Resultados de busca
190 resultados encontrados com uma busca vazia
- A Aliança Terapêutica.
“Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontram as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou” Heráclito. Por Dan Mena. No processo de construção da civilização e no desenvolvimento do indivíduo, é evidente, que cada movimento é dado em conjunto com elementos culturais, sociais e institucionais, pois a compreensão de mundo exterior é moldado por esses aspectos. Nesse contexto, gradualmente formamos nossa própria maneira de interpretar e pensar sobre nós, é a perspectiva global. O externo, tem o poder da transformação mediante diferentes ângulos, o que nos leva a refletir sobre vários temas, que abrem espaço para às necessárias transformações evolutivas. Como Heráclito afirmava; “Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou”. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Heráclito de Éfeso, desenvolveu este pensamento há mais de 2.500 anos, no século VI a. C. Seus estudos afirmam; que tudo é “vir a ser”, e que a mutação desse ''tudo'', é constante. Portanto, o real é sempre fruto da mudança, do combate entre opostos. Isso significa; que o desenvolvimento do sujeito envolve compreender e expandir suas fronteiras psíquicas, o que é explorado na psicoterapia por meio da ''aliança terapêutica'' e do contrato clínico. Boa leitura. O conceito de relação terapêutica tem ganho muita atenção e reconhecimento nas últimas décadas, não só na psicanálise como fundadora da técnica, mas em várias orientações teóricas e empíricas. Os estudos têm sustentado consistentemente sua importância, partindo de uma variedade de abordagens, que incluem; as cognitivo-comportamentais, sistêmicas, humanistas, interpessoais, familiares e de casais. Uma boa aliança nesse sentido, será caracterizada pela colaboração, respeito mútuo, confiança e empatia, associada a uma maior adesão ao tratamento do cliente-paciente, à melhoria dos sintomas e ao sucesso dos resultados. Isso implica estabelecer uma ligação emocional, um compromisso mútuo entre o terapeuta e o paciente na prossecução dos objetivos pretendidos. Ambos, vão empenhar-se para identificar, transpor e resolver queixas e problemas, bem como promover o crescimento pessoal e a mudança psicológica necessária. É um tema de debate no campo da psicanálise, tem sido abordado por vários teóricos ao longo do tempo, sua origem remonta aos escritos de Freud em 1913, onde ele próprio refere o assunto como um objetivo inicial do tratamento para estabelecer um vínculo. Um dos primeiros a salientar sua importância foi Ferenczi, que enfatizou o papel do analista como uma pessoa real no processo analítico. De acordo com ele; a confiança e a identificação do paciente com o analista serão indispensáveis para o tratamento. Já no entendimento de Freud; as noções de “expectativa de confiança” do paciente, em relação ao analista e a identificação parcial com ele são fundamentais para o processo. Segundo Bordin, esta abordagem conduziu a uma maior ênfase no desenvolvimento de competências terapêuticas como a empatia, a escuta ativa, comunicação eficaz e capacidade de estabelecer uma relação de confiança. Também levou à integração de abordagens disciplinares, reconhecendo que os aspectos comuns da relação terapêutica são fundamentais, independentemente da orientação teórica específica do profissional atuante. O vínculo da possível eliminação da queixa que se estabelece nas primeiras sessões é substancial, importante para facilitar a mudança e o bem-estar futuro do paciente. No início da terapia, é crucial que o terapeuta crie um ambiente acolhedor e seguro, onde ele(a) se sinta à vontade para expressar suas preocupações, distorções psíquicas e necessidades emocionais. Mostrar, portanto, um interesse inequívoco e genuíno em compreender a situação pela escuta ativa e empática, são competências essenciais nestes momentos iniciais e ao longo do processo. É importante que o profissional explique claramente em que consiste a metodologia aplicada, o que esperar dela, e que responda a perguntas e questionamentos. Isto ajuda a estabelecer expectativas realistas e a criar a confiança cardinal do rumo a ser seguido. Além disso, o terapeuta deve adaptar-se às necessidades e características individuais do contratante. Ser acessível, disponível, confiante, profissional, empático e compreensivo ajudar o mesmo(a) a sentir-se ouvido(a), compreendido(a), sem medo de ser julgado(a). Isto cria um espaço seguro para serem partilhadas experiências íntimas, privadas, guardadas a sete chaves e emocionalmente significativas. Por vezes, o sucesso que se exige da relação está intimamente congênere à qualidade dessa formação. Se o paciente não se sentir confortável ou não estabelecer confiança no trabalho a ser feito, provavelmente irá abandonar a terapia antes de atingir os resultados primários. Alguns elementos-chaves da comunicação incluem; Eficácia: A comunicação deve ser direta e compreensível, capaz de expressar ideias, emoções, pensamentos e preocupações eficientemente, sem ambiguidades. Transparência: Tanto o terapeuta quanto o paciente devem ser honestos e translúcidos na sua comunicação. Entusiasmo e escuta: Demonstrar um interesse genuíno pelo paciente e pela sua experiência de vida. A escuta ativa envolve doar atenção total, flutuante e concentrada, mostrando compreensão e empatia, pelo que o paciente está narrando verbalmente, quanto aquilo que não é dito, também atravessa a linguagem. Segurança: Criar um espaço livre de juízos de valor, inclusive da moral, onde o cliente possa se posicionar sem receio de um julgamento, crítica, ou que produza qualquer sensação de ridicularização e desconforto diante das exposições. Dentro deste quadro comunicativo, a associação terapêutica pode facilitar a exploração dos problemas do paciente de uma forma autêntica e colaborativa, trabalhando via pensamentos, emoções e comportamentos, encorajando o crescimento pessoal e a mudança. O terapeuta pode auxiliar o paciente significativamente a clarificar e compreender o que se espera alcançar no tratamento, estabelecendo objetivos realistas, adaptados às necessidades individuais de cada caso. Uma questão que tem sido objeto de debate é a simetria entre a aliança terapêutica e a transferência. Greenson defende a “aliança de trabalho” como um fenômeno mais racional que se desenvolve nessa união, facilitado pelo ''setting analítico''. Segundo ele, este sinal de transferência racional, dessexualizado, chamado de “rapport”, (rapport é a capacidade de entrar no mundo do ''outro'', transmitir o sentimento de ser capaz, como interlocutor de mediar esse espaço de criação, onde ambos, cliente-analista pronunciaram seu desejo de estabelecer um forte laço comum). Tal capacidade de ir totalmente de um mapa, para a geografia do outro, favorece sensivelmente o processo. Na Europa, a escola inglesa, não aprofundou sobre o tema, exceto Meltzer, que o relaciona com a “parte adulta” do paciente, propondo dar ênfase ao lado maduro dele(a), enquanto se interpretava o aspecto infantil do indivíduo. Etchegoyen, também deu o seu contributo ao diferenciar a experiência da ''transferência'', (a transferência, é um tipo de deslocamento dos conteúdos do inconsciente para o pré-consciente. Esse processo transferencial transcorre como uma projeção atualizada que o analisando faz na figura do analista. Pode ser lido também; como o deslocamento do sentido atribuído a pessoas do passado para o presente. Na teoria freudiana, um postulado requerido para a possível (cura), que, segundo ele, se refere a um ''know-how'', uma bagagem de experiência em que foi possível trabalhar com outra pessoa coligada a primeira, onde um exemplo podería ser;uma mãe e seu bebê. No entanto, em contrapartida, a transferência pertence ao recinto da repetição irracional do passado, que perturba a apreciação e avaliação contundente do presente. Muitos investigadores tentaram diferenciar os elementos mais racionais da aliança terapêutica, como a colaboração, trabalho em conjunto, pactos, etc, onde ditos componentes constituintes estão mais relacionados com a transferência, como o apoio, conexão, elo e firmeza. Estes últimos, são considerados episódios transferenciais, outorgados com um maior potencial de poder, gerando adesão e mudanças terapêuticas positivas. A sugestão trabalhada por Freud ao longo de toda a sua obra, também incluiu o estudo da aliança, ora utilizada como sinônimo de transferência sublimada, ora, como efeito do Ideal. A coexistência de efeitos transferenciais sugestivos no vínculo analítico, tem sido levantada por vários autores de grande importância, vários, têm explorado às dimensões narcísicas de todos os vínculos sociais, especialmente no analítico. Destarte a centralidade da relação no processo e nos resultados do tratamento tem sido destacada, se erguem indagações sobre a ideia de uma transferência livre de contaminações, interpretações livres de sugestão e da posição e lugar da imagem do terapeuta como um mero espelho. Esse elemento dual em processo, em que a impessoalidade do terapeuta pode ser, inclusive prejudicial ao seu papel como clínico. Safran e Muran destacam; que o desenvolvimento, resposta e solução de problemas através da aliança terapêutica que não se apresenta apenas permeadas de pré-requisitos para às transformações, mas são a própria essência do processo de ressignificação. Henry e Strupp argumentam; que as fronteiras entre a relação real, os efeitos de transferência e outros componentes inconscientes da aliança são débeis e fragmentados, que no seio dessa conexão há sempre presença de elementos sugestivos. A interiorização da experiência que ocorre no vínculo, com estes componentes reunidos atuando como agentes de transfiguração, conjuntamente com outros elementos que emergem do mesmo processo dependem do vínculo, influenciado por diferentes elementos ao nível transferencial e sugestivo. Vários aspectos favorecem a correspondência terapêutica; As ferramentas utilizadas para traduzir o conhecimento, numa estrutura que melhora a visão que o paciente tem da relação referenciada, inclui o ambiente onde tem lugar a atitude favorável do terapeuta. As técnicas terapêuticas são procedimentos verbais e não verbais, destinados a reduzir os sintomas e suas consequências, aplicadas de uma forma que demonstrem a capacidade de manter e perpetuar o tratamento. O timing, é à conformidade adequada entre a disponibilidade do paciente para a intervenção e se realizar interpretações adequadas no momento certo para otimizar os resultados da sessão. A atitude, implica uma obrigação por parte do terapeuta de ser respeitoso, gentil e atencioso, sincronizado com as realizações do paciente e não apenas com os seus problemas. O terapeuta deve ter uma sólida compreensão de como as impressões são formadas, como às pessoas reagem, e o que as motiva a iniciar, reestruturar e manter os seus efeitos. A imaginação é a capacidade de adaptar as intervenções às características únicas e específicas do paciente contribuem para a compreensão e sensibilidade ao trabalho. As competências envolvem a direção da terapia, assertividade, utilização de instrumentos de avaliação, incentivo à participação do paciente-cliente e a organização dessa informação coletada. Além disso, transmitir claramente o que se planeja extrair do contexto terapêutico. Estes aspectos contribuem para a criação de um ambiente favorável, fomentando uma relação de confiança e colaboração que deve e pode motivar os resultados desejados. Sendo um conceito central na psicoterapia, o laço-aliança, desempenha um papel crucial no progresso, evolução e prosperidade da investigação nesta esfera. Historicamente foi demonstrado e consolidado, que uma boa execução está associada a resultados, um guia de iluminação para o desdobramento da sua aplicação, quando realizado tecnicamente, por profissionais capacitados e experientes. É uma referência que nos ajuda a estabelecer determinadas diretrizes orientativas que respeitem o paciente é às práxis. No entanto, é importante ter em conta; que ditos preceitos podem variar em função das características individuais dos clientes, das patologias, sintomas, queixas, estilo pessoal, recursos implementados, linhas terapêuticas e métodos inerentes a cada linha profissional. A investigação contemporânea enriqueceu amplamente nossa compreensão da ''aliança terapêutica'', e quanto a suas variáveis, onde numerosos estudos científicos demonstraram sua sólida eficácia na melhoria dos resultados terapêuticos e suas aplicações atuais. Ao poema; Aliança Carlos Drummond de Andrade. Deitado no chão. Estátua, mesmo enrodilhada, viaja ou dorme, enquanto componho o que já de si repele arte de composição. O pé avança, encontrando a tepidez do seu corpo que está ausente e presente, consciente do que pressão vale em ternura. Mas viaja imóvel. Enquanto prossigo tecendo fios de nada, moldando potes de pura água, loucas estruturas do vago mais vago, vago. Oh que duro, duro, duro ofício de se exprimir! Já desisto de lavrar este país inconcluso, de rios informulados e geografia perplexa. Já soluço, já blasfemo e já irado me levanto, êle comigo. De um salto, decapitando seu sonho, eis que me segue. Percorro a passos largos, estreito jardim de formiga e de hera. E nada me segue de quanto venho reduzindo sem se deixar reduzir. O homem, produto de sombra. desejaria pactuar com a menor claridade. Em vão. Não há sol. Que importa? Segue-me, cego. Os dois vamos rumo de Lugar Algum, onde, afinal: encontrar! A dileta circunstância de um achado não perdido, visão de graça fortuita e ciência não ensinada, achei, achamos. Já volto e de uma bolsa invisível vou tirando uma cidade, uma flor, uma experiência, um colóquio de guerreiros, uma relação humana, uma negação da morte, vou arrumando esses bens em preto na face branca. De novo a meus pés. Estátua. Baixa os olhos. Mal respira. O sonho, colo cortado, se recompõe. Aqui estou, diz-lhe o sonho; que fazias? Não sei, responde-lhe; apenas fui ao capricho deste homem. Negócios de homem: por que assim os fazes tão teus? Que sei, murmura-lhe. E é tudo. Sono de agulha o penetra, separando-nos os dois. Mas se... Até a próxima, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- Carência Afetiva.
“A felicidade, a verdadeira felicidade, é uma qualidade interior. É um estado de espírito. Se a sua mente estiver em paz, serás feliz. Se a sua mente estiver em paz e não tiveres mais nada, podes ser feliz. Se tiveres tudo o que o mundo pode dar; prazer, posses, poder, mas não tiveres paz de espírito, não podes ser feliz”. Vaswani. Por Dan Mena. Muitas pessoas já se depararam com esse problema, que atinge homens e mulheres de todas as idades. Uma boa parte da população acredita que não está recebendo o amor necessário nas suas vidas. Esse é o sintoma caraterístico social da dependência emocional extrema, causado pela carência afetiva. O ser humano é um ser gregário que precisa viver em sociedade e experimentar o amor e afeto de outros. Desde o momento em que nascemos temos necessidade de cuidados, proteção e amor. A falta destes elementos pode levar à síndrome da “carência afetiva”. Este sentimento proporcionado pela mãe, pai e cuidadores é essencial para que o bebê se sinta seguro e possa crescer e se desenvolver adequadamente. O afeto contribui para a constituição psíquica, ajudando a formar a noção de um corpo simbólico unificado. Quando existem déficits emocionais significativos, podem surgir dificuldades na constituição subjetiva e na integração corporal do indivíduo. Isso pode se manifestar como fragmentação corporal ou falhas na elaboração dessas afinidades. Embora estas situações estejam mais relacionadas com a psicose, os défices emocionais condicionam e prejudicam o desenvolvimento de uma forma singular. Podemos definir a carência afetiva como uma situação em que a pessoa vivenciou uma ausência substancial de estima, como amor, carinho, atenção e cuidados, o que pode gerar rupturas psicológicas e psicossomáticas, vivenciadas ao longo da vida. Fruto dessa privação nos primeiros anos, é geralmente praticada pelos cuidadores de maneira inconsciente. Em suma, a confiança, segurança e autoestima estão intimamente relacionadas com dita recessão marcada durante os primeiros passos. Um indivíduo não aprende adequadamente a se valorizar se não tiver experimentado o amor e o reconhecimento dos outros, pelo que muitos destes padrões serão estabelecidos prematuramente, sendo posteriormente reproduzidos. Outro aspecto que desempenha um papel importante será a capacidade de confiar no ''outro'', se entregar a uma experiência amorosa, que será fortemente influenciada por esses traquejos de amor vivenciados no ambiente familiar. Boa leitura. O desenvolvimento da ''Teoria da Vinculação'' e o conceito de laço, estão ligados ao psicanalista britânico John Bowlby (1907 – 1990). As primeiras teorias sobre a importância do vínculo são descritas como a tendência que os seres humanos têm em procurar e alcançar a proximidade do ''Outro''. Bowlby afirmava, que esta inclinação já está inscrita no código genético, sendo utilizada tanto pelos bebês como pelos pais. A criança não pode se defender sozinha, precisando da atenção e da proximidade deles; por sua parte, os pais se sentem responsáveis (geralmente) pelo bem-estar do filho e aceitam suas exigências, mesmo que estas(es) lhes causem sentimentos negativos, como a fadiga da atenção permanente. Isto não significa necessariamente que a falta de afeto conduza a uma patologia. São muitos os fatores que nos influenciam no desenvolvimento, uma vez que somos dotados naturalmente de ferramentas próprias para confrontar influências do meio, sem esquecer, que as posições extremas conduzem geralmente a conflitos. De forma que, por exemplo; os cuidados excessivos e a superproteção também podem ter consequências problemáticas. “O amor na criança ou na mãe, ou em ambas, mais aumenta o bloqueio, em parte, por ser o amor inseparável do inseparável objeto amado, em parte por sentir que o amor desperta inveja e ciúmes em um terceiro objeto que está excluído. O papel desempenhado pelo amor pode passar despercebido, porque é obscurecido pelo ciúme, pela rivalidade e pelo ódio, mas o ódio não existiria se o amor não estivesse presente”. Bion. Não se sentir amado. Quando uma pessoa não se sente querida tem pensamentos negativos sobre si mesma(o), tende a se desqualificar internamente. Pensa que não é suficientemente boa para receber o amor dos outros e que não é importante para ninguém. Além disso, pode assumir que lhe faltam qualidades, que nada conseguiu na sua vida, entre outras crenças limitantes. Isto gera emoções como a angústia, tristeza e depressão, o que faz com que tenham dificuldade em observar seus próprios talentos e conquistar afetos espontaneamente. Como resultado, tendem a isolar-se e retrair-se, experimentam, portanto, uma grande instabilidade emocional. Por outro lado, se percebem incapazes de amar devido a falhas formativas, pois não aprenderam adequadamente tal exercício. Além disso, carregam dificuldades em conectar-se com os seus próprios sentimentos e, se os conseguem percepcionar, não sabem como manifestar. Por isso, preferem afastar essas pessoas próximas como uma forma de defesa e escolhem ficar sozinhas para evitar lidar com dita dificuldade. Entrar nesse confronto íntimo com o tema, significa ter que trabalhar e aumentar a autoconfiança, colocar limites à autocrítica e à própria desqualificação interna, reconhecendo, que estes também existem como sintomas naturais. Nos casos em que essa dor angustiante tenha origem na infância e não seja apenas superficial, é importante procurar ajuda, pois o trabalho introspectivo por si só pode não ser suficiente para um realinhamento desse aprendizado. Tipos de privação emocional. Carência nas crianças Manifesta-se já na idade precoce de três formas possíveis: Quando as crianças sofrem de privação emocional, podem apresentar diferentes respostas comportamentais. Vejamos algumas delas que se apresentam também nos adolescentes: Exigência afetiva contínua: Crianças dependentes procuram constantemente companhia e a sua autoestima depende da afeição dos outros. Precisam ser o centro das atenções para se sentirem valorizadas e podem ficar frustradas ou zangadas quando não recebem a atenção que acham que merecem. Respostas agressivas, oposição e rejeição. Algumas crianças exteriorizam sua dor interior por meio de comportamentos destrutivos e ofensivos. Podem apresentar comportamentos anti-sociais, desafiantes, insubordinados e autoritários. Nestes casos, é importante abordar a disciplina de uma forma positiva como auxílio. Indiferença e desinteresse: Crianças que atravessam este cenário, se isolam e escondem dentro de si próprias como forma de proteção. Se desligam do ambiente para evitar o sofrimento. Tendem a ser passivas, inativas, muito imaginativas, observadoras e analíticas, podem ter dificuldade em interagir socialmente e expressar naturalmente suas emoções. Na adolescência, se um indivíduo tiver sofrido privação emocional infantil, é provável que seus problemas emocionais se intensifiquem. Alguns comportamentos comuns entre os adolescentes que sofrem com o problema; Procurar atenção e validação via comportamentos perturbadores ou provocadores. Condutas autodestrutivas, como o consumo de drogas e práticas sexuais de risco. Problemas de autoestima e dificuldades em estabelecer relações saudáveis. Tendência para o evitamento e o isolamento social. Possíveis problemas com ilícitos e delinquência. Dificuldades em regular às emoções e gerir o stress. É importante abordar a privação emocional nas crianças e adolescentes, fornecendo apoio emocional, promovendo relações seguras e saudáveis que proporcionem um ambiente que fomente o desenvolvimento socio-emocional. Um ambiente familiar positivo se caracteriza por uma comunicação aberta e pela presença de carinho e apoio entre pais e filhos, como uma das mais importantes garantias do bem-estar psicossocial na adolescência; (Musitu e García, 2004). Opostamente, um ambiente familiar negativo, com conflitos e tensões frequentes, impede o bom desenvolvimento, aumenta a probabilidade de problemas disciplinares e comportamentais. Quanto maior for o envolvimento dos pais na vida dos filhos, menor será o risco de estes acabarem no mundo da droga ou da delinquência, melhores serão suas notas escolares e maior será sua autoestima. Glennon W. (2002). Deficiência afetiva em adultos; Se não for detectada e tratada a tempo, irá se manifestar na idade adulta, limitando a pessoa em muitos aspectos da sua vida. Assim, o indivíduo maduro com carências funcionais neste sentido, denota estilos comportamentais predominantes ou com uma combinação dos abaixo citados; Agressivo, pouco empático, autoritário e antissocial. Dependente, controlador, ciumento, acumulador. Medroso, submisso, com pouco contato social, muito imaginativo, com características e interesses peculiares. Deficiências afetivas no casal; A manifestação pode ser o resultado da falta de afeto de um ou de ambos os parceiros. Em muitos casos, estabelecem relações como casal, mas são incapazes de demonstrar sentimentos verdadeiros, devido às limitações pessoais que a sua própria experiência de infância lhes proporcionou. Noutros casos, a carência de afeto se configura pela relação obsessiva, dependente, controladora e ciumenta para com o parceiro(a), produto dessa insuficiência . Num terceiro caso, a pessoa emocionalmente privada de sentimentos, tratará o seu par de forma agressiva, desrespeitosa e pouco amorosa. Relações adultas são muitas vezes complexas, sobretudo quando procuramos aquele parceiro “ideal” ou acreditamos de forma imaginaria que finalmente alcançamos uma relação perfeita. Nesta procura, estabelecemos parâmetros irreais, pelos quais estamos dispostos a arriscar tudo, incluindo nossa estabilidade emocional (Sanchez, 2017). “Tudo o que um homem pode fazer, de fato, é dar o seu afeto a um único ser ou a alguns seres humanos”. Teilhard de Chardin. Tempo de mudanças. Tal como acontece com todos os comportamentos e padrões de conduta, também é possível inverter a falta de afeto e aprender a solicitar o mesmo para pessoas que são próximas. Isto pode ser extremamente enriquecedor para a saúde mental, pois, confiar nos outros e deixar-se cuidar por eles e positivo para nossa psique. Aqueles que decidem ultrapassar suas limitações e embarcar no caminho da recuperação, podem aprender a desenvolver um circuito protetor interno, aumentando a sua inteligência intrapessoal e adquirindo melhor compreensão das suas próprias necessidades. À medida que esta consciência é conquistada poderemos satisfazer essas ausências. Durante o processo terapêutico, são utilizados vários recursos para facilitar estas mudanças. Na análise, é proposto um trabalho em que se aprende a valorização individual, a estabelecer trocas adequadas de afeto e apoio, transformando pensamentos e emoções negativas para o bem. Tudo isto faz parte de um processo de autoconhecimento que nos permite curar e desenvolver relações mais saudáveis conosco e com os outros. O que são os afetos em psicanálise? A privação afetiva. Segundo o Dicionário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis (1968), o significado de Afeto é; “Palavra emprestada pela psicanálise à terminologia psicológica alemã, que designa qualquer estado afetivo, doloroso ou agradável, vago ou preciso, que se apresenta sob a forma de uma descarga emotiva.” As técnicas investigadas pela psicanalista Anna Freud em (1977), que faz relevantes observações no livro “Psicanálise e Desenvolvimento da criança”, exemplifica os aspectos afetivos da identificação, que vão; ''daquele que perde o objeto a àquele que é o objeto perdido''. Neste estudo com crianças que perderam seus pais na Segunda Guerra Mundial, observa, que elas experimentaram não tanto a tristeza da sua própria separação, como algo real, mas que foram intensamente atingidas pelo desejo profundo da mãe/pai estarem presentes, somado, aos comportamentos de desorganização, perda de pertences, deficit de atenção e dificuldade no estabelecimento de novos vínculos. Revelam seus estudos da primeira infância, que aquele que perde os ''objetos primários'' se perdeu a si próprio, isto é; a projeção de abandono, rejeição, solidão, experimentados com grande intensidade, seguido de emoções dolorosas que posteriormente as atribui aos objetos agora ausentes. Acrescenta; que as coisas mudam quando o enfraquecimento e a ruptura do laço afetivo são visíveis tanto na criança como nos pais:(…). ''Trabalhamos com crianças de todas as idades, cuja capacidade de amor objetal estava subdesenvolvida por razões internas ou externas, inatas ou adquiridas. Estes efeitos podem manifestar-se por sintomas de perambular precocemente, desempenho escolar ruim, etc. Nestes casos, a criança não acusa os outros nem se sente culpada”. (Ana Freud, 1977). Manifestações; Impulsividade extrapolada, que pode levar a comportamentos e reações agressivas. Diminuição da capacidade cognitiva, de atenção e concentração. Falta de desenvolvimento da linguagem e das competências sociais. Problemas em expressar e gerir os sentimentos, frieza em quase todas as situações. “Não é fácil lidar cientificamente com os sentimentos. Podemos tentar descrever os seus sinais fisiológicos. Quando isso não é possível — e receio que o sentimento oceânico também desafie tal caraterização — só se pode recorrer ao conteúdo das representações mais facilmente associadas ao sentimento”. Freud, “O mal-estar na cultura” (1929). Em uma carta de 1927 a Sigmund Freud, Rolland cunhou a frase "sentimento oceânico" para se referir a "uma sensação de 'eternidade', uma forma de expressão; "ser um com o mundo externo como um todo", inspirado no exemplo de Ramakrishna. Manifestações em função da idade. Tal síndrome se manifesta de forma diferente, consoante a idade. No entanto, as características essenciais estão presentes em todas as idades, embora sua expressão varie em função do grau de maturidade e do ambiente cultural e social. Tendo em conta a idade, estas são as manifestações em cada caso específico; Primeira infância. Corresponde aos bebês que choram muito, sorriem pouco e têm infecções frequentes. Idade pré-escolar. São apreensivos nas suas relações com os colegas e apresentam dificuldades de linguagem. Idade escolar. São frequentes às perturbações de aprendizagem, de concentração e atenção, acompanhados de sentimentos de inutilidade. A criança duvida de si própria, refere-se a si em termos negativos, têm a sensação de ser um incômodo para os outros. Pré-adolescência e adolescência. Tendem a ser impulsivos, ativos e preocupados com sua aparência. Ficam muito ansiosos e podem aparecer sintomas de dependência, automutilação e ansiedade. Idade adulta. Isolamento, confusão sobre metas e objetivos, bem como um sentimento frequente de fracasso ou conformismo. Não conseguem estabelecer relações saudáveis com os seus parceiros e focam no trabalho. A falta de afeto familiar tem consequências? Suas nuances… É importante ter em conta que estas perturbações podem variar em termos de gravidade e da forma de apresentação em cada indivíduo. Uma avaliação, um bom diagnóstico se faz necessário para compreender as causas subjacentes e determinar o tratamento adequado. As perturbações emocionais, como a irritabilidade, agressividade, instabilidade emocional, baixa autoestima, ansiedade e depressão, podem ser tratadas por psicoterapias, em que as emoções, pensamentos e comportamentos associados são abordados. A psicanálise, a terapia cognitivo-comportamental, a terapia de aceitação e compromisso, a interpessoal e outras terapêuticas podem ser eficazes na gestão destas. Comportamentais, como a conduta antissocial, isolamento, falta de assertividade, entre outras, também podem se beneficiar da terapia, especialmente no caso de crianças e adolescentes. A terapia comportamental, familiar e outras modalidades clínicas podem ajudar a abordar padrões disfuncionais e promover mudanças positivas. Perturbações psicossomáticas, envolvem a manifestação de sintomas físicos sem uma causa médica identificável, podem ser tratadas pela psicanálise, psicologia e cuidados médicos. A terapia psicossomática, o relaxamento e a gestão do stress são abordagens eficientes que ajudam a aliviar e sanar os sintomas. Problemas cognitivos, como o déficit de atenção, hiperatividade e às de processamento da informação, pode precisar de uma avaliação especializada. Consoante o diagnóstico, podem ser utilizadas abordagens terapêuticas específicas, como a terapia cognitivo-comportamental, a terapia ocupacional e, em alguns casos, a medicação. É essencial recordar que cada pessoa é única e requer uma abordagem personalizada, sejam psicossomáticas ou cognitivas. A intervenção precoce, o apoio emocional e o acesso a profissionais especializados são fundamentais para tratar e gerir. O processo de libertação da privação emocional, da cura de feridas profundas pode ser complexo e requer uma abordagem terapêutica compreensiva. O acompanhamento respeitoso, acolhedor da queixa e sensível do terapeuta é essencial para proporcionar um espaço seguro para o indivíduo explorar e processar experiências passadas. Através da terapia, podem ser identificadas crenças limitadoras e os seus padrões de pensamento negativos que se desenvolveram em resultado destas diligências psíquicas. Desafiar e substituir tais pensamentos por panoramas mais realistas, isto pode se tornar uma parte integrante do processo de mudança. Ao afirmar o potencial real do indivíduo e trabalhar na construção de uma autoimagem mais saudável, abrimos às portas para um potencial crescimento pessoal e na afirmação e reelaboração da autoestima. Incluir o trabalho corporal também pode ser valioso, uma vez que também armazena memórias. Técnicas como a respiração, relaxamento, ioga, movimento corporal consciente, libertam tensões e encorajam a uma maior integração mente-corpo. A implementação requer paciência, perseverança e coragem por parte do indivíduo. Corrigir e reestruturar para uma regeneração leva tempo e esforço, mas o resultado pode ser uma transformação pessoal significativa, uma nova capacidade de construir relacionamentos mais saudáveis. Como libertar-se deste mal? Existem estratégias que podem ajudar; Autoconsciência: Reserve algum tempo para refletir sobre si próprio e sobre sua história pessoal. Explore as experiências passadas que possam ter contribuído para essas condutas se firmarem, e como elas influenciaram seus padrões de relacionamento. O autoconhecimento será um guia para compreender melhor suas necessidades emocionais e trabalhar no seu desenvolvimento. Terapia individual: Procure a ajuda de um psicanalista, psicólogo ou terapeuta especializado em relacionamentos. Se permita introduzir novos padrões de comportamento, quebra de paradigmas, e a releitura de pensamentos que contribuam para trabalhar ditos desconfortos. Estabeleça limites saudáveis: Use fronteiras claras nas suas relações. Reconheça e respeite suas próprias necessidades e desejos e não tenha medo de os comunicar. Desenvolva uma rede de apoio: Procure cultivar relações significativas com amigos, familiares e pessoas que o(a) apoiem. Ter uma rede de compartilhamento forte, pode proporcionar amor, aceitação, é o afeto que necessita, diminuindo a dependência de uma única pessoa. Cultive o amor-próprio. Pratique o autocuidado. Aprenda a valorizar-se, a reconhecer suas realizações e se trate com bondade e respeito. Cultive uma relação positiva consigo próprio(a), reforçando sua autoestima, sem necessidade de validação externa. Aprenda a estar só: Trabalhe sua autonomia emocional e exercite o gostar da sua própria companhia, estar sozinho(a), sem se sentir solitário(a). Funde relações mais equilibradas e harmoniosas evitando a procura desesperada por atenção. Se enfrenta carências afetivas fixadas e vividas na fase infantil, que afetam hoje seu desempenho na vida adulta, procure ajuda profissional, nunca é tarde para apostar numa vida saudável e feliz. Ao poema; O sol lá fora esbanjando calor A alma cá dentro, isolada no frio Tenta disfarçar a falta de amor. É dia mas noite sou, um calafrio tem sido constante companhia. Faz falta um carinho, aconchego Mas isso às vezes me dá medo Nem sempre é sincero, verdadeiro Cansei de mercadejar afetos. Todos merecemos afagos no ego Que venham! Eu os acolho e espero. Há muito por eles anseio. Mas sem etiqueta de preço no meio! Quero um chamego com classe, de graça! Maria Dorta. Até a próxima, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- Complexo de Electra.
