é produzida apenas pelo conflito entre múltiplas forças.” Nas discussões sobre pós-verdade e desinformação, a sociedade atual lida com desafios crescentes em relação à sua natureza. A internet e as mídias sociais a tornaram vulnerável e suas interpretações ainda mais divergentes, susceptíveis a grandes manipulações. Na psicanálise é uma área de estudo fascinante, já que sua indagação é uma das forças motrizes por trás do próprio processo terapêutico. Lacan nos trouxe um novo enfoque que revolucionou todas as acepções ao introduzir sua caracterização pela linguagem e a estrutura simbólica. A verdade não é uma entidade fixa diz ele; ''uma construção que varia conforme o contexto e a narrativa do sujeito''. É sempre parcial e está sujeita à interpretação. “A verdade só pode ser articulada através das estruturas linguísticas e simbólicas que moldam nossa compreensão do mundo.” (Lacan, 1966). Não está para além da palavra; antes, a verdade para nós é produzida pela sua relação com ela mesma, como aquilo que se subtrai, dizer que algo também lhe escapa e gera por sim uma falta imanente, isto é, não transcendente. Essa verdade da qual nos apoiamos na clínica é aquela que foge a narrativa como um excesso da linguagem, mas na mesma medida que ela é dita. Boa leitura. “A verdade é inconclusiva, uma jornada entre o eu e o outro se entrelaçando num balaio de dualidades construídas pela interação com a linguagem.” Dan Mena. Transbordando a psicanálise, vejamos outros ângulos em suas diferentes formas; Correspondência: Sustenta que uma afirmação é verdadeira se corresponder ou se ajustar aos fatos ou à realidade objetiva. É uma das concepções mais comuns da verdade. Coerência: Foca na consistência lógica e na relação entre as afirmações. Segundo essa teoria, uma afirmação é verdadeira se ela se ajustar e for coerente com um sistema de crenças ou conhecimento mais amplo. Pragmática: Relacionada à utilidade e à eficácia de uma afirmação, na prática, está acoplada e agrupada à sua capacidade de funcionar de maneira eficaz em um determinado contexto. Relativa: Pode variar conforme o ponto de vista, cultura, contexto e percepção individual. O que é verdadeiro para uma pessoa ou grupo, pode não ser verdadeiro para outro/s. Subjetiva: Subjetivamente depende da experiência e da percepção individual, lugar onde alguém considera o verdadeiro, aquilo que está relacionado com sua perspectiva tridimensional de vida. Por que acreditamos sermos donos da verdade? Egocentrismo: Uma tendência natural de ver o mundo apenas do próprio ponto de vista pode nos levar a acreditar que nossas crenças e âmbitos são os mais corretos e coerentes. Isso nos faz sentir que estamos “certos”, por extensão, que possuímos e somos detentores da verdade. Segurança: Buscamos resguardo, salvaguarda, amparo e estabilidade, acreditamos que ao possuirmos a verdade nos apropriamos de uma falsa sensação de proteção e defesa, já que nossa estrutura cognitiva nos transmite uma inabalável conformidade para compreender o mundo, e assim nos sentimos protegidos. Confirmação: O viés confirmativo é a tendência de buscar, interpretar e lembrar informações de maneira a assegurar nossas próprias posturas preexistentes. Essa obliquidade pode nos fazer ignorar ou descartar informações que contradigam nossas inflexiveis opiniões, reforçando assim nossa enganosa convicção de estarmos absolutamente certos. Identidade e pertencimento: Nossa personalidade muitas vezes está ligada às nossas crenças e valores. A aceitação social e o sentimento de ser, de estar conectados a grupos com juízos e preceitos semelhantes podem nos levar a reforçar nossas próprias ambíguas verdades, como forma subjetiva de nos alinhar com dita comunidade, tribo, ideologia, religião, etc., aquela à qual pertencemos e nos identificamos. Desconhecido: A incerteza e o incógnito podem ser assustadores para muitas pessoas. Acreditar firmemente em uma verdade secular oferece uma sensação de fictício controle e previsibilidade, em um mundo que de outra forma seria absolutamente imprevisível e insuportável. Muitos acreditam ilusoriamente que podem controlar tudo, uma irônica utopia do sapiens. Educação e socialização: A forma como somos educados e socializados desempenha um papel importante em nossos prismas. As normas culturais, valores familiares e as influências sociais podem moldar nossa visão de mundo prematuramente, criando uma base falsa para a convicção, certeza e confiança que detemos a verdade sobre um determinado assunto ou pensamento. Autoafirmação: Necessidade de se sentir elevado(a) intelectualmente, social, profissional ou moralmente pode levar a um sujeito a se sentir fortemente sugestionado(a) pelo ar de superioridade. Isso pode ser uma forma de encontrar autoafirmação e reforço superficial da inexistente autoestima nele(a). Autenticidade e a construção da personalidade. Para além das teorias, é imperativo considerar a interconexão entre autenticidade e a construção da personalidade, uma questão de relevância medular na psicanálise. Este campo teórico-psicológico sustenta que a aceitação da verdade pessoal e a manifestação dela são impreteríveis para o desenvolvimento mental saudável. A negação ou distorção dela, pode incitar conflitos internos e impor desafios emocionais substanciais. Percorrendo os caminhos de Freud a Lacan, ambos apresentam diversas interpretações sobre como a genuinidade é percebida, forjada e decifrada pelos simbolismos e ícones. Compreender a noção de efetividade no contexto analítico, não apenas enriquece nossa compreensão da psique, mas também lança entendimento sobre questões fundamentais relacionadas à integridade, identidade e crescimento emocional. A exploração dessas múltiplas dimensões do que é real continua a oferecer um percurso singular em direção à autoconsciência. Com sua notabilidade, Lacan desempenhou um rol vanguardista, renovador, reformador e radical na redefinição das fronteiras entre essas duas pontes. Sua distinção e diferenciação desses dois domínios representaram uma contribuição única e, uma vez que, até então, a verdade necessitava de um ponto de ancoragem, um porto de referência em direção à realidade para ser validada. Assim, articula esse discernimento de maneira enfática em seu texto de 1956, “A Coisa Freudiana”, no qual introduz a célebre frase: "Eu, a verdade, falo". Dita discrepância promove uma operação sem precedentes, enquanto a verdade na maioria das vezes era vista como inacessível sem possuir uma amarração no concreto, assim ele a sustenta invertendo a lógica, onde dito dizer, aquele de cunho fatídico não está além da palavra; pelo contrário, é produzido pela interação com a própria linguagem. De acordo com essa escala, a verdade escapará à nossa verbalização, mas apenas enquanto ela é expressa. Dessa forma, na psicanálise a verdade não terá mais uma visão de mundo universal, más, será respectiva a experiência analítica. A verdade como estrutura da constituição do sujeito. Ao discutir a prática da experimentação perscrutadora, investigamos a ideia de que essa movimentação envolve percorrer pela estrutura da constituição do sujeito. Essa emaranhada lógica discursiva que nos habita, sugere que a verdade na prática terapêutica não é obter dela uma certeza sobre algo, mas sim, encontrar uma transparência que possa emergir através da linguagem e da sua interação com o discurso. Destarte se relaciona à subjetividade, não pode ser considerada de uma lisura relativa. Em vez disso, ela está intimamente ligada ao campo imaterial, etéreo e abstrato, emergindo da prática da fala e do exercício que fazemos da palavra. Portanto, transcende as dicotomias tradicionais da narrativa universal e particular da objetividade e subjetividade. A natureza da verdade na psicanálise sublinha o caráter inacessível por meios convencionais; “A verdade, em sua essência, não pode ser apreendida mediante representações padronizadas. Por esta razão, sou levado a afirmar que a verdade não é um dado passível de apreensão direta, algo que possamos capturar, senão que nos escapa da própria palavra.” Nesse sentido, provém sua dificuldade de ser expressa, verificada, ressaltando que excede o que pode ser comunicado de forma transparente. Esse postulado aborda a relação da fidedignidade com a abstração, impalpabilidade, incorporalidade, ela não é o que possa ser completamente compreendido pelo indivíduo. “Não podemos falar da verdade para o sujeito. Tal se apresenta como uma totalidade a ele, mais se inflama na própria falta e imprecisão das palavras.” Portanto, é o discurso; “A verdade emerge da interação da linguagem com a realidade, onde o seu dizer, é o resultado da articulação entre o simbólico e o real.” Aparece no inconsciente, seja por meio de um deslize verbal, um ato falho ou até mesmo um simples suspiro, sempre se manifesta e se mostra como uma irrupção inesperada. “Não podemos separar a verdade da interpretação. Cada observação é uma tentativa de chegar mais perto da verdade, mesmo que ela nunca possa ser completamente apreendida.” Algumas das principais características na concepção lacaniana incluem: Verdade e o inconsciente: A verdade sobre a psique está oculta no inconsciente, estruturado como uma linguagem, e que a verdade sobre os desejos e traumas mais profundos estão criptografados na linguagem simbólica. Portanto, seria a mesma algo que está escondido, reprimido e muitas vezes inacessível à consciência, logo inalcançável. A falta e a busca pela verdade: O conceito de “A Coisa” representa o objeto perdido ou ininteligível que está no cerne do nosso desejo. Esta falta estrutural, está ligada à busca contínua pela efetividade. Estamos constantemente remexendo para preencher essa ausência, muitas vezes através de formas simbólicas e culturais, mas a verdade nos permanece elusiva e inatingível. A relação com o ''Outro'': Em seu modelo do ''Estádio do Espelho'', Lacan justifica que a construção da identidade está ligada à relação com o outro. Essa demanda pela suposta realidade é influenciada pelas percepções e expectativas alheias. Na substância de; “o olhar do outro” podemos verificar como a dedicação e energia que concentramos em encontrar veracidade se esculpe e modela nas viabilidades de terceiros, sobre o que projetamos e quem somos. A verdade e o desejo: A interação entre eles está ligada à falta, à busca pelo real, visto que nossos quereres em última análise, são insaciáveis, porque a verdade é sempre parcial e inacessível. Na era digital. Adentrando na contemporaneidade temos uma variante absurda da verdade na era digital, fato que surge destacando os desafios únicos da disseminação massiva de informações online. Questões relacionadas à sua veracidade, ao fenômeno das notícias falsas, à manipulação de dados e à necessidade de desenvolver habilidades críticas para discernir o que é digno de autenticidade em um mundo informático cada vez mais interconectado. Esta época trouxe consigo uma revolução na forma como acessamos, compartilhamos e consumimos conteúdos. No entanto, essa sublevação também apresenta desafios, especialmente no que diz respeito à clareza dessas referências. O fenômeno das ''fake news'', se tornaram uma preocupação global, onde plataformas de mídia social e tecnologias de edição estão sendo usadas para criar e disseminar informações enganosas, criando um forte impacto no social, opinião pública e na política. Dados podem ser deturpados, invadindo questões de privacidade e segurança para promover agendas específicas. Por esta razão, se torna significativo o desenvolvimento pessoal de habilidades críticas do pensamento nesta era. Competências como a avaliação da fonte, a verificação dos fatos e a compreensão das técnicas de manipulação são imperativas para determinar a veracidade das dilucidações e explanações online. Devemos entender como essas implicações afetam o que poderíamos considerar verdade. Passaria isso pela confiança nas instituições? Que efeitos ela tem sobre a democracia e o nosso engajamento cívico? Estas são questões que precisam ser abordadas à medida que navegamos por um mundo de bits cada vez mais heterogêneo, aonde tudo se diluiu ainda mais, como anotei no início; ''a história revela, que a noção de veracidade é dinâmico, que evolui com o tempo de acordo com mudanças sociais e culturais'' é assim se propaga. Neste cenário em constante mudança, a ponderação contínua recaindo sobre a verdade, a ética e a integridade informativa repassada. essencial para uma sociedade digital informada e responsável. Algumas frases de psicanalistas que auxiliam na compreensão; “A verdade é como um eco distante que ressoa nas paredes do inconsciente, um som esperando ser ouvido e compreendido na busca da nossa autêntica identidade.” Dan Mena. “A verdade é como um quebra-cabeça psíquico, revelando-se gradualmente à medida que exploramos os recantos mais profundos do inconsciente.” Freud. “A verdade muitas vezes se esconde sob as camadas do recalque, esperando ser trazida à luz da consciência.” Freud. “A verdade é a jornada de integração, onde reconhecemos as partes ocultas de nós mesmos e abraçamos nossa totalidade.” Jung. “A verdade reside nas complexas dinâmicas das relações emocionais, onde os objetos internos moldam nossa compreensão do mundo.” Klein. “A verdade é intrinsecamente ligada à linguagem, onde as palavras e símbolos refletem a complexidade do eu e do outro.” Lacan. “Convidando a explorar a verdade nas sutilezas das relações terapêuticas, onde a empatia e a autenticidade desvendam as verdades escondidas.” Ferenczi. “A verdade é uma jornada de descoberta do self verdadeiro, desvendando as máscaras sociais que usamos.” Winnicott. “A verdade é como a interpretação de um sonho, onde os elementos latentes revelam nossa psique mais profunda.” Bion. “A verdade é encontrada na autenticidade das relações, onde o espelho do outro reflete nosso verdadeiro eu.” Kohut. Perguntas e respostas: O que é a verdade na psicanálise? Uma construção subjetiva que pode variar de pessoa para pessoa. Como se manifesta na linguagem? Lapsos verbais, atos falhos e símbolos linguísticos são considerados pistas para a compreensão das questões inconscientes. É absoluta ou pertinente? A verdade é relativa, ao estar ligada à experiência e à subjetividade de cada indivíduo. Não há uma verdade universal. Está oculta no inconsciente? Partes dela estão, de fato, acobertadas no inconsciente. Será sempre benéfica? Sua busca pode ser dolorosa, confrontá-la nem sempre é terapêutico. No entanto, a longo prazo sua revelação é um passo para a cura. Está relacionada aos desejos? Sim, está ligada aos quereres, libido e conflitos inconscientes. Qual é o papel do analista? Criar um ambiente seguro para o paciente examinar sua concepção de verdade. A verdade será descoberta na terapia? É construída à medida que o paciente investiga seus pensamentos, sentimentos e memórias, parte dela já existe no inconsciente. A verdade é sempre parcial? Quase sempre fragmentada, sua compreensão completa raramente é alcançada. A verdade não pode ser capturada. No campo psicanalítico se apresenta como um enigma, para nós, resiste a uma interpretação definitiva. Ela é uma construção intricada, moldada pelas nuances dos processos psíquicos. Poderíamos equiparar sua elaboração a um filme de ficção, onde palavras, narrativas, cenários constituídos e compostos pelos pacientes se transformam no ''set'' de filmagem, onde serão rodadas as cenas, como verdades ocultas em meio às camadas de sua própria experiência abstrata. Todo filme tem um texto; eis o discurso, que será permeado por deslizes verbais, atos falhos e até mesmo silêncios, talvez o lugar onde se possa considerar que a verdade do tema surge. No entanto, essa suposta veracidade não é estática, ela flui, se transforma e evolui à medida que o processo terapêutico avança, o filme roda junto. No espaço do ''setting'' analítico, os desejos superabundantes do cliente aparecem reprimidos e arquivados no inconsciente, onde começam a aflorar. São esses quereres muitas vezes dolorosos que constituem de fato a verdade que nos interessa para o roteiro. Destarte, ditas manifestações nem sempre serão agradáveis e poderão ser muito angustiantes, por vezes, possuem um caráter místico que persiste insistentemente contrário à objetividade. A verdade não pode ser capturada como um corpo físico ou em sua plenitude, há nela um elemento que escapa à compreensão do ser, essa é sua essência. E exatamente dito aspecto enigmático que lhe confere um mistério inexecutável, um ar metafísico que a separa do resto do campo cognitivo. Por outro caminho, sua dicotomia, seu oposto; a mentira não a transformam em um obstáculo à verdade, más, em muitos casos, a inverdade é um caminho aberto para ela. A mentira, fala Lacan, é inerente à nossa natureza, no entanto, essa afirmação não deve ser confundida com a inautenticidade patológica, sendo uma forma doentia de engano. Em vez disso, como analistas, devemos incluir, levar a sério as falsas aparências apresentadas pelo cliente, onde tais distorções da verdade podem conter componentes e elementos da própria verdade que se ocultam e dissimulam. ''Nenhuma referência pode ser feita à verdade sem indicar que ela só é acessível a um meio-dizer, que não pode ser dita por inteiro, porque para além dessa metade não há nada a dizer'' Lacan. Ao poema; A verdade - Drummond. A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os dois meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram a um lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em duas metades, diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. As duas eram totalmente belas. Mas carecia optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- A Pedofilia.
Desvendando os Mistérios da Mente de um Predador Sexual. As Raízes Psicanalíticas da Pedofilia com Uma Análise Completa. “Às perversões sexuais na maturidade tem raízes nas experiências traumáticas da infância.” Dan Mena. Por Dan Mena. Um pouco de história. A palavra perversão, que deriva do latim “perversio”, significa mudança do bem em mal e corrupção dos costumes e hábitos. Ela não é uma questão da atualidade, existe desde a Antiguidade onde podemos mesmo pensar nas relações sexuais entre adultos e jovens que já existiam na Grécia. Podem ser alargadas e pensadas como aquilo que hoje conhecemos como pedofilia onde o contato homossexual entre homens e adolescentes era frequente. Algo semelhante também ocorria no Império Romano, onde filhos de escravos podiam ser destinados ao uso pedófilo e recebiam nomes como “pueri meritorii”. Em Esparta era considerada parte da educação, uma vez que o professor iniciava o aluno na vida social, acadêmica, militar e sexual. Estas relações, intimas entre um homem adulto e um jovem, eram respostas aos valores culturais das sociedades guerreiras da época. Indo adiante, a psiquiatria e a psicologia adotaram os termos “disfunções” para designar ditas situações atuais. Os manuais de diagnóstico de perturbações mentais (DSM-IV e DSM-IV) não utilizam o termo “perversão”. Nestas classificações internacionais estão apontadas como turbações que não afetam a resposta sexual e que consistem num desvio da escolha sexual. Para as classificações de Ebing (1965), a perversão se caracteriza pela excitabilidade das funções sexualizadas por estímulos inadequados. No entanto, até chegarmos ao século XIX, se publica a obra ''Psychopathia Sexualis'', logo muitas mudanças irão advir para os perversos e suas perversões: ora consideradas influências demoníacas, doença, bruxaria, crime, de modo que a sociedade em diferentes épocas, solucionou a questão ora na fogueira, na guerra cultural e religiosa, com manicômios ou colocando atrás das grades aqueles considerados inadequados pelas suas práticas libidinosas. Se refere ao interesse direcionado a crianças pré-púberes ou adolescentes menores de idade. Considerada uma patologia amplamente condenada pela sociedade devido aos sérios danos que pode causar, traumas e no desenvolvimento psicossexual saudável. Freud, abordou questões relacionadas à perversão sexual em suas obras, embora não tenha se concentrado especificamente no assunto. Em termos gerais, consideram-se as devassidões como distorções libidinosas, nas quais o indivíduo canaliza suas libido de uma maneira socialmente inaceitável. Um fenômeno cada vez mais comum, o abuso sexual de menores e um ato cruel e desumano, que se enquadra clinicamente nas parafilias. (Parafilias são fantasias ou comportamentos frequentes, intensos e sexualmente estimulantes que envolvem objetos inanimados, crianças ou adultos sem consentimento, mediante a imposição de sofrimento ou humilhação de si próprio, parceiro ou outro.) Cogito promover uma leitura não somente a partir do lugar habitual, mas utilizando a proteção ética que a psicanálise me oferece para fazer uma leitura ao nível subjetivo, partindo do lugar do pedófilo e suposto abusador, para além do discurso apenas moralista, porque não se trata dele, não apenas de fazer juízos ou justificar o injustificável, mas sim de escutar o que é evidente no ato de servir-se sexualmente de alguém normalmente indefeso. Essa é a nossa tarefa enquanto analistas, escutar o que a clínica revela, o que a sociedade produz e trabalhar precisamente naquilo que nos é revelado confidencialmente, sem dar nomes ou referências. Ouvir aquilo justamente que emana da narrativa do indivíduo que está prestes a se tornar ou aquele que não quer se transformar em um. Boa leitura. Psicose, neurose e perversão. Na psicanálise nos afastamos do conceito de ''parafilia'', senão entendemos a questão pelas três principais estruturas nosográficas, psicose, neurose e perversão, que se diferenciam dela. O pervertido depende de condições não convencionais ou de parceiros sexuais específicos para se excitar. Deste ponto a origem dessa perturbação é inconsciente, o que implica que não pode ser controlada pela vontade consciente do indivíduo, pelo qual demonstra notável resistência às técnicas de psicoterapia. Ele se torna compulsivamente ligado a estímulos e rituais sexuais peculiares que servem como impulsos irresistíveis para sua ação, mesmo quando essas possam contradizer seus próprios interesses, morais, éticos e digníssimos. Seus atos podem variar de inofensivos como o fetichismo, prejudiciais e ilegais como o estupro, a mortais, dos ''serials killers'' como o caso do assassinato sádico. Durante muito tempo, as diferenças entre a sexualidade vista como normal e aquela não eram, tidas como naturais e arbitrárias, destarte, influenciadas por ideologias religiosas em vez de critérios científicos e assertivos. A homossexualidade e certas práticas sexuais foram histórica e anteriormente rotuladas como luxuriosas, que ao seu tempo com o avanço da sexologia, foram reexaminadas, atual e contemporaneamente ao desenvolvimento de disciplinas investigativas, cultura, liberalidade, etc. Assim comportamentos como masturbação, sexo oral, anal, homossexualidade, lesbianismo, pornografia, e prostituição não são mais considerados sintomas patológicos. O significado e caráter anormal, excessivo e imoral associado às práticas foi retirado, indicando uma mudança significativa na aceitação da diversidade sexual na sociedade moderna. Lacan, fundamenta na linguagem e na simbolização os insights sobre os mecanismos do desejo e das perversões sexuais. Embora não tenha especificamente discutido a pedofilia, seus estudos oferecem um terreno fértil para analisar esse comportamento à luz da psicanálise, por essa razão é interessante compreender essa base; "O perverso goza da lei, encontra seu prazer na transgressão." "A perversão não é uma patologia, mas uma organização subjetiva que se afasta do modelo normativo da sexualidade." "A perversão não é uma negação da sexualidade, mas uma variação da mesma, frequentemente baseada em fantasias e desejos particulares." Desejo e linguagem. O desejo é estruturado pela linguagem, que por sua vez e mediados por símbolos e significados, eles formam a base para a compreensão dos desvios e perversões sexuais. O indivíduo busca satisfação fora dos padrões socialmente aceitos. A pedofilia pode ser vista como uma dessas inclinações, onde o desejo é direcionado a crianças. Configuração perversa do desejo: Representa uma conformação particularmente grave do tema, envolvendo a sexualização de crianças, tal comportamento reflete uma falha no processo de simbolização, levando a uma satisfação distorcida do desejo. Considerações éticas no tratamento: Requer uma abordagem ética e sensível. É fundamental proteger as vítimas potenciais e, simultaneamente, oferecer ajuda aos agressores. A terapia deve focar na compreensão das raízes do desejo pedofílico, promovendo a empatia e a responsabilidade. Considerações legais e jurídicas: Do ponto de vista legal, é imperativo um equilíbrio entre a proteção da sociedade e a reintegração dos infratores após tratamento. A aplicação de medidas preventivas e punitivas deve ser cuidadosamente calibrada para garantir a segurança da comunidade e, ao mesmo tempo, respeitar os direitos do indivíduo. Embora a psicanálise forneça ferramentas valiosas, deve ser integrada a uma abordagem multidisciplinar que considere questões éticas, legais e clínicas. Tratar a pedofilia requer uma compreensão profunda das psicologias envolvidas, bem como um compromisso inabalável com a segurança e o bem-estar das vítimas. Impõe a necessidade de um diálogo contínuo entre teoria, prática clínica, ética e lei para enfrentar eficazmente esse desafio delicado e perturbador. Tem sido um tema de preocupação e debate tanto na sociedade quanto na comunidade psicanalítica. Ao examinar o assunto a partir da perspectiva teórica e ética, podemos iluminar sobre as dinâmicas que subjazem a esse particular comportamento. Da vítima a criança imaginária. Abordagens de Freud, Lacan e outros psicanalistas nos permitem confrontar esse sujeito sui generis com o ''Espelho do Outro''. A teoria dos espelhos sugere que conseguimos reconhecer em outras pessoas características que de alguma forma também existem ou já existiram em nós. Isso se deve à natureza intrínseca de nossa jornada na terra, na qual aprendemos sobre nós mesmos por meio das relações interpessoais. Esta teoria ressalta a importância das interações sociais como veículos para a autorreflexão. No entanto, quando se trata da questão da pedofilia surge um aspecto que transcende as discussões sobre ela. Não aqui discutindo desde a posição da criança como vítima, mas sim a criança imaginária que habita na mente do pedófilo, na posição de sujeito imaginário. Lacan, postula que; “a relação sexual não existe” (Lacan, 1977). Essa afirmação significa que, ao contrário de muitos outros animais cujo comportamento afetivo sexual é regulado por ciclos biológicos, o ser humano não está preso a tais padrões. No entanto, para ele, a dinâmica é singular, uma vez que lida com um vazio, há uma ausência de sentido em sua busca por uma relação amorosa fictícia. Essa lida se origina na fantasia e na ilusão, como uma tentativa de alcançar a totalidade do “outro”, um estado anterior à diferenciação sexual. Nesse cenário, o sujeito é confrontado com a impossibilidade de realizar e obter uma verdadeira relação, em vez disso, é forçado a renunciar ao seu próprio prazer em prol do desejo, (Kristeva, 1980). Nesse processo, o “outro” é aniquilado, e a criança deixa de ser sujeito, tornando-se um objeto nas mãos do agressor. As teorias que envolvem o desejo, a linguagem e as perversões fornecem uma base sólida para compreender as raízes psicológicas dessa manifestação perturbadora. Além disso, é crucial considerar as implicações éticas e legais ao lidar com seus portadores. Origens da pedofilia: A horda ancestral. A pedofilia não é uma condição com a qual se nasce, é uma consequência de um desenvolvimento inadequado na educação da criança pelos pais ou do ambiente familiar. Essa afirmação sobre a complexa interação entre fatores de desenvolvimento, sociais e familiares moldam o comportamento pedofílico. Embora esses fatores externos desempenhem um papel importante, ela transcende causas puramente externas. Se manifestam de diversas maneiras, alguns recorrem à violência para perpetrar seus atos, enquanto outros adotam uma abordagem mais suave e terna. Os que utilizam a aproximação aprazível, criam uma ilusão de relacionamento protetor com a criança, expressando seu desejo de serem amados. No entanto, essa fachada de ternura não é menos prejudicial, uma vez que essa máscara se baseia em uma sedução narcisística destrutiva e intimidante. Pela configuração desse aliciamento e da “Cena Primitiva”, (a cena primária) “foram, em determinada época, ocorrências reais dos tempos primitivos da família original, e que as crianças, em suas fantasias, simplesmente preenchem os claros da verdade individual com a verdade pré-histórica” (FREUD, 1917/1996, p. 373; 1918/1996), ao nível inconsciente, ele pode ver a criança imaginariamente amada como uma extensão idealizada de si, situação formada sob o olhar da mãe. Essa dinâmica, remonta à unidade prima de mãe e filho, onde o mesmo pode estar em busca de uma reconexão com uma singularidade que teme perder, embora essa demanda traga consigo trágicas consequências para a vítima. A preferência do pedófilo por infantes pode ser encontrada pela presença de características físicas femininas nas crianças, como pele lisa, ausência de pelos, lábios bem delineados, cabelos sedosos, fala suave, etc. Essas particularidades, propriedades e peculiaridades, respondem à retenção de uma estrutura egotista que o pedófilo anseia em manter, mas que, infelizmente, impõe ao sofrente sob o peso do seu desejo distorcido. Esse portento da captura especular e a depressão que geralmente o acompanha, envolvem esse evento, no qual o pederasta exerce um poder de sedução que aprisiona o outro no seu narcisismo agressivo. Essa tomada se torna mais intensa e sedutora quando há um alto risco envolvido. No entanto, é importante reconhecer a debilitação e enfraquecimento depressivo lateral dessa corrupção, onde o ofendedor utiliza esse mecanismo como uma tentativa desesperada de evitar um vazio existencial no qual se desencontra na sua representação simbólica. Em termos da dinâmica familiar, a constelação dos pedófilos se amplia, onde a criança violada muitas vezes desempenha o papel de um fetiche onde a imagem do pai é idealizada. Além disso, ele assume simultaneamente os papéis de uma mãe incestuosa, um pai que lembra o da horda ancestral, de um filho rei poderoso, esses elementos aparecem e geralmente compõem essa cena primitiva narcísica pré-histórica. A análise das raízes psicológicas do problema não justificará ou absolve de qualquer forma o comportamento, em vez disso, aprofunda e destaca a necessidade premente de intervenções éticas e sociais. Panorama de atitudes sociais. Ao longo da história se revela um complexo panorama de atitudes sociais, entendimentos científicos e respostas legais em relação a esses comportamentos. No contexto contemporâneo, as perversões são estudadas de diversas perspectivas, incluindo a psicanálise, psicologia, sociologia e a criminologia. “A palavra perversão, que deriva do latim ''perversio''…”, nos remete à sua antiquíssima existência, cujas manifestações podem ser traçadas até civilizações antigas, como a Grécia e o Império Romano, onde práticas tidas como degeneradas na contemporaneidade eram parte da cultura e da educação. Essas observações são cruciais para a compreensão de como a sociedade e a ciência lidaram com o tema ao longo do tempo. Foucault, em sua obra; “História da Sexualidade”, destaca como as sociedades modernas passaram de uma repressão direta à sexualidade para uma intensificação da vigilância e controle sobre as práticas sexuais, o que ele denomina de “biopoder”. A sexualidade se tornou um campo de saber e controle social, onde normalidade e a anormalidade são constantemente definidos e redefinidos. Em sua obra “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, Freud discute a natureza diversa dos desejos e como eles podem se manifestar de formas consideradas atípicas. Ele introduz o sentido de sublimação, argumentando que os impulsos sexuais podem ser redirecionados para atividades socialmente aceitáveis. Laplanche, como psicanalista, expandiu as teorias freudianas ao explorar as fantasias sexuais e suas raízes na infância, nas quais enfatiza a importância da linguagem na formação dos desejos sexuais, destacando como as experiências precoces moldam as inclinações perversas. No campo jurídico, a abordagem também evoluiu. O direito penal moderno, conforme expressa em obras como “Crime e Castigo” de Cesare Beccaria, evidencia a importância da proporcionalidade na punição dos delitos, questionando a