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- A Psicanálise de 'Os Homens que Não Amavam as Mulheres': Trauma, Sexualidade e Desejo
A Psicanálise de 'Os Homens que Não Amavam as Mulheres': Trauma, Sexualidade e Desejo No cruzamento fascinante entre a magia do cinema e as sinuosidades da psique, irrompe uma obra que, a exemplo de um quebra-cabeça, incita nossa compreensão: "Os Homens que Não Amavam as Mulheres" . Sob a direção perspicaz de David Fincher , essa produção da Columbia Pictures, enriquecida pelas interpretações magnéticas de Daniel Craig, Rooney Mara e Stellan Skarsgård , transforma o suspense vivo com as fissuras de uma sociedade doente e os fragmentos de mentes perturbadas. Longe de se restringir a uma narrativa investigativa, o filme entrelaça uma teia intrincada de afetos e impulsos, revelando essa interação entre cicatrizes, sensualidade e apetite. Tais elementos, longe de serem meros adornos da trama, constituem o esqueleto da obra, o propulsor que leva cada personagem a encarar o motor de seus fantasmas e os segredos que se ocultam nas trevas mentais. “O inconsciente não perdoa o que a consciência tenta esquecer, ele tatua a alma com a tinta indelével do trauma.” - Dan Mena Os Homens que Não Amavam as Mulheres, uma análise atemporal por Dan Mena Este estudo propõe uma incursão na sua essência, uma expedição ao inconsciente fílmico, onde o trauma se manifesta não como uma memória fossilizada, mas como uma força atuante no presente. Fincher nos confronta com a compulsão à repetição freudiana em sua forma mais crua, corporificada na figura misteriosa de Lisbeth Salander. A hacker indomável, marcada pela emblemática tatuagem de dragão, personifica tanto a angústia lancinante quanto a cólera primordial. A sua trajetória, tecida em meio a abusos e negligências, nos convoca a encarar a fragilidade da infância e a perpetuação de ciclos de violência que assombram nossa sociedade. Ao longo destas ponderações, vamos esmiuçar as vivências pretéritas de Lisbeth tingidas de preto, sua relação polivalente e conflituosa com esse entorno. Investigaremos como a volúpia, em suas vertentes mais sombrias e luminosas, impulsionam os atos dos protagonistas, e como a sensualidade é apresentada não como fonte de contentamento, mas como arena de combates de poder e palco de manipulações. Essa forma como Fincher objetifica a mulher e a banalização da agressão, expõe um retrato urgente e fiel sobre as estruturas de dominação que permeiam nossa cultura atual. “A sexualidade, quando despojada de afeto e emoções, é apenas a geometria fria do poder.” - Dan Mena Como de costume, apoiado no arcabouço teórico da psicanálise, com ênfase nas contribuições de Freud e Lacan, construirei o perfil psicológico e analítico dos personagens primordiais, e veremos o que resguarda em suas entrelinhas, abrindo as camadas latentes sob a epiderme da história. Farei uma imersão analítica estimulante, com erudição e discernimento, destarte, com a linguagem acessível que pontuam meus textos. Uma obra-prima hodierna e enigmática com o titulo em portugues de "Os Homens que Não Amavam as Mulheres" e original de ''The Girl With The Dragon Tattoo'' . Se permita ser transformado(a) pela força da análise cinematográfica, desconstruindo preconceitos arraigados, nos inspirando assim a construir um futuro onde a empatia e o respeito mútuo prevaleçam sobre a violência e a opressão. “A busca por sentido no caos é a única forma de resistência contra a dissolução do eu no trauma.” - Dan Mena A Tatuagem de Lisbeth Salander como escudo de resistência ao trauma Seus temas centrais giram no Trauma, Sexualidade e Desejo , que não são meros acessórios narrativos da trama, eles são a própria estrutura óssea da história, a turbina que impulsiona cada personagem e cada reviravolta. A análise revela o lado inconsciente do filme, onde o trauma não é apenas um evento passado, mas uma força vital que se repete no presente. O que Fincher nos apresenta é a compulsão à repetição freudiana em sua forma mais crua e fática, manifestada na figura enigmática de Lisbeth Salander, a hacker anti social cuja tatuagem de dragão simboliza a ferida e a fúria da sua projeção. “A ira de Lisbeth é a prova de que a resiliência não é a ausência de dor, mas a capacidade de poder transformá-la.” - Dan Mena Essa perturbação sexual infantil de Lisbeth molda sua identidade e sua relação com o mundo, como o desejo, em suas formas mais perversas e mais redentoras. Tal desenrolar move os protagonistas, e mostra como a sexualidade é retratada no filme não como fonte de prazer, mas como campo de batalha e instrumento de poder. O arcabouço teórico, visto pelo ângulo da psicanálise, vai escancarar o que se dissimula além do visível. Tenho certeza que será uma leitura inquisidora, elegante e, acima de tudo, esclarecedora sobre o teor psicanalítico desta obra contemporânea. “A vingança é a tentativa desesperada do ego de reescrever a história que o trauma impôs.” - Dan Mena Martin Vanger máscara para encobrir a perversão e a psicopatia A Tatuagem como Cicatriz e a Fúria do Inconsciente Lisbeth Salander, muito bem interpretada por Rooney Mara , é o epicentro da análise e do filme. Ela representa um sintoma social além da interpretação, a encarnação da resistência ao trauma. Seu perfil psicológico foi marcado por uma infância de violência e institucionalização, que a levou a ser diagnosticada com ‘’Transtorno de Personalidade Antissocial’’ , embora o filme e o livro, que li antes de assistir a peça sugiram uma leitura mais matizada, próxima do ‘’Transtorno do Espectro Autista’’ ou de uma reação extrema ao abuso. Lisbeth emerge na tela como uma figura de autonomia radical, forjada na dor e na desconfiança do mundo. O trauma, para ela, não é uma lembrança, mas uma presença constante. Esse evento não pôde ser simbolizado no momento em que ocorreu, permanecendo como um real que irrompeu fortemente na sua vida psíquica. Na protagonista, isso se manifesta na sua dificuldade extrema de estabelecer laços sociais, na sua hipervigilância e na sua pulsão de violência. Sua tatuagem de dragão, mais do que um adorno, é um símbolo gravado a fogo de sua ferida e de sua capacidade de retaliar. É a marca que ela escolheu para si, um contra-símbolo icônico à marca que a sociedade e os homens abusivos tentaram lhe impor. “A Lei falha quando nos recusamos a ser civilizados; a justiça, então, se torna visceral.” - Dan Mena A sublimação de sua energia destrutiva se dá na sua genialidade como hacker, um meio de exercer controle em um mundo que lhe tirou todo o manejo. A relação de Lisbeth com a sexualidade é sensivelmente marcada pelo abuso. O desejo intrínseco em seu universo, é pervertido pelo poder. A cena brutal de estupro e a subsequente vingança são o ponto nevrálgico onde o trauma se repete e, paradoxalmente, será confrontado. Ela não busca justiça no sentido legal, mas uma reparação simbólica e visceral da sua existência. Sua retaliação é uma tentativa desesperada de reverter a passividade imposta pelo choque, dessa forma pretende transformar o objeto do ato em sujeito ativo da punição. A pulsão de morte, conceito freudiano que Lacan elabora como a insistência do real no psiquismo, parece ser o guia liminar em Lisbeth. Ela vive à margem, em um estado de autossuficiência extrema que beira a autodestruição, mas que também a protege do mundo. Ela é a garota que não se curva a dor, que usa a tecnologia para desmascarar a hipocrisia e a violência que a lei e a sociedade falharam em penalizar e conter. A frieza emocional de Lisbeth é uma característica inata ou uma armadura psíquica construída para sobreviver ao seu trauma repetido? Sua vingança pode ser interpretada como uma forma de "cura" ou é apenas mais um ciclo circular da compulsão à repetição do trauma? De que maneira a sexualidade, enquanto campo de poder e não de afeto, define essa relação de Lisbeth com o masculino? “O trauma não é o que aconteceu, mas o que a alma insiste em reviver até que a ferida encontre sua própria linguagem.” - Dan Mena Lisbeth Salander fúria silenciosa e trauma no ângulo da psicanálise O Desejo de Verdade e a Fragilidade do Herói Mikael Blomkvist , o jornalista investigativo interpretado por Daniel Craig , é o contraponto da polifonia de Lisbeth. Ele representa a ordem, a lei (ainda que falha) e a busca pela verdade racional que não chegou. Seu perfil psicológico é o do herói moderno, com suas falhas e total humanidade. No início do filme, ele está em crise, desacreditado após perder um processo por calúnia e difamação, o que o coloca em uma posição de vulnerabilidade e desamparo. Esse balanço de Mikael será essencial para o encontro com Lisbeth, que marcado pela fragilidade do super herói é o que o torna acessível à marginalidade de Lisbeth. “A solidão de Lisbeth é a escolha de quem prefere a margem à hipocrisia do centro.” - Dan Mena O desejo de Mikael é chegar à verdade, movido pela pulsão epistemofílica, a busca incessante pelo saber, que o leva a solucionar o mistério da família Vanger. Contudo, seu desejo também se manifesta na esfera sexual de forma labiríntica. Sua relação com a editora Erica Berger, uma mulher casada, e seu envolvimento posterior com Lisbeth, vão denotar um padrão de busca por conexões que desafiam as normas sociais, mas que, diferentemente dos "homens que não amavam as mulheres" , são pautadas pelo respeito e pela reciprocidade, especialmente com Lisbeth. “O herói moderno não é o que salva, mas o que se permite ser vulnerável à verdade.” - Dan Mena A crise de reputação de Mikael o torna mais apto e qualificado a compreender e aceitar a marginalidade de Lisbeth, pois ele próprio se sente um outsider do sistema. A fragilidade de Mikael reside em sua crença na estrutura social e na justiça. O trauma que ele vivencia é de ordem simbólica, que vem via a perda de sua reputação e a falência de seu ideal jornalístico. Essa falha que também o humaniza, o torna capaz de se conectar com Lisbeth, a figura que opera fora do combo de qualquer sistema. Ele é o ‘’Outro’’ que não a julga, que a vê para além de seu diagnóstico e de sua aparência. A dinâmica entre Mikael e Lisbeth é um dos pontos mais ricos para minha análise, pois ele é o homem que, apesar de seus erros, não a trai, não abusa dela, e que, de certa forma, a resgata desse isolamento . O desejo de Mikael por Lisbeth é, inicialmente, o querer pelo enigma, pela peça que falta em seu quebra-cabeça, mas evolui para um respeito considerável da sua autonomia e força. A sexualidade entre eles é um breve interlúdio de fusão genuína, um momento em que Lisbeth permite timidamente a entrada do afeto, ainda que de forma fugaz e sob seus próprios termos. “O trauma é a memória que o corpo se recusa a esquecer, e a repetição, o grito mudo do inconsciente por uma história que possa enfim, ser contada.” - Dan Mena O desejo de Mikael pela verdade é uma sublimação de um acoplamento inconsciente de reparação de sua própria imagem? Como a crise de reputação de Mikael o torna mais apto a compreender e aceitar a dita marginalidade de Lisbeth? A relação sexual entre Mikael e Lisbeth é um ato de afeto ou uma troca de poder onde Lisbeth, pela primeira vez, está no controle total? “A verdade é o desejo mais perigoso do jornalista, pois ao desvelar o mundo, ele se depara com a sombra de seu próprio ideal investigativo.” - Dan Mena Sexualidade e poder, um campo de batalha para o filme de Fincher A Perversão do Desejo e a Estrutura Familiar O empresário bem-sucedido Martin Vanger e herdeiro da fortuna da família, é o arquétipo do mal dissimulado, o "homem que não amava as mulheres" em sua forma mais institucionalizada, talhada e impiedosa. Interpretado com frieza calculista por Stellan Skarsgård . Martin é a personificação da psicopatia social, um indivíduo que opera sob a máscara da normalidade e do sucesso. A estrutura familiar Vanger é o palco onde a perversão se perpetua no tempo. Seu perfil psicológico é o do perverso, no sentido psicanalítico do termo, logo, não sofre de neurose; ele age. Sua sexualidade é indissociável da violência e do poder, e o seu desejo radica na dominação e destruição. Ele repete o padrão de violência sexual de seu pai e de seu tio, estabelecendo uma linhagem de trauma que se perpetua na estrutura da família. Olhar para a família Vanger é absolutamente importante. Ela é o dorso da estrutura patriarcal, rica e aparentemente respeitável, que esconde um núcleo de devassidão e incesto. O trauma original, com o desaparecimento de Harriet Vanger, é o sintoma que a família tenta recalcar. Martin é o guardião desse segredo, o herdeiro legítimo da violência. “A perversão é a recusa em aceitar o limite, o desejo de ser o Senhor de um universo sem castração.” - Dan Mena Dita corrupção de Martin é a forma como ele lida com a lei e a moral, ele as subverte, as ignora e desconhece, operando em um espaço onde o gozo como prazer extremo, estaria além do princípio do prazer. Um mecanismo obtido através da transgressão e da dor do ‘’Outro’’ . A sexualidade, para ele, é um ritual de poder e arbítrio. As mulheres são objetos, extensões interpretativas de seu desejo sádico. Lacan nos ajuda a entender que o perverso tenta tapar a "falta" (a castração simbólica) através do ato, negando a lei e a capa dura. Martin se coloca como o Senhor que detém a autoridade absoluta sobre a vida e o corpo das vítimas. Sua confissão a Mikael, feita com um sorriso cínico e debochado, é a prova de que ele se deleita em sua transgressão, se sentindo invulnerável. A psicopatia de Martin é, portanto, uma estrutura psíquica que nega o limite e a alteridade. De que forma a estrutura patriarcal e a riqueza da família Vanger atuam como um escudo protetor que permite a Martin perpetuar sua perversão? O que a compulsão à repetição da violência sexual na linhagem Vanger expõe sobre a transmissão do trauma entre multi gerações? A psicopatia de Martin é uma falha moral ou uma estrutura psíquica que nega tudo quanto a lei e o limite social? “O perverso é o arquiteto da própria lei, onde o desejo se torna tirania e a sexualidade, um campo deixado em ruínas.” - Dan Mena Lisbeth e Mikael aliança a margem e lei A Compulsão à Repetição e a Estrutura do Trauma O filme "Os Homens que Não Amavam as Mulheres" é uma aula prática sobre o conceito de ‘’compulsão à repetição’’ ( Freud - Wiederholungszwang). O trauma, como já mencionei, não é um evento isolado, mas uma força que insiste em retornar, buscando uma descarga tácita ou uma elaboração que nunca se completa de fato. A narrativa é estruturada em torno de múltiplos retornos do reprimido, onde o trauma se manifesta como um fantasma que assombra o presente. Primeiramente, podemos interpretar claramente que temos a repetição da violência sexual na linhagem Vanger. O padrão de abuso, iniciado por Gottfried Vanger e continuado por Martin, é a manifestação mais clara da compulsão. A família, ao tentar silenciar o passado (o desaparecimento de Harriet), apenas garante que o mal possa continuar a operar no presente. O segredo é o combustível da repetição, que não é apenas a volta do mesmo, mas a insistência do real – aquilo que escapa à simbolização. “A autonomia radical é a única resposta possível para quem foi traído pela Lei e pelo afeto.” - Dan Mena Em segundo instância, a própria Lisbeth é uma figura que renova o trauma, mas de forma invertida. Sua vida é uma série de confrontos com figuras masculinas abusivas, seja na figura do seu pai, seu tutor legal, Bjurman, e, indiretamente, Martin Vanger. Ela se coloca em situações de risco, como se inconscientemente buscasse o embate para, desta vez, sair vitoriosa. A vingança contra ele não é apenas um ato de justiça e razão, mas uma tentativa de reescrever o roteiro da sua comoção, e transformar a vítima passiva em agente ativo. A pulsão de morte em Lisbeth se manifesta como uma força que a impulsiona a afrontar o que a destrói. O trauma de Lisbeth é tão radical que não pode ser simplesmente "falado" ou "curado" pela via tradicional da clínica. Ele se manifesta no corpo, com suas tatuagens, piercings e aparência punk. A reiteração é a forma que o inconsciente encontra para tentar, incessantemente, dar sentido ao que é insuportável. O filme, ao nos forçar a testemunhar a violência e a vingança, nos coloca na posição de confrontar o nosso lado reprimido social, a negação da violência de gênero e do abuso sexual. “A tatuagem é a inscrição da dor que se torna identidade, a arte de portar a própria ferida.” - Dan Mena A repetição na tela é um convite à elaboração, uma falha da sociedade em proteger os mais vulneráveis. A estrutura do trauma é, portanto, a estrutura da própria narrativa. O filme sugere que a única forma de quebrar o ciclo da repetição do trauma é através da violência e da transgressão da lei? Como a figura de Harriet Vanger, a vítima original, atua como um fantasma que o impulsiona a abrir investigação e a iteração do trauma na família? A compulsão à repetição de Lisbeth é uma forma de resistência ou uma armadilha psíquica que a impede de caminhar em direção à paz? “O trauma é a memória que o corpo se recusa a esquecer, e a repetição, o grito mudo do inconsciente por uma história que possa ter fim, enfim, ser contada.” - Dan Mena Sexualidade como Campo de Batalha na Misoginia do Poder A sexualidade marcada em "Os Homens que Não Amavam as Mulheres" é retratada de forma cruel e desromantizada. Longe de ser um espaço de afeto e intimidade, ela é, na maior parte do tempo, um campo degradante onde o poder é exercido e o androcentrismo se manifesta em sua forma mais hedionda. O título do filme, por si só, já é uma tese sobre a falência do amor e do respeito na relação entre os gêneros, a misoginia seria o pano de fundo da violência. Nossa sexualidade é sempre notadamente perpassada pelo desejo e pela lei. No filme, o lado sexual perverso de Martin Vanger e de seu pai é a negação radical da alteridade. O ato sexual se torna um ato de violência, uma forma de aniquilar o sujeito mulher no composto feminino. Não se trata simplesmente do ódio contra mulheres, mas uma estrutura psíquica que as reduz a objetos de mero gozo, lhes negando a subjetividade. O poder é o afrodisíaco do malvado. A figura de Lisbeth com sua sexualidade e atitude desafiadora, é uma afronta a essa estrutura. Sua bissexualidade e sua independência sexual são formas de resistência, de se recusar a ser definida pelo olhar masculino. “O perverso é o arquiteto da própria lei, onde o desejo se torna tirania e a sexualidade, um campo em ruínas.” - Dan Mena Violência de gênero, um sintoma social no filme 'Os Homens que Não Amavam as Mulheres' De fato ela usa seu corpo e sexualidade como armas, mas o faz em um contexto de extrema cautela e desconfiança. O sexo entre Mikael e Lisbeth, embora breve, é o único momento em que esse elemento no filme parece se aproximar de uma conexão real. É um erotismo sem as amarras do desejo neurótico de posse ou de iniquidade dominadora. Um encontro de dois outsiders que se reconhecem na margem do rio. Contudo, Lisbeth rapidamente se retira, incapaz de sustentar essa intimidade que o afeto exige, demonstrando que o trauma ainda é o regente na batuta do seu desejo. Obviamente o filme trata da hipocrisia social que permite que a violência sexual prospere sob o véu da respeitabilidade, neste caso a família Vanger. A sexualidade, nessa linha retórica, é o indício sintomático de uma sociedade empobrecida e mórbida, onde o desejo masculino, quando desprovido de ética e lei, se transforma em pulsão de morte dirigida às mulheres. A violência de gênero é o tema do eixo central, e a análise psicanalítica que faço, a descreve como uma manifestação do desejo de ‘’aniquilação do ''Outro'' ’’. De que maneira a sexualidade de Lisbeth, marcada pela bissexualidade e pela autonomia, desafia a norma heteronormativa e patriarcal que a violentou? O filme sugere que a violência