“O complexo de Electra pode influenciar como mulheres se relacionam com outras, planteiam rivalidades e procuram afirmar sua superioridade. Isso pode levar a terem relações complicadas com os homens, lutando com sua própria autoestima e lidando com dificuldades em aceitar os limites da realidade”. Jung. Por Dan Mena. No final do século XIX, Freud lançou as bases da psicanálise e revolucionou a psicologia ao introduzir o estudo do inconsciente. Dois dos seus conceitos fundamentais, a interpretação dos sonhos e o Complexo de Édipo, derivam da mitologia grega, este caso especificamente da fábula de Édipo, tal como apresentado na peça de Sófocles, “Édipo Rei”. Assim, Freud utilizou o mito de Édipo como metáfora para compreender os complexos processos psicológicos da dinâmica familiar que influenciam o desenvolvimento humano. O “Complexo de Édipo”, (que será abordado em outro artigo), se refere à fase do desenvolvimento psicossexual em que crianças sentem atração pelo progenitor do sexo oposto e rivalizam com o progenitor do mesmo sexo. Ao relacionar estes conceitos com a peça de Sófocles, Freud pôde então explorar temas universais como o desejo, conflito, trauma, sexualidade e as relações de família numa perspectiva psicanalítica global. A ideia de “complexo” foi assim imediatamente retomada pela psicanálise, que seria mais tarde produto do pensamento de Carl Jung, (aluno de Freud), que, a partir da descrição do complexo de Édipo, construiu o que para ele era o que acontecia com mulheres. A esta abordagem lhe deu o nome de “Complexo de Electra”. Recorre assim a outra história, a helênica; Electra (em grego antigo; Ἠλέκτρα Êléktra). “O complexo de Electra é uma fase importante no desenvolvimento psicossexual das meninas, onde se estabelecem laços e conflitos com a figura materna.”. Jung. No âmbito da literatura, cada personagem ganha vida enquanto encarna um ideal. Como tal, não só é construída com base na desejabilidade social, como também cumpre a função de ditar às diretrizes, segundo os quais os sujeitos que convoca devem ser abordados. O teatro grego não é exceção a esta premissa, e Electra é um exemplo disso. Não é por acaso que a história dela foi retomada por tantos autores historicamente. A mitologia grega tem um número infindável de mitos e lendas que ainda hoje permanecem na cultura popular e fazem parte das nossas vidas. Tanto Sófocles como Eurípides escreveram sobre Electra nas suas tragédias, ela era filha do Rei Agamémnon e da Rainha Clitemnestra. O Rei partira para participar na Guerra de Troia, mas antes de seguir sacrificou a sua filha Ifigénia em homenagem a Ártemis, para lhe dar sorte na sua aventura de conquista. Este foi um dos principais fatores que abriram a fúria da sua mulher contra ele. Quando Agamémnon regressou da batalha, voltou com Cassandra, a sua nova concubina. Cassandra era uma mulher com poderes proféticos, mas cujas revelações nunca foram levadas a sério, mesmo que algumas acabassem por se revelar verdadeiras. Ela viu que a sua vida e a de Agamémnon terminariam quando voltasse para a família dele, mas isso não impediu do que viria a acontecer. No seu regresso, ambos foram mortos por Clitemnestra e Egisto, o amante da Rainha. Entre estes mitos tão aclamados, psicanalistas, cientistas e psicólogos, encontraram uma forma de explicar o complexo comportamento humano e de poder ensinar ludicamente através da história, uma teoria ou um fato científico que nos ensinam mais sobre nós próprios, a humanidade. O complexo de ''Édipo e Electra'' derivam da sua história homônima grega, para explicar a relação entre as crianças e os seus pais numa fase precoce do desenvolvimento. Boa leitura. O termo cunhado pelo psicanalista Carl Jung em homenagem a Electra, personagem da mitologia grega que matou a mãe para evitar a morte do pai. Freud descreve o complexo como o desejo de uma filha pelo pai, pelo qual ela entra em competição com sua mãe. Segundo ele, a excitação inconsciente da filha de substituir a mãe como parceira sexual do pai, que está na base desta rivalidade. O conceito de “Complexo de Édipo” na sua teoria psicanalítica começa durante a fase fálica do desenvolvimento psicossexual, em que crianças experimentam desejos inconscientes de estar sexualmente com o progenitor do sexo oposto, no caso do complexo de Édipo, (o menino) em relação à mãe. Freud acreditava que estes interesses, desejos e conflitos edipianos eram uma parte natural do desenvolvimento psicossexual e a devida resolução adequada, parte crucial para um progresso psicológico saudável. ''O termo complexo é de origem junguiana, entendido como um conjunto de círculos de pensamentos e interesses dotados de poder afetivo''. (Alizade). A peça Hamlet, de Shakespeare é analisada sob várias perspectivas, alguns críticos encontraram paralelos com o Complexo de Édipo na relação de Hamlet com a sua mãe, a rainha Gertrudes. Hamlet vive uma profunda angústia e uma lide emocional quando descobre que sua mãe casou rapidamente com o seu tio após a morte do seu pai. Este conflito se manifesta nos seus pensamentos e ações ao longo da peça. Esta teoria, é muitas vezes erradamente atribuída a Freud, porque foi de fato ele que inventou o Complexo de Édipo, e muitas pessoas acreditam que tanto Édipo quanto Electra são opostos do mesmo tema. Mas, na verdade, Freud não aprovava que assim fossem vistos, defendia que ambos fenômenos tinham motivações e desenvolvimentos diferentes, onde uma comparação era absolutamente descabida. Foi Freud quem primeiro estudou esta relação e lhe deu o nome de “Édipo Feminino”. Ele explicou, que o desenvolvimento psicossexual das pessoas se processa em cinco fases: oral, anal, fálica, latente e genital. É durante a fase fálica que ocorre o Complexo de Electra, entre os 3 e os 6 anos. Neste período, em que as crianças de ambos os sexos estão obcecadas com seus genitais, é quando as meninas descobrem que não têm pênis, assumem assim que suas mães são responsáveis por essa falsa e suposta deficiência constitutiva. Esta inautêntica “castração” imaginada pela menina é conhecida na psicologia freudiana como “inveja do pênis”. Apenas como uma fase passageira, após qual a criança volta a se ordenar emocionalmente com a mãe para a ter e usar como modelo. O desejo de possuir um pênis, que, segundo Freud, as mulheres tanto anseiam, é compensado adiante e posteriormente ao amadurecimento pela gravidez. Fora do complexo de Electra, foi demonstrado clinicamente que mulheres que tiveram ou têm uma boa relação com seu pai, canalizam sua personalidade, ou mesmo, rastreiam por características físicas congêneres, proporcionais e compatíveis para o que seria ''supostamente'' o seu homem ''ideal''. Estes postulados não se referem apenas ao complexo de Electra, pois se trata de uma noção que provém da psicologia em geral, comprovada por estudos científicos que denotam este portento que afeta efetivamente homens e mulheres. Sobre o Complexo de Electra em psicanálise. Freud sublinhou o termo “Complexo de Édipo”, inspirado na personagem clássica para descrever relações amorosas que se estabelecem entre a criança e a sua mãe, e suas consequentes rivalidades, hostilidades e identificações. Dito fenômeno leva a criança a se identificar como pessoa sexualizada, a descobrir o seu próprio sexo e corpo e o dos seus pais, e por fim, procurar um objeto no qual depositar o seu afeto e amor. Neste contexto se funda uma tríade, onde a criança (menino), sente uma paixão pela mãe e hostilidade e ciúme pelo pai. Édipo simboliza o ser em busca da verdade a todo o custo, seguida de uma purificação expiatória. Ao expiar então sua tragédia, ele assume a dimensão ética e moral da situação. Da trama psicanalítica do Complexo de Édipo, emerge o conceito de transgressão, proibição e culpa como elementos estruturantes do ser. A manifestação deste hermético nas meninas é um pouco mais complicado do que no caso dos meninos. Ela dirige os seus primeiros sentimentos de culpa, personificação e amor à mãe, mas, à medida que cresce, reconhece a sua falta do falo, (pênis) assim, deve transferi-lo para o pai, (que possui tal), e identifica-se com a mãe, que lhe fornece o exemplo da mulher que será quando amadurecer e crescer. Esta posição é extremamente difícil para a menina, que se envolve numa relação altamente ambivalente com a mãe, uma vez que, por um lado, tem de assumir a mãe como um objeto desvalorizado para realizar essa troca pelo pai, e, por outro, tem de se identificar com esse mesmo objeto. “É aqui que reside o principal conflito. Um sentimento de paixão pelo pai e fortes tendências para manifestar hostilidade e ciúme em relação à mãe estão então presentes” (Jung). Assim, Freud dirá que; existe o ''Complexo de Édipo'' tanto no homem como na mulher e a diferenciação de gênero se estabelecerá não por uma mudança no nome do complexo, ''Édipo-Electra'', mas pela falta de paralelismo nos processos, dado o game psíquico diferente em que cada sexo entra em relação ao medo da fantasia de castração. Lacan faz sua contribuição com as seguintes conclusões; 1 - Num processo de aquisição de identidade, tanto o rapaz como a menina olham para si próprios no "espelho simbólico" (estádio do espelho é o instante mental onde a criança capta a percepção sobre sua unidade corpórea. Por meio de uma identificação com a imagem refletida no espelho e de outra pessoa, entende que ela também é unidade. Assim, cria mecanismos para compreender e avaliar que também possui imagem e identidade) proporcionado pela mãe, devido ao importante vínculo que com ela mantêm durante os primeiros anos de vida. 2 - Posteriormente, uma terceira dimensão intervém entre a relação mãe-filha, que é determinada pela figura paterna real e pelo ambiente sócio-cultural em que vivem. Forma-se então um laço profundo e um maior processo de socialização na menina. 3 - O desejo da criança pelo pai desaparece, substituindo assim o ''Eu Ideal'', (o eu ideal é uma instância imaginária, a imagem no espelho, uma projeção. Para que essa imagem se constitua, no entanto, é necessário que o olho, no esquema óptico, esteja em certa posição em relação ao espelho, ou seja, que o sujeito se situe em uma posição no simbólico) ligado a fantasias irreais, pelo ''Ideal do Eu'' (o ideal do eu pressupõe perfeição, valoração ao que caracteriza alguém como um ser ilibado, irreparável, sempre de natureza modelar. É, segundo Freud (1914), resultado do narcisismo dos pais. Antagônico ao ''eu ideal'', tem-se o ''ideal do eu'', influenciado por valores culturais, morais e críticos), que integra o princípio da realidade e a aceitação dos seus limites. A menina percebe que só poderá concretizar suas expectativas sentimentais quando se tornar adulta com outra figura masculina. Lacan desenvolveu a sua própria interpretação do complexo de Electra, que difere em certos aspectos das teorias de Freud e de outros psicanalistas, espelhando a sua abordagem sempre particular; “O complexo de Electra está enraizado na falta simbólica, no desejo de completude e na procura de reconhecimento e de amor em relação ao pai e a outros significantes no campo da linguagem.” Lacan. “O complexo de Electra envolve uma série de identificações e desidentificações ao longo do desenvolvimento da criança, moldando a sua subjetividade e a sua posição na ordem simbólica.” Lacan. Os sintomas do Complexo de Electra podem variar de menina para menina; Atração sexual pelo pai. Rivalidade com a mãe. Medo de perder o pai. Sentimentos de culpa e vergonha. Baixa autoestima. Problemas de relacionamento. Algumas dicas que podem ajudar com o embrulho; Oferecer muito amor e apoio. Incentivo a expressão dos sentimentos de forma saudável. Auxílio para desenvolver uma relação positiva com a mãe. Ensinar e falar sobre sexo e relacionamentos. Mostrar com palavras e atos um amor incondicional. Consequências para a vida adulta. A experiência de transitar por esse evento pode ter um impacto significativo no desenvolvimento da personalidade de uma mulher, influenciado pela natureza da sua relação com a figura materna. Às experiências com os pais têm repercussões na percepção da realidade e na formação de laços afetivos em outras áreas da vida. Na idade adulta, a mulher pode projetar inconscientemente nas suas relações interpessoais e amorosas certos conflitos vividos na infância, como a rivalidade e a competição com outras mulheres, ou o desejo constante de mostrar superioridade sobre elas. Além disso, suas relações com homens podem tornar-se complicadas, ao sofrer com efeitos de baixa autoestima e dificuldade em aceitar os limites da realidade, o que pode originar um isolamento. Se o complexo evoluir bem, o lado feminino se define claramente e se aceita a realidade, tomando consciência de que terá de encontrar outro amor. Caso contrário, pode surgir uma anomalia patológica que exige uma terapia e um tratamento psicoterapêutico que lhe permita aceitar a sua atração e atravessar dita distorção. É muito importante que a mulher consiga uma aceitação interior da sua feminilidade, para que sua imagem de mulher encontre o seu espaço real. Quando o desenvolvimento ocorre de forma saudável, aceitar a realidade é compreender que terá de procurar um amor diferente daquele do pai. É fundamental essa aceitação interna da identidade, desenvolvendo uma imagem de si própria autêntica, que não seja descontextualizada, e lhe permita encontrar o seu lugar no ''outro''. Através da terapia e do tratamento psicoterapêutico, o objetivo é auxiliar a mulher a explorar e a compreender suas emoções, desejos e conflitos subjacentes, promovendo uma maior consciência dos laços. Críticas ao Complexo de Electra. Criticado por alguns psicólogos, que argumentam que dita caracterização tem um tom sexista e que subestima a capacidade das mulheres para desenvolverem uma identidade feminina saudável, sem terem de competir com a mãe pelo amor do pai. Outros, apenas contrapõem que se trata de uma tese desatualizada, que não se aplica à sociedade moderna. Prosseguem aduzindo, que mulheres contemporâneas têm mais liberdade e oportunidades do que as do passado e que já não precisam de passar pelo Complexo de Electra para desenvolver uma identidade. Ouvidas às críticas que merecem seu lugar, (já que ouvimos todos), o Complexo de Electra continua para nos psicanalistas a ser um conceito importante na psicanálise e no trabalho clínico, contribuindo e ajudando a explicar o desenvolvimento da mulher e a importância da linguagem no desenvolvimento psíquico. Uma fase superada. No desenvolvimento das crianças, é fundamental aplicar a paciência e o apoio para superar seus conflitos internos, o que lhes permite crescer e amadurecer na formação e elaboração da sua própria personalidade. É importante evitar exagerar sobre suas ações ou ironizar meninas por terem ciúmes da mãe, ou por competirem pelo afeto do pai. Não é salutar entrar em jogos de rivalidade, garantindo o entendimento que seu pai é seu pai, e a ama profundamente. Por volta dos 7 anos, essa fase de antagonismo tende a diminuir, e as meninas passam a tomar a mãe como seu modelo de referência, a seguindo e imitando quando ela for presente na sua formação. No complexo de Electra, podem surgir sintomas limitantes, como a incapacidade de se apaixonar e amar, ter dificuldades na prática e exercício de intimidades com outras pessoas. Podem também, procurar parceiros com traços de caráter semelhantes aos do seu pai, buscando inconscientemente por um par que seja próximo ao genitor nos relacionamentos adultos, mesmo que esses perfis não correspondam às suas necessidades e exigências emocionais. Embora esses comportamentos sejam considerados normais na infância, na idade adulta podem se tornar patologias que requerem atenção e ajuda de profissionais para poder superá-los e levar a uma vida harmônica. Cada indivíduo é único, e pode vivenciar essas dinâmicas de forma diferente, sendo fundamental buscar ajuda profissional para lidar com quaisquer dificuldades emocionais ou padrões comportamentais que afetem a sua qualidade de vida. Ao poema. Ser criança. Tatiana Belinky “Ser criança é dureza- Todo mundo manda em mim- Se pergunto o motivo, Me respondem “porque sim”. Isso é falta de respeito, “Porque sim” não é resposta, Atitude autoritária Coisa que ninguém gosta! Adulto deve explicar Pra criança compreender Esses “podes” e “não podes”, Pra aceitar sem se ofender! Criança exige carinho, E sim! Consideração! Criança é gente, é pessoa, Não bicho de estimação!” *Do livro “Problemas da literatura infantil”. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- Prazer e Desprazer.
“É uma pena que a boca se cale ao dizer o mais íntimo”. Freud. Por Dan Mena. O principal motor do aparelho psíquico é o desejo, entendido como a energia psíquica que impulsiona nossas motivações e ações. No entanto, é importante ressaltar que Freud também observou que o desejo nem sempre opera exclusivamente em busca do prazer. O desejo estaria relacionado a um aumento da tensão do aparelho psíquico, enquanto o prazer estaria ligado a uma diminuição do mesmo. Todo o funcionamento mental é voltado para diminuir o desprazer e gerar o comprazimento, que seria regido pelo que Freud chamou de ''Princípio do Prazer''. Há um ponto de inflexão na obra de Freud, conhecido como a “virada da década de 1920”, um marco que assinala na teoria freudiana uma reformulação de algumas das questões sobre as quais ele trabalhou durante mais de duas décadas. O termo se refere a um período na sua obra, em que houve uma reavaliação de algumas das suas ideias e teorias anteriores. Durante este tempo, introduziu mudanças significativas na teoria psicanalítica, o que levou a um desenvolvimento e evolução do seu pensamento. São várias razões que contribuíram para dita releitura, como a crescente influência de outros psicanalistas como Jung, Rank e Ferenczi. Estes pensadores da psicanálise tinham perspectivas ligeiramente diferentes, o que desafiou Freud a reconsiderar suas próprias ideias. Nesta altura, ele estava numa fase em que refletia sobre o seu legado e o impacto do seu trabalho. Ao longo dos anos, Freud foi alvo de críticas, o que o levou a repensar alguns aspectos das suas convicções. Destarte, reviu a sua teoria da libido, sendo a energia psíquica associada aos impulsos sexuais, alargou o seu conceito de modo a incluir uma perspetiva mais ampla das motivações e desejos humanos, não se centrando apenas no sexual. Introduziu também a noção do “princípio do prazer”, segundo a qual a procura dele, e a evitação do desconforto provocado não se limitavam aos impulsos sexuais, mas abrangiam todos os tópicos da vida humana. Boa leitura. “O princípio do prazer é provocado por uma tensão desprazerosa, e assume uma direção tal que seu resultado final coincide com um rebaixamento dessa tensão, isto é, com uma evitação de desprazer ou uma produção de prazer”. Freud. O ''princípio do prazer e do desprazer'', como dois conceitos fundamentais na teoria psicanalítica descrevem às forças motivacionais que operam no inconsciente e influenciam o comportamento humano. Nossa tendência inata para procurar a recreação e evitar o desprazer, orienta muitas das ações que procuramos para a compensação das pulsões e suprir necessidades básicas. Nesta perspectiva operam no nosso inconsciente, ignorando contornos do mundo exterior, evitando conflitos e tensões psicológicas. Estes quereres nem sempre podem ser satisfeitos de imediato, devido aos enquadres e exigências morais, portanto, na medida que amadurecemos devemos aprendemos a adiar às recompensas cobiçadas e ficamos sujeitos a lidar com fragmentações e frustrações. Enfrentamos assim a realidade, num pêndulo de equilíbrio entre as premissas do princípio do prazer e as imposições da conjuntura pública, ambos, que permanecem em constante interação e podem gerar os conflitos. Neste complexo cenário, se apresenta a repressão e outros mecanismos de defesa, que serão ativados quando as gêneses do prazer se choquem com os confrontos da realidade, provocando uma tensão entre a procura de satisfação e a necessidade de adaptação ao meio social, cultural e legal. “O homem enérgico e vencedor é aquele que pelo próprio esforço consegue transformar em realidade seus castelos no ar. Quando este resultado não é atingido, seja por oposição do mundo exterior, seja por fraqueza do indivíduo, este se desprende da realidade, recolhendo-se onde pode gozar, isto é, ao seu mundo de fantasia, cujo conteúdo se transforma em sintoma”. Freud. Como vimos, a realidade externa imporá ao indivíduo restrições e exigências que tornem o frenesi imediato nem sempre possível. Estes princípios fundamentais de condutas influenciam na clínica, são a chave para a compreensão dos processos inconscientes. Podemos observar que visam manter a estabilidade na evitação do desprazer, no entanto, não se pode dizer que exerçam um domínio absoluto, reconhecendo que existem outras forças predominantes que se opõem. Esta impugnação psíquica deve-se a vários estados reguladores mentais que determinam o resultado e que nem sempre estão alinhados. “Todos os seres humanos ocultam a verdade nos assuntos sexuais”. Freud. Descobrindo o além. “Para Além do Princípio do Prazer” é uma obra escrita por Freud em 1920, na mesma, ele propõe uma revisão fundamental da sua teoria psicanalítica. O principal objetivo deste trabalho é quebrar o horizonte da noção tradicional e analisá-la como a principal força motriz dos nossos comportamentos. Neste trabalho, introduz o conceito de “pulsões de vida”, também conhecidos como “pulsões sexuais” ou “Eros”, onde defende que elas influênciam significativamente na motivação e no funcionamento psíquico. Para mais, aborda o fenômeno do ''trauma'' e da ''repetição compulsiva na psique'', introduzindo o sentido de “pulsões de morte”, também conhecidas como “pulsões destrutivas” ou “Thanatos”, estas coexistem com as ''pulsões de vida'', criando uma distensão inerente à psique. Examina então o conceito de ''compulsão à repetição'', no qual vai argumentar que temos uma tendência para repetir traumas passados, mesmo quando isso resulte em desprazer. Esta fixação ao cíclico está ligada à ''pulsão de morte'' e pode ser vista como uma tentativa inconsciente de dominar e controlar experiências traumáticas anteriores. A ideia do “destino das pulsões”, que sugere que podem ser desviadas e sublimadas para atividades socialmente aceitáveis, como a arte ou o trabalho intelectual, “a sublimação das pulsões”, vista como um mecanismo de sobrevivência e uma forma de canalizar a energia psíquica para fins construtivos. Nesta obra, “Para além do princípio do prazer”, encontramos um marco na teoria psicanalítica que alarga os conceitos psicanalíticos. A pluralidade do desejo. O desejo é inconsciente, designado pelo vocábulo alemão ''Wunsch'', cuja tradução é; anelo, aspiração. Ele não se mostra claramente e, como sabemos, tudo que e cifrado, ambíguo ou obscuro exige interpretação. O caráter complexo, impossível e indecifrável do termo na teoria psicanalítica não é puramente erótico, engloba um vasto leque de motivações e anseios que nos movem ao longo da vida. É esquivo, difícil de nomear e compreender plenamente, não é fácil de alcançar e pode mudar ou evoluir ao longo do tempo e suas devidas experiências. Pode parecer que queremos algo em particular, mas quando o conseguimos pode evoluir, se transformar e transpassar para outra coisa. Está relacionado com um sentimento de falta e incompletude, há sempre nele uma ausência angustiante, algo que desejamos ou procuramos, e mesmo quando pensamos que alcançamos o que queríamos pode ainda se fazer presente, nos empurrando para novos objetivos e direções. Esta abordagem utópica e paradoxal, implica que nunca somos os únicos donos das nossas ideias, mas competimos, conduzidos entre pensamentos ambivalentes, influenciados por forças inconscientes e processos psíquicos que escapam à nossa total compreensão e controle. O desejo nos impele a ação e ao agir, são movimentos no norte a um objeto e residem no inconsciente ligado a sinais infantis que nunca perdemos. Ele é o neurótico, que, na verdade, nada mais é do que a esperança sempre frustrada de uma satisfação absolutamente irrealizável, expectativa de encontro com o elo-objeto perdido. Então é impossível ser feliz? O contexto do ''princípio do prazer'' coloca um grande dilema onde sua realização é irrealizável, o que gera ainda mais infelicidade. Embora se tenha tentado abordar esta questão através do discurso científico, ela persiste como uma questão ética. Todas as afirmações e propostas estão ao serviço da manutenção do impossível enquanto tal. Isto é relevante para refletir sobre ser um fato concreto que sempre houve infelicidade e as coisas nunca foram perfeitamente como idealizadas por nós, seres humanos. A alternativa a esse irredutível “mal-estar na cultura” não se encontra na busca de um improvável inatingível, nem na renúncia ao desejo, menos ainda na libertinagem que, no final, também se revela uma armadilha. A leitura que Lacan faz da questão é esclarecedora e corrige pontos importantes, pois ele o transmuta pelo conceito de ''gozo'' e o diferencia do ''prazer'', como se este constituísse um para além daquele; diz que o gozo aponta para o excesso; “a dose faz o veneno”, diz Paracelso; (médico no século XVI e considerado o pai da toxicologia. Todos os elementos químicos, incluindo a água e oxigênio, podem ser danosos ao organismo quando em excesso. Esse princípio rege as concentrações máximas aceitáveis para quase todas as coisas que consumimos), por isso se reduz a não ser mais do que uma instância negativa que aparece fora da ordem significante, e se exterioriza pela nossa teimosia, seja nos vícios ou compulsões. É uma espécie de entropia, (a entropia é uma grandeza termodinâmica que mede o grau de desordem ou de aleatoriedade de um sistema físico), que indica a parte inutilizável da energia contida num sistema, que não pode ser utilizada para produzir trabalho. Lacan diz: “o gozo é aquilo que não serve para nada” (1985). É a ideia do prazer em excesso, sem limites, em exagero que produz estragos, e que leva à morte. (O termo ''gozo'' em psicanálise não se refere a um ''prazer'', mas sim a um mal para o sujeito, exatamente por implicar em sua destruição. Na transgressão o gozo consistiria no ultrapassamento das barreiras que fazem impedimento ao objeto, havendo a tentativa de encontrar a ''Coisa''). (a ''Coisa'', é uma representação mental de um objeto externo. Assim, não se fala em investimento de energia psíquica ou catexia em relação a objetos ''N'', mas sim em relação a suas representações na mente do indivíduo). (A ''catexia'' se mostra como uma força psíquica que se direciona a um determinado ''objeto'' por meio da representação mental. Nisso, concentramos nossa energia mental, focando em determina imagem, desde elementos reais e concretos até os idealizados, como às fantasias ou mesmo símbolos). “A vida, tal como nos é imposta, é pesada: ''traz muitas dores, desilusões e tarefas insolúveis. Para a suportar, não podemos prescindir de analgésicos”; analgésicos como o trabalho e a ciência, as distrações que dão valor à miséria, a arte e outras formas de fantasiar com ilusões sobre a realidade, as satisfações substitutivas que reduzem a miséria mediante deslocações libidinais na sua forma máxima, a sublimação, que só está ao alcance de alguns talentosos e dotados, e as substâncias intoxicantes para o corpo (álcool e outras drogas, que nos dessensibilizam para a miséria da nossa vida). “A cultura é construída sobre a renúncia ao impulso… se baseia em grande medida… na não satisfação… de pulsões poderosas”. “A renunciação às pulsões que nos é imposta do exterior, criam a consciência moral, que passa a exigir cada vez mais renúncias”. “O sentimento de culpa é a expressão do conflito da ambivalência, da eterna luta entre ''Eros'' e a pulsão de destruição ou de morte. E este conflito surge sempre que o ser humano é confrontado com o desafio de viver em conjunto”. A novidade é uma condição para a experiência do gozo e, a partir daí, resta a repetição na tentativa de retornar a um encontro satisfatório e único que ocorreu antes do princípio do prazer. O gozo se situa além do princípio do prazer, não é mais absoluto ou completo, mas se torna um objeto, um resto de gozo que persiste e se repete. Lacan argumenta que o valor da repetição é unir o gozo e o significante. Desta forma, a repetição permite que o gozo encontre o seu lugar na estrutura, quer como efeito da rejeição do discurso, quer como resultado da sua produção. Trata-se de um mecanismo de regulação automática. O princípio de prazer intervém principalmente na teoria psicanalítica em ligação com o princípio de realidade, onde as pulsões só procurariam se descarregar, se satisfazer pelas vias mais curtas e efetuar progressivamente a aprendizagem da realidade, sendo a única que permite através dos desvios e adiamentos necessários atingir a satisfação procurada. E o que o princípio de realidade nos oferece? O princípio da realidade se manifesta a partir da adaptação sociocultural e da formação dos conceitos morais e éticos contemporâneos, ou seja; passamos a entender o funcionamento da descarga pulsional, com isso, a respeitar os limites impostos, controlando a maneira como conduzimos nossos comportamentos sociais. Ela rege a função vital para fins adaptativos de sobrevivência e criação. É um processo secundário, que envolve a memória, linguagem, e o pensamento como instrumentos que nos põem em contato com a realidade, produto de um longo processo evolutivo, simbólico e cultural. Digamos então, que o mais importante que se passa no princípio da realidade é a ''sublimação do prazer'', ou seja, a energia livre, entrópica, é transformada em energia ligada, dirigida para objetivos específicos. O que se pode esperar é uma mudança na via da satisfação do prazer para o princípio de realidade; este último, ligado à pressão vital derivada da nossa renúncia aos sentimentos eróticos familiares, (Freud, 1989). (O termo ''Sublimierung'' (sublimação em português), foi introduzido por Freud no vocabulário psicanalítico para nomear um processo que explica as “atividades humanas sem qualquer relação aparente com a sexualidade, mas que encontrariam o seu elemento propulsor na força da pulsão sexual”, (Laplanche & Pontalis). Desde o início da nossa existência. O prazer está presente no homem como elemento constitutivo desde os primórdios da humanidade, se manifesta em diversas atividades como o sono, a vida intra-uterina, a satisfação das pulsões sexuais, a fantasia, imaginação, o jogo e o relaxamento. Se funda na economia de energia psíquica, onde visa estabelecer um equilíbrio entrópico, (entrópico; quantidade de desordem de um sistema), onde se evita a produção e dispersão excessiva de energia. Freud estabeleceu uma relação entre estes princípios e a pulsão de morte, uma vez que esta atividade psíquica pode ser perigosa para a autoafirmação do organismo face às dificuldades reais do mundo exterior, onde é necessário um dispêndio de energia para sobreviver. Por esta razão, ele propôs a existência de outro princípio, o da ''realidade'', que não substitui os outros. O princípio do prazer obterá prazer e evitar o desprazer, regulando vários processos psíquicos desde o início da nossa existência e está relacionado com a economia de energia psíquica. No entanto, para fazer face às exigências do mundo externo, é também necessária a presença do princípio de realidade, que tem em conta as restrições e exigências do meio externo. Diz Freud: “O sofrimento nos ameaça de três lados: do próprio corpo, que, condenado à decadência e ao aniquilamento, não pode sequer dispensar os sinais de alerta da dor e da angústia; do mundo externo, capaz de se encarnar em nós com forças destrutivas onipotentes e implacáveis; finalmente, das nossas relações com os outros seres humanos”. Perante a magnitude destes poderes; “não é de admirar que o ser humano já se considere feliz pelo simples fato de ter escapado ao infortúnio, ou de ter sobrevivido ao sofrimento (…) e que, em geral, o objetivo de evitar ele relegue para segundo plano o de alcançar o prazer”, (Freud, 1929). Na psicanálise defendemos que o sujeito busca constantemente transgredir as proibições impostas ao seu gozo, na tentativa de ir além do princípio do prazer. Quando ele(a), transgridem esses limites, a dor pode tomar o lugar da fala, e o sujeito pode perder o interesse pelo mundo exterior, recolhendo sua relevância e utilidade libidinal dos objetos de amor, deixando de amar enquanto sofre. ''Não sentimos prazer com o sofrimento em si, mas com a posição psíquica que adotamos, onde a aflição, agonia, angústia, ansiedade e tortura emocional cravaram seus efeitos colaterais''. Dan Mena. Ou seja; podemos encontrar satisfação atual, fixados em permanecer imaginariamente numa situação do passado, onde regredimos repetidamente para localizar uma suposta satisfação. Doenças que não são doenças. Por fim, no caso das doenças psicossomáticas, (doenças psicossomáticas podem ser consideradas uma modalidade de descarga de angústias que não podem ser pensadas e que advêm de experiências traumáticas sofridas em fases precoces do desenvolvimento do indivíduo). A ansiedade e a depressão são dois dos transtornos mais comuns, que podem gerar esse efeito. Inclusive, a depressão em idosos, crianças e adolescentes caracteriza-se como expressão sintomática, pelas doenças psicossomáticas, com dores e desordem de origem emocional. Existe um gozo específico desse órgão afetado, a pessoa encontra satisfação no corpo através da doença e da parte supostamente confrangida. A psicanálise oferece a possibilidade de elaborar estímulos psíquicos e somáticos, permitindo ao paciente-cliente, transcender a sua estrutura histérica, psicossomática e orgânica. No processo da análise a linguagem é a capacidade de falar e ser ouvido, que podem substituir o ''gozo'' envolvido na falsa doença, proporcionando uma forma de fruição através do diálogo e da livre expressão verbal. “Cuide de sua mente, seu corpo vai agradecer. Cuide do seu corpo, sua mente vai agradecer.” Hampton. A harmonia imprescindível. Como indivíduos aspiramos experimentar emoções agradáveis e aprendemos a evitar sentimentos negativos. Essa premissa da busca da felicidade continua e permanente, de obter exultação e intenso deleite, assim quanto, provocar a ausência completa de desprazer, é uma motivação fundamental para o traquejo da vida. Queremos como princípio sentir alegria, amor, carinho, reconhecimento, gratificação, receber afeto e satisfação nas nossas relações, no trabalho e nas atividades diárias. Dentro dessa convivência inevitável do prazer-desprazer, experimentamos uma variedade de emoções ao longo da vida, e, é normal conviver com altos e baixos que precisam ser sempre equalizados. Cada indivíduo tem sua própria definição de boa-aventurança, e molda em um possível contexto suas formas de embate e enfrentamento da insatisfação. Alguns de nós, pode encontrar entusiasmo em relações estáveis e amorosas, outras(os), esquadrinham sua realização via objetivos pessoais, filosóficos, econômicos, financeiros ou atividades esportivas e criativas. Pode ser útil explorar, refletir sobre nossas necessidades emocionais, definindo objetivos realistas, cultivando práticas saudáveis que promovam o bem-estar harmônico nessa inevitável oscilação ambivalente. “Quando o homem tem suas razões para viver e continuar vivendo, também reúne condições e razões para sofrer e continuar sofrendo”. (Winkelmann, 2006) Pensamento de Augusto Cury. Desejo que você Não tenha medo da vida, tenha medo de não vivê-la. Não há céu sem tempestades, nem caminhos sem acidentes. Só é digno do pódio quem usa as derrotas para alcançá-lo. Só é digno da sabedoria quem usa as lágrimas para irrigá-la. Os frágeis usam a força; os fortes, a inteligência. Seja um sonhador, mas una seus sonhos com disciplina, Pois sonhos sem disciplina produzem pessoas frustradas. Seja um debatedor de idéias. Lute pelo que você ama. Até breve, por Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- A Projeção.
“Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a uma melhor compreensão de nós mesmos.” Jung. Por Dan Mena. A vida é uma Projeção. Projetamos o tempo todo como uma forma de rejeitar para fora de si aquilo que somos, atribuir ao outro, algo que nos pertence. Qual o real motivo por trás desta conduta? Qual a nossa responsabilidade nas queixas que apresentamos sobre outros? Desafogar, aliviar, respirar, afastar, transferir, evitar sensações incômodas e desconfortáveis, comunicar algo do nível inconsciente. Na psicanálise freudiana clássica, a projeção é entendida como um mecanismo de defesa que consiste em atribuir a outras pessoas, objetos, situações, sentimentos, pensamentos ou características que na realidade pertencem ao próprio. É uma forma de transferir a responsabilidade dos nossos atos, afetos, desejos e sentimentos para o exterior, evitando o embate psíquico da sua aceitação. Embora este mecanismo possa ter uma função protetora, contribuindo para evitar sentimentos de culpa ou ansiedade, também pode levar a distorções na percepção da realidade. Ao projetarmos aspectos de nós próprios nos outros, perdemos a oportunidade de confrontar e compreender os nossos conflitos e emoções, o que, a longo prazo, pode ser prejudicial para o bem-estar psicológico. Como mecanismo de defesa natural que manterá o equilíbrio do indivíduo no seu ambiente, permite detectar e identificar traços de caráter, bem como problemas, frustrações, ilusões e fantasias. Este recurso de defesa, se manifesta na comunicação oral e está presente na verbalização do nosso discurso, tanto quanto no dizer do outro. Também notabilizamos isso no comportamento perante às pessoas que nos rodeiam, nas reações emocionais que refletem aspectos não reconhecidos, reputados, conceituados ou negados. Boa leitura. “Por alguma razão o ser humano tem a necessidade de se sentir melhor do que os outros e de projetar seus demônios”. Tutu. Ao estarmos atentos às nossas reações emocionais e aos comportamentos de terceiros, podemos obter pistas importantes sobre possíveis posições que estamos aplicando nesse traquejo. Se determinadas características dos outros nos incomodam e afetam significativamente, pode isso ser um claro sinal de que estamos espelhando nossas questões mal resolvidas. Freud salientou, que a projeção é um mecanismo inerente ao ser humano e argumenta estar presente em vários ângulos da vida quotidiana, como as superstições, a mitologia e o animismo, (animismo; cada uma das doutrinas que afirmam a existência da alma humana, considerada princípio e sustentação de todas as atividades orgânicas, especialmente das percepções, sentimentos e pensamentos). Na psicoterapia psicanalítica, o objetivo é explorar e compreender como a projeção funciona na mente, entrando no mundo interior do indivíduo para identificar e trabalhar com seus conteúdos inconscientes que são arremesados para o exterior. O objetivo é alcançar uma maior compreensão dos processos emocionais e psíquicos, o que pode levar a mudanças e melhoras no funcionamento mental. “Uma forma inteligente de nos livrar das situações é projetar nos outros, nosso próprio estado de espírito”. Kafka Embora Freud no tenha abordado extensivamente o conceito de projeção em seus trabalhos, mencionou o tema em algumas ocasiões ao discutir fenômenos psicológicos e mecanismos de defesa. Referencias; “A psicologia individual, em todo caso, nos ensina com a experiência que as pessoas jamais estão livres da tentação de atribuir seu próprio estado de coisas a outras pessoas” Freud, “Psicologia de Grupo e a Análise do Ego” (1921). “A projeção é o processo de expulsar nossas próprias tendências inaceitáveis, desejos ou emoções e atribuí-las a outras pessoas.” Freud, carta para Wilhelm Fliess, (1897). “A transferência é uma repetição e rememoração não só de um relacionamento real de infância, mas também de uma fantasia infantil e de uma projeção desses devaneios sobre a pessoa do médico.” Freud, “Observações sobre o Amor de Transferência”, (1915). Essas citações ilustram como ele reconheceu o artifício psicológico através do qual as pessoas atribuem a outros, seus próprios pensamentos, emoções ou traços inaceitáveis. É importante notar que a projeção é um dos muitos mecanismos de defesa que Freud explorou em sua teoria psicanalítica, ajudando a entender como as pessoas lidam com conflitos emocionais e psicológicos inconscientes. Lacan, anotações; Lacan também abordou o assunto em sua teoria psicanalítica, referindo-se a ela como um mecanismo fundamental na constituição do eu e na relação do sujeito com o mundo externo. “A projeção é a operação pela qual o sujeito desconhece, em sua ação, o que o move.” Lacan, “Agressividade em Psicanálise” (1948). “O sujeito projeta-se no outro, mas ele também se projeta na imagem que o outro tem dele.” Lacan, Seminário 4, “A Relação de Objeto” (1956 – 1957). “O eu se forma via uma série de identificações e projeções que permitem ao sujeito se relacionar com o mundo ao seu redor." Lacan, no Seminário 2, “O Eu na Teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise” (1954 – 1955). “A projeção é uma das formas através das quais o sujeito lida com seu próprio desejo e suas fantasias inconscientes, projetando-os em objetos externos.” Lacan, “O Seminário, Livro 6: O Desejo e sua Interpretação” (1958 – 1959). Lacan viu a projeção como um processo central na formação do eu e nas interações do sujeito com o mundo ao seu redor. Ele enfatizou que a projeção não é apenas uma forma de atribuir características a outros indivíduos, mas também uma maneira pela qual o sujeito lida com seu próprio desejo inconsciente e fantasias. Isso revela a importância da projeção na psicanálise lacaniana e como ela pode ser explorada para compreender o funcionamento psíquico do sujeito. Identificação projetiva. A expressão “identificação projetiva” é utilizada por Melanie Klein em “Notes on some schizoid mechanisms”. Klein, (1946). Os objetivos da identificação projetiva podem ser diversos: Se livrar de uma parte desagradável de si. Uma posse agressiva sobre o objeto. Esvaziamento e controle predominante do objeto. (Na psicanálise, um objeto é uma representação mental de um elemento externo. Assim, não se fala em investimento de energia psíquica ou catexia em relação a objetos tópicos e exteriores, mas sim em associação a suas representações na mente do indivíduo.) Um dos resultados é a identificação do objeto com a parte projetada do ''self'', (O self é descrito como instância psíquica fundamental que contém os elementos que compõem a personalidade, mas não incluem o núcleo da existência genuína do indivíduo. Assim, o protagonista da existência é o “ser interior”, e o self, atua como coadjuvante principal na formação da personalidade), daí deriva a expressão ''identificação projetiva". Nesses eventos não são apenas projetados impulsos. Também partes do self; por exemplo, a boca e o pênis do bebê, produtos do corpo; a urina e fezes, sendo disparados sob o objeto na fantasia. "A projeção das partes conduz à perseguição, engloba não só tais elementos, o ''Eu'', também percebe elas como boas. Às partes boas, podem ser projetadas para evitar a separação, para idealizar o objeto. Quando o ''Eu'' interior, é sentido como cheio de maldade, se lançam ao objeto para sua projeção. Isto leva a uma idealização excessiva do objeto e a uma desvalorização do ''Eu''. ''A identificação projetiva é a base das relações de objeto narcísicas”. “Quando citadas partes negativas são projetadas, o objeto se torna um elemento temido; quando as boas entram em ação, acontece uma dependência esquizoide particular do objeto: o qual deve ser controlado, visto que sua perda implicaria prescindir de uma parte de si próprio. Destarte, existe um medo de ser completamente controlado, porque o objeto contém uma parte valiosa do ''self''. O medo esquizoide de amar se funda no fato que, quando a identificação projetiva, como mecanismo principal do sentimento, significará projetar partes boas do self no objeto, se esgotando assim de si próprio, permanecendo na percepção de escravidão. Devido aos perigos envolvidos nas relações de objeto baseadas na identificação projetiva como personalidade desagregada, pode tentar fugir de todas suas relações de objeto. Isto explica que, durante muito tempo, se relacionou que pacientes narcísicos e esquizoides não desenvolviam nenhuma transferência. Outro autor que utiliza muito o conceito é Bion. No seu livro “Rethinking”; propõe — acompanhando Klein — que numa fase primitiva do desenvolvimento humano, a ausência de um objeto bom passa a ser vivida como um ataque de objetos maus. Tanto a dificuldade em simbolizar a diferença entre presença e ausência, como a utilização da identificação projetiva como mecanismo predominante, seriam dois indícios do funcionamento da parte psicótica da personalidade. Para entender melhor essa relação faremos uma compreensão de Klein, que afirma que todos desenvolvemos certos conjuntos de atitudes e defesas com às quais aprendemos a lidar com a ansiedade, o terror, o amor e o odio. Esses conjuntos, formam sua teoria do desenvolvimento, que inclui duas partes; a esquizo-paranoide e a depressiva. Descreve elas como formas de nos posicionarmos no mundo. Apesar de originadas nos primeiros estágios da vida, estamos sempre oscilando entre elas. Essas atuações, são mais do que um ciclo distinto, senão a sequência do desenvolvimento; ''Ansiedades e defesas, persistem ao Iongo da vida” (SEGAL, 1964). Segundo Klein, no momento do nascimento a criança tem ego suficiente para sentir ansiedade e empregar alguns mecanismos de defesa. A ação instintiva da pulsão de morte, juntamente com a frustração levam a raiva, desencadeiam o temor do aniquilamento, e por ser o ego ainda frágil tende a ser fragmentado em momentos de ansiedade. Esse processo convoca as defesas esquizo-paranoides. Dita cisão entre o bom e o mau e a proteção do ego primitivo, se conectam correlacionados com os temores infantis, tomando a forma de fantasias de perseguição. Nos anteparos e fantasias, o mundo e cindido entre objetos introjetados e idealizados. Tais sentimentos que provem da frustração são direcionados para alguma coisa ou alguém, ''objeto''. A identificação projetiva e sintomática da posição esquizo-paranoide, onde sentimentos agressivos e a raiva de origem desconhecidas ocorrem primariamente. ''A primeira forma de ansiedade, advinda de uma fonte externa pode ser encontrada na experiência do nascimento, momento em que às angústias sofridas são percebidas como um ataque'', (KLEIN, 1952). A prática da amamentação humana dá o início a primeira relação de ''objeto'' com a nossa mãe ou cuidadora, nessa fase evolutiva ela não e percebida como um objeto total. Ao contrário, o bebê reage a uma experiência de opostos, algo entre o bem e o mal. Por essa razão empírica, o seio da mãe será dividido entre o seio bom e o mau, satisfazendo e frustrando o bebê concomitantemente. Melanie Klein não usou explicitamente o termo “identificação projetiva” em sua obra, a expressão foi cunhada posteriormente por outros psicanalistas, como Wilfred Bion e Herbert Rosenfeld, que se basearam nas ideias de Klein e expandiram o conceito. A ênfase de Klein estava mais relacionada a mecanismos como a “identificação projetiva primitiva” e a “identificação introjetiva”, sendo conceitos diferentes, embora relacionados com os temas da projeção e da identificação. Posso trazer algumas citações das mais relevantes que tratam deles: “A identificação projetiva primitiva é o processo pelo qual a criança projeta partes indesejáveis de si mesma em objetos externos, sentindo-se invadida por essas partes, mas sem reconhecê-las como suas.” Klein, “Contribuições à Psicanálise” (1948). “A projeção é uma defesa usada pela criança para se livrar de partes indesejáveis de si mesma e colocá-las em objetos externos.” Klein, “Desenvolvimento da Criança” (1932). “A criança identifica-se com a mãe e com outros objetos significativos em seu ambiente, internalizando-os e formando seu próprio sentido de self a partir dessas identificações.” Klein, “Desenvolvimento da Criança” (1932). “A identificação introjetiva é o processo pelo qual a criança incorpora aspectos positivos e negativos do objeto em seu self, internalizando-os como parte de sua psique.” — Melanie Klein, “Contribuições à Psicanálise” (1948). Às anotações a diversos autores auxiliam a compreender diferentes abordagens sobre o que posso citar como o prisma central das diversas projeções. A ''Identificação Projetiva'' difere da ''Projeção'' (…) uma vez que esta última é um mecanismo que funciona desde o início da nossa vida, estruturando o psiquismo que se elabora “sobre um objeto”. A projetiva, por outro lado, tende a procurar o controle e possuir o objeto. Ela recai sobre o objeto, tendo uma intenção agressiva, o que significa que, se a sua intensidade for excessiva, pode ser desestruturante e negativa. A projeção é o analista. Bion, Segal, Rosenfeld chamam nossa atenção para as diferentes finalidades da identificação projetiva. O tema, antes descrito como um mecanismo de defesa apenas, ganhou força na clínica contemporânea, sendo redefinida como uma forma de comunicação que pode levar a mudanças psicológicas. Seria, portanto, o processo através do qual sentimentos pertinentes ao ''Eu'', como sendo ele(a) projetado no ''Outro'', figura do analista, criando um modo de ser entendido como integrado a uma parte do ''outro''. Esse elo que atua nas origens da empatia, quando usado exageradamente, pode levar à perda de identidade e nitidez das fronteiras entre o ''Eu'' e o ''Outro''. Enquanto o analista pode receber ditas projeções dos sentimentos e afetos conflitantes do seu paciente, pode processá-los, torná-los mais assimiláveis e disponíveis para sua reintegração ao paciente. Quando isso ocorre, o cliente ganha em sua capacidade de integrar amor e ódio, e um caminho para tolerar a consequente ambivalência da ansiedade decorrente desta incorporação. Neste ponto, a técnica psicanalítica passa a incluir uma disposição do terapeuta em receber as projeções, colocando sua mente a disposição, situando o analista em uma posição delicada. Ele pode ser tomado pelas identificações projetivas de tal modo que sua capacidade de pensar fique paralisada ou comprometida cognitivamente, formando um conluio inconsciente com a parte imatura da personalidade de seu analisado. ''No entanto, o êxito técnico consiste em conseguir se manter permeável e capaz de receber e compreender as proeminências do paciente sem ser totalmente tomado por elas''. (Zimerman, 1997). Projeção psicológica. Possibilidades; Atributos: quando projetamos nos outros traços e características próprias que não queremos reconhecer ou enfrentar. Afetivas: Quando sentimos algo em relação a uma pessoa que não desejamos admitir ou que, em segunda ordem, nem sequer temos plena consciência de que estamos sendo atravessados pelo sentimento. Deficiências: Quando queremos sobrecarregar outra pessoa com nossas próprias deficiências ou necessidades, porque não suportamos transportar elas. Wilfred Bion sobre o conceito de “identificação projetiva”, ele desenvolveu significativamente o tema em sua obra psicanalítica: “A identificação projetiva é uma das mais importantes das operações mentais ao permitir a comunicação. É através da identificação projetiva que os objetos se tornam conhecidos.” Bion, “Elementos da Psicanálise” (1963). “A identificação projetiva é uma maneira pela qual o paciente tenta colocar seus sentimentos e pensamentos no analista, forçando-o a experimentar o que ele próprio está sentindo.” Bion, “Aprendendo com a Experiência” (1962). "Na identificação projetiva, os pensamentos, fantasias e emoções do paciente são projetados no analista, que pode ser afetado por essas projeções sem estar ciente disso.” Bion, “Transformações” (1965). Bion considerou a matéria, como um mecanismo mental que desempenha um papel crucial na comunicação entre paciente e analista. Enfatizou como essa identificação pode afetar o analista e como ela é usada pelo paciente para lidar com ansiedades intoleráveis e experiências emocionais que não podem ser diretamente enfrentadas ou compreendidas. É um conceito fundamental na sua obra, que explorou extensivamente em sua teoria e prática psicanalítica. Por que a projeção é inconsciente? É fácil perceber quando as pessoas estão projetando, destarte ser mais difícil identificar esta tendência em nós próprios. Vejamos alguns sinais; Dificuldades em ser objetivo(a), ganhar perspectiva e dificuldade em se posicionar de forma empática no lugar do outro. Perceber espontânea e prontamente que a situação gerada ou sua reatividade é um padrão recorrente de quem projeta. Se perceber magoado(a), chateado(a), defensivo(a) ou sensível em relação a algo que alguém disse ou fez. Agir reativamente e se culpar posteriormente da ação em um breve lapso temporal. Diante destas situações. Podemos nos indagar? O comportamento que não me agrada nesta pessoa é algo que considero intolerável em mim? De que forma estou agindo em relação a esta pessoa? Que tipo de narrativas estou criando para mim, para me justificar sobre esta situação? Quem? Ou o quê? Que situação isso me faz lembrar? Avaliando sinceramente seus posicionamentos poderá fortalecer suas execuções, se tornando uma pessoa mais tolerante, adaptativa ao meio, complacente, compreensivo(a) e elástica nas vivências. Citações famosas que ajudam a entender o assunto. “Errar é humano, mas culpar os outros é ainda mais humano” Chaplin. “Se somos tão inclinados a julgar os outros, é porque tememos por nós mesmos.” Oscar Wilde. “Acusar os outros é ignorância, acusar-se a si próprio é compreender-se. Não acusar os outros nem a si próprio, é a verdadeira sabedoria” Epiceto. “São pouquíssimos os homens capazes de tolerar, nos outros, os defeitos que eles próprios possuem” Arthur Graf. A projeção é uma das defesas mais arcaicas e primitivas do ''Eu''; se o suposto observador não tem consciência das suas próprias emoções, pulsões ou impulsos, os transfere para agentes externos. ''Na projeção, ficamos alheios fantasiosamente a determinados atos, reduzindo imaginariamente a responsabilidade de si próprio pelas respectivas consequências e repercussões'' Dan Mena. Penso finalmente, que o problema não é tanto a projeção em si, mais a interseção que fazemos ao próprio desenvolvimento, quando negamos de alguma forma uma comunicação clara que outros possam constatar quanto o que conseguimos entregar de si. Embora isso possa levar a conflitos interpessoais com outras pessoas. No entanto, acredito que o pior cenário desta enunciação é que quanto mais nos projetamos, mais nos afastamos e distanciamos de nós próprios. Quanto mais me projeto, menos me reconheço, me esqueço de mim é da minha personalidade gradativamente, potencializo aquele(a) que não sou, porque estou a mercê, exposto e fragilizado(a) ao olhar para o exterior. Uma parte relevante da busca do equilíbrio emocional, bem-estar e felicidade, acampam no conhecimento de si, no reconhecimento das nossas aptidões, pontos fortes e também na observação das minhas fraquezas e fragilidades, como instrumento para saber gerenciar e regular minhas perspectivas particulares de mundo. Culpar com rigor e inclemência os outros, quando deveríamos apontar primeiramente para nós, sinalizando um entendimento sábio, que antes de julgarmos terceiros, talvez seja prudente voltar a lupa para nós próprios. O indivíduo que teme sua própria consciência, e se sente afetada(o), perturbada(o), pode encontrar suprassumo conforto na ideia de que são sempre os ''outros'' que me provocam. O psicanalista, psicólogo ou terapeuta, podem dar apoio neste processo de inversão, guiando-o(a) para o autoconhecimento, na medida que o mesmo(a) vai se conscientizando dos seus aspectos transferenciais, saindo da suposta posição de vítima e vitimizador(a), se responsabilizando efetivamente por seus feitos e condutas. Projetamos a todo momento, isso não é negativo nem positivo, depende das qualidades que arregimentamos, se estas são ou não negadas em si. Podem ser a base de qualidades incríveis e maravilhosas, como a empatia, amor, generosidade, doação, sentimentos românticos e carinhosos ou aqueles de índole negativa, como a raiva, inveja, odio, ganância, arrogância e o desprezo. A projeção inclui uma visão dupla, visto que ajuda muitas vezes às pessoas se apaixonarem, e também a se odiarem em outros momentos. Quanto a nós, analistas, é nossa formação, Freud enfatiza a necessidade de que aquele que cogita cuidar de outros, que se dedique com muito afinco ao cuidado de si, afinal; “nenhum psicanalista avança além do quanto permitem seus próprios complexos e resistências internas” (Freud, 1976). Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- O Estranho ou Infamiliar.