abordagem punitiva excessiva em relação às perversões. Também expõe que o castgo deve ser justo e proporcional ao crime cometido, considerando a utilidade social e a reabilitação do infrator. Margaret Mead, acrescentou; “não podemos subestimar a complexidade da sexualidade e devemos abordá-la com sensibilidade, conhecimento e compaixão para promover uma sociedade verdadeiramente inclusiva e justa.” Nem todo abusado, será um abusador. Como afirmou o psicanalista Donald Winnicott, “a experiência de um vazio existencial, essa tal de ''agonia primitiva'', muitas vezes leva indivíduos perturbados a buscar formas de escapismo e fugas desesperadas.” É sob essa ótica que podemos compreender os intricados mecanismos além das aparências superficiais. Aqueles associados a uma estrutura perversa que coexistem com uma sexualidade heterossexual adulta, frequentemente carente de prazer. Assim, buscam se conectar a profissões que os coloquem em contato constante com crianças e expressam um desejo manifesto de cuidar e amar. Se observarmos atentamente essas manifestações de preocupação excessiva podem parecer muito benevolentes e normais, no entanto, sob a lente perspicaz de um psicanalista, essas demonstrações revelam ambiguidades inquietantes que caracterizam a personalidade narcísica, sugerindo que por trás desse frontispício aparente do concreto, cerceado de benevolência, podem residir atitudes hostis e agressivas. Freud cita: “Muitas vezes, aquilo que parece ser bondade é, na verdade, uma forma disfarçada de agressão.” Essas incursões do sujeito tem raízes em atividades traumáticas infantis, como molestar, abuso sexual ou estupro. No entanto, analisar a pedofilia como uma mera consequência de trauma de causa e efeito seria uma forma simplista de tratamento na perspectiva da psicanálise. O sintoma não pode ser reduzido ao ato infligido pelo abusador na infância, pois envolve uma interação de fatores traumáticos que impactam o funcionamento mental, e é aqui, que uma dimensão metapsicológica se torna útil e relevante. Dize Miller; “o trauma não reside nos eventos, mas nas lembranças que são negadas, suprimidas ou dissociadas da consciência.” O trauma sexual do passado, incluindo a idade da criança no momento do abalo, a qualidade do ambiente e a relação com o agressor, é avaliado de maneira distinta. Nem todas as vítimas de perturbação sexual se tornam agressores na vida adulta, a ferida emocional tem efeitos variados e depende de muitos elementos; “o impacto do trauma é determinado não pela natureza do evento, mas pela experiência subjetiva do indivíduo.” Herman. A Imago Paterna e a relação com a Mãe. Um aspecto crucial da psicanálise e pedofilia se cruzam na relação entre o pedófilo e a figura paterna. O portador expressa que seu progenitor não lhe transmitiu a capacidade de ser pai. Isso aponta para a ausência de uma internalização da imagem paterna. Como salientou Nancy Chodorow, “a qualidade da relação mãe-filho influencia diretamente a capacidade do indivíduo de internalizar a função paterna.” Esse déficit na internalização, em parte, se deve a um dos efeitos do trauma. A aflição traumática sofrida na infância não se limita ao ato do abuso, mas também interfere na construção do objeto interiorizado, algo fundamental para a capacidade de ser pai sem a necessidade de copiar a imago-imagem do pai de referência. A ausência dessa faculdade intra é como descreveu Winnicott: “um vazio interno que precisa ser ocupado, mas que frequentemente leva a comportamentos destrutivos na tentativa de preenchê-lo.” Portanto, a relação com a mãe é outra área significativa que afeta a psicodinâmica do pedófilo. A maioria deles reluta em discutir essa relação real que mantiveram com suas mães na infância, muitas vezes, devido a uma forte repressão que impede a expressão de sentimentos, afetos e sensibilidades. Essa relutância aprofunda o mistério oculto em torno da influência da mãe na sua formação. O desaparecimento temporário ou permanente da mãe é uma variável importante, o afastamento dela, seja por escolha própria ou por circunstâncias alheias ao querer, provoca reações emocionais na criança que vão além da indiferença proclamada. Para citar Melanie Klein, “o trauma da separação é profundamente enraizado na psique, afetando a capacidade do indivíduo de estabelecer relacionamentos saudáveis.” Citações abaixo são voltadas para uma compreensão psicológica do tema, sem minimizar a gravidade dos atos relacionados à pedofilia. O tratamento, a prevenção e a proteção das vítimas devem ser prioridades em qualquer discussão sobre este assunto. “A psicanálise reconhece a necessidade de lidar com o sofrimento emocional de indivíduos pedófilos e ajudá-los a buscar alternativas saudáveis.” Dan Mena. “A pedofilia é uma manifestação extrema de uma perturbação psicológica que requer intervenção profissional. É fundamental entender suas raízes e buscar maneiras de prevenir e tratar essas perturbações.” Freud. “As causas da pedofilia são multifacetadas e envolvem fatores biológicos, psicológicos e ambientais. Uma abordagem holística é necessária para compreender e tratar eficazmente essa condição.” Winnicott. “A pedofilia não é uma escolha, mas sim uma condição psicológica complexa. É vital diferenciar entre a atração sexual a menores e a ação criminosa. A sociedade deve se concentrar em prevenir o abuso e fornecer tratamento aos pedófilos em busca de ajuda.” Anna Freud. “O abuso sexual infantil é uma tragédia que causa danos duradouros nas vítimas. Os pedófilos devem ser responsabilizados por suas ações, mas também é essencial entender as causas subjacentes e buscar maneiras de prevenir o abuso.” Alice Miller. A perversão é realmente intratável? Como um tema delicado requer tratamento e prevenção, protegendo a sociedade e as potenciais vítimas dos seus opressores. Seu hermetismo é determinado por diversos elementos que precisam ser examinados minuciosamente. O foco, é o amor entre uma criança e um adulto em quem ela(e) confia, e do qual se espera cuidado e proteção. Envolve a percepção maliciosa e vigilante dos responsáveis em distinguir entre um gesto afetuoso e um ato incômodo realizado, tanto pela criança, pelo pedófilo e pela sociedade. Seria esta uma janela para questionarmos, porém, o que talvez defina visões pós-modernas na conexão com frases como; "nada é impossível”… posso ter tudo o que desejo?; e transformar assim também as crianças em meros itens de consumo, objetos, nisso que aparentemente tem se transformado tudo em nosso tempo. Também creio muito pertinente, interrogar por que a psicanálise não abordou esse problema frontalmente, de forma mais profunda e séria, já que há um silêncio que permeia historicamente os casos de abuso sexual infantil. Ao se fazer uma investigação aguda do tema, é muito escasso o material objetivo e menções diretas à pedofilia, mesmo durante nossa formação profissional. Poucos psicanalistas como Winnicott e Klein enfrentaram esse desafio em seus trabalhos com crianças. Na discussão sobre o desvio como organização mental, surgem barreiras e inflexões doutrinárias, exegeses; (Exegese é uma análise, interpretação ou explicação detalhada e cuidadosa de uma obra, um texto, uma palavra ou expressão. Etimologicamente, este termo se originou a partir do grego que significa dar interpretação ou levar para fora expondo os fatos”.). Esses que comprometem a apuração, resultando em preconceitos que restringem a abordagem terapêutica com indivíduos que se movem dentro desse circuito. Muitos acreditam que não seja viável realizar intervenções clínicas com tais sujeitos, consideram isso uma perda de tempo e dizem; ''a pedofilia não tem cura''. No entanto, discordo, Freud demonstrou claramente em suas pesquisas que todas as pessoas operam a repressão. Como resultado desta, desenvolvem estruturas psíquicas distintas, como uma forma de se atrincheirar em defesa contra a realidade De acordo com nossa teoria, se há repressão, o inconsciente assoma, da sua cara de forma inevitável, e é esse o ponto central no contexto da clínica psicanalítica. Todo aquele portador de um inconsciente é passível de análise, basta considerar o seu desejo e trabalhar a verdade por trás do seu sintoma. Assim, é necessário questionarmos: a perversão é realmente intratável? O interesse vem do esforço de uma análise entranhada do quadro perverso, onde tanto os estudos freudianos e de outros autores, quanto reflexões e considerações sobre o trauma, nos outorgam credenciais multidimensionais que podem ser muito úteis para o seu tratamento e desdobramento. Dilema - António Cícero O que muito me confunde é que no fundo de mim estou eu e no fundo de mim estou eu. No fundo sei que não sou sem fim e sou feito de um mundo imenso imerso num universo que não é feito de mim. Mas mesmo isso é controverso se nos versos de um poema perverso sai o reverso. Disperso num tal dilema o certo é reconhecer: no fundo de mim sou sem fundo. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- A Tatuagem.
Descubra o poder transformador das tatuagens: autoexpressão e identidade. Uma linguagem universal que fala sobre você. “A tatuagem é a sublimação dos conflitos transformados em arte na pele.” Dan Mena. Por Dan Mena. Tatuagens têm uma longa história que remonta à pré-história, evoluindo significativamente ao longo dos milênios. Antes de adentrar na análise desde o ponto de vista psicanalítico, seu significado e simbolismo, percorramos um pouco sobre seu surgimento desde os primórdios até os dias atuais. As evidências arqueológicas sugerem que têm uma datação que remonta a pelo menos 5.000 anos, encontradas em múmias no Egito e Ötzi, o Homem do Gelo dos Alpes, que datam de cerca de 3.300 a.C. Na pré-história, eram usadas em rituais religiosos, cerimônias de passagem, iniciação ou para simbolizar a afiliação a uma tribo, clã ou comunidade. Eram comuns na Grécia Antiga e Roma, usadas para marcar escravos e criminosos, mas também por soldados para identificar suas legiões. No entanto, muitas culturas antigas, como os celtas e os japoneses, também as usavam com significados espirituais e culturais. Durante as explorações do século XV e XVI, sua arte se espalhou para outras partes do mundo, incluindo as Américas e o Pacífico no século XIX e XX. Experimentou um ressurgimento no final dos últimos séculos graças ao circo e artistas de espetáculos, o que ajudou a popularizar sua prática no mundo ocidental. Nas décadas de 1950 e 1960, se tornou associada à rebelião, cultura pop e à contracultura, impulsionada em parte por músicos, artistas e atores que exibiam tatuagens. Hoje em dia, são amplamente aceitas na sociedade, deixaram de ser exclusivas de grupos marginais, sendo consideradas uma forma de expressão pessoal, além disso, os avanços tecnológicos retiraram seu caráter permanente, visto sua remoção a laser ser plausível de eliminação. Altamente personalizadas, designs que têm significado pessoal e particular, como homenagens a entes queridos, símbolos espirituais ou expressões de interesses e paixões como o futebol. Boa leitura. Más, por que nos tatuamos? Autoexpressão: Usamos tatuagens como uma forma de expressão, reafirmando crenças, valores, paixões, interesses e personalidade por meio da arte corporal. Memória e homenagem: Podem servir para prestar homenagens a entes queridos falecidos ou vivos, representando memórias especiais ou comemorando relacionamentos significativos. Cultura e tradição: Em algumas culturas, são usadas como parte de rituais ou tradições. Elas podem simbolizar a afiliação a uma tribo, clã ou comunidade. Estilo e estética: Algumas pessoas optam por fazer tatuagens simplesmente porque gostam da aparência delas, podem ser uma forma de aprimorar a estética moderna da cultuação ao corpo. Empoderamento: Pode ser uma forma de promoção de autonomia, emancipação, participação, afirmação, denotar capacidades, é, fantasiosamente estar no controle do corpo e aparência. Superar desafios: Uma forma de sobrelevar traumas ou desafios pessoais, marcando uma virada na vida. Identidade sexual e gênero: Neste sentido desempenham um papel na exploração e expressão da identidade de gênero e sexualidade. Moda e tendência: Em alguns casos, são influenciadas pela moda e predisposições atuais, para se encaixarem em grupos sociais ou seguir tendências estilísticas. Significados religiosos e espirituais: Para o tatuado pode significar uma fé, dar sentido religioso ou dogmático, representar crenças e valores espirituais. No texto bíblico de Levítico 19:28 podemos ler; “Não farás nenhum arranhão no teu corpo devido a um morto, nem imprimirás nenhuma marca nele.” Arte corporal e autoestima. É um fenômeno multifacetado, não só especificamente porque penetra nas camadas profundas da pele e permanece visível do exterior, parte da sua cor se espalha pelo corpo, mas também pelo seu significado psicológico e simbolismo. Tatuagens têm sinônimos diferentes, tanto conscientemente quanto subconsciente. A psicanálise contribui para ampliar suas dimensões, o que é necessário quando consideramos que possuem: intenções, motivos e fundamentos, como uma dinâmica emergente que entra nos desenhos da linguagem, aqueles que não são falados, mas contados por simbologias. Muitos caminhoneiros, músicos, marinheiros, jogadores de futebol, presos ou pessoas em psicoterapia, por serem muito distantes nos relacionamentos ou lares, desenvolvem fortes sentimentos inconscientes, como desejo ou desenvolvimento da agressão sexual, homossexualidade, distância interna ou externa de casa, da família, dos afetos que levam a angústia e a dor. Do abandono a perda, estas duas preocupações constituem um grande choque para a segurança interna do sujeito, que se divide entre as fronteiras emocionais e a sua identidade. Através das tatuagens, um indivíduo pode recuperar temporariamente essa segurança e tentar criar um sentido da sua identificação, como vemos claramente nos presídios, quase uma unanimidade da sua prática. Também na clínica analítica contemplamos nitidamente surgir o seu motivo subconsciente, pois muitos pacientes fazem tatuagem durante a análise, e foi isso que aconteceu comigo, como analisado, o que me fez concluir que a tatuagem tem um lado prático e um imagético. No primeiro nível, manipular a pele por meio destas representações é uma tentativa de vivenciar algo tangível que contém e nos impõe limites. Ao fazer isso, ela transfere emoções insuportáveis para a ferida dolorosa no corpo, tornando-a mais resistente, assim que a pele afetada cicatrizar, ela integrará uma sensação e toque ao corpo. Inspirada nas reflexões de Freud em (1923), sobre as origens físicas do eu, a pele é considerada a fronteira frágil do ''eu'' e durante o desenvolvimento infantil, na segunda metade do primeiro ano de vida, será a primeira fronteira estabelecida. Com a separação da mãe o objeto transicional, (algo que não está definitivamente dentro nem fora da criança; servirá para que o indivíduo possa experiênciar situações, e assim ir criando seus próprios limites psíquicos em relação ao externo e ao interno.), adquire significado (Winnicott, 1951). Assim, a necessidade do outro permanece constante e inevitável, mas esse ''outro'' atua apenas como uma limitação funcional para o eu. O processo de se permitir tatuar-se pode ser entendido como uma investida ativa de expressar e corrigir deficiências passadas através do ato, uma tentativa de reformar estética e especificamente a imagem corporal. ''Com uma separação bem-sucedida, se forma a ideia do interior na sua impossível totalidade, do espaço delimitado por um limite e do espaço exterior ilimitado além desse limite. Portanto, a condição para se permitir fazer uma inscrição é a ideia inconsciente de ter um corpo próprio, representando uma unidade externamente limitada, ao qual se pode atribuir um significado, e assim existe pelo desenho, onde imagens inconscientes podem ser projetadas e revisitadas'' Dan Mena. O termo “imagem corporal” cunhado pelo psicanalista Schilder em (1935), resumiu neste conceito uma função complexa da experiência mental, baseada na fisiologia, livremente investida e integrada nas relações entre o organismo e o seu ambiente. A imagem corporal é baseada em ilusões e padrões de atividade formados, eliminados e restabelecidos ciclicamente em relação ao mundo externo e aos seus motivos. É um processo ativo e de longo prazo, que não deve ser entendido literalmente, mas sim, como todos os investimentos espirituais e manifestações da experiência física do ser. Através desta dimensão, nosso corpo se torna objeto de investimento, e a imagem resultante desse inversão é, exceto no estado ilusório, insubstituível e deve ser mantida intacta a todo custo. Esta é, portanto, uma perspectiva útil, simplificando a interpretação dos fantasmas psicológicos associados aos sentidos, o que por sua vez nos permitem revisitar áreas inconscientes de destruição. O corpo, no seu espaço tridimensional, é o ser por excelência capaz de transformar uma imagem espacial em algo sensível. Através da percepção corporal de dados sensoriais ativamente interpretados, ativamos a imagem inconsciente no corpo e no espaço, que é continuamente construída e elaborada, criando a base para nossa orientação interiorizada, percepção de fatos e a criação de hipóteses sobre o mundo. Quando esse contexto do corpo colide com as fronteiras que separam o espaço interior do exterior, o córtex exterior pode ser carregado de ilusões e, consequentemente, de situações em que o fisiológico se encontra num estado de desintegração física e emocional que pode ser explorado como base para perceber a realidade, e daí, tecer hipóteses sobre o mundo que habitamos. Tatuagem como objeto. O objeto tatuado permanece parte do corpo, e o ato de tatuar tem apenas sucesso parcial na criação de um elemento temporário. No momento em que surge a necessidade da tatuagem, por assim dizer, no átimo onde o espaço dessa transição arrisca desabar o que de fato não funcionou para a psique. Acima de tudo, é necessário algo estático e imutável, como se ela conseguisse metaforicamente interromper o turbilhão degenerativo do tempo ou proporcionasse uma distância segura do sujeito, criando um suposto equilíbrio. Assim, algumas pessoas tatuadas tentam esconder a sua possivel deficiência de identidade ou uma subversiva personalidade fragilizada e vulnerável. a utilizando como um processo de encontrar harmonia essencial. Às imagens escolhidas inconscientemente visam aqueles que a ela se referem, ou pretendem refletir e esculpir sua própria ausente identificação. A tatuagem em si é imóvel, não permite movimentos e praticamente não deixa espaço para transições, fato que possui significado inconsciente e consciente, desempenhando um papel figurativo. Em Totem e Tabu de (1912), Freud se refere ao fenômeno e explica como as pessoas se inscrevem com imagens de animais totêmicos na antiguidade. O que é o totem para a psicanálise? Um nome de grupo e da ancestralidade ou significado mitológico; (Freud,1913), que regido pelas leis da mitologia terminará por se transformar em tabu. Este, geralmente, é algum tipo de animal que atua como arauto e espírito protetor do indivíduo. Curiosamente são herdados apenas pelo sangue materno ou paterno e estão associados à exogamia (endogamia entre parentes invisíveis ou distantes), que proíbe relações sanguíneas entre povos primitivos. Animais totêmicos não devem ser mortos ou engolidos. Essa proibição está no cerne do totemismo, crenças na proibição, estão no medo da ação das forças demoníacas que podem ser entendidas como uma projeção no ambiente, de um desejo inconsciente de fazer algo censurado e interdito. A proibição está relacionada com a negação da comunicação mágica, expressão das técnicas que dominam o pensamento animista dessas culturas antigas. O princípio principal é o poder absoluto do pensamento. Freud estabeleceu uma relação entre a neurose obsessivo-compulsiva e outras formas de neurose e paranoia, nas quais o poder absoluto do pensamento às vezes é controlado ilusoriamente. Se o equilíbrio interno é ameaçado pela violação de um tabu inconscientemente temido, e se os desejos, medos de abandono se tornam insuportáveis, então a tatuagem acede como uma diligência de transformação a violação dele e, ao mesmo tempo, revelará o fator inconsciente. Essa ausência e falta de sentido, como se não conhecesse a si, é uma imagem do vazio e estranho mundo em que nos encontramos, sempre girando em torno de uma moldura cívica. Destarte, podem ser entendidas como sinalização de um possivel meio de transporte, que se encontra vazio do seu objeto principal, sem perfil e sem identidade. A necessidade de uma tatuagem surge quando a distância interna ao objeto desejado é muito grande ou muito curta, ou simplesmente ambas, simultaneamente. Motivo pelo qual devem ser mantidas a uma distância segura e equilibrada da sua inscrição, lugar onde o corpo pode voltar a ser o ponto de partida para a atividade mental saudável, sem usar de subterfúgios. Psicanálise, tatuagens e contemporaneidade. A prática milenar de tatuar o corpo ganha novos contornos sob a lente da psicanálise. Embora Freud não tenha especificamente discutido tatuagens em suas obras, uma série de estudiosos contemporâneos expandiram essa análise, desvendando os motivos psicológicos subjacentes a esse fenômeno cultural intrigante. Favazza oferece uma leitura sobre a automutilação, incluindo elas, como uma forma de lidar com a dor emocional. Ele postula: “A automutilação é uma tentativa de transformar a dor mental insuportável em dor física, as quais são mais fáceis de suportar.” Nesse contexto, a tatuagem pode ser vista como uma forma de expressar angústias internas, um elo tangível entre as emoções, afetos e a realidade física. Viren Swami e Adrian Furnham, em suas pesquisas, denotam o ato de tatuar como uma manifestação da autoimagem; citam: “a tatuagem pode ser vista como um meio de controle sobre o corpo”, onde o indivíduo busca assertividade e significado pessoal, algo que transcende a superfície da pele, tornando-se uma narrativa visual das emoções internas e da identidade individual. A socióloga Katherine Irwin oferece uma visão social, onde esse ato se confunde com símbolos de pertencimento e resistência. Irwin afirma: “As tatuagens são frequentemente uma forma de resistência ao conformismo social”. Aqui, vão ser interpretadas como um meio de desafiar normas sociais, representando uma busca pela autenticidade e pela expressão genuína da individualidade. Margo DeMello, como renomada antropóloga, destaca como elas se entrelaçam com a identidade cultural. Em suas palavras: “As tatuagens podem ser vistas como uma forma de comunicação cultural”. Essa transmissão, transcende palavras, comunicando tradições, crenças e histórias de maneiras que vão além do consciente, penetrando no domínio do subconsciente. Para citar Chris Sullivan, que examina o complexo de “tatuagens de memória”; “as tatuagens são uma forma única de luto”, servindo como uma conexão constante com os entes queridos que se foram ou relacionamentos que terminaram. Nesse contexto, são interpretadas como um meio de manter imaginariamente laços emocionais e memórias vivas, proporcionando uma compreensão das camadas psicológicas por trás dessa prática milenar. Essa interseção fascinante entre a mente e a expressão artística de Favazza, Swami, Furnham, Irwin, DeMello e Sullivan, cada um à sua maneira, anotam a presença transcendental da tatuagem através da pele, servindo como telas visíveis das complexidades psicológicas e da experiência de vida a que somos submetidos. Sujeito e corpo estão separados. ''O tema do corpo e da marca como sinal da relação complexa que mantemos com ele passa pela ideia de que temos um, mas não somos ele, sujeito e corpo estão separados, e é essa divisão que tem nos levado ao longo da história a recorrer a uma variedade de artifícios para estabelecer e construir uma conexão fisiologista''. Dan Mena. A tatuagem e o piercing emergem como formas intrigantes de tomar conta, nos apropriarmos dele. No mundo atual clamamos pela uniformização e indiferenciação onde a tatuagem pode ser interpretada como uma tentativa de distinção. Uma maneira de forjar uma identidade nova e muitas vezes mascarada, que pode ser a do super-homem, samurai, guerreiro, pop-star, indígena, estrangeiro, e assim por diante. Essa busca por singularização pode levar à ocultação da nossa identidade original, dando a ela uma ornamentação simbólica e imaginária. A tatuagem não só apela para o senso de beleza, mas também gera impacto, curiosidade ou mesmo repulsa, carrega uma sensação de estranheza que não pode ser ignorada. Estética e contemporaneidade estão enraizados na cultura oriental, o que a torna uma forma de expressão visual e filosófica que é estranha ao ocidente, ela difere das práticas tradicionais da superficialidade, como a maquiagem, porque é uma marca sólida, escrita no maior órgão da nossa estrutura fisiológica. Ela revela o corpo nu de maneira crua, muitas vezes ocupando o lugar do invólucro, destacando áreas do corpo de maneira única e provocativa. Da perspectiva social, pode ser vista como uma maneira de desafiar a conformidade e a homogeneização da sociedade, algo que lembra o espírito dos românticos do século XIX, que adotavam roupas e acessórios distintos para se diferenciar da elite burguesa. Nesse sentido, a tatuagem contemporânea compartilha um vínculo com culturas orientais, oferecendo uma visão de mundo dessemelhante, uma concepção de beleza alternativa e uma filosofia de vida singular. Num mundo em constante mutação, assume o papel de estabelecer algo inalterável e estável, apesar do discurso moderno, que caracteriza o sujeito como um simples consumidor potencial em um cenário sinistro de consumo descartável. Sua escrita destaca a conexão entre o traço, a letra, o desenho e o símbolo, sugerindo que seja também uma forma de comunicação que envolve não apenas o corpo, mas também a mente. Desta forma transcende a metáfora, e se apresenta como uma marca visível que revela o corpo em sua forma autêntica. Corpo como expressão da linguagem. Na abordagem lacaniana, Lacan contribuiu significativamente para a compreensão da relação entre o corpo e a psique, suas ideias inspiram uma série de interpretações e análises desenhadas como uma superfície onde somos “escritos”. Em seus seminários, discute frequentemente a relação entre o corpo e a linguagem, enfatizava que o primeiro é uma parte essencial da expressão da linguagem e, como tal, uma superfície onde significados são afirmados. Em seu Seminário 23, dize: “O corpo é a superfície na qual somos escritos” (Lacan, 1975). Esta afirmação destaca a ideia de que ele não é apenas um recipiente passivo, mas sim um local ativo de inscrições e significados. Também argumentava, que o corpo é central na experiência de angústia e no funcionamento do desejo, lugar onde se manifesta com seus quereres totalmente ligados à corporalidade. Em seu Seminário 10, observou: “A angústia é uma mensagem, um sinal do desejo” (Lacan, 1962). Em seu Seminário 2, declarou: “O corpo é o lugar onde se inscreve a verdade” (Lacan, 1954), sugerindo ser ele onde a verdade sobre o sujeito se revela, com suas expressões, identidade e história. A relação entre o corpo e a linguagem, o papel deles na experiência angustiante são apenas alguns dos muitos tópicos abordados em sua obra. O corpo na psicanálise influência uma ampla gama de estudos, enriquecendo nossa compreensão. Portanto, a frase de Lacan, “O corpo é a superfície na qual somos escritos”, ressoa como um convite à exploração das interconexões entre a psique e o corpo, o que continua a estimular a pesquisa e o pensamento na psicanálise. “A tatuagem é um rito de passagem simbólico, que marca transformações psicológicas.” Dan Mena. “A automutilação é uma tentativa de transformar a dor mental insuportável em dor física, sendo mais fácil de suportar.” Favazza “A tatuagem pode ser vista como um meio de controle sobre o corpo, onde o indivíduo busca assertividade e significado pessoal.” Viren Swami e Adrian Furnham. “As tatuagens são frequentemente uma forma de resistência ao conformismo social.” Katherine Irwin. “As tatuagens podem ser vistas como uma forma de comunicação cultural.” Margo DeMello. “As tatuagens são uma forma única de luto, servindo como uma conexão constante com os entes queridos que se foram.” Chris Sullivan. “Tatuagens podem ser uma tentativa de se comunicar sem palavras, de expressar o inexprimível.” Adam Phillips. “As tatuagens podem ser vistas como uma forma de narrativa visual, contando histórias pessoais e representando a identidade.” Mary Kosut. “O corpo é a superfície na qual somos escritos.” Lacan. “Tatuagens são uma fusão de corpo e mente, um meio de externalizar pensamentos e sentimentos internos.” Catherine Belling. “Tatuagens podem servir como um meio de controlar o corpo e suas representações, uma tentativa de reconciliar o eu com o corpo.” Matti Huttunen. “A tatuagem é uma expressão do desejo humano por identidade duradoura num corpo efêmero.” Dan Mena. A identidade que tranascende o simbólico. A prática de fazer tatuagens se revela como uma poderosa expressão da identidade pessoal em toda sua riqueza simbólica, por esta razão, transcendem como meros desenhos na pele; elas comunicam não apenas uma história e seu significado pessoal, mas também oferecem uma porta de entrada para a interpretação do inconsciente. Possuem a capacidade ímpar de contar uma história, mesmo em um mundo que a percebe como uma simples tendência. Na sua dinâmica, emerge um desejo intrínseco de se encaixar, de pertencer, revelando tanto uma carência quanto um anseio. Não se limitam ao símbolo inscrito, desde sua concepção como uma ideia, até sua materialização por meio de um processo doloroso. O processo da dor, os cuidados e a cicatrização não são apenas elementos físicos que a acompanham, senão uma profunda insistência na compreensão da existência corpórea, este corpo delimitado, recortado, onde a libido quer se materializar como um órgão que cria elos de prazer, atravessados por um imposto sofrer. Sob a ponta afiada da agulha, se faz para o ''Outro'', se constitui nesse recorte libidinal, como se incorporando a eventos não assimilados, esses que clamam por serem lidos e ouvidos, ligados à atualidade da vida e à nossa atuação performática. São símbolos que não necessitam de palavras para serem expressos, se materializam pela fantasia, se tornam vivas e visíveis, onde o olhar do outro é importante na forma como despertam emoções e sentimentos. Quando percebemos que estamos sendo observados através delas, o olhar se torna consciente e, com ele, surge a possibilidade de sermos vistos como desejamos e projetamos, ou até mesmo, apenas percebidos. Como cita Osório (2009); “O corpo é libidinal, erotizado pelo cuidado materno e integrado antecipadamente pelo olhar da mãe. Somente o amor de uma mãe permite agregar subjetivamente todos os desajustes, o traumático e o que é desestabilizador do cuidado de um bebê; mesmo antes dele ter autonomia corporal. Assim percebemos os danos que a ausência desse olhar materno pode causar a uma criança.” Eis a questão infantil a que é remetida. Finalizando, sejam elas discretas em áreas escondidas, até quem cobre grande parte do seu corpo com desenhos de grande tamanho, situados em áreas visíveis, parece nelas existir uma necessidade superior de ser fitado. Através da singularidade ou da aparência marcante, garantem em grande proporção que receberão a atenção desejada; “No corpo tatuado, enquanto imagem vista, reconhecemos um corpo como isca, chamando e evocando um movimento no outro. Não se trata apenas do que queremos exibir, o aquilo estaria no nível mais consciente, mas do que intencionamos receber, não tanto denotar, mas convocar o olhar do semelhante.” Em um mundo que muitas vezes nos exige conformidade e padronização, a tatuagem permanece nas suas telas, viajante pelos séculos como uma afirmação ousada e bela da especialidade de cada um… quem sabe? um testemunho silencioso da capacidade infindável de amarmos e ser amados. “Ink da Alma” Dan Mena. Na pele a tinta eterna traça caminhos, Agulha e sonhos em ritmos mesquinhos. Cada traço, entre gritos e suspiros, Tatuagem da alma, que silencia gemidos. Lamina na pele que grava segredos, Artista e psique, conexões e enredos. Cada pigmento, um traço, um lamento, Tatuagem, terapia… que doce tormento! Tinta eterna que traça contos, Eco silencioso de sonhos e encantos, A agulha que dança e vibra pulsante, Uma obra-prima que nasce radiante. Pigmento, memória e fogo, Uma lembrança, um tributo, um jogo, A tinta se mistura ao sangue e à alma, Símbolo eterno que jamais se acalma. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- A Morte.