sexual é um problema individual, uma psicopatia de Martin ou um sintoma de uma estrutura social mais ampla? Como a ausência de amor e afeto, sugerida no título do filme, se manifesta na esfera sexual dos personagens? “O corpo violentado é o mapa geográfico onde a sociedade inscreve sua falência, e a sexualidade, o palco perfeito onde o desejo perverso celebra a tirania do poder.” - Dan Mena A Busca por Sentido no Caos O desejo, na psicanálise, é o que nos move, a força que nos impulsiona para além da necessidade. Em "Os Homens que Não Amavam as Mulheres", essa aspiração se manifesta em múltiplas formas, todas elas em tensão com a Lei, o sistema de regras, a moral, e a estrutura simbólica. A busca por sentido é o que define a trilha cenográfica dos protagonistas. O desejo de Lisbeth é o de justiça e autonomia, mas ele se realiza fora da norma, distante da Lei. Ela é a anti-heroína que opera fora-da-lei, usando sua inteligência para subverter o sistema que em algum momento a oprimia. Sua ação é uma crítica radical à falência contemporânea em proteger as vítimas, como por exemplo; os casos de feminicídio. Ela se torna a própria justiça vingadora, que executa a punição que o Estado não foi capaz de impor. A transgressão é o seu modo de ser. O desejo de Mikael, é o de restauração de sua reputação e da verdade. Ele opera dentro da norma social, usando as ferramentas do jornalismo e da investigação. A colaboração entre os dois é a união do ‘’dentro e do fora da Lei’’ , uma aliança tática e estratégica para alcançar um objetivo comum. Alcançar e desvelar a verdade e punir o mal. O desejo de Martin Vanger é o de gozo, no sentido lacaniano , a busca por um prazer que extrapola o cânone da legislação e a fronteira do limite. Se coloca acima da Lei, se enxergando como intocável. Nega sua castração simbólica, se recusando aceitar que há um limiar para o seu desejo. A Lei, no filme, é retratada como frágil e corruptível, o sistema de tutela de Lisbeth falha miseravelmente, a colocando nas mãos de um abusador. A justiça para Mikael é lenta e falha. Embaçado nesta utópica razão, o filme sugere que, em um mundo onde a Lei é ineficaz, o desejo de reparação e vingança pode se tornar a única bússola moral. A busca por sentido no caos do trauma e da violência é o que une os protagonistas no laço. Lisbeth encontra um sentido na sua luta solitária, Mikael, na sua perpetração pela verdade. Afinal, o filme não oferece um final feliz tradicional, mas uma resolução complicada, onde a justiça é alcançada por meios não convencionais, deixando o espectador com a pergunta: o que é a verdadeira Lei em um mundo onde o mal se veste de respeitabilidade? A transgressão da Lei por Lisbeth é moralmente justificável no prisma da falência do sistema de justiça? O que a aliança entre o jornalista Mikael e a hacker Lisbeth simboliza sobre a relação entre a mídia e a justiça na sociedade moderna? O desejo de Lisbeth por isolamento é uma forma de se proteger da Lei ou uma recusa em se integrar a um sistema que ela considera perverso? “O desejo é o norte que aponta para a falta, e a Lei, a leitura que tentamos desenhar sobre o precipício do nosso próprio caos.” - Dan Mena Freud e Lacan; lentes inconscientes que desvendam o trauma O Cérebro de Lisbeth e a Resposta ao Abuso Para além da minha análise e hermenêutica acadêmica, Lisbeth Salander exige uma incursão na ‘’Neurociência do Trauma’’ . O que a psicanálise descreve como o real que insiste em retornar, a neurociência mapeia como alterações estruturais e funcionais no cérebro, especialmente nas áreas responsáveis pela regulação emocional, memória e resposta ao estresse, onde o cérebro de Lisbeth atua como um campo de batalha biológico. O trauma sexual e a negligência na infância, como os vivenciados pela protagonista, estão associados à hiperatividade da amígdala, o centro do medo e à hipoatividade do córtex pré-frontal. Eles são responsáveis pelo controle executivo e pela regulação emocional. Isso se traduz em uma constante hipervigilância, dificuldade em modular a raiva e a agressividade, e uma incapacidade de confiar e se conectar emocionalmente, características marcantes da personagem. A resposta ao abuso é, em parte, uma resposta biológica de sobrevivência. Dissociação é um mecanismo de defesa comum em vítimas de trauma sexual, que também pode ser observado em Lisbeth. Sua capacidade de se isolar emocionalmente e de se concentrar intensamente em tarefas difíceis como o ‘’hacking’’ , pode ser vista como uma forma de disrupção adaptativa, onde a mente se refugia na lógica e na tecnologia para escapar da dor emocional. A genialidade de Lisbeth é, em parte, uma consequência da sua necessidade de controle e de sua capacidade de processar informações de forma não-emocional e distante da afetiva. A neurociência tem sua tese da compulsão à repetição. O trauma cria um "circuito de medo" que se torna o padrão dominante. A repetição de situações de risco, ou mesmo a busca por vingança, pode ser uma tentativa inconsciente que o cérebro utiliza para "resolver" o trauma, assim, reescrevendo a memória traumática com um cenário diferente, onde a vítima é finalmente vitoriosa. Lisbeth, ao confrontar seus agressores, está, em um nível neurobiológico, tentando equilibrar seu sistema de ameaça e recompensa. A inclusão desta perspectiva neurocientífica não anula a psicanálise, mas a complementa, oferecendo uma base material para a descrição do sofrimento psíquico. A representação da intersecção entre a ferida da alma e a alteração da matéria, como um ser forjado na angústia, que usa sua inteligência para sobreviver a um mundo que a machucou seriamente. De que forma a hiper-vigilância e a dificuldade de Lisbeth em estabelecer laços afetivos podem ser explicadas pela desregulação do eixo HPA (Hipotálamo-Hipófise-Adrenal) causada pelo trauma crônico? A genialidade de Lisbeth como hacker é uma forma de sublimação psicanalítica ou uma manifestação de um cérebro que se reorganizou para a sobrevivência visto pela neurociência? Como a compreensão neurocientífica do trauma pode informar e aprimorar as abordagens psicanalíticas no tratamento de vítimas de violência de gênero? “O cérebro traumatizado não esquece, ele se reorganiza; a fúria é apenas uma via sináptica que se recusa a ser silenciada pela dor.” - Dan Mena Trauma sexual, ferida e identidade em Lisbeth Salander A Resposta Social ao Trauma O filme incrível de David Fincher, ao adaptar brilhantemente a obra de Stieg Larsson, traz um olhar atualizado e agudo sobre a resposta social ao trauma. A Suécia, frequentemente citada e idealizada como um modelo de sociedade igualitária, é desnudada neste palco onde a violência de gênero e o abuso sexual podem prosperar sob uma falsa superfície de ordem e civilidade. A resposta social é a falha do sistema. A análise social do filme se concentra na invisibilidade das vítimas. Lisbeth Salander é a ultrajada que se recusa a ser invisível, sua marginalidade é, paradoxalmente, o que lhe confere a liberdade para agir. Ela é a sombra que expõe o lado mentiroso da sociedade. Exprime a crítica à burocracia e a ineficácia das instituições governamentais, serviços sociais, sistema de tutela, que, em vez de protegerem, perpetuam o ciclo, ignorando o abuso latente. O trauma é, sob a perspectiva social, um fenômeno coletivo. A família Vanger não é apenas uma parentada disfuncional, é um microcosmo da sociedade patriarcal que silencia as mulheres e protege os agressores. A riqueza e o poder atuam como imunidade, permitindo que o sadismo institucionalizado se mantenha intocado por décadas. O impacto social do filme reside em sua capacidade de desmascarar essa hipocrisia. Volto meu olhar para a figura de Mikael Blomkvist, ele é o instrumento que tenta resgatar a verdade. A mídia é a única instituição que, ao lado da hacker marginal, consegue romper o silêncio. A aliança entre a comunicação e a tecnologia sugere que a verdade, nesta era, precisa de novas formas de ser apresentada. A tecnologia como ferramenta de justiça é um tema relevante. O filme é um chamado à ponderação sobre a responsabilidade social no enfrentamento de traumas de toda índole. Não basta punir o agressor, é preciso desmantelar a espinha dorsal que o sustenta. A ira de Lisbeth é a fúria de todas as vítimas caladas, e sua história é um lembrete de que a cura social exige um confronto radical com o nosso próprio lado sombrio. O filme sugere que a sociedade contemporânea falhou em criar mecanismos eficazes para proteger as vítimas de violência de gênero? A marginalidade de Lisbeth é uma condição imposta ou uma escolha estratégica de quem se recusa a ser cooptado pelo sistema? De que forma a tecnologia se torna uma ferramenta de justiça social na narrativa do filme? “A civilidade é a fina camada de gelo sobre o abismo social, e o trauma, o peso da verdade que a faz rachar, expondo a frieza das instituições atuais.” - Dan Mena A Tatuagem da Alma e o Desejo que Permanece Sexualidade, Trauma e Desejo tecem a alma de "Os Homens que Não Amavam as Mulheres". O filme de David Fincher é um thriller bem-sucedido desse eixo, é um documento psicanalítico de valor sobre a persistência do mal e a resiliência do nosso espírito. A tatuagem de dragão de Lisbeth é a metáfora central do filme. Ela é a marca da dor, mas também o símbolo da força indomável que a habita. É a prova de que o trauma, embora indelével, pode ser transformado em uma fonte de poder e autonomia. Nos ensina que a sobrevivência exige em determinados momentos a transgressão e a recusa em se conformar ao papel de vítima. Sua história é um grito de que a sensibilidade e a inteligência podem coexistir com a fúria. O desejo, em suas múltiplas facetas, como a verdade de Mikael, o querer perverso de Martin, e a autonomia de Lisbeth, são motores potentes da narrativa. O filme nos lembra que o desejo é sempre ‘ ’o desejo do Outro’’ , e que a busca pela completude é uma ilusão inalcançável. A sexualidade, despojada do romantismo, é o palco onde essas forças se enfrentam, dissecando a fragilidade das relações contemporâneas, quando o trauma e o poder se interpõem. Isso me permitiu ir além da superfície da trama, atravessando o inconsciente dos personagens e da própria sociedade. Por fim, vimos que a compulsão à repetição é a forma que o trauma encontra para se manifestar, e que a Lei, quando falha, abre espaço para a justiça pessoal e visceral. A peça termina com Lisbeth se afastando, incapaz de sustentar a intimidade que o afeto com Mikael poderia oferecer. Essa retirada estratégica é o fecho de ouro mais intenso. Ela não é curada, mas é livre, sua liberdade é a de quem aceita a própria ferida como parte integrada de sua identidade. A pergunta que fica: Em um mundo onde os homens não amam as mulheres, e o trauma é a moeda de troca, o que nos resta do desejo senão a fúria de quem se recusa a ser silenciado? Fragilidade do herói na humanidade de Mikael Blomkvist A verdadeira tatuagem não está na pele de Lisbeth, mas na alma de uma sociedade que ainda se recusa a confrontar o seu próprio abismo. A obra de Fincher e Larsson é um olhar estarrecedor dessa alegoria. Destarte, questiona, o que está por trás da fachada de civilidade e reconhece a aplicação da cólera como necessária, eventualmente, para quebrar o ciclo da violência institucionalizada contra a mulher. “O corpo violentado é o mapa onde a sociedade inscreve sua falência, e a sexualidade, o palco onde o desejo perverso celebra a tirania do poder.” - Dan Mena Os Homens que Não Amavam as Mulheres, uma análise atemporal por Dan Mena Hashtags #OsHomensQueNãoAmavamAsMulheres #TheGirlWithTheDragonTattoo #LisbethSalander #Psicanálise #TraumaSexual #DavidFincher #AnálisePsicológica #MikaelBlomkvist #Psicopatia #SexualidadeEPoder #NeurociênciaDoTrauma #Freud #Lacan #CinemaePsicanálise #ViolênciaDeGênero #CompulsãoÀRepetição #DesejoELimite #FilmeDeSuspense #AnáliseSocial #PsicologiaDoCinema Palavras Chaves análise psicanalítica Os Homens que Não Amavam as Mulheres, trauma sexual Lisbeth Salander psicanálise, The Girl with the Dragon Tattoo análise psicológica, perfil psicológico Mikael Blomkvist, Martin Vanger psicopatia e perversão, sexualidade e poder no cinema, David Fincher trauma e desejo, compulsão à repetição psicanálise cinema, Lisbeth Salander trauma e vingança, neurociência do trauma e cinema, desejo e lei em Os Homens que Não Amavam as Mulheres, misoginia e violência de gênero no cinema, psicanálise Freud Lacan trauma, análise social The Girl with the Dragon Tattoo, filme Os Homens que Não Amavam as Mulheres crítica, trauma infantil e personalidade antissocial, o inconsciente no cinema David Fincher, psicologia do trauma sexual, sexualidade e desejo psicanalítico, resiliência e trauma Lisbeth Salander FAQ (Frequently Asked Questions) 'Os Homens que Não Amavam as Mulheres O que é o trauma na perspectiva analitica do filme? É um evento não simbolizado que insiste em retornar, manifestando-se na compulsão à repetição de Lisbeth. Qual o perfil psicológico de Lisbeth Salander? É uma hacker genial, marcada por trauma sexual, com traços anti-ssociais e de resistência extrema ao abuso. Como o filme aborda a sexualidade? A sexualidade é retratada como um campo de batalha, indissociável do poder e da violência de gênero. O que é a compulsão à repetição em Lisbeth? É a busca inconsciente por reescrever o roteiro do trauma, transformando a passividade em ação e vingança. Qual o desejo central de Mikael Blomkvist? O desejo central é a busca pela verdade e a reparação de sua reputação e ideal de justiça. Quem é Martin Vanger na análise psicanalítica? É o arquétipo do perverso, cuja sexualidade é um ritual de dominação e negação da Lei. O que a tatuagem de dragão simboliza? Simboliza a cicatriz do trauma, a fúria e a autonomia de Lisbeth em transformar a ferida em força. Como a neurociência explica o comportamento de Lisbeth? Pela hiperatividade da amígdala e hipoatividade do córtex pré-frontal, resultantes do trauma crônico. O que o título "Os Homens que Não Amavam as Mulheres" sugere? Sugere a falência do afeto e do respeito na relação entre os gêneros, e a misoginia estrutural. Qual a relação entre desejo e Lei no filme? O desejo de justiça de Lisbeth se realiza fora da Lei, que é retratada como frágil e corruptível. O que é o gozo perverso de Martin Vanger? É o prazer extremo obtido através da transgressão e da dor do Outro, negando a castração simbólica. O filme oferece uma cura para o trauma de Lisbeth? Não oferece uma cura tradicional, mas uma resolução complexa onde a liberdade é alcançada pela aceitação da ferida. Como a tecnologia (hacking) é usada no filme? É usada por Lisbeth como uma ferramenta de justiça social e um meio de exercer controle e autonomia. Qual o papel da família Vanger na perpetuação do trauma? A família é um microcosmo patriarcal que silencia as vítimas e protege os agressores, perpetuando o ciclo de violência Referências Bibliográficas Birman, J. (2001). Mal-estar na atualidade: A psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Butler, J. (1990). Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. New York: Routledge. Chomsky, N. (2000). New Horizons in the Study of Language and Mind. Cambridge: Cambridge University Press. Damasio, A. (1994). Descartes' Error: Emotion, Reason, and the Human Brain. New York: G.P. Putnam's Sons. Deleuze, G. (1968). Différence et Répétition. Paris: Presses Universitaires de France. Fincher, D. (Diretor). (2011). The Girl with the Dragon Tattoo [Filme]. Columbia Pictures. Foucault, M. (1976). Histoire de la sexualité, 1: La Volonté de savoir. Paris: Gallimard. Freud, S. (1920). Além do princípio do prazer. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago. Gabbard, G. O. (2001). Psicodinâmica do Transtorno de Personalidade Borderline. Porto Alegre: Artmed. Herman, J. L. (1992). Trauma and Recovery: The Aftermath of Violence—From Domestic Abuse to Political Terror. New York: Basic Books. Kernberg, O. F. (1984). Severe Personality Disorders: Psychotherapeutic Strategies. New Haven: Yale University Press. Kristeva, J. (1980). Pouvoirs de l'horreur: Essai sur l'abjection. Paris: Seuil. Lacan, J. (1964). O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Larsson, S. (2005). Män som hatar kvinnor (Os Homens que Não Amavam as Mulheres). Stockholm: Norstedts Förlag. Rivera, T. (2006). Cinema e pulsão: sobre "Irreversível", o trauma e a imagem. Revista do Departamento de Psicologia - UFF, 18(2), 209-218. Roudinesco, É. (1994). Jacques Lacan: Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. São Paulo: Companhia das Letras. Safouan, M. (1988). 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Links • Entrevista com David Fincher sobre o filme: David Fincher on 'The Girl With the Dragon Tattoo' ( https://variety.com/2011/film/news/david-fincher-on-the-girl-with-the-dragon-tattoo-1118047300/ ) • O Conceito de Compulsão à Repetição em Freud: As vicissitudes da repetição ( http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-73952007000100012 ) • Neurociência e Trauma Complexo: Trauma complexo e suas implicações diagnósticas ( https://www.scielo.br/j/rprs/a/z7vqbpPRD8ZPwsX9MKp6KJw/?lang=pt ) • A Trilogia Millennium de Stieg Larsson: The Millennium Trilogy: Stieg Larsson's Literary Phenomenon ( https://stieglarsson.com/millennium-trilogy/ ) • Violência de Gênero e Misoginia na Suécia: O paradoxo da Suécia, um paraíso da igualdade com uma violência de gênero alarmante ( https://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/09/eps/1489066869_454079.html ) • A Relação entre Sexualidade e Poder em Lacan: O trauma sexual e a angústia de castração: percurso freudiano à luz das contribuições de Lacan ( https://www.scielo.br/j/pc/a/k4KbcfpLNGdgwBXmFfDnqxh/?lang=pt ) • Crítica de Cinema: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011): Críticas de Imprensa - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres ( https://www.adorocinema.com/filmes/filme-178974/criticas-imprensa/ ) • O Perfil do Psicopata na Literatura e no Cinema: O trauma sexual e a angústia de castração: percurso freudiano à luz das contribuições de Lacan ( https://www.scielo.br/j/pc/a/k4KbcfpLNGdgwBXmFfDnqxh/?lang=pt ) Links Internos ''Além do Estupro: A Dinâmica de Poder e Desejo no filme "Elle" . - https://www.danmena.com.br/post/filme-elle A Liberdade. - Dan Mena Psicanálise - https://www.danmena.com.br/post/aliberdadenapsicanalise Desvendando o Cyberbullying na Era Digital. - Dan Mena Psicanálise - https://www.danmena.com.br/post/danmenapsicanalise Relação entre linguagem e poder nos discursos de Lacan - https://www.danmena.com.br/post/socializa%25C3%25A7%25C3%25A3oos4discursos Vaidade pela visão da psicanalise. - Dan Mena Psicanálise - https://www.danmena.com.br/post/vaidadepordanmenapsicanalista “OPPENHEIMER e a Culpa do Criador” by Dan Mena. - https://www.danmena.com.br/post/oppenheimer Inteligência Artificial e Psicanálise - Emoção em Colisão. Dan Mena. - https://www.danmena.com.br/post/exploreacomplexarela%25C3%25A7%25C3%25A3oentreintelig%25C3%25AAnciaartificialepsican%25C3%25A1lise O que é Autismo? Sintomas, Sinais e Tratamento Explicados - https://www.danmena.com.br/post/autismo Psicodélicos: "A Nova Fronteira da Terapia" - Dan Mena Psicanálise - https://www.danmena.com.br/post/psicod%25C3%25A9licos Superego e personalidade - Dan Mena Psicanálise - https://www.danmena.com.br/post/o-superego Dan Mena – Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise (CNP 1199, desde 2018); Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise (CBP 2022130, desde 2020); Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University – Florida Department of Education, EUA (Enrollment H715 / Register H0192); Pesquisador em Neurociência do Desenvolvimento – PUCRS (ORCID™; Especialista em Sexualidade pela Therapist University, Miami, EUA (RQH W-19222 / Registro Internacional).