"Há uma beleza no estranho, que desafia a compreensão e cativa a imaginação." Allan Poe. Por Dan Mena. O que nos assusta, é ao mesmo tempo, nos mantém acordados à noite após assistirmos a um filme de terror? Se analisarmos uma lista de personagens típicos desse tema, podemos chegar a uma resposta fácil e óbvia a esta pergunta, temos medo de coisas e pessoas que não compreendemos. O conceito de estranho, também conhecido como "Unheimlich" em alemão, ocupa um lugar central na teoria psicanalítica. Foi Freud quem introduziu este termo no seu famoso ensaio, "O Estranho" de (1919), onde se aventurou nos recantos obscuros da mente humana. O ''sinistro'' ou ''não familiar'', se configura quando o familiar se torna excêntrico, extraordinário e incomum. Não é tanto a novidade que pode causa horror, mas a transformação de algo que considerávamos singular e incomum e vice-versa. Essa passagem de um para o outro, séria o que dá origem à angústia. O sinistro nesse lugar seria sempre o que encontramos, por assim dizer, desorientado, perdido, e quanto mais norteado estiver numa pessoa, menos seus acontecimentos lhe darão dita impressão. O impacto que causa no ser humano está relacionado com o conflito entre o conhecido e o desconhecido, entre o consciente e o inconsciente. Neste artigo, vou mergulhar nesse abismo do não familiar, analisando o seu significado e relevância no campo da vida sob a visão da psicanálise. Boa leitura. O conceito de “estranho” diz respeito àquilo que é desconhecido, insólito ou perturbador para o sujeito. Desperta um sentimento de estranheza ou perplexidade na pessoa, que se pode manifestar tanto internamente quanto externamente, em pensamentos, emoções, afetos, como; objetos e situações. Da forma como influência o ser humano é uma questão complexa, ligada a processos psíquicos inconscientes. Algumas das formas em que isso pode se manifestar são: Angústia: O estranho pode desencadear angústia, principalmente quando se apresenta como algo desconhecido ou ameaçador para o sujeito, surge como uma resposta ao inesperado ou ao imprevisível. Reconhecimento: Pode ativar processos de reconhecimento ou de identificação, por exemplo; gerar a necessidade de procurar referências conhecidas ou situações vinculadas para tentar dar sentido a situação que se apresenta. Sintomas: Leva à formação de sintomas, que podem surgir como mecanismos de defesa face ao perturbador, e funcionar como expressões simbólicas a conflitos internos. Relações: As relações do sujeito com os objetos, pessoas, coisas e situações, são fundamentais para o seu desenvolvimento psíquico e podem afetar este, gerando atração ou rejeição por eles. Desenvolvimento: A experiência com o estranho pode fazer parte do processo de desenvolvimento do sujeito. Na infância, os objetos ocultos podem ser uma fonte de curiosidade, contribuindo para a aprendizagem e construção da identidade. A origem do estranho. A palavra “Unheimlich” em alemão, se traduz como “o sinistro” ou “o estranho”, mas a sua tradução literal é “o não familiar”. Freud escolheu este termo precisamente por não ser algo completamente novo, mas sim, o que se torna inquietante devido à sua familiaridade e proximidade com o que é já conhecido. É de fato o retorno do reprimido, aquilo que emerge das profundezas do inconsciente e se manifesta ambivalente, gerando sentimentos de medo e atração ao mesmo tempo. É aquilo que perturba, que nos confronta no que supostamente sabemos, quebrando as barreiras entre o real e o imaginário como uma experiência psíquica, onde o familiar e o desconhecido se entrelaçam. O estranho e o inconsciente. O seu conceito caminha íntimo à noção de inconsciente, portanto, provém dele, essa região da mente que alberga os nossos desejos, impulsos e memórias reprimidas. Quando o recalcado vem à superfície, se manifesta de formas estranhas, desafiando a nossa compreensão racional. O jogo dialético é que se concentra no mesmo objeto familiar e inusitado ao mesmo tempo, escondido e não, onde se torna extraordinariamente complicado. O paradoxo consiste no fato que a fonte do pavor não seja estranha na sua oposição imediata ao familiar, mas na questão de que antes de emergir sob um aspecto ameaçador e perigoso, se remete para o usual, embora esteja na sombra. “Tudo o que deveria permanecer invisível, mas que se manifesta”, diz Schelling. A citação é um convite a explorar funduras da mente, ao reconhecer que há aspectos de nós próprios que podem estar dissimulados, mas que se manifestam na nossa experiência quotidiana. Ao trazer à luz o que permanece secreto, podemos obter uma imagem mais completa da nossa psique e trabalhar no sentido de uma maior autenticidade. Esta expressão reúne o ato de esquecer e o de recordar, visto que no objeto está simultaneamente presente e ausente. Aparece sempre que se perde a distância a que o objeto é normalmente mantido, porque o espaço existente perdeu sua dimensão habitual. No quotidiano, terão coexistido momentos em que parecia que o sinistro se afastava de nós, mas cada vez que reaparece, anuncia uma progressiva alienação dos sujeitos que tentam manter a sua percepção fiel ao que outrora nos era trivial. Assim, nesta alternância, se insinuam dinâmicas imbricadas da memória. No meio deste buraco negro de desinformação, imerso no inominável, na ameaça da sombra que se materializa diariamente, sem mostrar a cara, o exterior começa a se confundir com o interior e a atividade perceptiva. Acontece assim, cada vez mais modelada pela experiência do espelho, na ausência de outro que responda, que não se oculte. É a projeção dos sujeitos que tentam se reconstruir na sua realidade, mas, com mais uma volta da espiral apavorante, que projetado, regressa ao seu lugar de origem, e aos conteúdos do fantasmagórico. O conto de fadas e o extraordinário. Freud recorreu à análise dos contos de fadas e dos mitos para explorar o conceito. No seu ensaio “O Sinistro”, analisou o conto de fadas, “A Mão Cortada” dos Irmãos Grimm. Neste conto, a mão decepada de um homem morto volta a assombrar o protagonista e argumenta que dita representa algo simbólico ligado à castração, um medo, e, ao mesmo tempo, um desejo reprimido na psique masculina. Analisou também o mito de Édipo e o seu complexo, em que um filho deseja inconscientemente matar o pai e casar com a mãe. Mitos e contos de fadas revelam como o estranho se entrelaça com os nossos desejos mais reprimidos, criando uma amálgama entrelaçada de emoções complexas. Em “O homem da areia”, (“Der Sandmann”), o famoso conto de Hoffmann escrito em 1816, aborda o tema do estranho e do medo do desconhecido. O conto é frequentemente citado por Freud no seu ensaio; “Das Unheimliche” como um exemplo clássico do conceito psicanalítico do “infamiliar”, (Unheimlich). A história segue o protagonista, Natanael, um jovem estudante atormentado por pesadelos e medos relacionados com um homem misterioso chamado Coppelius, como numa viagem aos abismos da psique. A história começa com a infância de Natanael, o protagonista, atormentado por uma figura sinistra chamada “Sandman”, sua mãe e a sua cuidadora lhe contam histórias aterradoras sobre este ser que vem buscar crianças desobedientes. Esse medo persiste em Natanael até a idade adulta, quando ele se muda para a cidade grande para estudar. Na sua nova cidade, Natanael conhece o misterioso Coppelius, um comerciante de óculos, e associa imediatamente este homem sombrio ao ''Sandman'' da sua infância. Natanael desenvolve uma fixação por Coppelius e acredita que ele está envolvido em sinistras práticas alquímicas e mecânicas quando também se apaixona por Clara, uma jovem de personalidade gentil e afável. A sua obsessão por Coppelius cresce e ele começa a acreditar que ela está de alguma forma ligada a este estranho homem, que representa uma ameaça à sua relação. No entanto, o leitor depressa descobre que é na realidade um autômato criado por Coppelius. À medida que a história avança, a linha entre realidade e fantasia se tornam cada vez mais tênues para Natanael. Ele mergulha num estado de paranoia e medo, em que sua mente é dominada por visões e delírios. Como leitores, embarcamos nesta viagem angustiante pelos abismos da psique humana, sem uma distinção clara entre o real e o imaginário. A narrativa culmina num confronto trágico entre Natanael, Coppelius e Olímpia, com resultados devastadores para todos os personagens envolvidos. É uma história rica em simbolismos e significados psicológicos. Explora temas como a dualidade da mente humana, a luta entre a razão e a loucura, o desejo e a obsessão, e os terrores ocultos que podem residir no nosso subconsciente. Através desta obra-prima, Hoffmann criou uma atmosfera de suspense e horror psicológico, que continua a intrigar e perturbar os leitores até os tempos atuais. Não é apenas um conto gótico memorável, é uma narrativa complexa, entranhada, que explora os temas do medo, loucura e ambiguidade. O Duplo. Outro aspecto interessante do conceito de estranho é a figura do “duplo”, em que uma pessoa é confrontada com uma versão de si própria que é subversiva e ameaçadora. Conhecido como o “Doppelgänger”, tem sido um tema recorrente na literatura e na arte, se referindo a uma réplica de uma pessoa. A ideia de ter um duplo que se assemelha a nós, mas, ao mesmo tempo, é estranho e distorcido, se relaciona com a luta entre o ego e o inconsciente, onde os desejos reprimidos e os conflitos interiores emergem na consciência. Trata-se sobretudo de alucinações visuais, onde o sujeito transfere suas próprias ilusões cinestésicas para o seu duplo. Esta experiência, que provoca horror, está relacionada com o sentimento de mal-estar e estranheza que pode surgir quando uma pessoa é confrontada com uma figura que se parece com ela. Como figura duplicada, pode representar uma projeção dos medos e ansiedades interiores do indivíduo, ou pode simbolizar a presença de uma força sobrenatural. Na literatura, o tema foi explorado por vários escritores, como Edgar Allan Poe. Está também presente na obra de Dostoiévski, em “O Jogador”, onde o protagonista confronta o seu duplo num jogo de cartas que representa o seu vício no jogo e a forja da sua autodestruição. Também pode ser encontrada em filmes de terror, onde as personagens enfrentam seus piores medos e traumas pessoais. Repressão. Freud argumentou que a estranheza surge quando algo que foi reprimido no inconsciente penetra na consciência. A repressão é um mecanismo de defesa psicológica que impede que certos desejos ou impulsos cheguem à consciência e, em vez disso, permaneçam escondidos no inconsciente. No entanto, por vezes, estes conteúdos reprimidos podem se manifestar indiretamente através do estranho, desafiando a barreira que separa o consciente do inconsciente. Quando ocorre a repressão, o material reprimido torna-se anormal, sendo vivido como alheio a si próprio. O sujeito pode sentir que esses pensamentos não provêm do seu próprio eu consciente, mas parecem vir de uma fonte externa. Esta sensação de estranheza pode incluir pesadelos, sonhos estranhos, fantasias ou na percepção de objetos e situações do quotidiano que assumem um tom inquietante. A Fantasia. A ligação entre o estranho e a fantasia é uma atividade mental poderosa com origem no inconsciente e se manifesta nos nossos pensamentos e sonhos. Está intrinsecamente ligada às nossas imaginações, que podem surgir na forma de fuga à realidade ou para dar sentido a experiências traumáticas. Fornecem pistas para desvendar aspectos dos desejos inconscientes, uma forma de enfrentar e lidar com conflitos interiores, criando cenários imaginários, onde o sujeito pode sentir que tem algum controle sobre situações que, de outra forma, poderiam ser esmagadoras e incompreensíveis. No entanto, podem conduzir a uma maior alienação e confusão quando a fantasia se torna dissociada da realidade. Arte e literatura. No mundo da arte e da literatura, a fantasia é representada e utilizada como um recurso criativo, desde os surrealistas aos contos de terror e às pinturas enigmáticas, terreno fértil para a sua expressão. Artistas e escritores a utilizaram e usam como ferramenta para explorar o desconhecido e questionar às normas sociais e culturais estabelecidas. Da literatura ao cinema, as artes visuais, os artistas usam o estranho como um expediente para provocar emoções, despertar a imaginação e explorar os limites do conhecido. Escritores como Franz Kafka e Edgar Allan Poe, criaram obras que evocam sua utilização. Suas histórias apresentam frequentemente mundos grotescos e absurdos, onde o familiar se transforma no incógnito. No cinema, diretores como David Lynch e Stanley Kubrick utilizaram a estética do seu papel para criar filmes que desafiam a lógica e o senso comum. Filmes como “Mulholland Drive” e “2001 Uma Odisseia no Espaço”, apresentam narrativas enigmáticas e cenas desconcertantes que geram uma sensação de estranheza no público Nas artes visuais, artistas como Salvador Dalí e René Magritte, exploraram o surrealismo e a metafísica para representar mundos oníricos e fantásticos que desafiam a realidade e jogam com a percepção. Já na literatura gótica, o estranho aparece através da presença de elementos sobrenaturais, fantasmas e criaturas monstruosas que criam uma atmosfera de mistério e terror. Nos seus trabalhos, Edgar Allan Poe, explora temas como a loucura, a morte e o medo do desconhecido. No realismo mágico, temos a mistura do quotidiano com o fantástico, criando uma atmosfera irreal, onde o escritor Gabriel García Márquez é um dos expoentes mais proeminentes deste gênero, com obras como “Cem Anos de Solidão”, que fundem o real e o mágico magistralmente. O mundo social e político. O conceito de estúrdio pode também ser aplicado ao domínio social e político. Em sociedades cada vez mais diversificadas e globalizadas, os indivíduos podem ser confrontados com o estranho sob a forma de cultura, valores e crenças diferentes das suas. Esta experiência, que pode gerar medo, rejeição ou xenofobia, é uma oportunidade para a compreensão e abertura ao incógnito. Na esfera política, se manifesta com o aparecimento de líderes carismáticos e movimentos populistas que prometem soluções simples e rápidas para problemas sociais complexos. Estes líderes e suas ideologias, podem ser vistos como ameaçadores, mas também podem atrair seguidores que procuram respostas para um mundo cada vez mais abstruso. Como uma noção psíquica multifacetada, tem sido explorada a partir de diversas perspectivas nos domínios da psicanálise, da arte, da cultura e da sociedade, representando uma intersecção entre o familiar e o não familiar, o conhecido e o inquietante. A sua presença evoca diversas emoções e reações no indivíduo, oferece uma janela de oportunidades para a exploração e compreensão de aspectos reprimidos da mente. Desde Freud, até aos psicanalistas contemporâneos, continua a ser um tema de interesse e profunda reflexão. Clínica psicanalítica. Psicanalistas somos frequentemente confrontados com pacientes cujas histórias e sonhos estão repletos de elementos estranhos. Neste ponto, trabalhamos com esse conjunto no processo terapêutico, como forma de interpretação dos conteúdos inconscientes, ajudando nossos clientes a enfrentar e compreender seus desejos e conflitos. “O termo [Unheimlich] se refere, antes de tudo, ao que deveria ter permanecido secreto, mas se tornou manifesto”. Freud sublinha, que o não familiar está relacionado com algo que estava escondido, mas que se torna evidente e visível, conectado a conteúdos reprimidos do inconsciente que emergem para a consciência perturbadoramente, evocando sentimentos de ansiedade. A este respeito, gostaria de acrescentar uma observação que me parece decisiva para a questão do caráter daquilo a que se nomeou “Unheimlich”. Não é o medo do desconhecido ou do que é novo para nós, mas, daquilo que é já familiar ao sujeito O ''não familiar'' não está relacionado com o medo do desconhecido, mas com o medo do conhecido em si, que toma o seu lugar. “O Inquietante, é esse tipo de coisa que nos leva de volta ao conhecido, há muito esquecido e agora estranho.” Freud, em “O estranho” (1919). “A palavra ''Heimlich'' [familiar] é contrastada com seu oposto, ''Unheimlich'' [não familiar]; assim, ele não significa somente aquilo que é familiar, mas também aquilo que é desconhecido e secreto.” Freud, (1919). Ressalta a natureza ambivalente do infamiliar, que pode envolver tanto elementos familiares como desconhecidos. O fascinante e enigmático mundo do estranho na psicanálise, desde a sua origem no inconsciente até à sua manifestação na fantasia e na arte, representa os aspectos mais obscuros da mente humana. Mediante seu estudo, podemos mergulhar nos recessos da psique e descobrir os mistérios que se encontram sob a superfície da consciência. A clínica psicanalítica é apresentada como um desafio e uma oportunidade para compreender e curar as feridas psíquicas do passado, que convidam a explorar nossa própria complexidade, abraçando a ambivalência que caracteriza a espécie a sua própria existência. O estranho segundo Lacan. No vasto campo da psicanálise, para Lacan, o estranho não se limita simplesmente ao insólito, mas remete a um conceito mais profundo que envolve a relação entre o sujeito e o seu inconsciente. Está intrinsecamente ligado a ele e às suas manifestações no domínio dos pensamentos, desejos e memórias reprimidas que influenciam nossos pensamentos e comportamentos, sem que tenhamos consciência disso. O estranho, surge quando estes conteúdos irrompem na consciência e se manifestam mediante atos falhos, sonhos, sintomas neuróticos e fantasias. Lacan defende, que o estranho é uma indicação da presença ativa do inconsciente na vida psíquica do sujeito e da sua capacidade de influenciar suas ações. No “Outro”, caracteriza a figura externa que influencia a formação da identidade, dita surge, enquanto o sujeito encontra no “Outro” um enigma ou algo que não consegue compreender totalmente. O gozo. Lacan diferencia a relação de gozo com prazer, onde o primeiro se refere à satisfação de desejos conscientes e o segundo à busca insaciável de satisfação que vem do inconsciente. O estranho surge quando o sujeito é confrontado com a experiência do gozo na sua forma mais perturbadora, ou seja, quando este se torna um caos da vida psíquica. Esta experiência de gozo desenfreado e descontrolado pode se manifestar via sintomas neuróticos, adições e comportamentos compulsivos. A experiência do real e da cultura. A estranheza está também ligada ao conceito do ''Real'', aquilo que escapa à simbolização e à representação, que é ininteligível e indescritível na experiência humana. Podem ser experienciados quando o sujeito é confrontado com algo que não pode ser totalmente assimilado ou articulado mediante palavras e conceitos simbólicos. Esta experiência, pode ser desconcertante e angustiante, mas é importante para os limites da compreensão abrirem novas fronteiras de conhecimento. Desde sua ligação ao inconsciente, e até à sua relação com o “Outro”, o gozo, desafia ao questionar nossas certezas, abrindo pasagem para o desconhecido que nos habita e enriquece nossa compreensão da subjetividade enigmática. Pode ser aplicado à análise da cultura e da sociedade, que está cheia de elementos estranhos, desafiando às normas sociais estabelecidas. Estes elementos podem se manifestar em mitos, rituais, obras de arte e práticas desviadas do familiar, provocando um impacto na psique individual e coletiva, gerando tanto fascínio quanto medo. Citações; “O que Freud chamou de ''Unheimlich'', o infamiliar, é aquilo que deveria ter permanecido secreto, mas tornou-se manifesto.” Lacan, em “O Seminário, Livro 17: O Avesso da Psicanálise” (1969 – 1970). Lacan recorre à ideia de “infamiliar” de Freud, sublinhando que se trata de algo que estava reprimido, mas que agora se tornou manifesto. “A experiência analítica permite que a dimensão do infamiliar seja explorada, revelando os aspectos ocultos e reprimidos do sujeito.” em O Seminário, Livro 20: (1972 – 1973). A análise é um processo que pode revisitar o não familiar. “O infamiliar é aquilo que escapa à nossa compreensão consciente, mas que influencia inconscientemente os nossos pensamentos e ações''. “O Seminário, Livro 2: ''O Eu na Teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise”, (1954 – 1955). Nesta citação, Lacan sublinha que algo está para além da nossa compreensão consciente, mas tem um impacto poderoso no nosso psiquismo. “O infamiliar é uma parte fundamental do inconsciente, constituído por desejos reprimidos, fantasias e memórias que afetam nosso comportamento sem o nosso conhecimento consciente”. Em “O Seminário, Livro 11: ''Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise”, (1964). O inconsciente é composto por conteúdos reprimidos que exercem uma influência significativa nas nossas vidas. Estes desejos e fantasias ocultos podem manifestar-se de formas desconhecidas para nós, afetando as nossas escolhas. Na obra de Lacan, alusões ao tema podem ser mais sutis e abertas a diferentes interpretações, uma vez que a sua abordagem é mais estrutural e simbólica do que a de Freud. Lacan se centra em questões de linguagem, na estrutura do inconsciente e na subjetividade, o que pode levar a uma compreensão mais abstrata e ampla do que constitui o estranho. Durante o processo de análise, os pacientes podem sentir emoções e pensamentos perturbadores, aquilo a que Freud chamou de “resistências”. Estas, podem advir como uma sensação de mal-estar, à medida que confrontadas com aspectos de si próprio e da história pessoal. Como analistas, encontramos na estranheza, na transferência e contratransferência, emoções inesperadas. O terapeuta deve estar aberto a explorar estes aspectos para melhor compreender a dinâmica psíquica do mundo inconsciente, um território escuro onde se encontram desejos e medos profundos, experiências sobre a realidade e os seus confrontos. Através da análise dos mitos, dos contos de fadas e da figura do duplo, Freud forneceu ferramentas fundamentais para explorar os abismos da mente e compreender complexos entrelaçamentos que moldam o complexo mundo inconsciente. A natureza da subjetividade, desde sua ligação ao inconsciente e ao “Outro”, sua presença na cultura, na arte e na psicopatologia, convida a questionar nossas certezas e viajar para o desconhecido, em última análise, “o não familiar” é trabalhar com novas formas de conhecimento. O infamiliar pode se tornar extraordinariamente difícil de suportar, sobretudo, quando se trata de estruturas frágeis, com poucos recursos simbólicos para processar a angústia que lhe acompanha. Se alguma coisa caracteriza o tempo em que vivemos, é o clima de pesadelo do qual é difícil acordar e parar. A realidade se insinua quando ligamos o rádio, sintonizamos notícias, lemos o jornal ou nos ligamos às redes sociais. Ao poema; O Estranho Dan Mena. Inspirado no conceito “Unheimlich” de Freud. Num recanto sombrio e secreto, Moram sonhos que me habitam, Lugar do inconsciente disfarçado, O incompreensível sempre vêm camuflado. Uma sombra que me espreita na penumbra, Como um duplo sinistro se deslumbra, O reflexo do oculto e reprimido, Na minha mente se esconde esvaído, algo que provavelmente não foi esclarecido. Um rosto familiar confiro no espelho, Não reconheço, mais me enche de desejo, Será por acaso minha imagem refletida, Ou um estranho ambíguo enxerido? Nos meus sonhos, o inquietante manifesta, E o medo que se apresenta, Um déjà vu confuso e ardiloso, Fenômeno intrigante e melindroso. O inquietante aparece em cada esquina, Invade minha alma como sombra esquiva, Despertando lembranças esquecidas, De emoções ficcionais nunca sentidas. Uma jornada ao coração do reprimido, Ao obscuro, oculto e incompreendido, Uma dança de fantasmas esquecidos, Que se fazem presente no significativo. ''Infamiliar'' estranho e inquietante, Um encontro profundo, penetrante, Onde o eu e o outro se embaralham, Num abraço imaginário conhecido. O sujeito bizarro se mistura, instruindo realidades subjetivas, Dédalo labiríntico do ser que o amplifica, Na razão, loucura, desejo e obsessão, Afinal, é mesmo um terror. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- A Melancolia.