Como lidar com a finitude da vida? Seria a a morte uma porta para a espiritualidade e a vida eterna? “A morte não é o fim, mas sim uma transformação da energia psíquica, uma transição para um estado espiritual que nos fascina e aterroriza.” Dan Mena. Por Dan Mena. O que realmente tememos quando receamos falar da morte? Escrever sobre a morte não é uma tarefa fácil, quanto mais falar sobre. Bem, a verdade é que a maioria dos temas que apresento são assuntos que as pessoas não querem realmente saber ou enfrentar. Neste caso, é fácil observar no dia a dia como falar sobre a matéria representa um tabu social, é uma conversa geralmente evitada, que gera choque e, muitas vezes, um vazio de palavras perante as situações em que está presente. Há também vergonha e culpa quando alguém é questionado sobre um familiar ou amigo que morreu e não se sabia ao respeito. Parece que aparentemente não se pode falar sobre estas coisas. Ao mesmo tempo, a sociedade contemporânea parece não tolerar nada que implique perdas ou fracassos, tentando produzir uma imagem da vida que planeja ser fantasiosamente impecável, marcada pelo mandato imperioso do sucesso certo e imediato. Observo um discurso capitalista onde a castração (a castração na psicanálise é uma construção do imaginário, não sendo necessariamente uma ameaça física. São ilusões que residem no subconsciente, conferindo significado à experiência da criança no convívio com seus pais e consigo própria.)… é renegada, promovendo um ideal de eterna juventude, afastando também a ideia de extinção como algo possível metaforicamente. Quem nunca ficou acordado à noite pensando no vazio e na escuridão que isso representa? Muitos medos são gerados por esse fim supostamente trágico que todos sabemos que chegará mais cedo ou mais tarde, no entanto, tentamos evitar e defrontar. Passamos pela vida como se fôssemos eternos, esquecendo que somos frágeis, que podemos desaparecer de um dia para o outro. Este amedrontamento do desconhecido surge logo na primeira infância, quando começamos a perceber que um dia seremos apenas uma memória. As conversas sobre a mortalidade são censuradas desde o início da vida, pois os adultos também relutam em explicar ou falar sobre o assunto com crianças. Por seu lado, embora infantes receiem quanto a ela, não acreditam plenamente que um dia vão perecer, e a vêm como algo distante. De fato, é assim para todos nós, pois Freud chegou a sugerir que não acreditamos plenamente em findar, e que não nos imaginamos na sucumbência. Tudo isto resulta provavelmente de uma crença errada de que como extintos somos vítimas, porque na morte deixaremos de poder usufruir dos bens terrenos, dos prazeres, dos afetos e objetos a que estamos fortemente ligados. Esta pretensa privação não é desprovimento do ponto de vista do finado, pois como mortos, não temos nenhuma abstinência a fazer. A sociedade começou a avançar quando tomou consciência do inevitável desaparecimento a que estamos sujeitos, e começou também a enterrar seus mortos e a honrá-los. É preciso compreender, que este temor é o que nos torna humanos, na medida que somos os únicos animais com uma verdadeira consciência dela, e que a espiritualidade pelo sopro da vida é o que nos torna almas genuinamente. “Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente.” Gênesis 2:7. A vida é trágica, chegamos aqui sem saber o porquê, e também, precisamos aprender desde o momento em que nascemos a dizer adeus, ao menos a esta dimensão. Seria este o proposito da vida? “Todos os que são chamados pelo meu nome, os que criei para a minha glória, a quem formei e fiz.” Boa Leitura. Ninguém acredita na sua própria extinção. Da matéria emerge à compreensão desse fenômeno inevitável. Freud nos oferece uma perspectiva intrigante: ''a morte é um conceito intratável, uma vez que qualquer tentativa de concebê-la nos leva a uma percepção paradoxal''. Somos confrontados com a noção de que, ao pensar nela persistimos como meros observadores num estado de negação da própria destruição, um espaço irrepresentável, realidade que escapa às nossas definições e, portanto, carece de uma inscrição psíquica. No cerne dessa discussão, está a ideia de que seu indeferimento não opera nos recessos do inconsciente, onde as leis clássicas da lógica são desafiadas. A coexistência de representações opostas e ambíguas, sem seguir as normas da lógica, uma característica do nosso inconsciente. O “Id”, é impulsionado por uma incessante afirmação e desejo de prazer, nos levando a um plano de subjetiva consideração e dissimulada imortalidade. Assim, o pensamento intricado de que a própria morte é inimaginável sem a sobrevivência da experiência, se entrelaça com a dicotomia entre o sujeito da enunciação e aquele do enunciado, um conceito linguístico adotado por Lacan. No contexto da linguística lacaniana, o sujeito da enunciação não se refere a um indivíduo concreto, mas ao ato da fala em si. Enquanto isso, tal é traduzido pelos pronomes que apontam em diferentes direções, delineando os papéis dos diversos interlocutores na sua comunicação. Nesse diagrama, o pronome “eu” representa o sujeito que faz a enunciação, mas não se confunde com o autor da fala. A dualidade entre o sujeito da enunciação e suas enunciações confunde a percepção do “eu”. "A eternidade é um conceito que a linguagem busca, mas a morte é a própria dimensão que escapa à palavra, revelando o silêncio do real, onde o infinito e o finito se entrelaçam, desafiando nossas tentativas de representação." Lacan. Em meio a esse quadrante, surge a sabedoria de Lao-Tse: “Viver é chegar e morrer é regressar”. Esta frase, nos lembra da inevitabilidade da morte e da possível continuidade da existência em um plano desconhecido após a morte física. Essa reflexão, embora desafiadora, nos instiga quanto as verdadeiras fronteiras da compreensão, reconhecendo a riqueza do pensamento filosófico e psicanalítico que permeiam este tema tão universal. As ciências do homem não se ocupam da morte. Se contentam em reconhecer o homem como o animal da ferramenta; (Homo faber), do cérebro (Homo sapiens), e da linguagem (Homo loquax). ''No entanto, a espécie humana é a única para a qual a morte está presente ao longo da vida, acompanhada, de um ritual fúnebre, que acredita na sobrevivência ou na ressurreição dos mortos, assim, ela introduz uma ruptura ainda mais surpreendente entre o sapiens e o animal do que o utensílio, o cérebro ou a linguagem.'' (Morin, 1994). A tendência agressiva no psiquismo. Na análise da psicanálise freudiana, o conceito assume uma relevância fundamental para nós psicanalistas, pois se relaciona com as ideias de inconsciente e pulsão. Estes elementos não apenas emergem de experiências pessoais, mas também resultam das análises e autoanálises feitas por Freud, delineando um processo evolutivo e teórico. Em 1900, embora a teoria do inconsciente ainda não estivesse pronta, e, por meio de sua autoanálise, ele identifica um desejo interno em sua psique de ver a ''morte do outro'', interpretado como um sujeito exterior ao ''ego'', um rival, independentemente de ser familiar ou próximo. Esta descoberta, não apenas revelou esse desejo interno, mas também reconhece nele um sentimento de culpa que emergia após a ausência factual do outro. Após a Primeira Guerra Mundial em 1915, se considera verificar a presença de uma tendência agressiva no psiquismo, corroborando suas observações anteriores em “A Interpretação dos Sonhos”. Agora, com o conceito finalizado e teorizado de inconsciente, ele atribui essa tendência à destruição do outro como um vestígio arcaico e primitivo do ser, herdado psicologicamente com uma agressividade original transmitida de geração em geração, desde o início da espécie. Essa característica previamente esboçada em “Totem e Tabu” de (1913), se torna uma parte essencial do conceito de inconsciente. Além disso, a vivência da morte de um familiar, permitiu a Freud considerar a possibilidade de uma vida após a morte, bem como a existência de uma alma imortal. Isso levou a uma fusão entre inconsciente e corpo, uma concepção análoga à antiga dualidade delas na filosofia grega. Ambos, a alma grega e o inconsciente freudiano, são como que os prisioneiros do arcabouço da carne e do corpo. Após a sumidura do sujeito em que residem, persistem, ao serem imortais. A crença na perenidade do inconsciente surge da falta de associação com a mortalidade do fisiológico. O inconsciente, ao contrário do corpo finito, não concebe nada negativo, como a morte, e não sente a proximidade dela, ignorando, por exemplo o avanço da idade. A reflexão de Jung se encaixa aqui: “A morte é algo vital, pois a imortalidade não valorizaria a vida, nem daria coragem para enfrentar o perigo”. Essa frase se liga às concepções e ideias de Freud, destacando a interdependência entre a mortalidade e a vitalidade existencial. A compreensão da morte freudiana, é profundamente embaçada em considerações sobre o inconsciente e pulsões, e na relação entre vida e sucumbência da nossa vivência. O Inconsciente se assemelha à mente de uma criança, ignorante das implicações reais da morte, permanecendo imortal em sua própria ignorância, esta crença é alimentada pela ausência de representação dela mesma, semelhante a essa perspectiva infantil. Ditas ideias se ampliam quando aparece o desejo da morte do outro, o transferindo para o próprio eu. Assim leva à consideração da pulsão de morte uma força interna que domina o nosso comportamento, e que, de certa forma, está subordinada ao inconsciente. Esse portento sugere que dita pulsão agressiva é inerente à nossa natureza, herdada desde tempos primitivos, entrelaçada com o funcionamento da psique inconsciente. A suposta ignorância infantil sobre a morte que crianças demonstram, levanta dúvidas sobre a ausência total de representação dela. A possibilidade da repressão surge, indicando que o subconsciente pode censurar, esquecer ou negar a ideia do decesso, a tornando uma experimentação problemática ao nível da interpretação. A interconexão entre a hostilidade original em relação ao inconsciente, é examinada em relação à pulsão. Tanto ela quanto a segunda possuem uma qualidade eterna, com o inconsciente sobrevivendo além do sujeito em que habita, enquanto pulsão, especificamente a de morte, simbolizando uma tendência de retorno ao inorgânico, uma questão que pode estar subordinada ao inconsciente, considerado um organismo dinâmico. “A mente é como um iceberg, ela flutua com uma sétima parte de sua massa acima da água.” Freud. Essa metáfora enfatiza a vastidão do inconsciente humano, que opera nas profundezas e influência nossa conduta de forma sutil e poderosa. Em 1926 ele diz: “toda morte é um suicídio disfarçado”. A este inconsciente falta o sentimento de culpa, fato relacionado a pulsão, onde o perecimento representa e implica, um saber acompanhado pelo ''know how'' que a idade proporciona. Para além de guardar em si um primitivismo, aquele caráter próprio do homem antigo e arcaico, enquanto pensa e deseja, se comporta como uma entidade dentro de outra chamada homem, com a qual, funciona como uma criança que pode facilmente desejar a morte do outro sem a conceber como algo terrível, e, se a morte é pensada como algo mal, não no sentido moral, mas simplesmente como algo negativo. O inconsciente não concebe tal coisa, a negatividade, nele converge para os opostos. A nossa atitude perante a morte, aquilo que chamamos o nosso inconsciente; o estrato mais profundo da nossa alma, composto por moções pulsionais, não conhece absolutamente nada de negativo, nenhuma negação, — os opostos coincidem nele — e, consequentemente, também não conhecem a própria morte, à qual só podemos dar apenas um conteúdo negativo. Morín, a divisão entre o homem e o animal. A própria morte pode ser considerada não só como o fim da existência orgânica de cada ser vivo, mas também como um dos maiores estímulos ao pensamento humano. As palavras de Morín a propõem como aquilo que estabelece a maior divisão entre o homem e o animal, mesmo acima do tamanho do cérebro, e o fato é, que, embora se possa falar de uma consciência dela em todas as espécies, e, até de um medo da sua proximidade em alguns casos animais — porque ao nível humano é mais comum, visto que apenas o homem adorna a morte com ritos e crenças. Quanto se sabe sobre ela?. Muito pouco ou nada, se for abordada como um acontecimento físico, é vista como a cessação do orgânico, da falência dos órgãos, das causas patológicas que podem ser explicadas pela medicina, outros, cujas razões serão devidas a explicações psíquicas. Daí o fato de se falar em males psicofísicos, que possibilitam uma análise não só extra-morte, mas muito mais ampla, porque sua presença em vida é mais desoladora enquanto acontece na própria existência de um sujeito sem a morte do sujeito. Isso significa que não só acontece na própria existência, como também na própria subsistência sem a morte dele, essa que afeta não só o indivíduo, mas também aqueles que lhe são próximos, com mais força do que se ele simplesmente deixasse de existir. Esta relação com o psíquico se abre como uma questão importante ao nível da psicanálise. Não só devido à chamada pulsão de morte, como essa força interna que impele ao fim da própria vida, mas também porque implica lidar com um dos conceitos centrais da nossa clínica, a ''pulsão de morte''. Na primeira tópica do inconsciente como uma instância psíquica que faz parte de um sistema trinitário, constituído por elementos reprimidos, se privando do acesso à consciência, graças à ação da repressão. Ditos conteúdos recalcados são representações pulsionais da consciência, onde habita um desejo de morte do outro, e até do próprio sujeito em que habita. Se considerarmos este último, por exemplo, em relação à pulsão de morte como uma dramatização pulsional desta última, que está retida no inconsciente. Destarte não seja fácil reconhecer um desejo interno de morrer que não cessa de operar enquanto não se realiza. Enquanto o inconsciente deseja a morte do outro, ele conduz a sua própria existência, acreditando que a morte que deseja não o pode afetar, e assim, se considera imortal. Essa situação complica a análise da morte quando abordada pela psicanálise, ao colocar imediatamente algo imortal em um ser mortal. Enquanto a defunção for considerada em relação à vida, quer como um oposto, quer uma contingência possível ou uma realidade irrefutável da qual não há retorno, se pode dinamizar o pensamento e estimular a vida. Se a morte pode ser considerada algo necessário à vida, apesar de ser em si o seu oposto, é um tema que exige considerar o ponto de vista orgânico que pode responder a um porquê, como, quando e onde, ao implicar suas causas e consequências sobre um sujeito, bem como sobre os que lhe são próximos, tanto ao nível psíquico quanto físico. De um ângulo emocional, exige mais atenção, por implicar ver como acontece a um indivíduo em vida, perante a perda de um ente querido, de um objeto amado, de uma sentença de morte, etc. Este tipo de análise a partir de um conceito orientador como o inconsciente, nos permite considerar o ser desde as primeiras fases da vida até ao fim da sua existência. Quando tentamos falar sobre a morte, algo sempre escapa. Quanto a sua concepção vemos claramente a limitação do nosso pensamento, que permanece preso ao domínio dos significantes. O raciocínio que está ligado à linguagem, e a morte considerada irrepresentável, nos revela uma falta essencial de significativos para ser abordada por inteiro. Mesmo quando tentamos falar sobre, algo sempre escapa e foge ao dizer, o que indica a impossibilidade de ser absolutamente compreendida por meio da expressão. Qualquer discurso que busquemos ao lhe atribuir sentido acaba por falhar, pois a verdade sobre tal só pode ser enunciada no próprio ato de perecer. No entanto, existe uma exceção a essa barreira linguística: o suicídio. Como um gesto que permite ao indivíduo estabelecer um significante para sua própria morte, como exemplo às cartas de suicidas que reproduzem enunciados e testemunham sua própria decisão. Quando falha, erra na dose, na altura, no elemento liquidante, no tempo ou momento, mas ainda, deixa um apelo ao ''Outro'', um ou vários argumentos, se expõem, conjeturam, e vemos, que nem sempre o desejo autodestrutivo se alinha completamente com sua pronunciação, indicando uma possível direção oposta e inconsciente. O homem é um ser simbólico, utiliza o desviver como um ícone, representado primeiramente pelo ritual do enterro, usa o sepultamento como uma forma de eternizar sua existência, se inscrevendo nos registros do ''Outro'', mantendo assim a sua convicção paradoxal de imortalidade. Quer ser no seu fim, um signo eterno da cadeia significante da qual participava em vida. O autoextermínio apesar de sua trágica estrutura, é profundamente condenado religiosa e contemporaneamente, possivelmente devido à sua natureza contagiosa e ao desejo humano de se perpetuar na própria existência. A crença na imortalidade provém do inconsciente, pode estar relacionada ao heroísmo, onde a morte heroica será de certa forma honrosa. Em alguns casos, o significante imortal é deslocado e justificado por formas superiores, como a honra para os samurais, Deus para os mártires cristãos ou o logos universal para os estoicos. Convoco Mark Twain para dizer: “O medo da morte deve-se ao medo da vida. Um homem que vive, está plenamente preparado para morrer a qualquer momento”. Ele enfatiza a conexão entre uma vida vivida plenamente e a aceitação serena da mortalidade, destacando a coragem de viver autenticamente, sem máscaras, enfrentando a finitude com dignidade e serenidade. Pulsão de morte ou Thanatos. A vida mental está relacionada a esses tipos de impulsos, e a libido é o núcleo da vida psíquica, nossa energia vital. Porém, não está sozinha, temos o chamado instinto de vida ou Eros, que se refere ao deus da mitologia grega. Durante a pesquisa de Freud e a formulação de sua teoria, considerou a existência de outros tipos de pulsões, em contraste com o primeiro tipo, que se explicam como partes da psique. O instinto de morte ou Thanatos é um conceito definido como um impulso inconsciente que surge em oposição aos deslocamentos anteriores e gera impulsos orgânicos, restos absolutos da ortanásia ou retorno ao nada. Eros unificará a vida, enquanto Thanatos quer satisfazer os impulsos destrutivos que procuram despedaçar a matéria. Essa dor muitas vezes se manifesta como ataques aos outros e a si. Enquanto Eros é uma força geradora de energia positiva e dinâmica, em busca da paz quando não está associado ao erotismo. Thanatos é guiado pelo Nirvana, (estado de existência transcendental que representa a liberação do sofrimento e o objetivo final da prática espiritual) e não pelo princípio do prazer como Eros. Seu objetivo não é encontrar alegria na resolução de conflitos, mas sim alcançar o júbilo em retornar ao nada. Eros é a força da unidade e Thanatos a divisão. Parte da pulsão de morte permanece separada e provoca uma pulsão de morte gradual, mas quando fundida com Eros se torna fatal e violenta. O instinto de morte nem sempre é negativo, também é muito importante para o ser humano, se manifestando na criação de conflagrações constantes que nos são úteis em muitos aspectos. A ideia pode parecer desagradável, mas a realidade é que será uma forma de impulso necessária à sobrevivência. Ao nível psíquico nos permite nos separar dos objetos e consequentemente obter e desenvolver a identidade, preservando assim nossa individualidade. Do ponto de vista evolutivo responde pela agressividade, resultante da combinação dos dois tipos de impulsos, possibilitando a luta e autodefesa instintiva em determinadas situações. Destarte, Eros esteja associado ao momento do orgasmo, que por sua vez nos obriga a contar com sua presença para a obtenção da satisfação sexual e erótica, no sexo e no momento do clímax em que está associado à descarga. Eros, o deus do amor, da vida e da paixão, filho de Afrodite e Ares, deus da guerra em diversas versões da mitologia grega. Por outro lado, tem Thanatos, deus da morte não violenta, filho de Nyx, o deus da noite, e de Érebo, o das trevas. Irmão gêmeo de Hypnos, deus do sono, que se comporta com certa doçura e gentileza. Essa explicação mítica pode nos dar uma ideia das características básicas dos impulsos de vida e morte. ''A morte não está para apagar a luz; está apenas desligando a lâmpada, porque chegou a aurora.'' Rabindranath Tagore. “A morte é um enigma das fantasias mais profundas, ela nos desafia a confrontar temores e encontrar significado em meio ao incógnito.” Dan Mena. “A morte é o grande tabu que nossa sociedade evita discutir, a psicanálise nos convida a explorar nossos sentimentos e pensamentos sobre esse tema proibido.” Freud. “A angústia da morte é uma parte intrínseca de nossa existência. Nossa psique luta para compreender e enfrentar o inevitável fim da vida.”. Freud. “A morte não é apenas o fim da vida, mas também um aspecto inerente à vida, moldando nossos desejos e medos mais profundos.” Melanie Klein. “A morte simbólica, como a perda de relacionamentos, pode ser tão impactante quanto a morte física.” Erikson. “A pulsão de morte, está sempre presente em nossas vidas, influenciando nossos comportamentos de maneiras sutis e complexas.” Lacan. “A morte repercute nossa busca incessante por significado, um lembrete de nossa fragilidade e, uma fonte de inspiração para vivermos autenticamente.” Dan Mena. “A morte nos confronta com a nossa própria finitude e nos lembra da necessidade de dar significado à nossa existência.” Frankl. “Os sonhos frequentemente revelam nossos medos e ansiedades em relação à morte, oferecendo insights profundos sobre nossa psique.” Jung. “A psicanálise nos ajuda a compreender como o processo de luto nos permite lidar com a perda e encontrar um novo equilíbrio em nossas vidas.” kübler-Ross. “A angústia existencial está intrinsecamente ligada à nossa compreensão da morte e à busca de sentido em face da inevitabilidade do fim.” Irvin D. Yalom. “A psicanálise nos ajuda a compreender que a morte é uma parte essencial do ciclo de vida, e sua aceitação pode nos levar a uma existência mais plena.” Bettelheim. “A morte é um espelho que reflete nossos medos primitivos e lutas internas, um símbolo existencial dos desejos inexpressáveis.” Dan Mena. De Lacan, a morte constitui a ordem simbólica. Ela transcende seu aspecto físico e adentra aos recônditos mais sombrios do inconsciente, como defendido pelo pensador alemão Heidegger, cuja ideia de que a existência só adquire significado mediante o limite absoluto estabelecido pela morte. Sob esta égide, o sujeito humano seria concebido como “um ser para a morte”. Isso implica que a consciência dela é fundamental para nossa experiência, não apenas como um evento futuro distante, mas algo que permeia nossa existência diária e dá significado às nossas ações e escolhas. Humanos vivemos nossas vidas cientes da própria mortalidade. Essa ideia é aplicada para explicar como a consciência influencia a formação do sujeito e a maneira como percebemos e projetamos a nós mesmos. Uma condição que o analisante deve confrontar e aceitar durante o processo analítico. A relação íntima entre a morte e o simbolismo, é vista como constitutiva do ordenamento simbólico, onde o ícone, ao ocupar o lugar da coisa que representa se torna um equivalente do transpassamento dessa ''coisa''. A linguagem e o significante, desempenham papéis fundamentais, nos permitindo acessar e conceber a própria defunção. O significante ao considerar o sujeito como morto, de certa forma o imortaliza, e estabelece uma conexão vital entre a linguagem e a letalidade. No prisma do “Real” lacaniano, o finamento assume uma natureza inefável e inescrutável. Como um evento inevitável e incontrolável, representa um aspecto desse realismo que escapa à compreensão. Lacan descreve o perecimento como uma desordem, algo que desafia a lógica, cujo significado evapora ao nosso entendimento, transcendendo as categorias tradicionais da possível cognição. A relação entre desejo e exício evidencia que a excitação está como um elo para à falta, àquilo que nos é ausente para nos sentirmos completos. Esse limite final da existência, seria o ápice dessa ausência, representando a culminação dos nossos quereres insatisfeitos, um ponto de encontro entre a finitude e a demanda contínua e impossível de encontrar a totalidade. Nos aproximando agora do processo de luto, analiso como os sentimentos de amor e ódio em relação ao objeto perdido entram no embate durante esse período. Um processo de difícil resolução, uma luta interna entre o desejo de manter viva a presença do ente querido e o de se libertar do fardo emocional associado à perda. Essa análise psíquica, ilustra a batalha interna vivenciada pelo indivíduo enquanto tenta elaborar a carência, extinção, privação e supressão do ''Outro'' para encontrar seu equilíbrio emocional. Vejamos citações de Mark Twain; “A morte, o único imortal que morreu.” “A morte não é a maior perda da vida, a maior perda é o que morre em nós enquanto vivemos.” “De todas as coisas certas, a morte é a mais segura.” “A morte é o último inimigo do ser, uma vez enfrentada não há mais nenhum.” A imortalidade através da linguagem. Existe a ideia de que por meio da linguagem e do simbolismo alcançaremos uma forma de perpetuação. Nesse universo, nossas palavras e pensamentos podem perdurar muito tempo após nossa morte física. “A imortalidade não é alcançada por meio da extensão da vida física, mas sim por meio da sobrevivência de nossas palavras e pensamentos no discurso do Outro”. Uma realidade que desafia nossa compreensão e aceitação, lembrete constante de nossa finitude e vulnerabilidades como seres falantes. No entanto, também somos convidados a refletir sobre o significado de nossa existência e a encontrar formas de ultrapassar essa necrologia por meio do legado que deixamos no mundo pela expressão, eis o motivo que gosto tanto das frases dos antecessores. A linguagem nos instiga a confrontar nossos medos, a aceitar a realidade do ciclo de vida e morte e a encontrar acepção em nossa passagem efêmera existêncial neste vasto universo misterioso. No enquadramento da ética psicanalítica de Lacan que introduz o conceito da “segunda morte”, verificamos. A primeira se refere ao evento físico que marca o fim da vida, mas não encerra a fase natural de decomposição e regeneração. Por outro, a segunda, que configura o ponto onde o corpo agora inerte não pode mais passar pelo processo de regeneração; é o momento em que os ciclos naturais de transformação da natureza são completamente aniquilados. Essa caracterização de segunda morte extrapola o âmbito físico e se aplica a várias esferas da subsistência. Tem implicações diversas, especialmente quando consideramos agregar temas como a estética e a beleza, que podem ser consideradas uma revelação da relação labiríntica, hermética e enigmática do ser humano com a própria mortalidade. Também está relacionada diretamente com a essência do ser, nos confrontando com o espectro sádico de infligir um sofrimento perpétuo, não apenas com a cessação da vida física, mas também pelo fim de todas as transformações originárias, nos levando a confrontar a essência efêmera existencialista em sua totalidade. “A morte é uma vida vivida. A vida é uma morte que se aproxima.” Jorge Luis Borges. Uma jornada de reflexão, fé, filosofia e poesia. Como uma inevitabilidade inescapável, tem sido um tema central de contemplação ao longo dos séculos. Desde uma ótica positiva e mergulhando nas esferas da fé, religião, filosofia e poesia, podemos ampliar o lado da visão rica desse enigma. Nas escrituras sagradas, encontramos uma variedade de visões sobre a morte. No cristianismo, por exemplo, a ressurreição é uma crença central, como expressa em 1 Coríntios 15:51: “Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos.” Esta transfiguração é vista como uma jornada para um estado glorificado e eterno. Da mesma forma, no Islã, a morte é considerada uma transição para a vida eterna, conforme afirmado no Alcorão (2:154): “E não penseis que aqueles que foram mortos na causa de Deus estão mortos; ao contrário, eles estão vivos junto ao seu Senhor, sendo agraciados.” A morte na filosofia, enfrenta o absurdo da existência, filósofos há muito exploram o significado da morte. Albert Camus, um dos maiores pensadores do século XX, ponderou sobre o absurdo da vida em seu ensaio “O Mito de Sísifo”, onde questionou como encontrar significado em um universo aparentemente sem sentido. Ele escreveu: “O homem absurdo é aquele que nunca muda, e que, ao perseguir seus sonhos percebe a sua loucura.” Jean-Paul Sartre, outro proeminente filósofo ponderou, que a consciência da morte é o que dá verdadeiro valor à vida. Em suas palavras: “A existência precede a essência.” Ou seja, a vida tem significado porque somos livres para atribuir um sentido a ela, mesmo diante da finitude iminente. Na filosofia contemporânea seria uma jornada de autodescoberta, onde pensadores como Martha Nussbaum destacam a importância da nossa fragilidade e da aceitação da letalidade; ela dize: “A vulnerabilidade é uma parte essencial da condição humana. Aceitar nossa efemeridade não é acolher a inadequação, mas, ao contrário, aprender a ver a vida de maneira diferente.” Thomas Nagel, ensaia a dualidade da morte como a dimensão da limitação-fim, o que pode nos levar a valorizar experiências significativas. Em seu texto; “A Vista da Morte”, levanta questões sobre a possibilidade de compreendermos verdadeiramente esse transpassamento, devido à limitação de nossa perspectiva finita. Poesia e Romantismo: Uma dança entre a luz e a sombra. Na poesia, a morte é repetidamente retratada como uma escada para a eternidade. Emily Dickinson em seu famoso poema, escreve: “Porque não posso parar para a Morte. Ela gentilmente parou para mim.” Aqui, a extinção é personificada como uma companheira amável, que nos guia para além dos limites da existência terrena. William Wordsworth, um dos principais poetas românticos, explorou a conexão entre a natureza e a mortalidade em suas obras escreveu: "A morte não é, para nós, nada, visto que, quando existimos, a morte não existe, e, quando a morte existe, não existimos mais.", sugerindo então uma perspectiva filosófica quanto a continuidade da existência. Nesta jornada para a plenitude e a aceitação, ao abraçar as dimensões religiosas que prometem a vida eterna, filosofias que atribuem significado à nossa existência e as poesias que encontram beleza na transitoriedade, podemos aceitar a desaparição como uma parte essencial da nossa experiência. Assim, não exprime apenas um fim, há propostas de transformação, passagem para a eternidade, seja ela entendida como uma vida após a morte ou a própria memória que construímos. Ao enfrentarmos o fim da matéria podemos encontrar significado na efemeridade da vida e, através desse entendimento viver mais plenamente o presente, honrando a beleza da criação universal. Uma passagem para a eternidade. A bíblia nos oferece todas as respostas, uma gama variada de visões sobre a morte e nossa relação com o criador. Em João 3:16, lemos: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Essa passagem, enfatiza a crença cristã de que a fé em Deus proporciona o cumprimento da promessa na vida eterna. Esse entendimento que encapsula a doutrina central do cristianismo, a salvação pela graça mediante a fé em Jesus Cristo. em essência nos fala do plano divino de redenção e reconciliação da humanidade com Deus. Em Eclesiastes 3:20, nos lembra que a morte é uma parte natural da existência: “Todos vão para um mesmo lugar; todos foram feitos do pó, e todos ao pó voltarão.” Isso nos sugere que embora seja um evento inevitável, há uma verdadeira esperança de sublimidade espiritual. O plano divino de Deus é o autêntico lídimo de transição para a vida, onde seremos recompensados com a presença de Deus e a paz eterna, lugar da alma em perfeita e primorosa harmonia. Isso pressupõe a importância do livre arbítrio e da responsabilidade. Somos então desafiados a refletir que a incerteza da hora da morte é a crença na vida após exício, um incentivo a busca de uma vivência significativamente ética e orientada pela fé. O propósito da vida não se limita ao plano atual, mas se estende para além da parca e para a vida eterna; “Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condená-lo, mas para ser salvo por ele.” João 3:17. Além das passagens citadas, temos inúmeras outras referências: no Salmo 23:4; “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo, a tua vara e o teu cajado me consolam.” Esta passagem, conhecida como o ''Salmo do Bom Pastor'' oferece conforto e confiança em Deus, mesmo em tempos de dificuldade e adversidade, não devemos desistir da fé. Expressa a ideia de um Deus oniciente para nos guiar, proteger e confortar; Salmo 90:12: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para alcançarmos corações sábios.” Este versículo nos convida a lembrar que a vida é passageira e que devemos usar sabiamente o tempo que temos, quando reconhecemos sua existência nos preparamos para a eternidade. Também nos tranquiliza em momentos de luto: Tessalonicenses 4:13-14: “Não queremos porém, irmãos, que sejais ignorantes com respeito aos que já dormem, para que não vos entristeçais como os outros que não têm esperança.” Aqui, o apóstolo Paulo nos lembra que como cristãos devemos ter confiança e crer, mesmo na morte. Nossos entes queridos que partiram, estão descansando nos braços amorosos de Deus. Más, não é o fim da história. Deus também nos fala claramente da imortalidade no seu Reino: João 11:25-26: “Disse Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim, nunca morrerá.” Jesus nos assegura o início de uma jornada eterna com Deus, Ele é a ressurreição e a vida, e podemos encontrar conforto e esperança em sua promessa. Finalmente, quero compartilhar uma passagem que nos encoraja a viver uma vida que glorifica a Deus, independentemente de quanto tempo tenhamos: Tiago 4:14: “No entanto, vocês não sabem o que acontecerá amanhã. O que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa.” Então, há uma mensagem reveladora em Tiago, o Justo, um dos irmãos de Jesus. O seu livro contém conselhos práticos sobre como viver uma vida cristã, abordando questões como a fé, obras e a sabedoria. 1 - Fragilidade: Chama ao reconhecimento da nossa fragilidade e limitação. Isso está em linha com a tradição bíblica que ensina que somos criaturas finitas, feitas do pó da terra, e nossa existência na Terra é temporária. 2 - Dependência de Deus: Lembra nossa total dependência de Deus. Como a vida é incerta e passageira, é essencial que confiemos nele para a orientação, propósito e segurança. Isso promove a humildade e confiança como o único detentor e controlador do universo é do futuro. 3 - Eternidade: A comparação da vida com a neblina que aparece e depois se dissipa destaca a efemeridade da vida terrena em contraste com a eternidade. Os cristãos somos chamados a manter nossa visão no evo, a investir em valores e relacionamentos duradouros, em vez de cancelar o próximo, se apegar ao materialismo, sublimar a estética e dar extrema importância a preocupações passageiras. 4 - Reflexão e sabedoria. Exorta a refletirmos sobre o significado das nossas vidas e a viver com sabedoria. A incerteza do amanhã é um lembrete de que a vida é preciosa, e devemos usá-la de maneira significativa, honrando a Deus, amando o próximo e praticando o bem. Como cristãos, não enfrentamos a morte sozinhos. Temos a promessa da vida eterna em Cristo e a esperança de um dia estarmos reunidos com nossos entes queridos que tanta saudade deixaram. Portanto, não temamos a morte, mas confiemos na promessa de Deus e vivamos nossas vidas com propósito, alegria e dedicação. Que Deus abençoe a todos, nos conceda a paz que excede todo entendimento, porquê nada sabemos. “Porque eu estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem coisas presentes, nem futuras, nem poderes, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.” — Romanos 8:38-39 Psicanalistas, como profissionais de diversas origens e crenças, podem ter uma variedade de visões religiosas ou ateístas. A crença religiosa ou a falta dela é uma questão pessoal do analista e não está absolutamente relacionada à prática da psicanálise. Assim, é importante não generalizar ou sermos estereotipados incrédulos como muitos pretendem, pois estas são variáveis individuais e independentes do campo clínico que exercemos. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- Cinema, Sonhos & Psicanálise.
