Quando o Luto Não Começa: Culpa, Gozo e Reposicionamento Subjetivo na Psicanálise
- Dan Mena Psicanálise

- 22 de dez. de 2025
- 14 min de leitura

Este artigo propõe uma leitura clínica do luto não como processo falho, retardado ou insuficiente, mas como posição subjetiva que se instala quando a perda não encontra suas vias simbólicas de elaboração. A partir de um caso da minha clínica, conduzido em um projeto analítico inicial de 90 dias, discuto como a culpa no superego e o gozo na renúncia sustentam a fixação ao sofrimento, impedindo o início do trabalho de luto.
Articulando Freud e Lacan, meu texto sustenta que a direção da análise não visa a superação da perda do paciente, mas a queda da necessidade de sofrer para existir.
Defendo minha posição ética como analista, me recusando tanto a normalização do sofrimento quanto sua romantização, propondo o reposicionamento subjetivo como operador central contemporâneo do luto.

Quando a perda não inaugura um trabalho
Somos cada vez mais confrontados com pacientes que chegam marcados por perdas reais, mortes, rupturas e desaparecimentos. Esta aflição não se organiza como luto no sentido freudiano. Não se trata de um percurso “difícil”, tampouco de um digamos “luto prolongado”, categorias hoje amplamente difundidas pelo discurso psiquiátrico e psicológico adaptativo. Continue sua leitura em; Quando o Luto Não Começa: Culpa, Gozo e Reposicionamento Subjetivo na Psicanálise Trata-se de algo mais radical: o luto que não chegou a se constituir como trabalho psíquico.
O que observo nesses casos não é a oscilação esperada entre dor e reinvestimento, mas uma fixação. A perda não inaugura um processo; ela ocupa um determinado lugar.
A angústia deixa de ser efeito da perda e passa a operar como modo de sustentação subjetiva. A clínica deixa então de ser a da elaboração e passa a ser a da posição.
Essa distinção é bastante decisiva. Enquanto em Freud, implica movimento, ainda que penoso, aqui encontramos uma economia psíquica estacionada, congelada, como se o tempo tivesse sido interrompido no instante da perda. A dor não se transforma, não se desloca, não se metaboliza. Ela insiste em permanecer sem um início.
A partir dessa constatação, a pergunta clínica óbvia, deixa de ser “por que o luto não avança?” e passa a ser ‘’outra’’, mais inquietante e mais ética: que função o não-luto cumpre para o sujeito? O caso que sustenta este tema evidencia que, o sofrimento não é apenas consequência da perda, mas condição ‘’sine qua non’’ para a manutenção de um vínculo com o objeto perdido.
Sofrer passa a ser a única forma de permanecer ligado ao que agora está ausente.
Luto, melancolia e um terceiro território clínico
Em Luto e Melancolia, Freud define o luto como trabalho de retirada libidinal do objeto perdido, processo doloroso, mas finito, que permite ao indivíduo investir a libido em novos objetos (Freud, 1917).
Na melancolia, por sua vez, o objeto perdido é introjetado, produzindo identificação com o ele, e um severo rebaixamento narcísico, acompanhado de auto-recriminação e auto-acusação.
Entretanto, há uma série de casos que não se inscrevem plenamente em nenhuma dessas bases. Não encontramos nem o trabalho de luto em curso, nem a melancolia clássica com sua culpa explícita e sua agressividade voltada contra o ''eu''.
O que aparece é um remorso difuso, silencioso, sem acusação clara, acompanhado de uma vida simplesmente suspensa. Esse território intermediário exige precisão clínica. Não se trata de ampliar indefinidamente os conceitos freudianos, mas de reconhecer que a economia libidinal atual que se organiza em torno de um supereu que não proíbe, mas exige.
Exige dor, fidelidade e renúncia. Quer que o sujeito permaneça preso à perda como prova de amor. Aqui, a amargura não é apenas tolerada, ela é valorizada. Se torna sinal de aprofundamento, de ética e lealdade.
O sujeito sofre não porque não consegue ir em frente, mas porque não se autoriza a viver.

O trabalho do luto e seus impasses estruturais
Freud jamais concebeu o trabalho do luto como operação automática desencadeada pela perda real. Ao contrário, ele insiste fecundamente no caráter ativo, repetitivo e custoso deste trabalho.