- A Criada (The Handmaiden): Psicanálise do Desejo, Fetichismo e Feminilidade
A Criada (The Handmaiden): Psicanálise do Desejo, Fetichismo e Feminilidade A Criada (The Handmaiden): Psicanálise do Desejo, Fetichismo e Feminilidade A Criada: O Convite ao Inconsciente e a Estética do Segredo A tela se abre e, em vez de um conto de época polido, somos atirados em um turbilhão de seda, olhares furtivos e segredos sussurrados. "A Criada" (The Handmaiden) não é um filme para ser assistido passivamente. Park Chan-wook , mestre da subversão, nos intima a um banquete visual onde a opulência esconde a podridão, e a beleza é a máscara da manipulação. Ambientado na Coreia sob o jugo japonês, o filme pulsa com uma energia de rebelião silenciosa, onde os corpos se tornam campos de batalha e o amor, uma arma muito afiada. Esqueça os filmes de época previsíveis. A Criada (The Handmaiden): Psicanálise do Desejo, Fetichismo e Feminilidade " é um caleidoscópio de verdades distorcidas. Um jogo de gato e rato onde os papéis se invertem sucessivamente a cada reviravolta. A trama seduz, envolve e, no momento em que pensamos ter compreendido tudo, nos joga de volta à estaca zero. Mais do que um ' 'thriller'' erótico , é um estudo da psique extremamente elaborado. Essa dissecação psicológica que pretendo fazer da obra, está armada com as ferramentas da psicanálise e disposta a desenterrar os segredos mais bem guardados de seus personagens. Desvendar os nós da mente de Sookee, Hideko e Fujiwara é desenredar os nossos próprios. Está avisado(a): o que você encontrará pode mudar a forma como você vê o cinema, e a si mesmo(a). O que eu proponho é uma Análise Psicológica Definitiva feita nas entranhas da narrativa e dos personagens, utilizando o rigor conceitual das principais correntes psicanalíticas. Longe de ser um simples resumo, quero derrubar as camadas ocultas do filme, aquelas que ressoam principalmente com as dores inconscientes, as fantasias e as obsessões que habitam o público. Em sua estrutura de três atos com pontos de vista alternados, cria uma metáfora da própria análise, onde a verdade emerge em partes fragmentadas, exigindo do espectador uma constante reavaliação de suas certezas. A trama central, que envolve a jovem batedora de carteiras Sookee , o golpista que se apresenta como Conde Fujiwara , e a rica herdeira japonesa Lady Hideko , é o palco perfeito da encenação para um jogo de manipulação que rapidamente se transforma em uma intensa e inesperada história de desejo e libertação. A abordagem do filme é basicamente ligada a temas de altíssimo interesse e demanda cultural: Dinâmicas do Desejo, Fetichismo e a Construção da Feminilidade . Park Chan-wook utiliza o erotismo não como um fim em si, mas como uma lupa para expor a violência estrutural e a repressão. A mansão onde Hideko vive, um híbrido arquitetônico de estilos japonês e ocidental, é o útero do recalque repressivo, um espaço onde a tirania da perfeição e o voyeurismo sádico do Tio Kouzuki aprisionam o arcabouço da sexualidade e identidade da herdeira. Meu olhar crítico vai se concentrar em como o filme dialoga com a teoria de Freud sobre as pulsões e o trauma, a noção de Lacan sobre o desejo como falta e o gozo feminino, os arquétipos Sombra de Jung, e as dinâmicas de clivagem e falso self de Klein e Winnicott. Destarte, meu texto, busca incansavelmente a robustez teórica e o suporte acadêmico, se mantém acessível, poético e envolvente, transformando a leitura em uma oportunidade de aprendizado e autoconhecimento para todos os interessados. analise-psicanalitica-a-criada-filme-park-chan-wook.jpg Contextualização Histórica e Cinematográfica de A Criada O filme se passa na Coreia da década de 1930 , excelente ambientação, um período turbulento e de perda de identidade nacional sob o domínio japonês. Essa opressão histórica serve como pano de fundo para o despotismo pessoal e sexual sofrido por Hideko. O diretor Park, conhecido por sua "Trilogia da Vingança" (Mr. Vengeance, Oldboy, Lady Vengeance) , mais uma vez abre a temática da revanche, mas a eleva a um novo patamar, a transformando em um ato de auto-libertação e solidariedade feminina. A estética trabalhada do filme é um personagem à parte, com o uso magistral da cor, da luz e do enquadramento para sublinhar a tensão psicológica e a dualidade entre a beleza e a perversão. A Promessa de uma Análise Inquisidora do Filme Ao longo deste artigo, vou apurar o perfil psicológico e analítico dos protagonistas, já adianto, a produtora (Moho Film) , o ano de produção (2016) , o diretor (Park Chan-wook) e os três principais protagonistas (Lady Hideko, Sookee e o Conde Fujiwara) . A análise será um olhar original e inédito, usando a visão psicanalítica, o impacto social, e o olhar contemporâneo para traçar um perfil que vai além da superfície da trama. Essa imersão no lado inconsciente de "A Criada", descortina a erotização traumática e a tirania da perfeição , caminhos que se cruzam e encontram com a pulsão de vida e a potência da aliança feminina. Dinâmicas de Poder, Voyeurismo e o Fetichismo em A Criada O cenário de "A Criada" é um microcosmo orgânico da repressão e da perversão . A mansão de Kouzuki, é uma representação material do inconsciente de Hideko e da estrutura de poder que a aprision e inicia com a chegada de Sookee, a criada, que é, na verdade, uma batedora de carteiras infiltrada pelo Conde Fujiwara para manipular Hideko e roubar sua herança. Este triângulo inicial estabelece imediatamente uma enigmática dinâmica de poder, onde todos são, a princípio, manipuladores e manipulados. A Arquitetura da Repressão A mansão é o primeiro grande fetiche do filme, ela é um objeto de desejo e de horror. Sua biblioteca secreta, onde o Tio Kouzuki obriga Hideko a ler textos eróticos para uma plateia de homens, é o centro representativo da violência simbólica . O espaço é projetado para o voyeurismo, uma das perversões centrais que quero explorar do filme. Kouzuki não apenas deseja o corpo de Hideko, mas anseia sua submissão, a sua voz lendo a devassidão, a transformam em um objeto de consumo intelectual e sexual. O fetichismo, aqui manifestado na substituição do objeto sexual por um objeto - parte do corpo (os livros, a voz, as luvas de Hideko), carregam também a própria estrutura da opressão, onde a herança e a pureza forçada de Hideko se tornam os (prêmios) a serem possuídos. voyeurismo-e-fetichismo-no-filme-a-criada.jpg O Olhar Sádico e a Tirania da Perfeição (Kouzuki) O Tio Kouzuki encarna claramente o ‘’superego sádico’ ’ e a ‘’tirania da perfeição’’ . Ele exige de Hideko uma atuação performática impecável da dama japonesa, uma máscara social que esconde o trauma e a dissociação. Seu sadismo não é apenas físico, mas psicológico, ao forçar a sobrinha a reviver o trauma da mãe e a se tornar a leitora de seus legados textos pornográficos. O Conde Fujiwara, por sua vez, é o narcisista manipulador, que usa o charme e a promessa de liberdade como iscas de atração. Ambos, são genuínos delegados da figura masculina despótica que tenta objetificar e controlar o feminino. A Erotização do Conflito A relação entre Sookee e Hideko começa como uma estratégia de manipulação, mas rapidamente se transforma em uma conexão genuína e libidinosa. O conflito, a tensão da traição iminente, é erotizado. Este desejo que surge entre elas é um querer de fuga, de cumplicidade e de reconhecimento mútuo, que se opõe ao desejo perverso e objetificador dos homens. O filme subverte a expectativa do espectador ao transformar a relação lésbica, que poderia ser vista como um fetiche masculino, em um ato de resistência e de amor verdadeiro, uma aliança contra a tradição do patriarcado. De que forma a arquitetura da mansão funciona como um dispositivo de aprisionamento psíquico para Lady Hideko? O desejo que surge entre elas é uma pulsão de vida autêntica ou uma reação traumática à opressão masculina? Como o filme utiliza o voyeurismo para criticar a objetificação feminina em vez de apenas reproduzi-la? "O fetichismo, no cinema de Park Chan-wook, não é a perversão do objeto, mas a corrupção da estrutura de poder que o cria, onde o desejo de posse se confunde com a pulsão de controle." Dan Mena. Pulsões, Trauma e o Sintoma no Corpo da Narrativa O prisma de Freud é indispensável para encurralar as forças motrizes inconscientes que operam em "A Criada". O filme é um campo aberto de conceitos como as pulsões, o trauma, o recalcamento e a compulsão à repetição. A narrativa é construída sobre uma base de violência e segredos que remetem diretamente à teoria da ''etiologia das neuroses'' . O Recalcamento e a Histeria de Hideko Lady Hideko é a personificação do recalcamento com seu comportamento inicialmente frio, distante e sua aparente submissão ao Tio Kouzuki. São sintomas de um trauma: a morte de sua mãe, que se enforcou na árvore de cerejeira do jardim, e a subsequente escravidão sexual e psicológica a que é submetida. Esse embate, na visão freudiana, é um evento que a psique não consegue integrar, sendo expulso para o inconsciente (recalcamento), mas que retorna sob a forma de sintomas . A performance de Hideko como leitora de pornografia é o resultado que a aprisiona, um retorno forçado do choque que a impede de viver seu próprio desejo . A Pulsão de Morte e a Repetição Traumática A pulsão de morte (Thanatos), como tendência inerente do organismo a retornar a um estado inorgânico, se manifesta em Hideko através de sua ideação suicida e de sua passividade diante do plano de fuga. Ela está presa em uma compulsão repetitiva, revivendo o trauma de sua mãe e o seu próprio, como se o inconsciente tentasse, sem sucesso, dominar o evento. A pulsão de vida (Eros), por outro lado, emerge na relação com Sookee, o amor e a cumplicidade entre as duas são a força que se opõe à pulsão destrutiva, um ato de sobrevivência psíquica que busca a união e a integração. "No inconsciente, o trauma não é evento passado, mas o que molda o desejo, transformando a repressão em ato de libertação existencial." Dan Mena O Complexo de Édipo Invertido e a Transferência Embora a obra não se concentre no ''Complexo de Édipo'' clássico, a dinâmica familiar distorcida sugere um complexo invertido, onde a figura do Tio Kouzuki ocupa um lugar de poder paterno cruel. Mais relevante aqui é o ''conceito de transferência'' . Sookee, a princípio, transfere para Hideko a compaixão e o desejo de proteção, enquanto Hideko projeta em Sookee a possibilidade de salvação e de um amor puro, não contaminado pela depravação masculina. A relação terapêutica e erótica que se estabelece entre elas é uma transferência positiva que permite a ambas a reescrita de seus destinos cruzados . A Erotização Traumática e a Metáfora Libidinal A erotização traumática se encaixa perfeitamente na análise do filme. A sexualidade de Hideko é despertada e moldada em um contexto de violência e opressão. O prazer que ela é forçada a simular ou a sentir durante as leituras eróticas é uma defesa, uma forma de controle sobre o incontrolável. O filme, ao expor essa dinâmica, transforma a violência em uma metáfora libidinal, onde a luta pelo poder e pela sobrevivência se confunde com a expressão sexual . A verdadeira liberação libidinal de Hideko só ocorre quando ela consegue redirecionar essa energia para a aliança com Sookee, assim, transforma a pulsão destrutiva em criativa. Como a pulsão de morte se manifesta na estética visual do filme, especialmente nas cenas da biblioteca e do porão? Qual o papel exato do recalcamento na construção da identidade de Lady Hideko antes de sua aliança com Sookee? A vingança final das duas mulheres pode ser interpretada como uma superação da compulsão à repetição ou como um novo ato de violência catártica? "O trauma não é o que aconteceu, mas o que a psique não conseguiu integrar; em 'A Criada', ele é o motor silencioso que impulsiona a narrativa em direção à catarse e à libertação." Dan Mena mansao-como-simbolo-inconsciente-a-criada.jpg A Falta, o Objeto a e a Estrutura do Gozo O gozo e a linguagem que permeia "A Criada". O filme é um estudo de caso sobre a constituição do sujeito no campo do ‘’Outro’’ e a busca pelo objeto que, uma vez encontrado, se revela para sempre faltante. O Desejo como Falta Para Lacan, o desejo é a metonímia da falta-a-ser, a marca da perda primordial que constitui o sujeito. Em "A Criada", o desejo não é a simples atração sexual, mas a busca por algo que preencha esse vazio existencial. Hideko deseja a liberdade, o amor e a anulação da tirania do Tio. Sookee quer a riqueza e a ascensão social. O Conde Fujiwara foca na herança e no poder. No entanto, o desejo mais potente é o que surge entre as duas mulheres, uma pela outra, fundem uma aliança que as retire do campo do Outro (o patriarcado e a opressão). É um querer que se constrói na cumplicidade e na linguagem secreta, subvertendo a ordem simbólica imposta a elas. O Objeto a e o Fetichismo como Suporte O ‘’Objeto a’’ (objeto causa do desejo) é o resíduo inassimilável que cai do sujeito no processo de sua constituição primitiva. Em "A Criada", o fetichismo, central na trama, pode ser lido através desse conceito. Os livros pornográficos, as luvas, o sino de ouro, a própria mansão, são símbolos objetuais que servem como suporte para o desejo perverso do Tio Kouzuki. Eles são os fetiches que tentam tamponar a falta, a castração simbólica. Kouzuki tenta reduzir Hideko a um ‘’Objeto a’’ de seu gozo, a uma voz que lê a perversão. A revolução do filme ocorre quando Hideko e Sookee destroem esses ícones (os livros), simbolizando a recusa em serem reduzidas a fetiches e a rejeição do gozo do Outro. O Gozo Feminino e a Ruptura com o Falo A obra aborda o ‘’gozo feminino’’ como conceito lacaniano no que se refere a um gozo "Outro" , não totalmente capturado pela função fálica (a ordem simbólica masculina). A sexualidade entre Hideko e Sookee é retratada como um prazer que se basta, que se constrói na reciprocidade e na cumplicidade, fora da lógica da penetração e da dominação. É um júbilo que rompe com a estrutura patriarcal, um ato de transgressão que as liberta. A cena final, com o sino de ouro, é a metáfora máxima dessa ruptura, onde o objeto de opressão é transformado em um objeto de prazer compartilhado, um símbolo da vitória sobre o gozo sádico do Outro. "A sexualidade, como pulsão freudiana, entrelaça o social e o poético, onde o corpo se torna tela para a narrativa da alma aprisionada." Dan Mena A Triangulação Psíquica e a Lei do Pai A estrutura da história, com o Conde Fujiwara e o Tio Kouzuki tentando controlar Hideko, estabelece uma triangulação psíquica insidiosa. O Tio, como figura da Lei do Pai distorcida, impõe uma ordem simbólica baseada na perversão e na opressão. O Conde atua como um falso mediador, um impostor que tenta se apropriar do lugar do Pai . A aliança entre Hideko e Sookee é a dissolução dessa triangulação, a recusa em se submeter à ‘ ’Lei do Pai Corrosiva’’ . Elas criam uma nova ordem, uma ‘’Lei da Mãe simbólica’’ , baseada na cumplicidade e no amor, que permite a emergência de um desejo autônomo. De que maneira a destruição dos livros pornográficos representa a recusa em serem objetos do gozo do Outro? Como a linguagem (o japonês formal, o coreano coloquial) é utilizada para demarcar o campo do Outro e a subversão da ordem simbólica? O que o "gozo Outro" das protagonistas revela sobre a possibilidade de uma sexualidade feminina autônoma e não-fálica? "O desejo é a metonímia da falta, mas em 'A Criada', a aliança feminina transforma a falta em potência, e o objeto de opressão no ‘’objeto a’’ de uma nova liberdade." Dan Mena erotizacao-do-conflito-relacao-hideko-sookee.jpg A Emergência do Feminino Selvagem A perspectiva da Psicologia Analítica de Jung enriquece a análise de "A Criada" ao focar nos arquétipos, na Sombra e no processo de individuação. O filme é uma poderosa representação da emergência do feminino selvagem e da integração de aspectos reprimidos da psique. A Sombra e a Projeção (Sookee e Hideko) A Sombra é o lado obscuro da personalidade, tudo aquilo que o ego não reconhece em si e que é reprimido. Hideko, a dama refinada e submissa, projeta em Sookee, a batedora de carteiras, a sua soturnidade: a astúcia, a agressividade, a capacidade de transgressão e a sexualidade livre. Sookee, por sua vez, projeta em Hideko a fragilidade, a sofisticação e a possibilidade de uma vida de beleza e conforto. A atração inicial entre elas é, em parte, uma atração pela Sombra, um reconhecimento inconsciente do que falta em si mesma. O processo de individuação de ambas se inicia quando elas integram esses aspectos projetados, reconhecendo a astúcia em Hideko e a vulnerabilidade em Sookee. O Arquétipo da Donzela e da Bruxa Adentrando nos arquétipos femininos, Hideko é inicialmente a Donzela aprisionada, a vítima inocente, Sookee é a Bruxa (no sentido de mulher astuta e transgressora) que vem para dar sua libertação. O Tio Kouzuki e o Conde Fujiwara representam o modelo do Senhor Sombrio ou do Velho Sábio Pervertido, figuras masculinas que tentam manter o feminino sob controle. A reviravolta do filme é a subversão desses arquétipos onde a Donzela vira a Bruxa, a manipuladora, e a Bruxa se torna a heroína, a salvadora . Essa construção da aliança entre elas é a união do feminino ferido com o selvagem, um ato de individuação coletiva. A Conjunção Anima/Animus na Relação A relação entre as duas mulheres também pode ser vista como uma Conjunção Anima/Animus , a união dos opostos interiorizados. Hideko, com sua passividade e sensibilidade, representa a ‘’Anima’’ em sua forma mais reprimida. Sookee, com sua ação e determinação, manifesta um ‘’Animus’’ forte e ativo. A união erótica e emocional entre elas é a busca pela totalidade psíquica, onde cada uma complementa e ativa o potencial da outra . Essa liberdade que alcançam juntas é o símbolo da psique integrada, que superou a fragmentação imposta pelo trauma e pela opressão imposta. O Simbolismo da Árvore e do Jardim O jardim da mansão, com sua árvore de cerejeira onde a mãe de Hideko se enforcou, é um poderoso símbolo junguiano. Ela é o símbolo do Self e da vida, que aqui está ligada à morte e ao trauma. O jardim, que deveria ser um espaço sagrado, é um ‘’place’’ de opressão. A fuga de Hideko e Sookee do jardim e da mansão é a rejeição do ícone arquetípico da Mãe Terrível e a busca por um novo espaço de autonomia e independência. A destruição do sino, que as aprisionava, é a quebra simbólica da coerção, permitindo que a energia psíquica antes ligada ao trauma seja liberada para a vida. Como a integração da Sombra por Hideko e Sookee é visualmente representada na segunda e terceira partes do filme? De que forma o Tio Kouzuki e o Conde Fujiwara falham em seu papel arquetípico de opressores, sendo superados pela astúcia feminina? O que a Conjunção Anima/Animus entre as protagonistas sugere sobre a natureza do amor e da libertação em um contexto de trauma? "A Sombra não é apenas o que se esconde, mas a potência que se recusa a ser vista; em 'A Criada', ela surgue como a força motriz da revolução psíquica e social." Dan Mena recalque-e-histeria-lady-hideko-freud.jpg Clivagens e o Falso Self: A Visão de Klein e Winnicott A contribuição de Klein e Winnicott é a base de sustentação para entender as dinâmicas de fragmentação psíquica e a busca por um self autêntico, temas centrais em "A Criada". O filme é um estudo sobre a sobrevivência psíquica em um ambiente de privação emocional, corrupção e violência. A Posição Esquizo-Paranóide Como a fase inicial do desenvolvimento, onde o bebê cliva o objeto (a mãe) em "bom" e "mau" para lidar com a ansiedade de aniquilamento. Em Hideko, essa cisão é evidente, o mundo é dividido em opressores (o Tio, o Conde) e salvadores (Sookee, a princípio). A própria Sookee é clivada: ela é a criada leal e a traidora em potencial. A clivagem é um mecanismo