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- O Fetiche.
''A primeira lei que encontro escrita no fundo da minha alma não é amar, muito menos ajudar os meus pretensos irmãos, mas sim fazê-los servir as minhas paixões.” Sade. Por Dan Mena. O que é um fetiche? São perversões? Surgem espontaneamente ou as escolhemos? O que significa ter um fetiche?. É uma preferência sexual que se caracteriza pela convicção e adoração a determinados objetos, ambientes ou práticas, mas atenção, mesmo assim existem regras. Este é o assunto da semana, boa leitura. Do ponto de vista histórico e antropológico, remetendo aos povos antigos, os fetiches eram artigos, ídolos materializados. Podemos sintetizar que na antiguidade era um objeto, amuleto, rito tribal, considerado portador de um poder sobrenatural. Assim, o emissário do fetiche era protegido, considerado detentor de um poder extraordinário. A veneração e culto deles naquela época, é chamada de fetichismo. Alguns pesquisadores e historiadores, defendem que o fetichismo é um estado primitivo das religiões, que com o tempo, se transferiram para o pensamento abstrato moderno. Destarte do conceito contemporâneo, religiões e pessoas, continuam a confiar na potência, energia e poder de certas coisas, que insistem em carregar ou guardar como talismã. Um exemplo prático, poderia ser um indivíduo confiar numa pedra preciosa, que supostamente pode lhe proteger e ajudar a afugentar más energias do seu lar. A palavra fetiche, na sua etimologia vem do latim, “facticius”, que significa artificial, imaginário, inventado, um significado absolutamente subjetivo, seja ele cultural ou sexual. A palavra evolui com uma designação de “feitiço”, quando os navegadores portugueses designavam objetos de cultos tribais que encontravam nas suas viagens de conquista. Essa mesma palavra, evoluiu para o francês “fétiche”, de onde vem “fetiche”, adquirindo portanto, sua definição conhecida linguisticamente. Antes de entrarmos na definição, é importante saber que existem vários conceitos sobre o assunto; vejamos dois deles. Positivista O fetichismo foi o estado primário do estado teológico do pensamento. Neste estado, os povos primitivos acreditavam que os objetos inanimados tinham um espírito vivo dentro deles, também conhecido como animismo. Sociológico Segundo Marx, é o aparecimento das relações de produção na sociedade capitalista, baseada na produção de mercadorias. Neste sistema socioeconômico, as relações entre pessoas estão escondidas por detrás do vínculo aparente com as mercadorias. Rothe, cunharia o termo fetichismo de mercado, que ganha sustentação pelo sistema capitalista. Ele por sua vez, “fetichiza” marcas e produtos através do marketing e de todo tipo de publicidade. Para Rothe, o fetiche não é escolhido, mas se apodera de nós: Talvez sejamos dominados por memórias ou por uma grande felicidade nesse momento. Quando se fetichiza uma coisa, exemplo; roupa íntima, podemos nos apaixonar por ela, pelo seu apelo e efeito psicológico, o que pode ser, uma sensação gratificante. No entanto, o fetiche, continua em um contexto marginalizado socialmente, principalmente, quando relacionado com a sexualidade humana. “O fetichismo de Alfred Binet, conduziu à sexologia ou a psicologia sexual, que subordinou todas as perversões. Assim, certos objetos e práticas sexuais se destacam. Já pela análise de Freud, sua origem está submetida a teoria da libido, onde o fetiche se introduz como substituto do pênis, numa tentativa de lidar com o medo da castração”, segundo Pitt. Do nosso olhar psicanalítico. O fetiche é uma manifestação perversa, como sendo o núcleo e lugar-comum de todas as outras parafilias; (as parafilias são meras preferências sexuais, que se desviam da norma, enquanto as perturbações parafílicas são consideradas uma doença mental, assinadas e marcadas por um grau de descontrole emocional, que impactam a saúde, vida relacional e afetos, provocando, muitas vezes, risco e danos a outros. Fica claro, clinicamente para mim, que geralmente aquelas que tratei até o momento são fantasias, sem dúvidas. Também, podemos considerar como se manifestam os problemas do sujeito, é sua relação com a lei e normas sociais, sobretudo, quando estas diretrizes são vistas por ele(a), como muito rígidas. Esta circunstância, situação, evento e conjuntura, podem estar conectados com a época. Se nos transportássemos a época em que Freud viveu, no final do século XIX, época vitoriana, existia naquele momento uma forte repressão do sexual e da prática da sexualidade. Isso implicava num cerceamento implícito da liberdade, neste sentido, base, para que proliferassem as fantasias mais tenebrosas, perversas, libertinas, libidinosas e intimamente inaceitáveis (para a época). Portanto, se sabe, e se confirma, quanto essa experiência do período, que quanto maior a repressão sexual mais intenso o fetichismo se emplaca. Como consequência direta destas condutas e comportamentos, tivemos então o desenvolvimento e nascimento do sadomasoquismo, voyeurismo e travestismo, entre outros. ''Podemos entender o fetichismo como uma organização particular do desejo sexual ou da libido, onde a satisfação não é alcançada sem a presença e o uso de um determinado objeto acessório, que chamaremos de fetiche''. Dan Mena. Como Freud examina a pulsão? Ele a analisa como a pulsão a partir de quatro componentes: meta (ou finalidade), objeto, fonte e pressão (ou impulso). 1) Se a meta última da pulsão é a obtenção da satisfação pela via da descarga das excitações, e observa, por outro lado, que as pulsões podem ser inibidas em sua finalidade. (Freud, 1925/1996). A explicação analítica do sentido e da finalidade do mesmo, revelou-se inequívoca, de uma forma geral, para todos os casos de fetichismo. Ele existe na fantasia psíquica como um substituto do pênis, de modo que não é um suplente ou sucessor dele qualquer, mas, de um muito particular e específico, que foi de grande importância na primeira infância, e posteriormente se perdeu. Normalmente, esse falo, (pênis), tinha de ser abandonado, mas é precisamente o fetiche que substitui e evita o seu desaparecimento. Claramente, o fetiche é o substituto do falo da mulher (da mãe), em cuja existência o menino acredita um dia, e ao qual não deseja renunciar. A relação entre fetichismo e perversões é complexa; então Freud anota, “um certo grau de fetichismo, encontramos na vida sexual normal”, nos seus; “Três ensaios sobre a teoria sexual”, (Freud, 1905). A escolha particular do objeto-fetiche, não se reduz à fixação num objeto, mas pertence a uma categoria, pelo que equivale sempre se mover para outro. Ambivalente, mas diferente, o fetichismo inclui a parte da insatisfação que constitui todo desejo. Agamben, reconhece esta metonímia, (matéria por objeto, pessoa por coisa), que ao colocar dito antagonismo de frente, denota uma tendência inevitável do fetichista para agrupar e aumentar sempre seus fetiches, “… o fetichista, multiplica as provas da sua presença, acumula um harém de objetos, o fetiche escapa de si, fatalmente das suas mãos e, em cada uma das suas aparições, sempre celebra apenas seu próprio fantasma místico” (Agamben,1977). Aqui ele convoca o ''fantasma''. O que é o fantasma? Para Lacan, é o mecanismo de captura do corpo pulsional, (objeto perdido) no laço com o ''Outro'', portador de uma falta e ausência. Em seu segundo ensino, Lacan (1964/1998), formaliza definitivamente o papel do ''Outro'', como a constituição psíquica por meio das operações de alienação e de separação). Então, vamos a outro nível; O que é a perversão pela ótica de Lacan? Ele afirma, que o pervertido funda e estabelece uma relação sexual que não existe, assim o faz com a ajuda do seu fantasma, a utiliza para capturar o gozo do seu parceiro sexual, e assim, ''encampa'' o ''Outro'', sob o seu desejo, onde o(a) subjuga, castiga, se exibe, etc. O tipo de perversão será a forma pela qual ele fará de si, um instrumento do gozo do seu/s parceiro/s sexual/ais. O fetichista patológico, geralmente apresenta casos de impotência, ejaculação precoce, retardamento exagerado da ejaculação, caso a exigência do seu imposto fetiche ao outro não for satisfeita. Ditos sintomas detectados, regularmente escondem uma homossexualidade latente no indivíduo. Neste caso, posso sinalizar outro comportamento comum, quando o homem só consegue ejacular com a(o) parceira(o) de costas, quando a prática da posição sexual, “somente se dá exclusivamente de costas”, denota, que o mesmo o faz para evitar o confronto visual com ela(e), de forma a não quebrar seu imaginário. Assim, o sujeito fetichista, monopoliza seu interesse sexual, experiencia tudo centrado numa determinada parte do corpo, vestimenta, acessórios, geralmente não tem relação direta com os órgãos genitais, apenas se concentra no objeto que para ele(a), representa o objetivo central do seu gozo e satisfação sexual. Geralmente, podem se sentir estimulados sexualmente e satisfeitas(os) de várias formas, como por exemplo: Vestir roupas íntimas de outra pessoa, usar elementos de borracha ou couro. Segurar, esfregar, impor castigos, amarrar, cheirar objetos, desfilar com sapatos de salto alto, lingeries específicas, entre outras, um pouco mais pesadas. E ae…? Vamos entendendo? Fetichismos mais comuns. Exibicionismo Sadismo Masoquismo Voyeurismo Pedofilia Nas parafilias mais raras, o fetichismo para o sujeito e um item necessário para a excitação sexual, ele(a) não pode ficar longe de uma relação sexual normal, seu objetivo sexual não é a união. A leitura psicanalítica esclarece sobre a verdadeira função do objeto fetiche, ele cumpre uma finalidade de proteção contra a angústia, dita angústia, provocada pela castração. Desta forma, o mesmo tenta se salvar do que não tolera em si, seu apavoramento de ser castrado, onde dito gatilho se ativa pela percepção da ausência do pênis na mulher, na (mãe). Para se prevenir desta ameaça, ele nega a ausência do pênis nela, sendo o fetiche nada mais do que um substituto para o pênis em falta. (O complexo de castração é a experiência psíquica pela qual passam inconscientemente crianças por volta dos cinco anos. Embora seja apresentado como uma etapa da evolução da sexualidade infantil, não se reduz a um único momento cronológico. Cada gênero o frequenta de uma forma exclusiva e pessoal, graças a esta experiência psíquica, a criança aprende a diferenciar os sexos, reconhecendo primitivamente a noção dos desejos impossíveis). Constituído pelo último objeto percebido antes da visão traumática, o indivíduo escolhe, seleciona uma parte do corpo considerada habitualmente inadequada para fins sexuais (pés, pescoço ou cabelos), ou então, um objeto inanimado ao qual o relaciona como o objeto sexual, em particular conectado com a sexualidade da pessoa, como vestimenta, seda, linho, etc. Esse lugar arbitrário, que se entende como memória da fantasia, não representa o pênis real, mas aquele enquanto detecta uma falta, aquilo que possa ser outorgado à mãe, validando e certificando ao mesmo tempo, a sua ausência. Neste assunto, muito importante para a psicanálise, o fetiche é um âmbito fundamental e esclarecedor para abordar o mistério e a incompreensão da sexualidade humana, que não se reduz apenas a reprodução da espécie. Encontramos senão, um excesso no homem, que se explica e estabelece pela diversidade do objeto pulsional, (o conceito de pulsão nos permite compreender os fenômenos psíquicos pulsionais, como sendo aqueles que representam, no sentido de estar no lugar de outra coisa. Isto é, a pulsão, que seria a representante dos estímulos corporais no psiquismo). A sexualidade está ligada ao conhecimento, à impossibilidade de saber sobre a causa do proprio conhecimento. A diferença entre o instinto que satisfaz a necessidade e a pulsão que tenta satisfazer esse desejo, que se diga de passagem, é por definição, impossível de satisfazer, menos ainda por um objeto, sendo o ponto de colisão básico da conceituação freudiana. Essa capacidade do homem encontrar na fantasia o seu objeto, aliás, absolutamente humana, visto que não existe nos animais a perversão, nem o fetiche, faz como que a castração não exista, seja apenas humana. Seria um desvio? Uma caracterização anota (Szuster, 2010). “Para um comportamento ser definido como desviante, é necessária sua comparação com um modelo ideal, considerado normal. Logo, esse modelo, nunca é alheio aos valores morais e culturais da época”. Assim ele dá a entender; que a perversão consiste numa constante mudança e transformação, onde a passagem do tempo recalcula culturalmente os comportamentos antes considerados perversos, hoje, validados como normais e naturais. Nessa linha, se nos remetemos ao Marquês de Sade, como o primeiro autor que expõe a perversão, sem considerar um padrão arquétipo normalizado para a época. Devemos reconhecer que foi destemido e corajoso, que enfrentou e ultrapassou a norma, transgredindo além da crítica social, enfrentando a moral, o poder da igreja, e fez leitura, liberto da contaminação dos valores éticos regentes. Ao respeito dos desvios; fala Baudini (2003). “Tudo é muito liberado, desenfreado, sem freio. Tudo é muito liberado, desenfreado e o que se produz é uma época sem ponto de corte, de queda de ideais, de perda de crenças e de promoção de um individualismo extremo, acompanhado de um não julgamento da ação e de um abandono à própria sorte, daqueles que não entram ou foram expulsos do mercado de consumo”. A perversão é caracterizada pela imoralidade, pelo excesso, pela destruição daqueles que querem fazer o bem e pela busca do interesse próprio independentemente dos meios, elementos que prevalecem no contexto atual, uma vez que toda a responsabilidade moral e dever social é rejeitada. (Talavera, 2018). Concluindo; ''Um fetiche se torna problemático quando se sobrepõe como angustiante para o sujeito. A angústia, como uma reação a sintomas de ansiedade e medo, é que transbordam o suportável, são reconhecidas como um calvário. Dita preferência, impõe ao afetado uma escolha, permanecer no sofrimento ou enfrentar uma terapia que possa ultrapassar sua obsessão''. Dan Mena. Vamos ao poema da semana; Desejos de Corpo e Alma. Na boca guardo o gosto do seus passos, te sinto e me envolvo, no calor movimento em meu corpo. Sigo enquanto sejam eles mel para meus desejos, me ajoelho aos teus pês, me curvo nos traços de formas e toque perfeito. Sou eu o seu mar que a boca te beija, que apaga pegadas deixadas, na areia. Tem olhos que olham para olhos, e simplesmente nada encontram, tem bocas que encostam e dançam e na dança falta desejo. Meus olhos seguem passos, que gemem no toque, que pisa, o gozo se transforma em laços, em traços, em teias de puro desejo. Sou eu um louco, a procura da moldura perfeita, a cor que enfeita, que te faça musa, que assim seja quase perfeita. Segue enquanto meus passos seguem os seus, Pise no peito, me rasgue a alma, me crava o salto. Nas marcas que me deixa, no gosto que o gozo aconteça, TRACE O CAMINHO, VENDADO TE SIGO, MEUS OLHOS SÃO SEUS, TEUS PASSOS SÃO MEUS.... Pedi, quando o desejo for absurdo, quase louca te desnudo, quase tudo permitido; De salto, nua te deito, te encontro em meu corpo, desvendo segredos. A frente do espelho, de salto, nua te vejo. Aos seus pês , Fetiche de alma, gozo de homem. Gosto que se faz desejo, Nos passos que minha alma te façam mulher... Até breve. Por Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- Simplicidade.
''Pensar e refletir, nunca me roubarão a alegria de viver, o contentamento e entusiasmo da simplicidade de existir'' Dan Mena. A vida é feito andar de bicicleta: se parar você cai. Vai em frente sem parar, que a parada é suicida, porque a vida é muito curta e a estrada é comprida. Você sobe e você desce na escada da vida e às vezes parece que a batalha tá perdida e que você voltou pro ponto de partida. Vai à luta, levanta, revida! Vai em frente, não se rende, não se prende nesse medo de errar, que é errando que se aprende que o caminho até parece complicado e às vezes tão difícil que você se surpreende quando sente de repente que era tudo muito simples - vai em frente que você entende. Boa sorte, firme e forte, vai com a força da mente. Vai sabendo que não há nenhum peso que você não aguente. Vai na marra, vai na garra, vai em frente. E se agarra no seu sonho com unhas e dentes. Pra saber o que é possível é preciso que se tente conseguir o impossível, então tente! Sempre alimente a esperança de vencer. Só duvide de quem duvida de você. Gabiel o Pensador. Boa semana! Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- O Autoritarismo.