''A Melancolia é uma roda-viva entre o amor e a ausência do seu objeto''. Dan Mena. Por Dan Mena. Em “Luto e Melancolia: ''À sombra do espetáculo”, livro que examina a essência de melancolia e sua relação com o luto, escrito por Freud em 1917, ele investiga as diferenças entre o luto saudável e a melancolia patológica, analisando as emoções e processos psicológicos envolvidos nesses estados. A melancolia surge como uma emoção complexa e profunda, que tem sido objeto de estudo e reflexão na psicanálise. Neste artigo, explorarei o seu conceito angular pela visão psicanalítica, suas origens teóricas, como ela se manifesta no indivíduo e sua abordagem no contexto da terapia. Para isso, utilizarei diversas contribuições de autores e teóricos, somados a minha perspectiva pessoal. Boa leitura. A relação dos estados emocionais na atualidade. Falar de melancolia contemporaneamente é falar das depressões que chegam a clínica. O que seria então a depressão?. Antes de tudo, um achado clínico, quando como psicanalistas falamos de depressão, nos referimos à mesma coisa que um psiquiatra? Digamos que sim, mas há um entrave a este entendimento na psicanálise: a depressão não é o motivo principal ou razão pela qual o paciente procura o terapeuta. ''A depressão é algo que o analista deve vislumbrar para além do que lhe é dito'', (Leguil 1996). Está identificada e descrita como um estado que se manifesta não necessariamente como uma queixa específica, sintoma, inibição ou angústia, diferentemente dos três motivos descritos por Freud em (1925) — inibição, sintoma ou angústia — a depressão desafia a clínica psicanalítica ao não reunir claramente ditos elementos. O termo, “depressão”, também é definido como uma mistura de tristeza intensa, culpa invasiva, angústia acima do habitual e risco de comportamento suicida. Pode ser enxergada como um abandono do sujeito, uma ruptura com o que anteriormente o sustentava na vida em relação a suas ações, identidade ou relações que mantém com outros. Essa degradação progressiva dos vínculos amorosos, principalmente na cultura atual, estaria no centro dos fatores relevantes que podem levar tanto à depressão quanto à melancolia, é, por essa razão, sinalizo. Destarte, também é associada à psicose, que por sua vez se opõe à mania. A melancolia psicótica, (ou depressão), pode ser acompanhada de elementos delirantes, quando o elo emocional do sujeito parece ter quebrado os laços que o uniam à vida. Freud prefere abordar a melancolia como uma forma de luto, a isola das depressões neuróticas, sugere que seria um tipo de aflição causada por uma perda de libido, decorrente de um empobrecimento do ''eu''. O(a) melancólico(a), pode se comportar como se tivesse uma aversão moral a si(a), com os sentimentos de autoria e culpabilidade voltados contra si. O ato suicida que pode estar presente, talvez seja o resultado do retorno do impulso assassino, dirigido inicialmente contra o ''objeto'' para o ''sujeito''. Assim entendo que; não existe de fato uma estrutura clara quanto ao quadro depressivo. A depressão é um sintoma, e não um diagnóstico, o que significa que pode aparecer como uma posição sem localização, revestida de diferentes formas de patologias. No caso da melancolia especificamente, estamos perante uma alteração complexa, difícil de delimitar e classificar, porque o seu diagnóstico diferencial requer uma precisão, que, na minha opinião, em teoria requer virtuosismo indefinido, e que na clínica, seria o resultado do mais exímio rigor e observação. Suas possibilidades envolvem se ater a dois aspectos; a possivel depressão biológica e a psicossocial. Onde iremos encontrar, termos e sinónimos atualizados, tais como; psicótica | neurótica Vital | pessoal autônoma | reativa somatológica | psicogênica fisiológica | psicobiológica. endógena | exógena Em um vasto percurso bibliográfico, tanto psicanalítico, psicológico e psiquiátrico, nos deparamos com aparentes ambiguidades opositórias, pois a depressão pode ser melancólica ou não, e na melancolia existem traços obsessivos certamente. Para não desfocar, vou direto na relação desses estados emocionais com o luto, a perda, o narcisismo e a estrutura psíquica do sujeito, ressaltando sempre as contribuições de Freud e Lacan para a compreensão desses fenômenos. Eles apontam, que ambas condições podem se manifestar em diferentes estruturas clínicas, sendo um desafio facultativo a cada especialidade, fazer distinções precisas correspondente a técnica particular, para determinar estratégias terapêuticas adequadas. As raízes teóricas. A melancolia é uma resposta patológica à perda, se diferencia do luto saudável. Embora as teorias variem em nuances, há alguns aspectos gerais que podem ser encontrados ao discutir o tema. São suas variáveis; — Reação à perda: É Geralmente associada a uma resposta emocional à perda significativa, seja a morte de um familiar, o fim de um relacionamento importante, o descaminho de uma posição social ou até mesmo, se perder de uma parte de si, como um ideal ou expectativa frustrada. — Tristeza e vazio. Caracterizado por sentimentos intensos de tristeza, desesperança e vazio emocional, onde o indivíduo pode experimentar uma sensação de perda de sentido ou propósito na vida, o que pode levar a um estado de desânimo prolongado. — Identificação com o objeto perdido. Em muitos casos a pessoa afetada pode se identificar profundamente com o objeto perdido ou ausente, mantendo uma conexão psicológica e emocional com ele(a), mesmo após a inexistência física desse ''Outro''. — Culpa e autoacusação: Que pode ser em relação ao objeto perdido ou em associação de si, iniciando um processo de autodepreciação, da parte significativa do estado melancólico. — Desconexão social e isolamento. Pessoas em dito estado de angústia podem se sentir desconectadas dos outros e tendem a se isolar socialmente, se impondo um sofrimento emocional intenso e negando a possibilidade na busca de apoio e compreensão dos outros. — Perda de interesse e prazer. Cancelamento de predileções em atividades sociais e sexuais, que antes traziam prazer ou satisfação, onde impera a falta de motivação e entusiasmo como uma característica sintomática sempre presente nesse estado emotivo. — Impacto na saúde mental: A melancolia pode ter um impacto significativo na saúde mental do indivíduo, levando a sintomas de depressão, ansiedade e, em casos mais graves, a ideação suicida. — Abordagem terapêutica: A terapia psicológica, como a psicanálise, a terapia cognitivo-comportamental (TCC), e outras formas de psicoterapia, podem ser eficazes no tratamento. Através da exploração das emoções, das suas raízes e do desenvolvimento de estratégias de enfrentamento saudáveis, lugar possível para aliviar o sofrimento e buscar uma resolução positiva. Sua compreensão pode atravessar variações, conforme a abordagem teórica e a perspectiva do analista ou psicólogo, mas nelas todas, o reconhecimento e o tratamento adequado são essenciais para promover o bem-estar emocional e psicológico do indivíduo afetado. A contribuição de Jacques Lacan. Em Lacan, sua exegese foi altamente influenciada pelas obras de Freud, mas ele também desenvolveu suas próprias ideias sobre o tema, onde suas principais revelações foram de acordo com estes 6 tópicos; — Objeto Perdido e Identificação: A melancolia surge pela perda de um objeto significativo. Esse objeto pode ser uma pessoa, uma ideia, um ideal, ou até mesmo uma parte do próprio eu, vivida como perdida, e resultar em um sentimento profundo de vazio e desolação. — A Imagem do Outro: Neste tópico vejo a importância do “Outro” na formação do ''self'', como sendo esse ''Outro'', a figura que reflete o indivíduo de volta a si mesmo, contribuindo para a construção da identidade. A perda do ''objeto'' ou do ''Outro'' pode levar a uma desintegração da imagem do self, resultando em sentimentos de falta de sentido e identidade. — A Identificação Melancólica: Esse processo em que o sujeito internaliza o objeto perdido, pressupõe que o mesmo incorpora o objeto ou a imagem do ''Outro'', se tornando identificado com a perda, internalizando o vazio deixado pela ausência do objeto. — A Lógica do Desejo e da Culpa: Assim, O melancólico sente culpa pôr em algum momento ter desejado a perda do objeto, mesmo que isso não seja consciente, lugar onde o desejo e a compunção dele(a) entraram em conflito, contribuindo para a sensação de angústia e desespero. — A Função da Linguagem: Jogando um papel crucial na teoria de Lacan, a melancolia pode ser exacerbada pela incapacidade do indivíduo encontrar palavras que possam expressar seus sentimentos e experiências internas. A ausência desse canal verbalizado, a falta de linguagem para dar significado à perda pode intensificar o sofrimento melancólico. — O Acesso ao Simbólico: Sua superação envolve o acesso ao mundo simbólico da linguagem e do significado, que permite que a dor da perda seja simbolizada e expressa em palavras, o indivíduo pode começar a elaborar o luto, encontrando maneiras de lidar com o desaparecimento do objeto de forma mais saudável. Fica claro que há um destaque nessa função fundamental da linguagem, e sua necessidade de simbolizar, expressar essa experiência interna para superar a melancolia. A contribuição de Lacan para tal compreensão é valiosa para a psicanálise, oferecendo uma perspectiva e ferramentas clínicas únicas. Mecanismos psicológicos na melancolia A melancolia envolve uma série de mecanismos psicológicos substanciais, incluindo a identificação introjetiva, idealização e internalização. Esses dispositivos estão relacionados à experiência melancólica, e podem influenciar o funcionamento psicológico. A Identificação Introjetiva internaliza o objeto perdido, tornando-o parte de si, resultando em uma ligação psíquica profunda, mantendo sua presença no ''eu'' do indivíduo, mesmo após a perda real. Lembrar sintomaticamente do objeto distorcidamente, como se ele fosse a personificação de tudo o que é desejável e valioso, aumentando o sofrimento pela perda. Isso envolve uma projeção de raiva e hostilidade que são direcionados de volta para o próprio sujeito, provocando sentimentos de recriminação. Outra particularidade inclui a fixação emocional, gerando dificuldade em se desligar emocionalmente, impedindo que sejam encontrados novos significados ou que se concretizem investimentos afetivos em outras áreas da vida. O conjunto sintomático norteia a pessoa a uma regressão, descendo a padrões de pensamento e comportamento típicos de estágios de desenvolvimento anteriores, dificultando a adaptação saudável à realidade vivenciada, potencializando a sensação de impotência e desespero. Como consequência se percebe geralmente o desenvolvimento de uma autoimagem negativa, sentindo-se culpado(a) e inferiorizado(a), depreciando o seu ego,' que será retroalimentado pela identificação com o objeto ausente. Esses dispositivos psicológicos interagem entre si, criando um ciclo repetitivo prolongado que sustenta o estado melancólico. A identificação consciente desses expedientes pode permitir ao indivíduo encontrar maneiras mais adaptativas de lidar com sua dor emocional e redirecionar suas energias afetivas para uma vida mais satisfatória e significativa. Manifestações nos relacionamentos. A melancolia impacta os relacionamentos interpessoais, afetando significativamente como ele se relaciona. Além disso, padrões melancólicos influenciam na dinâmica da intimidade. Algumas das manifestações mais comuns incluem: — Dificuldade em Estabelecer Vínculos Profundos: Impasse do sujeito em afirmar vínculos emocionais duradouros, insegurança e desconfiança em relação aos outros, seguidos do medo da rejeição e o abandono. — Idealização e Desvalorização dos Parceiros: Exaltação excessiva do(s) correspondentes(s), os(as) enxergando como perfeitos(as) e incapazes de cometer erros. No entanto, quando ocorrem desentendimentos ou confrontos, a pessoa melancólica pode rapidamente desvalorizar o parceiro(a), jogando a culpa no outro por suas decepções emocionais. — Vazio e Solidão: Mesmo estando em um relacionamento, a pessoa melancólica pode se sentir vazia e solitária emocionalmente. Ela(e) podem experimentar desmedida sensação de descontentamento, como se algo estivesse faltando em sua vida afetiva. — Autodepreciação e Culpa: Desenvolvimento de uma visão negativa de si, baixa estima e autoacusação constantes, que interferem na capacidade de se sentir merecedor(a) de amor e afeto. — Medo do Abandono: Pavor intenso de ser abandonada(o) pelo parceiro, o que pode levar a comportamentos de controle, perseguição, violência e ciúme patológico. — Dificuldade em Expressar Emoções: Bloqueio da expressão adequada de afetos positivos, como amor, carinho, afeto, amizade e gratidão, tornando os relacionamentos frios e distantes. — Relacionamentos Conturbados: Leva ao desassossego nos envolvimentos emocionais, os tornando conturbados, conflitivos, contenciosos e instáveis, passando por picos de altos e baixos extremos, o que pode dificultar a construção de conexões saudáveis. A melancolia não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas, as experiências individuais podem variar, além disso, não deve ser confundida com a tristeza ocasional ou períodos de baixo humor que são normais. Quando seus sintomas afetam o bem-estar emocional, a qualidade deles decaem, sendo importante trabalhar com suas questões subjacentes. “A melancolia é, em termos gerais, o mesmo que o luto, só que é muito mais intenso, atingindo nossos elos narcísicos mais poderosos. Nessa condição, a compreensão da realidade não leva à superação do objeto perdido, mas sim a uma identificação com ele.” Freud. Outra figura importante na psicanálise foi Melanie Klein, que também contribuiu para o seu entendimento, em sua teoria do desenvolvimento emocional, embora ela tenha abordado a proposição de forma menos detalhada. De acordo com ela, esse estado emocional surge a partir da posição depressiva no desenvolvimento infantil. Assim, descreveu duas posições emocionais iniciais que as crianças atravessam durante o desenvolvimento: a posição esquizo-paranoide e a posição depressiva. Na posição depressiva, que ocorre por volta dos 6 meses, a criança começa a perceber o objeto (geralmente a mãe) como uma entidade completa e independente, com qualidades boas e más. Nesse momento percebe que ela própria também pode ser uma fonte de angústia para o objeto, e aí começa a surgir um sentimento de culpa. A criança sente-se culpada pela hostilidade e raiva que teve em relação ao objeto, e como resultado, ela se depara com sentimentos de tristeza e pesar. Essa posição infantil pode ser considerada um precursor do que Freud mais tarde descreveria como “superego”, sendo a parte da mente que internaliza os valores, normas e regras da sociedade. Klein via a melancolia como um aspecto importante do processo de desenvolvimento emocional da criança, pois, através desse sentimento de culpa, a criança pode desenvolver empatia e compreensão emocional. Na terapia psicanalítica de orientação kleiniana, o terapeuta pode trabalhar com o paciente para explorar os sentimentos de melancolia e ajudá-lo a elaborar e processar essas emoções. Ao fazer isso, o indivíduo pode desenvolver uma compreensão mais profunda de si e de suas relações interpessoais, promovendo um desenvolvimento emocional mais saudável. Dita parte natural do crescimento emocional da criança está conectada e relacionada ao surgimento dessa posição depressiva, que envolve sentimentos de perda e culpa como elementos importantes também para a formação da personalidade. O entendimento da melancolia a partir da perspectiva de Klein enriquece o campo da psicanálise e oferece uma compreensão mais abrangente da complexidade das emoções humanas. “Na melancolia, o sujeito internaliza o objeto perdido em seu eu e, assim, continua a viver a dor e a hostilidade em relação ao objeto, mas agora direcionadas para si mesmo.” Jacques Lacan: “Na melancolia, o sujeito experimenta a perda do objeto, não, como algo externo, mas como uma perda interna. Ele carrega essa ausência internamente, causando uma dolorosa identificação com o objeto perdido.” Para Winnicott: “A melancolia surge quando o indivíduo não consegue tolerar e superar a dor associada à perda do objeto. A fixação impossibilita o crescimento emocional e a busca por novas experiências.” Winnicott, abordou a melancolia em seu trabalho como parte de sua teoria sobre o desenvolvimento emocional e os estágios iniciais da vida. Embora ele não tenha escrito especificamente um trabalho inteiro sobre a melancolia como Freud, suas ideias sobre o tema podem ser encontradas em diferentes trabalhos e palestras. Ele a concebia como um sentimento de desesperança profunda e uma sensação de perda do próprio sujeito. Destacava a importância da experiência de uma “falha ambiental” durante a infância como uma causa potencial para o desenvolvimento na vida adulta, onde, a mãe ou cuidador primário tem um papel fundamental na criação de um ambiente facilitador para o desenvolvimento emocional saudável da criança. Se essa relação de cuidado e atenção não fosse adequadamente estabelecida, a criança não se sentirá amada e compreendida, experimentando um sentimento de desolação e vazio, coadjuvando para o surgimento da melancolia. A importância radica na capacidade do indivíduo ser autêntico e espontâneo em suas emoções e comportamentos, quando a criança não pode expressar livremente seus sentimentos autênticos e verdadeiros, passa a internalizar um senso de falsidade e vazio, o levando ao desenvolvimento de uma angústia latente na vida adulta. A importância da construção dessa ambiência psicológica, facilitadora, possibilitando ao indivíduo encontrar suporte emocional, autenticidade e empatia, como formas criativas de expressão para processar emoções difíceis e experiências de perda. Uma vez instaurado, é um estado dramático, que pode ser relacionado a essas falhas da estrutura infantil, afetando a capacidade de promover sua autenticidade, expressão genuína, mediante um ambiente pungente e adequado. Julia Kristeva: acrescenta; “A melancolia é um fenômeno complexo que revela uma luta entre o desejo de se apegar ao objeto perdido e sua aspiração de se libertar da dor associada a essa perda. É uma dança entre o amor e a perda.”. Em seu livro “Pulsões de Signos”, explora a melancolia, a definindo como um estado de “afeto pesado”, onde o indivíduo se sente mergulhado em tristeza, muitas vezes sem uma causa aparente. A perda dolorosa afeta a identidade, que pode ser simbólica, como a extinção ou privação, seja de um ideal ou de um objeto de amor, mesmo se tratando de uma perda real, como a morte de alguém querido. Sua relação se aproxima do conceito de abjeção, o qual é o sentimento de repulsa e horror que experimentamos em relação ao que é considerado impuro, estranho ou inaceitável. Na melancolia, existe uma profunda aversão a si mesmo, como uma ameaça abjeta para o mundo externo. A melancolia não é apenas um estado emocional, mas também uma oportunidade para uma exploração profunda do ''eu'' e da identificação. “Na melancolia, a pessoa sente-se vazio(a), sem identidade e autoestima. O objeto perdido era uma fonte importante de autoafirmação e, ao perdê-lo(a), o indivíduo sente que também perdeu uma parte de si.” Kohut. Essas citações utilizadas de autores psicanalistas nos ofereceram uma visão profunda sobre a natureza complexa e as implicações emocionais da melancolia. Cada teórico, aborda a melancolia a partir de diferentes perspectivas, mas todas elas convergem em destacar a importância da sua relação entre o indivíduo e o objeto perdido, bem como os mecanismos psicológicos envolvidos nesse processo e seu estado emocional. Podemos agora compreender melhor a profusão deste tema na teoria psicanalítica, quanto também alargar estas distinções ao temperamento do caráter melancólico. Por fim, poderíamos situá-lo como uma forma um tanto estereotipada do sentimento normal de tristeza. Por sentimento, incluí neste artigo tanto seu componente afetivo como as representações de ideação concomitantes, ou seja, aquilo a que hoje chamamos habitualmente de componente cognitivo. Poderíamos também o intitular como uma patologia de caráter, que pode ocorrer tanto numa subjetividade neurótica como na psicótica, cuja psicose não tenha ainda sido desencadeada. Em qualquer um destes casos, continua a ser decisivo, pelo menos do ponto de vista da terapia psicanalítica, distinguir tais discernimentos entre a ordem da neurose e da psicose. Concluindo; para nós psicanalistas é útil não apenas explorar a capacidade de enfrentamento ao luto do paciente, mas sim, identificar a parte do ''eu'' que se foi com o objeto afetivo agora ausente. Por essa razão deixo aqui duas reflexões; Na melancolia, o que realmente perdemos que tanto nos assola e atormenta? Porque usamos de tanta agressividade contra si, podendo destruir-nos juntamente com o objeto perdido? Ao poema; Rabindranath Tagore A tristeza. Senhor! Dá-me a esperança, leva de mim a tristeza e não a entrega a ninguém. Senhor! Planta em meu coração a sementeira do amor e arranca de minha alma as rugas do ódio. Ajuda-me a transformar meus rivais em companheiros, meus companheiros em entes queridos. Dá-me a razão para vencer minhas ilusões. Deus! Conceda-me a força para dominar meus desejos. Fortifica meu olhar para que veja os defeitos de minha alma e venda meus olhos para que eu não cometa os defeitos alheios. Dá-me o sabor de saber perdoar e afasta de mim os desejos de vingança. Ajuda-me a fazer feliz o maior número de possível de seres humanos, para ampliar seus dias risonhos e diminuir suas noites tristonhas. Não me deixe ser um cordeiro perante os fortes e nem um leão diante dos fracos. Imprime em meu coração a tolerância e o perdão e afasta de minha alma o orgulho e a presunção. Deus! Encha meu coração com a divina fé... Faz-me alguém realmente justo. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- A Sublimação.
''Se existe algo de muito humano no desejo, é a necessária sublimação que fazemos dele''. Dan Mena. Por Dan Mena. A primeira tese de Freud sobre a sublimação é apresentada em sua obra “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, sendo publicada em 1905. Nesse livro, desenvolve a ideia de que a sublimação é um mecanismo psicológico através do qual a energia sexual, conhecida como libido, é desviada de seus objetivos sexuais originais. Em vez de ser expressa diretamente em atividades sexuais, dita pujança é redirecionada para outras esferas da vida. A sublimação nasce pelo conceito psicanalítico, como técnica de viabilizar esses impulsos instintivos para atividades socialmente admissíveis e produtivas. É uma forma de transformar a energia libidinal em criação cultural e positiva, contribuindo para a sociedade. Muitas formas de expressão profícua são consideradas meios de depurar impulsos, assim, utilizamos este recurso como ferramenta terapêutica para encontrar uma forma de desopressão e descarga pela via da percepção e cognição das emoções, sendo estas às experiências internalizadas do indivíduo. Quando um paciente se envolve em atividades sublimatórias durante a análise, redireciona sua energia psíquica ligada aos seus quereres. Desta forma, em vez de agir impulsivamente, agressiva e possivelmente prejudicial, mobiliza e reúne essa força intelectual para sua exteriorização pela arte, música, escrita, pintura, artesanato, esportes, trabalho ou outras formas de utilização das nossas habilidades. O terapeuta, encorajará o paciente ao despertar dos seus pensamentos, fantasias e emoções, por meios psíquicos de aperfeiçoamento de ideias, processando pelo método clínico, caminhos seguros e construtivos. Ao analista, compreender como o paciente utiliza a sublimação para lidar com suas emoções, poderá guiar o mesmo(a) a desenvolver uma maior consciência, e, instruir-se, (o paciente, ele por si), para enfrentar desafios e frustrações eficientemente. Boa leitura. No entanto, é importante notar que a sublimação não é a única forma de lidar com estímulos e predisposições inconscientes. Outras defesas psicológicas, como a repressão, a negação e projeção, também desempenham papéis significativos no funcionamento psíquico, sendo exploradas nesse contexto da clínica. A abordagem, auxiliará o cliente a integrar aspectos exânimes de si, para promover o crescimento pessoal e sua autorreflexão. Freud reserva o termo ''sublimação'', para as atividades artísticas, sociais ou culturais, em que as pulsões modificam o seu fim sexual, que retornam ao ''ego'' pela dessexualização, reencontrando um fim erótico, e um objeto inibido no seu propósito libidinoso ou de morte. Difere da repressão, pois na sublimação se constitui uma derivação e um fluxo para sua realização, sem perder a intensidade da sexualização. Enquanto na repressão, como o termo indica, a pulsão permanece profundamente contida, e não é, portanto, re-direcionada. Vejamos algumas citações importantes sobre o tema; ''A sublimação é definida por Freud como "um tipo de atividade humana (criação literária, artística, intelectual) sem relação aparente com a sexualidade, mas que retira a sua força da pulsão sexual deslocada para um fim não sexual, investindo em objetos socialmente valorizados". (Roudinesco & Plon, 2008). “A sublimação é o deslocamento do instinto sexual para metas sociais mais elevadas; uma forma especialmente comum desse mecanismo é encontrada na atividade artística.” Freud, em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905). “A sublimação da libido é uma parte essencial do processo pelo qual o instinto erótico busca outra direção e, por meio de desenvolvimentos sucessivos, pode encontrar uma saída socialmente aceitável ou uma utilização não erótica.” Freud, Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (1933). “A sublimação é um processo em que o instinto sexual, com suas tendências e metas primitivas, é desviado de sua finalidade sexual original, transformado em formas socialmente úteis e culturalmente valiosas.” Freud, O Problema Econômico do Masoquismo (1924). “A sublimação é um dos principais mecanismos de defesa utilizados pelo ego para lidar com impulsos e desejos sexuais socialmente inaceitáveis.” Freud, Introdução ao Narcisismo (1914). Outro aspecto importante é que ela funciona como um condutor inconsciente de emoções reprimidas, pilotando a libido a um objetivo mais elevado, mais útil e menos censurável. Este caráter incônscio, gera resultados eminentes, diminuindo o desperdiço energético na luta contra a neurose, (Capps & Carmelo, 2003). Além disso, a satisfação é direta e não reprimida, onde o objeto pode variar, basta que preencha às condições necessárias para a satisfação ser alcançada, (Capps & Carlin, 2011). Atua como um processo, no qual o indivíduo, ao renunciar às suas pulsões substitui o objetivo por outros fins culturalmente aceitáveis, (Palacios, 2007). É sem dúvidas, um fenômeno explicado na religião, filosofia, arte, psicanálise e na cultura, no entanto, a referência conceitual de Freud se mantém firme e altamente aceita universalmente. Não é apenas a sexualização das unidades psíquicas, é também o desvio das forças sexuais instintivas que portamos, o que implica numa metamorfose mental que gera um novo tipo de prazer. Para além de ser uma teoria da formação do indivíduo em sociedade, é um princípio básico de como o gozo e o desejo surgem e se estabelecem em contextos sociais contemporâneos. Não se diferencia pela valorização do objeto da pulsão, mas pela perspectiva do sujeito sobre ele propriamente. A sublimação pode ser descrita como um espaço criativo que surge da energia sexual agressiva, transformada num outro escopo. No entanto, Freud não conseguiu integrar a sublimação nos seus ''Três Ensaios para uma Teoria Sexual'', e o tema ficou inacabado, ficando sua interpretação de certa forma flutuante quanto a sua concepção final, assim pode variar, consoante diversos autores que tem realizado novas interpretações com o passar do tempo. Mesmo nessa suposta incompletude da obra nesse campo, Freud realiza diversas análises importantes. Expressa que a nossa cultura foi construída sobre a supressão das pulsões, onde o cultural representa o oposto do natural, ou seja, a criação da nossa civilização. Logo inclui todas as grandes obras, estruturas que a humanidade fez ao longo da história, transformando o mundo através do trabalho e produzindo bens materiais, ideais, conforto, tecnologia, etc. Engloba também as expressões artísticas, científicas e o conhecimento que marcam nossa existência no planeta. Como indivíduos renunciamos a muitos de nossos impulsos ofensivos, encaminhando parte deles para contribuir de alguma forma na construção da herança e legados culturais civilizatórios. A sublimação é um decurso que ocorre quando o indivíduo consegue relegar seu narcisismo e estabelecer um vínculo social. Neste sentido, a sublimação funciona como uma forma de reprodução instrutiva, onde são criados os produtos da sua inventividade. Considerada um dos quatro modos de defesa utilizados pelo ''ego'' contra os excessos da pulsão, que consistem no desvio das forças pulsionais sexuais, para um fim não sexual, como a arte ou a geração do conhecimento. Entretanto, a força pulsional sublimada continua a ser sexual e permanece sempre ativa, procurando incessantemente uma satisfação plena que nunca encontra o seu fim, nem será absoluta, menos definitiva, quando supostamente lograda por um lapso temporal. O comprazimento sexual direto e uma forma de alcançar um prazer, sempre parcial, que nos leva a perpetuar uma busca de desenvolvimento cultural e pessoal. Se dita satisfação luxuriosa fosse possivel de ser rematada mediante algum elemento, não haveria razão para o progresso humano, como sociedade, estaríamos seriamente ameaçados, fadados pela produção das neuroses. Para ampliar e alargar o pensamento podemos abrir algumas citações de outros autores; “A sublimação é a capacidade de transformar impulsos e desejos instintivos em realizações criativas, artísticas ou intelectuais, canalizando assim a energia sexual para atividades socialmente aceitáveis.” Jung. “A sublimação é um mecanismo psicológico fundamental que permite redirecionar os impulsos sexuais em busca de metas culturalmente valiosas e socialmente aceitáveis.” Melanie Klein. “A sublimação é um processo de transformação dos desejos e impulsos sexuais em atividades socialmente construtivas e culturalmente relevantes.” Anna Freud. “A sublimação é a capacidade de converter impulsos e desejos sexuais em produções criativas, científicas ou artísticas, beneficiando assim tanto o indivíduo como a sociedade.” Karen Horney. “A sublimação é um processo psicológico que redireciona as pulsões sexuais e agressivas em busca de realizações culturais e criativas, enriquecendo assim a vida individual e coletiva.” Erik Erikson. Já em Lacan, encontramos algumas diferenças interpretativas em relação a Freud. Tida como um processo ambivalente que envolve a transformação dos desejos e fantasias do sujeito através da linguagem e do simbólico. Em sua teoria, destaca a importância da linguagem como a base da sublimação, visto que entende que o mesmo é estruturado linguisticamente, e, que a sublimação é um dos principais mecanismos pelos quais se manifesta no mundo metafórico. Consiste estruturalmente em uma forma de lidar com a falta e a castração, inerentes e sensíveis à experiência humana. O sujeito, ao entrar no campo representativo da sua linguagem e da cultura, se depara diante da falta e sua impossibilidade de realizar plenamente seus anseios mais profundos. Essa privação, é o que constituí e impulsiona a volúpia humana, motor que nos motiva a perscrutar e sondar outras formas de satisfação, que não, a simples realização de intuições. Não deveríamos por essa caracterização elevar a sublimação a uma negação do desejo, mas sim, uma forma de dar uma simbolização aos impulsos e fantasias inconscientes. Ela se acomoda como um rito criativo que nos permite encontrar expressões socialmente aceitas para confrontar nossa perspectiva e dimensão de ausência, falta e incompletude. Portanto, não seria ela, (a sublimação), uma solução definitiva para o conflito entre a concupiscência e a realidade, senão, uma conformação, um formato possível de lidar positivamente com esse duelo conflagrável de maneira mais elaborada. Nunca alcançamos uma satisfação completa, destarte não desistimos de articular novas formas de realizar nossas excitações dentro do campo emblemático da cultura. A arte para Lacan, é do terreno da criação científica e artística, logo é cultural, como um dos delineamentos privilegiados de sublimação. Um canal que nos permite nortear a libido de uma maneira criativa, algo que condensa a identificação do indivíduo, que pode ser partilhado e apreciado por ''outros''. A sublimação é um destino da pulsão diferente da repressão — é, portanto, uma satisfação da pulsão e também, sem estar a tira-colo da repressão. Não é um aprazimento não sexual, consequentemente, significa estar permeada da plasticidade e maleabilidade da força pulsional. “A sublimação é a possibilidade de trocar o fim sexual por um não sexual”. É exatamente essa capacidade plausível de trocar um regozijo sexual por um aprazimento dessexualizado. Destino da pulsão, tal como a repressão, mas propriamente dita, como a respectiva operação da mudança, o verdadeiro ato da substituição, passagem de uma euforia a outra, o que podemos entender, como uma forma refinada de suportar a insatisfação do sexual e também de uma satisfação. Simplificando; posso resumir algumas das principais ideias e diferenças na teorização de Lacan sobre a sublimação, que incluem: — Rejeição do conceito freudiano. Questiona e rejeita sua concepção tradicional da sublimação como um desvio da energia sexual para atividades sociais e criativas. Em vez disso, a vê como uma forma em que o desejo se manifesta e se conecta com a linguagem e sua ordem simbólica. — Desejo e falta: Acredita que a sublimação tem origem na falta fundamental do ser, no desejo que está sempre em busca de algo mais, e que surge como uma resposta a essa ausência, canalizando a libido para a criação e produção cultural. O papel da linguagem: Implica numa relação estreita com a linguagem e o simbolismo, através dos significantes que o desejo encontra no seu trajeto, uma forma de expressão e entusiasmo parcial, mas nunca completo. Processo analítico: Pondera Lacan; incluindo a própria análise psicanalítica como uma forma de sublimação, uma vez que envolve o trabalho com a linguagem e a simbolização, para lidar com os conflitos inconscientes do paciente. Devido a sua introdução do significado de “objeto A”, utilizado para descrever o ''objeto'' perdido e desejado que está na base do desejo, subentende que isto implica uma procura constante dele através da produção cultural e artística. É importante notar que às ideias de Lacan sobre a sublimação são complexas, se entrelaçam e conectam com sua abordagem geral da psicanálise e com a sua ''teoria do sujeito''. Na mesma linha, está o pensamento de Klein, para quem a sublimação é uma tendência para reparar e restaurar o bom objeto, anteriormente danificado pelas pulsões destrutivas. No seminário de (1959 – 60), Lacan segue Freud na sua definição de sublimação, mas sempre pautado em diferenças; enquanto Freud acreditava que para certas pessoas altamente cultas e ativas a sublimação completa era possível, ele negava. Finalmente, para Lacan, o objeto sublime, quando elevado à dignidade da ''Coisa'', exerce um poder de fascinação que acaba por conduzir à morte e à destruição; Talvez aqui eu possa entender que daí decorre sua máxima, de que nem tudo pode ser sublimado, porque cairíamos numa fascinação mortífera. Seria então o pensamento expressado através da linguagem uma atividade sublimatória?. Fica para reflexão. Finalizando, se a sublimação é o mecanismo psíquico no qual se baseia a produção da civilização, não seria nada afrontoso pensar que em tempos remotos e primitivos, onde nossos ancestrais chegavam a se utilizar de práticas canibais, que fossem de uma hora para outra se unirem pacificamente para fazer foguinho e construir qualquer coisa conjunta. Por esta razão, neste ponto vou me unir a Lacan, visto que pela sua visão, o desejo, (de qualquer natureza), se manifesta e se conecta com a linguagem e sua ordem simbólica. Diante disso, reflito, eles tiveram, (os ancestrais), antes que nada, falar, se comunicarem entre si para conciliar uma ação conjunta. Assim, a palavra no homem surgiu primeiro diante da necessidade do trabalho como meio de subsistência e sobrevivência, ou seja, como uma exigência evolucionista de transformar a natureza ao seu redor para seu benefício e prazer. Destarte, tiveram que desenvolver a linguagem para poder sublimar, necessitaram da linguística para deixar de ser animais e inaugurar historicamente a era do homem moderno, fundando assim às primeiras tribos, e por efeito as futuras civilizações. Portanto, isso comprova no meu entender, que o ''sapiens'', foi capaz em algum momento historial de postergar fatalmente sua imperiosa satisfação sexual, modificando o elemento altamente agressivo do fim sexual por outro não sexual, eis o lugar da ''sublimação''. Por fim, ficou claro que o homem consegue deslocar seu afeto de uma ideia para outra, reorientando sua libido para encontrar uma expressão construtivista. O que define, por esta defesa que apresento no exemplo, que sublimação não é o resultado de frustrações, nem da repressão. Para a psicanálise, sublimar é um mecanismo da raça, portanto, algo que funciona ou não, o neurótico, poderíamos dizer, que se diferencia por sua maior ou menor capacidade de sublimar, e que entra aqui, neste contexto, uma realidade clínica real e implícita, onde afirmamos, que adoecemos quando não podemos sublimar. Sublimamos com o instinto, da mesma forma que reprimimos com o sentimento e sua essência original. Isso quer dizer que não se trata de conter, refrear, retrair, recalcar ou sufocar nossos conteúdos, principalmente aqueles que rejeitamos por conta da moral instituída. A repressão é um dispositivo instrumentalizado que permanece montado na infância, de forma natural, progressivamente concebido na medida que adquirimos a linguagem como meio. Quando o reprimido retorna no psiquismo, temos que elaborar inevitavelmente um sintoma, e o que está em jogo nessa cartada, é a repetição daquela busca cuja necessidade é reprisar, logo, estamos diante da sublimação plena. Seguindo ditas trilhas, que nos levam a caminhos, encontraremos às questões dos laços fundamentais para explicar a sexualidade humana. “A linguagem é o veículo pelo qual a sublimação ocorre, permitindo ao sujeito canalizar suas pulsões para atividades culturais e criativas, como a arte, a ciência e a literatura.” (Seminário XI, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise). Lacan. Vamos ao poema. Sublimação. Por Dan Mena. A sublimação é trajetória singela, Vive na gangorra de eventos complicados, Entre pulsões e desejos misturados, A linguagem, a arte, o encontro desvairado. Nas veredas do inconsciente profundo, A energia erótica busca seus rumos, Se desvia, se reencontra do prazer imediato, Para encontrar na cultura seu verdadeiro retrato. A libido intensa e incontrolável, Que na sublimação se torna palpável, Transmuta para expressões diversas, Nas obras de arte, nas rimas dispersas. A poesia é sublimação em sua essência, Onde o amor e a dor ganham coerência, Palavras e simbolismos que ecoam no ar, Revelando segredos de um mundo a desvendar. Nas tintas e pincéis de um artista audaz, A paixão se espraia, se expande, se faz, Quadros, obras, pontes, monumentos, Que eternizam querenças e sentimentos, No vórtice da mente, é a psique em movimento. Na música, a alma se liberta em notas, Que tocam o que o verbo não denota, A sublimação dança sempre no ritmo, Revelando em sons seus mais íntimos abismos. No divã que me analiso, Me remeto aos meus esconderijos, Sou o sujeito que encontra sua voz e sentido, Na arte, na linguagem, no ser social submetido. Essa tal sublimação é o caminho bendito, Onde a pulsão encontra meu lado infinito, Sou o ser em busca de mi mesmo, Que descubro na cultura meu remédio favorito. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- Os Afetos.