de defesa contra a ansiedade persecutória gerada pelo ambiente sádico da mansão . A superação dessa posição, a integração dos objetos parciais em objetos totais (a aceitação da sofistificação de Sookee e de si mesma), é o que permite a Hideko a ação e a fuga. O Falso Self (Winnicott) como Defesa Vou usar este conceito para descrever essa máscara de conformidade que o indivíduo desenvolve para proteger o Verdadeiro Self em um ambiente que não oferece o holding (sustentação emocional) necessário. Hideko é o exemplo máximo do Falso Self. Sua performance como Lady Hideko, a herdeira dócil e culta, é uma adaptação patológica às exigências perversas do Tio Kouzuki. Ela vive para satisfazer o ‘’olhar do Outro’’, lendo os textos eróticos e mantendo a fachada de perfeição. O Verdadeiro Self de Hideko, sua capacidade de amar, de desejar e de ser astuta, está escondido, esperando o momento de brotar. "O falso self winnicottiano emerge da tirania patriarcal, mas na aliança sororal, o verdadeiro eu floresce, poetizando a resistência." Dan Mena O Holding e o Espaço Transicional da Liberdade A relação entre Sookee e Hideko oferece o holding controlador que faltou a Hideko em sua infância. O holding seria aqui a capacidade do ambiente (ou do analista) de sustentar o indivíduo, lhe permitindo ser e existir. Sookee oferece a Hideko um lugar seguro, um espaço transicional (Winnicott), onde ela pode brincar, experimentar a sexualidade e, finalmente, planejar sua soberania. A cumplicidade e o cuidado mútuo são o âmbito facilitador que permite a Hideko abandonar o Falso Self e manifestar seu Verdadeiro Self , que é, ironicamente, tão astuto e manipulador quanto o de Sookee. A Reparação e a Posição Depressiva A aliança entre as protagonistas pode ser vista como um movimento em direção à ' 'Posição Depressiva'' (Klein), onde a culpa e a capacidade de reparação surgem. Sookee, ao se arrepender de sua traição inicial, busca reparar o dano que causou a Hideko. Ela, ao expor sua verdadeira natureza e seu plano, busca reparar o dano que a opressão causou a si mesma. A fuga e a destruição dos instrumentos de tortura são atos de reparação que visam restaurar o objeto (o self e o outro ) que foi danificado pela violência. De que forma a falta de holding na infância de Hideko a levou a desenvolver um Falso Self tão elaborado e convincente? A aliança entre as duas mulheres pode ser vista como um ato de reparação (Klein) das fantasias destrutivas geradas pela opressão? Qual o momento exato na narrativa em que o Verdadeiro Self de Hideko se manifesta de forma irreversível, rompendo com a tirania do Tio? "O Falso Self é uma defesa desesperada contra a aniquilação, mas o holding do amor e da cumplicidade é o que permite ao Verdadeiro Self emergir e transformar a submissão em soberania." Dan Mena alianca-feminina-subversao-patriarcado-a-criada.jpg A Construção da Feminilidade e a Crítica Social "A Criada" é um poderoso comentário sobre a construção social da feminilidade e a crítica às estruturas patriarcais, especialmente em um plano de opressão histórica . O filme desmantela a ideia de fragilidade feminina e a substitui por uma narrativa de resiliência, astúcia e solidariedade. O Papel da Mulher na Coreia Ocupada O cenário da Coreia dos anos 1930, sob o domínio japonês, amplifica a opressão de gênero. As mulheres, especialmente as de alta classe como Hideko, eram tratadas como objetos de troca, símbolos de status ou meras reprodutoras. A mansão é um símbolo da sociedade patriarcal que as aprisiona. A feminilidade é reduzida a uma performance de submissão e pureza forçada, enquanto a sexualidade é espoliada e mercantilizada (os livros pornográficos). O filme critica essa estrutura ao mostrar que a verdadeira força reside na capacidade de subverter as expectativas e de criar laços de cumplicidade . A Violência como Metáfora Libidinal A violência no filme não é gratuita; ela é uma alegoria da agressão libidinal e estrutural . A opressão do Tio Kouzuki é uma brutalidade que tenta anular o desejo e a subjetividade de Hideko. A hostilidade que as mulheres exercem (a traição de Sookee, a manipulação de Hideko, a vingança final) é uma resposta, um ato de resistência. É a pulsão de vida que se manifesta através da agressividade necessária para a sobrevivência . A cena em que Sookee e Hideko destroem a biblioteca é puramente simbólica, que destrói o falo opressor (os livros, a linguagem do Tio). A Subversão da Norma e a Aliança Feminina O ponto de reversão do filme é a descoberta de que as duas mulheres estão, na verdade, em uma aliança secreta. Esse pacto é a subversão máxima da norma. Elas usam as regras do jogo masculino (a manipulação, a traição) para se evadirem. A relação lésbica, que poderia ser lida como um fetiche, é ressignificada como um ato político e emocional de resistência . É a criação de um mundo só delas, um espaço onde o desejo é mútuo e a cumplicidade é inabalável. O filme celebra a potência da solidariedade feminina como a única via para a superação do jugo. A Crítica à Mercantilização do Corpo e da Arte O filme estende sua crítica para a mercantilização do corpo e da arte. O Tio Kouzuki transforma a literatura em pornografia e a sexualidade em um espetáculo sádico. A arte, que deveria ser um veículo de transcendência, é reduzida a um objeto de consumo perverso. Tal libertação das protagonistas é também a da sexualidade e da sua função manipuladora. Ao queimarem os livros, elas purificam o espaço simbólico e resgatam a possibilidade de uma expressão sexual autêntica. Como a opressão da ocupação japonesa na Coreia se reflete na opressão de gênero sofrida por Lady Hideko? A aliança entre Sookee e Hideko pode ser considerada um ato de sororidade ou é uma estratégia de sobrevivência mútua? De que forma o filme desmantela a visão tradicional da mulher como vítima, transformando-a em agente de sua própria história? "A verdadeira revolução feminina não está na negação do desejo, mas na sua reescrita, onde a cumplicidade se torna a arma mais potente contra a tirania do patriarcado." Dan Mena gozo-feminino-lacan-relacao-lesbica-hideko-sookee.jpg Perfil Psicológico e Analítico dos Protagonistas Para uma análise completa, vou traçar o perfil psicológico e analítico dos três protagonistas, entendendo suas motivações inconscientes e seus arcos psíquicos. Lady Hideko: O Falso Self e a Astúcia da Sobrevivente Lady Hideko, interpretada por Kim Min-hee, é a personificação do Falso Self winnicottiano. Sua performance inicial como a herdeira dócil e frágil é uma máscara de conformidade, uma defesa elaborada para proteger seu Verdadeiro Self da exploração sádica do Tio Kouzuki. Sofre de um trauma e forte recalcamento de sua pulsão de vida. O Tio tenta lhe impor um Ideal do Ego perverso, a dama perfeita que lê pornografia para homens. Sua curva psíquica é a mais dramática: da passividade suicida, ela se torna a agente de sua própria libertação, integrando a Sombra (a astúcia e a capacidade de manipulação) que ela inicialmente projetava em Sookee. A caminhada culmina na reescrita de seu destino, um ato de soberania sobre o trauma. Sookee: O Ego Forte e a Transformação pelo Amor Sookee, interpretada por Kim Tae-ri, é a batedora de carteiras com um Ego Forte e pragmático, voltado para a sobrevivência. Inicialmente, ela é a agente do plano masculino, motivada pela ascensão social. Eu vejo em seu perfil uma Sombra de vulnerabilidade e a capacidade de amar, que ela projeta em Hideko. A transferência positiva que se estabelece entre as duas é o catalisador de sua transformação. Ela abandona o plano de traição e se torna a protetora e amante de Hideko. Sua metamorfose moral e emocional é substituída pela lealdade e o amor, provando que a verdadeira riqueza reside na autenticidade do vínculo. Conde Fujiwara: O Narcisismo e a Perversão Fujiwara, interpretado por Ha Jung-woo , e o Tio Kouzuki (Kouzuki, interpretado por Cho Jin-woong) são as figuras masculinas que encarnam o Narcisismo Patológico . O Conde é um golpista que projeta uma imagem de nobreza, mas que vê os outros como meros objetos para a satisfação de seu desejo de riqueza e poder. Sua perversão é a manipulação e a objetificação. O Tio Kouzuki, por sua vez, é o sádico que impõe a degeneração a Hideko. Ambos representam o Falo Opressor que tenta anular o desejo feminino . Eles não possuem um propósito de mudança, apenas de punição, que é a metáfora da castração simbólica e da anulação do poder patriarcal pela astúcia feminina. A vitória das mulheres é a destruição desse ideal tirânico e a aceitação de um self imperfeito, mas autêntico. Como a relação de Hideko com o Tio Kouzuki moldou seu Ideal do Ego e sua percepção de si mesma? A punição final do Conde Fujiwara é um ato de vingança ou uma necessidade psíquica para o fechamento do ciclo traumático? O que a complexidade moral de Sookee (manipuladora e salvadora) revela sobre a natureza da heroína contemporânea? "A máscara do narcisista é a sua prisão, mas a astúcia da sobrevivente é a chave que abre a porta para a liberdade e a reescrita do destino." Dan Mena tirania-da-perfeicao-tio-kouzuki-analise.jpg Colisões Internas e a Erotização do Conflito A estrutura narrativa de "A Criada" é uma obra-prima de engenharia psicológica . O filme é dividido em três partes, cada uma recontando os eventos sob a perspectiva de um personagem diferente, o que espelha a natureza variada da verdade psíquica. Essa estrutura não é um mero artifício de roteiro, mas uma ferramenta para expor os diagramas psíquicos das protagonistas e os embates internos que definem suas escolhas. A primeira parte, contada do ponto de vista de Sookee, estabelece a premissa da traição e a crescente atração. A segunda, sob o olhar de Hideko, desvenda o controle reverso de seu plano. A terceira fase, que une as perspectivas, é a síntese da verdade e a celebração da aliança. Essa alternância de ângulos é a própria dialética da análise, onde a verdade é construída pela confrontação de diferentes narrativas. "Fetichismo, corrupção do poder simbólico, desvela a sexualidade como campo de batalha social, onde o humano busca integração." Dan Mena A erotização do conflito é central. O desejo entre Sookee e Hideko não é um luxo, mas uma necessidade, uma arma contra a articulação. O conflito com o mundo externo (os homens) e a disputa interna (a traição, o medo) são os combustíveis para a paixão. O filme nos ensina que, em um ambiente de violência estrutural, o amor e o desejo podem ser os atos mais radicais de resistência. As rupturas traumáticas do passado de Hideko são reescritas no presente pela metáfora central da fuga e da cumplicidade, transformando a dor em potência. Como a estrutura narrativa de três partes reflete a natureza fragmentada da memória e do trauma? De que forma a erotização do conflito entre as protagonistas serve como um mecanismo de defesa e de libertação? Qual a importância da reescrita do passado de Hideko (o plano de fuga) para a sua saúde psíquica e a superação do trauma? "A narrativa é a cura, e a reescrita do próprio roteiro de vida é o ato mais corajoso de individuação que o sujeito pode empreender." Dan Mena metafora-libidinal-violencia-estrutural-filme-a-criada.jpg A Criada e a Inquisição do Inconsciente Coletivo A obra de Park Chan-wook, com sua estética visceral, nos força a confrontar temas universais de opressão, desejo e libertação. A trilha de Hideko e Sookee é uma poderosa alegoria da luta pela autonomia em um mundo que tenta constantemente nos reduzir a objetos. A Catarse e a Libertação O clímax do filme, com a punição dos opressores e a fuga das protagonistas, é um momento de intensa catarse para o espectador. A destruição dos livros e a anulação do Tio Kouzuki e do Conde Fujiwara são atos emblemáticos que libertam não apenas as personagens, mas também quem assiste à tensão acumulada. A cena final, com as duas mulheres em um navio, livres e em um ato de prazer compartilhado, é a celebração da pulsão de vida (Eros) que triunfa sobre a de morte (Thanatos). É a vitória do amor e da solidariedade. O Legado de Park Chan-wook O diretor consolida seu lugar como um mestre do thriller psicológico, utilizando a violência e o erotismo com um propósito social e político. Nos mostra que a beleza pode coexistir com o horror, e que a libertação exige em alguns momentos alguma transgressão. O filme é um legado de como a arte pode ser um veículo para a crítica contemporânea e a ponderação da psique. Encerro por aqui, mas a inquisição do inconsciente continua. O filme nos deixa com miragens que incitam a perpetuar o pensamento. O que o fascínio do público por histórias de vingança e subversão feminina trás sobre as insatisfações e as repressões do nosso próprio inconsciente coletivo? Em que medida a nossa sociedade contemporânea ainda impõe a "Tirania da Perfeição" e o "Falso Self" às mulheres e a todos os indivíduos? Qual o nosso papel, como espectadores e sujeitos, na desconstrução das estruturas de poder que continuam a objetificar o desejo e a sexualidade? "A Criada" é um funil para olhar para dentro, para confrontar a nossa ''Sombra'' e celebrar a potência do desejo autêntico. É um filme primoroso que não se esgota em uma única visão, mas que se renova a cada análise, a cada camada de significado que o inconsciente nos permite decifrar. E assim, quando a última cortina se fecha, não somos prontamente devolvidos à nossa realidade, mas permanentemente alterados por terem habitado o universo transicional que Park Chan-wook arquitetou em nossa mente. O que parece um desfecho, é um portal para onde carregamos as perguntas que o filme plantou em nosso inconsciente . A chama que consome os livros pornográficos na biblioteca não é o fogo destruidor, mas labaredas alquímicas que transformam o voyeurismo em olhar mutualizado, a narrativa imposta em história reinventada, o corpo objetificado em território soberano. sombra-junguiana-personagens-a-criada-analise-psicologica.jpg A verdadeira revolução não está na vingança executada, mas na metamorfose interior. Sookee e Hideko não fogem da mansão, a extrapolam simbolicamente. O que resta dos escombros não é a inocência restaurada, senão, uma consciência expandida. Compreendo que a principal mensagem radica em assimilar que a liberdade não se conquista destruindo o passado, mas dando releitura do seu real significado. Park Chan-wook também deseja nos mostrar que ‘’a vida tem vida própria" , que não somos senhores(as) em poder controlar nossa trajetória. Destarte, mostra que temos ferramentas de edição e que podemos lutar por reconfigurações. Da biblioteca ardendo, nasce uma nova linguagem, onde o desejo deixa de ser verbo conjugado por outros para se tornar poesia escrita pelas próprias mãos. O triunfo final não está na punição dos opressores, mas na sagrada ‘’magnus opum’’ que transmuta trauma em potência, submissão em cumplicidade, segredo em intimidade. Nesse novo pacto, descobrimos a verdade mais radical: que a psique não é uma prisão, mas um caleidoscópio onde cada pedacinho de sombra, quando corajosamente integrado, compõe o mosaico infinito da liberdade do ser. "Desejo como falta primordial no social opressivo, transforma o trauma em verso, onde a sexualidade reivindica liberdade." Dan Mena O inconsciente coletivo agradece, pois Park não quer nos entregar respostas simples, mas espéculos. Nestes reflexos, somos condenados à liberdade de refazer nossas narrativas com a ousadia de quem aprendeu que toda revolução começa quando alguém ousa trocar as regras do jogo pela autoria do ‘’game’’ inteiro. Clique para ler outros artigos do BLOG https://www.danmena.com.br/post/desejo-e-pervers%C3%A3o-da-estrutura-de-classes?utm_source=chatgpt.com ''A Inveja da Alma'' https://www.danmena.com.br/post/trauma-sexualidade-e-desejo-os-homens-que-n%C3%A3o-amavam-as-mul?utm_source=chatgpt.com "Trauma, Sexualidade e Desejo" https://www.danmena.com.br/post/garota-exemplar-manipula%C3%A7%C3%A3o-pervers%C3%A3o-e-falsa-identidade-uma-an%C3%A1lise-psicanal%C3%ADtica-de-gone-gir?utm_source=chatgpt.com "“Garota Exemplar, Manipulação e Perversão'' https://www.danmena.com.br/post/o-inconsciente?utm_source=chatgpt.com "O Inconsciente'' https://www.danmena.com.br/post/o-superego?utm_source=chatgpt.com "Superego e personalidade'' Referências Bibliográficas utilizadas FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 20: Mais, Ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 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Como o filme subverte o voyeurismo? Transforma o olhar masculino em instrumento de crítica, expondo a violência por trás do desejo de controle. O que representa a biblioteca secreta? É o útero simbólico do trauma, onde a sexualidade é transformada em espetáculo para consumo masculino. Como funciona o "Falso Self" de Hideko? É uma máscara de submissão que protege seu Verdadeiro Self até encontrar ambiente seguro para emergir. Qual o papel do fetichismo na narrativa? Os objetos (livros, luvas, sino) representam a tentativa falha de preencher a falta estrutural do desejo. Como a aliança feminina opera psicologicamente? Funciona como uma holding terapêutica, oferecendo o acolhimento emocional que ambas foram privadas. O que a queima dos livros simboliza? A destruição da linguagem patriarcal e a libertação do desejo feminino da estrutura de opressão. Como o trauma é superado? Através da reescrita narrativa as mulheres recontam sua história, transformando dor em potência. Qual a importância da estrutura em três atos? Espelha o processo psicanalítico onde a verdade emerge gradualmente através de perspectivas múltiplas. Como a Coreia ocupada reflete na trama? A opressão colonial amplifica a opressão de gênero, criando camadas sobrepostas de dominação. O final é uma vitória ou nova ilusão? É uma vitória real pois mostra a primeira vez que as mulheres agem por desejo próprio, não reativo. O que é "gozo feminino" na perspectiva lacaniana? Prazer que existe fora da lógica fálica, representado pela sexualidade não-genital das protagonistas. Como a Sombra junguiana se manifesta? Cada um projeta na outra qualidades reprimidas - Hideko vê em Sookee a liberdade que lhe falta. Palavras Chave análise psicanalítica A Criada, filme A Criada Park Chan-wook, temas desejo The Handmaiden, fetichismo no filme A Criada, construção feminilidade Handmaiden, análise psicológica The Handmaiden, vingança feminina A Criada, erotismo cinema coreano, male gaze Park Chan-wook, queer themes Handmaiden, postcolonialism gender analysis, lesbian romance The Handmaiden, trauma repressão filme, pulsão freudiana A Criada, desejo lacaniano Handmaiden, sombra junguiana personagens, falso self Winnicott análise, voyeurismo sádico filme, aliança feminina subverção, gozo feminino lacaniano #AnalisePsicanaliticaACriada, #FilmeACriadaParkChanWook, #TemasDesejoTheHandmaiden, #FetichismoNoFilmeACriada, #ConstrucaoFeminilidadeHandmaiden, #AnalisePsicologicaTheHandmaiden, #VingancaFemininaACriada, #ErotismoCinemaCoreano, #MaleGazeParkChanWook, #QueerThemesHandmaiden, #PostcolonialismGenderAnalysis, #LesbianRomanceTheHandmaiden, #TraumaRepressaoFilme, #PulsaoFreudianaACriada, #DesejoLacanianoHandmaiden, #SombraJunguianaPersonagens, #FalsoSelfWinnicottAnalise, #VoyeurismoSadicoFilme, #AliancaFemininaSubvercao, #GozoFemininoLacaniano Visite minha loja ou site: https://www.danmena.com.br/ https://uiclap.bio/danielmena Dan Mena – Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise (CNP 1199, desde 2018); Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise (CBP 2022130, desde 2020); Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University – Florida Department of Education, EUA (Enrollment H715 / Register H0192); Pesquisador em Neurociência do Desenvolvimento – PUCRS (ORCID™); Especialista em Sexologia pela – Therapist University, Miami, EUA (RQH W-19222 / Registro Internacional).