Descubra como os filmes revelam os segredos da sua mente. “Sonhos são a linguagem da mente, e o cinema, uma poesia visual que dialoga entre a realidade imaginária e o inconsciente.” Dan Mena. Por Dan Mena. Eu, cinema e psicanálise. É sábado e, independentemente do clima lá fora, seja com chuva ou sol, calor ou frio, eu vou ao cinema. Desde cedo, aguardo ansiosamente por quatro longas-metragens, com início por volta dá uma e meia da tarde, que se prolongam até tarde da noite. Entre elas, teremos um do gênero western, com “Trinity é o Meu Nome” com Terence Hill e Bud Spencer, ou talvez; “O Voo do Dragão” com Bruce Lee, além de um romance e um filme de terror, que não provoca o medo de ninguém. Desde os meus oito anos, lembro de esperar por esse dia como o melhor da semana. Além dos filmes, apreciava cada detalhe: o ambiente da sala, a luz do lanterninha que nos guiava até a poltrona, os uniformes dos funcionários, o aroma das pipocas, cheiro dos estofados de couro e os doces que comprava da moça que passava com uma bandeja agarrada com cintas nos seus ombros. O Uruguai, na década de 70, se destacava como um dos cinco países com maior número de cinemas, contabilizando até duzentas, apenas na capital Montevideo em 1976. Essa quantidade de salas, era considerável para a população da época. Assim, a paixão pelo cinema se tornou uma parte peculiar da minha vida, algo que nunca abandonei ao longo dos anos. As salas eram clássicas, espaçosas, com galerias superiores, e era comum aguardar na fila do lado de fora para garantir um lugar, frequentemente, era um dos primeiros a entrar, e geralmente, ia sozinho. Era um desafio juntar os 7 pesos necessários durante a semana, mas, de alguma maneira, ajudando na oficina mecânica do meu pai, sempre conseguia. Os cinemas de bairro da época ofereciam pacotes de matinês, uma opção de adquirir um único bilhete para assistir a todos os filmes do dia, desde que não se saísse do recinto, (com exceção do último, que poderia ter restrição etária). Essa experiência me proporcionava uma imersão única, uma sequência envolvente de histórias que me fascinavam. Os acomodadores, com seus lindos chapéus e suas lanternas, (lanterninhas), buscavam os menores para retirá-los da sala durante a exibição de filmes (impróprios), como; “Malícia” com Laura Antonelli, que mais tarde viria ser conhecida por muitos como “A Deusa do Sexo”. Nesses momentos, eu me escondia no banheiro, determinado a burlar a fiscalização e não perder nenhum detalhe. Quando os rolos dos filmes se cortavam, a plateia sapateava batendo os pés no chão, principalmente, se o corte acontecia nas cenas mais provocativas de Antonelli, onde suas pernas eram sugestivamente exibidas. Neste breve retrospecto da minha ligação com o cinema, mal eu poderia imaginar o quanto ele estava conectado a minha infância e desenvolvimento. Certamente desempenhou um papel precípuo na construção da minha personalidade. Essa intensa exposição a diversas narrativas cinematográficas, não apenas enriqueceu precocemente minha introdução a uma compreensão de mundo, mas também, proporcionou um terreno fértil para o progresso da minha identidade. Ao me aproximar instintiva e fantasmagoricamente da psicanálise, percebo o quanto essa nossa longa relação era preexistente, sugestionando direta e positivamente minha jornada num inevitável cruzamento. Tal convergência entre eu, arte, cine e psicanálise foram uma ponte, que estava apenas na espreita da minha chegada, para em algum momento ser atravessada. Boa leitura. Como sonhos e cinema transformaram minha clínica. Como Freud apontou em sua obra; “A Interpretação dos Sonhos”, eles são a “estrada real para o inconsciente”, na prática da análise psicanalítica, sempre foi um terreno fértil para nossa investigação. Antes de adotar uma técnica mais específica em minha abordagem, costumava submergir em centenas de livros, buscando ampliar e compreender essa complexidade imersa nos sonhos dos pacientes. No entanto, minha jornada tomou um novo rumo quando percebi o poder transformador de interpretar mediante filmes e o cinema. Antes de introduzir esse aperfeiçoamento, eles se apresentavam muito enigmaticamente para serem decifrados. Cada paciente trazia narrativas oníricas difusas, muitas vezes envoltas em nebulosidades simbólicas que retardavam a compreensão e demandavam extensas pesquisas e leituras que, por vezes, se perdiam na complexidade das teorias. Entretanto, ao usar dessa metodologia no processo, percebi uma mudança positiva notável em minha prática. A utilização de metáforas visuais antagônicas, proporcionou uma clareza que transcendeu as barreiras do verbal, permitindo uma comunicação mais clara e objetiva com pacientes. A magia do cinema, reside em sua capacidade única de criar narrativas visuais que ecoam nos recantos profundos da psique, assim, filmes se tornaram espelhos que refletiam as sombras e as luzes dos sonhos dos clientes. Não apenas simplificou o processo interpretativo, mas também revisitou nuances que anteriormente me tomavam horas imerso em leituras. Assim, pude direcionar minha energia para explorar o vasto repertório cinematográfico. Os filmes se tornaram minha biblioteca visual, repleta de imagens potentes, onde algumas frases de autores foram me conduzindo com atenção ao tema. Sendo um domínio cultural, o cinema transporta o sujeito contemporâneo, assim como Fernandes cita; “o homem atual, esmagado pelo concretismo da máquina, do sistema e da técnica, busca o poder que a sala escura tem para invocar seus fantasmas interiores”. A transição para essa técnica foi uma verdadeira revolução em minha prática, ao encurtar o caminho para a compreensão, consegui guiar outros de maneira mais eficaz, em direção à resolução de conflitos. A clareza proporcionada por eles, permitiu uma conexão mais imediata com as emoções e os significados implícitos, acelerando o processo terapêutico. Na arte cinematográfica, se entrelaçam dispositivos teóricos e técnicos; “mas nem por isso se deixa de tirar proveito acerca dos fenômenos com os quais seus objetos particulares de estudo se confundem”; (Fernandes, 2005). Na sua forma mais primitiva e autêntica, a arte nada mais é do que uma proeminência projetada dos nossos sonhos. Quando compreendemos que desde os primórdios das primeiras eras da sociedade, somos arrojados pelo desejo de encontrar refúgio, um lugar seguro, silencioso, penumbroso, onde o mundo possa dar uma pausa, é sermos, transitoriamente, suspensos da dinâmica da vida. Buscamos, nesse átimo, nos reencontrar com a experiência imaginária das emoções distantes das culpas, perigos e ameaças, medos e afetos que nos constituem e cercam. Agora conscientes de que, após mergulhar nessas sensações, censuras e interdições, podemos nos permitir renascer como a fênix como se despertássemos de um pesadelo. Vejamos alguns filmes que formam minha biblioteca analítica; “Persona” (1966) — Ingmar Bergman: Um filme complexo que aborda a identidade, a interpretação da realidade e a fusão entre o eu e o outro. As dinâmicas psicológicas são exploradas de maneira acentuada e cavada. “O Sétimo Selo” (1957) — Ingmar Bergman: Outra obra-prima de Bergman que toca em questões existenciais, morte, fé e a busca por significado, com elementos simbólicos que podem ser interpretados psicanaliticamente. “Birdman” (2014) — Alejandro González Iñárritu: Este filme, conhecido por sua cinematografia única, aborda a busca por validação, a identidade do artista e a linha tênue entre a realidade e a fantasia. “Janela Indiscreta” (1954) — Alfred Hitchcock: Um clássico de Hitchcock que envolve a observação e interpretação de vizinhos, explorando a curiosidade humana e os limites entre a realidade e a fantasia. “Cisne Negro” (2010) — Darren Aronofsky: Um mergulho psicológico intenso na busca pela perfeição artística, explorando a dualidade da identidade e os desafios emocionais associados à busca da excelência. “O Terceiro Homem” (1949) — Carol Reed: Este clássico noir aborda temas de traição, paranoia e interpretação da verdade, proporcionando uma experiência rica em complexidade psíquica. “O Espelho” (1975) — Andrei Tarkovsky: Tarkovsky explora a memória, a identidade e a reflexão sobre o eu neste filme poético e introspectivo, que pode ser interpretado à luz dos princípios psicanalíticos. “A Noite Americana” (1973) — François Truffaut: Uma obra que oferece uma visão dos bastidores da produção cinematográfica, abordando questões de ilusão, realidade e a complexidade das relações sociais e intrapessoais. “Synecdoche, New York” (2008) — Charlie Kaufman: Uma obra que mergulha nas camadas da realidade e da representação, explorando a mente e os desafios da interpretação da vida. “O Método” (2005) — Marcelo Piñeyro: Baseado em uma peça teatral, este filme aborda o processo de seleção de emprego, inclui a dinâmica e os aspectos psicológicos dos personagens. Esses filmes oferecem narrativas ricas que dialogam com os temas da interpretação e psicanálise, proporcionando uma experiência cinematográfica enriquecedora e reflexiva. A subversão que chegou pela “A Interpretação dos Sonhos”. Como mencionei, no início do século XX, Freud apresentou sua obra; “A Interpretação dos Sonhos”, assim revolucionou as concepções sobre sua natureza e origem. Contrapondo a visão predominante desse estágio, que eram meros produtos psíquicos descartáveis, ele postula, que sua representação no trabalho psíquico é dotada de grande significância. Este mister, persiste como a principal referência psicanalítica há mais de 120 anos, e continua a ser um compêndio fundamental para a compreensão abrangente do mundo onírico. Os sonhos, emergem do nosso subconsciente como expressões dos instintos e desejos individuais, constituindo tentativas do inconsciente para realizar o que, como sujeitos conscientes, não realizamos ou concretizamos. A interpretabilidade, uma característica intrínseca dessas manifestações, demanda compreensão para poderem adquirir significado. Consideradas mensagens do inconsciente, a análise dos elementos presentes em um sonho revelam sua natureza, que requer uma análise cuidadosa do peso envolvido nos elementos e, a implicação contextual na vida do indivíduo. Para atingir seu âmago e elucidá-los, e preciso fragmentá-los, quebrar e decompor na sua narrativa fantasiosa. Assim, os segmentamos em partes distintas, incluindo perguntas, que nos permitem desvelar e adentrar na sua natureza como uma realização deformada de desejos, conhecida como “deformação onírica”. O cinema, por sua vez, mantém uma forte ligação com a psicanálise, compartilhando uma linguagem visual e narrativa. Cineastas habilidosos, reconhecem o potencial do cinema como uma forma de expressão devaneadora dirigida, exploram profundamente o drama humano em suas obras. O epíteto “fábrica dos sonhos”, não é por acaso, ao ser atribuído ao cinema no sentido que enfatiza a afinidade peculiar entre a linguagem e seus elementos. Esta inter-relação entre, arte, cinema e psicanálise, se desvela nas mais diversas formas, essa tríade fantástica, que utiliza o dialeto das imagens para explorar os reinos emocionais, imaginários e interpessoais. A observação que a psicanálise faz do material inconsciente, presente em diferentes trilhas, personagens, criaturas, arquétipos, conflitos, elementos, locais e temas de diversos gêneros e situações, que não apenas enriquecem a prática clínica, más, a tornam objeto de interesse para profissionais da psicologia e suas terapêuticas, quanto também para os cineastas. A íntima e variada relação entre eles, incorpora conteúdos que contribuem para uma abordagem criativa dos problemas humanos, constituindo uma fusão singular entre disciplinas aparentemente distintas, mas que, em seu diálogo, oferecem perspectivas ricas e inovadoras. “No entanto, para analisá-los em sua singularidade, tem de se considerar as especificidades da linguagem cinematográfica” (Weinmann, 2017; “É a partir do simbólico que há compreensão, pois no campo do imaginário reside uma opacidade quase intransponível” (Pereira, 2015). “Sonhos e cinema entrelaçam suas narrativas íntimas, revelando os fios que ligam nossa psique à realidade da tela.” Dan Mena. Sonhos que se entrelaçam. Uma analogia perspicaz entre o cinema e os sonhos reside na concepção de que os sonhos são exibidos, assim como os filmes, sendo que, no caso dos sonhos, sua amostra ocorre na esfera privada da mente. A distinção crucial entre eles consiste em que, durante uma sessão de cinema, o indivíduo não está em estado de sono, mas sim em atenção dedicada a estímulos visuais e auditivos de importância absolutamente relativa. Nesse contexto, surge o desafio cognitivo de atribuir sentido aos personagens e ao enredo apresentado. É imperativo notar que, apesar de conservarmos plenamente nossas habilidades motoras durante a experiência cinematográfica, nos encontramos em um estado de atenção peculiar, caracterizado pela imobilidade e pelo silêncio, focados nos referidos estímulos. No domínio onírico, se desvela aquilo que está sujeito ao desconhecimento consciente, ou seja, que permanece reprimido na esfera da nossa consciência, embora se apresentem de forma dissimulada e mascarada. Esse mecanismo, possibilita que o conteúdo latente do sonho escape à censura, fuja da consciência por meio de um processo de transformação. Freud foi minucioso, acurado e detalhista, assim identificou quatro etapas fundamentais nesse processo: a distorção, condensação, deslocação e representabilidade. Cada uma dessas fases, desempenha um papel importante na moldagem da manifestação final deles, permitindo que os elementos inconscientes inclusos se expressem de maneira simbólica e camuflada. A experiência cinematográfica, e a natureza dos sonhos se ostentam como esferas dimensionais melindrosas do processamento mental, onde a mente tenta lidar com a hermética enigmática dos estímulos sensoriais e os desafios da sua perspectiva esclarecedora. Essa intersecção não apenas reflete a riqueza da psique humana, mas também nos oferecem um ângulo único para a captação e absorção dos sistemas mentais alocados à nossa percepção de mundo e do seu entorno. O “conteúdo latente” se refere aos pensamentos e desejos inconscientes presentes nos sonhos, que estão mascarados por uma camada superficial chamada “conteúdo manifesto”. Os sonhos fornecem uma janela para o inconsciente, permitindo que desejos reprimidos se manifestem de maneira disfarçada. Essa dicotomia entre o manifesto e o acaçapado, descortinam as embaraçadas camadas da mente. A “distorção” ocorre quando o conteúdo latente é transformado durante o processo de sonhar, resultando em uma narrativa onírica que pode parecer desconexa ou surreal. Essa distorção serve como um mecanismo de defesa, permitindo que o inconsciente expresse desejos reprimidos sem despertar a censura do consciente. Assim, a análise dos elementos distorcidos de um sonho nos oferece insights valiosos sobre os conflitos psíquicos subjacentes. A “condensação” e à inclusão de múltiplos significados em um único elemento ou imagem no sonho. O inconsciente busca economizar energia, combinando múltiplos desejos em uma única representação simbólica. Essa condensação torna a interpretação dos deles uma tarefa complexa, exigindo uma análise aprofundada para desvendar os significados pressupostos. O “deslocamento” ocorre quando a energia emocional associada a um desejo é transferida de um elemento para outro no conteúdo manifesto do sonho. Isso muitas vezes resulta em imagens que não têm relação aparente com o verdadeiro objeto do desejo. O deslocamento serve como outra estratégia do inconsciente para evitar a censura, canalizando a energia emocional de maneira menos ameaçadora. A “representabilidade” seria à capacidade do inconsciente de traduzir desejos reprimidos em símbolos e imagens compreensíveis. O inconsciente trabalha e possui sua própria linguagem simbólica, e a análise dos símbolos em sonhos é fundamental para desvendar os conteúdos potenciais. A representabilidade permite que os desejos se manifestem de maneira disfarçada, escapando da vigilância rígida do consciente. Um cenário único e excepcional. O cinema se configura como um quadro panorâmico singular, onde sonhos ganham contornos de excepcionalismo. Por meio de sua mise-en-scène, emerge uma elaboração de imagens que estabelece um ''continuum'' de substâncias fragmentadas, habilmente costuradas para criar uma montagem de significados coesos. É imperativo, no entanto, reconhecer que não se manifestam como uma imagem pura, mas como uma construção composta por pedaços. Na teoria freudiana, não se envolvem em processos de pensamento, matematicamente em cálculos ou julgamentos; ao contrário, se dedicam exclusivamente à remodelação. A sua dinâmica não se configura pela criação de fantasias ou pela formulação de desfechos, mas sim, no deslocamento, remodelação, reforma, concreção e condensação de elementos psíquicos. Entre cinema e sonhos, há um processo de costura e sutura, uma montagem que envolve a união e justaposição emblemática da associação de elementos diversos, que culminam em fusões de significantes para originar novos sentidos. Esse processo, incorpora movimentações, efeitos de transmigração, metonímicos e metafóricos, desafiando as fronteiras convencionais da representatividade. Nesse arcabouço, sobrenadam domínios inter-relacionados que partilham a necessidade de manipular imagens de maneiras criativas e simbólicas. Portanto, encontramos a existência de um cinema propício ao estado do sono e outro, que se denota mais apropriado ao estado da vigília. O cinema destinado ao sono se dedica à produção de sentido, ideais e desejos, criando a ilusão de uma correspondência harmoniosa entre os sexos e o espectador adormecido. Conforme Freud, que elucidou o papel do sonho como um trabalho de remodelação e impulsos, forneceu um alicerce teórico que enriquece a compreensão dessa interseção complexa entre cinema e sonho, que nas palavras de Caretti ressoam como um eco, destacando o papel singular do sonho na reconstrução simbólica e na busca por significância. Esta perspectiva conjunta enaltece a natureza complicada dessas formas de expressão artística e mental, convidando a uma análise mais aprofundada dos mecanismos subjacentes à criação de sinônimos em ambientes oníricos e cinematográficos. Sempre Lacan é a linguagem, não podem faltar. No panorama psicanalítico, Lacan contribui enunciando que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, e, nesse sentido, tanto o cinema quanto os sonhos operam como sistemas dialéticos que transcendem a simples representação visual. Da mesma forma, Melanie Klein, ao explorar os processos de formação de símbolos na infância, amplifica a compreensão do trabalho simbólico presente tanto nos sonhos quanto no vocabulário do cinema. Os sonhos oferecem um terreno fértil para a manifestação de desejos reprimidos e a expressão simbólica do inconsciente, conforme as teorias de Freud, Lacan e Klein, eles orbitam essa interação entre o psíquico e o cinematografo. Essa convergência de perspectivas enriquece a compreensão do rol do cinema como um espaço onde as fronteiras entre a realidade e a fantasia se encanastram, ricocheteando os processos inconscientes revelados nos recantos dos sonhos. Exemplos lúdicos. Contarei dois cenários de sonhos dos meus pacientes e, em seguida, estabelecer analogias com dois filmes distintos, utilizados para sua interpretação. 1 - Sonho resumido: Sandra x “Cisne Negro”. Sandra me conta um sonho no qual se vê perdida e sozinha num labirinto em trevas, tentando encontrar desesperadamente a saída. Ela se sente absolutamente extraviada, ansiosa e incapaz de discernir a direção certa para poder escapar da situação. Em um determinado momento, encontra uma sala de espelhos que refletem uma versão distorcida de si mesma, algo que a impacta e paralisa. Analogia cinematográfica: Posso fazer uma analogia com o filme “Cisne Negro” de (2010), dirigido por Darren Aronofsky. No filme, a protagonista. Nina, enfrenta uma jornada angustiante enquanto dança no balé “O Lago dos Cisnes”. Ela se sente constantemente desafiada, enfrenta suas próprias inseguranças e encara uma versão deturpada de si, enquanto deflagra uma luta particular ao ter que se debater com seu lado sombrio. Interpretação Psicanalítica possível: Analisando a narrativa de Sandra quanto ao sonho, e o conectando a uma situação cinematográfica, o labirinto escuro, a falta de luz, pode representar a complexidade dos desafios emocionais que ela está enfrentando na sua vida cotidiana, onde se sente sem rumo e angustiada, (falta de luz para encontrar a saída-resolução. O espelho distorcido reflete o desvio da imagem confusa, sugerindo os conflitos provocadores internos que enfrenta. Eles estabelecem uma luta intrapessoal para aceitar certos aspectos da sua identidade. Utilizando o filme “Cisne Negro” como ferramenta nessa clínica, exploro esses elementos simbólicos presentes e interconectados entre Sandra e a cena específica. A protagonista do filme enfrenta reptos análogos aos da sonhadora, como a busca por identificação e individualidade, uma luta com a sua escuridão interior e a aceitação de diferentes aspectos da personalidade. A análise comparativa pode fornecer um guia valioso sobre esses embates, permitindo uma compreensão mais profunda e uma abordagem eficaz, enriquecendo a experiência terapêutica ao fornecer metáforas visuais e narrativas que ajudam a elucidar questões psíquicas prevalecentes na situação apresentada por Sandra. 2 - Sonho resumido: Pedro x “O Show de Truman”. Exemplo de sonho: Pedro é um homem de 47 anos, sonha repetidamente que está em um elevador que não para de subir. Ele sente uma mistura de excitação e ansiedade à medida que o ascensor alcança alturas vertiginosas. Ao chegar a algum lugar que pode ser considerado o topo dessa elevação, se depara com um pássaro colorido que voa livremente. Ampliação da narrativa: No seu sonho, a sensação de subir no elevador representa seu desejo de ascensão profissional e progresso na vida. A mistura de excitação e inquietação reflete as emoções conflitantes associadas a suas ambições. O encontro com a ave colorida no topo, simboliza a busca pela liberdade e expressão autêntica, talvez indicando um desejo de autodescoberta e realização pessoal inconclusa. Analogia Cinematográfica: Para ilustrar essa dinâmica, fiz uma aproximação análoga ao filme “O Show de Truman” (1998), dirigido por Peter Weir. O seu protagonista, Truman, vive em um mundo artificial, em uma gigantesca cúpula televisiva. Sua busca por respostas e a decisão de explorar além dos limites impostos pela abóboda do domo, espelham o desejo de Pedro por autenticidade, liberdade e êxito, tentando escapulir dessa barreira. Interpretação Psicanalítica possível: Na análise, a subida constante do elevador sugere uma busca contínua por progresso e crescimento na vida de Pedro como sonhador. As emoções conflitantes experimentadas refletem os desafios inerentes às metas dessa jornada, onde o medo do desconhecido pode coexistir com a excitação da superação. O pássaro colorido representa a busca pela genuinidade e liberdade, indicando que ele pode estar pronto para adentrar em aspectos mais cavados de si. Ao utilizar “O Show de Truman” como referência, e dentro da leitura terapêutica, posso identificar a ideia de limitações autoimpostas ou não, e lhe encorajar a questionar suas expectativas externas e internas, que podem estar influenciando significativamente suas escolhas. A seleção do filme me serviu como uma ponte para discussões sobre autenticidade, indagação pessoal e a coragem implícita necessária para elaborar desafios e convenções estabelecidos. Essa chegada integrativa, permite que ele desafie simbolicamente suas aspirações, utilizando elementos do sonho e do cinema para facilitar o processo terapêutico. Sonho, cinema e significado. A busca incessante por definição, inerente ao ser, se estende não apenas aos domínios do inconsciente, mas também a essa experiência com a tela. Na medida que nos aprofundamos nesse universo, compreendemos que o ato de assistir a um filme é mais do que uma simples observação; é um percurso psíquico da qual nos tornamos cativos, tanto como sonhadores quanto intérpretes deles. Associações e significados, revezados na procura de sentido e acepção, vão além da mera sequência de imagens e eventos recebidos. Como espectadores, empreendemos um processo cognitivo, buscando criar significância, pertinência e peso, ao estabelecer ligações entre os elementos veiculados. Da mesma forma como interpretamos um sonho, tentamos entender as relações e associações das elocuções dos filmes. Ao assistirmos a um filme, nossa mente procura ativamente por significados, criando associações que conectam o mundo ficcional à nossa realidade psíquica. ''Analogamente às fases do trabalho onírico, a condensação e deslocação que rodam durante a recordação de cenas ou a formação de entendimentos alternativos em relação ao filme, o espectador, nesse contexto, se envolve no processo de transferência, se conectando à ficção de maneira efêmera, como se estivesse vivendo a narrativa; “como se” fosse real. “O cinema, assim como os sonhos, desencadeiam processos de condensação e deslocamento, nos convidando a reinterpretar cenas e a formar compreensões alternativas, sendo afrontados a uma experiência que transcende a realidade imediata.” Dan Mena. Dita representabilidade e expectativas encontradas nas projeções das imagens e sons, onde espectador se relaciona com elas “como se” fossem produzidos a partir de considerações de representabilidade encontradas em sonhos. Além disso, dispositivos estéticos, como metáforas, são empregados nos filmes, estimulando a interpretação organizada com base em expectativas preconcebidas sobre a narrativa e os acontecimentos presentes. “O cinema utiliza estratégias estéticas, como tropos e translações, para nos convidar a interpretar os filmes, estimulando um processo analítico organizado com base em nossas expectativas sobre a história e os elementos visuais e sonoros agregados às cenas.” Dan Mena. Desta forma, no cinema transcendemos a posição de meros espectadores; nos tornamos sonhadores e intérpretes deles. A experiência vem para refletir e ampliar os processos psíquicos presentes na análise, proporcionando uma arena na qual a imaginação e a interpretação desembocam. Ao entender o cinema sob uma ótica psicanalítica, expandimos nossa compreensão não apenas da sétima arte, mas também da elaboração dos meandros da mente. “Sonhos e cinema, tecidos pela psicanálise, são portais para entender o inconsciente coletivo e individual.” Dan Mena. “Os sonhos são a estrada real para o inconsciente, e o cinema, sua versão coletiva, uma tela onde as complexidades psíquicas se desdobram.” Freud. “Assim como os sonhos, o cinema revela as camadas mais profundas do inconsciente coletivo, fornecendo símbolos que transcendem as experiências individuais.” Jung. “No mundo dos sonhos e na tela do cinema, as fantasias inconscientes dançam juntas, oferecendo um espetáculo que ilumina os recantos mais sombrios da psique.” Anna Freud. “O cinema, como o sonho, é uma tela onde o sujeito se confronta com suas próprias projeções, revelando as complexidades da relação entre o eu e o outro.” Lacan. “Assim como nas fantasias inconscientes, o cinema oferece uma arena para a expressão e resolução de conflitos psíquicos, revelando os dramas internos da mente.” Melanie Klein. “O cinema, como os sonhos, é uma narrativa que espelha as lutas e triunfos do desenvolvimento psicológico, oferecendo um espelho para a jornada humana.” Erikson. “Nos sonhos e no cinema, encontramos a expressão simbólica dos desejos mais profundos, revelando as estratégias criativas e defensivas da mente.” Horney. “No espaço entre a tela do cinema e o sonho, descobrimos um terreno fértil para a exploração da imaginação e da capacidade de criar significado.” Winnicott. “O cinema, como os sonhos, oferece uma porta de entrada para as questões existenciais mais profundas, proporcionando um meio para confrontar a busca de sentido.” Yalom. “Assim como nos sonhos, o cinema é um espaço onde os relacionamentos e as dinâmicas interpessoais são representados, refletindo as complexidades das relações humanas.” Chodorow. “Na tela do cinema, a psique projeta anseios e temores; nos sonhos, cada um encena seu próprio drama psicológico.” Dan Mena. A Influência da Psicanálise na narrativa cinematográfica contemporânea pelos diretores. Na interseção entre cinema e psicanálise, diretores contemporâneos e empresas de produção reconhecem e valorizam a importância dessa interpelação na construção de briefings, roteiros e produções cinematográficas. Trago como exemplo; Christopher Nolan, que utiliza efetivamente a psicanálise em sua prática criativa, destacando a profunda influência dessa atuação na indústria atual. Parece que ambos conceitos estão de mãos dadas desde os primórdios do cinema, e continuam a evoluir, florescendo na contemporaneidade. Portanto, não apenas grandes diretores incorporam elementos psicanalíticos, mas também as empresas de produção reconhecem a relevância dessa abordagem para a construção das películas. Nolan, renomado por suas narrativas emaranhadas, enfatiza a contribuição da matéria: “A psicanálise proporciona um arsenal de conceitos que nos permite penetrar na entrançada psique. Isso é crucial para dar vida a personagens multifacetados e autênticos.” Em sua obra “A Origem”, trabalha com o inconsciente, utilizando conceitos freudianos para criar personagens envoltos em enigmas psicológicos, desvendando suas motivações e quereres. Falando de simbologia e interpretação, um expoente seria Denis Villeneuve, diretor de “A Chegada”, ele compartilha sua perspectiva sobre a psicanálise: “A simbologia é uma linguagem universal do inconsciente. Ao incorporá-la em nossos filmes, convidamos o espectador a uma jornada interpretativa que ressoa em níveis superabundantes.” Villeneuve, destaca a importância de criar símbolos pictóricos que transcendam a superfície da trama, convidando o público a uma reflexão sobre assuntos de interesse universal, que estão presentes em suas obras. Já, vindo a tona os conflitos e relações Interpessoais, Darren Aronofsky, diretor do “Cisne Negro”, sublima sua aplicação na compreensão dos relacionamentos: “A teoria lacaniana nos permite angular as nuances das relações pessoais e sociais, trabalhar com os confrontos, duelos, emoções e desejos que dão vida a personagens complexos.” Em sua biografia artística, Aronofsky utiliza a teoria de Lacan para mergulhar na mente, construindo personalidades e figuras, cujas conflagrações internas reverberam, de maneira poderosa, nos espectadores. Outro que utiliza magistralmente o inconsciente coletivo: Guillermo del Toro, cujos trabalhos frequentemente adentram