Cada lembrança ligada ao objeto deve ser revisitada e desinvestida, uma a uma.
O ponto clínico é que esse trabalho pode não se iniciar. Quando a perda toca identificações elementares, os ditos lugares simbólicos, funções narcísicas ou ideais o luto pode ser evitado, substituído por uma fixação. Nesse caso, a libido não se desloca porque encontra satisfação paradoxal na própria estagnação.
Essa satisfação não deve ser confundida com prazer. É uma forma de gozo, este de cunho negativo, mortificante, mas estruturalmente eficaz. O sujeito sofre, mas permanece consistente. O dissabor impede o colapso.
A perda como significante mestre
O que se evidencia nesses casos é a ocupação da perda como significante mestre. O sujeito não apenas perdeu alguém, ele passa a se conceber a partir dessa ausência. Toda sua narrativa, escolhas e sua relação com o tempo se organizam em torno do acontecimento traumático.
O tempo, aqui, não avança. Ele se congela. Tudo passa a ser dividido entre “antes” e “desde”. O futuro aparece como ameaça, o prazer como transgressão, o desejo como risco moral. A perda, não simbolizada, retorna no real como imposição contínua.
Essa configuração explica por que intervenções empáticas, educativas ou adaptativas quase sempre fracassam. Ao validarem o sofrimento sem o devido questionamento, reforçam sua função inconsciente. Manter vivo o vínculo com o morto, ainda que ao custo da própria vida psíquica.
Culpa: não é um afeto, mas um operador
A transgressão na forma de culpa ocupa lugar central nesse tipo de clínica. Mas não se trata de responsabilidade moral, nem de remorso por atos cometidos. Está no campo estrutural, ligada à sobrevivência. O simples fato de continuar vivo se torna insuportável.
A lógica inconsciente pode ser formulada de modo implacável:
viver é trair;
desejar é esquecer;
sofrer é reparar.
Essa equação sistemática organiza a economia subjetiva. O sofrer funciona como pagamento permanente de uma dívida impossível de saldar. Quanto mais o sujeito se aflige, mais acredita permanecer fiel ao extinto.
Aqui, a culpa não deve ser “aliviada” diretamente. Ela deve sustentar a organização psíquica. Sua eliminação ou retirada abrupta pode produzir angústia intensa ou colapso subjetivo. O trabalho analítico visa deslocar sua função, não fazer sua supressão.
Supereu, gozo e a moral do sofrimento
Lacan cava fundo nessa questão ao redefinir o supereu. Longe de ser apenas a instância que proíbe, o supereu é aquela que ordena o gozo: “Goza!” (Lacan, 1969–70). O sujeito não amarga porque transgrediu, mas porque não sofre o suficiente.
No luto não elaborado, o supereu assume forma cruel, exigindo fidelidade absoluta ao morto. O desprazer se torna um dever ético. O gozo não está no prazer, mas na renúncia a ele. Logo, passa a ser a única maneira de existir sem culpa.
Isto esclarece por que discursos de “superação”, “resiliência” ou “seguir em frente” produzem efeito contrário. Eles intensificam a culpa. A psicanálise não se opõe à culpa com alívio, mas com a devida prévia interpretação.

A posição do analista, no uso da ética da não-complacência
Como analista sou repetidamente convocado a ocupar lugares imaginários: seja o de consolador, o de testemunha da dor infinita, guardião da memória do morto, etc. Ceder a essas posições é clinicamente muito sedutor, destarte, eticamente perigoso.
Sustentar a escuta do paciente não significa aderir.
A nossa ética exige que o psicanalista não legitime o gozo, mesmo quando ele se apresenta sob a forma socialmente aceita do sofrimento. Consolar e acolher demais é impedir que a dor se torne interrogável.
Isso não implica frieza ou indiferença, resulta numa presença que não se confunde com adesão. O analista escuta, mas não ratifica o calvário como valor.
O tempo como mecanismo clínico
Um ponto decisivo é um recorte temporal: um projeto analítico mínimo de 90 dias. Longe de ser uma exigência pragmática, esse prazo opera como corte simbólico em uma temporalidade que precisa primeiro ser descongelada.
Na clínica do luto, o tempo se transforma em inimigo. Ou passa rápido demais, traindo o morto, ou não passa nunca, eternizando a dor. Introduzir um limite para esse passo não é prometer resolução, mas romper a ilusão de eternidade do martírio.