“Os afetos são a moeda do mundo emocional, ao revelarem a riqueza da nossa vida interior.” Por Dan Mena. De que falamos em psicanálise quando falamos em afetos? A que afetividade estamos nos referindo? A maneira como nos comportamos em relação aos impulsos e desejos internos foi fundamental para a formulação da primeira classificação das neuroses. Essa compreensão moderna está intrinsecamente ligada ao nascimento da própria psicanálise. Freud baseou suas experiências com pacientes histéricas para construir uma teoria a respeito dos impulsos, que foi posteriormente desenvolvida em termos metapsicológicos, onde serão definidos como legítimos representantes da pulsão. O conceito central metapsicológico desempenha um papel crucial nas mudanças teóricas importantes ao longo da sua obra. Claramente, eles funcionam como uma força interna, apoiados em funções biológicas, mas, sem dúvidas, não se intercalam nem se confundem com elas. A ideia pulsional, também, articulará instâncias do corpo e da mente. Sua origem está na nossa fisiologia, e sua relação com o contexto psíquico, mediada pelos seus representantes de estímulo, que incluem os afetos e suas representações internas. Essa articulação entre o biológico e o psíquico, será fundamental para a compreensão dos processos mentais e dos conflitos que podem surgir na psique. A noção de pulsão e sua interconexão com os aspectos biológicos e psíquicos são uma contribuição relevante para a psicanálise, fornecendo uma base teórica para a interpretação e compreensão dos mecanismos internos da mente e complexidades das condutas comportamentais. Boa leitura. O Dicionário de Laplanche e Pontalis define o afeto como um termo que a psicanálise buscou na terminologia psicológica alemã e que; ''exprime qualquer estado afetivo, penoso ou desagradável, vago ou qualificado, quer se apresente sob a forma de uma descarga maciça, quer como tonalidade geral''. Toda pulsão se deriva de dois registros; ''afeto'' e ''representação''. O afeto é a expressão qualitativa da quantidade de energia pulsional e das suas variações, a representação, o fenômeno representacional psíquico diretamente relacionado ao sistema nervoso humano, sendo analógicas e imagéticas. Elas são unidades mentais de objetos, situações, sensações, relações, etc. A história do afeto, tal como a da psicanálise, está intimamente ligada à histeria. No entanto, antes da “Comunicação preliminar” de (1893), e do aparecimento dos “Estudos sobre a histeria” em (1895), Freud fez algumas observações interessantes sobre o assunto. Determinadas anotações foram publicadas por ele, outras, se encontram na correspondência de cartas com Fliess, divulgadas em 1950. Em 1890, em “Tratamento psíquico” ou ''Tratamento da alma'', onde ele fundamenta a possibilidade de uma terapêutica ao respeito do tema. O termo ''afeto'', aparece várias vezes, enquanto ''emoção'' e citada com menos frequência. O exemplo mais evidente da influência da alma sobre o corpo é chamada de “Expressão das emoções”; tensão e relaxamento dos músculos faciais, fluxo sanguíneo para a pele, postura dos membros e alterações do pulso. Estes sinais corporais seriam muito confiáveis, á partir dos quais se podem expressar processos anímicos, substituindo os verbais. Etiologicamente, = D.: Affekt. — F.: affect. — : afeto. — /.: affetto. O termo emoção deriva do latim; ''emotio'', — onis — designa'': … ''Uma alteração intensa e transitória do humor, agradável ou dolorosa, a qual é acompanhada de uma certa comoção somática”. O significado que Freud lhe atribui é semelhante ao significado atual. Os afetos; (affekts), são considerados como: “… ''certos estados afetivos onde a coparticipação do corpo é tão dual quanto severa. Muitos pesquisadores pensaram que a natureza deles consistiria apenas nessas exteriorizações corporais”, … ''onde os estados afetivos persistentes, sejam tristes ou depressivos, como a frustração é o luto; quer da felicidade, prazer, regozijo, todos; dão origem a decorrências e repercussões corporais''. O termo alemão ''affekt'' que foi largamente utilizado, designa fenômenos cômpares aos implicados no significado psicológico de afeto e afetividade. Estes, que provém também do latim; ''affectus'', que pesquisado aparece como: “Cada uma das paixões do espírito, como a cólera, o amor, o ódio, etc.”. Finalmente definido no sentido geral; como; ''diferentes estados da alma de uma pessoa, apontando para as evidentes exteriorizações corporais que eles provocam''. “Ficaríamos muito gratos se houvesse uma teoria filosófica ou psicológica capaz de nos dizer o que significam para nós essas sensações imperativas de prazer ou de deslocamento. Infelizmente, nada de útil nos é oferecido sobre este assunto.” (Freud, 1920). Em 1915, focado na dimensão metapsicológica, escreve; “O Inconsciente”, onde determina uma definição para os afetos e sentimentos como; “… processos de descarga cujas manifestações finais são percebidas como sensações”. Pulsões não podem se tornar um objeto da consciência, o que nos permite ter uma perspectiva desse desenvolvimento pelo que seria a ''representação'', visto que ela é de fato, um elemento consciente. O destino delas não pode ser totalmente inconsciente, é necessária uma janela, uma vez que somos informados pelas exteriorizações emocionais, amostras, ações, exibições afetivas que acompanham a satisfação delas. Em “Tratamento Psíquico'' ou Tratamento da Alma”, Freud afirma: “Em certos estados emocionais chamados ''afetos'', a participação do corpo é tão significativa que muitos estudiosos da mente chegaram a pensar que sua natureza consistirá unicamente em exteriorizações corporais (…). Os estados emocionais persistentes, como a dor, ansiedade, preocupação e o luto, reduzem a nutrição do corpo, fazem com que os cabelos fiquem sem vida, os tecidos se tornem gordurosos e as paredes dos vasos sanguíneos sofram alterações patológicas. Inversamente, sob a influência de excitações alegres e exultantes, vemos o corpo inteiro desabrochar e a pessoa recuperar muitas características da juventude.” O que vemos neste sentido é que os processos corporais estão estreitamente conectados com o corpo e seus estados emocionais, mesmo aqueles que consideramos ser apenas ideias ou pensamentos, são de alguma forma “afetivos”, e nenhum deles está isento de exteriorizações corporais. Mesmo a atividade de pensar em representações que provocam agradados e bem-estar constantes. Na 32ª Dissertação: “Ansiedade e vida pulsional” (1926), Freud define a ansiedade como um estado emocional, algo que sentimos, onde a combinação das sensações da série prazer-desprazer, acompanhadas das fibras nervosas e suas ramificações da descarga e a sua percepção. Aqui observamos o nascimento, a marca de toda a angústia, onde por ditas vicissitudes se definem os três destinos pulsionais ligados a repressão: — O afeto não é abalado pela repressão e permanece presente na sua forma original, isto significa que a energia pulsional permanece ativa e não sofre alterações. — O afeto reprimido sofre uma transformação e se torna angústia. A angústia é uma forma particular de afeto, qualitativamente diferente das emoções normais, frequentemente associada a conflitos emocionais e ansiedades. — A repressão é tão eficaz que impede que o afeto se manifeste, isto significa que a energia pulsional é bloqueada e permanece no inconsciente, fora do alcance da consciência. Estes três destinos da pulsão diante da repressão exemplificam como afetos podem ser canalizados em diferentes direções, dependendo do seu processo repressivo. A repressão é um mecanismo de defesa fundamental, que permite ao indivíduo enfrentar e gerir conflitos psicológicos, mas também pode ter efeitos significativos na experiência emocional e sua expressão. O bebê, é sua dimensão codificada. A dimensão afetiva das primitivas reações emocionais do bebê é codificada fisiologicamente, envolvem uma mistura de respostas somáticas, uma assimilação cognitiva das experiências vivenciadas e incipientes simbolizações psico-afetivas dos seus eventos primordiais, (o nascimento). Esses aspectos diretamente relacionados à presença de um ''outro'', exercido pela função materna ou do cuidador. Essas experiências emocionais, gravadas originalmente na pisque, configurarão a profundidade da afetividade do indivíduo. Suas experimentações subjetivas irão regular, tanto às dinâmicas intrapsíquicas quanto as interações futuras com os ''objetos'', moldando assim o registro delas. Portanto, existe esse duplo caminho, que está além das dimensões biológicas e culturais, sendo intras e também interpessoais. Os dispositivos que estruturam ditas respostas infantis frente à vida são vitais para a socialização e humanização do sujeito, acontecendo unicamente através da mediação inevitável do outro. Desde o início da vida, esse ''outro'', retêm uma existência onde há uma fuga impossível como condição necessária. O sentimento introdutório dessa continuidade formativa vai se fazer presente desde o início da vida, é, será mantida com suas transformações próprias para o desenvolvimento, acrescentadas pelo estilo singular e particular para cada. Esse núcleo de fatores envolvidos, aponta para a formação estrutural como um fundamento da identidade, necessitando de estabilidade dos pais ou cuidadores envolvidos na constituição infantil. Essa noção do trânsito da formação, não deve ser misturada, trocada ou confundida com a questão temperamental do sujeito, embora possa de alguma forma sugestionar e induzir a determinadas reações emocionais da criança. Polaridades de tensão e descarga — prazer e desprazer, foram aperfeiçoadas após os estudos freudianos por novas concepções mais atualizadas e contemporâneas que não serão comentadas agora. Às respostas emocionais do bebê são absorvidas pelo seu impulso vital, por isso, são chamadas de afetos vitais, de forma percebidas como acontecimentos ligados às excitações. Na medida que o infante amadurece, ditas vivências vão se elaborando de forma mais estruturada, correndo em direção a padrões repetitivos, que por sua vez estão ligados ao seu ambiente com características únicas, e absolutamente correlacionadas aos seus estados afetivos. Essas interações, que ocorrem no âmbito de redes simbólicas, vão proferir o significado de mundo, enquanto se compõem psiquicamente. A afetividade é a base de toda subjetividade humana, sobre ela são consignadas as pontes qualitativas provenientes do ambiente, que posteriormente se tornarão o social é a cultura. O bebê, dará mão dessa afetividade do ''outro'', como um ''significativo'', onde os sentimentos originais e naturais dele(a), estarão ligados à assimilação que fez dessa primeira fascinação materna, sempre carregada de afetos provenientes da própria sexualidade da mãe. Inicia assim, (a criança), o caminho da simbolização, instaurando sua conexão inseparável entre aprendizado, experiencia e afetividade, que serão determinantes para todos seus vínculos futuros. Essa corrente pulsional materna não deve ser vista como uma manipulação sexual por parte do adulto, visto que o bebê, ainda imaturo, será relacionado e posto a prova diante de mensagens encobertas de desejo, pelos quais não possui regras, nem meios interpretativos, o que chamamos nesta fase de significantes enigmáticos. (Exemplo; nos Três Ensaios, o aleitamento: o seio, que veicula alimento e seus significados eróticos e sexuais, dos quais nem a mãe se dá conta. São enigmas também para o adulto, visto que a sexualidade é carregada de mensagens misteriosas para a criança, que, de acordo quanto as recebe por elas, será grifada, e para o adulto, seu portador-emissor, também, pois não percebe sua irradiação. A criança que está presente no adulto guarda essa marca do enigma, e essa é propriamente a matéria-prima de seus expedientes). Como objetos inconscientes, eles constituem a fonte das pulsões, funcionam como interações afetivas primárias, que produzem afinal o inconsciente. O ''outro'', como significativo, obriga a um trabalho psíquico na criança que possa definir seu processo metapsicológico, compondo e formando suas estruturas básicas para o desenvolvimento afetivo saudável. A teoria dos afetos. Posso citar aqui André Green, um psicanalista francês conhecido por cunhar o termo da ''teoria dos afetos''. Ele desenvolveu várias ideias importantes sobre o papel que desempenham e o funcionamento psíquico na vida emocional do indivíduo. Algumas das suas principais teorias incluem; - O complexo de vida-morte: Se refere à coexistência e interação das pulsões de vida e de morte na mente do indivíduo, que estão no centro deste complexo, onde o trabalho psíquico deles consistirá em encontrar uma forma de simbolizar e representar estes afetos opostos, ambivalentes e contraditórios. - Afetos tóxicos e o núcleo melancólico: Explorou a ideia de "toxicidade", interpretando que são emoções superabundantes e entorpecedoras, que surgem em determinadas condições emocionais. Esse núcleo taciturno a que se refere Green, estaria ligado a um sentimento de ausencia, perda e tristeza, presente em diferentes níveis da psique do sujeito. - O lado negativo: A importância do trabalho do negativo na vida psíquica, envolve a capacidade do indivíduo de lidar com a perda, a falta, sua incapacidade de converter, transfigurar e transmutar estas experiências em ações e produtos criativos e positivos. - Função alfa: Introduziu a definição e significado da função alfa, que se refere à competência e habilidade da psique em transformar afetos grosseiros, agressivos e primitivos em representações simbólicas e expressivas. As teorias de Green sobre os afetos e o seu papel na vida emocional têm sido influentes na teoria psicanalítica, contribuíram para uma maior compreensão da complexidade da experiência emocional na nossa mente. Seu trabalho continua a ser debatido na comunidade psicanalítica atual devido sua importância e extensão. O psicanalista afetivo. Este termo pode designar um profissional terapeuta especializado na análise e compreensão dos aspectos afetivos dos pacientes. Dito perfil técnico deste profissional se foca na exploração do trabalho terapêutico relacionado com as emoções, os sentimentos e os afetos profundos que influenciam o comportamento e bem-estar psicológico das pessoas. Seu enfoque se embasa nas teorias da psicologia psicanalítica, desenvolvidas por Freud e posteriormente alargadas por outros psicanalistas como Klein, Bion, Jung e Lacan, entre outros. Estas abordagens teóricas enfatizam a importância do inconsciente e a influência dos impulsos emocionais e desejos reprimidos no comportamento humano, emoções e afetos subjacentes, identificando possíveis conflitos não resolvidos e a possibilidade de desenvolver uma maior consciência de si próprios e dos seus padrões emotivos correspondentes. É um processo aprofundado que pode levar tempo de assimilação, se centra na promoção do crescimento pessoal, na auto-consciência e na resolução interiorizada para melhorar a qualidade de vida. É importante notar que o termo não é uma designação oficial no campo da psicanálise, psicologia ou psiquiatria, mas sim, uma forma de descrever a orientação ou ênfase do(s) profissional(ais) na sua aproximação terapêutica. Os psicanalistas em geral, somos treinados para trabalhar com uma vasta gama de problemas emocionais e psicológicos. Vejamos algumas frases célebres que falam sobre afetos; “Os afetos são a vida da mente, a energia que nos move e nos impulsiona para a ação.” Freud. “Os afetos são a linguagem da alma, revelando os segredos mais profundos do nosso ser.” Klein. “Os afetos são a matéria-prima do trabalho psicanalítico, são a chave para desvendar nossos desejos e medos mais íntimos.” Lacan. “No divã do analista, os afetos encontram um espaço para se expressar, transformando-se e ganhando novos significados.” Winnicott. “A mente humana é um turbilhão de afetos, cada um com sua própria história e importância.” Bion. “No processo terapêutico, os afetos são nossos guias, nos mostram o caminho para o autoconhecimento.” Anna Freud. “O psicanalista tem a missão de explorar e compreender os afetos do paciente, desvendando suas emoções mais profundas.” Kernberg. “Os afetos nos mostram o que realmente nos importa e nos preocupa, são o coração pulsante de nossa existência.” Erikson. “Através da análise dos afetos, podemos compreender as complexidades da mente humana e sua capacidade de transformação.” Kristeva. Essas frases ressaltam a importância deles e o papel que desempenham em nosso trabalho psicanalítico. Cada psicanalista abordou o tema de acordo com sua própria teoria e perspectiva, enriquecendo assim nosso entendimento sobre o mundo emocional. Lacan e os Afetos. Em Lacan, no seu Seminário XI, lemos que a pulsão se articula com a linguagem, mais especificamente, com a demanda (demanda; o conceito que orienta o analista na construção do caso que se apresenta. Toda queixa é sua posterior análise começa com uma demanda, o analista deve visar o que não é dito, para saber precisar o que está aquém, sendo o desejo). Seguindo, ele define a pulsão como; “o conjunto através do qual a sexualidade participa da vida psíquica”. A pulsão representa a realização da sexualidade no ser vivo, uma vez que não há inscrição no psiquismo que dê conta de como se situar em relação ao outro sexo, não há instinto que oriente o encontro dessa sexualidade tida como a ''posição do inconsciente''. Sublinha, também, que a pulsão só representa a realização da sexualidade apenas parcialmente, o que é fundamental nela é a oscilação com que ela se estrutura. O circuito da pulsão parte da zona erógena para o objeto, e regressa ao local de start-partida (original). O seu objetivo não é outro senão retornar ao ponto inicial, sob a forma de um contorno circular sobre o próprio corpo, desde que o outro esteja envolvido nessa posição. A pulsão contorna o objeto, mas é o próprio corpo que ela visa, vai à procura específica dele, através da libido, implicada pelo desejo. Nesse circuito que percorre e retorna, o sujeito perceberá que; “o seu desejo não é mais do que um desvio para fisgar, apanhar, o gozo do outro”, que será provisoriamente satisfeito, mesmo acontecendo uma insatisfação. O sintoma da reivindicação daquele que chega ao consultório é geralmente inconsciente, busca pela satisfação de um gozo pulsional, um aprazimento que não é aquele que ele(a) procura como sujeito. Temos então aqui o ''gozo da pulsão'', na sua linha de sofrimento, visto que será na pulsão ou pela sua via onde resolveremos uma satisfação irresoluta, destarte, o prazer é o oposto do gozo. Ao se articular com a libido através dos efeitos da castração, a pulsão se articula com o fálico, (genital), permitindo que o sujeito se interesse pelo corpo do outro. Logo, o ''corpo do outro'', será o caminho do gozo. “O que se chama de perversão”… gozo fálico é o gozo do poder, do domínio em todas suas formas, jurisdição sexual, potência-impotência, poder político, epistêmico, artístico, ou seja, onde o poder fálico converge com o narcisismo”. C. Soler. Lacan fez importantes contribuições para o campo da psicanálise, incluindo sua perspectiva única sobre ele e sua relação com a vida emocional. São às respostas do sujeito ao encontro com o ''Outro'', ou seja, com os outros indivíduos e o mundo ao seu redor, não são simplesmente reações emocionais, mas sim, o resultado do processo de simbolização e significação que ocorre na relação entre o sujeito e esse ''Outro''. Eles têm uma presença significativa no inconsciente, expressos por símbolos, metáforas, ficções, imaginação e imagens, que muitas vezes escapam à compreensão consciente do indivíduo, transpassando o ser na forma de um poder-potência, capaz de influenciar seu comportamento e como se relaciona com o social. O Complexo de Édipo é um conceito central na teoria de Lacan, que aborda a fase do desenvolvimento em que a criança experimenta sentimentos de amor e desejo em relação ao sexo oposto e sua rivalidade com o pai do mesmo sexo, conflitos emocionais medulares para a construção do psiquismo. A angústia, como uma emoção paralisante, pode surgir em resposta a certas experiências emocionais não resolvidas, como os afetos tóxicos, sendo emoções negativas e afetam o bem-estar psicológico, prejudicando a capacidade de lidar com as adversidades. Aspectos metapsicológicos. Em “A Repressão”, Freud afirma que; “a essência da repressão consiste em rejeitar algo da consciência e mantê-la afastada dela”. No entanto, mais adiante, no mesmo artigo, ele descompõe esse agenciamento como representante da pulsão em quantidade de afeto e representação propriamente dita. O destino da concentração de afeto, representante da pulsão, é muito mais importante do que o destino da sua representação, e os mecanismos da repressão têm algo em comum, como, por exemplo; subtrair o investimento energético. Em “O Inconsciente”, afirma; que a “supressão do desenvolvimento do afeto é a verdadeira meta da repressão” (Freud, 1979). Após o processo repressivo, tais representações continuariam a existir como formações do real no inconsciente, enquanto ao afeto inconsciente só haveria uma possibilidade de expressão que não lhe seria permitida. Se há algo que não lhe é autorizado e expressar, é porque esse algo realmente existe; “o desenvolvimento do afeto se torna possível a partir deste substituto consciente, cuja natureza determina o caráter qualitativo dele”, (Freud, O Inconsciente, 1979). Após erigir e construir a repressão, conseguimos reconduzir afetos às suas causas originais, quando na repressão só existiriam representações e cargas sem qualidade, o que para tal finalidade o afeto seria a experiência subjetiva dessa descarga. Em alguns casos, afetos intensos ou considerados “inaceitáveis” pela sociedade podem ser reprimidos e negados pelo indivíduo. A repressão deles pode levar a conflitos internos, ansiedade, depressão e problemas emocionais. A psicanálise explora como os afetos reprimidos podem encontrar expressão no inconsciente, influenciando nosso comportamento de maneiras sutis e muitas vezes desconhecidas. Embora sejam uma parte natural da experiência humana, é essencial aprender a regular e gerenciar nossas emoções para nos adaptarmos adequadamente às diversas situações da vida. A capacidade de expressar e processar eles de maneira saudável é crucial para o nosso bem-estar emocional e mental. Têm um papel essencial em nossas vidas, ao moldarem nossas experiências, influenciam nossa percepção de mundo e de nós mesmos. Ao entender e explorar suas profundezas, podemos nos tornar mais conscientes de nossos sentimentos e desenvolver uma maior habilidade em lidar com nossas reações emocionais negativas. Aprender a regular e expressar sentimentos de maneira saudável nos ajuda a alcançar uma maior harmonia emocional e a viver uma vida mais equilibrada e satisfatória. Libido, sexo, afetos, fantasias, corpo, adulto, criança, trauma, frustrações, enigmas, prematuridade; são terrenos que sempre conduzem ao conceito de sedução, (a teoria da sedução foi a primeira proposta sistemática de Freud para dar conta de um excedente de excitação que faz uma exigência de tradução ao sujeito, constituindo, ao mesmo tempo, o seu aparelho psíquico), uma verdade necessária à constituição da psique e seus significantes misteriosos. Sem dúvidas, será uma estação de parada obrigatória, como um destino pré-fixado para todos nós. Como Freud referia; ''medidas externas de nosso estranho que nos escapa'', algo em nós, com um quê de repelência e enigmático. E é esse precisamente nosso material de construção na psicanálise, o tal do ofício do impossível, mas que se faz imprescindível, em tempos onde o ''outro'', é muitas vezes visto com desconfiança, sem haver fundamentos. Ao tratar do sexual, do pulsional, surge a etiologia sexual, que será subjacente ao conflito humano e ao sintoma, que escapa à compreensão do sujeito. Ao poema de Olavo Bilac; Ao Coração Que Sofre. Ao coração que sofre, separado Do teu, no exílio em que a chorar me vejo, Não basta o afeto simples e sagrado Com que das desventuras me protejo. Não me basta saber que sou amado, Nem só desejo o teu amor: desejo Ter nos braços teu corpo delicado, Ter na boca a doçura de teu beijo. E as justas ambições que me consomem Não me envergonham: pois maior baixeza Não há que a terra pelo céu trocar; E mais eleva o coração de um homem Ser de homem sempre e, na maior pureza, Ficar na terra e humanamente amar. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- Self, Verdadeiro e Falso.