nos aspectos mais sombrios, comenta: “Os mitos e arquétipos são veículos volumosos para a expressão pública e comunitária. Ao incorporá-los, construímos pontes entre as experiências individuais e universais.” Del Toro destaca como a psicanálise, em especial as ideias junguianas, enriquecem suas histórias e os elementos arquetípicos no nível coletivo. Christopher Nolan, conhecido por suas obras como “A Origem” e o fantástico “Interestelar”, revela em depoimento exclusivo: “A psicanálise não apenas me fornece um arcabouço teórico entranhável para a construção de figuras e protagonistas, mas também, me desafia a averiguar os recessos mais umbrosos da nossa mente. Cada filme é uma jornada psicológica, uma viagem aos mistérios do inconsciente que repercutem com o público de maneiras inesperadas.” O lado psíquico dos grandes estúdios de produção. Warner Bros: “Reconhecemos a riqueza que a psicanálise oferece à narrativa cinematográfica. Colaboramos com diretores que aplicam essas abordagens para criar filmes que não apenas entretêm, mas também tocam emocionalmente o público.” A Warner, destaca como a colaboração com diretores que incorporam aspectos dos estudos psicanalíticos, locupletam não apenas as narrativas individuais, mas também valorizam a marca e o branding da empresa. Disney Studios: “A compreensão das dinâmicas psicológicas é fundamental para criar personagens que sobrexcedem as telas. A psicanálise nos proporciona insights e referências sobre a construção de narrativas que cativam públicos de todas as idades.” A Disney, enfatiza sua importância na criação de narrativas que impactam positiva e emocionalmente diversas audiências, tornando-se atemporais e globalmente significativas. Os depoimentos dos diretores e empresas de grandes estúdios, aliados ao testemunho específico de Christopher Nolan, destacam a crescente aceitação e valorização da psicanálise na indústria cinematográfica dos dias atuais. A integração dessas aproximações não apenas enriquecem as narrativas do trabalho, mas também elevam a experiência do espectador ao oferecer ponderações e interações, longe de serem uma temática isolada. Tecnicamente se capitalizam como uma caixa de ferramentas dos criadores de filmes, expandindo os horizontes, possibilidades e criatividade da arte. A vida imita a arte em muitas direções. A expressão “A vida imita a arte” atribuída ao escritor irlandês Oscar Wilde, nos sugere que os eventos da vivência refletem ou imitam as criações artísticas, como obras literárias, peças teatrais, filmes, pinturas, entre outras formas de expressão. Wilde investigou essa ideia em sua obra; “The Decay of Lying” (“A Decadência da Mentira”), onde um dos personagens argumenta que a arte influencia como percebemos e vivemos, uma inspiração para moldar a própria experiência. Na Grécia Antiga, em suas diversas formas, era considerada um reflexo da harmonia universal. Como afirmou Platão em sua obra; “A República”, a música e a poesia eram essenciais na educação da alma, configurando diretamente a moralidade e a ética da época. Em Aristóteles, por sua vez, encontramos a catarse emocional proporcionada pela tragédia, evidenciando a capacidade da arte em evocar respostas no espectador. Destarte, devemos remontar a história primitiva, percebendo que na forma mais inaugural, pinturas rupestres e expressões simbólicas, não apenas documentavam a vida dos antepassados, mas também, representavam um meio crucial de comunicação. Portanto, é assim que podemos comprovar que o ato de criar imagens e narrativas visuais superou as barreiras linguísticas primárias do sapiens, se tornando um precursor medular para a forma de enunciação cinematográfica que emergiria milênios depois. O primitivismo, com suas manifestações rudimentares, destapa nossa busca ancestral por capturar a essência da vida e a necessidade impreterível de publicitar e transmitir emoções primordiais. No entanto, a arte não permaneceu estagnada no passado; ao contrário, evoluiu ao longo dos séculos, incorporando influências filosóficas, psicológicas e estéticas. Em uma visão mais abrangente, diversas disciplinas afluem e concorrem para a interconexão entre vida e arte. Filosoficamente, grandes pensadores como Nietzsche proclamavam a importância do “dionisíaco” uma força vital amplamente presente nas manifestações cinematográficas, e, que despertam nossos instintos. Como Nietzsche afirmou: “A vida sem música seria um erro.” Na Psicologia, a teoria Gestalt ressalta como percebemos padrões e significados em narrativas visuais, uma faceta essencial na apreciação do cinema. A mente, conforme explorada por filósofos como John Locke, é uma “tabula rasa”, que se molda sendo talhada pela bagagem que adquirimos, sendo o cinema um meio dominante de influenciar essa formação. No campo artístico, movimentos como o surrealismo exploraram o inconsciente e o irracional, prenunciando a rica tapeçaria psicológica que o cinema incorporaria posteriormente. Aqui posso invocar o surrealista Salvador Dalí que muito admiro sua obra, que disse: “Quero ser um mestre do caos dentro de mim.” É no encontro entre as diversas disciplinas que o cinema surge, tecido a partir dos fios da filosofia, psicanálise, psicologia e arte. A visão psicanalítica, como ângulo mestre desta estrutura, conforme dito por diretores e estúdios de cinema, doa uma lente única para compreender essa harmoniosa relação. Freud, em sua “Interpretação dos Sonhos”, sugere que eles compartilham semelhanças com sua estrutura narrativa, ambos, manifestando desejos inconscientes e simbolismos complexos, atuando como um espelho coletivo, traduzindo os anseios, medos e desejos inerentes à nossa condição. O cinema, portanto, transcende as eras, se desdobra como uma fina obra de arte em constante evolução, sendo projetado para o grande palco da vida. Como disse Carl Sagan; “somos feitos de poeira de estrelas”, e o cinema, como arte e espelho, nos ajudam a depreender e interpretar nossa própria poesia cósmica. Então, eu quero acrescentar a parte que Sagan esqueceu quando toca na ''poesia cósmica''. “Então, o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente.” Esta passagem, descreve o momento da criação do ser. Deus forma o corpo do homem do pó, e o ato de soprar seu fôlego criador de vida, simboliza a própria infusão dela, dando espírito a nossa humanidade. Essa transição não sugere apenas a nossa criação física, mas também a dádiva da alma e do grande espírito divino que anima o corpo, lugar de todas nossas aptidões e capacidades possíveis. Ao poema; Poesia Cósmica em Cenas, por Dan Mena. Eu, cinema e psicanálise, um trio entrelaçado, Em sábados repletos de fragmentos projetados, Cada semana vivo um mundo encantado, Em salas clássicas alojadas no meu passado. A luz do lanterninha nos guiava no caminho, Entre estofados de couro, não me sentia sozinho, Filmes de cowboys, kung fu, romance e terror, Cada um uma jornada, um universo de emoção. No Uruguai dos anos 70, os cinemas eram muitos, Duas centenas na capital, um espetáculo de tantos. Ter 7 pesos na mão, era um desafio semanal, Mas na oficina do meu pai, encontrava meu capital. Matinês, pacotes de filmes em sequência, Uma imersão única, uma viva experiência, Deusa do Sexo na tela e censuras no banheiro, A plateia sapateando, um verdadeiro terreiro. Ao me aproximar da psicanálise, a ponte se formou, Na interpretação dos sonhos novo cenário ganhou, No cinema, vemos os símbolos que a linguagem criou, Queremos encontrar o impossível sentido vão. Entre imagens, ícones, sonhos e telas, Um diálogo íntimo, uma conexão singela, Cinema e psicanálise, dançam na mente, Como uma jornada de contos envolventes. Como disse Sagan; “somos feitos de poeira de estrelas”, Cinema e arte são espelhos, que ajudam a compreender, Nossa própria poesia cósmica, como uma jornada do ser, Assim Deus soprou em nossas narinas o fôlego para viver. Nessa poesia o cinema é uma estrela, uma constelação, Refletindo a essência humana, em cada projeção, Na mente, na concepção, somos ferramentas da criação, Poeira de estrelas, nas mãos de Deus. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 — CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 — CBP 2022130.
- Pensamentos Obsessivos.
Dos Conflitos Inconscientes à Liberdade: A Psicanálise Desvendando os Mistérios dos Pensamentos Obsessivos. “Nas fronteiras da obsessão, os pensamentos são guardiões vigilantes, que nos mantém cativos em um ciclo sem fim.” Dan Mena. Os pensamentos obsessivos, frequentemente descritos como intrusivos, persistentes e perturbadores, constituem um fenômeno complexo que desafia a compreensão e o bem-estar mental de muitas pessoas na contemporaneidade. Na psicanálise utilizamos uma abordagem profunda para desvendar os significados subjacentes a esses padrões de concepções recorrentes. Fundamentada nos ensinamentos de Freud, que continuaram a evoluir ao longo do século XX e além, onde a psicanálise oferece uma lente única para examinar dita natureza. Nesta linha de abordagem, destaco os conceitos fundamentais e as questões centrais que orientam essa compreensão clínica, onde reconhecemos, que não são meramente produtos de um processo cognitivo desordenado, mas sim, sintomas, que emergem de conflitos psicológicos laterais. Esses embate, se origina frequentemente enraizado em nossas experiências passadas, traumas não resolvidos e desejos reprimidos que encontram expressão mediante idealizações usurpadoras e cíclicas da psique. Infelizmente ausente nestes últimos meses, retomando dentro do possível, boa leitura. Um dos pilares da nossa abordagem terapêutica é a noção do inconsciente como uma força motriz poderosa por trás do comportamento humano. Ditos pensamentos, são entendidos como manifestações simbólicas de conteúdo inconsciente, muitas vezes relacionadas as questões não resolvidas da infância, complexos edípicos irresolutos, confrontos de identidade e traumas emocionais. Além disso, a psicanálise entende que podem servir como mecanismos de defesa contra ansiedades intoleráveis, funcionando como uma forma de lidar com impulsos inaceitáveis ou ameaças ao eu. Esses dispositivos defensivos, embora destinados a proteger o indivíduo do desconforto psíquico, muitas vezes acabam perpetuando os próprios padrões desse tipo de pensamento que visamos evitar. Ao longo deste artigo, explorarei a interseção complexa entre eles e os princípios fundamentais da psicanálise. Examinarei a relação entre suas características e outros transtornos psicológicos, como o obsessivo-compulsivo (TOC), e as abordagens terapêuticas psicanalíticas para o tratamento dos seus sintomas. Apresento um exemplo clínico e uma análise dos conceitos centrais, dando uma compreensão compassiva, e o potencial transformador da psicanálise no processo de confronto e autoconhecimento. Origens Seus primórdios e desenvolvimento estão historicamente conectados a uma interação complexa de fatores psicológicos, emocionais e ambientais decorrentes ao longo da vida. Não surgem de forma aleatória, mas são moldados por experiências precoces e dinâmicas mentais específicas. Vejamos algumas das suas principais considerações; Experiências Precoces e Trauma: Na psicanálise enfatizamos a importância das bagagens prematuras adquiridas na infância e na primeira infância na formação da psique. Traumas emocionais, abusos, negligências ou eventos estressantes podem deixar marcas cavadas no inconsciente de uma pessoa, contribuindo para o seu desenvolvimento como uma forma de lidar com ou evitar a experimentação do abalo dessa perturbação. Mecanismos de Defesa: Frequentemente vistos como manifestações de mecanismos de defesa do ego para lidar com ansiedades intoleráveis ou desejos inaceitáveis. Por exemplo, podem servir como uma forma de evitar sentimentos de culpa ou ansiedade ao controlar impulsos intoleráveis e insuportáveis, como agressão ou a sexualidade. Complexo de Édipo e Dinâmicas Familiares: Destaco aqui a importância do complexo de Édipo e dos processos familiares na formação da personalidade e do psiquismo de um indivíduo. Contendas e hostilidades não resolvidas em relação às figuras parentais, sentimentos de ambivalência, rivalidade ou inadequação, podem ser internalizados e se manifestar posteriormente em relação a temas relacionados à parentela. Pugnas de Identidade e Autoestima: Também, podem estar ligados a antagonismos, desavenças, desentendimentos, dissidências de identidade, autoestima e autoimagem. Sentimentos de inadequação, vergonha ou insegurança, podem levar a ruminações mentais obsessivas sobre a incongruência pessoal, erros passados ou preocupações recebidas com o julgamento dos outros. Aprendizado e Modelagem Comportamental: Neste aspecto, reconhecemos a influência do ambiente social e cultural na formação da psique. A modelagem comportamental, mensagens parentais internalizadas e normas sociais, podem contribuir sensivelmente para o desenvolvimento de padrões desta linguagem, especialmente, quando associados a valores de perfeccionismo, controle ou segurança. Conflitos Inconscientes e Desenvolvimento Psicossexual: Inconformidades, choques e revoltas psíquicas inconscientes em torno da progressão psicossexual, certamente podem influenciar quando relacionados à sexualidade, identidade de gênero e relacionamentos interpessoais. Assuntos não resolvidos relacionadas à fase fálica, complexo de castração ou fixações em estágios de desenvolvimento podem emergir como preocupações obsessivas na vida adulta dos indivíduos acometidos. É importante ressaltar aqui a preservação inerente, a que cada indivíduo é único e, portanto, as origens específicas dos seus pensamentos desta ordem, podem variar consideravelmente, exigindo uma abordagem individualizada e cuidadosa. Dinâmicas Inconscientes Também vistos como manifestações de metodologias inconscientes complexas, as quais refletem conflitos psicológicos subjacentes e mecanismos de defesa do ego. Essas evoluções, podem ser exploradas para entender melhor a natureza e sua função. Aqui citarei algumas chaves envolvidas nesses processos: Conflito Intrapsíquico: São frequentemente vistos como resultado de conflagrações internas entre desejos, impulsos e normas sociais internalizadas. Por exemplo, um indivíduo pode ter ditos pensamentos sobre comportamentos agressivos porque experimenta uma luta entre o desejo de expressar raiva e o medo de machucar os outros. Mecanismos de Defesa: Podem ser entendidos como engenhocas de defesa do ego contra ansiedades inadmissíveis ou impulsos inaceitáveis. Por exemplo, um indivíduo pode desenvolver hábitos sobre limpeza e organização como uma forma de lidar com angústias relacionadas à desordem, organização ou sujeira. Formação Reativa: Nesta dinâmica de defesa na qual um sujeito adota um comportamento oposto ao seu impulso original. Por exemplo, alguém que tem pensamentos obsessivos sobre agressão pode reprimir esses estímulos e desenvolver uma conduta excessivamente complacente e pacífica, como uma forma de negar ou controlar esses deslocamentos pulsionais. Projeção: A projeção pessoal como características indesejadas do self são atribuídas a outros. Um indivíduo, pode projetar seus próprios pensamentos ou impulsos indesejados em outras pessoas, criando pensamentos neuróticos, obcecados e obstinados sobre o comportamento desses outros, como uma forma de evitar enfrentar esses aspectos de si. Sublimação: Este dispositivo envolve a canalização de deslocamentos menosprezados, desprezados e recusados em atividades socialmente aceitáveis e produtivas. Por exemplo, alguém com estes fatores de pensamentos sobre violência, pode canalizar essa energia em atividades artísticas ou esportivas. Ruminação: Geralmente envolvem elucubração mental repetitiva sobre preocupações, erros passados ou situações temidas. Essa cisma, pode servir como uma forma de evitar lidar com questões subentendidas mais arraigadas ou enfrentar situações desconfortáveis na vida real. Complexo de Culpa e Vergonha: Sentimentos intensos de culpabilidade e constrangimento em relação a eventos passados, desejos refreados, retraídos, moderados, controlados, ou inadequações percebidas. Esses compostos e agregações emocionais podem alimentar padrões de pensamentos, como uma forma de autopunição e reparação. Manifestações Simbólicas de Conteúdo Inconsciente Alguns tipos comuns de pensamentos obsessivos; Obsessões Compulsivas: Pensamentos maníacos, neuróticos e obcecados estão ligados a comportamentos compulsivos, como lavagem excessiva das mãos, verificação repetitiva ou contagem incessante. Preocupações com a Segurança e a Ordem: Relacionados à segurança pessoal, proteção contra danos ou perigos iminentes, bem como preocupações excessivas com a ordem, simetria e organização. Medos Irracionais e Fobias: Pensamentos que giram em torno de medos irracionais ou fobias específicas, como medo de germes, espaços fechados, altura ou animais. Pensamentos Intrusivos de Caráter Sexual ou Agressivo: Envolvem conteúdo sexualmente explícito, agressivo ou violento, percebidos como perturbadores ou não desejados pelo indivíduo. Ruminações sobre Erros Passados ou Futuros: Se concentram em falhas do passado, arrependimentos ou preocupações sobre o futuro, como receios de falhar, cometer desacertos ou não conseguir controlar determinadas situações. Incertezas Persistentes: Dúvidas, indecisões ou a necessidade incessante de buscar garantias e confirmações. A Relação com outros Transtornos Na perspectiva da psicanálise, os pensamentos obsessivos estão frequentemente relacionados e podem coexistir com uma variedade de outros transtornos psicológicos. Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC): Esta é uma associação direta, já que o TOC é caracterizado por pensamentos obsessivos intrusivos que levam a comportamentos compulsivos. Na psicanálise, o TOC é interpretado como uma tentativa do ego de controlar a ansiedade gerada por impulsos negativos e conflitos inconscientes. Transtornos de Ansiedade: Transtornos de ansiedade, como o de ansiedade generalizada (TAG), fobias e transtorno do pânico. Depressão: Podem estar presentes em casos de depressão, onde considerações sobre erros pregressos, auto condenação e preocupações futuras são comuns. Na psicanálise, a depressão é entendida como resultado de conflitos intrapsíquicos não resolvidos, nos quais os pensamentos obsessivos desempenham um papel significativo. Transtornos de Personalidade: Indivíduos com desvios de personalidade, como o obsessivo-compulsivo (TPOC), podem apresentar pensamentos obsessivos como parte de padrões comportamentais rígidos e perfeccionistas. Transtornos Alimentares: Peso corporal, comida e imagem, estão frequentemente associados a tribulações, alimentares, como anorexia nervosa e bulimia. Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT): Indivíduos com TEPT podem experimentar pensamentos obsessivos intrusivos relacionados a eventos traumáticos passados. Na psicanálise, esses pensamentos são vistos como tentativas do ego de lidar com o trauma não processado e as ansiedades associadas a ele. Impacto na Vida Cotidiana Pensamentos obsessivos podem ter um impacto significativo na nossa vida, afetando diversas áreas, incluindo os relacionamentos interpessoais, o desempenho no trabalho ou estudos, a saúde física e o bem-estar emocional. Alguns dos principais aspectos desses impactos conforme estudos e pesquisas são; Relacionamentos Interpessoais: Interferem nos relacionamentos pessoais ao gerar ansiedade, irritabilidade ou dificuldade de concentração. Isso pode levar a conflitos de relacionamento, isolamento social e dificuldade em estabelecer vínculos íntimos, já que o foco excessivo nos próprios pensamentos dificultam a conexão emocional com outros. Desempenho no Trabalho ou Estudos: A presença constante deles pode prejudicar o desempenho no trabalho ou nos estudos, reduzindo a capacidade de concentração, tomada de decisões e resolução de problemas. Isso pode levar a dificuldades acadêmicas, diminuição da produtividade ou até mesmo perda de emprego, afetando negativamente a qualidade de vida e o senso de realização pessoal. Saúde Física: Eventualmente podem desencadear uma série de reações físicas no corpo, incluindo tensão muscular, insônia, fadiga e distúrbios gastrointestinais. O estresse crônico associado aos pensamentos obsessivos comprometem o sistema imunológico, aumentando o risco de doenças físicas e diminuindo a capacidade do corpo de se recuperar de doenças ou lesões. Bem-Estar Emocional: Levam certamente a sentimentos de ansiedade, angústia, culpa, vergonha, desesperança e depressão. A constante interação mental e a preocupação excessiva podem minar a autoestima e a autoconfiança, impedindo o indivíduo de desfrutar de momentos de prazer e satisfação. Qualidade de Vida Global: Em última análise, impactam negativamente a qualidade geral do indivíduo, interferindo em sua capacidade de desfrutar das experiências cotidianas, manter relacionamentos saudáveis, alcançar objetivos pessoais e encontrar significado e propósito na vida. Isso pode levar a uma sensação de desesperança, impotência e isolamento, perpetuando o ciclo de sofrimento emocional e dificultando a busca por ajuda e apoio. É crucial abordar os essa linha de pensamentos, não apenas como sintomas isolados, mas como expressões de conflitos psicológicos subjacentes que precisam ser explorados e compreendidos em um contexto mais amplo. O tratamento psicanalítico busca não apenas aliviar os sintomas imediatos, mas também promover uma maior consciência e resolução dos conflitos inconscientes que alimentam esses padrões repetitivos. Estudo de Caso: Ana e seus Pensamentos Obsessivos Ana, uma mulher de 35 anos, me procura devido a uma série de pensamentos intrusivos e recorrentes que estavam impactando negativamente sua vida cotidiana. Ela relatou sentir-se constantemente preocupada com a possibilidade de ter causado danos a outras pessoas sem intenção, mesmo em situações banais do dia a dia. Durante as sessões de análise, Ana revelou que esses pensamentos surgiram após o nascimento de seu primeiro filho, há três anos. Desde então, ela se vê constantemente preocupada com a segurança e o bem-estar não apenas do filho, mas de todos ao seu redor. Ela me relata que verifica repetidamente se as portas estão trancadas, se os aparelhos foram desligados e se as pessoas próximas estão visivelmente seguras. Sente uma sensação avassaladora de culpa e ansiedade sempre que um pensamento intrusivo surge em sua mente. Ela se questiona incessantemente sobre suas intenções e seu caráter, consumida, inquieta em ser uma pessoa má ou causar danos a outros. Essas concepções, noções e imagens obsessivas começaram a interferir em suas interações sociais, causando isolamento e desconforto. Diante desses cenários, exploraremos nas sessões as possíveis origens desses pensamentos obsessivos. Ela se sente sobrecarregada e insegura após o nascimento do filho, temendo não poder protegê-lo ou atender suas necessidades. Além disso, narra e revela uma história de infância marcada por um ambiente familiar instável, onde se sentia constantemente pressionada a ser responsável pelo bem-estar dos outros. Outras situações, como o medo que a assolava quando estava em casa: a preocupação de ter deixado o fogão ligado após fazer o jantar. Ela me descreve, como esse pensamento surgia sempre que saía da cozinha, gerando uma ansiedade urgente que a obrigava a voltar repetidamente para verificar se o mesmo estava realmente desconectado. Mesmo que soubesse racionalmente que havia fechado o fogo e desligado o registro do gás, a sensação de incerteza persistia, alimentando seus pensamentos neuróticos e obstinados, a levando a repetir o comportamento de verificação várias vezes. Essas comoções de inadequação e responsabilidade excessiva de Ana, estão contribuindo para reconhecer e enfrentar seus medos. A interpelo, chamo sua atenção quanto aos padrões que desenvolveu após a maternidade, destacando sua tendência a assumir o papel de cuidadora e protetora em seus relacionamentos interpessoais também. Assim, ao longo do tempo, transcorrendo a terapia, ela começou a desenvolver uma compreensão mais profunda de suas dinâmicas internas e a cientificar se dos arquétipos de pensamento que alimentavam seus pensamentos obsessivos. Com esse apoio contínuo, ela conseguiu enfrentar suas dúvidas, melindres, inquietações e zelos, reduzindo gradualmente a frequência e intensidade desses acometimentos. Este exemplo real, ilustra a natureza incômoda e subversiva dos pensamentos obsessivos de Ana, assim como o ciclo de ansiedade e comportamentos compulsivos que eles desencadeiam. O trabalho terapêutico, envolveu explorar as origens emocionais dessas contemplações, a ajudando a desenvolver estratégias e novas elaborações para lidar com esse espectro de forma mais adaptativa. Considerações Éticas Ao considerarmos utilizar a abordagem psicanalítica nos pensamentos obsessivos, é importante reconhecer profissionalmente, tanto situações ligadas aos valores morais e comportamentais, quanto suas possíveis limitações. Veja algumas: Confidencialidade: A manutenção da confidencialidade é fundamental na psicanálise, garantindo que os pensamentos e experiências do paciente sejam protegidas privadamente e respeitadas. Respeito pela Autonomia do Paciente: Enfatizar a gentileza, amabilidade e autonomia do paciente, permitindo que ele(a) explore seus pensamentos, sentimentos e desejos livremente de forma não coagida(o). Transparência e Consentimento Informado: O psicanalista deve fornecer informações claras sobre o processo terapêutico e obter o consentimento informado do paciente antes de iniciar a análise. Reflexão sobre os Próprios Vieses e Limitações do Terapeuta: Como terapeutas devemos estar cientes de nossos próprios preconceitos e limitações, buscando sempre praticar a reflexão e a autorreflexão para evitar influenciar negativamente o processo da clínica. Limitações Duração e Intensidade do Tratamento: A psicanálise é conhecida por ser um processo terapêutico longo e intensivo, exigindo um compromisso significativo por parte do paciente. Isso pode ser uma limitação para aqueles que buscam resultados rápidos ou têm recursos limitados. Foco na Exploração Profunda: A psicanálise é centrada na exploração do inconsciente, podendo não ser adequada para todos os pacientes, especialmente aqueles que procuram intervenções mais diretas e focadas nos sintomas. Nem Todos os Casos Respondem bem à Psicanálise: Enquanto a psicanálise pode ser eficaz para muitos indivíduos, nem todos os casos de pensamentos obsessivos respondem bem a essa abordagem. Alguns pacientes podem se beneficiar mais de abordagens terapêuticas alternativas, como terapia cognitivo-comportamental (TCC) ou medicamentos. Ao considerar a abordagem psicanalítica nos pensamentos obsessivos, é importante pesar tanto suas considerações éticas quanto suas limitações, garantindo uma prática terapêutica ética, sensível e eficaz. Frases que auxiliam na compreensão do tema; “A obsessão é a maneira que temos de nos proteger daquilo que mais tememos.” Freud “Na espiral dos pensamentos obsessivos, cada volta parece cavar mais fundo na própria mente.” Dan Mena “A mente obsessiva é como um labirinto, onde cada pensamento leva a outro, sem saída à vista.” Jung “Os pensamentos obsessivos são a manifestação de desejos reprimidos e conflitos não resolvidos, clamando por atenção.” Klein “Os pensamentos obsessivos são o reflexo do conflito entre o que desejamos conscientemente e o que realmente sentimos inconscientemente.” Lacan “A mente obsessiva é um campo de batalha onde as forças do ego e do id lutam pelo controle.” Horney “Na obsessão, vemos a mente presa em um ciclo interminável de medo, culpa e autopunição.” Rank “Os pensamentos obsessivos são como sombras que nos seguem, sempre presentes, mesmo nos momentos mais luminosos.” Winnicott “A obsessão é o reflexo da mente lutando para encontrar uma sensação de controle em um mundo permeado pela incerteza.” Rogers “Nas fronteiras da obsessão, os pensamentos são guardiões vigilantes, que nos mantém cativos em um ciclo sem fim.” Dan Mena O Self Obsessivo e suas Compulsões na Personalidade A personalidade obsessivo-compulsiva se entrelaça com sua orientação introjetiva, a qual revela conflitos de controle e na rigidez moral, como observada por Lacan em seus estudos sobre a estrutura do eu. Esta condição psicológica é caracterizada por um incessante esforço para manter sob estrito controle as atitudes agressivas, os desejos e as necessidades do self. Freud denotava em suas investigações sobre a psique humana, que a autoestima desses indivíduos é frequentemente mantida pela conformidade às exigências e ideais internalizados dos pais, resultando em uma busca incessante por perfeição e engessamento nas tomadas de decisões. Buscam por conformidade evitar qualquer possibilidade de crítica, como discutido por Lacan em sua análise da relação entre desejo e culpa. Esse padrão, frequentemente e acompanhado por dúvidas sem fim e uma constante demanda por garantias externas, características essas apontadas nos conceitos freudianos de defesa e recusa do desejo. A natureza obsessiva e compulsiva desses indivíduos, como observado por Freud em sua teoria das neuroses, serve como uma tentativa de preservar a autonomia e evitar os sentimentos de ansiedade e culpa que estão geralmente associadas. No entanto, essa busca por controle pode se tornar tão avassaladora que limita significativamente a capacidade dele agir eficazmente no mundo externo. Portanto, é essencial reconhecer a complexidade e as ramificações psicológicas dos pensamentos obsessivos, que se defrontam com a personalidade obsessivo-compulsiva, integrando perspectivas teóricas tanto de Lacan quanto de Freud. Somente por meio de uma compreensão aprofundada desses fenômenos é que podemos desenvolver intervenções terapêuticas eficazes para ajudar esses indivíduos a encontrar um equilíbrio saudável entre o controle interno e a liberdade de ação. Dança da Obsessão — por Dan Mena Na mente ecoam, sem cessar, Pensamentos que insistem em ficar. Obsessões fazem meu mundo girar, Num ciclo de dúvida a me sufocar. Sombras que não querem partir, Pensamentos obsessivos persistem. Incessantes, teimam em rondar, São fantasmas que não querem calar. Meandros da mente inquieta, Será que encontro a rota correta? Mas a névoa densa de pensamentos tortuosos, Me confunde, desafia, me deixa nervoso. No entanto, ergo a minha voz, Diante desse turbilhão, Uso da força e determinação, Para encontrar a paz, a conciliação. E assim, passo a passo, vou avançando, Na jornada contra o caos que estou enfrentando. Porque sei que, mesmo na escuridão, Há sempre uma luz, uma nova direção. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 — CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 — CBP 2022130.