''Onde o amor domina não há vez para o poder, onde o poder predomina é porque há falta de amor. Um é a sobra do outro.'' Jung. Por Dan Mena. A pessoa autoritária está absolutamente convencida de que em tudo tem razão, acredita que está acima dos outros, não pensa e muitas vezes não sabe, que inconscientemente deve respeito a outras, diga-se, na convivência e nos círculos sociais em que se move. Geralmente, tais sujeitos não conseguem ver o ''Outro'' como um indivíduo, com suas próprias necessidades e estruturas. No artigo da semana, quero abordar esse perfil das pessoas autoritárias, com um pouco da sua concepção também. Principalmente, aquelas(es) que desejam exercer autoridade ou poder, do qual raramente conhecem seus limites. Estamos diante de caracterizações de personalidades altamente agressivas, que colocam seus interesses, direitos, predileções, ideias, opiniões, ambição, coisas, etc., à frente dos direitos alheios, mesmo que isso signifique passar por cima deles e de todas às prerrogativas de existência. Boa leitura. O porquê desta personalidade? A etimologia da palavra “personalidade” provém do grego, do termo “persona”, que tinha relação direta com a máscara usada pelos atores nas suas representações teatrais da época. Este significado, daria uma identidade a personalidade da peça, que diante de vários papéis, representavam os atos que adotamos e desenvolvemos ao longo da nossa vida, assim como os ciclos e etapas que enfrentamos e cumprimos. Embora determinadas práticas sejam pre-existentes quando nascemos, sendo ditados através dos ''rols'' da sociedade, estão estruturadas sob a forma da moral, ética, normas, leis e valores, visto que pertencemos e participamos deles, inclusive, fortuita e acidentalmente, mesmo que não tenha implícita uma escolha pessoal. Assim, o autoritarismo está relacionado e se emplaca atrelado com normas sociais que toleram o domínio, o poder, manipulação e o controle sobre terceiros, onde o exercício dessa autoridade tende a prática do castigo, aplicado das mais diversas formas. Pessoas autoritárias não nascem com dito traço, seu aparecimento está mais associado à sua formação, educação e exemplos familiares. Certamente educadas(os), em ambientes onde prosperaram grandes controles dos laços, lugar tido é visto como algo natural e positivo. Portanto, há um entendimento quanto a sua cognição, que seja assimilada quanto a um fator muito estável e frequentemente presente em diferentes domínios com às relações afetivas, familiares, de amizade, trabalho e sociais. Pais autoritários desempenham analogamente como favoráveis ao castigo, para controlar o comportamento dos seus filhos. Assim crianças que se desenvolvem sob esta rédea tendem a ser ansiosas, apreensivas, irritáveis, medrosas, temperamentais, agressivas, infelizes, mal-humoradas, insatisfeitas, frustradas e passíveis de sofrer problemas emocionais quando adultos. Por conseguinte, entendo, que; ''Neste período histórico que atravessamos, de crises sociais e culturais, onde à rapidez das transformações tecnológicas desestruturam a cognição do indivíduo, por consequência afetam o homem moderno, inferem grande ansiedade e insegurança, sob a maneira de eventos que o lançam para o autoritarismo''. Dan Mena. Que características têm estas pessoas? O autoritarismo pode ir do domínio ao sadismo, (sem relação com a sexualidade), tendem a ser dominantes, agressivos e violentos. Sua paixão é comandar, estabelecer e ditar regras, satisfazer seu ego, punir desrespeitos e violações aos seus códigos de imposição, recorrendo mesmo a ameaças para coagir seus comandados. Reagem de forma enérgica quando a sua autoridade é posta em pauta, ou quando são desafiados. Sujeitos frios, empedernidos e insensíveis, chegam ao nível da perversidade. Não tem régua, não admitem expressar sentimentos, o que consideram um sinal de fraqueza. Podemos identificar quatro tipos de personalidades autoritárias. 1. Explosivo(a): se caracteriza por explosões de raiva incontroláveis, geralmente dirigidas contra a família ou seus pares. 2. Tirânico(a): sentem grande satisfação com o sofrimento que provocam aos outros, são frios(as), insensíveis e calculistas. 3. Impositor(a): rigoroso(a) no cumprimento das regras, acredita ter legitimidade total para controlar e punir quem seja. 4. Fraco(a): inseguros(as) e covardes, escolhem vítimas débeis e fragilizadas(os), para na sua sombra criar uma aparência de forte e temida(o). Pessoas autoritárias são aquelas que; consciente ou inconscientemente, tendem a reproduzir comportamentos onde os seus próprios critérios se impõem aos dos outros, sem se preocuparem em justificar, porque no seu entender devem ser obedecidos(as). A identificação delas(es) é altamente relevante, tanto fora da intervenção psicológica como dentro dela. Neste último caso, permite estabelecer um canal de comunicação no intuito de corrigir essas tendências. Como reconhecer? Preste atenção como tentam manter e se perpetuar no poder, onde dirigem suas decisões e ações que precisam de atenção, onde muitas vezes podem passar despercebidas(os). Quando não dispõem dos meios para impor diretamente sua vontade pela força, tentam influenciar os outros de formas mais sutis. No entanto, vale a pena ter em mente, quais são às características das pessoas autoritárias. Traços fundamentais. Acreditam que têm sempre razão. Se gabam dos seus feitos ou do que os outros fazem por elas(es). Expõem suas conquistas, dão publicidade a elas. Gostam de afirmar que outros se preocupam com elas(es). Comunicam que suas necessidades e desejos estão sendo satisfeitos. Possuem um comportamento linear, não fazem diferenciações. Suas condutas são frequentes em diferentes áreas da sua vida. Se consideram superiores, é o fazem saber com frases egocêntricas. Tendem a ser pessoas agressivas e grosseiras. Possuem um estilo de comunicação que envolve a utilização de linguagem verbal e não verbal agressiva. Podem recorrer à violência física e psicológica. Assumem a liderança sem serem convocados(as). Seus resultados são muito mais importantes do que os dos outros. Desvalorizam os feitos de terceiros. Exigem mais do que deviam, inclusive de forma pouco saudável. Impõem o medo, terror e usam de práticas ameaçadoras. Desprezam o trabalho ou as coisas dos outros e/ou minimizam sua importância. Desvalorizam os feitos e atividades que outros realizam. Acreditam que tem mais capacidade para decidir como as coisas devem ser. Ditam regras e determinam como outros devem se moldar para si. Da psicanálise. Segundo Freud, a constituição da autoridade, no que concerne, em específico, ao papel do pai nessa questão, acha-se intimamente relacionada à instauração do ''ideal do eu'', a partir do qual o sujeito buscará sua identificação na relação com o desejo e a cultura. O conceito de autoridade em psicanálise parte da raiz etimológica ''auto'', do grego antigo, com o significado de si, próprio, “de si mesmo”. Uma espécie de prepotência, que tende a ver o que há de um no outro, e vice-versa. Considerar o funcionamento da autoridade, do autoritarismo e da autorização a partir do discurso da psicanálise, produz resultados complexos e diversos. Está baseado no discurso da Lei, cuja referência é a lógica que sustenta às bases aristotélicas do pensamento: A é igual a A, uma coisa não pode ser falsa e verdadeira ao mesmo tempo, e não é duas ao mesmo tempo. A psicanálise identifica que o ''significante'' (o significante se mantém como condição de uma operação que se constitui em uma cadeia, e é nessa cadeia que ele se faz presente a partir de uma ausência). A cadeia dos significantes torna a condição do significante possível e é nela que ele subsiste (Lacan, 1966), não se significa a si, que a linguagem, por ter que dar conta do corpo, impõe outra lógica à palavra, e que os sintomas, os lapsos e os sonhos se misturam e conectam, subvertendo todos e cada um dos princípios. No entanto, as formações do inconsciente não são alheias ao impacto da lógica, que ocorre sempre que algo ultrapassa suas possibilidades de significação. No uso intuitivo da noção de autoridade, convergem aquele que sabe, e aquele que detém, “por si”, o poder de o fazer. Se este “por si” é pronunciado pelo “eu”, obtemos a sua servidão: é então o grande ''Outro'', (o grande ''Outro'' designa o conjunto das instâncias que determinam a nossa existência a despeito da nossa vontade. Por exemplo; na nossa língua materna, nas estruturas sociais, na cultura, etc.), como campo da palavra e lugar da verdade. Mas, a sua existência depende da presença de alguém que fale, não seria “por si”. Há um “para si” que a análise pressupõe. O ''eu'' não está lá desde o início, surge como resultado de um trabalho, sob a forma do reconhecimento de ter estado lá, sem o saber. Mas para localizar o que comanda o que não se sabe, é preciso ser dito, verbalizado. O que chamamos de sujeito em psicanálise; (o sujeito, para a psicanálise, é aquele que se constitui na relação com o ''Outro'' através da linguagem) o que não existe antes desse trabalho. Freud aponta na obrigação de repetir, a compulsão à satisfação a qualquer custo; já Lacan, descobre um trabalho necessário na repetição para que se produza um sujeito. O sujeito autoritário na psicanálise, é sua noção de autoridade, devém do exercício da função paterna, que marca o psiquismo do sujeito na medida da interdição que foi operada (ou não) pelo pai, que age para desfazer o incesto psíquico havido entre o filho e a mãe. Concluímos; como humanos nascemos num estado de dependência, o cuidado marcará nosso corpo nas leis do real: prazer e desprazer, serão nossos cuidadores que cumprirão o mandato de o satisfazer parcial ou totalmente e, em função disso, farão com que sejamos libertos, nos constituindo como sujeitos responsáveis de si. A intervenção do desejo deles, (pais ou cuidadores), será fundamental para o lugar que ocuparemos nos outros, será o que eles acreditam, e o que percebem que querem do sujeito. O desejo deve ser mediado pela ''Lei'' que indica a presença do ''Nome do Pai'' (o ''Nome do Pai'', é o significante que substitui o significante do desejo materno, produzindo uma significação ao final de seu processo). Assim, a função do símbolo paterno é substituir o significante do desejo primordial, marcando a impossibilidade de realização desse desejo, que lhe indicará que nem tudo pode ser satisfeito. A satisfação plena, atrelada ao desejo dos pais em seu ideal de ego, e pela reanimação de suas vivências infantis, fará que a criança não seja traumatizada, que não lhe falte o que lhes faltou, que lhe indique que tudo é possível; ou seja, (onde a castração não ocorrer, provocará o caos em sua ordem social), no viver e suportar o ''Outro'', que não admitirá nenhuma autoridade, e quem quer que se constitua nesse lugar, será tido como um intruso que perturba, que deve ser contestado. Tal fato, aponta para a ausência da função paterna, privação, frustração e interdição. A travessia do ''Complexo de Édipo'', determina onde a criança renúncia a ser o objeto de prazer e desejo de seus pais, o que se tornará um passo obrigatório na desvinculação dessa ''autoridade'', na luta para se constituir como sujeito desejante. Neste sentido, o sentimento de culpa que surge nas mães quando se trata da lei, do “não tudo” com os filhos, dá origem a um Superego, (Superego; é o aspecto moral da personalidade do indivíduo, responsável por “domar” o Id, ou seja, aquela que reprime nossos instintos primitivos, com base nos valores morais e culturais), de uma mãe caprichosa, que visa fazer da criança o objeto que lhe falta. O exposto, aponta que a autoridade não é um fenômeno circunstancial, mas estrutural à luz da psicanálise, ligada ao ''Complexo de Édipo'', que traça sua primeira organização libidinal, indicando ao sujeito sua ordem social, que na renúncia, e dependendo dela, irá aceitar a cultura que nos constitui. Conclusões gerais. Ao longo da nossa vida, encontraremos certamente pessoas autoritárias, geralmente podem ser: professores, empregadores, chefes, pares, familiares, amigos, colegas, entre muitos outros. Os famosos… ''mandões'' hehe. Por isso, é importante saber identificar quais são as características destas pessoas, e como podemos lidar com elas(es). Pessoas agressivas, violentas, ofensivas, manipuladoras(es) ou protetoras(es). É verdade, que ditos indivíduos autoritárias(os) tendem a ser agressivas(os), especialmente quando o ambiente o permite ou quando contemporizamos com ela(e). A agressividade pode se manifestar entre muitos contextos e formas, no entanto, esta característica pode estar fantasiada e mascarada, ser utilizada dentro de outra conformação, muito mais difícil de detectar e prevenir. Uma estratégia ardilosa, seria a passivo-agressiva ou supostamente cuidadora, que antes de se expressar como uma agressão dominante, dissimula, manipulando nossas emoções. Ao se tornar importante em nossas vidas e conquistar um lugar privilegiado, surge como o(a) autoritário(a), inibindo nossa evolução, criando o arcabouço perfeito, que podemos chamar de codependência. Vamos ao poema? A Alléa Alvarenga Peixoto Não cedas, coração; pois n’esta empreza O brio só domina; o cego mando Do ingrato amor seguir não deves, quando Já não pódes amar sem vil baixeza: Rompa-se o forte laço, que é fraqueza Ceder a amor, o brio deslustrando; Vença-te o brio pelo amor cortando, Que é honra, que é valor, que é fortaleza; Foge de ver Alléa, mas se a vires, Porque não venhas outra vez a amal-a, Apaga o fogo, assim que o presentires; E se inda assim o teu valor se abala, Não lh’o mostres o rosto; ah! não suspires! Calado geme, soffre, morre, estala! Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- A Resistência.
“Saber que se é livre, é pior do que não sabê-lo” Sartre. Por Dan Mena. Resistência é o conjunto de comportamentos e atitudes de rejeição ou oposição de um indivíduo, particularmente como paciente ao tratamento, e a algum aspecto específico da terapia ou de seu ambiente, em contrapartida, a mim mesmo como analista, que mesmo participando e querendo realizar, resisto a sua implicada aplicação. A experiência psicanalítica, mostra na sua prática, que uma grande parte das formas de sofrimento emocional que nos depararmos na clínica, só existe porque as pessoas em questão, são incapazes de lidar com suas próprias verdades. O paradoxo, é então estabelecido entre o desejo da cura e a oposição terapêutica, onde Freud inicia e estabelece a técnica dá livre associação'' (nossa técnica), que pela sua via, descobre tanto o inconsciente, quanto o fenômeno da repressão, (a repressão é um mecanismo mental inconsciente, pelo qual as ideias ou os impulsos indesejáveis e inaceitáveis para a consciência, senão, suprimidos por ela, são impedidos de entrar no estado consciente. O material produzido como indesejável no sujeito não está geralmente preso à recordação voluntária consciente). Este, é o segundo tema da semana, muito importante para a nossa compreensão, quanto elucidar porque nos contrapomos a alguma coisa, que possa de alguma forma dar resolução aos fantasmas que nos habitam. Boa leitura. A psicanálise nasceu da necessidade de curar aqueles sintomas que eram inexplicáveis para a medicina do final do século XIX. Darei um exemplo muito prático e lúdico. Certa mulher, tem repentinamente um problema de visão, (sem nenhum registro anterior), que chega a cegueira, obviamente, procura um médico especialista, que sugere pela prática natural da medicina que sejam feitos todos os exames necessários para encontrar e detectar o problema fisiológico, (físico) da sua interrupção de visão. Ao retornar com o médico, mediante a leitura das análises, o diagnóstico dos mesmos mostra incompreensivelmente que dita paciente não apresenta nenhum obstáculo ou doença que a impeça de enxergar perfeitamente. Qual poderia ser a explicação para este fenômeno? Então, adentremos um pouco nessa historia bem sinteticamente; pioneiros como Jean Martin Charcot e Josef Breuer mostraram a Freud que a ''histeria'', (logo entendendo que o citado exemplo acima era tratado com esse nome), e quando uma patologia era definida sem uma base comprovadamente fisiológica (não há doença física). Fazem então, as primeiras tentativas de intervenção por meio da hipnose, muito animado e fascinado pelas descobertas dos seus mestres e mentores, Freud começa a tratar a histeria através do método ''catártico'' (o método catártico, consistia em solicitar para o paciente falar livremente, (associação livre) sobre seus sintomas. Essa fala era conduzida até que o paciente chegasse aos eventos desencadeadores da manifestação, por essa razão, o método também é conhecido por associação livre, nome derivado da fala do paciente). No entanto, ele se depara rapidamente com dificuldades decorrentes do pouco espaço logístico e tempo de que dispunha para realizar tais terapias. Além disso, apesar de fragilizados e desesperançados os clientes em achar cura para a doença, resistiam integralmente ao tratamento de todas as formas possíveis. Desta forma, dificultavam e impediam a aplicação da hipnose, ocultavam informações, emudeciam, alegavam não lembrar de fatos relevantes ao tratamento, não colaboravam. Com seu espírito de pesquisa e inquirição, Freud abandona a hipnose como ferramenta clínica para se concentrar no método central da psicanálise, a ''associação livre''. O conceito de resistência ganha base fundamental na prática psicanalítica, uma vez que o tratamento consistia em tornar o inconsciente consciente, precisamente através da superação dessas resistências, tendo como pilares técnicos a associação livre e a interpretação. Da mesma forma, este fenômeno observável no tratamento levou o fundador da psicanálise a descobrir dois dos seus conceitos mais importantes: o inconsciente e o mecanismo de repressão, ambos, dando origem às resistências que podemos identificar e que são propostas durante a terapia. Contemporaneamente, o conceito de resistência ainda é tão válido quanto no início da psicanálise, o que nos leva a seguinte indagação: Quais são as manifestações de resistência mais importantes e difíceis de superar? Conheçamos as principais: No final de Inhibition, ''Symptom and Distress'' (1926), Freud menciona cinco formas de resistência. Três do ego: a resistência da repressão, a transferência e o benefício do sintoma. Uma do id: a compulsão à repetição, que está conectada ao impulso de morte, assim como a resistência do superego, o sentimento de culpa inconsciente, e a necessidade de punição. No ano de 1930, ele acrescentaria outra resistência do id, a da tenacidade da libido, na ''Análise Terminável e Interminável'' de 1937. As revelações mencionadas, devemos acrescentar o que Lacan apontou sobre a resistência do ''próprio analista''. Esta última, geralmente funciona em consonância com algumas das outras, sendo tal resistência do mesmo (analista), sempre cúmplice de alguma do paciente. O que o psicanalista não inclui, devido à sua própria resistência, deve ser algum obstáculo apresentado pelo analisado. A dificuldade cresce, devido ao compromisso de ambas as resistências. O mais comum, é quando uma situação de ''transferência'' (a transferência é um fenômeno que ocorre no ''setting analítico''. Nesse processo, os sentimentos sobre as figuras parentais são atualizadas na relação entre o paciente e o analista. Trata-se de uma parte muito importante da técnica psicanalítica). Dita, é sobreposta a uma situação de ''contra-transferência'' (a contra-transferência é definida como um fenômeno relacional da clínica analítica, por surgir “como resultado da influência do paciente” e, portanto, está intimamente vinculada à transferência, aspecto central do método analítico), que não nos permite compreendê-la e operar sobre ela. Seguindo em frente, Freud postula que as memórias podem ser agrupadas em camadas em torno de um núcleo psíquico, e que durante a análise, cada vez que nos aproximamos desse foco, a resistência aumenta em grande escala. O indivíduo quer mudanças, mas parte dele(a) escapa a esta transformação e mudanças, porque entende ainda estar em certo equilíbrio com seus desacertos, espremendo uma relativa negação de seus impulsos instintivos, que o narcisismo visa manter vivos, principalmente, porque teme a incerteza dessa conversão. Os mecanismos humanos de defesa desenvolvidos contra os perigos, retornam na cura, esses arcabouços defensivos, tentam manter o controle, pela sexualidade e a agressividade natural e instintiva do nosso ser. Aqui, Carl Jung nos esclarece brilhantemente, “O que negamos nos submete, o que aceitamos, nos transforma, o que resistimos, persiste”. Esta frase resume magistralmente, a dinâmica entre o consciente e o inconsciente. Negar e resistir, é dar a algo uma classificação de maior relevância, a ponto de se tornar uma força orientadora da vida, por outro lado, acolher a realidade, liberta, nos permite redirecionar a vida positivamente. A resistência, só leva ao aprofundamento daquilo que não desejo enfrentar. Más, que em algum ponto da nossa trajetória será inevitável o confronto, ou então, não encontraremos a harmonia. O inconsciente e o mecanismo de repressão, ambos, dão origem ao fundamento das resistências durante a terapia. Com o tempo, a psicanálise ampliou seu campo de estudo para analisar a personalidade 360º graus do paciente. A análise de caráter, se acopla como uma parte inevitável e desejável de todo tratamento analítico. À medida que a psicanálise se tornou mais rica, ampla e excitante, também se implicou mais enigmática, uma vez que a natureza da personalidade é um aspecto difícil de lidar. Isto é perfeitamente compreensível, se considerarmos que nossa estrutura é construída ao longo de nossas vidas, e, acima de tudo, que tem um propósito, de lidar da melhor maneira possível com as demandas internas e externas. O conceito de resiliência, não está exclusivamente ligado a uma chave que nos ajuda a encontrar uma solução para um problema, ou aquela verdade sobre o paciente que ele nem sequer conhece sobre si, ou um comportamento inato, que não estamos cientes de poder praticar, como Freud pensava no início. Pelo contrário, hoje em dia, está relacionado ao vínculo entre paciente e analista, onde o fenômeno é mais uma muralha à relação entre os dois, do que propriamente ao ''insight'' em si. Estas posições foram descritas especialmente por Bion, com sua ideia do ataque ao vínculo, e Meltzer, que define a resistência como algo que vai contra a intimidade, e a vincula à ausência de sonhos na sessão analítica. Para Lacan, a resistência é imaginária e necessária, porque é o reduto com o qual o paciente se defende da sugestão; é aqui, no respeito à resistência, que a psicanálise difere desse estímulo sugestivo de coachings, gurus, mestres, etc. Como terapeutas, entendemos que a resistência não se deve à má vontade do paciente, mas a uma incompatibilidade estrutural entre o desejo e a palavra, pois enxergamos que o desejo escapa à linguagem. Quanto mais o “Eu” é reforçado, mais obstinação psíquica há, e, é por isso, que não deve ser estimulado. É uma questão de respeitar o tempo do paciente, seus obstáculos, relutância em ser ou não guiado, portanto, a resistência não deve ser forçada, mas simplesmente flutuante na observação de que o cliente, não pode ir mais rápido que seu próprio tempo. Outro fator que desempenha um papel, e que sempre existirá um resíduo psíquico, que nunca pode ser superado, e é melhor que assim seja, caso contrário o paciente seria um ser totalmente sugestionável. Voltando ao estudo de Freud sobre hipnose, o qual é um dos exemplos mais notáveis de persuasão. Exemplo: se o paciente for ordenado a matar alguém ou a fazer um grande mal, estando hipnotizado não o faz. Isto prova, para concluir do ângulo de Lacan, que há sempre um resquício de antagonismo necessário para a autopreservação, e uma reserva mental para a própria preservação do ser e do nosso semelhante. Quando um cliente, que sabemos não está curado, quer abandonar o tratamento, devemos respeitar sua decisão pois nada podemos fazer, senão esperar por ele e seu possível retorno, por ser sabidamente mais um ato resistivo. Resistências e os dispositivos psicanalíticos na modernidade; 1 — A pulsão de morte na clínica. A reafirmação das resistências ligadas ao impulso de morte, como predominam nas resistências, como a compulsão à repetição, a reação terapêutica negativa e a necessidade de punição. Trabalhar com os efeitos da pulsão de morte significa trabalhar com a parte negativa, ou seja, com a violência destrutiva e autodestrutiva que predominam nestes tempos. 2 — Nem todas as resistências são resolvidas interpretativamente, onde não só o conteúdo de uma interpretação é importante, mas também sua formulação, que inclui o verbal e o não verbal, o dito e o não dito. Há tipos, que só podem ser confrontados com um dispositivo que abre a porta para o desempenho do analista, chamado contra-performance. Entretanto, pode-se considerar que tal posição favorece uma atuação obsessiva, ritualizando e repetindo um modelo para todos os pacientes e todas as situações, sem considerar a situação clínica particular de cada indivíduo. 3 — Trabalhando com a contratransferência. Se chegamos à conclusão de que as diversas resistências assumem consistência quando combinadas com as próprias resistências do analista, isto nos leva a entender, que a própria contratransferência é essencial, onde primeiro precisaremos ouvir as do analista, e depois trabalhar com as do cliente. 4 — Às resistências que encontramos na clínica, podem ser superadas com a interpretação da própria terapia, quando o paciente já compreende os efeitos, que foram reprimidos e entra em uma linha associativa, vendo a relação que estes novos frutos identificados têm com os sintomas ou seus comportamentos disfuncionais. Devemos entender que elas funcionam em um nível totalmente inconsciente, e que são forças potentes, que nos impedem de nos ver e projetar como realmente deveríamos. Sartre disse: “Saber que se é livre, é pior do que não sabê-lo”. O que quis dizer?… devemos apenas tentar um esforço para transmutar esse conhecimento em uma verdadeira libertação para nosso espírito: em compreender a nós mesmos. Mesmo quando em tratamento, a pessoa se beneficia de sua patologia, do seu sofrimento, a ampliação da nossa mente implica em uma mudança radical, enfrentando este novo eu ''possível'' de ser reconstruído,o que produz muita incerteza. Um exemplo clássico; alguém que tem um parceiro(a) altamente tóxico e permanece com ele(a), não por amor ou medo, mas por aversão à ideia de abandono. Seria então a resistência um fenômeno normal e humano, mas é importante saber, em que ponto do tratamento se manifesta, como isso se relaciona com o caráter e a fantasia do indivíduo, a fim de estender a mão, a que possa reconhecer e superar o que ele(a) não conhece. Aquilo que o(a) impede de melhorar sua vida. Hoje, o conceito de resistência é tão relevante quanto era nos primeiros tempos da psicanálise. Embora sua presença oculta, talvez não seja tão evidente como era quando Freud e seus contemporâneos a identificaram, hoje, seu entendimento permite o desenvolvimento bem-sucedido de qualquer análise, e oferece aos analisados o uso de ferramentas e oportunidades de desenvolvimento pessoal. Como psicanalistas, nos aproxima da teoria fundamental psicanalítica, nos ajuda a expandir e melhorar exitosas práticas clínicas. Para deixar uma definição clara. ''A transferência é um conceito freudiano, que designa o dispositivo organizado da situação analítica, permite a associação livre e a análise propriamente dita, salientando, que ela não é provocada, mas que tem lugar, e que é o que permite sua interpretação''. Concluindo, obviamente um assunto tão profundo, mais que se faz necessário resumir e abreviar. Talvez a resistência esteja mais centrada no ''eu'', a análise apresenta e desperta por si um imperativo conflito dos desejos inconscientes, incluindo suas crenças, hábitos, a moral vigente, muitas vezes a religião e valores éticos. Estará sempre focada nesse ''eu'', que esconde, evita falar para não causar problemas, ampliar conflitos, aumentar frustrações e criar julgamentos a respeito daquela imagem idealizada que tenho de mi mesmo. Destarte, será sempre acrescida principalmente daquela fantasia sobre a que os outros têm ao nosso respeito. O desafio, será então, encontrar e defrontar esse lugar que a resistência ocupa em nossa dificuldade de sermos transparentes em relação ao nosso inconsciente. De toda forma, ela coexiste, nos habita para preservar a organização psíquica necessária a uma etapa anterior, análoga a uma análise, uma vez que por algum tempo, miticamente ela provocou também grande satisfação a mim, agora, posta em xeque pela abertura necessária a investigação do meu inconsciente, resisto a afrontar. “Neurose é a incapacidade de tolerar a ambiguidade.” Freud. Nesta frase da época, podemos assimilar; que existe de fato a incapacidade de tolerar o que somos e o que não somos; que concreto tudo é, e não é. Não seria muito mais fácil, que fossemos dotados e capazes de definir tudo integralmente? Terra e céu, paraíso e inferno, branco e preto, etc. No entanto, como seres complexos que somos, ambíguos, inexatos, não possuímos dito predicado. Assim, almejar e desejar o contundente estaria para nos, os humanos, como um desejo improvável ou mesmo impossível. Vamos ao poema; RESISTIR "Acredite no poder da palavra “Desistir" tire o D coloque o R que você vai Resistir. Uma pequena mudança às vezes traz esperança e faz a gente seguir. Seguir sua caminhada que é sua e de mais ninguém, que a dor, até se divide mas não se transfere pra alguém. Que a existência do mal justifica a do bem. Tem dor que dói, depois passa. Tem dor que nem sei mais se dói, tem dor que adormece a gente, fica dormente, destrói, mas se é dor, há de passar, basta o cabra reparar, pra cada dor, há um herói. Imagine que no mundo existe um milhão de dores, tem na mesma quantidade um milhão de protetores… E se a conta for errada? Se pra cada espinho na estrada a gente encontrar dez flores? Afinal, A vida é uma mãe severa que bate pra lhe ensinar, que quanto mais você cai mais aprende a levantar, que o fardo nunca é maior do que se pode levar! E a gente leva, carrega o peso do sofrimento, mas a justiça divina nunca erra o julgamento… Eu não quero ser clichê, mas eu garanto a você e falo com o coração: que não existe uma dor que transforme em perdedor quem nasceu pra campeão!" Bráulio Bessa. Por Dan Mena, até breve. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- A Dependência.