Tempo lógico, ato e corte
O conceito lacaniano de tempo lógico para pensar essa operação é muito importante neste circuito. O sujeito enlutado permanece preso ao instante de ver, repetindo a cena traumática. O prazo circunstancial se estabelece e funciona como ato, introduzindo a possibilidade de um momento de conclusão.
O corte clínico não visa encerrar a dor, mas interromper sua repetição mortífera. Ele produz um furo no discurso do sofrimento absoluto, permitindo que algo do desejo comece a emergir no cliente acometido.
Separação simbólica e reposicionamento subjetivo
A partição simbólica do morto não equivale a esquecimento ou desapego. Deve se retirar o inexistente lugar de eixo organizador da vida psíquica. O vínculo permanece, mas deixa de exigir a suspensão da vida.
O efeito clínico decisivo não é a diminuição da dor, mas a queda da necessidade de sofrer para existir. O sujeito não sai “curado”, mas reposicionado. A perda permanece como marca, não como identidade.

Autorização para viver
Tal concessão para viver não é pedagógica, mas ética. Ela ocorre quando o sujeito pode sustentar que viver não repara a perda, mas tampouco a apaga. Estar vivo não ressuscita o morto, mas, também não o assassina.
Aqui se marca a diferença radical entre a psicanálise e as abordagens reparatórias do luto. Não se trata de substituir o objeto perdido, mas de permitir que o sujeito não se confunda mais com a própria perda (Lacan, 1962–63).
O fechamento como ato clínico
Encerrar um projeto clínico nesses casos não é simples, principalmente para a psicanálise. O fechamento não é alta nem ruptura, mas ato de separação simbólica. Se devolve ao sujeito a responsabilidade pela continuidade do trabalho, sem garantia e sem tutela.
Análise sem Fim? O ceticismo de Freud e os limites da cura.
A alusão à ideia de que "a análise termina quando o paciente e o analista deixam de se encontrar" nos remete diretamente ao ensaio tardio de Freud, intitulado: Análise Terminável e Interminável (publicado em 1937, com o título original em alemão (Die endliche und die unendliche Analyse).
Nesse texto, ele adentra nos dilemas que envolvem o encerramento de um processo psicanalítico, questionando se é possível alcançar um fim definitivo ou se a análise, por natureza, tende a se prolongar indefinidamente.
Freud começa com uma definição que soa quase trivial, como uma observação superficial: o término ocorre simplesmente no momento em que analista e paciente param de se reunir para as sessões. No entanto, ele rapidamente transcende essa aparente simplicidade, se desdobrando em camadas mais dispersas. Para ele, o verdadeiro fim da análise só se materializa quando duas condições essenciais são cumpridas: Em primeiro lugar, o paciente deve estar livre dos sintomas que o(a) afligiam, tendo superado as ansiedades e inibições que bloqueiam seu desenvolvimento emocional. Em segundo, o analista precisa avaliar que uma quantidade suficiente de material reprimido foi trazida à consciência, que o incompreensível ganhou clareza por meio de interpretações, e que as resistências internas foram desmontadas de forma a impedir a recorrência de padrões patológicos. Esse ensaio expõe o ceticismo amadurecido de Freud em relação à psicanálise como uma cura absoluta e "eterna", moldado por diálogos intensos com colegas como Sándor Ferenczi. Ele examina elementos como a intensidade inerente dos instintos da nossa natureza essencial e as transformações no ego, sugerindo que certos aspectos da psique podem resistir a uma resolução completa, tornando a análise um processo potencialmente sem fim.
Essa ponderação enriquece o debate sobre os limites da clínica analítica, senão que convida a uma visão mais humilde da nossa mente, onde o equilíbrio psíquico é uma conquista frágil e contínua.

Rompendo o Congelamento do Luto
Em contraste com a visão de um processo sem marcos rígidos, defendo a viabilidade e a necessidade de um "corte frontal" que delimite simbolicamente o início do trabalho de luto, especialmente em casos de inibição patológica.
A paciente em questão, apresenta uma paralisia específica: o mecanismo defensivo bloqueia o acesso às fases primárias do luto, impedindo o início natural do processo. Nesse contexto, a neutralidade clássica pode perpetuar o estado paralisado.