- A Tirania da Perfeição Estética: Uma Análise Psicanalítica do Narcisismo
A Tirania da Perfeição Estética: Uma Análise Psicanalítica do Narcisismo A Tirania da Perfeição Estética: Uma Análise Psicanalítica do Narcisismo Ideal do Ego Imagine uma estrela cadente que, em vez de se extinguir no céu da noite, colide com a miragem da sua própria vaidade, logo, se despedaçando em partes grotescas de desejo e repulsa. Essa é a essência de ‘’A Substância’’ , um filme que abre o espectro das rachaduras da alma, e as expõe com uma ferocidade ímpar. Esta obra de Coralie Fargeat , traz uma alegoria poderosa sobre o abismo entre o eu idealizado e a realidade indomada do envelhecimento. O enredo gira em torno de Elisabeth Sparkle , aqui interpretada por Demi Moore, uma apresentadora de TV em declínio que recorre a uma droga misteriosa para gerar uma versão mais jovem de si, Sue, que será vivida por Margaret Qualley. O que começa como uma promessa de rejuvenescimento se transforma em um pesadelo de duplicidade, onde o corpo vai se rebelar contra a mente, travando batalhas internas que desenvolvemos contra o tempo e as atuais expectativas sociais. O filme ilustra o ''narcisismo patológico'' , o ideal do ego e a tirania da perfeição. Não se trata de um resumo superficial, mas de uma inteligente introspecção que entrelaça o trauma infantil com a sexualidade reprimida, o desejo libidinal com a pulsão de morte. Elisabeth representa a ferida narcisista aberta pela indústria da vaidade e o entretenimento , onde o valor feminino é medido pela batalha indômita da juventude eterna. Sue, encarna esse investimento libidinal no self perfeito, uma onipotência perdida que a vai levar à autodestruição. Narcisismo e o Espelho Quebrado: A busca incessante pela imagem idealizada. O fundo questionador radica na pergunta: até que ponto permitimos que o olhar alheio dite nossa essência? Um ponto central da análise em A Tirania da Perfeição Estética: Uma Análise Psicanalítica do Narcisismo, inclui adentrar no trauma como catalisador da dependência química – aqui, a substância como metáfora para anestésicos emocionais contra o passar do tempo e o envelhecimento. A sexualidade surge não como simples atração, mas como o desejo voraz por validação, onde o corpo se torna objeto de consumo. O desejo, na leitura freudiana, impulsiona a narrativa para o barranco, evidenciando como a repressão leva à implosão da psique. Impacto social? O filme critica a sociedade patriarcal, onde mulheres são forçadas a guerrear contra si mesmas, internalizando o ‘’male gaze’’ (olhar masculino) . Deste ponto de vista contemporâneo, dialoga muito com o #MeToo , expondo o abuso velado e mascarado na busca pelo acme. A Tirania da Perfeição Estética: O peso invisível do Ideal do Ego na vida moderna. A Tirania da Perfeição Estética: Uma Análise Psicanalítica do Narcisismo Substância 2024: A dualidade entre o eu real e a persona social. Em A Substância, o narcisismo não é puramente a peça do egoísmo, mas uma cicatriz oriunda de traumas precoces. Elisabeth, ao injetar a substância, revive sua onipotência infantil perdida, aquela fase em que o bebê se vê como centro do universo, isso revisto pelo narcisismo primário. Mas o filme eleva tal a um patamar clínico e patológico, o trauma de ser descartado pela indústria apresenta abandonos emocionais da infância, onde a validação externa supre a ausência de afeto primário genuíno. Sue emerge como o self grandioso, uma projeção que mascara sua vulnerabilidade, mas que, ao desequilibrar o ciclo de sete dias, desprotege a fragilidade do ego. Essa dinâmica expande para além do individual, tocando em como nossa sociedade fomenta ditas feridas, com redes sociais ampliando o retumbar de rejeições antigas, transformando o narcisismo em uma epidemia sutil. Psicológicamente, podemos usar Lacan que nos ajuda a entender isso pelo estádio do espelho. Elizabeth se vê em Sue como nessa fase formativa, elaborando um ideal do ego alienado, dependente do outro para existir. A tirania da perfeição estética se levanta quando essa imagem ideal se torna opressora, punindo o corpo real com muitas deformidades. Socialmente, o filme denuncia como a mídia perpetua no indivíduo esse ciclo perturbador, transformando mulheres em mercadorias descartáveis, onde o desejo por juventude é uma libido desviada conduzem ao autoerotismo destrutivo. Acrescentando um olhar neurocientífico, o trauma ativa o eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal, liberando cortisol que agrava essa dependência, similar à adicção à substância no filme. Estudos recentes em epigenética sugerem que tais marcas podem ser hereditárias, perpetuando fases e ciclos geracionais de insegurança. Filosoficamente, convoco Nietzsche: a busca pelo super-homem (ou super-mulher) leva ao abismo. Aqui, o narcisismo patológico não é vilania, mas uma defesa contra o vazio existencial, e o filme nos lança a ponderar quanto se essa proteção, paradoxalmente, a maior ameaça à nossa integridade psíquica e mental. O que acontece quando o espelho irradia não admiração, mas horror? Como o trauma infantil dita tal tolerância à imperfeição? E se a substância fosse o antídoto para uma sociedade que nos envenena com ideais inalcançáveis? ‘’Eco da alma fragmentada, o narcisismo não é vaidade, mas o grito mudo de uma criança abandonada no espelho do mundo.’’ Dan Mena O Superego como Juiz: A voz interna que exige a perfeição inatingível. Ideal do Ego e a Ilusão que Devora o Self No conceito lacaniano, o ideal do ego atua como um falso farol que guia e leva Elisabeth à ruína. Ela constrói Sue como encarnação desse ideal, jovem, bonita, desejável e impecável, mas ignora que ele é uma construção simbólica, que depende absolutamente do ‘’Grande Outro’’ (a sociedade, e o olhar masculino). O filme ilustra isso na alternância forçada, sete dias cada, simbolizando o equilíbrio precário entre o real e imaginário. Quando Sue usurpa medicamentosamente o tempo, Elisabeth envelhece grotescamente, o que personifica a punição por desafiar o ideal. Essa expansão assustadora, mostra claramente como o ideal não é estático, mas fluido, se adaptando às pressões culturais que evoluem com o tempo, como o culto à juventude eterna impulsionado tecnicamente por algoritmos de beleza. Olhando pelo prisma psicológico e social, isso está para a trilha feminina da repressão à libido: Elisabeth reprime sua sexualidade madura, se projeta em Sue, que a explora e escraviza hedonisticamente. O desejo aqui é pulsional, freudiano, uma mistura de eros e thanatos, vida na juventude, morte no envelhecimento. A opressão e despotismo da perfeição se manifesta no ‘’body horror’’ , um gênero do terror que abusa o corpo de forma gráfica, através de mutações, deformações, mutilações e doenças onde deformidades simbolizam a guerra interna contra a própria imagem. Contemporaneamente, o filme critíca subversivamente plataformas como Instagram, Facebook e cirurgias plásticas, onde o self é editado para validação externa, e pesquisas em psicologia social indicam que tal exposição constante eleva ao cubo taxas de ansiedade entre jovens mulheres, reforçando esse ciclo vicioso de dependência. Clinicamente, isso evoca nitidamente o ‘’transtorno dismórfico corporal’ ’, agravado por traumas de rejeição, e concomitantemente sugere uma terapia possível, o confronto com o real, além do imaginário. Por que permitimos que o ideal do ego nos escravize? Como a sexualidade reprimida explode em autodestruição? E se o verdadeiro desejo fosse abraçar a imperfeição? ‘’A ilusão do ego perfeito é o veneno doce que corrói nossa essência, deixando apenas sombras dançando no vazio.’’ Dan Mena A Máscara Narcísica: Escondendo a vulnerabilidade por trás da fachada. A Tirania da Perfeição pelo olhar Externo como Prisão A perfeição coercitiva em A Substância é imposta pelo olhar alheio, será habilmente encarnado por Harvey (Dennis Quaid) , o produtor misógino que descarta Elisabeth. Isso é o superego punitivo de Freud, internalizado como auto-desprezo. Sue, ao ascender, reproduz e repete o ciclo, objetificando seu corpo para o público espectador, o que mostra em ação o narcisismo social como estrutura de construção atual. Expandindo esse fator, vemos como esse despotismo tirânico se infiltra em esferas profissionais além do entretenimento, como no corporativismo, onde aparência dita promoções, o que perpetua as desigualdades de gênero. O trauma aqui é aparentemente coletivo, mulheres traumatizadas por padrões irreais e fantasiosos, levando a um desejo desviado para um auto aperfeiçoamento obsessivo e impossível de se sustentar. A sexualidade surge como ferramenta manipuladora de poder, mas, ao mesmo tempo, vazia, sem espremer uma conexão genuína. ‘’O panóptico da beleza vigia e pune, e em uma era de vigilância digital, câmeras e filtros ampliam esse controle, tornando a privacidade um luxo obsoleto.’’ Dan Mena Dopamina como validação vicia, o que é similar à substância no filme. Socialmente, a peça delata o patriarcado, onde o valor feminino é epidérmico, e movimentos como ‘’body positivity’’ surgem como antídotos, mas ainda lutam contra narrativas dominantes na sociedade. A Positividade Corporal é um movimento que busca inspirar a aceitação, o amor-próprio e o respeito por todos os corpos, sem distinção de tamanho, comparação, forma, cor ou qualquer outra característica física. Sua proposta seria a de estimular uma visão saudável e acolhedora de si, rompendo com os padrões estéticos impostos como expectativas sociais relacionadas à aparência. O que nos liberta dessa prepotência? Como o querer autêntico resiste ao olhar externo? E se a perfeição fosse uma ilusão coletiva? ‘’A tirania da perfeição é o carcereiro invisível que transforma o corpo em cela, sufocando a alma em nome do aplauso fugaz.’’ Dan Mena Ideal do Ego vs. Realidade: O abismo entre o que somos e o que deveríamos ser. O Trauma como Catalisador das Cicatrizes Invisíveis no Corpo Visível Vejo que o trauma em A Substância não é explícito, mas subjacente, o acidente de carro de Elisabeth simboliza colisões emocionais passadas, o que ativa suas defesas narcísicas. Vemos aqui o ‘’retorno do reprimido’’ , onde a substância é uma máscara das dores antigas, que se vem amplificadas em horror corporal. A obra cinematográfica dialoga com várias teorias modernas do trauma complicado, onde experiências cumulativas, como micro agressões de gênero, se acumulam na psique levando a dissociações como a duplicidade que Elisabeth e Sue representam para a cena. A sexualidade traumática está presente na duplicidade. Elisabeth reprime e estanca seus desejos maduros, enquanto Sue os hiperboliza, misturando prazer, redenção e punição. O desejo é ambíguo, trabalha na pulsão de vida contra a morte. Socialmente, crítica Hollywood, que traumatiza atrizes que envelheceram, somadas a estatísticas de saúde mental que apresentam altas taxas de depressão nesse meio, tudo isso se mistura ao enredo. Clinicamente, temos o ‘’transtorno de estresse pós-traumático’’ agindo, com ''flashbacks'' simbólicos nas deformidades, intervenções como a psicanálise poderiam trabalhar tais feridas. Como o trauma molda nosso desejo? Por que o corpo carrega as marcas da mente? E se curar significasse abraçar nossas cicatrizes? ‘’O trauma é o sussurro eterno que deforma o presente, transformando desejos em fantasmas que assombram a alma.’’ Dan Mena Psicanálise e a Perfeição: Desvendando as raízes da auto-exigência. Sexualidade e Desejo: Da Repressão à Explosão Libidinal A sexualidade em A Substância é um percurso da contenção à voracidade. Elisabeth reprime sua libido, e projeta isso em Sue, que a consome em excessos e descomedimentos. Olha ae o id freudiano solto, onde os quereres são investimento libidinal no self, elevam inevitavelmente à castração simbólica, o corpo mutilado. Uma fluidez sexual em duplicidade que sugere identidades híbridas, desafiando binários tradicionais. O ''narcisismo patológico'' herege do outro, tornando o sexo auto-erótico, destarte, socialmente denuncia a objetificação feminina, onde o desejo é mercantilizado, e o filme, se alinha a críticas pós-feministas sobre a pornificação e banalização da cultura. O erótico como limite da morte, científicamente, onde a libido ativa circuitos de recompensa, viciando na perfeição, estudos mostram como tal rejeição ativa áreas de dor física. Por que reprimimos o desejo autêntico? Como a sexualidade cura ou destrói? E se o verdadeiro prazer estivesse na vulnerabilidade? ‘’A sexualidade reprimida é o fogo subterrâneo que irrumpe em chamas, consumindo o ego em busca de um êxtase fugidio.’’ Dan Mena A Guerra Interna Feminina Socialmente, o filme desmascara o ‘’male gaze’’ , com Harvey como ideal arquétipo do abusador. Elisabeth internaliza isso, guerreando contra si em Sue. A introjeção do opressor, onde narcisismo é defesa contra a humilhação. O impacto se estende a economias globais, porto das indústrias de beleza que lucram bilhões com inseguranças femininas. Esse ‘’olhar masculino’’ , é um termo da teoria feminista contemporânea que descreve como as mulheres são representadas socialmente na arte, literatura e mídia sob um ponto de vista masculino e heterossexual. Essa articulação velada, as transforma por vezes em objetos sexuais para o prazer do espectador homem. O conceito analisa como essa representação inferioriza as mulheres, as diminui e as retrata principalmente por sua aparência física e valor sexual. Dito trauma coletivo das mulheres usa o envelhecimento como exílio. O desejo feminino é cooptado, tornando a sexualidade performática, dialogando com o feminismo interseccional, questionando padrões brancos e heteronormativos que intersecciona com questões raciais, onde beleza eurocêntrica agrava todo tipo de traumas. A Sombra da Autoestima: Como o narcisismo afeta a relação consigo mesmo. Como combater o ''male gaze'' internalizado? Por que o desejo social nos aprisiona? E se a revolução começasse no olhar do espelho? ‘’O impacto social do olhar alheio é o veneno que infiltra a veia da identidade, transformando mulheres em prisioneiras de sua própria imagem.’’ Dan Mena Fundo Psicológico das Pulsões e o Inconsciente Coletivo O inconsciente em A Substância late diretamente com as pulsões, Eros na criação de Sue, Thanatos na sua destruição. Sue, é o lado escuro de Elisabeth, o arquétipo da juventude gulosa e devoradora. Se expandindo, toca no inconsciente coletivo, onde mitos como o de Narciso reverberam para a modernidade adaptados à era digital. Um chamado ao borderline; ‘’splitting’’ como cisão, divisão e rachadura em decomposição entre bom e mau self. Socialmente amparado na ansiedade coletiva pelo envelhecimento, com demografias envelhecidas enfrentando crises existenciais. Filosoficamente isso nos remete a Heidegger: ser-para-a-morte no horror corporal, onde terapias existenciais poderiam mitigar tais angústias. O que o inconsciente abre sobre nossa finitude? Como as pulsões moldam desejos? E se abraçar a sombra libertasse? ‘’No abismo do inconsciente, as pulsões dançam, mostrando que a perfeição é mera máscara para o caos primordial da nossa existência.’’ Dan Mena O Culto à Imagem: Reflexos da sociedade na construção do Ideal do Ego. Adicção Cultural à Juventude Eterna O filme ‘’A substância’’ representa e simboliza os filtros de apps e botox, vícios culturais ao ideal do ego e vaidade potencializada. Psicanaliticamente, isso é defesa contra a angústia existencial. Socialmente, critica o capitalismo que monetiza com inteligência nossas inseguranças. Ampliando isso exponencialmente, com o avanço da IA na edição de imagens, o filme prevê distopias e utopias, onde realidades virtuais aceleram e cavam narcisismos, borrando a fronteira tênue entre self e avatares. O trauma digital se apresenta em comparações constantes que geram narcisismo vulnerável. Sexualidade online, onde o desejo é performado para likes. Cientificamente, redes sociais se alimentam dessa dopamina, similar à droga, intervenções como detox digital surgem como soluções cosmopolitas. Como resistir ao adicto cultural? Por que o desejo por eternidade nos destrói? E se o envelhecimento fosse uma celebração? ‘’A era contemporânea introjeta a ilusão da juventude como opiáceo coletivo, deixando almas envelhecidas em corpos falsamente renovados.’’ Dan Mena Libertação da Culpa: Superando a pressão do Superego tirânico. Reflexões Ao final desta análise pelas entranhas de A Substância, fica a ressonância de uma pergunta: e se a busca incessante pela inteireza estética não for senão um véu para o medo primordial da finitude? Este filme não é simplesmente um entretenimento passageiro; é sobre uma realidade social enraizada que nos obriga a confrontar-nos. Enxergo como psicanalista, uma catarse coletiva junguiana, um olhar sincero no tema para que abandonemos toda forma de intolerância, dominação, abuso, sujeição, repressão, jugo, prepotência, perseguição e injustiça externa e abracemos a autenticidade. Creio que usar determinados filtros e ferramentas não é necessariamente um desvio ou uma corrupção da veracidade , mas antes, uma tentativa de expressar nuances que o olhar cru da realidade nem sempre pode captar. O problema não está no uso dos artifícios que acho totalmente legítimo, mas na alienação que deles pode advir. Quando um sujeito se reconhece verdadeiramente na imagem que aprimora, quando compreende que esse comprazimento é apenas uma apresentação que pode beneficiar vários ângulos da sua vida, quando tais não personificam a substituição do seu eu real, não há adoecimento, vejo nisso, potência. Em ‘’A Substância’’ , o terror surge justamente neste ponto, quando a aparência se torna arcabouço e prisão da fantasia , se o ideal estético suplanta o indivíduo, o corpo vira território de guerra. O aterramento psíquico nasce do esquecimento de si, da confusão entre máscara e essência. Porém, quando se domina o artifício com consciência e senso crítico, ele o transforma em instrumento de comunicação, de arte, de linguagem simbólica. O Preço da Imagem: A exaustão emocional da busca por validação externa. Na psicanálise entendemos o símbolo como mediação entre o consciente e o inconsciente ; assim também o elixir do filtro pode ser, em sua função mais saudável, uma metáfora do desejo de expansão da própria imagem, não sua negação. Há um paradoxo pungente que atravessa nosso tempo. Vejo mulheres belíssimas, plenas em sua expressão natural, arriscarem a própria vida em mesas cirúrgicas e clínicas estéticas em nome de uma perfeição que jamais se alcança. Essa busca compulsiva pelo corpo ideal revela o grau de violência simbólica que a sociedade exerce sobre o feminino ou que inclui muitos homens também. A pressão pela juventude eterna transforma o desejo de cuidado em autodestruição. O corpo, que deveria ser lugar da alma, se transmuta em campo de batalha entre o ser e o parecer. Essas mortes, algumas silenciosas, outras ganham notoriedade jornalística, tratadas na maioria dos casos como fatalidades médicas, são na verdade sintomas de uma cultura doentia que não tolera a imperfeição. Mulheres e homens que talvez jamais precisassem de qualquer intervenção são levadas(os) a crer que precisam corrigir o incorrigível. O preço é alto: borrar a singularidade em troca de uma imagem padronizada. É nesse ponto que ''A Substância'' se torna um filme perturbador, ele denuncia a escarpa entre a aparência fabricada e a essência que clama por existir. “A beleza não deve ser conquistada pela dor, mas reconhecida na verdade do ser.” Dan Mena Como psicanalista, não temo o artifício, mas o vazio que pode se instalar quando tomado como verdade. O uso de recursos tecnológicos ou simbólicos pode representar não uma fuga, mas um modo de elaboração do eu contemporâneo, esse que dialoga com o tempo, com a velocidade, com as exigências da imagem, mas que ainda busca seu significado interior. A perfeição, quando compreendida como linguagem e não como tirania, pode se tornar libertadora. ‘’O narcisismo, o ideal do ego, o trauma, a sexualidade, todos se entrelaçam como vetores da nossa fragilidade.’’ Dan Mena Psicanálise: O Caminho para o Eu Real: Abandonando o Ideal do Ego opressor. A Substância, original (The Substance, 2024), dirigido por Coralie Fargeat, produzido por Working Title Films em coprodução franco-britânico-americana. Protagonistas Elisabeth Sparkle (Demi Moore) : Uma mulher traumatizada pelo declínio, cujo perfil psicológico expõe seu narcisismo vulnerável, com investimento libidinal no self idealizado, a levando a autodestruição por incapacidade de tolerar suas falhas. Sue (Margaret Qualley) : A versão jovem, encarna a onipotência narcísica, com desejo hedonista e repressão das conexões, simbolizando a tirania da perfeição como defesa contra o vazio. Harvey (Dennis Quaid) : O antagonista misógino, cujo ego inflado mostra o abuso de poder, com traços narcísicos patológicos que externalizam desprezo por imperfeições alheias. Que essa análise inspire você a ver ou revisitar o filme e, quem sabe, questionar novas perspectivas sobre a vida. Palavras chaves A Substância 2024, narcisismo patológico, ideal do ego, tirania da perfeição, análise psicanalítica, trauma infantil, sexualidade reprimida, desejo libidinal, ferida narcísica, onipotência, guerra interna imagem, valor externo, jornada sexualidade feminina, repressão libido, Freud cinema, Lacan espelho, poder abuso, comportamento humano, vingança identidade, saúde mental filmes. #ASubstancia2024 #NarcisismoPatologico #IdealDoEgo #TiraniaDaPerfeicao #AnalisePsicanalitica #TraumaInfantil #SexualidadeReprimida #DesejoLibidinal #FeridaNarcisica #OnipotenciaNarcisica #GuerraInternaImagem #ValorExterno #JornadaSexualidadeFeminina #RepressaoLibido #FreudCinema #LacanEspelho #PoderAbuso #ComportamentoHumano #VingancaIdentidade #SaudeMentalFilmes Referências Bibliográficas Bandura, Albert. Autoeficácia: O Exercício do Controle. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2008. Bauman, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. Baumeister, Roy F. O Mal: Dentro da Mente Humana. Rio de Janeiro: Record, 2001. Bourdieu, Pierre. A Distinção. Porto Alegre: Zouk, 2007. Erikson, Erik H. Identidade, Juventude e Crise. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. Foucault, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1987. Freud, Sigmund. Introdução ao Narcisismo. Rio de Janeiro: Imago, 1996. Giddens, Anthony. Modernidade e Identidade. São Paulo: UNESP, 2002. Kant, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1985. Klein, Melanie. Inveja e Gratidão e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1975. Kohut, Heinz. Formas e Transformações do Narcisismo. Porto Alegre: Artes Médicas 1984. Lacan, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. Lasch, Christopher. A Cultura do Narcisismo. São Paulo: Best Seller, 2023. Maslow, Abraham H. Motivação e Personalidade. Rio de Janeiro: Harper & Row, 1970. Nietzsche, Friedrich. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. Platão. A República. São Paulo: Martin Claret, 2000. Sartre, Jean-Paul. O Ser e o Nada. Petrópolis: Vozes, 1997. Sennett, Richard. A Corrosão do Caráter. Rio de Janeiro: Record, 1999. Twenge, Jean M. A Epidemia do Narcisismo. São Paulo: LeYa, 2010. Winnicott, D. W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. FAQ "A Substância (2024): Narcisismo, Ideal do Ego e a Tirania da Perfeição | Análise Psicanalítica by Dan Mena" O que é o filme A Substância (2024)? A Substância (The Substance, 2024), dirigido por Coralie Fargeat, é um filme de horror corporal que segue Elisabeth Sparkle (Demi Moore), uma apresentadora de TV em declínio que usa uma droga misteriosa para criar uma versão jovem de si, Sue (Margaret Qualley). O enredo explora o eu idealizado e a realidade do envelhecimento, se transformando em um pesadelo de duplicidade. Qual é a análise psicanalítica do narcisismo em A Substância? Na análise psicanalítica, o narcisismo no filme é retratado como uma ferida aberta oriunda de traumas infantis, não como mero egoísmo. Elisabeth revive sua onipotência infantil perdida ao criar Sue, uma projeção do self grandioso que mascara suas vulnerabilidades, mas a leva à autodestruição quando o equilíbrio é rompido. Como o ideal do ego é representado no filme The Substance? Inspirado em Lacan, o ideal do ego é mostrado como um falso farol que guia Elisabeth à ruína. Sue encarna esse ideal jovem e impecável, dependente do "Grande Outro" (sociedade e olhar masculino), resultando em punição grotesca quando o equilíbrio de sete dias é violado, simbolizando o conflito entre o real e o imaginário. O que significa a tirania da perfeição estética em A Substância? A tirania da perfeição estética se refere à opressão imposta pelo olhar externo, como o do produtor Harvey, que internaliza o superego punitivo freudiano. O filme critica como essa pressão transforma o corpo em prisão, perpetuando desigualdades de gênero e fomentando um ciclo de autodesprezo e busca obsessiva por juventude. Qual o papel do trauma infantil na narrativa de A Substância? O trauma infantil atua como catalisador para o narcisismo patológico. Elisabeth, ao injetar a substância, revive abandonos emocionais da infância, onde a validação externa supre a ausência de um afeto genuíno. Isso se expande para críticas sociais, como redes sociais ampliando rejeições antigas e transformando o narcisismo em epidemia. Como a sexualidade e o desejo são explorados no filme A Substância? A sexualidade vai da repressão à explosão libidinal: Elisabeth reprime sua libido madura e a projeta em Sue, que a consome em excessos. Inspirado em Freud, isso mistura Eros (vida na juventude) e Thanatos (morte no envelhecimento), denunciando a objetificação feminina e a mercantilização do desejo em uma cultura pornificada. O que é o male gaze e como se aplica à análise de A Substância? O male gaze, conceito feminista, descreve como mulheres são representadas como objetos sexuais sob o olhar masculino heterossexual. No filme, Harvey encarna isso, descartando Elisabeth e forçando-a a guerrear contra si mesma em Sue, internalizando o opressor e perpetuando traumas coletivos de gênero. Qual a crítica social do filme The Substance (2024)? O filme critica a sociedade patriarcal e capitalista que monetiza inseguranças femininas, alinhando-se ao #MeToo ao expor abusos velados na indústria do entretenimento. Ele denuncia plataformas como Instagram, cirurgias plásticas e o culto à juventude, promovendo movimentos como body positivity como antídotos. Há elementos neurocientíficos ou filosóficos na análise psicanalítica de A Substância? Sim, a análise integra neurociência (ativação do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal por trauma, liberando cortisol) e filosofia (Nietzsche e o super-homem levando ao abismo; Heidegger e o ser-para-a-morte). Isso enriquece a visão do narcisismo como defesa contra o vazio existencial. Como o filme A Substância relaciona o inconsciente coletivo e as pulsões? Inspirado em Jung, o inconsciente coletivo reverbera mitos como Narciso na era digital. As pulsões freudianas em Eros na criação de Sue e Thanatos em sua destruição que mostram Sue como o lado escuro de Elisabeth, tocando em ansiedades coletivas pelo envelhecimento e ‘’splitting borderline’’ . Qual a mensagem sobre a adicção cultural à juventude eterna em A Substância? A substância simboliza vícios culturais como filtros de apps e botox, defesas contra angústia existencial. O filme prevê distopias com IA borrando self e avatares, criticando o capitalismo que lucra com inseguranças, e sugere detox digital como solução para o narcisismo vulnerável. 0 Qual a ponderação final da análise psicanalítica de A Substância feita por Dan Mena? A busca pela perfeição estética é um véu para o medo da finitude. O filme promove catarse coletiva, incentivando o abandono de máscaras e o abraço à autenticidade. Artifícios como filtros são legítimos se não alienam o eu real, mas se tornam tóxicos quando confundem essência e aparência. Artigos ligados ao tema com links internos do blog https://www.danmena.com.br/post/medos-ocultos-que-sabotam-a-vida-sexual https://www.danmena.com.br/post/sexualidade-culpa-e-perd%C3%A3o https://www.danmena.com.br/post/garota-exemplar-manipula%C3%A7%C3%A3o-pervers%C3%A3o-e-falsa-identidade-uma-an%C3%A1lise-psicanal%C3%ADtica-de-gone-gir https://www.danmena.com.br/post/o-show-de-truman-o-espelho-da-alma https://www.danmena.com.br/post/a-verdade https://www.danmena.com.br/post/do-corpo-ao-avatar-dan-mena https://www.danmena.com.br/post/oppenheimer https://www.danmena.com.br/post/o-superego https://www.danmena.com.br/post/a-tatuagem Visite minha loja ou site: https://www.danmena.com.br/ https://uiclap.bio/danielmena Dan Mena – Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise (CNP 1199, desde 2018); Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise (CBP 2022130, desde 2020); Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University – Florida Department of Education, EUA (Enrollment H715 / Register H0192); Pesquisador em Neurociência do Desenvolvimento – PUCRS (ORCID™); Especialista em Sexologia e Sexualidade – Therapist University, Miami, EUA (RQH W-19222 / Registro Internacional).
- Parasita: Uma Análise Psicanalítica do Desejo e da Perversão Social
Parasita: Uma Análise Psicanalítica do Desejo e da Perversão Social O Cheiro da Inocência Perdida Desde sua estreia em 2019, o filme sul-coreano Parasita (Gisaengchung) , dirigido pelo mestre Bong Joon-ho e produzido pela Barunson E&A , elevou à categoria de obra cinematográfica para se estabelecer como um fenômeno cultural e um diagnóstico social de nosso tempo. Vencedor da Palma de Ouro e de quatro Oscars, incluindo, Melhor Filme e Melhor Diretor, a obra não se limita a narrar a história de duas famílias. Os Park, abastados e ingênuos, e os Kim pobres e astutos , operam uma incisão na ferida aberta da estrutura de classes contemporânea. Não se trata apenas de ‘’quem parasita quem’’ , mas de como a própria desigualdade se inscreve no psiquismo, pervertendo o desejo e cristalizando o trauma. Sob a perspectiva da psicanálise, entrelaçada com a teoria crítica e a filosofia, vou cavar quanto nossos próprios desejos, medos e fantasias enquanto sociedade. O filme nos apresenta a três protagonistas centrais cujos perfis psicológicos são elementares para a análise. Kim Ki-woo , o filho mais velho da família Kim é o arquétipo do sonhador, cuja ambição de ascensão social é simbolizada pela "pedra do scholar" que carrega, uma projeção de desejo que o aprisiona na fantasia de ‘’ser o que não é’’ . Análise psicanalítica do filme Parasita de Bong Joon-ho luta de classes Sua busca por pertencimento é a mola propulsora da intrusão. Em contraste, Park Dong-ik , o pai da família rica, encarna a negação da realidade. Sua bondade superficial e sua aversão ao "cheiro" dos Kim exibe uma inocência burguesa que é uma cegueira ideológica, um mecanismo de defesa contra a verdade incômoda da exploração. Kim Ki-taek , o pai da família Kim, que representa o resignado, cuja identificação com o agressor (o sistema) o leva a uma passividade que só é quebrada por um ato falho final, um surto de violência que é a irrupção do Real traumático no filme. A partir deste olhar, a obra se torna um campo de testes para a intersecção entre o inconsciente individual e a ideologia social. A luta de classes é aqui analisada como um trauma social que retorna compulsivamente, a inveja e o desejo são seus vetores, e o capital, o grande perverso das relações, especialmente as familiares. Ao longo dos próximos tópicos, vou entrar na obra de Bong Joon-ho, para desmascarar a ideologia e decifrar os signos da riqueza, questionando a própria percepção da realidade. Particularmente, o filme foi absolutamente merecedor de todas as premiações recebidas. Passei a admirar Bong Joon-ho, um diretor incrível. A Inveja como Propulsor da Fantasia de Classes O Desejo Inconsciente que Estrutura o Filme O cerne da análise que faço de Parasita reside na compreensão do desejo inconsciente que impulsiona a trama. O "olhar pervertido" da obra, questiona: qual é o desejo que o filme satisfaz ou frustra em nós, espectadores? O desejo inconsciente que estrutura a narrativa não é o da ascensão social, mas o da substituição, a fantasia de que a diferença de classe é apenas uma questão de performance e oportunidade. A família Kim, não deseja apenas o dinheiro dos Park; ‘’ela quer ser os Park’’ , ocupar seu lugar, desfrutar de sua inocência burguesa, que é o verdadeiro objeto da sua inscrição. Essa emoção destrutiva que visa arruinar o bem do outro, em Parasita, transforma a carência em astúcia. A inveja dos Kim não é material, é um controverso da estrutura psíquica dos Park, que vivem em um estado de negação confortável, protegidos pelo dinheiro, e de qualquer contato com o Real da miséria. O capital atua como um ‘’Grande Outro’’ que promete a todos a possibilidade de gozo ilimitado, mas o distribui de forma desigual. A família Kim, ao se infiltrar na casa, tenta roubar não apenas a riqueza, mas a utopia que a sustenta. "A inveja é a sombra do desejo que, ao invés de buscar o objeto, busca a destruição do ‘’Outro’’ que o possui." - Dan Mena Trauma social e inveja no filme Parasita análise psicológica A ideologia capitalista nos ensina; é a pura ficção que nos permite suportar a realidade da exploração . A família Park vive isso plenamente, acreditando que sua riqueza é fruto de uma ordem natural e que a pobreza é uma falha moral. A inveja dos Kim é a reação a essa inventividade, uma tentativa de provar que a diferença é apenas uma questão de acesso, e não de essência. O filme, ao nos fazer torcer pela astúcia dos Kim, nos concatena com esse inconsciente de subverter a ordem, de romper a barreira simbólica de classes. O que o filme apresenta, e o lado inconsciente da sociedade em anular essa diferença, mas não pela via da revolução, e sim pela da identificação e da substituição individual. A tragédia se instala quando o Real, o porão e o cheiro, irrompem, mostrando que a ordem é estrutural e não pode ser simplesmente encenada. Mas seria a inveja apenas um sentimento individual, ou o sintoma de uma estrutura social que se alimenta da comparação incessante? Até que ponto a performance de classes é uma tentativa de recalcar o trauma da exclusão? Qual é o preço psíquico de desejar ser o ‘’Outro’’? “O desejo não é a busca pelo que falta, mas a ferida psíquica que se abre entre o que somos e a fantasia de classes que o capital impõe.” - Dan Mena O Trauma da Diferença Social que Não se Simboliza O Excesso Traumático A psicanálise lacaniana nos oferece uma ferramenta fundamental para a análise de Parasita, especialmente através da tríade Real, Simbólico e Imaginário. Essa contenda de classes, como trauma social, se manifesta no filme como a chegada do Real, aquele excesso traumático que a linguagem, o Simbólico e a fantasia, o Imaginário, não conseguem conter. O elemento mais potente e recorrente dessa alavanca é o cheiro. O odor é o significante mestre da diferença, um vestígio sensorial que resiste à simbolização. A família Kim pode se vestir, falar e até mesmo imitar a postura dos Park (o Imaginário), mas o cheiro, esse resíduo orgânico e incontrolável, denuncia sua origem, sua morada subterrânea, sua proximidade com a carência. O cheiro é o ‘’objeto a lacaniano’’ , causa do desejo que, ao mesmo tempo, é o resto irredutível, o que não se encaixa no simbólico da riqueza. Para os Park, o exalado é o que quebra a fantasia de pureza e isolamento de sua casa, isso embate com a verdade de que a miséria está mais próxima do que eles gostariam de admitir. O cheiro da inocência perdida, análise de Parasita Bong Joon-ho por Dan Mena "O Real é o cheiro que a riqueza tenta lavar, mas que adere à pele da verdade." Dan Mena O porão, a morada secreta do ex-empregado, é a materialização arquitetônica do Real. É o espaço do recalque social, onde a verdade da dependência é escondida. "A alma é o porão onde a sociedade esconde a sujeira que a ideologia insiste em negar." Dan Mena A casa dos Park, com sua transparência e design minimalista, representa a ordem simbólica da classe dominante, uma base que tenta manter o Real à distância. A chuva, que inunda o bairro dos Kim e destrói seu lar, enquanto apenas molha o jardim dos Park, é o evento traumático que expõe essa fragilidade icônica dos pobres e a solidez da fantasia dos ricos e abastados. O trauma, na psicanálise, é o evento não simbolizado que retorna na forma de compulsão à repetição em Freud. Esse embate é o trauma social que insiste em retornar, seja através do cheiro, da violência no porão, ou do ato final de Kim Ki-taek. O assassinato do Sr. Park, desencadeado pela repulsa do odor, é a explosão do Real, o momento em que o trauma, não simbolizado, adentra na forma de violência pura, quebrando a lide imaginária da convivência pacífica. Essa marca indelével da exclusão, seria a única forma do Real se manifestar na vida dos ricos? Como a negação da diferença de classe se torna um mecanismo de defesa coletivo? O que o porão, como espaço de recalque, nos diz sobre a arquitetura da ideologia? “O trauma da classe não é a falta de dinheiro, mas o cheiro que adere à alma, o significante mudo que denuncia a impossibilidade de ser o ‘’Outro’’.” - Dan Mena Cheiro como símbolo lacaniano em Parasita Bong Joon-ho A Casa dos Park como Fantasia Burguesa O que Sustenta a Realidade A casa da família Park, com sua arquitetura modernista, minimalista e transparente, é mais do que um cenário, é a materialização da ideologia capitalista em sua forma mais sedutora. Não é somente um conjunto de ideias falsas, mas a ironia que estrutura a realidade social, fazendo com que a exploração pareça natural e inevitável. Esse espaço de aparente pureza e harmonia, onde o trabalho dos Kim é invisível, e o dinheiro parece brotar espontaneamente. A ideologia da meritocracia é o pilar dessa fantasia. Os Park acreditam, ingenuamente, que sua riqueza é merecida, que a pobreza dos Kim é resultado de sua falta de esforço. A Sra. Park, em sua simplicidade, é a encarnação dessa crença. Ela não é má, é cega pela ideologia. Sua bondade é classista, só pode existir enquanto a diferença é mantida e o Real da miséria esteja contido. "A inocência burguesa é a forma mais sutil de violência, pois nega a existência da ferida que ela mesma causa." Dan Mena A ideologia oculta em Parasita é a que prega a coexistência pacífica entre as classes, desde que cada um permaneça em seu lugar. A família Kim, ao se infiltrar, perturba essa prescrição, mas o faz utilizando os próprios recursos ideológicos, a performance, a mentira e a simulação. Eles se tornam parasitas não por natureza, mas por necessidade de sobrevivência em um sistema que só reconhece o valor de troca. "A performance identitária é a máscara que vestimos para tentar enganar o ‘’Grande Outro’’ da classe social." Dan Mena O filme critica essa postura ao mostrar que a riqueza dos Park depende, literalmente, da negação e da escravitude da classe baixa. O porão, o espaço do trabalho e da dependência oculta, é neste caso, o sintoma. Um ponto alto, onde a ficção se rompe e a verdade da estrutura social é exposta. A doutrina dos Park é tão forte que eles não conseguem sequer perceber a fraude dos Kim, pois estão muito ocupados em manter a aparência de sua idealização fantasiosa. Os conceitos nesta leitura, são um mecanismo de defesa coletivo contra a verdade. A meritocracia é a fantasia que nos permite dormir em paz, mas qual é o custo psíquico dessa cegueira voluntária? Se a riqueza é uma fantasia, o que acontece quando ela é invadida pelo Real? Até que ponto a ingenuidade dos Park é uma forma de violência? Família Kim e Park em Parasita crítica social a desigualdade “A ideologia é a lupa que distorce o Real, transformando a subserviência em destino e a cegueira de classe em virtude.” - Dan Mena A Mitologia Moderna da Riqueza Limpa A Desconstrução dos Mitos Contemporâneos Os signos são símbolos que constroem os mitos contemporâneos. Em Parasita, a riqueza da família Park é envolta em uma mitologia moderna de minimalismo e desapego. O ato central desconstruído pelo filme é o da "Riqueza Limpa" . A casa dos Park, com sua arquitetura impecável, sua ausência de desordem e sua integração com a natureza, é o ícone dessa riqueza que se pretende imaculada, como se tivesse sido gerada sem esforço, sem suor e, crucialmente, sem a exploração de ninguém. O mito é que o dinheiro dos Park é "limpo" , desvinculado da sujeira do trabalho e da miséria. O minimalismo da casa é um signo de distinção, uma tentativa de comunicar que a classe alta não precisa de excessos para provar seu valor. No entanto, o filme desmantela esse arcabouço através da linguagem contrastante. O cheiro é o anti-signo, o que contamina a pureza do mito. Ele é o vestígio da realidade que a mitologia tenta recalcar. A ‘’pedra de scholar’’ que Ki-woo recebe é outro ponto significativo. Representa a crença na ascensão social através do mérito e do estudo, o que se revela ineficaz e, ironicamente, se