“O investimento libidinal em um objeto, não eleva a autoestima. A dependência ao objeto amado tem como efeito a redução daquele sentimento: uma pessoa apaixonada é humilde. Um indivíduo que ama priva-se, por assim dizer, de uma parte de seu narcisismo, que só pode ser substituída pelo amor de outra pessoa por ele(a)”. Freud. Por Dan Mena. A dependência emocional é um traço de personalidade, mas se ela se faz presente com um alto grau de compulsão, estamos falando de uma desordem, da necessidade dos outros assumirem a responsabilidade pelas principais áreas da nossa vida, do medo da separação, das dificuldades em tomar decisões por si, de expressar desacordo com os outros, devido ao medo do abandono. Nas crianças, é detectado, quando demonstram uma atitude imatura para com aqueles que cuidam delas e as guiam, ao precisarem, exageradamente, da presença e aprovação de uma pessoa específica para a qual podem se referir e identificar. Escolhi este tema de grande profundidade e importância para a vida contemporânea, boas leitura, um ótimo feriado. Quais seriam suas causas? Dita dependência está intimamente conectada com a busca do prazer e com a ideia de morte. Uma forma simbólica de morrer e de sentir, que existe pela subsistência de ambas as pulsões no ser humano. Podemos avaliar também, como uma carência interior profunda, que só pode ser satisfeita pelo comprazimento, como um sentimento de insaciabilidade e sua necessidade de oposição a satisfação. Simultaneamente, podemos fazer leitura pela clínica, que certos indivíduos inseridos nessa trama psíquica tiveram deficiência afetiva durante a infância ou, ao contrário, excesso. Devemos incluir determinados traços de caráter que lhe são característicos, como a alta sensibilidade emocional, tendências depressivas, ansiedade crônica, deficiência de independência, autoestima negativa e medo da rejeição. Ela é intensificada por uma educação superprotetora ou que provoca medo, por exemplo: uma criança que desenvolveu uma dependência emocional de sua mãe hiperprotetora, e, que diante desta ligação exorbitante na infância se correlaciona e permanece fixado(a) a essa fase, desenvolvendo distúrbios de apego afetivo no estágio do amadurecimento. Como um estado psicológico que ocorre nas relações pessoais, sejam elas de família, parcerias ou amizades, afeta muitas pessoas, embora a maioria não esteja ciente da sua presença. Os dependentes, demonstram uma grande falta de autocontrole, sentem desconforto quando se afastam ou saem do raio de atuação da pessoa sobre a qual a dependência está focada. As três características essenciais são: comportamento submisso, pensamentos intrusivos sobre o parceiro, como, por exemplo: experimentar grande angústia na possibilidade de uma ruptura e um intenso sentimento de medo pelo abandono. Não devemos cometer o erro de interpretar que se trata de um vício, pois este problema transcende o momento presente, é uma tendência emocional, um padrão de comportamento caracterizado pela busca e manutenção de relações sentimentais que possam suprir uma necessidade, ausências e afetos impossíveis de serem atendidos plenamente, sob quaisquer circunstância. Nas relações típicas da dependência emocional, encontrarmos um ciclo que consiste em quatro fases, é geralmente se repetem: 1 - EUFORIA, na qual a pessoa dependente se sente verdadeiramente feliz com o início de um relacionamento, com um parceiro idealizado e projetado desde o primeiro momento. 2 - SUBORDINAÇÃO, onde uma relação desequilibrada, construída entre um submisso e um dominante, seguindo uma tendência de um deles fortalecer e aumentar seu papel, o submisso, se torna cada vez mais súdito com o tempo, e o dominante, por sua vez, tende a fazer cada vez mais exigências. 3 - DETERIORAÇÃO, sendo geralmente uma fase mais longa, na qual o submisso suporta a injustiça, humilhação, destrato e atos abusivos. 4 - FRAGMENTAÇÃO, iniciada pelo parceiro dominante, é um período de intenso sofrimento por parte do dependente. Um cenário triplo aparece: implorando incessantemente o dependente, tentando convencer o outro a reiniciar a relação, ou que o dependente encontre alguém que aceite iniciar uma relação com as mesmas características para substituir a anterior, ou a chamada relação de transição. Nesta última, cuja única função é aliviar o desconforto da ruptura, onde o dependente não mantém o padrão típico de submissão e idealização, mas desenvolve uma relação fria e temporária, até que um candidato adequado apareça novamente, momento em que o ciclo recomeça. Os indivíduos emocionalmente dependentes podem ser identificados por comportamentos e sintomas, tais como: Problemas para fazer as coisas por conta própria. Disposto a obedecer e ser desproporcionalmente subordinado. Má capacidade de adaptação a novos ambientes ou situações. Baixa autoestima e aversão. Tendência para a depressão ou ansiedade. Não assumir responsabilidades. Dificuldade na tomada de decisões. Posição inferior nos relacionamentos. Abuso físico ou verbal duradouro. Sentir-se desconfortável com a solidão. Não encontrar o lugar da solitude. Impossibilidade de sair de uma relação tóxica. Só pode preencher este vazio com outra pessoa. Medo de rejeição e dificuldade em dar sua opinião. Necessidade de agradar aos outros. Dificuldade em iniciar projetos pessoais individualmente. Falta de confiança no próprio julgamento e habilidades. Realizar tarefas indesejáveis para manter o relacionamento. Tudo isso, não significa que uma pessoa dependente não faça coisas por si mesma(o), acontece, é que precisa do apoio ou aprovação de outra(s) para reforçar sua eficácia e realização. A dependência emocional, não deve ser confundida com outros tipos de relações destrutivas, tais como a codependência e a dependência instrumental. Para citar; No fenômeno da codependência, a pessoa tende a buscar inconscientemente relacionamentos com pessoas com problemas: seja dependente de drogas, alcoólatras, jogadores compulsivos ou outros tipos, nesse rol, pretendem desempenhar um papel de cuidador, uma instrumentalização do outro, que gere alguma forma de satisfação e sentimento de utilidade para si. O co-dependente, se doa plenamente ao cuidado, proteção e até mesmo à ocultação do parceiro, fazendo todo o possível para controlá-lo e resgatá-lo, ''salvá-lo'' da sua suposta ruína. Enquanto, o parceiro do dependente emocional é geralmente dominante e narcisista, alguém que se sente confortável em uma posição de domínio e superioridade, o outro, assume um papel passivo, permitindo a condução ao seu bel-prazer e explorando a ansiedade que nutre em solucionar todos os seus problemas. Na dependência instrumental, a pessoa não consegue assumir o controle de sua própria vida, sente-se insegura(o), carece de iniciativa e autonomia, tem a sensação de não ser capaz de se defender e não poder arcar com suas decisões ou mesmo de se encarregar de suas próprias responsabilidades. O dependente emocional, é frequentemente alguém que teve que se defender, (geralmente na fase infantil), se armando emocionalmente desde cedo, (formando um escudo), enquanto o dependente instrumental, mas parece uma criança indefesa no corpo de um adulto. Muitos daqueles acometidos, não sabem da sua presença, negam e se recusam a aceitar serem portadoras de tal condição, mesmo quando alguém próximo apresenta situações típicas e fundamentadas dos fatos. Muito dos distúrbios psíquicos e emocionais, são velados e invisíveis ao sujeito, visto que operam através do nível inconsciente. Uma situação regular na clínica psicanalítica são os pacientes que se apresentam com diagnósticos prontos e próprios, se avaliando com estresse, depressão, ansiedade e angústias, sem saber, que a causa motora desses sintomas são senão produtos de dependência emocional e afetiva. A chave para gerar relações saudáveis, são o cultivo do amor-próprio e a construção estruturada do autoconhecimento. Seria então o estado ideal a independência total do outro? A resposta é não! Cuidado para não cair na armadilha moderna do arcabouço emocional, se fossemos totalmente independentes, viveríamos isolados, somos seres sociais que vivemos em comunidades, o apego, é uma de nossas necessidades básicas, e é normal estabelecer laços de dependência entre nós. Nesta frase de Dalai Lama encontramos uma leitura muito concisa ao respeito. “Se houvesse algo que não tivesse partes, esse algo poderia ser independente; mas não há nada que careça de partes.” Dalai Lama Portanto, que tipo de entrelaçamento é saudável? Entendamos um pouco sobre as formas da sua manifestação: Dependência Vertical e Horizontal: Dependência Vertical: Isto é quando uma pessoa é absolutamente dependente de outra: é, por exemplo, o tipo de relação entre os pais e seus filhos pequenos. Os pais fornecem, cuidam, e o bebê depende deles para a sua sobrevivência. Dependência Horizontal: Esta é uma interdependência entre pessoas adultas. Todos damos e recebemos, cuidamos e apoiamos reciprocamente. Entre casais adultos, esta interdependência horizontal seria característica de uma relação saudável e equilibrada. E quais são os padrões de personalidade, como elas se cruzam? Submissos: É difícil para um submisso ser atraído por outro com a mesma característica, mas, serão facilmente emparelhados com dominantes ou evitadores. Escapistas: Duas pessoas evitadoras dificilmente formarão um casal e, se o forem, quase sempre o menos evitador dos dois começará a se mostrar mais submisso. O evitante e dominante, também são incomuns e, quando esses casos ocorrem, o evitante acaba adotando uma posição submissa. Dominantes: Dificilmente formarão relacionamentos entre si, se o fizerem, geralmente irão travar uma luta constante de dominação. Os dominantes frequentemente se emparelharam com estilos submissivos. Interdependente: Os independentes, buscam relações horizontais e evitam as verticais, de modo que acabam sempre se relacionando entre si. Se iniciam uma relação com um padrão de outro tipo, acabam rompendo após pouco tempo, ao perceberem o padrão diferente, já que não é o que estão procurando no seu oposto. As relações interdependentes são do tipo saudáveis, as quais todos devemos aspirar. Seria, portanto, um crescimento benéfico, que possamos trafegar entre a dependência afetiva natural inerente a humanidade é a interdependência saudável, promovendo nossa capacidade de intimidade, o que implica saber regular o contar com os outros, se comunicar, compartilhar acolher nossas emoções e saber ouvir, consolar e ser empático. Além disso, confiança e calma na vivência das relações, precisam regular o medo, temperar a ansiedade como uma ameaça, aprender a confiar nos outros, ser bom em participar de grupos, trabalhar em nossa assertividade e inteligência emocional. Finalizando, posso afirmar, que a dependência quando conflitiva afeta a cognição, os afetos, a atividade interpessoal e o controle de impulsos. É persistente, inflexível e envolve situações históricas da fase infantil, pessoais e sociais. De longa duração e início precoce, está no extremo de uma trajetória baseada em um traço adaptativo, que, neste caso, é a ligação social. Assim, alguma dependência emocional é comum e desejável, assim como o narcisismo, a desconfiança ou a introversão, que atuando em parâmetros constitutivos das estruturas humanas naturais possam ser avaliadas ponderadamente. Trabalhar esse conflito, é atravessar a ponte emocional para uma relação menos ansiosa com o desejo, instituindo e reconduzindo às relações de qualquer índole a necessária autonomia individual. Neste ponto que reside toda a tribulação, visto que quando a detectamos e tomamos consciência precisamos enfrentá-la, e então, surge a resistência. Para se libertar desses grilhões, é preciso poder verbalizar livremente sobre a origem dessas emoções, sobretudo, quando são de crivo negativas e persiste nelas uma necessidade elevada, extremamente imperiosa de ser atendida. Será necessário explorar a infância, a trajetória de vida, os sonhos, todos estes parâmetros podem de alguma forma esclarecer as raízes da compulsão. No entanto, há um lugar muito importante que terá de ser trabalhado, a fonte interna da autoestima, reaprender a amar-se e valorizar-se. Em suma, será necessário fundar uma nova relação que o cliente construa consigo mesmo. Vamos ao poema; Dependência Agarro-me à fina borda de tua presença Tal qual náufrago ata-se à boia E em desesperados sussurros Suplico que não me abandones De minha garganta seca Sai o grito emudecido de socorro Quem ouvirá meu lamento Quando não estiveres por perto? Não me deixe a sós, comigo Porque sozinha já não sou ninguém O medo me paralisa no escuro E febril, procuro a tua mão Talvez tal tarefa seja um fardo Não pedistes por nada disso Mas o que posso eu fazer Se tua presença se fez essencial? Meu coração a correr como trem descompassado Bate trôpego quando não te vê E eu sinto tanto a tua ausência P R E C I S O D E V O C Ê! Thainá Silva. Por Dan Mena, até breve. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- A Palavra.