- Red Pill e Psicanálise
Libere-se da ansiedade e da depressão: a psicanálise como ferramenta para o bem-estar emocional. “A mulher é um sonho do homem”. Lacan, por Dan Mena. Desenvolvendo a Autoconsciência em um Mundo de Ilusões. Hoje escrevo sobre um conceito que já existe há alguns anos, é, de uma forma ou outra, vem ganhando notoriedade e ascensão. Me refiro a “Red Pill”, um termo que tem suas raízes no filme “The Matrix”, uma obra cinematográfica lançada em 1999 e dirigida pelos irmãos Wachowski. Na trama do filme, o protagonista Neo, (Keanu Reeves, interpreta o personagem Neo nos filmes) Matrix (1999), The Matrix Reloaded (2003) e The Matrix Revolutions (2003), o personagem, se depara logo com uma escolha crucial: tomar uma pílula azul e permanecer confortavelmente na ilusão de sua realidade fantasiosa e fabricada ou tomar uma pílula vermelha, enfrentando assim a verdade ''nua e crua'' sobre o mundo em que vive. Essa metáfora cinematográfica, muito evocativa em sua simplicidade, encontrou ressonância em diversos segmentos da sociedade, mas foi na esfera online, particularmente na comunidade denominada; “The Manosphere”, que o conceito da “Red Pill” nasceu e floresceu, se expandindo para o mundo. Esta agrupação se tornou um fórum para discussões acaloradas e reflexões polifacéticas sobre questões relacionadas à masculinidade, relacionamentos e poder, solidificando o tema como um ícone para uma visão de mundo crítica das normas sociais, convencionais e estabelecidas desta época em que vivemos. Um dos primeiros a dar voz a essa ideologia, foi o autor e palestrante Roosh V, cujo trabalho explorou extensivamente dinâmicas de gênero e os relacionamentos na era digital. Assim, a Red Pill se tornou uma bandeira para aqueles que procuram desvendar as verdades muitas vezes desconfortáveis da sociedade contemporânea, e que buscam, uma compreensão dessa suposta realidade. Sob a lente da psicanálise, traço então uma analogia das famosas pílulas azul e vermelha, para ressoar nos conceitos fundamentais da nossa clínica. Digamos, então, que analogicamente; a pílula azul, pode ser interpretada ou estar como um representante do estado de “ignorância inconsciente do ser”, onde alguns indivíduos permanecem alheios às verdades que vivenciam ou aos conflitos internos que permeiam sua psique. Por outro lado, a vermelha, simbolizo como o ''despertar para essas verdades'', desencadeando um processo muitas vezes doloroso e angustiante para o sujeito, algo crucial de confronto e embate com o real, com nossa realidade e amadurecimento pessoal. Sem dúvidas, é um tema muito interessante, que há algum tempo queria me debruçar sobre ele. Partindo dessas premissas iniciais, me proponho expor o assunto, sabendo da sua sofisticação, obviamente, que sob uma perspectiva psicanalítica, buscando desvendar origens, conceitos, aplicações práticas, questionamentos e impactos gerados na sociedade. Boa leitura. ''A Red Pill representa o nosso momento de confronto com o Real, onde as ilusões são desfeitas e a verdade nua se revela em toda sua crueldade'' Dan Mena. Do filme; "Se real é o que você pode sentir, cheirar, provar e ver, então real são apenas sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro" Acredito que uma boa forma de abrir o artigo seria fazer às perguntas que permeiam esse debate, tanto aquelas que já interpretei como inquirições e conflagrações regulares, quanto às embaçadas na visão geral da psicanálise. Não necessariamente devem ser consideradas uma verdade, senão, um ponto de vista, inclusive pessoal. Vamos lá; Qual é a verdadeira natureza da masculinidade e como ela é percebida e definida na sociedade contemporânea? A masculinidade é compreendida como uma construção social e psicológica, moldada por fatores como identificação com o pai, complexo de Édipo e às normas sociais atuantes. Na sociedade atual, é frequentemente percebida e definida por características como coragem, força física, sucesso profissional e controle emocional, mas sua natureza é multifacetada e fluida, variando conforme influências culturais e experiências individuais. Como às expectativas sociais em torno do sucesso, carreira e posição, impactam a identidade masculina e as escolhas de vida dos homens atualmente? Às expectativas em torno do sucesso, profissões e status podem impactar nossa identidade, ao nós atingir na forma como nos percebemos e somos verificados pelos outros. Essas viabilidades, podem nos levar a buscar compulsivamente o sucesso externo como uma forma de afirmar a masculinidade e autoestima. Nossas escolhas de vida, são assentadas e moldadas por essas interpretações, muitas vezes nos levando a priorizar metas de carrera e financeiras, em detrimento das próprias necessidades emocionais e o olhar sobre os próprios cuidados e relacionamentos pessoais. Quais são os desafios enfrentados pelos homens para corresponder aos padrões idealizados de masculinidade, e como essas pressões afetam nossa autoimagem e bem-estar? Os desafios que enfrentamos para corresponder aos padrões enquadrados de masculinidade, incluem a intimidação de sermos emocionalmente reservados, assertivos e bem-sucedidos em diversas áreas. Essas expectativas podem nos levar a uma supressão das emoções, que abrem nossas vulnerabilidades, impactando negativamente a autoestima e afetam o emocional. Por sua vez, criam um distanciamento das próprias necessidades afetivas, e elevam uma sensação de inadequação, ao não poder corresponder plenamente a esses ideais padronizados e universais. Em que medida o poder, a hierarquia e a competição coagem os relacionamentos interpessoais e a interação social dos homens? A hierarquia e a concorrência, cominam significativamente os relacionamentos e nossa interação social, ao moldar dinâmicas de dominação, submissão, competitividade e rivalidade. Esses elementos, podem resultar em uma busca por controle, afetando como homens interagimos entre si e com os outros. Como os homens podemos lidar eficazmente com o medo do fracasso e da rejeição em diversas esferas da vida, como romances, carreira e amizades? Lidar bem com o medo do fracasso e da rejeição é fundamental para o crescimento pessoal e o sucesso em várias áreas da vida. Algumas estratégias que podem ser interessantes para lidar com essas inquietações de forma positiva e construtiva: Autoconhecimento: Entender as próprias emoções e os gatilhos que desencadeiam o medo do fracasso e da rejeição é o primeiro passo para poder superá-los. Refletir sobre experiências passadas e identificar padrões de pensamento negativo ajuda a desenvolver uma maior consciência emocional. Desafiar pensamentos distorcidos: A rejeição é alimentada por pensamentos deturpados e irracionais. Aprender a identificar e desafiar essas ideias, as substituindo por outras mais realistas e positivas. Aceitar a vulnerabilidade: Reconhecer que isso é natural, sentir medo, desproteção e indefensabilidade em situações de risco ou exposição é essencial para superar esses sentimentos. Ao invés de tentar evitar ou suprimir ditas emoções, é importante aceitá-los e aprender a lidar com eles de maneira saudável. Definir metas realistas: Estabelecer objetivos alcançáveis e mensuráveis reduz o medo do fracasso, fornecendo um senso de direção e progresso. Dividir grandes intentos em tarefas menores, celebrar conquistas ao longo do caminho, pode aumentar a motivação e a autoconfiança. Cultivar a resiliência: Entender que o fracasso faz parte do processo de aprendizado e crescimento, contribui para desenvolver resistência e adaptação. Em vez de se abater diante dos obstáculos, devemos aprender com as experiências negativas e seguir em frente com determinação e otimismo para novos embates. Buscar apoio social: Compartilhar os medos e preocupações com amigos, familiares ou um terapeuta, oferece um ângulo externo para esse apoio necessário. Ter uma rede sólida, para enfrentar abalos com mais confiança. Até que ponto a sociedade incentiva homens a suprimir emoções em nome de uma noção deturpada de masculinidade, e quais são as consequências disso para a saúde mental e os relacionamentos? Isso acontece em nome de uma perversão da masculinidade que valoriza a força, a independência e a falta de vulnerabilidade emocional. Essa pressão começa desde a infância e persiste ao longo da vida adulta do sujeito. Quais estratégias os homens poderiam adotar para se conectar de forma autêntica e significativa em uma era marcada pela superficialidade das interações e da cultura da conexão rápida? A chave é priorizar a qualidade sobre a quantidade, praticar a escuta ativa, ser autêntico, se desconectar ocasionalmente, investir em atividades compartilhadas e buscar comunidades e grupos afins que promovam uma ligação masculina genuína e significativa. Estamos conscientes dos riscos associados à adoção de mentalidades de vitimização ou ressentimento em relação às mulheres e à sociedade em geral, e como podemos cultivar uma abordagem mais construtiva para lidar com essas questões? Isso requer autoconsciência, empatia, engajamento, desenvolvimento pessoal, promoção de relacionamentos saudáveis, autoestima e autoconfiança. Ao adotar essas estratégias, podemos articular e contribuir para um ambiente mais inclusivo, justo e igualitário. Uma Realidade Oculta. A "Red Pill" é basicamente uma ideologia associada principalmente à comunidade online de homens conhecida como “manosphere”, embora tem se espalhado por milhares de outros canais e comunidades. Se baseia na crença de que os homens são frequentemente prejudicados pelas mulheres e pela sociedade em geral, e que eles devem adotar uma visão “realista” ou “desperta” sobre questões como relacionamentos, poder masculino e identidade de gênero popularmente, ''ficar espertos''. O suposto narcisismo ferido e seus ressentimentos, que surgem de uma sensação de inadequação, aqueles que se sentem alanceados por experiências passadas mal sucedidas, fracassos ou que foram vítimas de exclusão social. Esses sentimentos podem ser vistos como o lugar onde o ego é ameaçado por eventos que questionam a própria autoimagem do homem. Desgostos podem ser projetados nos outros, especialmente nas mulheres, resultando em hostilidades contra o sexo oposto. Na falta de autocrítica, carecem geralmente de autoconhecimento, optando logo por atribuir a culpa por seus problemas e fragmentações externamente, em vez de examinar suas próprias atitudes. Do ponto de vista psicanalítico, isso pode ser interpretado como uma resistência ao processo de introspecção e análise de si, algo tipicamente desconfortável e ameaçador para o ego. A externalização da culpa e a projeção de suas próprias inseguranças, servem como mecanismos de defesa para preservar tal integridade. A Busca pelo Pertencimento. Quem adere à ideologia “Red Pill”, experimenta um senso de pertencimento e validação, principalmente aqueles que se sentem marginalizados ou são fracos. Podemos entender isso como uma busca por reconhecimento, sendo aceito por uma comunidade que compartilha suas crenças e preocupações, das quais ele não se sustenta por si. A identificação com um grupo ou tribo, fornece uma sensação de segurança, mitigando os sentimentos de alienação. Promovem uma visão de relacionamentos baseada em poder e controle, em vez de intimidade e conexão, refletindo um medo de experimentar suas vulnerabilidades e sujeitar-se. A proximidade emocional com mulheres, pode ser percebida como ameaçadora para seus adeptos, pois, hipoteticamente os expõem como indivíduos à possibilidade de abandonos, adotando uma postura de distanciamento e encapsulamento como forma de se proteger, levantando um escudo contra possíveis feridas emocionais. Vejo nesse contexto, um complexo de superioridade e misoginia internalizada, pois se veem como superiores às mulheres. Interpreto isso como uma tentativa de compensar sentimentos de inferioridade, projetando uma imagem inversa de superioridade e poder sobre outros, especialmente sobre elas. Essa leitura pode ser feita a partir de que certos conflitos infantis desses homens, que não foram devidamente equacionados e resolvidos. Certamente, estão relacionados à elaboração primitiva da identidade masculina, desenvolvimento psicossexual e ao papel que certas mulheres jogaram na vida deles. Embora seja importante reconhecer e abordar determinadas questões legítimas que levantam, isso pode motivar alguns homens a adotar essa ideologia. Também é crucial desafiar certas narrativas prejudiciais e as visões de mundo que se mostram distorcidas na direção promovidas por líderes e participantes inescrupulosos, que tentam tirar vantagem, se aproveitar dos fracassos masculinos para promover o ódio. Equilibrar essa perspectiva, envolve promover uma compreensão mais empática das partes, assim como trabalhar para construir relacionamentos mais saudáveis entre homens e mulheres, sem incluir tendências destrutivas de uma parte a outra. Despertando para a Realidade na Era Digital. Mergulhando nas verdades inconvenientes geradas pela sociedade moderna, e utilizando uma análise enriquecida com os conceitos de Lacan. Nesse contexto, suas palavras iluminam como um farol, trazendo a luz os recônditos da psique e os mecanismos de poder laterais das dinâmicas sociais. Ao adentrarmos na “Red Pill”, sob essa visão, ele fala; “O desejo é o desejo do Outro”. Essa frase encapsula a essência da busca por identidade e significado na sociedade atual, onde a validação do “Outro” desempenha um papel fundamental na construção do eu. Em consonância com dita teoria, se revela, como os indivíduos buscam preencher um vazio existencial através da afirmação de poder e dominação que se observam: “O desejo é o desejo pelo que o Outro desejaria”. Nesse dizer encontro, que a busca pelo poderio masculino se torna em si uma tentativa desesperada de se preencher diante de um vazio subjetivo, alimentado por uma demanda incessante de reconhecimento. Seguindo a aplicação dos seus conceitos, encontramos o “estádio do espelho” e “objeto a”, conceitos que nos oferecem leituras cavadas sobre dominação e desejo, muito presentes nas interações comuns das redes sociais e a tecnologia digital. Ele nos lembra: “O eu é o que se vê no espelho”. Aqui, o espelho digital reflete, não apenas a imagem distorcida do eu, mas também, as fantasias e projeções que circundam tais interações online. “A verdade tem a estrutura de uma ficção”. Tal frase, sugere que a verdade é sempre mediada pela linguagem e pelo simbólico, assim como as narrativas fictícias. Isso significa que nossa compreensão de realidade é inevitavelmente influenciada por histórias e interpretações etéreas, em vez de corresponder a uma concretude. Essa assimilação da verdade como uma construção narrativa do ser, tem amplas implicações para a psicanálise e para nossa compreensão mais ampla da natureza da realidade. Nessa busca pela verdade, na era tecnológica, é essencial reconhecer a natureza conflitiva desse panorama e sua conjuntura, que socialmente transcende as ilusões, o que impede que possamos construir sociedades mais justas e inclusivas. Red Pill x Feminismo. “A psicanálise é o único instrumento capaz de investigar o campo recôndito da sexualidade humana e suas manifestações.” Freud. Nesse contexto dos debates atuais sobre gênero, os movimentos ''Feminista'' e “Red Pill” emergem como protagonistas, representando visões antagônicas sobre as relações entre homens e mulheres. Proponho revirmos as principais críticas direcionadas ao ''Feminismo''' pela “Red Pill”, buscando compreender as raízes psicológicas desses embates. Desconstrução dos papéis de gênero tradicionais: “A primeira condição da felicidade é que a ligação entre o homem e a mulher seja baseada na mútua dependência sexual.” Freud. Os principais críticos da “Red Pill” levantam preocupações sobre a desconstrução dos papéis de gênero tradicionais pelo feminismo, sugerindo uma ameaça à estabilidade da identidade masculina e feminina. Segundo Freud, a sexualidade é um componente fundamental na formação da identidade, e mudanças nos papéis de gênero podem desencadear conflitos psicológicos relacionados à autoimagem e ao senso de identidade. Ênfase na igualdade de resultados: “A diferença anatômica entre os sexos não é tão grande quanto se pensa. É a função, e não a forma, que define o gênero.” Freud. Então vemos que a busca do ''Feminismo'' pela igualdade de resultados é contestada pela “Red Pill”, que enfatiza diferenças biológicas entre homens e mulheres. Para Freud, entretanto, a identidade de gênero transcende a anatomia, influenciada principalmente pela função psicológica. Assim, a igualdade de oportunidades é vista como essencial para o desenvolvimento saudável da identidade. Cultura de vitimização. “A psicologia nos ensina que a autoestima de uma pessoa é frequentemente prejudicada por experiências traumáticas na infância.” Freud. Muitos críticos apontam para a cultura de vitimização promovida pelo feminismo, sugerindo que ela desencoraja a autonomia feminina. Freud argumentaria, que traumas passados podem influenciar a autoestima e a percepção de si, mas também ressaltaria a importância do empoderamento para a saúde psicológica. Politicamente correto e censura. “Não podemos fazer com que nossos pacientes sejam educados pela verdade, pois nem eles, nem nós suportaríamos isso.” Freud. O feminismo é criticado por promover uma cultura de politicamente correto e censura, inibindo o debate aberto sobre questões de gênero. Neste aspecto, acredito que Freud reconheceria a complexidade da verdade psicológica e a necessidade de uma abordagem empática ao lidar com essas questões, mas também valorizaria o diálogo honesto como essencial para o desenvolvimento do tema. Feminização. “A feminilidade é como uma máscara que oculta uma verdade maior, as quais é a própria essência humana.” Freud. Preocupações razoáveis das quais compartilho em parte sobre a feminização da sociedade são levantadas pela “Red Pill”, argumentando, que isso mina as relações de gênero. Por esta razão, se entenderia tal não como uma ameaça, mas como uma expressão fundamental da raça, refletindo a busca pelo equilíbrio entre os impulsos instintivos e as demandas sociais. Quando Freud afirma que ''a feminilidade é como uma máscara que oculta uma verdade maior, sendo a ''essência humana'', ele está propondo uma visão provocativa sobre a natureza da feminilidade e sua relação com tal condição. Ao se referir à feminilidade como uma “máscara”, ele está sugerindo que a expressão de características consideradas femininas — como sensibilidade, empatia e receptividade emocional — podem ser influenciadas e moldadas por expectações sociais e culturais. Essas viabilidades, muitas vezes, são internalizadas pelas mulheres, as levando a adotar comportamentos e papéis que correspondem às normas de gênero predominantes em suas sociedades. Portanto, a “máscara” da feminilidade, pode representar uma forma de adaptação social, onde aspectos da identidade feminina são exibidos conforme as exigências e convenções estabelecidas na contemporaneidade. No entanto, percebo nesse dizer, que ao afirmar que essa “fachada,” oculta uma “verdade maior”, Freud propõe que por trás das construções de gênero, existe uma essência mais profunda e universal compartilhada por todos nós, independentemente do sexo ou identidade. Essa “verdade maior”, pode ser compreendida como os aspectos mais essenciais da psique, incluindo nossos impulsos, desejos e conflitos que fazem parte da nossa condição. Portanto, a feminilidade, embora possa ser influenciada por normas e expectativas, não define completamente a identidade de uma mulher, nem limita sua capacidade de expressar sua individualidade e autenticidade. Tomando isso como uma reflexão crítica, tais dimensões podem restringir a liberdade e o desenvolvimento pleno das mulheres. Essa frase pode ser enxergada como um convite ao diálogo, a exploração da identidade feminina e sua relação com sua condição de ser em sua totalidade. Reconstruindo as Dinâmicas. Essa complexidade precisa ser analisada sob uma visão perspicaz, visto que os desafios dessas leituras envolvem tanto homens quanto mulheres. Ao explorar ditas tensões entre os movimentos feministas, a Red Pill e as expectativas tradicionais de gênero, se faz necessário e urgente, desvendar paralelamente o poder que permeiam essas relações, e quem luta por quê. A compreensão da masculinidade como construção, é sua própria elaboração coletiva, que hoje também estaria transpassada por uma dinâmica de gênero. Essas expectativas masculinas, que estão em constante evolução, refletem mudanças estruturas na sociedade. Nesse sentido, os homens são confrontados com a necessidade de reavaliar seus papéis, visto toda uma transformação acontecendo evolutivamente. Atualmente, homens enfrentam uma lida permanente com essas novas demandas, digamos de passagem, das novas mulheres, tentando interpretar essas formas de expressão, possibilidades e comportamentos. A luta dos movimentos feministas nas últimas décadas na direção de desvelar o poder imiscuído nas relações, posicionam os homens como sujeitos de práticas nas quais o poder se regula constantemente. Nesse arcabouço, muitos homens já não compreendem o que as mulheres realmente esperam deles ou querem. Aparentemente foram criados funis interpretativos que desembocam em algum tipo de clichê previamente carimbado. Se demonstram proteção e zelo, são controladores e machistas; se permanecem numa posição neutra, estariam diante de um homem desinteressado e de masculinidade frouxa, entre outros padrões e caixinhas que seguem o mesmo ritmo e pareceres. Diante desses arquétipos, mulheres independentes querem quebrar os elos primitivos necessários aos papéis que sintonizam uma relação. Por sua vez, ha uma transferência natural para o homem, que sendo despojado de capacidades nativas e inerentes a sua condição, podem se perceber frágeis, desestabilizados em sua identidade, ansiosos e alijados de exercer suas capacidades viris. Tantas abdicações, desistências e abandonos, possuem afinal uma proposta de renúncia dele a toda agressividade natural, ao aumento da passividade, do homem bonzinho, sensível, solícito, chorão, receptivo, etc., a esse, já não lhe restaria muita energia, nem vitalidade para oferecer às mulheres. Assim, observo; afinal, de toda essa deposição, onde estaria o homem? A ele foi ensinado a se controlar, não expressar valores negativos como carinho, amor, melancolia, fragilidade, etc., o que de certa forma nos separou e isolou de si. Homens viris, que tem sua masculinidade preservada, precisam demonstrar continuamente uma parte da sua coragem, independência, valor, inteligência e firmeza, mas, historicamente, foram impedidos de demonstrar afetos, sensibilidade e empatia. Assim tiveram que se reprimir. Acredito que a passos lentos, estão aprendendo a lidar com o erotismo como um ato de união física e espiritual, que a troca de prazeres não inclui necessariamente a dominação, e isso pode melhorar significativamente as relações. Masculinidade e feminilidade não são extremos, formam um todo, somos absolutamente contraditórios e intensos. Portanto, podemos encontrar uma infinidade de aspectos positivos nas mudanças ocorridas, nas ideologias que se mesclam na modernidade, e na realidade individual e social. Agora, aprofundando essa análise, é relevante incorporar a perspectiva de Jung. Como afirma; “O encontro com o inconsciente, o qual é sempre um encontro com o outro, é uma experiência moral, um encontro que nos confronta com as limitações da nossa visão consciente e nos força a uma atitude ética e ao desenvolvimento de uma consciência mais ampla”. Essa abordagem mostra a importância da integração das diversas facetas da psique, tanto masculinas quanto femininas, para alcançar uma harmonia interior e uma compreensão mais próxima das relações interpessoais. Red Pill e o Clube da Luta. A metáfora da “Red Pill” tem emergido como um símbolo, frequentemente associado a conceitos de despertar, autoconhecimento e resistência às normas sociais convencionais. Originada no influente filme “Matrix” que citei anteriormente, as fronteiras do cinema transcendem para se tornar um conceito discutido e interpretado em diversos contextos. A produção ressoa entre as temáticas da “Red Pill” é o “Clube da Luta”, onde ambos se destacam por suas semelhanças temáticas e suas abordagens nas questões de identidade, alienação e rebelião. Em “Matrix” num determinado momento Morpheus diz a Neo: “Lembre-se, tudo o que estou oferecendo é a verdade, nada mais”. De maneira semelhante, “Clube da Luta” apresenta seu protagonista em um estado de alienação e descontentamento com a vida moderna. Um fenômeno que gera uma quantidade significativa de literatura acadêmica dedicada principalmente ao estudo dos detalhes da representação do capitalismo e da masculinidade, dois grandes temas que estruturam citados enredos. As contribuições, a partir dessa dupla perspectiva, têm sido tão prolífica quanto divergente. Escapar da monotonia e superficialidade do mundo em que vivemos, buscando essência e autenticidade. Como Tyler Durden proclama: “É apenas após perdermos tudo, que estamos livres para fazer qualquer coisa”. A descoberta do “Clube da Luta” e o encontro com Tyler, representam um despertar para uma realidade alternativa, onde a autoexpressão, a genuinidade e a rebeldia são incentivadas. O “Clube da Luta” representa uma tentativa de transcender as limitações impostas pela conformidade social e buscar uma forma original de existência. Podemos encontrar frases que denotam esse sentimento: “Eu não sou meu emprego. Eu não sou quanto dinheiro tenho no banco. Eu não sou o carro que dirijo. Eu não sou o que visto. Eu não sou minhas calças”. A narrativa se desenrola em torno da jornada de autodescoberta dos protagonistas e do embate para se libertarem das amarras do sistema. Essa rebelião assume uma forma mais visceral e confrontadora, refletindo a necessidade de ruptura com as normas sociais que reprimem a individualidade e a expressão genuína do eu. Os MGTOW. MGTOW é a sigla para "Men Going Their Own Way". Em português, o significado é "homens seguindo o seu próprio caminho". Dentro desses processos, surgem outros movimentos como os MGTOW, que optam por evitar compromissos sérios com mulheres e focar em suas próprias vidas, interesses e objetivos pessoais. Eles valorizam a independência e a liberdade individual, e muitas vezes, optam por viver de maneira solitária ou buscar companhia apenas entre outros homens que compartilham de suas ideias, destarte, não é homogêneo e seus membros podem ter motivações e visões de mundo diversas. Além disso, algumas críticas diretas argumentam, que podem promover uma visão negativa das mulheres e das relações interpessoais, além de reforçar estereótipos de gênero prejudiciais. Um número considerável de estudos que abordaram o tratamento da masculinidade usando dita perspectiva, destacam o ápice de uma tendência em grande escala marcada pela problemática da masculinidade em crise no final deste século. Faço menção ao “Clube da Luta”, ao abordar a relação com o feminismo, proporcionando uma visão densa das evoluções de gênero e poder. A desconstrução dos estereótipos é uma das maneiras mais marcantes pelas quais confronta o feminismo. Ao retratar personagens masculinos que desafiam as possibilidades tradicionais de masculinidade, como a busca pela condição material e a conformidade com normas sociais rígidas, oferecendo uma crítica implícita aos conceitos convencionais promovidos pelo patriarcado, que pode ser lido como um alinhamento com o pensamento das novas mulheres. Afinal, explora de maneira sutil ditas tensões existentes entre homens e mulheres, que podem ser vistas como uma reflexão das preocupações feministas sobre as assimetrias de poder que existem entre ambos. Podemos extrair; Representação das mulheres como personagens secundários. Uma crítica comum ao filme é sua representação das mulheres como personagens secundários ou objetos de desejo dos protagonistas masculinos. Embora Marla Singer, tenha um papel significativo na narrativa, ela muitas vezes é retratada de maneira superficial e não recebe a mesma profundidade de desenvolvimento dos personagens masculinos. Essa representação delas como acessórios para a jornada dos protagonistas masculinos pode ser enxergada como uma falha do filme em proporcionar uma representação mais equitativa e complexa dos gêneros. Exploração da crise da masculinidade: Além disso, "Clube da Luta" aborda de forma intensa a crise da masculinidade na sociedade moderna. Os personagens principais expressam uma sensação de descontentamento em relação às expectativas sociais e culturais associadas ao homem, o que evoca críticas feministas sobre os danos causados pelos papéis tradicionais. O filme pode ser interpretado, como uma reflexão sobre as limitações e as pressões impostas às identidades de gênero pelos padrões patriarcais dominantes. A afinidade entre a metáfora da “Red Pill” e o filme “Clube da Luta” reside na sua abordagem compartilhada de questões existenciais e sociais. Ambos, oferecem uma visão crítica da sociedade contemporânea. Enquanto “Matrix” nos convida a questionar a natureza da realidade e a tomar controle de nossas vidas, “Clube da Luta” nos desafia a confrontar as convenções sociais e a abraçar a individualidade e a liberdade. Juntos, esses dois elementos formam uma narrativa poderosa para aqueles que buscam significado em um mundo muitas vezes dominado pela ilusão e pela superficialidade. Do filme; "Tudo que você possui acaba possuindo você". "Será que não vou me libertar dos pecados e do perfeccionismo? Digo: evolua mesmo se você desmoronar por dentro". "Por que será que vivemos trabalhando para produzir o que não consumimos e, em troca disso, consumimos o que não nos é útil e temos o que não utilizamos, e, por fim, nunca estamos satisfeitos?" . "Primeiro você tem que se entregar, primeiro você tem que saber não temer, saber que um dia você vai morrer". Fantasias Masculinas na Construção da Percepção da Feminilidade. Depois de um balaio por diversos tópicos aderidos ao tema, deixei a inteligente e assertiva compreensão de um dos nossos mais notáveis professores para me ajudar a fechar o artigo. A afirmação de Lacan, “A mulher é um sonho do homem”, repercute agudamente com os princípios fundamentais da nossa teoria, e abre uma lente penetrante para examinar o emaranhado das relações de gênero e da formação da identidade. Ao desdobrar essa declaração na clínica, emergem várias camadas de significado que merecem uma atenção redobrada. Em primeiro lugar, é importante compreender que, para Lacan é a psicanálise, a identidade é formada via processos labirínticos, herméticos e enigmáticos que envolvem a entrada do sujeito no mundo simbólico por meio da linguagem. Ditas, representações simbólicas da feminilidade, são construídas e internalizadas pelo sujeito masculino de acordo com uma série de influências, incluindo as normas culturais, as experiências pessoais e as fantasias inconscientes. Quando Lacan sugere que “a mulher é um sonho do homem”, ele está apontando para o papel central dos devaneios, irrealidades e utopias masculinas que podemos chamar de fantasias. Essa construção encontra eco na nossa percepção da feminilidade. Às mulheres são frequentemente idealizadas e mitificadas como objetos de desejo, espelhando os anseios e projeções dos homens. Essa projeção não é uma mera construção externa, mas sim uma elaboração subjetiva que permeia a psique masculina, influenciando profundamente suas interações e relações com o outro gênero. Essa engrenagem dinâmica, reflete uma assimetria nas relações de gênero, onde o homem é frequentemente posicionado como o sujeito ativo e dominante, enquanto a mulher é relegada a um papel passivo e idealizado. A hierarquia de poder ancestral, enraizada nas estruturas patriarcais que resistem e permeiam a sociedade, onde as mulheres são frequentemente vistas como objetos de satisfação, do prazer e dos desejos masculinos, onde suas vozes e experiências são muitas vezes subjugadas. No entanto, é crucial não interpretar essa afirmação de forma simplista ou reducionista. Ele, quando bem interpretado, não está sugerindo que mulheres são meras criações da imaginação masculina, mas sim, que a nossa percepção como homens da feminilidade, é mediada por uma série de processos psicológicos compostos, agregados como combos, geralmente imanentes. As fantasias e desejos, não são apenas expressões individuais, mas sim produtos de uma cultura, da sociedade na sua totalidade, que moldam e influenciam nossa convivência. Sua afirmação nos convidam a questionar as narrativas tradicionais sobre masculinidade e feminilidade, além das dicotomias simplistas. Seguindo na mesma linha; “A sexualidade é o ponto de articulação do sujeito e do significante no Outro”. Analogamente, na comunicação, a “sexualidade” pode ser entendida como a energia ou o impulso motor que impulsiona a troca de significados entre os indivíduos. Esse seria o ponto de encontro onde as intenções do sujeito se encontram com a interpretação do Outro, criando um espaço de significação compartilhada. Logo sugere, que a comunicação eficaz não é apenas uma transmissão direta de informações, mas sim um processo complexo de negociação de significados, influenciado por uma série de fatores, incluindo contextos, experiências individuais e dinâmicas de domínio. Assim como a sexualidade é um terreno fértil para a articulação da identidade e dos desejos humanos, a comunicação é o espaço onde as identidades, ideias e emoções são expressas, interpretadas e negociadas entre os sujeitos e o Outro. “O desejo do homem é o desejo do Outro”; ele não é simplesmente uma questão de satisfação de necessidades físicas ou emocionais. Em vez disso, é visto como um fenômeno enraizado no inconsciente, sugestionado, influído por uma variedade de fatores, incluindo experiências passadas, traumas, fantasias e normas sociais. O “Outro”, não se refere apenas a outra pessoa individual, mas também ao mundo simbólico que molda a percepção da experiência. Ele representa o conjunto de valores e expectativas integralizados pelo sujeito ao longo da sua vida, que exercem papéis, intervenções, interferências e ingerências significativas sobre seu pensamento, comportamento e hábitos. Outrossim, está apontando para que o desejo está indiscutivelmente mediado pelo desejo do Outro. Em outras palavras, nossos próprios desejos são na maioria determinados pelas expectativas e demandas do mundo ao nosso redor. O que desejamos, e como desejamos, é influenciado pelas narrativas, discursos, pressão social e normas que nos cercam. Por exemplo, o desejo de sucesso, reconhecimento ou poder, pode ser alimentado pelo desejo do Outro - a sociedade global, valoriza tais atributos. Da mesma forma, o desejo de amor, aceitação ou pertencimento pode ser amoldado pelo desejo do Outro, que estabelece normas e expectativas em torno dessas experiências emocionais. Além disso, o desejo esconde, essencialmente, uma intenção de reconhecimento e validação pelo Outro. O indivíduo busca constantemente a aprovação e confirmação dele, procurando espelhos nos outros para aprovar sua própria identidade existêncial. Nossos anseios, não são apenas expressões particulares, mas são encaixados numa variedade de fatores externos. Ao reconhecer essa interdependência entre o desejo e o Outro, podemos começar a compreender mais cavadamente as motivações e dinâmicas que moldam a vida contemporânea de todos. Afinal, todos querem ter a razão! O que os(as) excita, de fato, é ganhar o debate do sexo oposto. Não existe uma receita mais perfeita para destruir as relações entre homens e mulheres do que os movimentos extremos, cuja origem nasce e se reproduz na ''Matrix'' do ressentimento, lugar do ódio, que nasce da insegurança. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 — CNP 1199. Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 — CBP 2022130.