torna uma arma de violência. No filme, a pedra assume uma poderosa metáfora: A Promessa Vazia : A pedra é dada à família Kim como um presente que supostamente traria sorte e riqueza. Ela simboliza a esperança de ascensão social e a crença na meritocracia, a ideia de que o esforço individual pode levar à prosperidade. O Peso da Ambição : Ironicamente, essa pedra se torna um fardo e um peso literal para o filho, Ki-woo. Em vez de trazer sorte, ela é usada como arma e acaba sendo um objeto que o arrasta para a violência e para o porão, simbolizando o Real da miséria. A Ilusão da Riqueza : Representa também a ilusão de que a riqueza e a ascensão social podem ser alcançadas por meio de um objeto mágico ou de um golpe de sorte, e não por uma mudança na estrutura social. Certamente, um ícone da fantasia que a família Kim tenta desesperadamente manter, mas que se mostra brutalmente ineficaz contra a realidade da luta de classes. A "pedra de scholar" em Parasita é um símbolo de ambição e falsa esperança, que se transforma em um objeto de violência e trauma ao longo da narrativa. A família Kim, ao se apropriar dos signos da riqueza (roupas, linguagem, postura), tenta entrar no mito, mas o cheiro e o porão (o Real) provam que a barreira simbólica da classe é intransponível, confrontado com a realidade suja da dependência. Os Park dependem dos Kim para manter sua fantasia de desapego (cuidar dos filhos, da casa, dirigir), mas essa submissão é negada e transformada em uma relação de serviço impessoal. A fábula opera mudando a história. A ideologia dos Park transforma sua posição de classe em algo natural, como se fosse o destino. Parasita expõe essa artificialidade, mostrando que a pureza da casa é mantida por uma camada de sujeira oculta, o porão, e que a "natureza" da riqueza é uma construção social e econômica. Se a fortuna econômica é um mito de pureza, o que o cheiro revela sobre a verdadeira natureza do capital? Como a arquitetura minimalista da casa dos Park funciona como um signo de distinção e exclusão? Qual é o mito que a classe baixa constrói para si mesma? “O mito da riqueza limpa é a utopia que o capital nos vende, mas o cheiro da miséria é o Real que insiste em denunciar a sujeira da submissão exploratória.” - Dan Mena Pedra do scholar simbolismo meritocracia Parasita análise de Dan Mena O Capital como Negador da Lei Simbólica A Subversão da Função Paterna e Materna Dita perversão em Parasita não se limita a desvios sexuais, mas se estende à estrutura social e familiar. O capital, como um ‘’Grande Perverso’’ , subverte a ‘’Lei Simbólica’’ , a função paterna, ao prometer um gozo ilimitado através do consumo e da acumulação, negando a castração e a falta que constituem o sujeito. "O gozo do capital é a maldade que nos promete o tudo, mas nos entrega a falta." Dan Mena Em ambas as famílias, a função paterna e materna é distorcida pela lógica do mercado. Na família Park, a Sra. Park, a mãe, é a encarnação da mãe fálica (na terminologia freudiana), que acredita ter o poder de satisfazer todos os desejos dos filhos através do dinheiro, mas que é dependente dos serviços externos. O Sr. Park, o pai, é uma figura paterna esvaziada de autoridade simbólica, reduzido a um provedor de recursos e a um objeto de repulsa (o cheiro). Sua função é substituída pela do dinheiro. Na família Kim, a corrupção se manifesta na inversão de papéis. O Pai Kim (Ki-taek) é inicialmente passivo e resignado, deixando que a astúcia dos filhos e da esposa conduza a infiltração. A família opera como uma microempresa a serviço da ascensão, onde o laço afetivo é instrumentalizado pela lógica do mercado. A imoralidade aqui é usar a família para fins de acumulação e sobrevivência. O capital, ao se infiltrar nas relações familiares, transforma o valor de uso, afeto, cuidado e solidariedade em valor de troca; serviço, dinheiro e performance. A família Kim só se torna "funcional" quando age como um time de golpistas. Essa negação da Lei que impõe limites e a substituição desta regra pela pulsão de gozo (o consumo desenfreado, a acumulação sem limites). O porão, com sua família secreta, é o sintoma dessa devassidão, a família que foi descartada e escondida para que a elucubração da família Park pudesse se manter. "A castração simbólica é o limite que o capital em sua onipotência desumana tenta incessantemente abolir." Dan Mena Como o capital esvazia a autoridade simbólica da figura paterna, o transformando em mero provedor? A instrumentalização da família para a ascensão social é uma perversão ou uma adaptação ao sistema? O que acontece com o afeto quando ele é regido pela lógica do valor de troca? “A família, sob o jugo do capital, deixa de ser o berço do afeto para se tornar a microempresa da sobrevivência, onde o valor de troca perverte o laço de sangue.” - Dan Mena Casa dos Park fantasia burguesa ideologia em Parasita A Experiência da Chuva: Manipulação Emocional O impacto subjetivo do filme, a forma como a direção, a atuação e o ritmo manipulam as emoções do espectador, pode ser visto na sequência da chuva. Ela é o ápice desse manejo emocional, um momento de virada que transforma a comédia de costumes em tragédia social. A chuva não é apenas um evento climático, é um agente de caos e revelação. Isso opera uma distinção brutal entre as classes. Para os Park, é um inconveniente que estraga um acampamento e permite uma noite romântica na sala de estar; para os Kim, uma catástrofe que destrói seu lar e os força a uma fuga desesperada e humilhante. Uma identificação inicial com a astúcia dos Kim, que se transforma em horror e empatia pela sua vulnerabilidade. A direção de Bong Joon-ho utiliza o ritmo e a montagem para intensificar essa experiência. A cena da descida frenética dos Kim pelas escadas e vielas até sua casa, contrasta com a ascensão tranquila dos Park em seu carro, é um golpe emocional angustiante que nos força a sentir a diferença de classe não como um conceito abstrato, mas como uma situação real e física de descida e submersão. O espectador é forçado a acarear a injustiça da situação, e sentir a água suja invadindo sua alma, os ratos e a imundícia no lar dos Kim . A estratégia emocional é absolutamente relevante para a crítica social do filme. Ao nos fazer sentir de perto a humilhação dos Kim, o filme quebra a cegueira ideológica que nos permite ignorar o desamparo. A chuva é o momento em que a fantasia de coexistência pacífica se desfaz, e o Real da desigualdade se impõe com força destrutiva. Tal articulação emocional de Kael é, aqui, uma forma de conscientização, que utiliza a arte para nos coagir a sentir o que a ideologia nos ensina a ignorar. Chuva como agente de caos trauma em Parasita Bong Joon-ho "O cinema, como sonho diurno, nos permite confrontar o trauma que a vigília ideológica nos proíbe de ver." Dan Mena A rótula emocional do filme é uma forma de nos confrontar com o trauma social, mas seria a arte capaz de gerar uma mudança real? O contraste entre a ascensão e a descida é apenas cinematográfico ou mostra a estrutura psíquica verdadeira da luta de classes? Qual é o papel da empatia na quebra da ideologia? “A arte não é um reflexão da realidade, mas a chuva que inunda a alma, nos implicando a sentir a sujeira da injustiça que a ideologia nos ensina a dessaber.” - Dan Mena O Dilema da Realidade e a Condição do Ser O Realismo Ontológico e a Essência da Luta de Classes Esse realismo ontológico, a ideia de que o cinema tem a vocação de registrar a realidade em sua ambiguidade está escancarada em Parasita, Bong Joon-ho joga bem com essa percepção, utilizando um realismo social agudo para construir uma parábola hiper-realista sobre a nossa condição contemporânea. O filme não busca um reflexo fiel e documental da realidade sul-coreana, mas constrói uma realidade própria, a casa labiríntica, o porão secreto, que é mais fático em seu simbolismo social do que em sua literalidade. A escolha do diretor é mostrar a essência dessa escaramuça, a verdade que se esconde sob a superfície da convivência, usando um realismo da meta-realidade. A casa dos Park, é um espaço que se pretende transparente e aberto, mas que esconde um segredo sombrio, o porão. Essa dualidade é a essência da sociedade de classes, uma tábua da riqueza e da ordem que omite a dependência e a miséria. O filme utiliza o enquadramento e a iluminação inteligente para reforçar essa sinalização, com os Kim geralmente filmados em planos fechados e escuros, contrastando com a luminosidade e a amplitude dos Park. A parábola realista de Parasita nos diz que a nossa condição é inseparável do social. A liberdade e a moralidade dos personagens são determinadas por sua posição na estrutura de classes. Os Park podem se dar ao luxo de serem "bons" e "ingênuos" porque o dinheiro os protege das escolhas morais difíceis e éticas. Os Kim são forçados à usar da astúcia e à mentira para sobreviver. A escolha do diretor de construir essa fábula esclarece a autenticidade e a performance identitária. Park Dong-ik negação da realidade burguesa em Parasita Quem é o verdadeiro parasita? Aquele que se infiltra por necessidade ou aquele que vive da exploração invisível dos menos favorecidos? A parábola de Bong Joon-ho é mais eficaz para a crítica social do que um documentário? A nossa condição atual é determinada pela classe social ou a classe social é apenas um sintoma da nossa condição? O que a dualidade entre a superfície e o porão expõe sobre a moralidade contemporânea? “A realidade no cinema não é o que se vê, mas a verdade estrutural que se esconde inconsciente no porão da alma e da sociedade.” - Dan Mena O Ciclo de Violência e Luta de Classes em Freud A Destrutividade Inconsciente e o Retorno do Recalque A análise atinge aqui sua máxima potência ao examinar a pulsão de morte e a compulsão à repetição em Freud, forças motrizes no clímax de Parasita. A luta de classes, como trauma social, gera uma energia destrutiva que, quando não simbolizada, retorna na forma de violência pura. A pulsão de morte (Thanatos), é a tendência inerente do organismo a retornar a um estado inorgânico, uma força destrutiva que se manifesta na agressão e na autodestruição. Em Parasita, essa pulsão se direciona para a violência crescente entre as famílias Kim e a do porão, e culmina no assassinato do Sr. Park pelo Pai Kim. Esse ato, não é um crime racional, é a irrupção da pulsão de morte, a descarga de uma agressão acumulada pela humilhação e pela negação de sua humanidade (o cheiro). "A pulsão de morte é a energia que o trauma social, não simbolizado, utiliza para retornar e exigir sua repetição." Dan Mena A compulsão à repetição é a tendência do inconsciente de reviver experiências traumáticas, na tentativa fracassada de poder dominar seu retorno. Uma peleja classista é o trauma que se repete. A família Kim, ao se infiltrar, repete o ciclo dessa dependência, apenas invertendo os papéis. O Pai Kim, ao se esconder no porão, reitera o destino do ex-empregado, se tornando o novo fantasma da casa, o Real do recalque. O ciclo de violência e dependência se repisa, mostrando que a estrutura de classes é um sistema que se auto-reproduz, um trauma que insiste em retornar. "O abalo traumático não escolhe suas vítimas, mas são elas que escolhem como transformar a dor em narrativa de sobrevivência." Dan Mena O porão como recalque social da mitologia moderna em Parasita O assassinato do Sr. Park é o ato falho final, o momento em que o inconsciente social se manifesta. O Pai Kim não mata o Sr. Park por ódio pessoal, mas pela repulsa do cheiro, o significante da sua própria exclusão. Ele mata o símbolo da negação, o que o impede de ser reconhecido. Essa manifestação da pulsão de morte é dirigida ao objeto, que representa a barreira intransponível da classe. A única saída para a compulsão à repetição seria a simbolização, a transformação da dor em narrativa e em ação política consciente. O final do filme, com Ki-woo prometendo comprar a casa, é a tentativa de sublimação, de alterar a pulsão destrutiva em um projeto de vida. No entanto, a cena final, com a promessa se dissolvendo na realidade, sugere que o ciclo repetitivo e a pulsão de morte permanecem ativos. A violência final é uma catarse ou apenas a repetição do trauma social? A pulsão de morte é uma força individual ou é alimentada pela estrutura de classes? A promessa de Ki-woo é uma sublimação real ou apenas uma nova fantasia ideológica? “A pulsão de morte não é o fim, mas o retorno incessante do trauma que a ideologia insiste em recalcar, nos condenando à repetição da violência.” - Dan Mena A Ferida que Permanece Aberta Parasita é uma obra que nos entrega a ferida aberta da nossa própria sociedade. Nesta análise psicanalítica que faço, desvendo a inveja como propulsor, o desejo como falta estrutural e a luta de classes como trauma, o que me oprime a reconhecer que a desigualdade não é apenas uma questão de distribuição de renda, mas uma patologia que se aloja na alma. O capital, em sua lógica perversa, não apenas explora o trabalho, mas coloniza o inconsciente do trabalhador, transformando o afeto em performance e a família em instrumento de ascensão. O que resta ao final é a sensação de que a violência não foi resolvida, mas apenas o recalque colocado em um novo porão. O Pai Kim, escondido, se torna o fantasma da consciência social, o Real que a sociedade sul-coreana (e global) prefere ignorar. A promessa de Ki-woo de comprar a casa, embora comovente, é a última e mais dolorosa fantasia ideológica, a crença de que o problema da classe pode ser resolvido pelo esforço individual e pela acumulação, e não pela transformação estrutural da civilização moderna. O filme nos deixa com a imagem de Ki-woo voltando à sua semi-subterrânea, a promessa se desfazendo em fumaça, e a fase final se fechando. Kim Ki-taek, o ato falho final do trauma em Parasita A verdadeira virada conceitual que Parasita nos impõe é a de que as (castas contemporâneas) mantêm, antes de tudo, uma luta fatal e psíquica. É a batalha entre a pulsão de vida, o desejo de ascensão, a solidariedade familiar e a pulsão de morte (a destrutividade da inveja, a violência do Real). O filme nos questiona: Até que ponto estamos dispostos a confrontar o cheiro da nossa própria miséria e da alheia? A tragédia final não é o assassinato, mas a impossibilidade de simbolização, a condenação à repetição do trauma. A obra nos oferece uma pergunta sobre a nossa própria cumplicidade sobre o tema. Ao rirmos da astúcia dos Kim e nos horrorizar com a violência, estamos apenas consumindo a tragédia como entretenimento, ou estamos dispostos a quebrar o ciclo? O cheiro que o Sr. Park tanto repudiava não era o dos Kim, mas o odor da verdade que ele se recusava a cheirar. E nós, espectadores, estamos dispostos a sentir o cheiro do Real que se esconde sob o tapete da nossa ideologia? A resposta a essa pergunta é o verdadeiro legado do filme Parasita. Hashtags #Parasita #Parasite #BongJoonHo #AnalisePsicanalitica #EstruturaDeClasses #TraumaSocial #InvejaEDesejo #Freud #Lacan #CinemaePsicanalise #MetodoZizek #RolandBarthes #AndreBazin #PsicologiaDoCinema #CompulsaoARepeticao #PulsaoDeMorte #Ideologia #RealLacaniano #Perversao #AnaliseSocial Palavras-Chave análise psicanalítica Parasita, trauma social luta de classes, Parasite Bong Joon-ho análise psicológica, perfil psicológico Kim Ki-woo, Park Dong-ik negação da realidade, Kim Ki-taek ato falho, inveja e desejo estrutura de classes, Real Simbólico Imaginário Parasita, ideologia meritocracia cinema, mitologia moderna Roland Barthes Parasita, perversão relações familiares capital, pulsão de morte Freud Lacan Parasita, compulsão à repetição psicanálise cinema, neurociência do trauma e cinema, desejo e lei Parasita, análise social Parasite, o inconsciente no cinema Bong Joon-ho, psicologia do trauma social, sexualidade e desejo psicanalítico. FAQ 'Parasita' O que é o trauma social em Parasita? É a violência estrutural da desigualdade de classes que se inscreve no psiquismo coletivo, manifestando-se na humilhação e na destrutividade. Como o cheiro se relaciona com a psicanálise no filme? O cheiro é o "objeto a" lacaniano, o resto irredutível que denuncia a origem de classe e resiste à simbolização, quebrando a fantasia dos Park. Qual é a ideologia crítica em Parasita? A ideologia da meritocracia, que prega que a riqueza é merecida e a pobreza é uma falha individual, mascarando a exploração estrutural. O que a chuva simboliza na narrativa? A chuva é um agente de caos que expõe a diferença de classe, sendo um inconveniente para os ricos e uma catástrofe para os pobres. A família Kim é realmente parasita? O filme sugere que o verdadeiro parasita é o sistema capitalista, que força a dependência e a exploração mútua para a sobrevivência. O que é a perversão das relações familiares pelo capital? É a instrumentalização do afeto e do laço familiar pela lógica do mercado, transformando a família em uma microempresa de ascensão social. O que o porão representa? O porão é o espaço do recalque social, onde a verdade da exploração e da dependência é escondida para manter a fantasia da riqueza limpa. O assassinato do Sr. Park é um ato racional? Não, é a irrupção do Real traumático, a manifestação da pulsão de morte desencadeada pela humilhação do cheiro. O que é a "pedra do scholar" que Ki-woo carrega? É um símbolo de ascensão social e riqueza, mas que se revela ineficaz e se torna uma arma, representando a ilusão da meritocracia. Como a arquitetura da casa dos Park reflete a ideologia? O design minimalista e transparente da casa é a materialização da fantasia burguesa de "riqueza limpa", isolada da sujeira do trabalho e da miséria. O que você diria sobre a inveja em Parasita? Veria a inveja como o motor que impulsiona a fantasia de substituição, onde a família Kim deseja ser os Park, e não apenas ter o que eles têm. Qual é o papel da Sra. Park na crítica social? Ela encarna a "cegueira ideológica" da classe dominante, cuja bondade só existe pela negação da realidade da exploração. O que é a pulsão de morte no contexto do filme? É a energia destrutiva que retorna no clímax, manifestada na violência, como resultado do trauma social não simbolizado. O que significa a promessa de Ki-woo d e comprar a casa? É a tentativa de sublimação do trauma, transformando a pulsão destrutiva em um projeto de vida, mas que o filme sugere ser uma nova fantasia ideológica. O que o filme revela sobre a nossa condição? Ele revela que a nossa condição é inseparável da social, e que a moralidade e a liberdade são determinadas pela posição na estrutura de classes. Referências Bibliográficas BIRMAN, Joel. Mal-estar na atualidade: A psicanálise e as novas formas de subjetivação. 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Links Externos Entrevista com Bong Joon-ho sobre a luta de classes em 'Parasita' Análise do uso do espaço e arquitetura em 'Parasita' pela perspectiva cinematográfica O conceito de "cheiro" e a barreira de classe na Coreia do Sul Artigo acadêmico sobre a psicanálise lacaniana e a ideologia em Žižek A influência de André Bazin no cinema contemporâneo Análise crítica de Pauline Kael sobre o impacto emocional no cinema O mito da meritocracia na sociedade sul-coreana A pulsão de morte em Freud e a violência social A perversão das relações familiares pelo capitalismo Análise da simbologia da pedra de scholar em 'Parasita' Links Internos Além do Estupro: A Dinâmica de Poder e Desejo no filme "Elle" Análise Psicanalítica de "Cisne Negro": Trauma e Desdobramento da Personalidade O Inconsciente e a Ideologia: Uma Leitura de Slavoj Žižek Trauma e Compulsão à Repetição: O Ciclo da Violência A Função Paterna e a Lei Simbólica na Sociedade Contemporânea O Desejo do Outro: Uma Perspectiva Lacaniana sobre o Consumo A Mitologia do Corpo Perfeito em Roland Barthes Neurociência do Trauma: Como o Cérebro Reage à Violência Social A Ética da Vingança: Dilemas Morais no Cinema Psicologia da Inveja: Da Teoria de Melanie Klein à Crítica Social Visite minha loja ou site: https://www.danmena.com.br/ https://uiclap.bio/danielmena Dan Mena – Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise (CNP 1199, desde 2018); Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise (CBP 2022130, desde 2020); Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University – Florida Department of Education, EUA (Enrollment H715 / Register H0192); Pesquisador em Neurociência do Desenvolvimento – PUCRS (ORCID™); Especialista em Sexologia e Sexualidade – Therapist University, Miami, EUA (RQH W-19222 / Registro Internacional).