“Existem momentos na vida da gente, em que as palavras perdem o sentido ou parecem inúteis e, por mais que a gente pense numa forma de empregá-las, elas parecem não servir. Então a gente não diz, apenas sente.” Freud. Por Dan Mena. É porque atribuímos tanto valor à palavra? A palavra, como dom humano, tem a virtude de dar conta do que somos, da nossa história, do que acontece conosco. Porque não há sofrimento que não esteja na raiz dos conflitos que padecemos, experiencias, quê nos desconfortos e contradições, nos compõem. No início era o verbo, talvez o seja também no final… ''no início era o verbo'', a palavra vinda e inscrita no corpo para lhe dar forma, para moldar um significado que nos permitisse estar inseridos na cultura e no social. Estas palavras do “Outro”, darão sentido às nossas construções de vida, permitindo uma interpretação da realidade subjetiva. A grande contribuição da psicanálise, é sua inegável capacidade de corrigir os sintomas pela fala, por meio da investigação do inconsciente é nosso método da associação livre, tema que se cruza inevitavelmente neste artigo. Boa leitura. “A civilização começou no primeiro momento em que um homem irritado atirou uma palavra em vez de uma pedra”. Freud A “Psique” é uma palavra grega, que em alemão a traduzimos para o português por ''Alma'', seria por esta a compreensão que a psicanálise confere a sua clínica, “O tratamento da alma”, definido como técnica, sistema ou processo de intervenção para os fenômenos patológicos da vida anímica. Mas não é esse o significado absoluto da expressão. Por “tratamento psíquico” concebemos antes; o tratamento ''a'' partir da alma, sejam nos conflitos ou desordens psíquicas e corporais, com a implementação de recursos que influenciam e compõem primitivamente a alma humana. ''Um desses recursos é sobretudo a palavra, e a palavra é de fato o instrumento essencial do tratamento da alma". Tratamento Psíquico — Tratamento da Alma — Freud (1890). A psicanálise é uma prática da fala, que se baseia na escuta, não na observação, nem no olhar ou movimentos corporais. A linguística singular e específica que utilizamos os seres humanos se interlaçam e transmitem via signos linguísticos. Esta experiência inata da nossa espécie é representada na linguagem. Como sujeitos, estamos condicionados aos outros, ao inconsciente, à nossa forma de expressão pela linguagem, assim somos, de fato, sujeitos sociais. Portanto, precisamos comunicar, falar e ser falados, inscrever-nos, assinar para aparecer no discurso do outro. O inconsciente está estruturado como uma linguagem, que quando o consciente está distraído, o inconsciente tira seu partido dela, não só na sua função comunicativa, mas também avisando o Ego de que ainda lá está, devidamente presente. Lacan afirma, que o traquejo analítico confirma que tudo passa através da palavra, e o inconsciente é estruturado como uma linguagem, dando grande valor e poder a elas. A particularidade da transmissão da dialética materna e as diferentes pessoas que ocuparam o ''Outro'', imprimem marcas singulares e absolutamente particulares no sujeito, digitais, que marcarão o seu desejo, quereres, resultados e consequências. São as balizas do inconsciente que relatam o nosso destino, disse Jung; “Até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamá-lo de destino”. Podemos sinalizar com várias razões para esse pensamento, mas a principal se consolida na ideia de que em determinados níveis da nossa consciência, a vida posta numa metáfora, pode parecer um trem desgovernado e fora de controle. A palavra precede o assunto, o ato, existe antes de sermos indivíduos. Nascemos num mundo feito delas. Esta forma de pensar sobre o sujeito tem suas consequências Não é o mesmo imaginar que surgimos como algo exclusivamente biológico, que com o tempo adquirimos a linguagem como produto da maturação, desenvolvimento e aprendizagem. Os efeitos desta estrutura que, assim pensada, marcará inevitavelmente o biológico, nos separando para sempre do natural. A palavra não pertence ao indivíduo, é como seres que em grande medida dependemos dela, é daquela singularmente, a que vai além do que é conhecido. Ao falar sobre o que nos acontece, podemos reconstruir às raízes do nosso mal-estar civilizatório contemporâneo, onde conseguimos percorrer o caminho de volta para casa, seguindo os traços dessas palavras que nos guiam, como rastros perdidos, deixados para trás como migalhas, que descuidadamente deixamos no caminho. Falar, nos remete a uma encruzilhada onde fomos detidos, congelados no tempo, que não são senão aqueles onde o desejo foi colocado para baixo do tapete. É falando para si, expondo em palavras, que desfazemos a cumplicidade com o desconforto que carregamos. É através dele, que criamos a possibilidade de encontrar a trilha que nos leva ao lugar onde algo foi enclausurado, estagnado, impedidos de conceber a possibilidade de uma nova escolha, uma reconstrução do destino possível. Há palavras que são ejetadas, vomitadas, e outras apenas murmuradas. Não dizem nada, apesar do seu empenho, no entanto, outras vêm diretamente do coração, têm a qualidade de parar o tempo e nos colocar em suspensão na sua própria indagação. Nesse momento, ela se faz presente, criando o testemunho da sua presença. A regra básica da psicanálise radica no princípio de que a palavra é a única forma do indivíduo encontrar sua verdade. Outrossim, o diálogo e a pergunta, são às ferramentas à disposição do analista. No dizer ambíguo, simultâneo, escondido, o que importa é o que não é dito; não se trata de adivinhar o que alguém não diz, mas de situar o que não é dito no que se diz. Isto é a ''escuta'', no seu sentido mais puro. Um espaço privilegiado para o seu estudo como protagonista. Trabalhamos com a palavra, a do discurso, no seu sentido natural, nada ''é'' sem seu comparecimento, elas que criam os sentimentos, o sujeito, acontecimentos de vida, o corpo, incluindo nossas desordens. Então… qual é a da palavra? Compreendemos que a mesma merece uma reflexão mais aprofundada, tem mais do que uma dimensão e missão. Ao incluir o inconsciente, a psicanálise encontra na palavra seu dizer para além do que se diz, o que se profere no silêncio que, da perspectiva da psicanálise está incluso. A hipótese do inconsciente, considerada em todas suas implicações, introduz outra teoria a partir da qual se pode pensar nela. Contudo, o lugar a partir do qual o inconsciente ainda é considerado, implica que existe o homem e, dentro dele, os seus compartimentos possíveis do inconsciente, o Ego, a consciência e os habitantes dessas interiorizações, como os impulsos, desejos, anseios, representações das coisas, e assim por diante. Através das narrativas, podemos encontrar o nosso caminho de regresso a casa, descobrindo que aquilo que sofremos, não é mais senão o que escolhemos, sem o sabermos. E é a partir daí, podemos facilmente assumir a responsabilidade pelo desconforto particular, que talvez possa nascer de uma ação mais precisa, que ponha fim a um sofrimento ilimitado, utopicamente, por vezes desejado. Para o médico, o corpo é o organismo que pode ser visto fisicamente, para a psicanálise o corpo é o libidinal, o pulsional, às palavras, o que fala e goza, para além do prazer, também, através dos seus sintomas. A voz e o olhar são conjuntamente o corpo, mesmo que se expressem para além da pele, como uma fronteira. Que papel operam às palavras nessa espontaneidade associativa do cliente? Produzir a inventividade, promover às ondas do imaginário, envolvendo uma comoção do próprio conhecimento, onde moram a censura imposta, a verdade inconsciente por nós suportada. Seria, portanto, a chave da interpretação analítica, que tem em sua estrutura encontrar o ''ato falho'' (os atos falhos diferem do erro comum, ao possuírem significado e resultam da formação de um compromisso entre o Inconsciente e o Consciente. São manifestações do que foi reprimido da Consciência e que, deste modo, como um “engano”, podem aparecer, revelando a intenção Inconsciente, e serem satisfeitos). Propiciar o fracasso proposital do significado preexistente no indivíduo, daquilo dado como conhecido; gerando uma pequena reviravolta interior, operada a partir de um significante organizador do sujeito, seja de um mito, crença, hábito, do aspecto familiar, social, emocional ou pessoal, capaz de abalar e converter uma convicção infantil forjada ao longo de muitos anos. Cura ou releitura? Embora como psicanalistas não gostamos falar em ''cura'' (de forma que não consideramos às pessoas como doentes), analiticamente se apresenta uma notável diferença de desigualdade, onde o analista não julga, para a verdade poder manifestar-se. Por esta via linguística, o sujeito pode encontrar a sua própria verdade, um saber genuíno que revela sua perversão, ressentimentos, traumas, frustrações, uma autenticidade que transparece e expõe para si sua obscenidade oculta. Através da linguagem, o princípio da lisura pode ser exclamado, embora sabemos, que irá permanecer um certo resquício da impossível “verdade”, que nunca será absolutamente conhecida, inclusive para quem a cogita enunciar. A psicanálise se perfaz a partir deste ponto, ''do que é dito e não dito'' pelo sujeito, daquilo que tem efeito e causa de integridade para ele(a). Assim a linguagem se entranha no indivíduo que seleciona seu dizer, escolhe as palavras que o atravessam e constituem. Quando concedido o poder real do inconsciente, na terapêutica analítica e pela sua interpretação, que o sujeito-cliente, neste caso analisado, poderá ingressar no novo mundo que pretenda transformar, algo, ou simplesmente tudo que achar conveniente de si ser o novo. Assim, gostaria de terminar com este poema; Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol, dentro da qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a. A Palavra, 'A Paixão Medida'. Carlos Drummond de Andrade Até a próxima; Obrigado. Por Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- O Ciúme.
“Nos ciúmes existe mais amor-próprio do que o verdadeiro amor”. La Rochefoucauld. Por Dan Mena. Quando falamos em ciúmes, sabemos pela prática que existe nesse lugar mais amor-próprio do que um autêntico amor. Despreza-se um homem, com ciúmes da mulher, porque isso certifica de que ele não a ama como deve ser, e que formou uma opinião negativa ou má de si próprio, ou dela. Refletindo sobre o assunto; vejo como é singular. Sabem às mulheres que os ciumentos são sempre os primeiros a perdoar. Essa suposta dedicação do outro a pessoa amada, sua atenção ou afeto entregues, podem facilmente se transformar num sentimento aflitivo e angustiante ao que lhe damos o nome de ciúmes ou zelo. Sempre acompanhados de vários sentimentos, como a tristeza, abandono e dúvidas sobre a fidelidade do outro, o amor ferido, a incerteza, o ódio alimentado contra a pessoa que nos tira o que consideramos nosso, inclusive, vamos incluir o desejo de vingança. Assim, o ciúme nunca vem só, se move como uma gangorra, indo de um limiar a outro, por vezes, escapando do seu papel central para tomar o espaço dele próprio. Arregimenta portanto uma combinação de poderosas emoções, como os de desamparo, tristeza, angustia, ansiedade, dúvidas e desconfiança, impulsionando a relação para a paranoia das emoções, que nestes casos, se tornam vigorosas, potentes é mais prevalentes que o próprio ciúme em si. Ciúmes, é basicamente o medo que sentimos por não conseguir controlar algo ou alguém do qual acreditamos ser possuidores e donos. Muito interessante o tema, quem já não experimentou? Vamos ao artigo, boa leitura. É começamos falando daquilo que nos compõe; os seres humanos ao contrário dos animais, nascemos indefesos. Precisamos dos cuidados de outro humano, mãe, pai, cuidador ou substituto(a), para podermos sobreviver a esse desamparo inicial. Esta função é quase sempre encarnada pela nossa mãe. Não podemos aceder a nada sozinhos, se tivermos fome, temos de gritar, se doer a barriga, precisamos chorar para alguém interpretar o que pedimos. Desta forma, para a criança, a mãe é a coisa mais importante, a ela atribuímos total omnipotência é poder; ela é tudo o que precisamos para viver, e sobreviver em muitos casos, também, somos a coisa mais importante que ela têm. Chamamos a este momento da célula narcisista, onde criança e mãe, estão ligadas(os) de tal forma que formam uma unidade fechada, uma cápsula, onde fora dela nada mais existe. Esta unidade perfeita, (irrepetível), não pode durar para sempre, num certo momento, a mãe tem de procurar outro lugar, para o pai, para o trabalho, amigos, relações ou para o interesse dela própria. Agora, quando a mãe pode olhar para outro lado, a criança sente que ela quer outra coisa para além dela, é subentende que ele, já não a(o) completa. Desta forma, o(a) infante(a) começa a olhar para o que a mãe deseja, assim, às portas do mundo se abrem, falta algo, o que dá origem a uma busca incansável, perpétua e impossível. Quando este desvio do olhar materno ocorre, a criança descobre o desejo, pela via de um pressuposto sentimento de exclusão. Antes dos ciúmes surgirem por este evento natural, criança e mãe eram o mesmo; ''O UNO'', onde não havia mais nada. É aqui, neste ponto da separação, que detectamos o ciúme como o primeiro sentimento social, eis, então, o surgimento da perversa incompletude que nos habita por toda a vida. Quanto ao homem, podemos acrescentar, ''A síndrome de Otelo'', predominantemente masculina, que segundo Ghedin, acontece por razões sociais psicológicas e culturais. No homem, “o apego simbólico à figura da mãe” atuaria inconscientemente, gerando sentimentos ambíguos de amor e ódio com relação a outras mulheres, incluindo a ideia persistente de poder e dominação dos homens sobre elas. Seguindo um passo a frente, gostaria de citar Descartes em sua frase completa, que admiro demais! Ele coloca uma questão cuja relevância ética é hoje reavivada: Será a paixão do ciúme uma flama honesta e útil ou um testemunho da falta de amor e desprezo de si próprio?. O filósofo alerta para os problemas envolvidos, ao considerar o parceiro como o seu próprio bem: “Desprezamos o homem, com ciúmes do seu par, ao ser um testemunho de que ele/a não a ama de uma forma boa e que tem uma péssima opinião de si/a ou dela/e. Digo que ele ou ela, não a/o se amam bem, porque, se houvesse um verdadeiro amor, não existiria inclinação para desconfiar. Mas não é propriamente ela/e que ama, mas apenas o bem que se imagina, que consiste em ser o único a possuí-la/o, em ser o seu único dono/a. Ele/a não teriam medo de perder esse bem valioso, se não se considerassem indignos de o ter ou ao seu par ser infiel''. Uma visão religiosa. Paulo, em sua primeira epístola aos coríntios; (1 Coríntios 13:4), fala que “o amor não arde em ciúmes”. O termo grego ''zeloo'' (ciúmes) é utilizado nesta passagem bíblica que encampa o conceito de “ser zeloso, cuidadoso” tanto para o bem quanto para o mal. No sentido positivo, podemos fazer leitura como sendo um “cuidado zeloso” que busca o amparo, o bem, proteger, resguardar e oferecer uma plena integridade e felicidade ao outro. Também, Deus fala do zelo, ciumes e cuidado por nós, dizendo: “Não terás outros deuses diante de Mim… Porque Eu sou Deus zeloso” (Êxodo 20:3, 5). Deus, rejeita a adoração e o serviço de um coração dividido, ainda, Jesus acrescenta: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mateus 6:24). O que poderia ser entendido como; “quem ama, cuida de um!” (Me detenho aqui, para chamar a atenção de nossos irmãos cristãos, parcialmente corretos quanto a interpretação da frase acima. A bíblia, condena expressamente a fabricação de ídolos. Ídolo é um falso deus, algo ou alguém que é colocado ou se coloca no lugar do verdadeiro Deus, esse, que verdadeiramente amamos. Qualquer coisa pode se tornar um ídolo, principalmente nestes tempos, o dinheiro, um pop-star, hedonismo ou a busca incessante e inescrupulosa da prosperidade. Isto, sim, é contrariar as ordens de Deus. Imagens para nós católicos, são apenas representações artísticas, com objetivo único de embelezar nossas tradições e igrejas. Destarte, nos fazem lembrar de pessoas, (humanos ou anjos), que pelas suas obras, foram exemplos de seres virtuosos. O ato de se ajoelhar diante das imagens não significa adoração, e sim homenagem, nenhum católico acredita que ditas elevadas representações tenham algum poder sobrenatural, senão a da interceder poderosamente com Deus. Sendo assim, as imagens sagradas não podem ser consideradas do próprio Deus, muito menos mágicas. Podemos, porém, venerar sim quem representam, aprender com elas o seu significado maior, pois os objetos sagrados são separados, ditos, (consagrados), para representar o Mistério de Cristo e nossa Igreja.) Adiante, Freud, trata do assunto em “Mecanismos neuróticos no ciúme, paranoia e homossexualidade”, também encontra o ciúme entre os estados afetivos normais, mas também afirma que, sempre que parece faltar o caráter e comportamento de um indivíduo, justifica-se concluir que este/a foi fortemente reprimido/a, e que por isso desempenha um papel importante na vida emocional inconsciente. Ele diz: “É uma experiência diária que a fidelidade, especialmente a exigida no casamento, só pode ser mantida através da luta contra as tentações permanentes”. Quem nega tais tentações dentro de si próprio, sente uma investida tão forte que está se inclinado a recorrer a um “mecanismo inconsciente” para encontrar alívio. Ele(a) procura a absolvição parcial da sua consciência moral, projetando os seus próprios impulsos de infidelidade sobre a outra parte, a quem deve honradez, honestidade, integridade e probidade. Obviamente, seria um aspecto válido tais predicados existirem dentro desse contexto, quando vivem e coexistem de fato nessa forma mais tradicionalista da relação, o que visto por outros ângulos mais contemporâneos de afinidades afetivas deve passar por outras leituras. O ciúme é um sentimento humano normal e pré-existente na nossa natureza, mas, em certas circunstâncias pode tornar-se muito patológico e levar à interpretação de qualquer coisa como deslealdade e perfídia, geralmente completamente infundado. Na realidade não tem nada a ver com a situação real, mas com problemas mais profundos que precisam ser ponderados. O que geralmente acontece, é que a pessoa investe toda sua energia em observar a outra, abandonando uma parte importante da sua vida, enquanto o parceiro se sente esmagado por dita situação, ameaçado/a na sua liberdade de ir e vir. Esta parte muito negativa da relação, produz precisamente o oposto do que se pretendia pelo ciumento, ou seja, provoca um distanciamento necessário do outro para restabelecer a sua liberdade. De acordo com ele, existem três tipos de ciúmes: O ciúme NORMAL; é onde o amante perdeu ou sente que pode perder o objeto de amor e a figura do rival aparece. Neste ciúme, as repreensões são comuns por não saber manter o objeto agora perdido, no autor, repreensões são normalmente deslocadas sobre o rival sob a forma de inveja, censura, sentimentos de vingança, entre outros. O ciúme PROJETADO; tem a ver com um desejo inconsciente e reprimido de ser infiel, onde o sujeito idealiza o seu próprio desejo de infidelidade sobre a outra pessoa. Uma vez que o indivíduo não pode tolerar seu próprio desejo inconsciente, o tenciona e volta para a outra, atribuindo-lhe esse querer. O problema não é que a pessoa deseje, senão que não tolere sua própria vontade, e exatamente por esse motivo que ele ocorre. Assim, quando a pessoa suporta e aceita suas excitações e tentações esta inquietude pode desaparecer. O ILUSÓRIO; é relacionado com tendências reprimidas de infidelidade, no entanto, segundo Freud, estes são de natureza homossexual. Que poderiam ser resumidos na fórmula: “Eu não o/a amo, é ela/e que o/a ama”. Geralmente ligado à paranoia, a característica essencial deste ciúme, é a certeza de que existe uma traição, quando a realidade pode ser bem diferente ao pensamento. Ainda podemos citar um quarto elemento, O INDUTIVO; em Otelo: O ciúme do ''Mouro de Veneza'', que mostra como este sentimento desencadeia suas inferências e as atitudes do personagem Otelo, do filme adaptado da obra de William Shakespeare. Uma das mais comoventes tragédias shakespearianas, por tratar de temas universais, como ciúme, traição, amor, inveja e racismo, ela pode ser ponto de partida para diversas reflexões e interpretações, principalmente para o ciúme indutivo. Recomendo. “Os costumes sociais acertaram sabiamente as contas com este estado universal das coisas, permitindo algum jogo de ''flirt” da mulher casada e à obediência do marido, na esperança de purgar, e assim neutralizar a inegável inclinação para a infidelidade. A convenção estipula que as duas partes não devem culpar-se reciprocamente por estes passos na direção da infidelidade e, na maior parte das vezes, consegue que o apetite ardente pelo objeto do outro seja satisfeito, por um recuo na fidelidade, no seu próprio objeto. Mas a pessoa ciumenta não quer admitir essa tolerância convencional''. (Freud, 1988). O que a psicologia diz ao respeito? O ciúme surge como um alerta psíquico, quando consideramos e julgamos que algo não está indo bem ou como gostaríamos. Pode ser um problema real ou imaginário. Como parte natural do nosso instinto, desejamos eliminar toda e qualquer ameaça de vulnerabilidade, insegurança, desamparo ou desigualdade. É um sentimento que nos divide interior e intimamente, que nos lança para um conflito de fragmentações emocionais. Se por um lado, expressamos ciúmes, por outro desejamos mais atenção, ao mesmo tempo, nos culpamos por essa sensação pois sabemos que o ciúme tem um poder altamente nocivo para as relações afetivas. Como podemos controlar os ciúmes e evitar que nos dominem? Talvez a linha mais importante a seguir seria que o diálogo fosse predominante na relação do casal, para compreender o lugar, sentimento e causa dos ciúmes, assim, encontrar uma solução nos limites aceitáveis do outro, visto que a falta de confiança e de acordos saudáveis não podem sustentar a mesma. Colocar em prática estes 5 passos pode ajudar; RECONHECER; e o primeiro ponto capaz de tratar o problema. COMPREENDER; refletir sobre suas próprias inseguranças. VERBALIZAR; falar sobre o problema, seja com um especialista, com o seu parceiro ou com alguém de confiança. AUTOPERCEPÇÃO; não deixar de fazer o que gostamos. REALISMO; realinhar os pensamentos distorcidos, encontrar uma explicação racional para o embaraço. Ao trabalhar com os pacientes nesta aflição, é essencial diferenciar a inveja de outras manifestações. Podemos reconhecê-los imediatamente, quando se manifestam abertamente, mas o ciúme, tende frequentemente a usar todo tipo de máscaras e disfarces, e pode mesmo desaparecer de cena, quer sendo reprimido ou negado. Tal comportamento vai desde o considerado normal, até ao ilusório e fantasioso, de grande capacidade destrutiva. Por esta razão, na sua análise é muito importante considerar os planos da realidade e imaginação criativa de cada indivíduo. Se a queixa corresponde ao verídico e comprovado ou ocupa um lugar de capricho, delírio e inventividade da pessoa; bem como suas dimensões conscientes e inconscientes da premissa invocada quanto ao outro. Esta última, contém a maior riqueza explicativa, é um ponto de interesse excepcional para a clínica psicanalítica, onde os seus significados (significantes); (o significante se mantém como condição de uma operação que se constitui em uma cadeia e é nessa cadeia que ele se faz presente a partir de uma ausência. A cadeia dos significantes torna a condição do significante possível e é nela que ele subsiste (Lacan, 1966), ou (Em Saussure, qualquer significante remete a um significado; por sua vez, em Lacan um significante não significa nada, ele apenas produz significação quando articulado com outros. Por fim, o conceito lacaniano de significante também permite ser distinguido do conceito freudiano de representação, por isso a importância de entender o termo neste aspecto citado. Portanto, essa interpretação da significação, sentido, conceito, noção, conteúdo e explicação devem ser desvendados, precisamente na área ideal para o desenvolvimento do nosso trabalho: a transferência e contra-transferência, que atravessam a relação entre paciente e cliente. As relações humanas, podem ser uma fonte de satisfação, prazer e crescimento, ou se transformarem num ato de desequilíbrio emocional. Desde muito jovens, precisamos manter laços importantes nas nossas vidas, a ameaça de perdê-los pode nos enfraquecer, nos deixar vulneráveis e fragmentados emocionalmente. Não deixe o ciúme arruinar sua vida, amadureça, trabalhe melhor com seus afetos. Aqui, gostaria de citar o psicólogo Albert Ellis, que nos brinda com uma frase magistral; “O ciúme, é o dragão que mata o amor, fingindo querer mantê-lo vivo”. Por fim, um trecho do pensamento de Modesto López em (2012). Para que todos saibam a quem você pertence... Com sangue das minhas veias marcarei sua testa... Para que eles/as te respeitem mesmo com o olhar... E saiba que você é minha propriedade privada... Que ninguém se atreva a te olhar com saudades... E que todos te mantenham a uma respeitável distância... Pois a minha pobre alma está contorcida de ciúmes... E não quero que ninguém respire do teu fôlego... Porque sendo eu, teu dono/a, nada mais me interessa. Dan Mena, até breve. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- A Imago ou Imagem.