“O verdadeiro self é o que você é quando ninguém está olhando.” Winnicott. Por Dan Mena. O que é o conceito de self? Neste artigo sintetizo a compreensão da teoria do self, explorando e comparando diferentes perspectivas propostas por autores proeminentes historicamente. O conceito é fundamental em psicanálise, se relaciona com a identidade e a unidade psicológica de um indivíduo. Ao longo do seu desenvolvimento, vários especialistas têm contribuído para a compreensão deste tema, focando distintos aspectos da sua formação e funcionamento. Ditas interpretações incluem Freud, Winnicott, Kohut, Lacan, Melanie Klein, Descartes, entre outros, visando expor suas visões e implicações para a prática clínica. O self é descrito como a instância psíquica que contém os elementos que compõem a personalidade, mas não integra o núcleo da existência genuína do indivíduo. Assim, seria o protagonista da vivência é o “ser interior”, onde atua como coadjuvante principal na formação da personalidade. Boa leitura. No domínio das definições de identidade, duas perspectivas proeminentes são as oferecidas pela psicanálise, aquelas que se centram no estudo da base biológica do comportamento. Defendemos que a identidade se assenta numa estrutura inconsciente, embora esta elaboração tenha sido criticada por questionar a existência de uma arquitetura psíquica universal que transcende as fronteiras culturais e simbólicas. Por outro lado, a visão biologista goza de reconhecimento social e considerada mais científica, devido ao seu enfoque nos métodos das ciências naturais. No entanto, esta formulação apresenta problemas teóricos e éticos. Do ponto de vista do primeiro é reprovada pelo seu angulo de negar a influência da natureza simbólica da linguagem e da cultura na formação da personalidade, pela qual se negligencia a importância dos significados que conferimos à nossa representação do ''eu'' e como estes estão sujeitos a contingências sociais e culturais. Sob a ética, as teses biológicas do comportamento podem ser facilmente instrumentalizadas por pessoas mal intencionadas, conduzindo a propostas de segregacionismo, diferenças raciais, xenofobia e justificação da discriminação e violência social contra os grupos menos favorecidos. A interpretação do comportamento humano como o resultado de uma determinação natural, decorrente do substrato biológico, pode legitimar a marginalização e a destruição dos indivíduos considerados ameaçadores ou fora do cânone biológico, que possam ser estabelecidos e usados como argumentos pelos grupos ou pessoas no poder. Ambas as leituras, oferecem diferentes prismas e pensamentos que pairam sobre a identidade, por esta razão é essencial considerar os aspectos culturais, simbólicos e éticos no estudo da formação e sua compreensão. A complexidade da psique exige uma abordagem interdisciplinar que integre suas dimensões psicológicas, abrindo para uma sustentação mais completa, humana, contemporânea e respeitadora da nossa diversidade como raça. Como um elemento que se contrapõe ao “eu consciente” e compreende não só a “psique consciente”, mas também o “inconsciente”, é, portanto, por assim dizer, uma personalidade na qual “também”, ''somos'', (estamos inclusos). Não existe possibilidade de alcançar uma “consciência” do ''eu'', mesmo que aproximada, pois, por mais que desejemos torná-la consciente, haverá sempre uma quantidade indeterminada e indeterminável de “inconsciente” estabelecida, que pertence a uma totalidade desse ''eu''. Freud não desenvolveu propriamente o conceito de identidade, embora o mencione e esteja implícito em vários pontos da sua obra, principalmente quando fala de identificações. Para Freud, o ego é a parte da mente que lida com a realidade externa e atenderá às demandas do mundo externo, enquanto também tenta satisfazer as pulsões do ''id'' de forma socialmente aceitável. O ego, na sua função, desempenha um papel fundamental na formação da identidade e do self, uma vez que é responsável por integrar diferentes partes da psique e equilibrar demandas. A ''psicologia do eu'' introduz o sentido para se referir à representação mental que uma pessoa tem de si própria. Essa identidade responde ao nível de integração e de coesão das representações do eu, como forma do indivíduo se percepcionar, de enxergar sua consciência e encadeamento com seu corpo, das emoções e a justificação do desenvolvimento das ações que empreende. Na psicopatologia, a presença da síndrome de identidade é considerada nos pacientes borderline; (transtorno de personalidade borderline, caracterizado por um padrão generalizado de instabilidade e hipersensibilidade nos relacionamentos interpessoais, mudanças emocionais bruscas, flutuação na autoimagem, inconsistências extremas de humor e impulsividade). Esta sintomatologia se define por uma grave dificuldade em integrar ditas representações. É comum que durante a adolescência se manifestem confusões intensas em relação à identidade, (embora não sejam exclusivas desta fase). Isto se deve ao fato do período adolescente passar por uma ponte de experiências inovadoras e significativas que redundam na imperícia de resolução imediata nos aspectos mais básicos e importantes da vida: aceitação ou rejeição do corpo, relação com os pais, primeiros relacionamentos, comunicação social e a sua translação do papel de criança para uma fase de introdução de responsabilidades. A perspectiva monológica do eu. A compreensão da natureza do “eu” é um tema que tem intrigado filósofos, psicólogos, psicanalistas e pensadores ao longo dos séculos. Uma das abordagens fundamentais para entender o self é a visão monológica, cujas bases podem ser traçadas até as obras de Descartes e Locke. Essa aproximação revela quatro características essenciais que lançam luz sobre a maneira como percebemos a nós mesmos e ao mundo ao nosso redor. 1. O papel das representações. No cerne da cena monológica está o rol das representações, o ''eu'' considerado a visão global de mundo, dos outros indivíduos e até dos próprios sentimentos, desejos e temores, (Taylor, 1991). Essas caracterizações atuam como intermediárias, reguladoras entre nós e a realidade perceptível, permitindo que possamos interagir com o social, formar conexões e nós compreendermos. Por meio delas, construímos uma espécie de mapa mental da situação, o qual nos auxilia a planejar e executar ações, e também, nos conectam com o fisiológico. Nessa abordagem, a representação desempenha um papel importante, sendo a teoria sempre priorizada sobre a prática, o que implica que nossas atuações e decisões sejam influenciadas pelas configurações internas que formamos e estruturamos dentro desse padrão, refletindo uma relação intrincada entre a mente e a realidade externa. 2. A natureza oculta da mente. O domínio mental é percebido como algo solapado nas fronteiras da “mente” das pessoas, (Shotter, 1993). Essa mente é considerada um órgão neutro, uma espécie de intermediário entre o indivíduo e o mundo, que opera com base em princípios que são independentes do contexto em que ocorrem. Esse entendimento sugere que é uma entidade autônoma, possuindo suas próprias características e funcionalidades, portanto, vista como um sistema de processamento de informações que interpreta e responde ao mundo exterior, moldando assim nossas experiências e compreensões individuais. 3. A divisão do mental, social e corporal. Se caracteriza por uma distinção clara entre os domínios mental, social e corporal. O indivíduo cartesiano, seguindo uma metodologia específica — o método da dúvida de Descartes — consegue desenvolver representações sobre o mundo e o corpo. Essa separação entre os diversos campos ressalta a ideia de que a mente opera de maneira independente do contexto social e das manifestações físicas corporais. Essa desagregação pode ser entendida como uma tentativa de isolar o ''eu'' como uma entidade autônoma, que age desvinculada das influências externas, no entanto, essa abordagem pode ser criticada por negligenciar as interações complexas entre o ''eu'', e o ambiente social que ocupa o corpo. 4. O desenvolvimento das teorias mentais. Um dos aspectos notáveis da concepção monológica é desenvolver teorias mentais ordenadas, alocadas na capacidade de recordar, perceber e atribuir significado, o que é visto como às ações individuais que ocorrem no espectro do espaço mental, (Shotter, 1993). Essas interações culminam na construção de conjecturas internas que moldam nossa percepção, assimilação, apreensão, captação, absorção, discernimento e razão de englobamento. Organizadas, influenciam a maneira como percebemos, interpretamos e respondemos a determinadas situações, moldando nossa interação com os outros e a associação das próprias conexões. Destarte, a ênfase excessiva nessas postulações pode limitar nossa cognição das complexidades emocionais, deformando o discernimento das experiências e influências sociais. Descartes não desenvolveu explicitamente uma teoria completa da personalidade como entendemos nos contextos modernos. Seu pensamento filosófico influenciou indiretamente as ideias sobre a natureza da personalidade e do self. Suas obras e conceitos-chave incluem; “Meditações sobre a Filosofia Primeira” (1641): Nesta obra, introduz seu famoso “Cogito, ergo sum”; (“Penso, logo existo”), que enfatiza a importância do pensamento e da consciência como a base da existência humana. Isso seja um precursor das teorias post-modernas que ressaltam a consciência, o autoconceito e a reflexão como componentes centrais da identidade pessoal. Dualismo cartesiano: A distinção que fez entre a mente; (res cogitans) e o corpo; (res extensa) é uma das contribuições mais relevantes para a filosofia da mente, estabelece aqui a divisão fundamental entre a mente e o corpo, o que estruturará a maneira como muitos filósofos e teóricos subsequentes abordaram sobre a compreensão do self. Em “Paixões da Alma” (1649). Explora as emoções humanas e suas flamas, afetos, amores, apegos, uma aproximação dualista sobre os sentimentos, aonde navega nas reações automáticas do corpo em resposta a estímulos, mas entende que podem ser controladas pela mente racional. Autonomia racional: Trabalha na ênfase da razão como uma capacidade única da mente humana, anotando a influência das ideias, personalidade e identidade como interligadas à capacidade de raciocinar e tomar decisões conscientes. Método da dúvida: O dispositivo sistemático da dúvida utilizado por Descartes em suas; “Meditações” para alcançar certezas indubitáveis tem implicações na formação da personalidade. Esse critério destaca a importância do pensamento crítico, da autorreflexão e da busca pela verdade individual. Filosofia da subjetividade: Dá ênfase na subjetividade do pensamento e da consciência, contribuiu para a compreensão da personalidade como uma experiência interna única para cada indivíduo. Ditas teorias da personalidade como as conhecemos hoje são produtos de desenvolvimentos filosóficos, psicanalíticos, psicológicos e científicos posteriores, interpretar os subsídios de Descartes exige contextualização e análise crítica em relação ao seu tempo e à evolução subsequente das ideias apresentadas. A perspectiva monológica do eu, com suas raízes profundas na sua obra, quanto as de Locke, oferecem uma visão única sobre a natureza do self e sua relação com o mundo. A ênfase nas representações mentais, a visão da mente como um ente autônomo, a divisão entre os domínios; mental, social e corporal, bem como o desenvolvimento de teorias psíquicas organizadas, são características fundamentais dessa abordagem. No entanto, é importante reconhecer que essa análise pode ser limitada, ao par que desconsidera as interações complexas entre o eu, o ambiente social e o corpo, enquanto proporcionam insights valiosos. Também é essencial, que sejam explorados outros contributos que incluam a riqueza e complexidade da experiência humana em sua totalidade. Uma exploração psicanalítica do self pela dinâmica de Lacan. Nos aproximando para análises mais progressistas, Lacan trabalhou profundamente na compreensão do self, suas influências e as implicações de suas ideias para a psicologia moderna, como O Eu, o Outro e o Espelho, especialmente na ''Teoria do Espelho''. Uma das contribuições mais conhecidas, que aborda o processo de formação do self na infância. Neste estágio, a criança se reconhece pela primeira vez como um ser distinto através da imagem refletida em um espelho. Esse momento, marca o início da formação do ''ego'' e do senso de identidade, onde tal identificação inicial é ilusória e fantasiosa, uma vez que o self percebido é uma distorção do desenho unificado que oculta a fragmentação intrínseca do ''self, verdadeiro''. Adiante farei nota sobre o ''falso self”. A ordem simbólica e o desejo. A ideia da “ordem simbólica”, se refere ao sistema de símbolos, significados e linguagem que moldam nossa experiência, a formação do self é influenciada pelo acesso a essa metafórica ordem figurativa, permitindo que possamos ampliar, alargar identidades sociais e culturais. Entra aqui o desejo, como uma parte elementar do self, atuando como uma força complexa, muitas vezes inconsciente, que impulsiona a busca da satisfação e onde se aloca também como elemento de frustração, insatisfação permanente e orexia. O conceito do “Outro”. O papel do “Outro” na construção do self não é apenas a estrutura caracterizada pelo sujeito separado, mas também simboliza a cultura, as normas sociais e as expectativas que influenciam a formação da identidade. A busca pelo reconhecimento e validação desse “Outro” pode moldar o desdobramento do self, muitas vezes gerando tensões entre a autenticidade pessoal e a imposição com a conformidade social. A fragmentação do self — “Objetos a” e a busca pela coerência. A convicção e avaliação lacaniana do self é marcada pela ideia de que morfologicamente está intrinsecamente fragmentado e instável. A busca pela coerência e pela totalidade é uma tarefa contínua, primária a todo indivíduo. Neste ponto, será introduzido o conceito de “objetos a”, os quais são elementos inatingíveis que representam as partes perdidas e insatisfeitas do self. A busca por esses objetos pode se manifestar de maneira inconsciente nos comportamentos e escolhas que realizamos. “Objetos a”; Freud desvendou que nossos impulsos, sejam eles de natureza agressiva ou sexual, buscam encontrar satisfação para se libertarem. Utilizando este caminho, e para atingir esses objetivos se valem de objetos, mesmo que eles não possuam importância ou pouca representatividade sob a visão dos impulsos. Seja outro sujeito, roupa, alimento, vestuário, adereço, tudo seria descartável e insignificante, visto que o íntimo para os impulsos mora na obtenção da própria descarga. Logo entendemos, que embora seja necessária a presença de ''objetos'' para que nossos impulsos alcancem a satisfação, logo eles serão circunstanciais, substituíveis, provisórios e mutáveis. Assim, inclinações pulsionais não estão fixadas a objetos específicos, necessitam de algo que execute essa função. É aqui que entra o conceito de “objeto a”, como um espaço a ser envolvido por inúmeros objetos concretos necessários a satisfação. Para dar um exemplo lúdico; imaginem Papai Noel passando em diversas residências e tentando coletar no seu saco vazio de presentes, ''objetos'', usando de súplicas, pedindo, rogando, postulando e solicitando eles; assim ele poderia dizer; “Preciso de qualquer coisa que possa preencher meu saco de regalos, tudo serve, se ficar abarrotada, cheia, e possa estar completamente provida”. Nesta metáfora que elaborei, o saco de presentes indicaria o “objeto a”, precisa e rigorosamente por esse ''objeto'' ser um espaço teoricamente vazio, lugar este, onde nossos impulsos são provocados, incitados a busca do necessário preenchimento desse suposto vazio temporal e permanente que nos habita. Cabe, portanto, dentro desta concepção a introdução deste significativo lacaniano, que firma o “objeto a” como causa, origem, e fonte do desejo da nossa natureza. A importância do self para a análise. O prisma de Lacan sobre o self e absolutamente multifacetada para entender a identidade humana. Suas ideias complexas, que adicionam a formação do ego, a influência da linguagem, a importância do desejo e sua relação com o “Outro”, têm influenciado fortemente a psicanálise, psicologia, a filosofia e a teoria crítica. Como não podia diferir, suas concepções são frequentemente debatidas e criticadas, refletindo a natureza evasiva e desafiadora do self humano. Sua impecável obra, nos convida a investigar, pesquisar e perpetuar os exames das complexidades propostas pela identidade, reconhecendo a influência das dimensões inconscientes e sociais impostas a sua abrangente compreensão. Podemos consagrar e sinalizar aqui, que Lacan mais uma vez contribui com mais de um ensinamento, somando elucidações incríveis para a psicanálise, como uma ferramenta essencial para explorar e compreender nossa mente. A importância da análise do inconsciente, e a interpretação dos símbolos, a reflexão sobre os desejos ocultos que se misturam no processo analítico, onde o indivíduo é capaz de poder confrontar todos os elementos fragmentados do self e trabalhar em direção à sua reconciliação e integração. Frases de autores importantes; “A busca pelo verdadeiro self é uma jornada para além das máscaras sociais que esconde nossa essência autêntica.” Klein “Na psicanálise, o verdadeiro self emerge quando nos atrevemos a explorar as profundezas do inconsciente.” Jung “O verdadeiro self é o núcleo de nossa identidade, muitas vezes obscurecido pelas defesas e distorções do ego.” Anna Freud “Através da psicanálise, descobrimos que o verdadeiro self é a chave para a saúde mental e a realização pessoal.” Erikson “O verdadeiro self é o poço de nossa essência, no qual mergulhamos através do processo psicanalítico.” Rollo May Máscaras e autenticidade na psicologia. A busca pela compreensão da identidade humana é uma jornada complexa, repleta de nuances e camadas que influenciam quem somos e como nos apresentamos ao mundo. Uma faceta intrigante dessa busca é o conceito de “falso self”, uma construção psicológica que reflete como algumas pessoas mascaram suas verdadeiras identidades por várias razões. Origens do falso self. O conceito de falso self tem suas raízes na psicologia e na psicanálise, sendo influenciado por teóricos como Donald Winnicott e Melanie Klein. Winnicott, em particular, anotou ser; uma resposta a ambientes não acolhedores ou negligentes na infância. Algumas pessoas desenvolvem um “falso self” como uma maneira de se adaptar e se proteger. Ele representa uma máscara social que esconde os verdadeiros sentimentos, pensamentos e desejos do indivíduo. Heinz Kohut, um dos principais expoentes da psicologia do self, enfatizou a importância das necessidades de espelhamento e empatia no desenvolvimento saudável do self. Para Kohut, as crianças precisam ser espelhadas e validadas por seus cuidadores para desenvolver um senso positivo, onde a ausência dessas necessidades pode levar ao surgimento de distúrbios, como o narcisismo patológico. Suas características. Falso Self. É uma construção: Nasce como uma resposta à necessidade de se encaixar nas expectativas dos outros ou de evitar rejeição e crítica. Superficialidade e conformidade: Se apresenta como agradável, socialmente aceitável e conforme as normas. No entanto, essa correspondência é frequentemente superficial e pode mascarar uma desconexão entre a pessoa e sua verdadeira natureza. Máscaras sociais: Em essência, um disfarce usado para se adequar às situações sociais. A pessoa pode se esforçar para parecer feliz, extrovertida(o) ou assertiva(o), bem-sucedido(a), mesmo que esses traços não reflitam seu momento, sentimentos e posição real de qualquer natureza. Desconexão Interna: Por trás da fachada do falso self, há uma desconexão profunda entre o que a pessoa mostra ao mundo e o que ela realmente sente e transpassa. Isso pode levar a um sentimento de vazio, insatisfação e falta de autenticidade. Negação: Frequentemente aquele afetado, pressupõe negar partes genuínas do ''eu'' para se encaixar no ambiente, isso pode resultar em uma falta de autoconhecimento e aceitação da sua personalidade. Implicações e impactos. O desenvolvimento do falso self pode ser uma estratégia adaptativa em certos contextos, mas também leva a sofrer consequências psicológicas significativas. A desconexão entre o falso self e o self autêntico pode causar estresse, ansiedade, depressão e um sentimento persistente de vazio. A busca incessante por aprovação externa em detrimento da autenticidade pessoal pode corroer a autoestima e levar a uma crise de identidade. Caminhos para a autenticidade. A jornada rumo à nossa verdade envolve reconhecer o falso self atuando como protagonista da nossa vida, o que passa por explorar as razões originais e subjacentes da sua formação. A terapia psicanalítica pode desempenhar um papel crucial ao auxiliar os indivíduos a explorar suas emoções reais, desejos genuínos e padrões comportamentais condicionados a se desenvolverem ao longo da trajetória pessoal. Ao cultivar a autoconsciência, aceitação e conhecimento de si, no confronto, despertamos progressivamente esse re-alinhamento do self externo com sua verdadeira essência, permitindo a passagem para uma vida mais autêntica e satisfatória. O falso self e a máscara psicológica. Por outro ângulo, o falso self lança luz sobre as complexidades da identidade humana e como as pessoas podem, às vezes, sacrificar sua autenticidade para se adaptar ao mundo a sua volta. A busca pela genuinidade, é uma jornada individual que é muitas vezes desafiadora, mas, e um princípio fundamental para elaboração de uma saúde mental e emocional convincente e adequada a realidade. Sua compreensão nos oferece uma oportunidade de explorar nossa relação com máscaras sociais singulares, buscando uma resolução pacificadora. Na psicanálise, aprofundamos para guiar o indivíduo na compreensão da mente humana sobre inúmeros enredos da psicologia e da identidade, desvendando essa outra faceta desse conceito intrigante, que emerge como uma variação. Através dessa lente, podemos adentrar nas suas características e reconhecer suas interações psíquicas na formação da personalidade. Uma adaptação defensiva. Na psicanálise, o falso self é entendido como uma estratégia adaptativa que desenvolvemos em resposta às demandas do ambiente e das relações interpessoais. Melanie Klein, sugeriu que o mesmo se origina em estágios precoces do desenvolvimento, quando a criança aprende a suprimir ou ocultar aspectos de sua personalidade autêntica para se ajustar às expectativas dos outros. Esse processo é impulsionado pela necessidade de sobrevivência, aceitação e proteção. Winnicott expandiu o conceito com sua teoria sobre o “verdadeiro self” e o “falso self”, aonde enfatizou, que o verdadeiro é a parte autêntica e essencial da personalidade, aquele que reflete as emoções, desejos e crenças genuínos de um indivíduo. Já o falso, surge como uma arma defensiva de fachada, camuflando a personalidade, levando a uma desconexão interna. Se estabelece como um mecanismo enraizado para estabelecer estratégias psicológicas que possam nos proteger de indivíduos ou sentimentos angustiantes, sejam oriundos de ameaças internas ou externas. Estabelece assim o sujeito, um escudo adaptativo imaginário, represando e ocultando seus impulsos, medos e vulnerabilidades subjacentes. Essa máscara, pode permitir que em determinado(s) momento(s) nos adaptemos ao mundo, a alguém, situações, etc., (o que pode incluir os pais, cuidadores, família, relacionamentos, amigos, atividades profissionais, etc.), que levarão inevitavelmente a consequências de uma perda de autenticidade. Consequências do falso self. Pode servir como um mecanismo adaptativo, destarte, também trará implicações psicológicas negativas, desconectando o verdadeiro do falso, levando o sujeito a uma alienação interna, sinalizada por uma angustiante ansiedade e possível formação de um quadro depressivo. Essa gangorra social destes tempos, que lança suas redes na busca constante de validação externa, numa sociedade exigente que pressiona por ratificações, consagrações e confirmações. Esse pressuposto alcança o individuo em detrimento da interposição do seu lídimo original, minando sua autoestima e propiciando seu envolvimento para permanecer cativo a uma sensação persistente de impossível satisfação. Vejamos algumas frases de alguns autores; “Na psicanálise, desvendar o falso self é como remover camadas de proteção para revelar a vulnerabilidade subjacente.” Klein “O falso self é uma construção defensiva que se desenvolve para proteger o verdadeiro self de ameaças externas.” Winnicott “O falso self é como uma máscara que esconde as partes mais autênticas e vulneráveis de nossa psique.” Kohut “O falso self muitas vezes emerge como uma resposta a um ambiente não acolhedor, como uma forma de adaptação.” Erikson “O falso self é uma construção que mascara a angústia interna, muitas vezes escondendo nosso verdadeiro eu.” Rollo May “O falso self é uma criação defensiva que protege nossa vulnerabilidade, mas também pode limitar nossa autenticidade.” Rank A jornada para a autenticidade. Na psicanálise reconhecemos a importância de explorar o falso self como parte de uma jornada de autoconhecimento e crescimento. A análise psicanalítica oferece um espaço seguro para os indivíduos desvendarem suas camadas e acessarem o verdadeiro íntimo dissimulado. Ao revisitar as emoções reais, desejos autênticos e experiências encobertas, os indivíduos podem começar a alinhar sua identidade externa com sua essência interior, promovendo uma jornada em direção à integridade psicológica. Selfis — por Dan Mena. No palco da mente, uma dualidade dança O self verdadeiro, por onde o falso avança Dois atores encenam, uma adaptação do tema protagonista e coadjuvante, juntos estrelam Num intricado jogo de cena O verdadeiro se mistura na sua essência plena Reflete a alma, cada curva derradeira Trás ilações profundas, do social e da cultura Representa com fervor, uma real jornada interior Mas o falso self, é uma máscara elaborada Criada para enfrentar o mundo na jornada Adaptada ao exterior como máscara desenhada Oculta no seu interior sua pintura desbotada De amarras a correntes que o falso self cria Tem o outro lado que a autenticidade infinda Grita o legítimo anseio de soberania Descativeiro de uma imagem distorcida Tem horas que eu não me entendo Me obrigo a ser o que não represento Será que tem alguém me submetendo? Já nem sei quantas almas tenho. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- Tecnologia e Nomofobia.
“A tecnologia pode funcionar como uma forma de evitar o enfrentamento das questões emocionais, criando uma fuga da realidade.” Jung, por Dan Mena. A condição humana continua sendo objeto de discussão na modernidade, uma vez que o diálogo sobre sua formação social revela a transformação que o ser civilizado atravessa. Em um contexto caracterizado pela onipresença de tecnologias e meios de comunicação, ao mesmo tempo, em que se enraíza nos princípios da ciência, estas, que por sua vez, moldam a constituição do sujeito. Nesta ordem, a psicanálise introduz o conceito de mal-estar civilizatório como uma ferramenta para compreender as condições que se contrapõem e contribuem para a introjeção de vulnerabilidade a que estamos aparentemente expostos. As concepções relativas à pos-modernidade, refletem, ao longo das mudanças históricas, uma variedade de contextos e ponderações que giram em torno da posição do indivíduo na sociedade. No âmbito da nossa condição, as transições que se sucederam ao longo dos séculos deram origem a novos costumes, hábitos e crenças que exercem uma influência distinta na perspectiva do homem do século XXI. Ao considerarmos o mundo virtual como uma janela pela qual se evidenciam ditas comutações do sujeito, onde podemos observar não apenas variações nas formas de pensar e se relacionar, mas também, à luz da psicanálise, observamos alterações profundas nas posturas, ações e manifestações inéditas que transitam junto a esse mal-estar civilizatorio. A evolução e suas representações dentro do campo das ciências humanas e sociais, englobam diversas abordagens para compreender e elaborar esse novo ser contextualizado na era da informação. Dessa forma, nos deparamos com uma pluralidade de epistemologias que buscam analisar os impactos gerados pela modernidade, onde podemos reflexionar à partir de autores como Freud, Bauman e Zizek entre outros, que adentraram nessa fluidez, que são, digamos, constituintes dos processos de subjetivação ao longo do século XX. “Nos tornamos tão conectados digitalmente que nos desconectamos emocionalmente.” Shetty. Boa leitura. A influência das tecnologias segundo Bauman. O conceito de "sociedade líquida" cunhado por Bauman é um indicativo das transformações sociais e culturais caracterizadas pela instabilidade das estruturas e suas relações. Tecnologias passaram a desempenhar um papel central, reconfigurando a maneira de como interagimos, construímos identidades e estabelecemos laços. Elas têm permeado todas as esferas da nossa vida, alterando profundamente como nos comunicamos e consumimos informação, sendo eles os instrumentos que contribuem para o delineamento dessa sociedade líquida apontada pelo autor, onde os elos sociais se tornaram efêmeros e as interações banalizadas. A virtualização dos vínculos, implementados por meio das redes digitais, resulta em conexões rápidas e superficiais, que desafiam a noção tradicional de contato, no entanto, essa fugacidade pode alimentar uma sensação de isolamento e vazio, que contradiz essa suposta expectativa, de que desta forma seriam mais eficientes e amplas, elevadas a um nivel global. Levados por elas a uma individualização, as inteligências tecnológicas podem tanto fortalecer quanto enfraquecer esse hipotético processo, celulares, redes sociais e plataformas online, oferecem espaço para a expressão individual e construção de identidades personalizadas. Contudo, essa busca insana por singularidade ocorre em meio à “uma solidão interligada”, onde a própria abundância de interações não se traduz exatamente em conexões genuínas. O desejo de validação virtual por likes, aplicativos e compartilhamentos pode intensificar uma sensação de insatisfação e a busca incessante por uma aprovação artificial, muitas vezes mascarada. A superficialidade das interatividades online, se contrapõem a busca por vínculos humanos próximos e reais mais profundos, resultando em relações frágeis, desarticuladas, sem a devida constituição de uma estrutura física. Logo, imediatamente se desfazem e esfarelam tão facilmente quanto se formaram. A estes fatores, devemos acrescentar o consumismo, permeado por uma descartabilidade frenética de produtos eletrônicos, frequentemente substituídos por versões mais recentes, o que reflete numa lógica de gratificação instantânea e demanda por uma descartabilidade cíclica. Essa mentalidade se estende verticalmente para as relações interpessoais, onde a busca por novidades e a constante insatisfação prejudicam e impedem a formação de vínculos sólidos. É imprescindível que joguemos um olhar crítico e realizemos uma abordagem equilibrada em relação ao uso das tecnologias, reconhecendo os benefícios que proporcionam, mas também, considerando as consequências que exercem para a qualidade das relações sociais e a construção da identidade individual. Na sua obra, o livro, “O Mal-Estar da Pós-Modernidade”, que super recomendo, Bauman traz uma obra provocativa, por vezes, sombria da nossa condição, caracterizada pela liquidez, onde estruturas e certezas do passado cedem espaço para essa instabilidade e incerteza. Essa visão, um tanto pessimista em relação ao individualismo e ao consumismo, levanta questões legítimas sobre a forma rasa dessas ligações e a busca por inovações. Um trabalho proeminente e influente, que desafia ao questionamento, estimulando debates sobre seus impactos, num diálogo frontal e crucial sobre os rumos da sociedade e ditas implicações. O que vemos é que aparentemente as instituições estão mais orientadas para o indivíduo do que para os grupos, demonstrando uma forte tendência desse caminho para a individualização; “uma condição social que não chegou por uma decisão livre dos indivíduos” (Beck & Beck-Gernsheim, 2002), ao que (Bauman, 2001) acrescenta; “uma fatalidade, não uma escolha”. Psicanálise e tecnologia, visão de perspectivas e desafios. A interseção entre tecnologia e psicanálise na nossa era compreenderá as complexas interações entre a mente humana e o mundo digital, certamente nos apresenta novos retos, onde investigamos opiniões importantes como as de Sherry Turkle, Mark D. Griffiths e outros estudiosos que tem se debruçado sobre suas consequências na psicologia, dinâmicas de relacionamento e os emprazamentos clínicos emergentes. Esta forma tão onipresente em nossas vidas, tem afetado como nos comunicamos, relacionamos e nos expressamos. Implicados nessa leitura, agora enfrentamos instigações para incorporar essa arcabouço a teória e sua abordagem terapêutica. No livro “Reclaiming Conversation”, vemos claramente que a tecnologia está interferindo nas relações interpessoais, levando a uma diminuição da nossa empatia e redução na utilização das verdadeiras fusões emocionais. Uma observação muito fundamentada é encontrada na afirmação de como o digital frequentemente substitui as mutualidades, resultando em uma ausência implícita na expressão afetiva e uma falta de intimidade genuína. Griffiths, é um especialista em vícios tecnológicos, explora largamente seus efeitos no uso excessivo para a saúde mental. Discute conceitos como dependência, compulsão e adição, em entretenimentos de vídeo, redes sociais e até mesmo, o uso de smartphones. Argumenta que a tecnologia pode atuar como um mecanismo de fuga, dissimulando negativamente a psicologia e o bem-estar emocional das pessoas. Autores como Pamela Rutledge e Mary Aiken discutem como a constante exposição a imagens idealizadas nas redes pode afetar a autoimagem e autoestima das pessoas. Interpela o fenômeno da “comparação social”, levantado como plataformas digitais podem contribuir para sentimentos de inadequação social e aumento da ansiedade. Como terapeutas, agora estamos frente a frente com questões relacionadas a esse uso excessivo de dispositivos, vícios em jogos online e a preponderância delas para a saúde psíquica dos pacientes. Além disso, a comunicação online pode levar a confusões interpretativas e à perda de nuances emocionais, desafiando os terapeutas a adaptarem suas abordagens. Por outro ângulo, também podem ser usadas como ferramentas terapêuticas, a terapia online, por exemplo, se tornou mais comum, permitindo que os pacientes ganhem tempo, e tenham acesso a tratamentos psicológicos a distância. Algumas frases relevantes que podem sintetizar opiniões; “A humanidade deve enfrentar, no futuro, a tarefa de fazer frente ao triunfo da técnica. O problema do destino da humanidade será decidido unicamente por este fato.” Freud. “O mundo digital nos oferece muitas vantagens, mas também pode criar uma sensação de isolamento e desconexão.” Turkle. “A tecnologia oferece um novo terreno para a exploração psicanalítica, onde as interações virtuais podem revelar aspectos ocultos da psique.” Mary Aiken. “A virtualidade pode ser vista como um espaço intermediário entre o real e o imaginário, onde desejos e ansiedades inconscientes podem emergir de maneiras novas e intrigantes.” Akhtar. “A era digital trouxe um novo palco para os dramas humanos, onde as identidades podem ser exploradas e representadas de maneiras inéditas.” Adam Phillips. “A internet pode ser uma forma de autopromoção, onde as pessoas procuram validar seu próprio valor por meio da atenção e aprovação online.” Nancy McWilliams. “A tecnologia não apenas muda como nos comunicamos, mas também influencia nossa percepção de tempo, espaço e intimidade.” Leader. “A exposição constante às redes sociais pode criar uma sensação de pressão para estarmos sempre conectados e atualizados, gerando ansiedade e compulsão.” Shane. “A relação entre a psicanálise e a tecnologia nos desafia a encontrar um equilíbrio entre a exploração das profundezas da mente humana e a interação com um mundo cada vez mais digital.” Irwin Hirsch. Com o contínuo desenvolvimento tecnológico, a psicanálise enfrenta o desafio de compreender e integrar essas mudanças em suas abordagens teóricas e práticas, garantindo que a compreensão da mente continue a evoluir em sintonia com o mundo eletrônico em constante transformação. A visão positivista de mídia. McLuhan sobre a relação entre tecnologia, comunicação e a psicologia, discursa positivamente, como um influente teórico da mídia do século XX, defendeu que o meio de comunicação é uma extensão do ser humano e que ele molda não apenas nossa interação com o mundo, mas também nossa psique. Ele trouxe uma nova abordagem para compreender sua influência e formas de psicologia, onde sua celebre e famosa frase; "o meio é a mensagem", ressalta a importância não apenas do conteúdo transmitido, mas também do meio em que ela transcorre. Uma das ideias centrais da sua tese é a noção de que os meios das mídias são extensões das nossas faculdades, onde cada um, desde a escrita até a televisão, são adjacências de nossos sentidos e capacidades cognitivas. Por exemplo; a escrita estende nossa habilidade verbal, enquanto a televisão amplia a de ver e ouvir eventos distantes. Cada canal utilizado modifica nossos padrões perceptivos, levando a mudanças em nossa psicologia. Ele cunhou os termos "meios quentes" e "meios frios" para descrever como diferentes esferas interferem em nossa assimilação, percebimento e captação. Os meios quentes seriam aqueles ricos em dados e exigem pouca participação ativa, como a televisão. Meios frios, por outro lado, são mais ambíguos e demandam maior envolvimento, como a leitura. Também introduziu a ideia de "aldeia global", sugerindo que a comunicação encurtou distâncias e conectou pessoas de diferentes aldeias do mundo. Essa conectividade global estaria criando uma "consciência coletiva", na qual nos levaria a compartilhar experiências e dimensões de maneira mais intensa. As ideias de McLuhan continuam relevantes, pois assistimos a ascensão das redes sociais, o uso de smartphones cresceram, e a realidade virtual, entra agora para conceitos ultra modernos como a inteligência artificial. A sensação de acoplamento constante, a rápida disseminação de informações e a influência das mídias diversas em nossas percepções, são questões que ecoam nas preocupações de McLuhan, destarte, eu leio ele sob uma visão otimista. Suas ideias oferecem uma lente única para compreender essa interação e percepção de mundo. À medida que a tecnologia continua a evoluir, suas contribuições nos lembram da importância de examinar criticamente os efeitos psicológicos das ferramentas de comunicação que usamos diariamente. Nomofobia. Quando falamos em nomofobia estamos nos referindo ao medo irracional de ficar sem acesso a dispositivos móveis, à luz da teoria da psicanálise. Neste ambiente, nosso prisma se mostra valioso para compreender os fundamentos inconscientes por trás das comorbidades tecnológicas e seus impactos. O exploramos, juntamente com o desenvolvimento do ego, das relações objetais e os processos de defesa, que podem estar geralmente interligados com a ansiedade e a dependência associadas a telas de celular. O termo, derivado de "no mobile phone phobia", emergiu como um problema de saúde mental na era atual, quando o crescente uso de dispositivos móveis, notebooks, tablets, etc., tem levado a uma preocupação crescente com sua dependência e seus efeitos no bem-estar emocional e psicológico. Os conceitos freudianos e pós-freudianos, podem esclarecer sobre as motivações derivadas deles, e os mecanismos de defesa associados a este fenômeno pelos seguintes estudos; 1 - O inconsciente e a virtualidade: A teoria do inconsciente ressalta a existência de desejos, impulsos e conflitos que não estão prontamente acessíveis à consciência. Ditas interações virtuais podem proporcionar uma arena para a manifestação de aspectos inconscientes da psique, levantando questões sobre a autenticidade e veracidade das conexões online. 