- Socialização - Os 4 Discursos.
A relação entre linguagem e poder nos discursos de Lacan. “Explorando os 4 discursos, somos desafiados a considerar como os sistemas de poder e conhecimento contemporâneo se entrelaçam e reproduzem, influenciando nossas formas de pensar e agir, moldando identidades e às relações sociais modernas.” Dan Mena. Psicanálise e laço social. O avesso da psicanálise foi ministrado por Lacan, na Universidade do Panthéon, em 1969–1970, e ficou conhecido como Seminário 17. Seu objetivo foi retomar o estatuto do sujeito dividido, tomando a psicanálise pelo avesso, pois o “avesso é assonante com a verdade” (Lacan, 1992), onde propõe uma nova forma de entender esse estabelecimento entre os sujeitos. Neste artigo, convido você, meu leitor, a mergulhar nas intricadas camadas da teoria dos 4 discursos. Em um mundo permeado por interações sociais complexas, sob uma lente analítica única, que transcende os limites da psicanálise tradicional, mergulhando no cerne das relações que nos atravessam, do poder e da linguagem, elucidando assim, brilhantemente as dinâmicas que permeiam o social, político e psíquico. Certamente, não são meramente conceitos abstratos; são mapas que nos guiam através das tramas do desejo, da autoridade e da subjetividade. Eles iluminam nossos corredores mais obscuros, revelando suas implicações tanto para o discernimento individual quanto para a análise dos mecanismos que nos rodeiam. Ao longo deste resumo, convoco a reflexão e questionamentos, a dialogarem consigo é com outros, por ser através desse intercâmbio que ampliaremos essa captação prática e pessoal. Boa leitura. Antes de entrar no tema seria importante definir e esclarecer; O que é um discurso para a psicanálise? Para adentrar no conceito propriamente, precisamos entender a estrutura dos discursos para Lacan. Ele define estrutura como “um discurso sem palavras”. As palavras são ocasionais, diz ele; já o discurso, é uma estrutura necessária que subsiste na relação fundamental de um significante com outro. Nada mais são do que a articulação significante, o aparelho, cuja mera presença, o status existente, domina e governa tudo o que eventualmente pode surgir das nossas palavras. São narrativas ''sem palavras'', que vêm em seguida para se alocar nelas; (Lacan, 1992). A sua formalização respeita uma distribuição estelar que se dá em dois níveis: quanto às posições e quanto aos termos. As posições são permanentes: O agente organiza a produção discursiva, domina o laço social, ao dar ''o timbre'' ''o ar'' ao discurso, e possibilitar que haja uma certa alteridade nele. O outro, que não é necessariamente o sujeito, aquele a quem o discurso se dirige, precisa do agente para se constituir. Produção é o efeito do discurso, é aquilo que resta dele. A verdade sustenta o discurso, mas é acessível apenas pelo dito entre palavras. A verdade nunca pode ser toda dita, havendo logo uma interdição nela que se situa entre a produção e a verdade. Os laços sociais são tecidos, estruturados pela linguagem e, portanto, denominados ''discursos''. Não se direcionam apenas à comunicação verbal, mas sim a uma conjuntura melindrosa que envolve não apenas o linguajar, vocabulário, expressão, locução, jargão, etc., mas também, se mesclam nas relações de poder, desejo e significados. Existem então os quatro tipos fundamentais, que descrevem as diferentes formas de relação entre o sujeito, o outro, o desejo e o saber. Em termos gerais, é uma configuração que articula o modo como nós relacionamos uns com os outros e como o fazemos no mundo ao nosso redor, assim como o articulamos e mediamos. Cada discurso tem suas próprias regras e implicações, vejamos suas particularidades; Quais são eles? 1 - O Discurso do Mestre. Segundo análise do psicanalista Jorge Forbes, o homem perdeu completamente seu rumo na era da globalização. A este homem ele nomeia de “o homem desbussolado”. É uma expressão que denota uma sociedade em desordem, confusa e que lhe falta orientação. A palavra “desbussolada” é uma forma figurativa de dizer que estamos como um barco sem bússola, ou seja, sem um rumo claro ou uma direção definida. Eis, portanto, que nesta condição surgem os gurus, coachings, influenciadores digitais, entre outros, ocupando um espaço que era anteriormente da cultura é do poder da igreja, que ditava regras, normas e conceitualizava a ética, moral e costumes. Essa expressão é frequentemente utilizada para descrever situações em que as normas sociais, os valores culturais e as instituições que geralmente fornecem ou dirigiam orientação e estabilidade social estão em estado de crise ou em vias de desintegração. Se refere, também, a uma variedade de questões sociais, políticas, econômicas ou culturais que contribuem para uma sensação geral de incerteza. Por exemplo; uma sociedade ''desbussolada'' pode ser caracterizada por conflitos políticos intensos, polarização social, desigualdades econômicas crescentes, instabilidade institucional, mudanças rápidas na tecnologia e na cultura, entre outros fatores. Esses elementos podem levar a uma sensação de falta de direção ou propósito compartilhado, resultando em um ambiente onde as pessoas se sentem perdidas e inseguras em relação ao lugar que ocupam nos ambientes que participam e ao futuro coletivo. Origens e Contexto: O surgimento do discurso do mestre encontra suas raízes no pensamento de Lacan, que foi profundamente influenciado por figuras como Hegel, Marx e Freud. Ao reconceituar a relação entre sujeito, linguagem e poder, identifico nessa dimensão uma estrutura primordial que permeia as relações em diversas esferas. O mestre, assume uma suposta posição de autoridade suprema, se investe do poder do saber absoluto e impõe suas interpretações e desejos sobre outros sujeitos, os quais, por sua vez, subtraídos, reconhecem sua autoridade e se submetem a ela. Como identificar um sujeito na posição do Discurso do Mestre? Autoridade Inquestionável: Se estabelece como a fonte última de autoridade, não sujeito a questionamentos ou contestações. Imposição de Normas e Valores: Ele dita as normas e valores que regem o grupo, moldando as percepções e comportamentos dos demais sujeitos de acordo com seus próprios interesses. Submissão Voluntária: Aqueles submetidos ao seu discurso, aceitam voluntariamente sua autoridade, buscando se identificar com ele, para obter segurança e reconhecimento. Manutenção da Hierarquia Social: Desempenha um papel importante na manutenção das estruturas de poder e hierarquia social, perpetuando relações de dominação e submissão. Implicações Psicanalíticas: No contexto psicanalítico, é fundamental para compreender a formação do eu e a dinâmica do complexo de Édipo. O sujeito busca se perceber e identificar com o mestre para mitigar sua angústia, tal inerente à falta e à fragmentação do eu, internalizando suas normas e valores como próprios. Relevância Contemporânea: Em um mundo marcado por relações de poder, o discurso do mestre continua a ser uma ferramenta de valor para analisar dinâmicas sociais, políticas e culturais. Da política à economia, das instituições educacionais à mídia, sua presença se faz sentir, muitas vezes de forma sutil e insidiosa, influenciando a maneira como pensamos, agimos e nos relacionamos. No Discurso do Mestre, o agente (A) exerce autoridade sobre o Outro (A) através da mediação do significante mestre (S1). Este discurso reflete as relações de poder e dominação comuns na sociedade, onde uma figura de autoridade impõe normas e valores aos outros. Na prática clínica, vemos isso quando o paciente internaliza crenças ou ideais de figuras de autoridade significativas em sua vida, como pais ou professores, que moldam sua visão de si e de mundo. Exemplo clínico: Um paciente relata se sentir constantemente pressionado a atender às expectativas de seu pai em relação à sua carreira profissional. Ele experimenta uma sensação de inadequação e culpa sempre que não consegue corresponder às expectativas impostas, refletindo a interiorização do discurso do mestre em sua psique. “No discurso do mestre, se desvela a dinâmica de dominação e submissão, onde a autoridade é consolidada através da imposição de significados e normas sobre os sujeitos, criando assim uma hierarquia de poder.” Dan Mena. 2 - O Discurso do Universitário. Lacan observou que o contexto universitário era um local onde o conhecimento acadêmico era privilegiado e sitio nas quais às relações de poder podiam ser reproduzidas de maneira sutil. A essência desse discurso, representa uma estrutura na qual o conhecimento é valorizado como um instrumento de poder e prestígio. Nesse patamar, o sujeito busca obter reconhecimento e legitimidade por meio da acumulação e exibição de conhecimento, muitas vezes em detrimento do seu próprio desejo ou da verdade subjetiva que a íntegra. Como identificar? Valorização do Conhecimento: O saber acadêmico é elevado à categoria de moeda de troca social, sendo utilizado para obter reconhecimento e status. Competição e Hierarquia: O ambiente universitário é frequentemente marcado por uma intensa competição entre os sujeitos para demonstrar sua competência e superioridade intelectual, o que pode levar à criação de hierarquias e exclusões. Alienação do Desejo: O foco excessivo na autopercepção cognitiva, leva à alienação do desejo do sujeito, que se torna subjugado às exigências do campus universitário em detrimento de suas próprias necessidades e aspirações. Reprodução das Estruturas de Poder: O discurso deste, muitas vezes reproduz as estruturas de poder e hierarquias existentes na sociedade, privilegiando determinados tipos de conhecimento e excluindo vozes que são muitas vezes marginalizadas. Implicações Psicanalíticas: Por outro ângulo, nos oferece perspectivas sobre a dinâmica do narcisismo e da identificação imaginária. O sujeito busca sua alienação ao ideal estudantil do bem-sucedido, buscando obter validação e reconhecimento externo por meio do domínio de supostos saberes. Relevância Contemporânea: Conforme o mundo se firma cada vez mais centrado no conhecimento e na educação, o discurso do universitário mantém uma certa relevância. Instituições, faculdades, mídia e cultura popular muitas vezes promovem uma visão idealizada do sucesso da formação universitária, incentivando a competição e a busca por aceitação através do alicerce e princípios educacionais. No Discurso Universitário, o saber (S1) é promovido como um ideal a ser alcançado, muitas vezes em detrimento do desejo do sujeito (S2). Este discurso reflete a ênfase da sociedade contemporânea na competência e busca pelo conhecimento. Exemplo social: Em contextos acadêmicos ou profissionais, vemos esse discurso em ação quando o valor de uma pessoa é frequentemente determinado por suas qualificações acadêmicas ou pelo prestígio de suas realizações. Isso pode criar pressões para gerar conformidade e competição no indivíduo, às vezes em detrimento da expressão autêntica do seu desejo individual. “O discurso do universitário revela a relação entre saber e poder, também destaca como o conhecimento é institucionalizado e usado para legitimar estruturas de autoridade e controle social.” Dan Mena. 3 - O Discurso do Analista. Situado como uma ferramenta teórica que visa esclarecer a dinâmica subjacente aos processos de análise e os modos pelos quais o analista se posiciona em relação ao paciente e ao discurso que emerge dentro do ''setting analítico'', destaco sua relevância teórica e prática para a psicanálise contemporânea. Contextualização Teórica: Para compreender plenamente dita estrutura, é necessário situá-lo no contexto teórico elaborado por Lacan. Ele foi largamente influenciado por pensadores como Freud, Saussure e Hegel, assim, propôs uma revisão radical da teoria psicanalítica, enfatizando a linguagem, o inconsciente e a estruturação do sujeito. Seu conceito de “discurso” não se restringe à comunicação verbal utilizada, mas abrange padrões de interação social que moldam as relações e sua subjetividade. O analista, assume a posição de agente do saber (S1) e o paciente a posição de suposto saber (S2). Essa dinâmica reflete a estrutura fundamental da relação analítica, na qual o paciente busca no analista um conhecimento que o próprio paciente desconhece sobre si. O analista por sua vez, não é absolutamente detentor do suposto saber, mas um catalisador que ajuda o paciente a articular seu próprio inconsciente. Em poucas palavras, não é apenas o lugar de escuta do cliente, mais, sim, o exercício de aprender a se ouvir. As Quatro Funções desse Discurso: São quatro funções distintas que o caracterizam; A: Agente: O analista ocupa a posição de agente do saber, representando o conhecimento que o paciente busca. S1: S1-Mestre: O saber do analista é encarnado por um significante mestre que estrutura o campo discursivo da análise. S2: Suposto Saber: O paciente atribui ao analista um suposto saber, lhe conferindo autoridade e confiança para interpretar seus sintomas e fantasias. $: Plus-de-Jouir (Mais-de-Gozar): O objetivo do tratamento analítico não é eliminar o sintoma, mas permitir que o paciente confronte seu próprio desejo e que consiga reconstruir sua relação com o gozo. A Prática; Na prática clínica, a postura do analista em relação ao paciente e ao material clínico. Ele deve evitar se identificar com o papel de mestre absoluto do conhecimento, permanecendo aberto à emergência do inconsciente do paciente e às complexidades do processo analítico. Isso requer uma escuta sensível, uma atenção aos significantes que circulam na sessão e uma disposição para desafiar interpretações pré-concebidas. A função do analista no processo de (cura), que ao reconhecer que o saber não está exclusivamente nas suas mãos, permite emergir dessa interação entre analista e paciente, uma abordagem dialógica e reflexiva ao tratamento, guiando o processo de transformação psíquica necessário. O analista (A) assume a posição de agente do saber (S1), enquanto o paciente (A) ocupa a posição de suposto saber (S2). Este discurso reflete a dinâmica da relação analítica, onde o analista atua como um facilitador para o paciente articular seu próprio inconsciente e explore livremente seus desejos mais profundos. Exemplo clínico: Durante uma sessão de análise, um paciente expressa um sonho perturbador e confuso. O analista, em vez de oferecer uma interpretação direta, incentiva o paciente a explorar as associações pessoais e os afetos relacionados ao sonho. Através deste processo, o paciente ganha insights sobre questões inconscientes que estavam influenciando seus pensamentos, comportamentos e hábitos. “O discurso do analista, como uma adição crucial, revisita a importância da escuta atenta e da interpretação na análise do inconsciente, oferecendo uma via para a desconstrução das estruturas psíquicas e sociais internalizadas.” Dan Mena. 4 - O Discurso Histérico. O Discurso da Histeria, no seu arcabouço teórico, é essencial para compreender influências e preocupações centrais. Lacan foi profundamente influenciado pelo pensamento de Freud, particularmente pela teoria do inconsciente e pela noção de que a linguagem desempenha um papel crucial na constituição do sujeito. No entanto, também incorporou elementos da teoria estruturalista, especialmente da obra de Saussure, ao enfatizar a importância do significante na construção da realidade psíquica. As Quatro Funções do Discurso Histérico: A: Agente: O sujeito assume a posição de agente, buscando uma relação com o Outro através do discurso do mestre. S1: S1-Mestre: O discurso do mestre representa as normas sociais e as expectativas impostas pelo sistema dominante, mediando a relação do sujeito com o Outro. S2. Objeto a: O objeto a representa o objeto de desejo do sujeito, uma falta constitutiva que o impulsiona a buscar satisfação através da identificação com o discurso do mestre. $: Plus-de-Jouir (Mais-de-Gozar): O sujeito busca incessantemente a satisfação de seu desejo, mas essa busca é marcada pela falta e pela impossibilidade de alcançar uma plenitude desse gozo. No Discurso da Histeria, o sujeito (A) busca satisfação de seu desejo através da mediação do discurso do mestre (S1) e do objeto a (S2). Este discurso revela as contradições e impasses inerentes à busca do sujeito pela plenitude de gozo. Na prática clínica, isso pode se manifestar nos sintomas histéricos, sendo uma expressão do conflito entre o desejo do sujeito e as normas sociais internalizadas. Exemplo clínico: Uma paciente apresenta sintomas físicos recorrentes, como dores inexplicáveis e problemas gastrointestinais, que não têm uma explicação médica clara uma vez realizados os exames de rotina. Através da análise, se revela que ditos sintomas estão ligados a um conflito não resolvido entre seu desejo de independência e autonomia e as expectativas familiares sobre seu papel tradicional de cuidadora. A Prática; Oferece compreensão dos sintomas histéricos e das dinâmicas de poder. O analista deve estar atento às formas pelas quais o sujeito se posiciona em relação ao discurso do mestre e ao objeto de desejo, reconhecendo as contradições e os impasses que surgem nessa interação. A qual nos convida a refletir sobre as formas pelas quais o poder, o saber e o desejo se entrelaçam nas interações possíveis. Assim, tal Discurso, para nós, psicanalistas modernos, nos permite um aprofundamento nesse processo de subjetivação que se interpõe. “O discurso da histeria, mergulha na exploração da subjetividade, destacando como os desejos individuais e as identidades são moldadas e contestadas em conjunturas sociais e culturais.” Dan Mena. O Quinto Discurso (uma posição inacabada). 5 - O Discurso do Capitalista. Como uma questão intrigante emerge a possibilidade iminente de um “quinto discurso”, esse que seria capturado pelo surgimento do capitalismo avançado. O capitalista logo se destaca como um protagonista central que ocupa uma posição de extrema importância. Detentor dos meios de produção, exercerá um domínio sobre a estrutura econômica e social do mundo, em consequência afetando os indivíduos. A busca incessante pelo lucro passa a moldar não apenas a economia, mas também a cultura, a política e a subjetividade. Essa influência do capitalista, transcende os limites da fábrica, empresa ou do escritório, e penetra todas as esferas da vida moderna. Por outro lado, o lugar do outro será ocupado pelo trabalhador, e cuja posição virá ser caracterizada pela venda de sua força de trabalho em troca de um salário. O trabalhador se torna assim uma mercadoria no mercado de trabalho, e se sujeita às demandas e condições impostas pelo capitalista. No entanto, essa relação não é unilateral; o trabalhador mantém uma conexão latente, capaz de resistir à exploração e lutar por melhores condições de vida e trabalho. A produção da verdade, nessa conjuntura, será regida pela lógica do mercado. O valor das mercadorias será determinado não apenas por seus custos de produção, mas também por sua utilidade percebida e sua escassez relativa. O mercado, como um árbitro impessoal, irá atribuir valor às coisas de acordo com suas próprias leis, muitas vezes desvinculadas das realidades sociais e ambientais. Por fim, o lugar da verdade será ocupado pelo valor de troca, e aqui, reside a essência do capitalismo: a busca ininterrupta e selvagem pelo lucro e a acumulação de capital que não se mostra justo. O valor de troca se torna o princípio orientador das nossas interações, muitas vezes eclipsando considerações éticas e morais. O resultado é uma sociedade marcada por desigualdades econômicas e sociais, que exacerbam a pobreza, a exploração e a degradação ambiental em escala global que estamos presenciando há décadas. Quando analisamos o discurso do capitalista, somos confrontados com suas contradições e tensões inerentes ao seu sistema e funcionamento. Enquanto promete uma suposta liberdade e prosperidade, se perpetua como um discurso regado a-desigualdades e alienação. A compreensão dele nos sugere obter valiosas interpretações, aspectos, ângulos, olhares sobre as dinâmicas sociais contemporâneas e as possibilidades de transformação nas quais precisamos corrigir. O discurso do capitalista não é apenas uma descrição das relações de poder no capitalismo avançado, mas também uma provocação para a movimentação da ação política e social. Ao reconhecer suas enormes injustiças e contradições, somos desafiados a imaginar e lutar por alternativas mais compatíveis, consentâneas, efetivas e sustentáveis. O verdadeiro poder desse discurso, reside não apenas na sua análise crítica, mas também na capacidade de nos inspirar a defrontar mudanças significativas urgentes em direção a um mundo mais equitativo e humano. Um exemplo prático; Imaginemos uma situação em que João trabalha em uma empresa de tecnologia. Nesta empresa, há uma cultura corporativa que valoriza a competitividade, o sucesso individual e a acumulação de riqueza como sinais de status e realização pessoal. Agente (S1): Neste caso, o agente seria a própria empresa de tecnologia, representando o papel do “mestre” ou do poder que impõe suas demandas e valores sobre os funcionários. Outro (S2): O “outro” pode ser entendido como a narrativa predominante na cultura corporativa que promove a ideia de que o sucesso é medido pela riqueza material, posição hierárquica e reconhecimento social. Produto (a): O “produto” neste contexto seria o trabalho de João, sua produtividade, sua contribuição para os lucros da empresa e sua capacidade de gerar valor econômico. Verdade (V): A “verdade” neste espaço seria a ideia internalizada por João de que ele só pode ser verdadeiramente bem-sucedido se alcançar metas de desempenho, subir na hierarquia da empresa e acumular riqueza pessoal. “Ao integrarmos o discurso do capitalismo aos outros quatro, convocamos considerar as implicações psicológicas e sociais das estruturas econômicas dominantes atuais, incentivando uma reflexão crítica sobre as condições de vida na contemporaneidade.” Dan Mena. Neste exemplo, podemos entender claramente como o discurso do capitalista opera quando João internaliza as ideias e valores promovidos pela cultura corporativa, identificando seu próprio valor e sucesso com base em critérios definidos pela empresa. Isso pode levar João a sofrer uma série de efeitos psicológicos e emocionais, como ansiedade, competição desenfreada, alienação e falta de satisfação pessoal, especialmente se ele se encontra em uma posição onde não consiga atingir esses objetivos. Observo, logo, que tais dinâmicas nas empresas e organizações, se infiltram no nosso inconsciente, sem que possamos perceber o quanto internalizamos seus únicos propósitos de enriquecimento, o quanto somos alienados por elas e reproduzimos normas e valores do seu sistema inconscientemente. O Discurso do Capitalismo cintila sobre as interações entre economia, desejo e subjetividade, evidenciando como o sistema econômico atual nos molda, não apenas nas relações de produção, mas também, exerce total influência nos nossos desejos e aspirações individuais.” Dan Mena. Vejamos algumas frases importantes do seminário; “Os quatro discursos não são, evidentemente, quatro maneiras diferentes de falar das mesmas coisas, mas sim quatro coisas diferentes que se dizem de maneira diferente.” (Seminário XVII, O Avesso da Psicanálise); “A teoria dos quatro discursos é a articulação estrutural que permite encontrar o lugar do sujeito e sua relação com o desejo e a linguagem.” (Seminário XVII, O Avesso da Psicanálise); “O discurso é uma estrutura complexa que envolve quatro posições fundamentais: agente, outro, produção de discurso e verdade.” (Escritos); “Os quatro discursos representam as formas pelas quais o sujeito se relaciona com o mundo e com os outros, e como ele articula seu desejo dentro dessas relações.” (Seminário XVII, O Avesso da Psicanálise); “Cada discurso possui sua própria lógica interna, suas próprias regras e implicações, que moldam as interações sociais e psíquicas dos sujeitos envolvidos.” (Seminar XVII, O Avesso da Psicanálise); “Os discursos não são apenas ferramentas de comunicação, mas estruturas que moldam e organizam a experiência subjetiva e social.” (Escritos); O que implica um “discurso”? Tudo o que compõe um “discurso” psicanalítico, se refere a um conjunto de ideias e conceitos específicos desse nosso campo científico e teórico. Mas também, podemos pensar nele como uma troca de mensagens entre pessoas. Essa “conversa especial'' que acontece entre o sujeito e outras pessoas ao seu redor, que vai além das palavras que são ditas, inclusive a ''não expressas'', e isso inclui tudo o relacionado a desejos, prazer e amor. O sujeito é formado a partir da relação entre palavras e, nessa conexão, algo sempre se perde. Essa perda, que Lacan chamará de “objeto a”, existe em quatro partes importantes dentro desse “diálogo”; Tem o “agente”, que é o sujeito. Tem o “outro”, que é um tipo de mensagem ou ideia importante. Tem a “produção”, que é o conhecimento construído nessa conversa. E tem a “verdade”, que é aquilo que causa nossos desejos e prazeres. Essas partes todas juntas formam diferentes tipos de “conversas”. Quando alguém faz terapia, acaba aprendendo bastante, inclusive sobre si, ao final dela, a pessoa pode até mesmo se tornar um terapeuta. Isso acontece quando alguém que estava sendo tratado passa a entender mais sobre o próprio inconsciente e, com isso, pode ajudar outras pessoas. Assim, enquanto houver alguém disposto a ajudar outros que precisam de ajuda, a terapia pode continuar acontecendo. A ideia é que, durante o percurso terapêutico, a pessoa que está sendo tratada possa falar sobre o que está sentindo e pensando, sem ter medo de ser criticada(o) ou julgada(o). E é aí que entra o analista para ouvir, sem julgar, e auxiliar o indivíduo a entender melhor seus próprios pensamentos e sentimentos. Essa troca de ideias ajuda a pessoa a lidar melhor com suas preocupações e problemas, em um ambiente de confiança, onde é seguro falar sobre qualquer coisa. O Discurso Analítico. O que caracteriza esse discurso analítico é sua própria pergunta. O que o histérico(a) demanda através de seu sintoma? O que ele representa com seu sintoma? Qual palavra poderia ser colocada no lugar do sintoma? Assim, ao escutar uma palavra com a qual intuir a resposta para sua pergunta, permite que ocupe o lugar da verdade e o objeto seja a causa do desejo, esse é o lugar do agente do discurso. Por isso, uma das perguntas da Psicanálise é: O que uma mulher deseja? E a outra é: O que é ser Pai? Por fim; O que caracteriza a interpretação analítica? A posição das letras ou palavras em seu lugar correspondente? As formações do inconsciente ocuparão o lugar da produção e o objeto a será o Agente do discurso. A letra é efeito de discurso, diz Lacan, de modo que a letra do alfabeto fenício surgiu primeiro, o que é tipicamente efeito do discurso, antes que a alguém lhe ocorresse usar letras, O sujeito já era um(a) portador e transmissor da letra. Ao poema; "Sinfonia dos Quatro Movimentos: Um Poema sobre os Discursos de Lacan, por Dan Mena. No palco da psique, ecoam quatro vozes, Discursos que descortinam uma tal soberania, O mestre proclama na sua voz a tirania, No discurso do mestre, de Rei se reveste. A histérica, em sua angústia, se desnuda, Na fala onde a dor se acomoda intrometida, Universitárias tramas de saberes se entrelaçam, No enunciado do saber, verdades se abraçam. Além desses quatro, um quinto se apresenta, O do capitalismo, onde a riqueza se sustenta, Na narrativa do lucro o valor é transformado, Desejos e sonhos pelo mercado moldados. Nessa sinfonia de falas, o analista se encontra, Como guia no labirinto, onde a mente se desmonta, Com escuta perspicaz, desvenda os segredos, Dos sujeitos em busca de alívio para os medos. Assim, os discursos em versos se enredam, Complexidades que a mente arremeda, Em rimas e em prosa, eles se acanastram, Numa dança de significados que se abraçam. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 — CNP 1199. Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 — CBP 2022130.