“A maior tragédia da família são as vidas não vividas dos pais”. - Jung Por Dan Mena. A palavra imago vem do latim e significa imagem, em Psicanálise o termo Imago refere-se à imagem mental idealizada de pessoas importantes e significantes na nossa infância. O conceito foi amplamente desenvolvido por Jung, foi assim definido como uma estrutura do arquétipo do inconsciente, ela inclui os personagens que direcionaram de forma muito seletiva o modo como retemos o aprendizado que recebemos de outros, neste caso, os familiares próximos. Ditas construções, concebidas e produzidas a partir das primeiras relações interpessoais reais, as quais são fantasiadas e projetadas pelo indivíduo, relacionadas com o seu ambiente parental. Esta palavra, intimamente conectada com a imagem, visa dar um destaque a determinação subjetiva dela, incluindo, tanto os sentimentos e afetos que desenvolveremos adiante, quanto as próprias compreensões e idealizações visuais que vão integrar a psique futura. A Imago, e o seu complexo, são conceitos relacionados entre um e outro, falam do mesmo lugar e domínio, com pequenas diferenças. Enquanto o complexo aponta para designar o efeito que possui sobre o sujeito na situação interpessoal, circunstância e contexto, a imago, qualifica sua caracterização quanto a sobrevivência imaginária de um dos protagonistas participantes de dito cenário que se desenvolve na formação da personalidade. Definida como uma representação inconsciente, mas sendo necessário ver nela mais do que uma imagem simplesmente, senão reconhecida como uma tática estratégica imaginária que irá permanecer no indivíduo, um lugar-comum, uma ponte, pelo qual o sujeito vai se contrapor ao ''outro''. Portanto, podemos sintetizar que dito tema, pode ser transfigurado pelo sujeito, transcrito tanto na formação de sentimentos, quanto em comportamentos adquiridos na forma de imagens aprendidas. Sua progressão e desdobramento, vão dar referência a formação de uma imagem interna que irá perdurar e se conservar no inconsciente, mediante uma cognição abstrata. Em psicanálise, utilizamos o termo para cravar às marcas primordiais das figuras parentais, são imagens idealizadas e inconscientes que temos das pessoas que foram importantes para nós na infância. É o nosso espelho familiar, quando nos olhamos pela sua perspectiva inconsciente, estamos refletindo como os nossos pais nos notavam, fato mediado pela informação que recolhemos de si. O molde afetivo que recebemos no berço, constituem os pilares da formação da nossa personalidade, por esta razão, somos, inconscientemente o resultado dessa neurose parental e familiar. Destarte, seja quase impossível enxergarmos como realmente somos, esta imagem concretizada tem um poder imenso em nossa psique, que irão afunilar para um turbilhão de inserções interiorizadas na mente do indivíduo. Alimentados por ditas concepções, expandimos a formação da identidade. Nos seus escritos, Freud relata pela primeira vez em; “A dinâmica da transferência” de (1912), onde menciona a ''imago, paterna''. Aqui aponta para ela apenas como uma fixação erótica relacionada com traços reais de objetos primários. Mais adiante, confirma e prova a importância das ligações da criança com seus país, e esclarece, que neste estagio, o mais importante é como a criança identifica e percebe subjetivamente seus genitores. No entanto, em “O Problema Econômico do Masoquismo” de (1924), ele utiliza o termo imago no sentido junguiano da definição, desdobrando sua relação em direção ao masoquismo moral e ao superego. Acrescentando, que por trás do poder exercido pelos primeiros objetos dos instintos libidinais humanos, se dissimulam e ocultam às influências do nosso passado e tradições culturais assimiladas. Definição; (O masoquismo moral é o prototipo ao que as neuroses recorrem mais quando o masoquismo lhes é necessário. Ele está atravessado pelo cruzamento das relações masoquistas-neuróticas, uma vez que a culpa, entra como uma noção básica da compreensão na organização neurótica do sujeito). Definição; (O superego é a última instância do aparelho psíquico mental a se organizar, tem como função censurar os impulsos que vêm do id, sobre as atividades e pensamentos do ego. Essa censura é identificada pelo ego, via um singelo sinal de angústia. Surge pela divisão celular inicial do desenvolvimento embrionário, como uma parte do ego, e se desenvolve á partir dele). A abordagem de Jung Como um dos discípulos favoritos de Freud, Jung segue adiante, se aprofundando no tema. Destaca, que ditas imagens positivas ou não, serão sempre meras representações mentais dos nossos antecessores, que terão um peso relevante na constituição de quem realmente iremos nos tornar. Ditas imagens instauradas, estão também ligadas à repressão infantil, na qual a neurose, por meio da regressão, provocarão um retorno do indivíduo a uma antiga relação com a imagem parental. Este regresso, plugado e acionado pela qualidade particular do inconsciente, será construído através do processo histórico da pessoa. Então diz; “Dei intencionalmente a primazia à linguagem da imagem, justaposta e montada a expressão do complexo, porque quero dotar o fato psíquico que quero designar pela imagem, escolhendo o termo técnico, da independência que vive na hierarquia psíquica, isto é, a autonomia que várias experiências nos mostraram ser a particularidade essencial do complexo impregnado de afeto, sendo plasmada em relevo pelo conceito de imagem”, escreve Jung. Mais tarde, ele substituiu o termo imagem por ''arquétipo'', para espremer a ideia de que ela envolve motivos pessoais e coletivos. Adiante, ele explica de outra forma; “Esta imagem intrapsíquica provém de duas fontes: A influência dos pais, por um lado, e as relações específicas da criança, por outro. É, portanto, uma imagem que apenas reproduz o seu modelo de uma forma extremamente convencional”. Por fim, acrescenta; “entre o inconsciente e a consciência, um certo sentido, como se estivessem em ”luz e sombra” ou “claro e escuro”. Podemos entender nestas falas, que o qualifica como um complexo parcialmente autônomo, que não está total e absolutamente integrado a consciência. Para Lacan, no seu artigo de 1938, “Os complexos familiares na formação do indivíduo”, esclarecem a ligação entre imagem e complexo. Foi mais ou menos nesse enclave, que ele aprimora e aperfeiçoa sua primeira teoria do imaginário. Lacan, fala assim do imago, como sendo parte do corpo fragmentado, onde a ''imagem do espelho'' (veja meu artigo, O Estádio do Espelho e o Eu Ideal.) seria uma mera ilusão de totalidade que se conecta com uma agressividade pressuposta do indivíduo. Diz; “O primeiro efeito da Imago que aparece no ser humano é um efeito de alienação subjetiva”. O conceito de imago, ''é a própria palavra'', e então, o termo desaparece da obra de Lacan. No entanto, suas ideias, que circulavam fortemente no início em torno dessa caracterização, vão continuar a inspirar e instigar o pensamento lacaniano; termos; como “imagem” e “imaginário”, entre outras, serão introduzidas na sua obra posteriormente. A imagem, é o elemento estrutural do complexo, o complexo, por sua vez, autoriza a que compreendamos a estrutura da família como organização contemporânea. Esse arcabouço social, aprisionado entre a perspectiva e o enfoque cultural vão estabelecer os laços imaginários que a criam e constituem. Neste ato, promulga sua definição em três fases: o complexo de desmembramento, o de intrusão e o complexo de Édipo que seria a posterior a sua topologia do real, do imaginário e do simbólico. O imaginário em psicologia. De acordo com definições no campo da psicologia, têm três imagens importantes fundadas primariamente na vida do ser humano, uma vez que se desenvolvem inconscientemente desde a fase infantil. São elas; a imagem da mãe, do pai e dos irmãos. Explanadas como recordações, lembranças e experiências, serão certamente fixadas e gravadas desde a infância, conservando-se na memória até à idade adulta e o amadurecimento. É uma idealização das pessoas mais próximas, um reflexo instruído pela psique para se amplificar e evoluir com o crescimento delas, em miúdos, uma cópia de características e condutas instruídas pela convivência e experiencias que serão replicadas. A personalidade de um indivíduo, sua expressão, serão a parte primordial, substancial, daquilo que a outra pessoa tomará como referência para criar a sua própria, imago. Depositadas e armazenadas na nossa memória, ficarão profundamente relacionadas a uma variedade de sentimentos e afetos como o rancor, ira, amor, paixão, ódio, admiração, estima, etc., destarte, não serão inflexíveis, é poderão ser readequadas. Quem faz importante aporte para a psicologia e Jolande Jacobi, ele utiliza a teoria da Imago, afirmando que este conceito tem uma grande função na descrição do processo de individuação de um sujeito, para sua constituição como indivíduo único. Nesse sentido, a imagem, será utilizada como uma ferramenta cognitiva para o mesmo superar suas fragmentações com os ''pares de opostos'', que na psicanálise é deliberado como a percepção de realidade. Que lugar atribuímos à família na psicanálise? A família humana é uma instituição, tal organização desempenha um papel fundamental na transmissão da cultura. Lacan diz; ''que a família estabelece uma continuidade psíquica entre gerações, cuja causa é de ordem mental''. As formas de organização dessa autoridade familiar, as leis de sua transmissão, descendência, parentesco e vinculo, estão implicadas nas leis de herança e sucessão. Logo, todas se entrelaçam e combinam com elas e, com suas relações íntimas, como o casamento, uniões diversas, enveredam e se enlaçam obscurecendo as relações psíquicas. Assim, faz uma sugestão muito interessante; ''Que a função materna e o sentimento de paternidade excedem o natural, a família biológica, a tal ponto, que podem ser substituídos, como por exemplo; pela adoção''. Portanto, pelo que temos extraído até o momento, fica muito claro que os complexos, as imagens, sentimentos e crenças serão sempre abordados em relação direta com a família nuclear. De forma nativa e originária, é muito verdade, que nossa ingenuidade não nos permite constatar de imediato ao nível da consciência, que familiares e parentes produzem grande influência sobre o sujeito, que em muitas partes coincidem com a imagem que deles temos, onde notabilizamos e arquitetamos para formar nossas emoções, condutas e pensamentos. A imagem remanescente, será constituída de uma composição material que deriva do próprio sujeito individualmente. A Imago surge da experiência das influências recolhidas dos nossos pais e seus comportamentos, costumes, hábitos, papéis, procedimentos e ações específicas em direção aos seus filhos. Ingênuos e inocentes, acreditamos que nossos pais são tais como os enxergamos, infelizmente não é uma perspectiva real. Para encerrar, acredito ser uma forma muito lúdica finalizar o artigo pelo pensamento junguiano, visto que entendo ser aquele que deu maior atenção e profundidade ao assunto abordado. Nestas cinco sínteses, podemos dar plena compreensão final ao Imago pela ótica psicanalítica. Quanto mais forte for a influência inconsciente sofrida pela imagem dos pais, tanto mais ela atuará na escolha da figura do amado como substituto positivo ou negativo dos pais. — Jung. Um indivíduo é infantil, porque se libertou de forma insuficiente ou não se emancipou do ambiente da sua infância, isto é, da adaptação aos pais, razão por que reage perante o mundo e a vida como uma criança, sempre exigindo amor e recompensa afetiva imediata. Por outro lado, identificado(a) com os pais devido à forte ligação com eles, o indivíduo infantilizado permanece fixado a dita fase, comporta-se como o fariam o pai e sua mãe ou cuidadora. Ele não consegue viver como ele mesmo e encontrar sua própria personalidade. — Jung. A criança faz de tal modo parte da atmosfera psíquica dos pais que as dificuldades ocultas aí existentes e ainda não resolvidas podem influir consideravelmente na saúde dela. A participação mística, (participation mystique), que consiste na identidade primitiva e inconsciente, faz com que a criança perceba os conflitos dos pais e sofra, como se os problemas fossem dela própria. Não são jamais os conflitos patentes e as dificuldades visíveis, com esse efeito envenenador, mas as dificuldades e problemas dos pais mantidos ocultos, ou mantidos inconscientes. O causador de tais perturbações neuróticas sem exceção alguma é sempre o inconsciente. Coisas que pairam no ar ou que a criança percebe indefinidamente, a atmosfera abafada e cheia de temores e apreensões, tudo isso penetra lentamente na alma da criança, como se fossem vapores venenosos. — Jung. Quanto mais impressionantes forem os pais e quanto menos quiserem assumir seus próprios problemas, (muitas vezes pensando diretamente no bem dos filhos), por um tempo mais longo e de modo mais intenso terão os filhos de carregar o peso da vida que seus pais não viveram, como que forçados a realizar aquilo que eles recalcaram e mantiveram inconsciente. — Jung. Tenho a forte impressão de estar sob a influência de coisas e problemas, que foram deixados incompletos e sem resposta por parte de meus pais, de meus avós e de outros antepassados. Muitas vezes parece haver numa família, um carma impessoal que se transmite dos pais aos filhos. Sempre pensei que teria de responder a questões que o destino já propusera a meus antepassados, sem que estes lhes houvessem dado qualquer resposta; ou melhor, que deveria terminar ou simplesmente prosseguir, tratando de problemas que as épocas anteriores haviam deixado em suspenso. — Jung. Vamos ao poema da semana. Identidade, por Pedro Bandeira. Às vezes nem eu mesmo sei quem sou. às vezes sou. "o meu queridinho", às vezes sou "moleque malcriado". Para mim tem vezes que eu sou rei, herói voador, caubói lutador, jogador campeão. às vezes sou pulga, sou mosca também, que voa e se esconde de medo e vergonha. Às vezes eu sou Hércules, Sansão vencedor, peito de aço goleador! Mas o que importa o que pensam de mim? Eu sou quem sou, eu sou eu, sou assim, sou menino. Por Dan Mena, boa semana para todos. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- O Sintoma.
“O que cura é o afeto: não há terapia sem simpatia.” Ferenczi. Por Dan Mena. O uso mais comum do termo sintoma verifica-se no campo médico, na saúde geral e nas psicoterapias, assim como foi introduzido posteriormente no surgimento da psicanálise. Na medicina, é interpretado como a exteriorização, mostra e exibição de um apontamento para uma possível interpretação de uma doença. Na psicanálise, dita enunciação possui características peculiares e exclusivas que o diferenciam claramente do seu significado para a medicina. Neste sentido, como psicanalistas o interpretamos e particularizamos como a consequência de conflitos psíquicos humanos, que se confrontam entre os impulsos, desejos sufocados, repressão e defesas da psique. Ditos cerceamentos que realizamos, se entrelaçam na forma de compromissos, que no retorno a uma satisfação sexual evidentemente reprimida pelo inconsciente, operam ativamente no mecanismo mental. Esse aparelho tópico, representa o funcionamento do que Freud vai chamar de in-divíduo; (o indivíduo se constitui como um ente à parte do social e que compõe o mesmo. Se refere aos aspectos que integram um estado instintivo humano, que acabam por se tornar inibidos em pró da convivência comunitária). Podemos entender o sintoma como a elaboração do sujeito, que de tal forma se incorpora e integra ao seu discurso. Neste ponto, esse fenômeno se evidência como aquilo que não é possível de controlarmos, no entanto, se vê transpassado pelo aspecto simbólico da linguagem, abrindo uma brecha entre o que é dito e o que não se expressa, permanecendo intimamente conectado com o real. Na sua definição psicanalítica mais acolhida, sintomas seriam nossos atos inúteis, inclusive aqueles prejudiciais que empreendemos contra nosso querer e vontade implícita. Às experiências que vem a contra-gosto, essas que provocam, angústia, ansiedade, desprazer, dor, sofrimento, entre outras, trabalham negativamente, esvaziando e minando nossa energia psíquica, impedindo que realizemos satisfatoriamente nossas tarefas rotineiras. O conceito de sintoma é fundamental na psicanálise, sua prática, determina um limiar terapêutico que será objeto de interesse investigativo e pesquisa em outros campos. Sinteticamente para Freud, o sintoma aparece como expressão de um conflito psíquico. Detectamos aqui uma mensagem do inconsciente e sua necessária satisfação da pulsão, já para Lacan, que segue Freud na sua definição, se estabelece como o sintoma de uma mensagem, pelo gozo e invenção. (O termo gozo em psicanálise não se refere a um prazer, mas sim a um mal para o sujeito, exatamente por implicar em sua destruição. Na transgressão o gozo consistiria no ultrapassamento das barreiras que fazem impedimento ao objeto, havendo a tentativa de encontrar a Coisa). O sintoma na psicanálise produz o laço da transferência, fundamental para o processo da análise existir. Ele se introduz via o ''Sujeito Suposto Saber'' (O sujeito suposto saber como entendemos tecnicamente, se compõe como uma proposta de estruturação lógica do fenômeno da transferência analítica em todas suas manifestações, seja na forma de repetição, sugestão e resistência), que na medida que se estabelece como uma indagação a ser decodificada, se instaura como o princípio da possível cura. Nesta oportunidade farei uma abordagem otimizada de alguns conceitos para a construção e leitura do que é um sintoma. Boa leitura. Os sintomas encontrados na clínica contemporânea são relativamente distantes da época Vitoriana, (a era Vitoriana foi o período do reinado da rainha Vitória, de junho de 1837 até sua morte em janeiro de 1901), em que viveu Freud, digamos do seu tempo, uma vez que o corpo diagnóstico utilizado a fase não contava com o conhecimento que foi surgindo ao passar dos novos aportes de autores importantes, e pelos poucos anos de existência da própria psicanálise. Embasados nesta realidade, acreditamos que a mesma também se reestrutura pela clínica, seja na prática, e na confirmação teórica, o que significa fazer releitura do sintoma cultural e social do nosso momento no século XXI, para poder alcançar uma definição de sintoma como experiência subjetiva atualizada. Sem dúvidas, será também o produto concreto do complexo de Édipo, é sua função paterna, que deriva do gozo do sujeito. Entra aqui, portanto, o sintoma social e o ingresso do sujeito na atribuição desse discurso interpessoal, na forma como se apresenta e relaciona com suas fronteiras, concepções, entendimentos, visões, planos e implementação de soluções, para as quais esses novos hábitos e condutas o irão direcionar. A depressão, dependências, problemas alimentares, entre outros, alicerçam os grandes desafios deste tempo, para os quais a psicanálise se postura firmemente com suas interpretações, técnica e discurso, que se opõem contrariamente ao tradicional tratamento do método psiquiátrico, disciplinado na receita e sua medicação química. Persistimos consistentemente e provamos, que podemos transformar o inevitável exercício do gozo num sintoma, que pode no trabalho conjunto, cliente-analista. Será, portanto, ele interpretado, desintegrado minuciosamente pela análise para a leitura social repetitiva de gozo, e direcionado para uma resolução não narcísica. Essa visão, mediada por essa postura positivista será edificante do ponto de vista civilizatório e cultural. Por esta razão, que a primeira barreira verificada na atualidade é a substituição da sociedade de massas, pela “multidão dos Uns”, o que podemos traduzir como a troca das relações com o ''Outro'', pela relação ao Um, identificação que damos ao ''sujeito ou grupo''. Na perspetiva psicanalítica, este estado de coisas está relacionado com o declínio das formas de identificação inscritas na cultura, como a função paterna, que se sustentam através do processo de castração simbólica, aquilo que o sujeito perde no seu imaginário, incluindo o narcisismo, para poder adentrar ao discurso social. A ideia de identificação individualizada traz em si o conceito de transgressão, que pode ser reduzido, onde todo o desvio da norma e transgressão, gera alguma forma de segregação humana. Nesse sentido, o ''Outro'' funciona como um parâmetro para nós, como uma fuga dessa identidade, onde o sujeito se diferencia desse ''Outro''. Assim, segundo dizia Freud; a homogeneidade já não significaria participação no todo, a comunidade dos seres faltantes, mas sim, a identificação pelo que é idêntico a si próprio, segregando, não pela sua exclusão, mas por sua própria identificação. Essa perspectiva vai nos distanciando de sentir-nos partícipes do mundo, onde somos então incorporados como peças de um motor, uma engrenagem da roda capitalista-consumista. Como se forma o sintoma? É uma formação do inconsciente, uma condensação dele mesmo, que na forma de uma peça, jogam e participam diversos players e desejos ambíguos e conflitantes. Ditas fragmentações são na sua essência estruturais, por isso, se curarmos um sintoma, outros irão se manifestar e aparecer no seu lugar, visto que os mesmos se deslocam. (Deslocamento e condensação caracterizam, para Freud, o processo primário. O mesmo acontece quando uma representação recebe todo o benefício e atenção devido a outra, de modo que a segunda, acaba por substituir completamente a primeira). Condensação; Para Lacan, a metáfora remeteria ao que Freud chamou de condensação é metonímia ao deslocamento. Afinal, é um dos modos essenciais de operação dos processos inconscientes, opostos e complementares ao deslocamento. É uma representação única que representa, por si só, várias cadeias associativas. “O sintoma é uma metáfora.” Jacques Lacan. A dissimulação do sintoma como uma mensagem secreta. Sintomas A para um, podem ser B para outra pessoa, o que esclarece que sinais idênticos não possuem o mesmo significado em dois indivíduos, de forma que a subjetividade particular tem um peso é uma medida para cada. Toda manifestação patológica, seguida do seu predicado subjetivo, sejam de natureza