A psicanálise, de fato, compreende o trabalho analítico como um ‘’continuum’’ sem início ou fim claramente demarcados. No entanto, essa premissa não deve invalidar intervenções ativas que visem desobstruir os próprios mecanismos que impedem o fluxo do processo psíquico. Aceitar trabalhar exclusivamente com o "não-iniciar" é, em si, uma decisão clínica que já estabelece um enquadre diferenciado.
O "corte" proposto não é uma imposição de conteúdo, mas um ato de significação que cria um marco temporal e contratual. Ele visa romper a inércia defensiva, instituindo no campo da aliança terapêutica a permissão e a expectativa para que o material estagnado – a dor, a raiva, a negação, possam, enfim, aparecer e seguir seu curso elaborativo.
Portanto, longe de contradizer os fundamentos psicanalíticos, este manejo se justifica como um recurso técnico para criar as condições mínimas de possibilidade para que o "processo sem fim" do inconsciente, especificamente o do luto, possa, pela primeira vez, ter seu início.
O Foco Específico e a Porta Aberta para o Futuro
A realização deste atendimento com um foco delimitado, o de romper a estagnação inicial do luto, constitui, em si, um atendimento completo e válido. A conclusão desta intervenção específica, quando atingido seu objetivo de desbloquear e iniciar o processo elaborativo natural, pode ser vivida como um término legítimo.
No entanto, e isto é claro, ela não impõe um fim à análise de modo absoluto. Pelo contrário, ao liberar o fluxo psíquico que estava paralisado, essa estratégia abre caminho para que novos conteúdos e conflitos, antes mascarados pela inibição do luto, surjam à tona.
Nada impede, portanto, que a paciente, uma vez em movimento, decida pelo prosseguimento do trabalho clínico. O fechamento deste ciclo focado, não significa o abandono do ‘’setting’’ ou da aliança terapêutica.
A proposta é que se encerre um contrato específico (trabalhar o "não-iniciar"), se mantendo intacta a possibilidade de um novo prosseguimento. A paciente poderá então re-definir seus objetivos, talvez, buscando agora entender as raízes de suas dificuldades adjacentes, ou elaborando outras questões que o trabalho do luto trouxe à tona.
Dessa forma, tanto se respeita a eficácia de uma intervenção pontual quanto o princípio psicanalítico de que o processo psicanalítico é, de fato, interminável e sempre passível de novos desdobramentos conscientes.
É importante destacar que a psicanálise não propõe análises literais eternas, mas reconhece que o trabalho psíquico é contínuo. Posso finalizar então, mencionando a prática contemporânea, onde o "interminável" pode ser traduzido como processo de autoconhecimento permanente.
"A tarefa da análise é garantir, tanto quanto possível, as melhores condições psicológicas para o funcionamento do ego; nesse sentido, sua tarefa é interminável." - Dan Mena
A clínica do luto contemporâneo nos confronta com um paradoxo ético: quanto mais o sofrimento é socialmente legitimado, mais difícil se torna sua investigação e interrogação. O risco é transformar a dor em identidade e o analista em guardião dela.
Bibliografia
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. Rio de Janeiro: Imago, 1974.
FREUD, Sigmund. O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
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LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
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NASIO, Juan-David. O livro da dor e do amor. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009.
SOLER, Colette. O que Lacan dizia das mulheres. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
RASSIAL, Jean-Jacques. O sujeito em estado-limite. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000.
FAQ – Quando o Luto Não Começa: Culpa, Gozo e Reposicionamento Subjetivo
O que significa dizer que o luto não começou? Significa que a perda não inaugurou o trabalho psíquico do luto, mas instalou uma posição subjetiva de fixação, onde o sofrimento se torna um modo de existência.
Qual a diferença entre um luto difícil e o “não-luto”? O luto difícil ainda é um processo, mesmo que penoso. O não-luto é uma economia psíquica estacionada, onde a dor não se transforma e o tempo parece congelado no instante da perda.
O que é o reposicionamento subjetivo na clínica do luto? É o efeito clínico central, onde o sujeito deixa de precisar sofrer para existir. A perda deixa de ser o eixo organizador da vida, permitindo um novo lugar subjetivo em relação à falta.
Como a culpa atua no luto congelado? Aqui, a culpa não é um simples afeto, mas um operador estrutural. Ela sustenta a lógica de que viver ou desejar é uma traição ao objeto perdido, tornando o sofrimento um pagamento obrigatório.