2 - Sexualidade e intimidade virtual: A sexualidade, como uma força central na psicologia pode ser aplicada à maneira como a tecnologia influencia os relacionamentos. As interações virtuais podem amplificar as questões da repressão sexual, promovendo comportamentos de exibição ou exploração. 3 - Mecanismos de defesa e desconexão digital: A análise dos mecanismos de defesa, como a negação e a projeção, podem fornecer insights sobre como as pessoas podem fazer uso extremo para evitar o enfrentamento de conflitos emocionais. O ato de "desconectar" pode ser visto como uma forma moderna de repressão, permitindo evitar a ansiedade. 4 - O Eu virtual e o Eu real: A fragmentação do ''eu'' em diferentes identidades online e offline pode ser analisada sob o conceito freudiano do "eu", onde personalidades virtuais podem servir como máscaras que encobrem ou revelam aspectos ocultos do ''eu'' real. O Desenvolvimento do ego e a dependência tecnológica. A teoria do desenvolvimento do ego de Freud, destaca a importância da formação de uma individualidade saudável para enfrentar a ansiedade. A nomofobia pode ser vista como um sintoma da fragilidade e fragmentação do ego, onde a falta de acesso constante à tecnologia resulta em uma sensação de desamparo e segregação. Pode ser interpretada à luz das relações objetais. Tal dependência pode preencher o vazio emocional, funcionando como um substituto para as conexões interpessoais, enquanto a inabilidade de ficar desativado pode refletir uma busca incessante por gratificação e alívio da solidão. Aqui entram em ação mecanismos de defesa e negação, que podem desempenhar um papel na nomofobia, como o desprezo e denegação da ansiedade oculta, que pode levar a uma hiper-conexão como forma de evitar o enfrentamento de conflitos emocionais. Também, pode ser entendida como uma forma de resistência à mudança e ao crescimento pessoal, velado, inexplícito e pressuposto incluso ao enfrentamento e transformação necessária para o desenvolvimento saudável da personalidade. Se revela como um episódio complexo e multidimensional, intrincadamente relacionado às mudanças socioculturais que tecnologias introduziram. O psicólogo Shambare e seus colaboradores, a definiram como uma forma de ansiedade de separação, na qual a dependência excessiva do celular por exemplo, se assemelha a uma ligação emocional intensa, impedindo os indivíduos de se desconectarem. Nesse contexto, surge o medo de estar perdendo algo, conhecido como FOMO, que contribui para agravar o quadro. Elhai et al. (2017) enfatizam; que o FOMO está associado a sentimentos de inadequação e ansiedade, que alimentam seus efeitos. Além disso, o uso intensivo desses dispositivos interfere na capacidade de comunicação e interação social, especialmente em crianças em fase de desenvolvimento. A pesquisa da BBC Brasil sobre famílias brasileiras revelou que o uso desmoderado de telas está relacionado à diminuição da capacidade de resolver problemas e se comunicar efetivamente; (BBC, 2020). A Dra. Eisenstein, coordenadora do Grupo de Trabalho em Saúde Digital da Sociedade Brasileira de Pediatria, ressalta o aumento das queixas entre adolescentes relacionadas ao uso hiperbólico de redes sociais e jogos online; (Eisenstein, 2021). De acordo com Turkle (2015); o uso incessante prejudica a habilidade de manter atenção, tomar decisões ponderadas e desenvolver empatia. O progresso cerebral ainda em maturação é particularmente suscetível aos efeitos negativos das telas, como a dificuldade de controlar impulsos, (Anderson et al., 2020). A influência social da nomofobia não pode ser subestimada, a pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil revelou que a maioria dos adolescentes está conectada, utilizando o celular como principal dispositivo para acessar a internet. Entretanto, a busca constante por validação nas redes sociais pode levar a uma percepção distorcida de autoimagem, influenciando negativamente a autoestima (Vannucci et al., 2019). O Impacto no desenvolvimento cognitivo e social dos jovens. O avanço tecnológico é inegável e desempenha um papel crucial na sociedade contemporânea. No entanto, se faz essencial considerar os riscos associados ao uso superabundante de celulares. A dependência tecnológica é discutida por autores como Aiken (2018), que alerta para o perigo de patologizar comportamentos naturais da era digital. Para mitigar seus efeitos negativos, é importante promover a educação do seu uso desde a infância, capacitando crianças e adolescentes a fazer escolhas conscientes. A criação de um equilíbrio saudável entre a vida online e offline é uma abordagem preventiva defendida por Greenfield (2019), que enfatiza a importância de desenvolver habilidades de autorregulação. Como psicanalistas, exploramos os aspectos inconscientes que contribuem para esse medo moderno. O discernimento sobre esses processos pode fornecer insights valiosos para terapeutas e profissionais de saúde mental ao abordar os desafios da dependência tecnológica. Ao integrar conceituações psicanalíticas com as complexidades da nomofobia, podemos abrir caminho para intervenções eficazes e saudáveis na busca pelo equilíbrio entre a tecnologia e a psicologia. Nomofobia emerge como um fenômeno que transcende as fronteiras tecnológicas e impacta a saúde mental de diferentes grupos etários. Seu uso desmedido lesiona as dimensões cognitivas, sociais e emocionais, levantando preocupações éticas e instaurando práticas insalubres. Enquanto a tecnologia é uma parte inevitável de nossas vidas, a consciência sobre seus impactos e a promoção de um equilíbrio conveniente são imprescindíveis para enfrentar os desafios impostos pela nomofobia na sociedade. Pontos Positivos: Comunicação Instantânea: Permitiram uma comunicação rápida e instantânea em qualquer lugar do mundo, encurtando distâncias e permitindo que as pessoas se conectem facilmente. Acesso à Informação: Nos concedem acesso a elementos atuais, notícias e recursos educacionais com facilidade, o que contribui para a aprendizagem contínua e atualizada. Trabalho Remoto: Tornaram o trabalho apartado uma realidade eficiente, viabilizando realização de tarefas profissionais de qualquer lugar e a qualquer momento. Melhoria na Navegação: Aplicativos de GPS tornaram a navegação mais fácil, ajudando na orientação e localização, tanto em cidades locais quanto desconhecidas. Redes Sociais: Plataformas de mídia social tornaram mais acessível e simples para manter contato com amigos e familiares, independentemente da distância física. Entretenimento e Produtividade: Abriram uma ampla gama de aplicativos de entretenimento, jogos e ferramentas de produtividade que podem melhorar nosso tempo de lazer e desempenho nas tarefas diárias. “O impacto dos smartphones no mundo desenvolvido é nada menos do que espetacular: ampliou a conetividade, estimulou as empresas, e criou postos de trabalho” (Katz, 2008). “Atualmente, estar conectado depende não da nossa distância, mas da disponibilidade das tecnologias de comunicação” Turkle. Pontos Negativos: Isolamento Social: O uso excessivo de celulares pode levar ao isolamento social, já que as pessoas podem preferir interagir virtualmente em vez de pessoalmente. Distrações e Produtividade: O constante uso de celulares pode levar à distração e redução da produtividade, especialmente em ambientes de trabalho ou estudo. Dependência Tecnológica: A compulsão imoderada de telas pode levar à ansiedade e desconforto quando estão fora de nosso alcance, afetando negativamente a saúde mental. Perda de Privacidade: Podem comprometer a privacidade, com a possibilidade de rastreamento e acesso a dados pessoais. Problemas de Saúde: A exposição prolongada a telas pode levar a problemas de saúde, como fadiga ocular, dores de cabeça e distúrbios do sono. Segurança e Etiqueta: O uso inadequado em situações sociais, como ao dirigir, reuniões de família, ignorar a presença do outro, compromete a segurança e a etiqueta, resultando em acidentes e avaliações interpessoais negativas. “A experiência de fluxo representa um estado de consciência em que uma pessoa está tão absorvida por uma atividade que está a desenvolver que não tem consciência sobre si mesma durante todos os seus movimentos” (Finneran & Zhang, 2005). "Às vezes, a tecnologia pode ser nossa maior distração e nossa pior invenção." Amisha Patel. "A conetividade constante está nos desconectando da realidade." Farshad. "A sociedade moderna é uma história de como a tecnologia pode nos ajudar e prejudicar ao mesmo tempo." Sherry Turkle. "A tecnologia é uma ferramenta útil, mas também pode ser um obstáculo para a interação humana genuína." Catherine Pulsifer. Os celulares trouxeram inúmeras vantagens, desde a melhoria da comunicação até o acesso à informação e a facilidade de navegação. No entanto, também apresentaram desafios, como o isolamento social, a distração e a dependência tecnológica. É importante encontrar um equilíbrio saudável no uso dos celulares, aproveitando os benefícios enquanto minimiza os aspectos negativos. Ao poema; "Entre Telas e Toques"; por Dan Mena. Na palma da mão, um mundo se desvela, Tecnologia avançada, que coisa que apega! A noite eles brilham… como cintilantes estrelas, Conectando vidas, mas também as trucidam. No mundo de ecrãs, a vida se esvazia, A conexão do sapiens, afunila, esfria, Em visões virtuais que o olhar corrompe, Se molda o real, numa ótica artificial. Deslizando nos feeds, como cenas de scripts, Vemos vidas exibidas, com tamanha maestria, Os risos e sorrisos, nem sempre genuínos, Será que são cenas rodadas no paraíso? Tecnologia avança, mas será que nos serve? Ou nos tornamos escravos do que oferecem? A vida pulsante, lá fora, nos chama, Enquanto monitores nos prendem, inflamam. Vamos lembrar, enquanto digitamos sem parar, Que o mundo ao redor merece nosso olhar, Celulares sedutores, nos cegam para os amores, Não deveriam nos negar o encontro das emoções. Equilíbrio é a chave dessa lição, Usar a tecnologia com sabedoria e razão, Para não perdermos o que é fundamental, A conexão primitiva, o toque, o real. Abracemos com cautela, todas as telas, Sem esquecer de olhar pela janela, A vida acontece lá fora, além das telas, É lá que encontraremos às histórias mais belas. Até breve. Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- A Subjetividade.
“O sujeito é, aquilo que nele esta ausente. A falta origina o desejo, e o desejo razão da nossa subjetividade.” Dan Mena. Por Dan Mena. A subjetividade na psicanálise é o aspecto único e individual da experiência psíquica de um indivíduo. É a maneira pela qual cada pessoa percebe, interpreta e dá significado ao mundo, a si e aos outros, intrinsecamente ligados à vida emocional, desejos, medos, frustrações, memórias e fantasias que estruturam a psique de cada indivíduo. Construída a partir de interações complexas entre a história pessoal, herança cultural, experiências infantis, conflitos internos e os mecanismos de defesa. O desenvolvimento da psicanálise como ciência e prática clínica é entrelaçada com diversas formas de investigação fora do âmbito clínico. Esse esquadrinhamento, além dela, desempenha um papel capital na sua leitura, formulação e reformulação dos conceitos psicanalíticos, contribuindo para uma modelagem mais precisa e próxima da nossa época, como também dos resultados que emergem da sua experiência. Além disso, estabeleceu conexões conceituais interdisciplinares, se aproximando da filosofia, sociologia, estética, história da arte, literatura, ciência cognitiva e neurociência. Quando Freud inova na descoberta do inconsciente, se afasta dos métodos convencionais da medicina, ao adotar a escuta atenta de pacientes com sintomas histéricos para compreender suas aflições, introduz então uma ruptura epistemológica significativa. Essa mudança, envolveu a introdução do subjetivo no domínio do conhecimento, lugar que ele mesmo reconheceu desde cedo, quanto a importância da averiguação do inconsciente como um instrumento a serviço das ciências sociais. Boa leitura. A relação entre o conhecimento científico e a irracionalidade, assim como a vastidão da nossa ignorância, que emergiram como questões pertinentes. Não podemos deixar de anotar o aspecto relevante é o potencial do envolvimento como pesquisador em sua própria obra, e o uso que fez de sua ''subjetividade'' para tal, como um dispositivo potencial das suas descobertas. Isso é exemplificado por meio de algumas instâncias; A primeira está relacionada aos aspectos quantitativos, científicos e mensuráveis do conhecimento. A segunda, se contrapõe a ela, pois se relaciona ao subjetivo, algo que muitas vezes é difícil de quantificar. No entanto, quando se trata da mente, a subjetividade assume uma profundidade maior, ao estar coligada à nossa psique, inerentemente a construção única dela, que não e diretamente comparável em sua absoluta singularidade. Freud abriu esse caminho para uma reflexão mais cavada sobre a intersecção da subjetividade individual e o conhecimento científico, levantando importantes questionamentos sobre a natureza dessa compreensão e a relação entre os aspectos racionais e irracionais do pensamento, dando ênfase a análise dos processos inconscientes. Eles continuam nos municiando para ampliar um terreno fértil via essa complexa exploração mental, em face dos avanços tecnológicos e das transformações sociais. Como se constrói a subjetividade lida através da psicanálise? Somos seres falantes, o que marca inegavelmente nossa dependência de um ''Outro'', assim dito, subordinados a linguagem desse interlocutor, esta é, portanto, a única maneira de encontrar o nosso próprio dizer, e de tornar essa subjetividade presente naquilo que expressamos como um eco imprescindível. Trata-se então da sujeição básica ao significante; (O significante se mantém como condição de uma operação que se constitui em uma cadeia, onde se faz presente a partir de uma ausência. O elo dos significantes tornasu a condição possível e é nela que subsiste, (Lacan, 1966]), uma questão que implica pelo menos a presença de três decisivos eloquentes; A — Em primeiro lugar o corte entre natureza e cultura, segundo; à criação do ser num mundo representacional historicamente fundado, entendendo por sua representação o produto do nosso pensamento. Em terceira ordem, ao pensamento pensável pela atividade desenvolvida por um sujeito, ou seja, um pensamento pensado por alguém, que difere de um idealizado por mim. O reconhecimento de que esse ''outro'', reflete sobre coisas que eu não penso, implica necessariamente no nascimento do escrúpulo e de toda a ética existente. B — A aceitação da diferença entre a subjetividade própria e a do outro é o testemunho da inscrição psíquica da alteridade; (Alteridade, situação, estado ou qualidade que se constitui por relações de contraste, distinção, diferença, relegada ao plano de realidade não essencial pela metafísica antiga, a que adquire centralidade e relevância ontológica na filosofia moderna, conhecido como ''hegelianismo contemporâneo''; (pós-estruturalismo). O que destaco, vêm a tona fazendo alusão ao intrincamento da experiência clínica, uma vez que o sujeito pode reconhecer os seus próprios pensamentos vividos como alheios ou aspectos do outro, vividos como seus. Assim, essa configuração de subjetividade é o que vai dar a dimensão global da nossa própria construção de realidade, o dito supostamente concreto, como produto do que é obviamente pensável num dado espaço-tempo histórico e social. C — A subjetividade como conceito remete para a perspectiva adquirida no quadro de um sistema teórico definido, o seu estatuto, gravitação e densidade explicativa, quer em diferentes teorizações inerentes a um mesmo campo, quer ao se tornar objeto de investigação de um campo específico ou em outro, onde não existe. Desta forma, encontramos diversas definições, significados e usos dessa caracterização na filosofia, psicanálise, psicologia, história, entre outros. Consideramos assim, na psicanálise, que a subjetividade se inscreve na concepção de um psiquismo estratificado, composto por instâncias que qualificam e quantificam tais inscrições de forma muito heterogênea. Nossa contribuição define que a subjetividade não cobre a totalidade do que é pensável por um sujeito, ou seja; o psiquismo e seu emaranhado, admitem um pensamento sem sujeito, um dizer para-subjetivo. Com efeito, práticas sociais remetem para a condição de marca que atravessam o indivíduo, enquanto este(a) se encontra incluído(a) numa série de relações sociais que se instituem através das organizações e da cultura. Operam portanto, para além do sujeito, numa relação assimétrica entre o individual e o coletivo, como fruto de significações imaginários e sociais articulados, compostos por discursos e ideologias socialmente instituídas, mas que, nesta presumível existência, toma forma num psiquismo que terá de ser criado e constituído. A configuração subjetiva do sujeito dá conta tanto dos organismos sociais que nos cercam, como da elaboração das instâncias psíquicas necessárias à criação de mundo que realizamos. Isso provoca não só a realidade representacional com que trabalhamos, ou como surgem ditas ideias e pensamentos, mas também como interpretamos e descodificamos tudo o que percepcionamos, fazendo parte da nossa consciência e o que nos é sensível. Neste sentido, não podemos excluir tais idealizações inconscientes, visto que são entrelaçadas e enigmáticas, designam também nosso hermetismo, pela obscuridade de um sujeito que sente, ressoa, remete, configura emoções, age e percebe suas dimensões, sendo alcançado por aquilo que não sabe sobre si. Toda percepção da realidade e em grande medida o produto de uma antecipação interpretativa baseada nas formas sociais de conhecimento adquirido. Chamamos a esta previsão de ideologia. As teorias científicas não escapam a este mecanismo, nem a psicanálise. Por isso, a compreensão do material clínico estará ligado perpetuamente aos modos de compreensão e interpretação de um momento e de um definido estado de cognição. A abordagem da subjetividade como problemática psicanalítica não é conceitualmente clara antes dos postulados de Lacan, que a introduz no campo analítico por uma abertura para às margens de uma controvertida plural. A fecundidade das discussões que ele inaugura deve ser reorientada em função do debate instituído, nomeadamente, o ''estatuto das representações''. A origem delas em Freud é pendular, onde esse eixo se desloca por um lado, de uma concepção fechada, endogenista e biologizante do psiquismo, para outra aberta ao outro e às suas produções culturais. Em sua segunda tópica, Freud se assenta para uma abertura ao exterior, a partir de um retorno à teoria traumática, sendo o Ego, depositário das identificações sociais, mas, ao mesmo tempo, produzindo uma regressão a teoria pulsional. Como expoente máximo desta ideia, a pulsão de morte se configura como um retorno ao inorgânico. Uma pulsão fora da pulsão, digamos representável, como uma lei geral de retorno. Essa instância reflexiva do ego, dá a entender que não há subjetividade possível sem sua constituição efetiva. (Ego é a consciência, o “eu de cada um”, ou seja, o que caracteriza a personalidade de cada indivíduo. Faz parte da tríade do modelo psíquico, formado pelo ego, pelo superego e pelo id). O sujeito dividido e o inconsciente. Lacan rejeitou a noção tradicional de um sujeito unitário e coeso. Em vez disso, propôs a ideia de um ser dividido, onde o ''eu'' consciente é apenas uma parte dessa incompletude. O inconsciente para ele, é o locus da verdadeira subjetividade, onde se encontram os desejos, conflitos e representações ocultas. Esse conceito de divisão psicológica rompe com a noção de uma identidade unificada, introduzindo a complexidade das dimensões inconscientes na construção da incorporalidade e o papel da linguagem nessa formação. Por esse caminho aparece a “ordem simbólica”, que se refere ao sistema de signos e símbolos que permeiam nossa comunicação. A entrada do sujeito nesse encadeamento ocorre através do processo de entrada na linguagem e na cultura. A expressão e sua locução, não são apenas um meio de comunicabilidade, mas uma estrutura que molda a própria subjetividade. O termo “Nome-do-Pai”, que representa o início emblemático do pai na vida da criança, marca a transição do estágio do complexo de Édipo e influência a formação da identidade e da subjetividade. (o ''Nome-do-Pai'' cria a função do pai. Como este não é uma figura, e sim uma função, não tem Nome próprio: tem tantos nomes quantos suportes tem sua função. E qual é ela? A função religiosa por excelência: ligar, significante e significado, Lei e desejo, pensamento e corpo. O espelho e a formação da identidade. Uma das contribuições mais conhecidas de Lacan é o conceito de “estádio do espelho”. Ele argumentou que a criança, ao se ver no espelho e reconhecer sua própria imagem, inicia um processo de formação da identidade. No entanto, essa constituição, através da imagem especular e do olhar do ''Outro'', resulta em uma identificação que é sempre alienante, nunca totalmente alcançável. Isso sugere que a subjetividade está constantemente em processo de busca e renegociação, tem implicações profundas para a prática clínica e a compreensão da psicopatologia. O papel da linguagem na formação do sujeito fornece novos insights para a análise de sintomas e conflitos internos. Além disso, sua abordagem da subjetividade como algo em constante construção e reconstrução desafia a noção de uma identidade fixa, e abre espaço para uma compreensão mais fluida e dinâmica do discernimento psíquico. Vejamos algumas citações; “A subjetividade é algo que deve ser constituído por meio da linguagem, ao ser nela que se inscreve a falta, o desejo e a identificação do sujeito.” Lacan. “A subjetividade é o resultado da interação complexa entre nossos desejos inconscientes, nossas experiências passadas e as demandas do mundo exterior.” Freud. “A subjetividade se desenvolve a partir da capacidade de nos relacionarmos com os outros de forma autêntica, mantendo um senso de self sólido e coerente.” Winnicott. “A subjetividade é um espaço de encontro entre a cultura e o inconsciente, onde se desdobram os processos de significação e os impasses do desejo.” Kristeva. “A subjetividade é a arena onde se processam os conteúdos mentais, os sonhos, as fantasias e os medos, todos moldados pela interação com o ambiente externo.” Bion. “A subjetividade é construída através das relações intersubjetivas, onde as trocas e os conflitos contribuem para a construção da identidade.” Benjamin. “A subjetividade é uma multiplicidade de fluxos e desejos, uma constante transformação que ocorre na interseção entre o corpo, a mente e o ambiente.” Deleuze. Um exemplo prático. Convoquemos no processo de análise, um paciente que está lidando com um quadro de ansiedade social. Nesse caso, apresenta uma experiência interna única na relação com sua ansiedade, suas percepções, sentimentos e interpretações. Durante as sessões, ele(a) pode expressar seus sentimentos de desconforto em situações que precisa compartilhar suas experiências passadas relacionadas a esse problema. Como terapeutas, vamos explorar a origem desses sentimentos, buscando compreender como dito traquejo de vida, a formação das suas crenças, estabelecimento de laços e relacionamentos, influenciaram o desenvolvimento dessa ansiedade social. Ao longo do processo da terapia, a subjetividade do paciente emerge, na medida que relata momentos específicos desse convívio com a ansiedade, assim, identifica gatilhos e compartilha suas interpretações internas dessas situações. Por exemplo; o cliente pode relatar que se sente observado(a) e julgado(a), criticado(a) por outras pessoas, o que o(a) leva a evitar encontros amorosos, grupais e sociais. Essa absorção subjetiva e quase sempre fictícia, imaginaria e potencializada, que pode estar relacionada e viculada a histórias de rejeição, submissão e crítica, que foram sendo esculpidas na sua própria convicção, avaliação e ideia de si, e do olhar perceptivo dos outros sobre sua imagem projetada e personalidade. O psicanalista trabalha compondo com a subjetividade do paciente, ao explorar ditas interpretações, desafiando crenças distorcidas, guiando e ajudando a construir uma nova dimensão de si e dessas interações. Nessa evolução do tratamento, o paciente pode ganhar insights sobre suas motivações internas, padrões de pensamento automático e mecanismos de defesa que favorecem sua tensão e permanência nesse padrão ansiolítico. Nesse arquétipo prático, ilustro como a subjetividade se manifesta na análise, permitindo uma exploração profunda das experiências internas do indivíduo, adentrando nas suas emoções, afetos, pensamentos e significados atribuídos. Os objetivos se focam na elucidação subjetiva única de cada pessoa, na forma como ditas experiências influenciaram sua percepção de mundo e criação de respostas emocionais, assim contribuindo para a transformação, crescimento pessoal e autoconhecimento. Psicanálise, época e subjetividade. A psicanálise não se caracteriza como uma ciência exata, não ha uma única definição de “a psicanálise”. Em vez disso, nossa prática é sustentada por nós, analistas, que aplicamos teorias comprovadas em nosso trabalho clínico diário e perfazemos a atuação através da técnica. Assim como na filosofia, cada questão levantada implica a perspectiva única daquele que por si a fórmula. Esse panorama individual se liga à posição de cada indivíduo em relação à sua divisão estrutural, discursos e narrativas predominantes do seu tempo. O não reconhecimento da lógica angular a essas exposições pode resultar em uma abordagem que pode ser descrita como uma psicanálise moderna ou liberal, com a qual me identifico. Às questões ligadas ao sujeito são tratadas como independentes do contexto social e histórico em que se desenvolvem, permeadas de descrições precisas da subjetividade que nela prevalecem, como a solidão, vazio, isolamento, ausência, falta de comprometimento com o outro, definições que podem parecer desconectadas do seu ambiente. Por esta razão, formar uma relação entre o sujeito e a subjetividade do nosso transcurso, requer a identificação e reconhecimento dos elementos determinantes que influenciam nossa existência, o que está além das fronteiras individuais do ser. Esses fatores, desempenham um rol significativo na extensão do desconforto que vêm amarrado a essa condição do indivíduo. Entretanto, a coesão entre a psicanálise e os precípuos centrais e primários de cada época são fundamentais para sua continuidade. A separação do sujeito da subjetividade que caracteriza cada momento, implica em renunciar a uma posição na cadeia de gerações que a perpetuam, transmitem, e mantêm a presença contínua da psicanálise como ferramenta interpretativa da subjetividade contemporânea. Livros que abordam o tema: “O Sujeito na Psicanálise” de Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis: “O sujeito é, por definição, aquilo que falta. A falta origina o desejo, e o desejo é o motor da subjetividade.” “A Interpretação dos Sonhos” de Sigmund Freud: “A subjetividade humana é como um iceberg, com a maioria escondida abaixo da superfície consciente.” “O Eu e o Id” de Sigmund Freud: “A subjetividade é uma lente distorcida através da qual percebemos a realidade, colorida por nossos desejos e medos inconscientes.” “O Mal-Estar na Civilização” de Sigmund Freud: “A subjetividade é forjada na interseção entre os impulsos individuais e as exigências sociais.” “O Estruturalismo e a Psicanálise” de Jacques Lacan: “A subjetividade não é um estado estático, mas sim um processo em constante evolução, moldado pelas interações entre o indivíduo e o mundo.” “A Condição Pós-Moderna” de Jean-François Lyotard: “A subjetividade pós-moderna é fragmentada e plural, refletindo a diversidade e a complexidade do mundo contemporâneo.” “Subjetividade e Verdade” de Michel Foucault: “A subjetividade é construída por meio de práticas discursivas que moldam como pensamos e nos vemos.” “O Sujeito na Modernidade” de Charles Taylor: “A subjetividade moderna é caracterizada pela busca de autenticidade e pela exploração das múltiplas identidades possíveis.” “O Outro por Si Mesmo” de Paul Ricoeur: “A subjetividade é um diálogo constante entre o eu e o outro, uma busca por compreensão mútua e reconhecimento.” Ao poema; “Teia da Alma: Explorações da Subjetividade” de Dan Mena. Nas entranhas da psique e do drama, O ser se expressa numa trama, Um enigma secreto escondido em laudas, Viramos a página nas entrelinhas da alma, Surge o sujeito em camadas dissimuladas. Freud, o mestre dos mistérios da mente, Escavou os desejos ocultos e persistentes, No id e ego, pelejam uma batalha latente, A subjetividade emerge, forte e valente. Num território obscuro, conflitos ambivalentes. Então Lacan, com suas metáforas e enigmas, Explorador das profundezas do ser, que vibra, Significantes que nos fazem viver, Onde a verdade escapa, é sempre elusiva, No jogo do significante, é fugitiva, Linguagem, de uma constante miragem. Bettelheim nos contos de fadas revela, Os anseios ocultos da mente como uma tela, A subjetividade infantil em narrativas encantadas, Desvendando psicodramas, em fábulas sem paradas. Foucault, com suas teias de poder e discurso, Mostra a subjetividade em constante percurso, Forjada por normas, em um mundo em movimento, O eu se adapta, em busca de contentamento. E Drummond, poeta da introspecção, Com sua pena traz à tona toda a emoção, Nas palavras em imaterialidade transborda, No romance da vida, onde a alma se recorda. Romance e psicanálise estão entrelaçados, Subjetividade se revela por todos os lados, Que se tece com a psique, o mundo interiorizado, Uma dança de sentimentos, na vida representados. Nas trilhas do inconsciente, segredos a provir, A subjetividade, como um rio a fluir, No âmago da mente, vive um mundo oculto, Onde o eu se revela em múltiplos segundos. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130