psíquica, psicológica e biológica evidenciam sinais sobre os quais não temos nenhum domínio racional. Destarte, existem alguns mais comuns, cujo sentido prático possa ser deduzível, o que poderíamos até generalizar, de forma que para uma primeira e simples compreensão não precisaríamos de um médico ou de um terapeuta, pois a própria cultura já estabelece determinados parâmetros de identificação, por exemplo; um mal-estar estomacal, uma disenteria, etc. Há também aqueles simples e muito mais frequentes, como às dores de cabeça. Todos, provavelmente temos um problema que nos aflige e que não conseguimos resolver prontamente, determinados sintomas querem em seu âmago expressar, advertir alguma coisa que não vai bem, que está nos afetando direta ou indiretamente. Por esta razão, a ansiedade pode estar por trás de muitos sintomas, que desaparecem assim que o sintoma surge. Um exemplo pode ser dado assim. Uma criança vai ao médico com sua cuidadora, durante o percurso até a clínica ela começa se queijar de sentir uma coceira persistente no peito, provavelmente, foi provocada aqui uma angústia temporal que se manifesta pela separação da mãe, esta, desaparecerá assim que surgirem algumas manchas na pele, que será o sintoma-gatilho, fazendo consequentemente que a criança retorne rapidamente a mãe e seja cancelada sua consulta. Neste episódio usado como modelo, verificamos o fator inconsciente, onde fica transparente o mecanismo da sua manipulação, que consiste a verificação do sintoma em troca de angústia ou ansiedade. A permuta coexiste neste estado de coisas, porque a saída e recursos utilizados é mais patológica, (visível), do que o problema que a ocasionou. Por isso anotei anteriormente, que provavelmente se trabalharmos na cura de um sintoma, outros poderão surgir, o que damos o nome de deslocamento. Onde chegamos? É por isso que se faz necessário curar a estrutura da personalidade, seja ela psicótica, perversa ou neurótica, observando de perto o sintoma, uma vez que sua anulação e cessação se localiza no combate a sua raiz de origem. Podemos acudir a uma representação lúdica deste problema, que pode ser dada assim; Quem já não participou do tiro ao alvo em parques de diversão?, onde tem objetos passando mecanicamente; por exemplo, patinhos; claro, que acertaremos uma boa quantidade deles, que por sua vez tombarão, no entanto, quando atingidos reaparecem novamente no seu ciclo de passagem, agora erguidos, em outras posições e dimensões, isso seria o deslocamento. Desta forma esclarecido, devemos tratar do sintoma de forma mais eficaz, na sua causa e origem identificada, sem ficar atirando ao esmo. Quando damos compreensão a maneira da formação do inconsciente, estamos falando dos esquecimentos propositais, atos falhos, chistes, piadas, entre outros, o sintoma é uma elaboração do inconsciente. Para Lacan, ele possui uma mensagem difusa para o sujeito que não a identifica como parte da sua elaboração, senão, como um corpo estranho, alheio, que não lhe pertence significativamente. Também, o classifica como uma alegoria simbólica, pela concreção de desejos em oposição, onde a provável doença não pode ser simplesmente confirmada pelos sintomas apresentados. O que é o sintoma para Lacan? “O sintoma é o significante de um sentido recalcado na consciência do sujeito”, (Lacan,1959). O sintoma contém um sentido ignorado pelo paciente e, portanto, a operação analítica residiria numa “libertação” desse sentido figurativo. Lacan os nomeia como “fenômenos” o que para Freud está para sintomas na loucura. Para Lacan, uma alucinação seria a base dos delírios, onde um desvario é um episódio, já para Freud, eram sintomas, quer se tratasse de neurose, perversão ou psicose. Ele se refere assim; “ser a verdade do sintoma” para formular os problemas da sua reflexão quanto a prática da psicanálise em si. Aqui, ele renuncia a “provável autoridade da sugestão” como método, compreendendo que da forma que a utilizava como psicoterapia, estava apenas tentando docilizar o sintoma, o que gerava o esquecimento da verdade implícita do cliente. Freud recorria à hipnose como sugestão, assim tentava suprimir as demandas dos seus pacientes, e a cura dos seus sintomas reprimidos. Tinha interesse naquilo que estava além do que o paciente sabia, se confrontando cara a cara com os eventos históricos do sujeito. Algumas destas experiências do ''Eu'' vistas como “não sabidas”; anotavam Breuer e Freud em (1893); ''Estão inteiramente ausentes da lembrança dos pacientes quando em estado psíquico normal, ou só se fazem presentes de forma bastante sumária. Apenas quando o paciente é inquirido sob hipnose é que essas lembranças emergem com a nitidez inalterada de um fato recente''. “O sujeito só poderá alcançar esse ser de verdade, se o sintoma adquirir o valor de uma veracidade ligada a um fragmento do real”. Tanto para Freud como para Lacan, há um gozo, nisso, ambos concordam plenamente, o indivíduo goza com seu sintoma, o que pode parecer utopico que possamos acolher a dor como um prazer, destarte, que definitivamente não queremos desistir dele. Eis então uma razão adicional pela qual ele deve ser mensurado, incluído e considerado importante no tratamento. Se retirássemos do paciente seu ''porque'' estaríamos extirpando também um benefício do sintoma em si, consequentemente, a cura instantânea significaria a ativação de um processo angustiante “o famoso tiro pela culatra''. Pelo apresentado até o momento, onde podemos somar diversas justificações e razões, a psicanálise suspeita, receia, teme; em primeira ordem falar em cura dos sintomas, preferimos uma abordagem centrada em resolver os conflitos subjacentes, inclusive, aqueles subliminares, não explícitos, para melhor tratar dos desejos sexuais e pulsões de morte, de forma que não retornem. “O que você nega te submete, o que você aceita te transforma. Aquilo a que você resiste, persiste”. Jung. A psicanálise não trabalha apenas nos sintomas. Dada a sua natureza incapacitante, os sintomas de origem neurótica provocam sofrimento, são geralmente mudos e silenciosos quanto a sua expressão e manifestação, destarte, possuem grande capacidade de fragmentar a saúde do sujeito, inclusive, de congelar suas ações quanto ao exercício natural da vida. O problema da atuação é caráter do indivíduo habita inegavelmente na ponte construída entre a harmonia psíquica e sua consciência, ambos, atravessam essa passagem pelo sintoma neurótico, ao qual lhes é indispensável descarregar suas tensões interiorizadas, ditas, implacavelmente inconciliáveis. Ocupando outro lugar de grande destaque, temos a própria resistência a sua desintegração e combate, notavelmente acentuadas, quando falamos no trato de sintomas. Na clínica atual, identificamos mais queixas por dificuldades comportamentais que incomodam, do que propriamente um dizer quanto aos sintomas em si. Estes, por sua vez possuem uma habilidade interessante em se mascarar por detrás de perturbações, desassossegos, inquietações, preocupações, aflições, apreensões, ansiedade, angústia, agonias, que podem ser intermitentes, cíclicas e persistentes. A postura vitimista ou ignorante do cliente-paciente, quase sempre numa posição de sofrimento, tentando esconder, ou não querendo assumir a sua parte nessa queixa, negando sua própria responsabilidade e o seu papel protagonista das consequências geradas. Na psicanálise atual, a clareza é necessária, a transparência de caráter é fundamental para o processo da análise, pois sabemos que aqui reside o maior ponto da resistência humana. No entanto, a inflexibilidade em contornar essa intolerância e intransigência consigo mesmo, perpassa o aparentemente natural do ser, onde enfrentamos um aparelho psíquico que não admite suportar seus atos conscientemente. Como ferramenta de defesa, desenvolvemos conflitos e geramos tensões, desenvolvemos estratégias mentais para lidar com nossas fantasias inconscientes e incompreensíveis. Para travar estas batalhas, a prática analítica se funda no revigoramento do ego, uma instância observadora do terapeuta para ganhar a guerra, sem usar de táticas repressivas, permeadas de tolerância e contemporização de ditos complexos e paixões que movem o homem e seu mundo interiorizado. O que não é dito retorna, “Emoções não expressadas nunca morrem. São enterradas vivas e depois retornam das piores formas”. Freud. Se a neurose é uma questão, os sintomas são elementos articulados dela mesma. Para uma palavra passar por si, se oferece ao analista para ser decifrada. Aquilo analisável no quadro dessa subjetividade particular, história, narrativa do sujeito específico, será encontrado naquilo que supostamente lhe deu sua origem, o que se situa como a repressão do significante. É daí que virá a matéria constitutiva dos sintomas. Assim, o recalcado e o sintoma são homogêneos, por isso, falamos do sintoma como aquilo que é analisável. Se dissermos que ele contém uma satisfação problemática, podemos também afirmar que se trata do desejo e do gozo no seu caráter de empreender a satisfação pulsional. Na primeira etapa do tratamento psicanalítico, o fundamental é a construção do sintoma, por ele amarramos a transferência, onde se estabelece o Sujeito Suposto Saber, como fenômeno da transferência analítica em todas suas manifestações de repetição, sugestão e resistência. Uma vez constituído esse laço transferencial, o sintoma pode ser interpretado nesse trabalho conjunto. “Neurose é a incapacidade de tolerar a nossa própria ambiguidade.” Freud. Vamos ao poema da semana; Viviane Mosé Vida/tempo A maioria das doenças que as pessoas têm São poemas presos Abcessos, tumores, nódulos, pedras São palavras calcificadas, poemas sem vazão Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado Poderia um dia ter sido poema, mas não Pessoas adoecem da razão De gostar de palavra presa Palavra boa é palavra líquida Escorrendo em estado de lágrima Lágrima é dor derretida Dor endurecida é tumor Lágrima é raiva derretida Raiva endurecida é tumor Lágrima é alegria derretida Alegria endurecida é tumor Lágrima é pessoa derretida Pessoa endurecida é tumor Tempo endurecido é tumor Tempo derretido é poema. (Do livro Pensamento Chão, Editora Record). Freud (1893) “Mas a linguagem serve de substituta para a ação; com sua ajuda, um afeto pode ser “ab-reagido” (ab-reação é uma reação emocional e inconsciente que damos em resposta a algo que traz de volta uma situação dolorosa que experimentamos. Pode ser um evento do qual lembramos, ou apenas algo que surge repentinamente em nossa consciência durante a ab-reação), quase com a mesma eficácia”. Freud daria muitos aplausos para a autora do poema. Quando percebemos que grande parte das doenças contemporâneas estão no arcabouço do não dito, nas palavras presas, congeladas, vivas, mais sem expressão, essas que viram sofrimento é dor. Por isso, sempre considere, ''Palavra boa é palavra dita''. Dan Mena. Provérbios 15:23 O homem se alegra em responder bem, e quão boa é a palavra dita a seu tempo! Até a próxima, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- Ética e Moral.
“O desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais”. Freud. - Por Dan Mena. A etimologia das palavras legadas do grego (êthos), e romana, (moris), chegam na sua tradução para a cultura contemporânea como Ética e Moral, ambos, são conceitos amplamente ligados ao desenvolvimento humano e social. Inicialmente, podem ser definidos como um conjunto de comportamentos, princípios e valores que orientam nossa conduta na sociedade atual. No entanto, observamos que tanto um quanto o outro, são heterogêneos, criando entre si embaraços. A abordagem psicanalítica oferece uma visão interessante para o tema, dando lugar ao debate e exploração das origens e raízes de cada, visto seus amplos conflitos de interpretação e interação. Conforme a teoria psicanalítica, fundamentos e princípios de ética e moral aparecem diretamente conectados a questões inconscientes que fazem parte da vida psíquica. O inconsciente, é o receptáculo das experiências vividas, das emoções instintivas que regem nossas ações e desejos. Freud percebe que as descobertas da psicanálise tinham implicações em ditos contextos, tanto que no seu livro, ''A Interpretação dos Sonhos'', aponta quanto aos conteúdos inconscientes e a forma específica pela qual se expressam. Logo ele se interpela ao respeito; O que pode pensar um indivíduo de si, ao constatar e descobrir sobre seus desejos proibidos que são muitas vezes criminosos?, dos quais até então, não tinha conhecimento por estarem reprimidos, recalcados e gerando sintomas. Portanto, diante do exposto. Deveríamos então sentir-nos culpados pela nossa constituição humana? Um tema para lá de interessante, que rege nossa existência, é o assunto da semana, boa leitura. Assim prosseguindo nessa linha, ele argumenta ao debate, aludindo a Platão; “o homem virtuoso se contenta em sonhar o que o homem perverso executa”. Entendo aqui; neste dizer de Platão, que ele previa uma certa segmentação estrutural do psiquismo humano, amparados entre o consciente e o inconsciente, recorrendo ao princípio da realidade, é, que o homem de fato age, executa, na forma de atos reais e concretos. O que significa; se fizermos leitura, que no seu entendimento seríamos julgados pelos atos, e não pelos nossos pensamentos, imaginação e fantasias, que podem ser arbitrados como desejos inconscientes. Dita inquietação com a ética e a moral, renasce na sua proposta para uma ''Psicologia Científica em (1895), onde ele atribui a questão ao desamparo inicial do ser humano, onde surgem os primórdios dos motivos éticos. Com isso, deixa claro que a moralidade não é uma essência puramente inerente ao homem, e sim uma elaboração, construída em detrimento da sua condição de vinculadamente forçado e submisso ao ''Outro'', primariamente, ao materno. Assim se funda a diferenciação e discernimento entre o Bem e o Mal, que será mediada pela inevitável condição desse desabrigo elementar, e pela simples incapacidade humana de não poder renunciar ao acolhimento imprescindível, cuidados e proteção de um ''Outro'', diga-se de passagem, fundamental a nossa sobrevivência quanto bebês. Como consequência desse arcabouço inevitável, o Ego, o passa a conceituar como Mal, que como tal, deve ser evitado, eliminando qualquer coisa no seu caminho que o possa colocar em risco de vida, caso perca o amor deste ''Outro'', absolutamente ''significante''. Fica muito claro então, que dito'' Mal'', é todo ato contrário a obediência das determinações do ''Outro'' que nos protege, que como autoridade elementar no princípio da nossa existência será nossa mãe. “O desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais”. Freud. Freud descreveu a moral como uma forma de superego repressivo, que controla o comportamento humano mediante uma série de prescrições moralizadoras, estas, impostas pela cultura e pela sociedade civil. Essas regras, vêm de influências externas que são internalizadas pelo indivíduo desde muito cedo, que serão adotadas como parte do ''Eu ideal''. No entanto, a ética, será definida como um conjunto de princípios internos que orientam o comportamento de maneira individualizada e particular a cada sujeito. Esse conceito de ética, que se origina do Ego, será portanto o mediador responsável por harmonizar os desejos do id, (O id se refere à parte da psique humana dedicada aos impulsos e instintos), que com suas reivindicações e demandas do superego, (superego é o aspecto moral da personalidade do indivíduo ligado a cultura). Assim, o Ego, irá na direção de um compromisso, criando um elo, entre os nossos impulsos instintivos e as pressões sociais e culturais para funcionar de forma ética. Destarte, a ética, construirá uma relação mais peculiar com o indivíduo, a moral permanecerá conectada às premissas e prescrições externas da sociedade. Neste ponto, podemos fazer uma primeira leitura da caracterização de ambas, onde percebemos que a ética pode ser elaborada de maneira mais elástica, flexível e particular ao ser, enquanto a moral, estará ancorada em termos concretos, fixos e governados por resoluções coletivas impostas. “Nosso caráter é o resultado da nossa conduta”. Aristóteles. A psicanálise, mostra que a moral pode ser usada como uma forma de repressão disfarçada, que vai sendo moldada, instaurada, digerida e estabelecida pela sociedade, para evitar a expressão natural dos desejos. Essas prescrições, vão inevitavelmente limitar a expressão dos impulsos mais primitivos, como por exemplo; os desejos sexuais agressivos. A ética, pela via psicanalítica permite desenvolver um sistema interno de valores e ideais, que se opõem e reestruturam em ditas crenças restritivas elaboradas pela cultura, visto, que muitas cerceiam e ignoram o direito do sujeito viver sua felicidade ao seu modo. Ao olharmos além das limitações compulsórias das normas sociais, e ao se concentrar nas próprias necessidades, um indivíduo pode viver de acordo com sua própria vontade e realizar seus anseios. A psicanálise também aponta, que a ética necessariamente envolve a aceitação das vulnerabilidades e entendimento das fronteiras e limitações que nos habitam. A ética é muitas vezes vista como um processo contínuo de autoconhecimento e desenvolvimento psicológico, em que o indivíduo deve aprender a reconhecer suas fraquezas e fortalecer sua capacidade de enfrentamento aos seus impulsos instintivos naturais. Utilizamos, uma abordagem que incentiva indivíduos a olhar para o seu mundo interno, para entender e compreender tensões e conflitos que podem estar em direta colisão com os princípios éticos que desejam modelar. Ao examinar esses antagonismos, outras abordagens para a ética podem aparecer, como, por exemplo, a da responsabilidade, em que a pessoa decide agir com base em seu próprio julgamento. É importante entender, que a ética e a moral são também processos em constante movimento, que devem estar sob observação, em permanente avaliação e questionamento. A psicanálise nunca permitirá a fixação de valores engessados, garantindo assim que a ética se atualize, renove e seja reeleita. Através desse processo de autoconhecimento e descoberta, pode emergir um sistema ético pessoal harmônico, que permita ao indivíduo viver de acordo com seus princípios. A ética proposta pela psicanálise, na figura do analista, é aquela que permite ao ser... “ser feliz” ou, pelo menos, que o impele a procurar o bem-estar emocional. Nesta relação, é possível encontrar uma lógica entre o sintoma do paciente e sua ética, bem construída como uma forte aliança entre ambos. Freud não criticou os fundamentos da ética, nem prescreveu deveres, proibições, aspirações ou respostas alternativas aos problemas tradicionais, senão, forneceu uma nova maneira de formular ditos problemas consensuais entre a ética e a moral. A consciência moral é aquilo conhecido com a máxima certeza, a identidade dessa consciência consiste em que distingamos os objetivos como realidades interiores ou exteriores, sensíveis a essa natureza. O que é a ética e a moral? A moral trata das ideologias formadas pelas crenças, são base indeclinável de nossas verdades, e, finalmente, a ética trata da identidade das pessoas que se encarnam nos valores mais caros que carregamos, chamados de princípios. O que diz Lacan sobre a ética? Desde sempre sabemos que a ética é uma ciência do caráter, impressa na dinâmica dos hábitos, uma formação, e, finalmente uma educação. O que proporciona, uma estrutura dessa integridade. “A moral e a ética são duas invenções humanas que dependem muito do espaço geográfico que você ocupa”. Branco. É bem verdade que podemos trazer a definição do dicionário, que faz com que a ética englobe a moral, mas, ao tentar diferenciar os dois termos os pesquisadores foram levados a distinguir objetos diferentes para cada doutrina. Por um lado, a ética se ocupa especialmente das obrigações; por outro, a moral do bem e do seu consequente necessário, o mal. Por outro angulo, à ética é atribuída como uma vocação normativa, enquanto à moral possui uma tarefa mais valorativa, que exige a existência de um determinado peso e julgamento. Esta razão é de natureza filosófica, enquanto a moral é pensada como uma ciência, a ética se estrutura sob uma função mais compenetrada e reflexiva, baseada em princípios, enquanto a moral se foca em avaliar as ações concretas, principalmente do presente, deste momento, agora. A moral se localiza no social, na coisa pública, âmbito da ação e constituição do fazer. Já o lugar da ética não é perfeitamente localizado, se mescla a esfera íntima, se interpõe ao debate consigo próprio, onde estariam ponderações como; nossas relações interpessoais, como ser justo na relação com o ''Outro'', inclusive, consigo mesmo. Diante do exposto, deduzimos; que a moral dita normas, legisla, dirige, institui, impõe e estabelece rotas para serem atendidas, cumpridas e realizadas pelos indivíduos, tais que somos imperfeitos e erráticos, nivelando tudo em nome de uma possivel convivência civilizatória. A moral está contextualizada por um espírito de combate, que estabelece uma convivência de luta tensa e complicada, uma relação de discordância, que exige do homem um esforço, um contragosto, ideal, resignação, controle e permanente aperfeiçoamento adaptativo. A moralidade, é naturalmente contrária à nossa natureza, uma imposição dura, que convoca ao sacrifício, submissão e obediência, que assistida pela via educacional deve obrigatoriamente ser dobrada, enquadrada até se tornar um hábito. Por outro lado, a ética, por oposição à moral, não possui nem postula um código que regule os comportamentos e as ações. Se diferencia por não funcionar fundamentada em que cedamos a poderes externos. Por conseguinte, anula completamente qualquer recurso submetido a nós de uma fonte externa, da qual seríamos dependentes e precisaríamos recorrer para tomar decisões. A ética, portanto, não luta para que o indivíduo se esforce em vencer suas tendências ou se conformar com regras estabelecidas. Isso significa sim, que o indivíduo estabelece uma relação consigo próprio, na qual se assume, se responsabiliza por si e controla sua independência como sujeito constituído e ético, em contraponto a sua própria ação e