O que é o “gozo na renúncia” descrito no artigo? É uma satisfação paradoxal e mortificante (conceito lacaniano) encontrada na própria estagnação. É o gozo de renunciar à vida para manter um vínculo fiel com o morto.
Por que intervenções de apoio e consolo podem fracassar? Porque, ao validarem incondicionalmente o sofrimento, podem reforçar sua função inconsciente de gozo e fidelidade, impedindo a interrogação ética que a psicanálise propõe.
Qual é a função do supereu nesses casos? O supereu assume uma forma cruel que, em vez de proibir, ordena o gozo: exige sofrimento como prova de amor e dever ético, comandando a moral do sofrimento.
Como um projeto analítico com prazo pode ajudar? O corte temporal (ex.: 90 dias) funciona como um ato clínico simbólico. Ele rompe a ilusão de eternidade do martírio e introduz a lógica do tempo, descongelando a temporalidade paralisada.
O que é um “corte frontal” na clínica? É uma intervenção ativa do analista que delimita simbolicamente o início do trabalho. Não é imposição de conteúdo, mas um ato de significação que visa romper a inércia defensiva e instituir uma nova expectativa na aliança terapêutica.
A psicanálise busca a superação do luto? Não. A direção da análise não é superar a perda, mas permitir que o sujeito caia da necessidade de sofrer. O objetivo é o reposicionamento, não o esquecimento.
Como a psicanálise vê o “luto prolongado”? Com precisão clínica. Distingue um processo laborioso de uma fixação patológica onde a perda funciona como significante mestre, organizando toda a existência do sujeito ao seu redor.
Qual a posição ética do analista frente a um sofrimento congelado? É a ética da não-complacência. O analista se recusa a normalizar ou romantizar o sofrimento, sustentando uma escuta que o torna questionável, sem se tornar cúmplice do gozo do paciente.
O encerramento de um foco específico (como iniciar o luto) significa o fim da análise? Não necessariamente. Pode ser o término legítimo de um contrato específico, mas mantém aberta a possibilidade de um novo contrato para outros desdobramentos, respeitando o princípio do processo interminável.
O que é a “separação simbólica” do objeto perdido? É o trabalho de retirar o objeto de seu lugar de eixo organizador da psique. O vínculo permanece, mas deixa de exigir a suspensão da vida do enlutado.
Por que conceitos como “resiliência” podem ser problemáticos? Podem intensificar a culpa superegoica, pois são vividos pelo sujeito como uma ordem traiçoeira para “seguir em frente”, reforçando a sensação de que estaria abandonando o objeto perdido.
Há um “terceiro território” entre luto e melancolia? Sim. É um estado de suspensão psíquica, com um remorso difuso e uma vida parada, onde o supereu não proíbe, mas exige a dor como prova de amor.
Como o tempo lógico lacaniano se aplica? O sujeito fica preso no instante de ver a cena traumática. O corte clínico (como um prazo) introduz o tempo para compreender e o momento de concluir, permitindo a saída da repetição.
O que é a “autorização para viver” no final do processo? Não é uma permissão pedagógica, mas uma conclusão ética subjetiva: o sujeito pode sustentar que viver não apaga a perda, mas também não a conserta magicamente. A vida segue com a falta.
Como este enfoque de Dan Mena dialoga com “Análise Terminável e Interminável” de Freud? Reafirma que a análise é um processo sem fim absoluto, mas defende a legitimidade de termos contratuais específicos (como iniciar o luto) que são termináveis e essenciais para destravar a psique.
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Sobre o autor
Este artigo nasce da minha prática clínica e da pesquisa teórica que amarro ao longo dos anos. Sou Dan Mena, psicanalista, supervisor clínico e pesquisador em psicanálise e neurociência do desenvolvimento.
Caso deseje conhecer de forma mais detalhada minha trajetória, formação, credenciais e percurso acadêmico e clínico, você pode acessar as informações completas nos links abaixo.
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(CBP) Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise - REG - N.º - 2022130, desde 2020);
Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University – Florida Department of Education, EUA (Enrollment H715 / Register N.º H0192);
Pesquisador em Neurociência do Desenvolvimento – PUCRS - (ORCID™);
Especialista em Sexologia e Sexualidade pela Therapist University, Miami, EUA N.º (RQH W-19222 / Registro Internacional).





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