- Repressão e Recalque.
Desvende os mistérios da mente ansiosa e descubra como encontrar a paz interior. ''Como guardiões dos portais do consciente e inconsciente, a repressão e o recalque se erguem como sentinelas que vigiam os segredos mais sombrios da alma.'' Dan Mena. Por Dan Mena. Neste artigo, proponho adentrarmos no fascinante tema da repressão e o recalque. A repressão é um dos pilares sobre os quais repousa toda a elaboração teórica da psicanálise. Freud assegura que é uma conquista do seu trabalho, obtida de maneira legítima, como decantação teórica de inúmeras experiências clínicas. “O que pensamos ser uma conquista de nossa própria mente muitas vezes é apenas uma repressão da verdade inconveniente.” Quando falamos deste assunto, nós referimos ao mecanismo de defesa mais importante da dinâmica psíquica. Nada mais e nada menos, senão, aquele que nos mostrou o caminho para a descoberta da existência do inconsciente. Como ele cita: “A repressão é a mãe da neurose; ela é a origem de toda doença mental.” As explicações sobre o fenômeno se entrelaçam com a relevância da sexualidade, da moral e do desenvolvimento biológico do ser. “A repressão é a maneira pela qual a sociedade controla nossos instintos, nos forçando a ajustar-nos a padrões sociais, o que pode levar a conflitos internos e distúrbios psicológicos.” Outrossim, creio ser oportuno sinalizar que existem algumas diferenças entre os termos Repressão e Recalque, destarte muitas vezes são utilizados associados, um substituindo o outro, ou apenas subentendidos como sinônimos. Na sua definição final, são sim conceitos intimamente relacionados, mas com nuances distintas em seu funcionamento mental. Por isso é importante abrir o tema esclarecendo essa simbiose linguística, conforme concebidos pela nossa teoria. Boa leitura. ''A repressão vigia os desejos proibidos, enquanto o recalque obscurece a consciência, ecoando para o inconsciente.'' Dan Mena. Repressão: A repressão é um mecanismo de defesa capital, ele opera no inconsciente. Envolve o ato de suprimir ou eliminar da consciência pensamentos, desejos, impulsos ou memórias que são considerados ameaçadores ou socialmente inaceitáveis. O processo repressivo é frequentemente instintivo e ocorre de forma totalmente involuntária ao nosso querer e possível controle. Quando um conteúdo psíquico é reprimido, ele não é simplesmente esquecido, mas sim empurrado ladeira abaixo para o inconsciente, onde continua a influenciar o comportamento e os sentimentos que nos acometem. Pode ser visto como uma estratégia defensiva destinada a proteger o ego contra conflitos internos, ansiedades ou experiências traumáticas que poderiam perturbar o equilíbrio psíquico. ''Diante das exigências da sociedade, a repressão ergue seus muros, moldando a persona pública, enquanto relega ao esquecimento os desejos que não se encaixam nos moldes socialmente aceitos.'' Dan Mena. Recalque: Já o recalque é um aspecto específico da própria repressão, se refere a dinâmica pela qual conteúdos mentais singulares, intrínsecos, são deslocados do consciente para o inconsciente. O recalque age principalmente em relação aos desejos sexuais e agressivos, elaborados durante a infância. No desacolhimento desse mecanismo, não apenas esquecemos ou ignoramos um pensamento, ou desejo indesejado, mas ativamente negamos sua existência conscientemente. Assim o jogamos para o inconsciente, o mantendo fora do âmbito da consciência. Esse processo, muitas vezes, ocorre em resposta a determinadas normas sociais impostas, regras familiares ou culturais, que proíbem expressões abertas de certos assuntos e interesses sexuais ou mesmo dos impulsos naturais. O recalque é, portanto, uma chave na formação da estrutura psíquica do indivíduo, que se forma durante o desenvolvimento normal e psicossexual, influenciando a personalidade, a identidade e o comportamento ao longo da nossa experiência de vida. ''Diante do confronto com o intolerável, o recalque emerge como o mecanismo de defesa primordial da psique, relegando ao esquecimento aquilo que não pode ser enfrentado verticalmente de frente.'' Dan Mena. Natureza do Processo — Diferenças concretas; Repressão: É como a mente se protege ao esconder pensamentos ou sentimentos ameaçadores. Recalque: É um tipo específico de repressão que esconde desejos, especialmente os sexuais e agressivos. Foco e Abrangência: Repressão: Pode envolver uma variedade de pensamentos e emoções. Recalque: Se concentra especialmente em esconder desejos considerados socialmente inaceitáveis, como os sexuais ou agressivos. Atividade dos Processos: Repressão: Pode acontecer sem a pessoa perceber, como um reflexo automático. Recalque: Geralmente é um processo ativo, onde estamos cientes de querer esconder determinados pensamentos e sentimentos que nos incomodam. Momento em que Ocorrem: Repressão: Pode ocorrer em qualquer fase da vida. Recalque: Principalmente acontece na infância, durante o desenvolvimento da personalidade. Conforme apuramos, descobrimos e desenredamos ditas complexidades de ambas, vamos nos aprofundar em suas influências nas dinâmicas da psicoterapia. Aqui, a repressão pode se manifestar como resistência, dificultando a sondagem profunda dos conflitos internos apresentados pelos pacientes. Além disso, verifiquemos como a repressão impacta a vida psíquica, onde conteúdos reprimidos podem gerar sintomas, distúrbios, estresse ou tensões emocionais, alterando significativamente a qualidade de vida e o bem-estar geral. Compreender como a repressão opera é essencial para abordar essas questões emocionais eficazmente. A Energia Psíquica Permanece. O processo de repressão é uma peça angular na compreensão da nossa psicodinâmica. Freud a descreve como um esquema automático e constante da mente, ela funciona para manter afastados da consciência conteúdos mentais percebidos como ameaçadores e alarmantes. Através desse recurso, o ego exerce uma censura sobre os impulsos, desejos e memórias considerados(as) intoleráveis e insuportáveis. Podemos usar o impulso como modelo para elucidar esse método. Quando um ímpeto, lance ou pulsão, é reprimido, ele não é simplesmente eliminado, mas sim privado do uso da sua energia e potência. No entanto, a intensidade e vigor delas permanecem ligadas e conectadas, fixada nas suas representações mentais associadas, exercendo uma atração sobre novas configurações que vão surgir inevitavelmente, posteriormente. Assim, a repressão não é um esquecimento, mas uma exclusão animada e deslocada do conteúdo da consciência, se tornando por consequência uma memória inconsciente, que influencia indiretamente o comportamento e os sentimentos que nos acompanham. Os Três Processos da Repressão. É importante destacar, que a repressão não empreende apenas sobre os impulsos ou desejos, mas também sobre os afetos coligados a eles. Afeições, apegos e estimas não são diretamente restritos e sufocados, mas podem ser transformados ou dirigidos para outros pontos. Isso pode levar a uma desconexão entre a expressão emocional e a consciência do indivíduo, resultando em sintomas psicológicos ou psicossomáticos. Nosso postulado, distingue três momentos peculiares e específicos no processo de repressão: a repressão originária, que estabelece a divisão entre os domínios consciente e inconsciente da mente; a repressão propriamente dita, que desloca os conteúdos intoleráveis para o inconsciente; e o retorno do reprimido, onde esses elementos buscam uma forma de expressão na consciência mediante sintomas, sonhos ou atos falhos. 1. Repressão Originária: A repressão originária marca o início da divisão entre os domínios consciente e inconsciente da mente. Esse momento como aquele em que representações mentais intoleráveis são expulsas da consciência e relegadas ao inconsciente. Como destacado por Laplanche e Pontalis (1967), “A repressão originária é o processo primário pelo qual o indivíduo lida com a excitação psíquica” (p. 353). Neste estágio, a mente busca se proteger da sobrecarga emocional, relegando esses materiais e conteúdos inadmissíveis ao inconsciente. 2. Repressão Propriamente Dita: A repressão propriamente dita é o segundo momento desse processo, onde os conteúdos reprimidos são mantidos no inconsciente. Como explicado por Freud (1915); “A repressão propriamente dita, desloca para o inconsciente os conteúdos intoleráveis para a consciência, onde permanecem ativos”. Esta fase, é caracterizada pela manutenção dos temas reprimidos no inconsciente, onde exercem uma influência contínua sobre a vida mental do indivíduo. Como observado por Jung (1964); “O inconsciente retém os conteúdos reprimidos, onde continuam a influenciar a vida psíquica”. 3. Retorno do Reprimido: O retorno do reprimido é o terceiro momento da repressão, onde os manifestos recalcados buscam uma forma de expressão na consciência. “O retorno do reprimido pode ocorrer via sintomas, sonhos ou atos falhos”. Este estágio é crucial para o trabalho terapêutico, ao oferecer oportunidades para o paciente confrontar e elaborar os aspectos refreados de sua experiência. Como afirmado por Ferenczi (1919); “O retorno do reprimido é uma oportunidade para o paciente revisitar e integrar esses conteúdos na consciência”. O inconsciente é estruturado como uma linguagem, e os desejos limitados se expressam por meio de símbolos e metáforas, que por sua vez são interpretados como manifestações do inconsciente tentando se fazer ouvir. O inconsciente não é apenas uma região reprimida da mente, mas sim um campo de significação, onde os desejos e embates psíquicos são representados tropológica e emblematicamente. Portanto, fundamental para a compreensão da psicodinâmica, ao revelarem as lutas entre forças conscientes e inconscientes na mente. ''Os processos da repressão representam as diferentes faces da mesma moeda psíquica, onde a negação se comporta como uma incapacidade cognitiva a existência dos desejos indesejados, o recalcamento as empurra para o subterrâneo do inconsciente, e a formação reativa, os transformando em seu oposto, para torná-los socialmente aceitáveis.'' Dan Mena. Implicações Clínicas: “A análise visa trazer luz aos conteúdos tolhidos e auxiliam o paciente a integrá-los construtivamente”. O ''retorno do reprimido'' na sessão terapêutica oferece oportunidades para o processo analítico na totalidade, permitindo ao cliente confrontar e elaborar os aspectos censurados da sua singular vivência. Atinar, depreender e interpretar esses momentos é essencial para o nosso trabalho, ao abrir uma janela de imersão nos conflitos, contribuem para se alcançar uma maior integração e autoconsciência. A Abordagem Lacaniana. Não é possível agregar elementos contemporâneos a repressão e o recalque sem convocar o essencial aporte da visão lacaniana, que adiciona novas nuances e reflexões sobre esses conceitos. Para Lacan, a repressão não é simplesmente a exclusão de conteúdos da consciência, mas sim um processo labiríntico e hermético, que envolve a negação da falta fundamental do sujeito. Ele argumenta que a repressão implica em negar não apenas os desejos ou impulsos individuais, mas principalmente o desejo do Outro. Em suas palavras, “A repressão não é a eliminação de um desejo, mas a rejeição do desejo do Outro” (Lacan, 1957). Por esta via, ele introduz o conceito de “foraclusão”, (veja adiante a definição); sugerindo que o recalque não ocorre simplesmente por meio da repressão de conteúdos para o inconsciente, mas sim pela eliminação simbólica desses elementos, do registro metafórico e alegórico. Assim, isso se configura pela operação emblemática típica, que envolve a negação do desejo do sujeito em relação ao desejo do Outro. A Incompletude do Ser. A falta fundamental do ser, surge da percepção da incompletude primordial e da ausência de algo primigênio original, inerentemente ligado à nossa experiência humanística desde o nascimento. Ao percebermos a falta do objeto primevo, geralmente identificado com a nossa mãe ou com a fusão com o outro. Esse absentismo, que vai nos compor e acompanhar por toda a vida, será crucial para o nosso desenvolvimento, pois a partir dele nos tornamos seres desejantes, logo o ausentismo dessa completude impossível será o próprio motor do desejo, que vai consequentemente nos mover em direção à vida. Lacan argumenta, que o desejo é sempre marcado pela falta, uma vez que visamos preencher essa lacuna original, muitas vezes de maneira inconsciente e simbólica. Assim, a falta fundamental do sujeito é o que impulsiona a busca por satisfação e completude. Essa carência, não pode ser diretamente preenchida, faz parte da nossa condição. Geralmente se relaciona ao conceito de “castração simbólica”, que se refere à perda do objeto primordial e à entrada do sujeito na ordem simbólica da linguagem e da cultura. Portanto, a falta fundamental do sujeito não é uma deficiência a ser corrigida, mas sim, uma condição intrínseca à experiência decorrente da vida, que molda a maneira como os desejos são formados e vivenciados ao longo da vida. Recalque em Lacan. O recalque em Lacan está intimamente relacionado ao conceito do “retorno do recalcado”, que descreve como os conteúdos reprimidos retornam de maneira sintomática na vida do sujeito. O recalque não é simplesmente a supressão de desejos ou impulsos, mas sim uma negação simbólica que mascara a falta fundamental do sujeito. Como ele escreve; “O recalque é a negação simbólica da falta” (Lacan, 1957). Ele implica que no indeferimento e suposto desprezo da denegação do desejo do sujeito em relação ao desejo do Outro, ou seja, a negação da falta que constitui o sujeito. O recalque não elimina o desejo reprimido, mas o transforma em sintoma, que retorna de maneira codificada na nossa vida. Conceito de Foraclusão. A noção de foraclusão, introduzida na teoria psicanalítica, indica o isolamento e a marginalização de um significante elementar e precípuo do campo simbólico do indivíduo, resultando em uma lacuna ou falha na sua estruturação psíquica; “A rejeição de um significante elementar do campo simbólico” (Lacan, 1957). Este significante elementar, muitas vezes referido como o Nome-do-Pai, é substancial para a entrada do sujeito na ordem simbólica e para a constituição de sua identidade. Quando esse significante não é adequadamente inscrito no campo simbólico, ocorre uma ''foraclusão'', levando a consequências expressivas para o sujeito. Diferentemente do recalque, que enquanto implica a rejeição de um significante já simbolizado, a foraclusão envolve a supressão dele, que nunca foi plenamente integrado ao registro simbólico do indivíduo. Tal a sua importância, que podemos afirmar que; “A falta do Nome-do-Pai no inconsciente é a estrutura mesma da psicose” (Lacan, 1957). A apreensão desse conceito, que agrega Lacan, implica na profunda compreensão da psicopatologia e do desenvolvimento mental. Em casos de psicose, por exemplo, a foraclusão do Nome-do-Pai pode levar a uma fragmentação do self e a uma perda do senso de realidade. Além disso, pode ser a fonte de sintomas neuróticos, como ansiedade, depressão e dificuldades de identidade. “A análise visa a trazer à luz o que foi foracluído e o reintegra ao campo simbólico do sujeito” (Lacan, 1957). Ao reconhecermos as entrelinhas desse simbolismo, como analistas, podemos investigar questões laterais à foraclusão e facilitar o processo de simbolização e integração do paciente. ''A foraclusão, como o ato de rejeitar o significante primordial, impõe ao sujeito um destino marcado pela falta, onde a ausência de sentido se torna o fio condutor de sua existência.'' Dan Mena. Simbólico, Imaginário e Real. Assimilar repressão e recalque na psicanálise lacaniana envolve uma análise dos conceitos de simbólico, imaginário e real, os quais desempenham papéis básicos na estruturação da mente e na formação dos sintomas. 1. O Simbólico: O simbólico, é o domínio da linguagem, da cultura e dos significantes. É o registro, no qual os significados são atribuídos e compartilhados mediante sistemas estruturados figuradamente como a dialética. Na repressão e no recalque, o simbolismo se estabelece mediante conteúdos mentais codificados e organizados conforme as normas sociais e culturais. “O simbólico é o domínio do Outro, da lei e das normas sociais que moldam a subjetividade” (Lacan, 1957). 2. O Imaginário: O imaginário, por sua vez, é o registro das imagens que formamos e projetamos, das fantasias e das identificações narcísicas. São representações mentais que surgem a partir das relações especulares, especialmente, da relação com a imagem do outro e da própria imagem no espelho. Na repressão e no recalque, o imaginário e a fantasia, perpetram a formação dos sintomas, ao ser onde o lugar onde os conflitos psíquicos são simbolizados e representados de maneira imagética. “O imaginário é o domínio das identificações narcísicas e das fantasias que moldam a percepção de si e do outro” (Lacan, 1957). 3. O Real: Por fim, o real é o registro do inassimilável, do não simbolizável e de tudo que nos é ou foi traumático. É aquilo que escapa à nossa representação icônica e imaginária, representando um ponto de ruptura dessa ordem figurada e metafórica. Na repressão e no recalque, o real surge como um lapso, uma ausência que persiste apesar das nossas tentativas de representar e dar significado. “O real é o que não pode ser representado, o que está além do simbólico e do imaginário” (Lacan, 1957). Simbólico, imaginário e real possuem papéis interdependentes e complementares. Eles constituem os registros fundamentais da nossa experiência, moldam a maneira como encaixamos os conteúdos mentais codificados, representados e experimentados. Fazer uma análise criteriosa e cuidadosa desses registros é medular para uma cognição abrangente da dinâmica psíquica e dos processos defensivos que ocorrem na mente. ''Na tessitura dos significados simbólicos, das imagens fantasiosas e das realidades concretas, a repressão e o recalque atuam como os artífices que tecem os véus da ilusão, ocultando os segredos mais sombrios do eu.'' Importantes Contribuições. Como apontei inicialmente, diversos autores contemporâneos têm contribuído positivamente com perspectivas integrativas e complementares sobre a repressão e o recalque na psicanálise. Citarei aquelas que de alguma forma considero às mais relevantes, numa breve síntese: 1. Melanie Klein — Teoria das Posições Depressiva e Esquizo-Paranoide: Klein sugeriu que nossa mente passa por diferentes fases de desenvolvimento. Ela chamou essas fases de posições depressiva e esquizo-paranoide. Segundo ela, a repressão e o recalque ocorrem quando tentamos lidar com ansiedades primitivas, como a perda e a destruição. Então disse: “A repressão é nossa forma de lidar com essas ansiedades ao negar, remover ou transformar conteúdos mentais ameaçadores.” 2. Bion — Teoria dos Pensamentos Não Pensados: Bion trouxe a ideia de pensamentos não pensados. Afirma que temos elucubrações e ponderações primitivas e perturbadoras que eclodem na mente. Para tal, são muito assustadoras para serem reconhecidas conscientemente. Explicou, que esses pensamentos originários que nos permeiam são reprimidos e recalcados, resultando no levantamento de uma série de defesas e sintomas. 3. Winnicott — Teoria do Falso Self: Já Winnicott sugeriu o falso self, uma espécie de máscara que usamos para nos proteger. Ele enfatiza que a repressão e o recalque podem ocorrer como uma tentativa de manter esse falso self seguro. Isso acontece quando queremos evitar experiências que possam nos perturbar. 4. Kohut — Teoria do Narcisismo: Kohut falou sobre o narcisismo, como nos vemos e valorizamos a nós mesmos. A repressão e o recalque podem ser usados para proteger nossa autoestima e nos manter seguros. “A repressão pode acontecer quando sentimos que nossa autoestima está ameaçada, então tentamos esconder essas partes de nós mesmos.” 5. Jessica Benjamin — Teoria da Intersubjetividade: Jessica falou sobre a importância dos relacionamentos em nossa mente. Assevera que a repressão e o recalque podem acontecer devido às interações com outras pessoas. Explica que isso pode acontecer quando tentamos manter uma boa relação com alguém importante para nós, às vezes, reprimindo partes de quem somos para manter a paz. Casos Clínicos — Repressão: Paciente: Nome: João Idade: 35 anos Sexo: Masculino João buscou ajuda terapêutica devido a uma persistente sensação de ansiedade e dificuldade em manter relacionamentos interpessoais estáveis. História: João me relata que cresceu em um ambiente familiar onde seu pai era um homem autoritário, inflexível e crítico. Seu genitor alimentava expectativas altas e praticamente inalcançáveis, frequentemente expressava sua desaprovação quanto aos seus passos, o que levava João a se perceber constantemente inadequado, com baixa estima e desvalorizado. Desde criança, aprendeu a reprimir suas emoções e desejos autênticos para evitar conflitos com ele. Eventos traumáticos dessa infância, que foi marcada por castigos severos e rejeições emocionais, foram empurradas para o inconsciente durante seu desenvolvimento, como uma forma de autopreservação. No entanto, essas memórias reprimidas continuaram vivas, exercendo uma influência poderosa sobre sua vida adulta, se manifestando por fim como ansiedade generalizada e dificuldade em formar vínculos interpessoais saudáveis. Leitura: A repressão das experiências de embate e traumáticas de João com seu pai foram uma estratégia inconsciente, criadas para se proteger e isolar sua psique da dor emocional associada a essas memórias. No entanto, essa supressão resultou em sintomas psicológicos significativos que interferem atualmente em sua vida diária. Na terapia, visei ajudar João a acessar essas memórias reprimidas de forma segura e integrá-las em sua consciência, promovendo assim uma releitura emocional e o retorno do seu bem-estar psicológico. Caso Clínico — Recalque: Paciente: Nome: Maria Idade: 28 anos Sexo: Feminino Maria me procurou pela terapia devido a dificuldades persistentes em relacionamentos interpessoais e episódios recorrentes de tristeza e angústia inexplicáveis. História: Maria me conta que cresceu em um lar onde havia uma tensão constante entre seus genitores, especialmente em relação às provocadas por seu pai. Embora ela não tenha memórias claras de eventos específicos, sempre sentiu uma sensação de desconforto em relação à figura paterna. Sua infância foi marcada por um sentimento de confusão e ambivalência em relação ao pai, alternando entre momentos de proximidade emocional e distanciamentos prolongados. Essa ambiguidade, a levaram a desenvolver um mecanismo de enfrentamento inconsciente, onde memórias ou emoções relacionadas ao seu genitor foram reprimidas e varridas de sua consciência. Ditas memórias inacessíveis se tornaram uma fonte lateral de sua dificuldade em se conectar emocionalmente com seu parceiro atual, com amizades e no trabalho. Á partir de determinado momento do seu amadurecimento pessoal, passou a experimentar uma sensação duradoura de tristeza inexplicável. Leitura: Maria está experimentando recalque em relação às memórias e emoções associadas à figura paterna. Sua incapacidade de acessar conscientemente essas experiências sugere que elas foram empurradas para o inconsciente como uma forma de evitar o confronto com aqueles sentimentos desconfortáveis. Essa falta de acesso consciente contribuiu para sua dificuldade em estabelecer vínculos emocionais em todos os níveis sociais, o que pode estar exacerbando essa tristeza persistente que relata. O processo terapêutico com Maria visou ajudá-la a rememorar essas emoções reprimidas de maneira segura, incorporando esse elo em sua consciência de uma maneira integrada. Isso lhe permitiu enfrentar seus sentimentos escuros de frente, promovendo um novo olhar sobre seu crescimento emocional adulto. Conclusão. A Repressão e um dos pilares principais na formação da teoria psicanalítica, possue uma articulação mental enigmática, embaraçada e abstrusa, o que levou Freud a constantes questionamentos e pesquisas. Inicialmente, observou o fenômeno como uma resistência presente no tratamento de suas pacientes histéricas, que mostravam relutância em falar, lembrar, repetir e agir. Levou tempo para ser possível localizar a origem dessa obstinação tenaz em resistir, até atinar para o reconhecimento dos obstáculos. As barreiras que pesavam no tratamento foram gradualmente caindo, onde foi elucidando os sintomas e perseguindo o núcleo patogênico que causava o sofrimento psíquico e a causa dos sintomas que suas clientes apresentavam. Em primeira instância, a repressão está certamente ligada a uma defesa patológica, contra uma experiência sexual prematura, na qual o ego rejeita uma determinada representação que gera os desconfortos, aflição e desassossego. Esse estranhamento do ego, circundado em relação à representação, ocorre devido à força repressora da moral. Havia, pois, certa incompatibilidade entre o desejo sexual que buscava se fazer presente, se expressar, e uma proibição moral que o suspendia e sustava. Nesse processo clinico, envidou tornar conscientes as vivências sexuais infantis e remover os sintomas. Destarte, houve avanços, não foram eficazes o suficiente para cancelar o que estava reprimido, o que continuava a se manifestar ciclicamente no paciente. Foi nesta análise, que considera trabalhar na possibilidade da existência de uma espécie de repressão primordial, anterior à repressão secundária. A repressão se instaura, devido à impossível defesa de um ego imaturo, à perturbação causada pela sexualidade na infância e às proibições éticas e morais associadas ao desenvolvimento cultural a que somos submetidos. Por esta razão, a sexualidade é um fator preponderante, pois não é possível evitar suas intercorrências prematuras e os traumas advindos da sua ação. A angústia provocada por esses elementos, se originam de respostas filogenéticas herdadas do DNA primitivo, introduzindo assim o protótipo dessa reação afetiva que todos abrigamos na experiência do nascimento. A repressão não desempenha necessariamente um papel mestre na estruturação das instâncias psíquicas, ela se funda quando o aparelho psíquico já está consolidado e formado. No entanto, acreditamos que a pesar dele, esse processo é crucial para a constituição do ser como sujeito da cultura civilizatória. Sabemos que todos os caminhos estão repletos de obstáculos, e lidar com a repressão é um desafio difícil, muitas vezes extemporâneo e atrasado. Por experiência própria, sei o quão árduo, duro e cansativo é poder conter e dominar ao longo da vida nossos impulsos ancestrais, muitas vezes desajuizados, insensatos e impacientes, cujas consequências podem nos cobrar um preço alto e provocar diversos desconfortos em diferentes níveis sociais, pessoais e familiares. Por isso, precisamos conviver dentro do nosso melhor possível, trabalhar esses ajustes, cientes, que também somos decretados naturalmente pela espécie exordial, onde inquietações e manifestações nos atravessam no decorrer da experiência de vida. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 — CNP 1199. Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 — CBP 2022130.