conduta. Assume então a responsabilidade, independente de ordem, autoridade, poder ou pressão social. Definimos portanto, que neste aspecto, temos o domínio da decisão, resolução e escolha. Retornando a questão ambígua, lembrando que sempre há um conflito entre as duas, em nome do nosso juízo ético, não podemos ignorar a existência da moral, mesmo que sejamos obrigados a dar atenção a procura da realização pessoal. O que importa destacar, é que a ética nunca pode ser codificada, não sem antes contingências e circunstâncias existirem realmente, onde teremos de fazer as inevitáveis escolhas. Simplesmente, a ética não pode ser praticada fora do contexto social, visto, implicar numa relação com o outro ser, que inevitavelmente colocará em movimento também suas próprias expectativas, exigências e respostas que não pode rejeitar em função do outro. Pelo contrário, estas exigirão de nós uma atenção sempre específica como precedente ou regra, para dirigir e orientar a ação concreta no momento em que tais requisitos sociais se apresentarem. O surgimento da psicanálise ocorre como consequência da confluência de fenômenos específicos, resultando na constituição da forma do “eu” moderno. Todo esse novo processo contemporâneo se funde progressivamente no discurso, o que significa que a verdade do sujeito tende a se fragmentar e diluir cada vez mais na medida que avançamos. Por sua via, a psicanálise tem implicações e contribuições importantes para a vida em sociedade. Ao considerar a importância da ética pessoal, dá mais espaço às escolhas individuais, permitindo que o cliente-paciente se torne responsável pela sua própria vida, ações e comportamentos. Este aspecto clínico positivo, acrescenta benefícios tanto para o indivíduo quanto para a sociedade. De forma, que enquanto a moralidade se baseia em doutrinas e preceitos rígidos, visualizamos que tais criam uma ausência de emotividade e concreção às necessidades dos indivíduos, falta de compaixão e desrespeito pelo bem-estar, percebido, tanto emocionalmente quanto psiquicamente. A ética, pode facilitar acesso a possibilidades mais abrangentes e abertas, que enaltecem a importância da empatia e do bem viver. Como mediadora deste processo, a psicanálise sugere o conceito clínico dessa desobstrução. Trabalhamos com sabedoria em contraposição as regras morais que adoecem o sujeito, (o)(a) convocando para estabelecer um equilíbrio simétrico e regular entre os seus desejos e responsabilidades sociais partilhadas, diminuindo a constrição das pressões e necessidades emocionais. Para tanto, devemos lembrar que tanto a ética quanto a moral são de qualquer forma conceitos muito complexos, e não há uma receita ou solução mágica para pulverizar ditas tensões pós-modernas. No entanto, dita abordagem da psicanálise, oferece comprovadamente uma perspectiva útil para entender melhor as origens desses dilemas éticos, nos ajudando a refletir sobre os valores e padrões culturais que vivenciamos, fornecendo um norte seguro para o progresso saudável da vida em sociedade. Enfim podemos criar sim, positivamente, uma ética possível e aplicável sustentadamente para uma vida autêntica e significativa, sem ter que vestir no dia-a dia uma máscara incômoda, pesada, custosa emocionalmente, cansativa e prejudicial para saúde. “Cremos que [o princípio do prazer] é cada vez provocado por uma tensão desprazerosa, e assume uma direção tal que seu resultado final coincide com um rebaixamento dessa tensão, isto é, com uma evitação de desprazer ou uma produção de prazer”. Freud. Finalizando com a moral; existe uma relação contraditória entre o consciente e o inconsciente, destarte necessária para que a possamos identificar no universo irracional. Ao mesmo tempo se nos apresenta a moral, que só se torna possível graças à repressão que desempenha sobre os instintos e as pulsões humanas. Neste contexto ambíguo, há uma ponte esclarecedora que nos permite diferenciar a vida normal que podemos desfrutar, em contraposição a vida patológica destrutiva. Aqui Freud desvenda; que o inconsciente perdura e ordena a vida regular e consciente, uma vez que o instinto é reprimido, mas não está ausente. Há dois aspectos que sustentam a tese freudiana da moral como repressão: a Interpretação dos Sonhos e o Complexo de Édipo. A ''interpretação dos Sonhos'' significa que existe uma antítese entre a moral e a vida, porque, como se sabe, a satisfação do desejo impossivel que o sonho representa, é essencialmente egoísta, isto é, a procura sobretudo do aprazimento de si próprio, enquanto a moral nos impele para os outros, para o dever. Logo, os sonhos e a moral são evidentemente antagônicos; o sonho é o testemunho de que o mal nunca é totalmente eliminado, continua a viver no homem procurando continuamente sua realização. “Nos sonhos envergamos a semelhança com aquele homem mais universal, verdadeiro e eterno que habita na escuridão da noite primordial”. Freud O Édipo, nos mostra a origem da moral humana, uma vez que representa o desejado e proibido; também, a evolução psíquica do sujeito da idade pré-moral onde se anuncia o seu fim, o passo essencial pelo qual se acede à ordem da moralidade. A psicanálise formula ditas questões éticas para compreender, desde a evolução cultural, social e individual, os problemas que a ética e a moral representam e enfrentam na atualidade. “A aceitação de processos psíquicos inconscientes, o reconhecimento da doutrina da resistência e do recalcamento e a consideração da sexualidade e do complexo de Édipo são os conteúdos principais da psicanálise e os fundamentos de sua teoria, e quem não estiver em condições de subscrever todos eles, não deve figurar entre os psicanalistas”. Freud. Ao poema; com Olavo Bilac; Dualismo. Não és bom, nem és mau: és triste e humano... Vives ansiando, em maldições e preces, Como se, a arder, no coração tivesses O tumulto e o clamor de um largo oceano. Pobre, no bem como no mal, padeces; E, rolando num vórtice vesano, Oscilas entre a crença e o desengano, Entre esperanças e desinteresses. Capaz de horrores e de ações sublimes, Não ficas das virtudes satisfeito, Nem te arrependes, infeliz, dos crimes: E, no perpétuo ideal que te devora, Residem juntamente no teu peito Um demônio que ruge e um deus que chora. Olavo Bilac reflete sobre humanidade e imperfeição. Fala sobre um ser defeituoso com sua eterna ânsia, fragmentada e conflituosa. Pensa no seu próprio dualismo, alterações de humor e comportamentos. Sofrendo do bem e do mal, ele passa da descrença à esperança, admitindo ser capaz dos melhores e piores atos. Assim, ele mesmo como humano se identifica como um ser ambíguo, dividido, sendo ao mesmo tempo, um demônio e um deus. Até a próxima, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- A Interpretação.
“O maior desejo do nosso inconsciente é o de ser ouvido” Dan Mena. A função é a ação ou serviço próprio particular que se espera de alguém, e o trabalho que esse indivíduo deve fazer ou que se espera que faça, para a sua tarefa ser cumprida. Neste caso que abordarei, é o psicanalista, o seu perfazer. Para além de ser também uma atribuição social, o próprio Freud define esta tarefa como um método de investigação, uma fonte de conhecimento psicológico. A psicanálise como método, começou há mais de um século, onde se identifica no campo da clínica psíquica como uma abordagem terapêutica, e continua sobretudo, hoje em dia, sob esta concepção original na minha opinião. Se levanta aqui uma questão importante para o conjunto de técnicas que utilizamos que vêm ao encontro do tema agora apresentado. Boa leitura. Analisamos o cliente-paciente ou sua provável doença? Posso dar uma interpretação mediada, visto que por meio da análise das palavras, narrativa, ações, pensamentos e sonhos dos pacientes, encontramos a origem dos seus problemas psicológicos e trabalhamos na redução e eliminação do seu sofrimento psíquico. Se fosse exigida uma resposta concreta, posso então ir mais fundo, o paciente será analisado como pessoa, mas, sua queixa será o motor e estímulo para a análise se realizar. Penso, que dita afirmação se aplica a todos os tipos de observação, ensaio e diagnósticos, porque, como diz Sprüiell (1984), “o empreendimento psicanalítico seria intolerável sem suas motivações terapêuticas”. Para nós (psicanalistas), portanto, o objetivo da análise é fundamentalmente terapêutica, pelo menos enquanto essa motivação esteja latente e inscrita, onde sua concepção o analista não deve perder de vista seu aspecto básico do ''know-how'' necessário ao desempenho da profissão. Entramos assim no universo da interpretação, como uma produção única, individual, particular, integral e absolutamente necessária ao ser falante, e de algo que se não passar por esse processo ''sui generis'', pode ser prejudicial ao sujeito. Embora se manifeste na consciência, essa metodologia é fundamentalmente inconsciente, ou mais precisamente, inerente a função dela, que transcende todas as outras possibilidades. Trata-se de um desenvolvimento simbólico, junção de elementos ficcionais e reais ligados a uma determinada demanda da realidade do sujeito. Tanto para os psicanalistas do passado, quanto do presente, a leitura, observação, olhar e perspectivas da interpretação continua a ser a ferramenta terapêutica por excelência, como a ideal para utilização no contexto clínico. O objetivo dela é, deduzir pela técnica o que está impresso no inconsciente do analisando, que não serve para preconizar, persuadir, aconselhar, proibir ou permitir, incutir, induzir, insinuar ou fazer qualquer outra coisa que não seja guiar a elucidação de produzir às próprias respostas. É um ato de fala característico, investido de uma precisão e rigor. Utilizando as palavras do paciente, pela livre associação de ideias e pensamentos, destravamos o acesso ao inconsciente do indivíduo, acedendo à (possível) verdade da situação que nesse lugar se oculta de si. Dita criação não pode ocorrer sem as imprescindíveis associações do analisando, o que denota que o analista não é o único que pode forjar sua geração. A intervenção do analista durante a psicoterapia pode se dar de diversas formas: solicitando recordações, perguntando, questionando, apontando, sublinhando, sugerindo possibilidades interpretativas do dizer, dando instruções guiadas, pedindo releitura do dito, e fazer inegavelmente interpretações do discurso apresentado. Assim, permitir que o paciente pense por si próprio, é uma premissa básica quando nos abstemos de aconselhar. Qualquer texto traduzido envolve inevitavelmente a interpretação do tradutor, na prática clínica, seguimos o princípio de que somos instrumentistas, tradutores do sujeito é da sua história, dos seus conteúdos conscientes e inconscientes. Dita perspectiva e pontos de vista, são de fato uma defesa contundente de que realizamos uma conversão atenta, flutuante para a linguagem do consciente, um lugar de domínio das palavras, que será guiado pela utilização de recursos teóricos e técnicos que estão além do inconsciente e da experiência da análise propriamente. Devemos, portanto, fornecer uma exegese após escutar o paciente, algo que desafia a visão global do consciente do esquadrinhado, motivando uma re-elaboração da sua forma habitual de perceber o mundo. Para tornar consciente um conteúdo reprimido, se faz necessário a instigação do recalque, provocar incentivo e estímulos capazes de patrocinar uma mudança positiva no psiquismo do paciente. Freud empregava habilmente o método, até vencer a resistência às suas recordações, esquivando-se assim dos efeitos negativos e antipáticos que incidem sobre o indivíduo, com o propósito de transportar o inconsciente para a consciência de forma menos traumática. “Nossas lembranças — sem excetuar as que estão mais profundamente gravadas em nossa psique — são inconscientes em si mesmas.” Freud. Na composição da sua obra, “Interpretação dos Sonhos”, Freud trata do tema diretamente, onde podemos elucidar que transcorria nesse aprofundamento uma utilidade diversa para sua aplicação que se liga com outros tipos de conteúdos latentes. Por outro ângulo, Lacan propõe outro olhar a essa interpretação, dizendo; que dito ato, não deve ter o objetivo senão de descobrir um significado oculto por trás de um sintoma, seja no ato falho, chistes e formações inconscientes, mas sim, de incomodar o sentido que eles sustentam para o paciente. Lacan prossegue; além deste procedimento involucrar o surgimento de uma mensagem inovadora, a representação dessa compreensão deve contribuir com o analisado, ajudar, de forma que ele possa escutar sua própria instrução e dada interpretação, que lhe será restabelecida, dobrada, invertida e devolvida do analista para ele. Este ofício em particular, conectado intrinsecamente com a vida e os seus significados, ampara o trabalho do analista, mais especificamente conduz a interpretação dos desejos dissimulados. “O inconsciente é um fato, enquanto se sustenta no próprio discurso que o estabelece”. Lacan. A matéria-prima que operamos é a linguagem do desejo, que opostamente a racional está recheada de confusões, enganos, descuidos e lapsos. Dita máscara da falsa consciência moderna que utilizamos diariamente, se envereda pelo lado escuro da nossa mente, uma forma adaptativa muito atual, que nos empurra para nos manter nas fronteiras das imposições sociais, é, são instintivamente dirigidas pelo princípio da realidade. Uma dualidade singular a todo ser humano, onde predominam dois propósitos; por um lado a vontade de suspeitar da verdade, é por outro, uma aspiração de encontrar na interrogação da própria dúvida um sentido impossível de especificidade e originalidade da nossa essência e existência. Seguindo dita comprovada atuação, será sempre o paciente dono da sua convenção e enunciação, implicando também ser o patrão das consequências que ampara. Nesta gangorra discursiva, haverá sempre às verdadeiras intenções, quanto um lugar enorme para a mentira, (mentira de si), com suas implicadas motivações conscientes, espaço para palavras vazias, inclusive para o silêncio. Assim, a interpretação deve ser formulada de modo a permitir ao analisando a inclusão das suas perspectivas pessoais, sempre multifacetadas por definição, nunca traduzidas para um crivo definitivo. A subjetividade do especialista, deve ser sempre o menos possível, erguida na elaboração enunciativa, onde a forma e o significado que lhe for possível incluir nesse momento, pondere o menor impacto sobre o discurso do paciente, e não das especulações interpretativas da análise. Destarte, deve ser aquela que estimule o desenvolvimento da cadeia significante, consequentemente, do trabalho a que ambos foram convocados. “As produções do trabalho do sonho não são feitas com a intenção de serem entendidas.” Freud. Para além dos significados de que tem consciência, às palavras do paciente têm sempre conotações adicionais e subjetivas. “É a verdade do que esse desejo foi em sua história que o sujeito grita através de seu sintoma”. Lacan. Na ciência da nossa prática, podemos afirmar que à interpretação está entre as mais contestadas e desaprovadas, há um contexto de oposições ao trabalho analítico, que suscita desconforto em algumas atividades médicas. Referidas resistências, radicam no centro da própria práxis psicanalítica, de forma que também desaprovamos o enquadramento que se impõe socialmente a tudo neste marco contemporâneo. A dificuldade em definir claramente o exercício analítico interpretativo, reside no lugar de cada analista; primeiro; em respeitar o indivíduo como um ser ímpar, incluindo seu sintoma, em segundo lugar; o método de exploração da sua queixa, (do paciente), que combina a teoria e a experiência, visando elaborar para si próprio uma explicação exclusiva das razões pelas quais elaboramos determinadas conclusões e diagnósticos, á partir do que ouvimos dele articular, é não pelos manuais que pretendem regular ditas interpretações. Às dissidências que sustentamos, principalmente de ordem teórica, como aportes às novas possibilidades e caminhos do trabalho psicanalítico, se atestam por si, é de muitas formas, razões que teoricamente sólidas e historicamente comprovadas são amplamente significativas para o exercício profissional. Para Freud, existe um elo de causalidade entre a interpretação e a resolução dos conflitos, este nexo, colocado ao nível da realidade, determina claramente o que efetivamente aconteceu, tanto ao nível da compreensão e cognição, quanto da simples coerência em aceitar dita verdade. “Você pode saber o que disse, mas nunca o que outro escutou”. Lacan. Porém, outros autores de expressiva aceitação desenvolveram e apoiaram afirmativamente nosso expediente, quando apoiam que a mente humana se compraz e, de certo modo se cura diante daquilo que percebe como autêntico e verídico na condição da sua vivência. Klauber explica isso com mais detalhamento; ''a psicanálise utiliza um sistema de justificação histórica para revelar a verdade''. Quase todos os pacientes, requerem que no seu processo de satisfação e cura seja inserida essa explicação memoriosa convincente; sem estas ferramentas, o analista estaria desorientado na escuta narrativa. No outro extremo, coexiste a intersubjetividade do relacional, onde Kohut, acrescenta; "defendo que dada a situação analítica como uma resposta confiável do analista aos seus pacientes, tais possam ser alcançados com excelentes resultados terapêuticos, se não mesmo ótimos, mesmo que as teorias do analista para compreender o processo terapêutico e avaliar a psicopatologia do paciente sejam imprecisas''. Quando Freud afirmou que a eficácia terapêutica era prejudicial ao avanço da psicanálise, ele estava enganado, sua declaração quanto ao chamado ''Furor Curandis'', (Furor Curandis foi o nome dado por Freud ao desejo do analista em curar. Este excesso de cuidado — bem-intencionado — pode se tornar abusivo, interferindo e impossibilitando o trabalho analítico, por pressupor uma valorização excessiva do narcisismo daquele que oferece dita ajuda), nenhuma patologia foi deixada de fora da psicanálise e, como resultado, passamos de um foco nas neuroses iniciais para um programa clínico abrangente, que cobre essencialmente todo o espectro da psicopatologia. O resultado disso; foi a definição de que a prática psicanalítica descobriu e desvendou na interpretação, uma fonte inesgotável de crescimento, que, ao mesmo tempo, impulsionou a abertura para possibilidades terapêuticas não disponíveis na interpretação clássica. “Cada um alcança a verdade que consegue suportar”. Lacan. Assim, concluo; que a interpretação não deve ter como objetivo “explicar ou declarar o significado de algo”. (RAE, 2001). Uma interpretação justa e fundamentada será quase sempre capaz de traduzir no sentido de criar uma passagem para a identificação dos símbolos do sintoma para outra linguagem. Um ato que produz efeitos através do esgotamento do conteúdo, daquele que ficou paralisado e estacionário, permitindo uma produção inédita e possibilitadora da comunicação de uma coisa a outra, capaz de quebrar às cíclicas repetições do sujeito, que tanto angustiam e provocam dor emocional. O analista, como alguém que interpreta, se situa no sentido da realização de uma arte, está para ela como alguém que interpreta uma obra, aproveitando aqui o uso que Freud faz da expressão; ''arte de interpretar''. Sua prática, visa a produção da suposta ''verdade'' do sujeito, mediante uma leitura do inconsciente, que emerge da transferência; (A transferência, é um fenômeno que ocorre no setting analítico. Trata-se de uma parte muito importante, obrigatória e fundamental a formação da aliança terapêutica, por consequência da própria análise acontecer de fato, cuja existência não pode ser assegurada fora do dispositivo analítico). Estas formas de entender a interpretação não são exclusivas dos acontecimentos que podem ocorrer em análise, e que têm a ver com certos achismos de sentido, que serão sempre certamente do analisando, tidos como provisórios, mais prontos para ser re-significados. A interpretação, em vez de procurar encontra e produz, não fecha, abre. Os significados do ato interpretativo são múltiplos, por vezes contraditórios, paradoxais e utópicos, por vezes, se associam mutualmente. Também, não pretendo aqui responder fechando, lacrar a própria questão que estará sempre além da minha finita compreensão, interminavelmente mais ambiciosa do que parece. Por esta razão, invocarei Freud com suas frases que sempre iluminam nosso trabalho: “Uma análise termina quando analista e paciente deixam de encontrar-se para a sessão analítica”, dita em análise terminável e interminável (1937). Ao poema; Em linha reta — Álvaro de Campos. Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos, Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? Poderão as mulheres não os terem amado, Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que venho sido vil, literalmente vil, Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. Interpretação; Álvaro de Campos retrata a hipocrisia de uma sociedade que aparenta e deseja ser vista como perfeita. Constata que não tem par neste mundo. Revela e aceita ter defeitos, se diferencia do resto da sociedade, que só conta vantagens e apresenta virtudes. Se conceitua como um ser solitário, num mundo onde predomina o fingimento social, sendo ele a única pessoa capaz de reconhecer suas próprias fraquezas e imperfeições. Convencido de que a sociedade não irá abandonar tal atuação, é que não tem disposição para enfrentar a verdade, sugere que pelo menos algumas deficiências e fraquezas sejam assumidas. Se a violência dos pactos sociais não permitem que sejam expostos, que pelo menos covardias e infâmias o sejam. Ao chamá-lo de Poema em linha reta, é irônico é utópico, se postula como crítico daqueles que vivem sempre nesta postura, aqueles que na sua compreensão não fogem, nem sequer a possibilidade da expressão contraditória as regras morais que oprimem seus desejos. Para ele, a vida não pode ser representada por essa linha de recalques, tem que existir a tortuosidade, os altos e baixos, erros e acertos, imperfeições, contradições, aceitação e enfrentamento. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- O Poder.
“É um estranho desejo, desejar o poder e perder a liberdade”. Bacon. Por Dan Mena. O significado etimológico do termo na sua forma verbal mais antiga, a palavra ''PODER'', provém do termo indo-europeu poti, que designava o chefe de um grupo social ou familiar, de um clã, uma tribo, e tinha uma concepção política de autoridade do chefe. (Schaal, 1994). A palavra poder vem do latim ''POTERE'', seu significado remete à posse, capacidade ou faculdade de fazer algo, bem como à posse do mando, imposição da vontade. • ter poder expedido ou poder para realizar uma coisa; • domínio, poder e jurisdição que se tem para mandar numa determinada situação ou executar uma ação; • posse ou detenção efetiva; • cair sob o poder de… estar sujeito ao seu domínio ou vontade; • em política: a capacidade de exercer um controle sobre a população de um determinado território; • poder de autoridade, (polícia, exército, etc.), de uma força física ou coercitiva. Neste artigo, discorro sobre diferentes perspectivas sobre a natureza humana e a sua relação com o poder. Conforme a teologia cristã, como seres humanos fomos criados à imagem de Deus, (O fato de que o homem é criado à imagem de Deus significa que o homem é como Deus nos seguintes aspectos: capacidade intelectual, pureza moral, natureza espiritual, domínio sobre a terra, criatividade, habilidade para tomar decisões éticas e imortalidade) assim, foi nos concedido o domínio sobre a terra e todas às criaturas que nela existem. O filósofo Russell, defende que o poder é o motor básico do comportamento e ação humana, que por sua vez, é uma procura inerente à nossa concepção inata. Freud defende, que o inconsciente e os instintos desempenham um papel importante dessa constituição, tal se submete ao jogo dominante na sociedade e a cultura. Acrescenta; que, é aquele tomado em consideração como implícito, ou seja; o exercício que fazemos dele na ordem do inconsciente, que mostra como a pulsão desse desempenho pode dar origem a uma expressão sádica, que contribui para a constituição do saber. Wilson, na área biocientífica, argumenta que a biogeocenose imperfeita a que estamos designados, está predefinida pelos nossos genes, onde seu impulso e desempenho está na gênesis molecular do código DNA. Saber e poder se entrelaçam, estão intimamente relacionados; Foucault, conseguiu demonstrar que o discurso é produzido em cada momento histórico, que o mesmo, contém verdades produzidas pelo conjunto desse saber-poder. Ao analisar a psicanálise pela sua prática discursiva, mostra que ela está amplamente relacionada com os pronunciamentos disciplinadores. Faz leitura do papel que a psicanálise desempenha como coadjuvante auxiliar das famílias na anuência desse esquema, e que não estava nesse contexto apenas contribuindo com a ordem prescrita, senão também, como um projeto que procurava estabelecer uma comunicação com a parte irracional do processo. Freud, descobre então uma terceira ferida narcísica para a humanidade, de natureza psicológica, isto é, retira do reinado ancestral a ideia de que o ser humano tem controle sobre sua vida psíquica. Entra Santo Agostinho, que já dizia; ''não há nada mais perto de mim do que eu mesmo, no entanto, não há nada que eu desconheça mais do que a mim''. Às duas primeiras feridas narcísicas, uma realizada por Copérnico e Darwin, já tinham revelado; A primeira, quando a humanidade descobre que a Terra não era o centro do universo, mas apenas uma partícula de um sistema universal, dificilmente concebível em sua magnitude para a época. A segunda, ocorre com a investigação biológica que roubou nossa aparente superioridade divina sob a criação, e repreende o homem com a descida ao reino animal e sua natureza similar. Sem dúvidas, existem dezenas de recortes divergentes e concepções ao tema, que realçam a importância da intrínseca relação humana com o poder, absolutamente implicada em muitos aspectos ambivalentes, seja pelo nosso estilo de viver, realidade e discurso. Vamos ao tema, boa leitura. Gosto muito dentre os muitos conceitos desta posição de ''O Poder'' visto pela visão de Foucault, que argumenta que tal não se opõe ao conhecimento ou à verdade, mas, pelo contrário, produz e reproduz ambos. Na seguinte citação: ''A verdade é deste mundo; ela é produzida aqui, graças a múltiplas imposições. Ela tem efeitos regulados de poder''. Cada sociedade tem o seu regime de verdade (…). A “verdade”, está centrada na forma do discurso científico e nas instituições que o produzem (…), tal produção, e transmitida sob a forma de controle, não exclusivo, mas dominante, de alguns grandes aparelhos políticos ou econômicos, como universidade, exército, escrita, meios de comunicação social, etc.). (Foucault, 1992). É, portanto, seu entendimento, que a verdade é elaborada, e como ela própria reproduz o poder, também, inclui tipos de narrativas e mecânicas que se encarregam da sua construção. Por sua vez, visualizo, que a verdade, não é uma, nem transcendental, mas sim, particular e específica de cada sociedade. A verdade seria então, o conjunto de regras utilizadas para determinar o que será verdadeiro ou falso, o que estará conectado aos efeitos políticos do poder. A verdade é para Foucault, o próprio poder em si. Por vezes, acreditamos ser possível delimitar seu espaço, aquele onde se encontra, no entanto, outra citação dele é muito subjetiva; O poder: (…) essa coisa enigmática, ao mesmo tempo, visível e invisível, presente e oculta, investida em toda a parte (…), (Foucault, 1992). Como o poder interpela o psicanalista? Ulm diz; *… a influência do poder no processo psicanalítico é raramente refletida, analistas são rápidos em fugir do assunto recorrendo à técnica: o argumento de que o analista não exerce poder porque ela(e) não faz justiça ao comportamento abstinente, não realiza mediação ao problema. Exatamente pelo seu significado, certos comportamentos do analista podem desempenhar um papel na luta pelo poder. É sabido que tais interpretações podem ser utilizadas para impor determinadas condições do enquadramento clínico do paciente. O desequilíbrio desse manejo torna-se maior quando o psicanalista coloca em jogo um conhecimento privilegiado sobre a verdade inconsciente do paciente, via interpretações profundas da psique que ele ignora. Hector Fiorini diz: em “O que faz uma boa psicoterapia psicanalítica?”, “Psicanálise: Focos e aberturas”, publicada no Uruguai. ''Penso, que fomos formados sob uma teoria que tentou saber muito sobre a sexualidade, sobretudo da infantil e suas derivações na vida sexual adulta. Não sabemos qual é o problema do poder, assuntos que jogam um rol numa família desde a fase primaria. Se conhecêssemos melhor o poder, poderíamos compreender que nem sempre é a sexualidade que vem primeiro, mas que por vezes, os problemas sexuais são derivações desses elementos. Por vezes, a impotência sobre-sexualizada em face a problemas de poder''. Foucalt e Deleuze colocam a questão da seguinte forma: ''em vez de estudar a política das grandes sociedades, é preciso concentrar estudos delas, na micropolítica, no jogo do poder no grupo familiar, no casal, no amor. Há uma série de domínios absolutamente fundamentais da vida psicológica onde se desenrola esse tema''. Da nossa natureza. Tanto do Deus bíblico como dos próprios seres humanos, emerge uma natureza cruel e destrutiva. Se nos remetemos a religião podemos convocar como exemplo às Cruzadas e a Inquisição, situações reais de violência e perseguição que exterminaram milhares de pessoas em nome de uma religiosidade. Por outro lado, vemos o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, que demonstra capacidade de agir de forma racional e consciente. Scheler, defende que o ser humano consegue dizer ''não'' à realidade, de protestar contra ela, ao contrário dos animais que devem aceitar sempre a situação imposta. Consciência e razão, ambas são interdependentes, uma vez que a consciência sem a capacidade de reter informação seria superficial. No entanto, devemos reconhecer que não somos apenas racionais, visto que agregamos compostos influenciadores como às emoções, afetos, cognição, experiências, laços, impulsos, etc., que nos tornam adaptativos a mudanças. Freud alude; que grande parte da vida mental humana é irracional e inconsciente, e que o inconsciente, representado pelo “id”, possui desejos e impulsos imperiosos, que tanto a razão como a irracionalidade são essas características distintivas do ser humano em relação aos animais. Destarte, cientificamente partilhamos características relativas com outras espécies animais, principalmente a que aponta para o cérebro reptiliano, que controla os comportamentos instintivos e básicos de sobrevivência, (Segundo a teoria, a camada mais profunda e primitiva do cérebro, chamada de ''Cérebro Reptiliano'', opera os reflexos e funções instintivas, controla funções vitais do corpo e determinados comportamentos sexuais. Essa base psíquica, seria responsável por comportamentos de agressão, domínio, territorialidade e exibição. Envolveria o tronco cerebral e o cerebelo, na forma de um animal interior impulsivo, com tendências violentas, que busca proteção, defesa e poder. Uma teoria considerada incorreta pela neurociência moderna). A relação entre esse contexto do poder e nossa natureza primitiva, se faz presente no dia a dia, porque está ligada aos presságios de sobrevivência e tino, logo agressivas, aquelas que supostamente estão além do limiar do controle possível, mais sensíveis de serem dominadas. As características únicas do ser humano, incluem a razão, consciência, capacidade de pensar, projetar, equacionar, refletir e fazer definições lógicas, enquanto a consciência, é a habilidade de estar consciente da existência, ambiente, tempo, laços e da nossa ligação simbólica com o universo. O instinto vital presente em todos os seres vivos, se explana ao instinto de sobrevivência, incluindo as pulsões de vida e morte. A origem da atividade mental. A pulsão é a origem de toda atividade mental, representa os estímulos somáticos do corpo, Freud define a pulsão como uma magnitude de exigência ao trabalho que impele à ação, constituída por uma fonte, uma força, uma meta e um objeto. O instinto, através das pulsões de vida visam satisfazer necessidades, tais como a alimentação, água e perpetuação da espécie. Está dividida entre as pulsões de vida representada por ''Eros'', e as pulsões de morte, por ''Thanatos'', que influenciam o comportamento humano e a sociedade. Nessa linha, todo poder tem origem no instinto, ao ser a energia motora que levou o ser humano a criar uma cultura, a construir um mundo civilizado e procurar pelo seu bem-estar, conforto e propósito de felicidade. Uma relação proporcional entre consciência e poder, uma vez que quanto mais elevado o nível de consciência, maior a ânsia e o desejo de obter ele. A vazão dessa influência sobre o meio ambiente se vê espelhada por motivações egoístas e ambiciosas. O gene egocêntrico humano não tem nenhuma moral ou comportamento associado ao mal, atua segundo a sua natureza interesseira, age, enquanto portador e transmissor da sua prioridade na transmissão do seu material genético. A teoria do gene egoísta, (teoria do gene egoísta de Dawkins, a seleção natural atua sobre genes específicos como unidade de seleção. Esse replicador usa veículos transitórios em favor de sua multiplicação, onde o aspecto egoísta mantém suas características sendo transmitidas), o que não implica maldade ou moralidade. Refere-se ao impulso egoísta como um canal de imortalidade do ser, entendido como ações aparentemente altruístas que, em última análise, procuram o benefício próprio. Rand defendia o egoísmo racional como uma virtude moral e considerava o altruísmo irracional incompatível com a liberdade, o capitalismo, e os direitos individuais. De acordo com ele, os seres humanos são inerentemente autocentrados e egocêntricos, procuram o seu próprio interesse racional e a boa-venturança como objetivo moral. O poder, suas formas. O poder é uma articulação do ser humano para controlar racionalmente os outros, é a soma dos comportamentos, condutas e características típicas determinadas por fatores genéticos, embora existam outras condições que interferem. Uma tendência inerente para o desejo de domínio e egoísmo, que como predadores naturais desejam dominar outras espécies, obter benemérito para seu próprio bem-estar, incluindo à exploração dos outros. Embora os genes primitivos possam se mesclar em grande escala nos comportamentos, fatores ambientais, sociais, políticos e culturais, desempenham um papel importante na formação do comportamento humano. Uma sociedade baseada apenas no egoísmo e na lei deste DNA seria algo muito indesejável, onde valores como a assistência, caridade, mutualidade, solidariedade, cooperação, amizade e o bem coletivo seriam negados. No entanto, reconhecer a nossa tendência para o valor que damos ao poder e seu consequente egoísmo, podem contribuir para a melhor intelecção, pensamento e funcionamento das futuras sociedades, e nos instruindo atualmente para os desafios contemporâneos que enfrentamos. A ética e a moral, desempenham uma incumbência incisiva na forma como os seres humanos interagimos e convivemos entre si, ajudam, formando decisões de atuação mais compatíveis com princípios e valores em função do inevitável exercício do poder. O que Freud fala sobre o poder?… ''a relação política básica consistia numa relação erótica, da massa com a autoridade. Para ele, a autoridade sempre existe personificada. A horda supõe um chefe, o hipnotizado, um hipnotizador, o amor, um objeto, a massa, um líder''. O lado escuro. Hobbes respaldou com suas argumentações que os seres humanos somos maus por natureza, que a ordem social seria uma estrutura fundamental para brecar e reprimir nossos impulsos destrutivos, necessário correlato poder de convivência medianamente pacifica. Ele aponta; que a natureza individualista, autocentrada e competitiva do homem, exige a imposição de uma autoridade para manter a equidade civilizatória, ordem, desenvolvimento e estabilidade civil. Quanto à natureza gregária e social, é fato que somos animais sociais e temos inclinação para viver em convergência. Esta tendência, pode não se basear propriamente num altruísmo humano genuíno em relação ao outro, mas pode estar embutida, instigada por interesses comodistas, como a preservação e supervivência do gene, da raça como objeto primário. Nestas máscaras, também podemos incluir os princípios e valores, usados como táticas estratégicas complementares. Por outro ângulo temos a moral, campo da discussão pela sua constituição complexa, objeto de grandes debates acadêmicos. Uns defendem que a moral tem uma origem biológica, que desponta como uma articulação da espécie, uma reflexão, dito subproduto de demandas biológicas. Outras escolas, intercedem quanto a moral ultrapassar os instintos, senão, atribuída a capacidade cognitiva de raciocinar quanto ao pêndulo das ações e suas possíveis repercussões negativas que podemos sofrer. De acordo com essa visão, a moral se constituiria via uma construção social, que foi se aperfeiçoando no tempo, desenvolvendo e avançando, na medida que se fundaram as civilizações modernas, instituindo paulatinamente normas e valores que foram agregadas aos marcos regulatórios legais e culturais. A interação entre múltiplos fatores, sejam psicológicos, ambientais, legislativos e sociais, talham a humanidade, esculpindo nossos hábitos, crenças e comportamentos, deixando em qualquer direção uma temática sedutora ao debate, a sua compreensão para o progresso do campo filosófico, histórico e científico. Em particular, como indivíduos, temos o pleno direito de questionar ditos ritos que regem nossa vida, devemos sempre ir em busca da compreensão, exigindo uma mente disposta e aberta ao polêmico, espírito cívico e senso crítico. ''Conhecer os outros é inteligência, conhecer-se a si próprio é verdadeira sabedoria. Controlar os outros é força, controlar-se em si, é o verdadeiro poder''. Lao-Tsé. Na abordagem psicanalítica. De que forma o poder se intitula na psicanálise? Seria na forma de qualquer outra teoria?, na talvez dita manipulação, manejo, desvio, abuso ou na própria técnica? É, onde ela não se encaixa? Onde seria possível falar de poder em psicanálise, e onde não haveria um espaço significativo da sua práxis? Se teoricamente a sexualidade não é propriamente o campo do discurso, onde encontramos o poder?. É possível falar dele nas formas de sua institucionalização? Onde é que ele seria importante ser invocado? Para esta resposta quero dar voz a Christian Dunker, meu professor contemporâneo que tanto admiro e me espelho, se existe esse lugar, é este que e reservado a psicanálise; ''A psicanálise desenvolveu uma pequena teoria prática sobre o poder. Quando alguém procura a nós, psicanalistas, em geral, este alguém está questionando suas posições e decisões na vida. Por isso mesmo abre-se para ouvir, pedindo que o outro lhe dê alguma direção, uma pista e até mesmo um conselho sobre a pergunta fundamental: o que fazer? Esse pedido não é apenas uma demanda formal, como a que fazemos para um consultor financeiro ou jurídico, mas emerge em uma relação de confiança e intimidade, adquirida e formada pela escuta paciente e cuidadosa sobre os aspectos que deram luz da rede de problemas que cercam uma vida. Portanto, estamos nas condições ideais para sugerir e orientar, posição com a qual muitos educadores sonham porque lhes garantiria o trabalho disciplinar que é tão difícil de obter em situações institucionais. Ocorre que toda a graça e quase toda a arte da psicanálise consiste em renunciar ao exercício deste poder que o próprio paciente nos incita e nos pede para praticar. É porque nós não agimos com o poder que nos é atribuído, entendendo que a natureza dessa atribuição é por si só problemática, que a psicanálise transforma o poder imaginário da sugestão em autoridade simbólica da transferência. Nós não o fazemos, contra o pedido e a demanda, por vezes explícita, de nossos pacientes. Nós não vamos para a cama com eles, não usamos nossas informações para obter benefícios indiretos, não nos associamos nem empreendemos nada com eles, muito menos nos satisfazemos em sermos amados como uma imagem sábia ou benevolente. Todo o poder que a situação nos confere, com exceção do poder de contribuir para a transformação do próprio paciente, nos é interditado. Ora, todas as atividades humanas que dependem de situações análogas deveriam seguir a mesma regra. Ou seja, padres e pastores nunca deveriam usar a autoridade que lhes é concedida para indicar candidatos ou eles mesmos se apresentarem como postulantes a cargos representativos. Também médicos e professores jamais deveriam aproveitar-se desse tipo de situação para extrair benefícios secundários da relação de tratamento ou de ensino para criar laços secundários. A liberdade que se exerce nessas atividades é dada pelo limite que se escolheu''. Em última análise, a compreensão da natureza humana é objeto de debate e reflexão constantes. Diferentes teorias e perspectivas oferecem formas polifacetadas de interpretar e compreender as motivações, atos e comportamentos humanos. Para fechar ficarei com Foucault. A definição de Foucault para o conhecimento na sua obra ''A Arqueologia do Saber'', sinaliza com sua proposta; Um saber é aquilo que se pode discursar numa prática narrativa, que é assim especificada: O domínio constituído pelos diferentes objetos que vão ou não adquirir um estatuto científico (…) “indica em seguida“(…) é também o espaço no qual o sujeito pode tomar sua posição para falar dos objetos que trata no seu discurso (…)” e continua: “(…) é também o campo de coordenação e subordinação dos enunciados onde os conceitos aparecem, são definidos, aplicados e transformados (…)” e finalmente: "(...) um conhecimento é definido pelas possibilidades de uso e apropriação (…). Oferecidas pelo discurso (…) (Foucault, 2007). Para ele haveria um problema no discurso, porque poder inerentes ao jogo enunciativo. Assim, ele descobre que o poder, longe de ser descrito simplesmente por seu caráter repressivo, é por essa noção de poder que a força de proibição, a força que diz “não” como; (uma concessão puramente jurídica do poder), tem um caráter produtivo muito mais poderoso. ''O exercício do poder é executado com e para além da lei, funcionando antes por incorporação'' (Ayouch, 2013). O poder, diz Foucault:(…) produz coisas, induz ao prazer, forma saberes, produz discursos; ele é (…) uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social e não (…) uma instância negativa cuja função é reprimir.”. (Foucault, 1992). O poder, não impede o conhecimento ou a verdade, mas, ao contrário, produz e reproduz ambos. Quero encerrar com uma reflexão a iluminada frase de Francis Bacon. “É um estranho desejo, desejar o poder e perder a liberdade”, tão potente ao homem sua ânsia pelo domínio, que consegue prescindir da sua vida vivida, em detrimento de ditar regra, ir e vir, ser livre, desfrutar do bem mais precioso que lhe foi outorgado. Que falta de bom senso! Ao poema. Se comparo poder ou ouro, ou fama. Antero de Quental. Se comparo poder ou ouro ou fama, Venturas que em si têm oculto o dano, Com aquele outro afeto soberano, Que amor se diz e é luz de pura chama, Vejo que são bem como arteira dama, Que sob honesto riso esconde o engano, E o que as segue, como homem leviano Que por um vão prazer deixa quem ama. Nasce do orgulho aquele estéril gozo E a glória dele é cousa fraudulenta, Como quem na vaidade tem a palma: Tem na paixão seu brilho mais formoso E das paixões também some-o a tormenta… Mas a glória do amor… essa vem d’alma! Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130