- Euphoria: Análise Psicanalítica do Exibicionismo na Era Digital
Euphoria: Análise Psicanalítica do Exibicionismo na Era Digital Euphoria: Análise Psicanalítica do Exibicionismo na Era Digital O Espelho Distorcido da Geração Z A contemporaneidade, marcada pela ubiquidade das redes sociais e pela cultura da performance, r edefiniu as fronteiras entre o íntimo, privado e o público , transformando a autoexposição em uma moeda de troca social e afetiva. Neste cenário de hipervisibilidade, a série Euphoria (HBO, 2019) , criada e escrita por Sam Levinson , aparece não apenas como um retrato geracional cru e esteticamente arrojado, mas como um sintoma cultural de nossa época. A obra, produzida pela A24 e com Zendaya no papel principal , encontra sua narrativa adolescente sobre drogas e sexualidade, se posicionando estrategicamente para uma análise psicanalítica sobre a dependência à auto-exposição e o exibicionismo digital. Nesta imersão na estrutura psíquica dos personagens centrais da série ''Euphoria'' , utilizo a teoria da psicanálise freudo-lacaniana para lançar a descoberta das dinâmicas inconscientes que sustentam a compulsão por "ser visto" na era das telas e outras perspectivas presentes. A série, com sua direção de arte saturada e sua fotografia neon, não apenas ilustra e desenha, mas encena perfeitamente a pulsão escópica em sua forma mais atual na busca incessante por validação através do olhar do ‘’Outro digital’’ . ‘’Toda exposição é uma economia do desejo, alguém oferece o corpo ao olhar, o outro consome, e ambos fingem que não há pacto.’’ - Dan Mena O foco analítico recairá sobre a intersecção entre o exibicionismo como perversão e como mecanismo de defesa, a dependência química e afetiva, e a forma como o trauma infantil se manifesta na necessidade adulta de espetacularização da dor. Vou desdobrar essa crítica, combinando a robustez acadêmica da psicanálise com a análise cinematográfica, interseccionando como a série aborda temas cruciais como as Dinâmicas do Desejo, o Fetichismo e a Construção da Feminilidade na adolescência. Ao desmembrar tais curvas psíquicas de seus protagonistas, a trilha serial expõe veementemente o ‘ ’Eu na Geração Z’’ , onde a identidade é constantemente negociada e renegociada no palco virtual. Euphoria: Análise Psicanalítica do Exibicionismo na Era Digital O exibicionismo nasce quando o olhar alheio se torna mais real que a própria pele.'' - Dan Mena A busca por aprovação revela mais sobre quem observa do que quem é observado. Vamos além da superfície glamourizada e do neon, eu perscruto essa vertigem psicológica que a série tão corajosamente apresenta. Não vou me limitar ao resumo, busco uma perspectiva lateral e inédita do fundo mental e o impacto social da obra. O objetivo é elucidar como a cultura da exposição se tornou um sintoma de um mal-estar maior, onde a visibilidade se confunde perigosamente com a existência. ''Nada é tão dimensional quanto o silêncio do observador, ele consome sem declarar sua presença.'' - Dan Mena Perfis Psicológicos em Detalhe O motor de Euphoria reside na elaboração densa e enredada de seus personagens, cada um representando uma faceta da crise identitária e da vulnerabilidade psíquica da juventude moderna. Vou propor em cima de três figuras centrais, cujas identidades são ligadas ao exibicionismo. Rue Bennett (interpretada por Zendaya) é a narradora da série e o eixo central da trama. Seu perfil é marcado por uma dependência química em opioides, que a psicanálise interpreta como uma tentativa desesperada de tamponar um trauma primário e uma falta estrutural. Sua auto-exposição não é originalmente sexual, mas sim, a amostragem de sua aflição e seu vício. Ela se expõe ao risco, à vulnerabilidade e à autodestruição, numa repetição compulsiva que busca a atenção e o cuidado que lhe faltaram. Essa submissão viciosa é a manifestação de uma pulsão de morte que se traveste de busca por prazer imediato. Seu estilo de vestir, andrógino e desleixado, é um contraponto ao exibicionismo estético das outras personagens, sugerindo uma recusa em participar do jogo da atuação, exceto quando se trata de performar seu próprio padecimento. Jules Vaughn (interpretada por Hunter Schafer) simboliza a travessia da construção da identidade de gênero e a busca por aceitação. Seu exibicionismo é estético e corporal, manifestado em seu estilo vibrante e na sua constante negociação com o desejo masculino. Vejo em Jules a luta por um corpo próprio, que não seja apenas o objeto do desejo do ‘’Outro’’ , mas o suporte e sustentação de sua própria subjetividade. Sua história de transição e a relação com o pai ausente criaram uma ferida que ela tenta suturar através da hiper-sexualização e da exposição em aplicativos de encontros. A vaidade exibicionista de Jules é uma tentativa de dominar o olhar que a julga, transformando isso em um arbítrio que a deseje, um mecanismo de defesa contra a ansiedade e a não-aceitação. Cassie Howard (interpretada por Sydney Sweeney) o arquétipo da personagem cuja identidade é inteiramente elaborada a partir do desejo. Sua auto-promoção é a mais clássica e performática, focado na construção da feminilidade através da beleza e da sexualidade. Sua dependência afetiva é patológica do seu corpo se converte no principal instrumento para obter amor. Podemos situar aqui uma fixação na fase fálica, onde a busca por ser o objeto de desejo masculino é a única forma de se sentir completa. Sua auto-exposição, beirando o ridículo e o desespero, como representado na cena da banheira, é a pura manifestação de uma falta insuportável, um grito por reconhecimento que a leva a se anular em função dessa contemplação. ''A verdadeira exposição não ocorre na luz, mas no instante em que o olhar do outro captura o que ainda não assumimos ser.'' - Dan Mena O olhar do ''Outro'' pode consumir tanto quanto iluminar. Pulsão Escópica, Voyeurismo e a Tela Infinita A série é, em sua essência, uma narrativa sobre o olhar. A câmera perspicaz de Sam Levinson é voyeurística, invasiva e cúmplice, tal como a mecânica das redes sociais. Tudo isso se conjuga como pares pulsionais indissociáveis nas manifestações das pulsões. A Estrutura do Exibicionismo Uma das ocorrências da sexualidade infantil, é o prazer de mostrar o corpo em sua plenitude. Em sua forma perversa, ele se torna uma finalidade em si, desvinculada da relação objetal. No entanto, a leitura lacaniana oferece uma visão maior ao reintroduzir o conceito de ‘ ’olhar como objeto a’’ (objeto causa do desejo) , assim, eleva a pulsão do observatório a um estatuto fundamental na constituição do sujeito. O ser sedento por atenção na era digital, não busca simplesmente mostrar-se, deseja muito o reconhecimento de sua imagem pelo ‘’Outro’’ . A tela do celular e a ' 'timeline'' do Instagram se tornam o refletor onde o sujeito tenta, desesperadamente, unificar sua imagem fragmentada. O like e o comentário, são a confirmação fugaz de que "eu existo, porque sou visto" . Tal dependência a subjugação como confirmação narcísica, cria um ciclo vicioso onde a vitrine nunca é suficiente para preencher o furo da falta. ''O narcisismo é o palco interno onde o sujeito se vê, se deseja e se mantém refém da própria inspeção.'' - Dan Mena A Ditadura do "Ser Visto" na Validação e a Economia do Desejo A racionalização do desejo nas redes sociais é baseada na visibilidade contínua. A Geração Z, imersa nessa lógica desde a infância, internalizou a máxima de que a não-exposição equivale à não-existência. O exibicionismo, antes marcado como um desvio temporal, se tornou agora um dispositivo de pertencimento. Práticas de auto-apresentação passam a operar como linguagem produzindo identidades moldadas por métricas, reações instantâneas e pela expectativa de constante atualização do próprio eu.' ''Toda máscara é uma forma de nudez invertida onde escondemos o rosto para expor o desejo.'' - Dan Mena A estética hiper-realista e a constante presença de câmeras (sejam as do celular ou a da própria série) sublinham a ditadura social. Os personagens se vestem, se maquiam e se comportam para a câmera, mesmo quando estão sozinhos(as). Essa afirmação, antes buscada no seio familiar ou em relações íntimas, é agora terceirizada para uma audiência anônima e insaciável . A autoestima atualmente é medida como um índice de engajamento, e a fragilidade do Eu, mascarada pela performance de uma vida "perfeita" ou, "autêntica" em sua dor. "A tela não é um mero suporte, mas o novo palco onde o sujeito, em sua eterna busca pelo amor do ‘’Outro’’, encena a tragédia de sua incompletude." - Dan Mena Se o like é a nova moeda de validação, qual o custo psíquico de uma postagem que não gera engajamento ou likes? De que forma a estética visual saturada de Euphoria atua como um véu que, paradoxalmente, aventa a nudez emocional dos personagens? O exibicionismo digital é uma evolução da pulsão escópica ou uma nova forma de aprisionamento do sujeito ao olhar do ‘’Outro’’? Traumas antigos moldam o Eu de formas silenciosas. A série não hesita em levantar a sexualidade e o corpo de forma explícita, o que a torna um objeto de estudo valioso para psicanalistas. O corpo, neste âmbito, é um campo debatedor, um fetiche é um instrumento de poder e vulnerabilidade. O Fetichismo do Olhar e a Desumanização do Sujeito A ‘’ancoragem imaginária’’ na psicanálise, é a substituição do objeto sexual normal por outro, (também objeto), geralmente uma fragmentação do corpo ou um símbolo inanimado. Em Euphoria, se manifesta de forma sutil, mas poderosa, no olhar. O corpo, especialmente o feminino, é dividido e objetificado pela câmera e pelos outros personagens. O caso de Nate Jacobs , e seu pai, Cal , ilustra essa perversão do fitar. O escrutínio de Cal busca o prazer na contemplação voyeurística e na coleção de imagens, transformando o sujeito em mero ícone de sua fantasia. A ostentação exibicionista de Cassie alimenta essa excitação, pois ela se oferece como o objeto idealizado, na esperança de que o desejo do ‘’Outro’’ a constitua. Sua composição física se torna um espetáculo, e a pessoa por trás dele se desumaniza no processo. ''O exibicionista não mostra o corpo, ele exibe a ferida invisível que implora por testemunhos. - Dan Mena A Sexualidade Exposta, entre a Libertação e a Vulnerabilidade A série apresenta a sexualidade adolescente como algo fluido e doloroso. A exposição sexual, seja nas fotos de Maddy ou na performance de Jules , é ambivalente. Pode ser lida como um ato de libertação e apropriação do próprio corpo, mas, sob a lente psicanalítica, seria um ato de vulnerabilidade extrema. A mostração da intimidade, em vez de gerar conexão, resulta em isolamento. O sujeito se publicita na esperança de ser amado por quem realmente é, mas o que recebe é o desejo fetichizado, que ignora sua existência e subjetividade. A sexualidade, desvinculada do afeto e da palavra, vira um ato repetitivo e vazio, uma nova forma de aderência compulsória. "O corpo exposto na tela digital é o palco da eterna repetição, onde o sujeito tenta, em vão, reescrever o roteiro de um trauma que insiste em não ser visto." - Dan Mena Em que medida a hipersexualização dos personagens de Euphoria é uma crítica à cultura do consumo ou uma mera reprodução fetichista? Como a psicanálise explica a compulsão de Cassie em se tornar o objeto do desejo masculino, mesmo que isso a leve à auto-destruição? O que a série nos diz sobre a diferença entre a exposição como ato de liberdade e a exposição como sintoma de uma ferida narcísica? Máscaras e maquiagem escondem tanto quanto revelam. A era da tecnologia é a era do narcisismo em escala pandêmica. O conceito psicanalítico de narcisismo, que se refere ao investimento libidinal no próprio Eu, ganha novas nuances nesta cultura do desnudamento subjetivo. ''A exposição é sempre assimétrica, onde um se arrisca, o outro julga e ambos se excitam.'' Dan Mena A Ferida Narcísica e a Necessidade de Likes Em sua forma saudável o egotismo é essencial para a constituição do ‘’Eu’’ . Destarte, o que vemos é a manifestação de um ''narcisismo patológico'' , onde essa cicatriz aberta (a falta de amor e reconhecimento na infância) é constantemente rasgada e tentada a ser suturada pelo feedback externo. O like e o comentário positivo funcionam como um objeto transicional digital, uma dose de dopamina que confirma a ilusão de um ‘’Eu’’ completo e amado . O apego disfuncional à auto-exposição é a confirmação da fixação estruturante a essa dose psíquica. A fragilidade do ‘’Eu’’ é tamanha que ele não consegue se sustentar sem o olhar constante do interlocutor. A ausência de validações virtuais é sentida como uma ameaça à própria existência, um retorno à angústia da desintegração. ''O espelho apenas cumpre sua função, devolve a imagem; é o olhar que fabrica as fantasias.'' - Dan Mena A Autoexposição como Mecanismo de Defesa Contra o Vazio Para muitos personagens da série, funciona como um mecanismo de defesa contra o vazio ontológico e a solidão. Ao encenar suas vidas, criam uma história que lhes confere sentido, uma importância. O drama, o trauma, a festa, tudo é material para a performance. A ausência como lugar da falta, o espaço onde o desejo pode aparecer. No entanto, a Geração Z, retratada em Euphoria, parece ter medo desse vácuo. Eles o preenchem com ruído, cores, luzes e exposição. A dependência digital é a fuga desse encontro consigo mesmo, um refúgio na imagem, onde tudo será trocado pelo superficial, banal e instantâneo. "O narcisismo digital não é o amor próprio, mas a eterna mendicância por um olhar que nos diga que somos dignos de existir." - Dan Mena Se a busca por validação é infinita, o que Euphoria nos ensina sobre a possibilidade de um Eu autêntico na era digital? Como a psicanálise explica a relação entre a baixa autoestima e a compulsão por se expor nas redes sociais? A glamourização do sofrimento em Euphoria é uma forma de defesa psíquica coletiva contra a dor real da adolescência? ''Máscaras não escondem nada, apenas organizam o caos interno em algo apresentável ao mundo.'' - Dan Mena Autoimagem digital é reflexo distorcido do que sentimos por dentro. Semiótica da Dor e da Glamourização A série é inseparável de sua estética. A direção de fotografia, o figurino e a maquiagem não são apenas adornos, mas elementos narrativos base que funcionam como um dispositivo semiótico. Figurino e Maquiagem como Máscara da Vulnerabilidade Em Euphoria são formas extremas de exibicionismo estético. Eles funcionam como disfarces que, paradoxalmente, transitam a vulnerabilidade dos personagens. A maquiagem com glitter e cores vibrantes, é uma tentativa de ofuscar a ruptura interna, de criar uma superfície brilhante que afaste o olhar do insondável. Essa cirurgia se estabelece como um sintoma. O excesso de adornos é uma forma de supercompensação para a fragilidade recalcada. Ao se vestirem de forma tão elaborada e performática, os personagens tentam controlar a forma como são vistos, transformando o olhar voyeurístico em admiração. ''O corpo exposto se transforma em território selvagem, quem olha coloniza, quem se mostra negocia.'' - Dan Mena Da Estética Neon a Hiper-realidade do Sofrimento Adolescente A iluminação neon e a fotografia saturada criam uma atmosfera de hiper-realidade. Podemos falar de um simulacro, onde a representação se torna mais real do que a própria realidade. O sofrimento dos adolescentes é transformado em arte pop. Essa modelagem é a origem da análise do exibicionismo. A série não foca unicamente na angústia, mas a espetaculariza, espelhando a forma como a punção emocional é consumida nas redes sociais. O espectador se torna um voyeur cúmplice, e a série, ao nos fazer olhar para o trauma com tanta beleza visual, nos força a confrontar nossa própria pulsão e desejo de absorver o desconsolo alheio. "A maquiagem de glitter é a armadura psíquica que a Geração Z veste para enfrentar o olhar impiedoso do mundo digital." - Dan Mena Como a estética de Euphoria se relaciona com a necessidade de glamourização do sofrimento nas redes sociais? O uso excessivo de neon e cores vibrantes é uma crítica à hiper-realidade ou uma celebração dela? Se o figurino é uma máscara, qual o momento na série em que o disfarce cai e o ‘’Eu’’ vulnerável é exposto? Glamourizar a dor é tornar a tristeza estética. A Lacuna Textual da Série A internet está repleta de resumos e críticas superficiais sobre Euphoria. Essa abstração linguística reside na ausência de um conteúdo que una a análise psicológica de autoridade (Freud, Lacan, Winnicott) com o espectro cinematográfico e a crítica social necessária a sua leitura invisível. Você, meu leitor(a), ao acessar termos técnicos como pulsão escópica, narcisismo digital, fetichismo do olhar e dependência à auto-exposição, se posiciona numa curva de aprendizado de alto valor emocional. ''A escópica é a arte de transformar o outro em superfície da sua projeção.'' - Dan Mena O exibicionismo digital não é uma moda passageira, mas um sintoma do século XXI e da crise do sujeito . A série, com sua paramentação ousada e narrativa visceral, nos empurra a colidir e encarar essa heteronomia como a nova forma de vício, onde a droga é o olhar e a abstinência à solidão. Rue, Jules e Cassie são mais do que artistas, são protótipos da Geração Z, presos na eterna repetição traumática que só pode ser encenada, mas, nunca verdadeiramente resolvida no palco virtual. A série é uma lente quebrada que despedaça nossa pulsão ocular. Nos deixa uma pergunta incômoda: Se a vida só tem valor quando é vista, o que resta de nós quando as telas se apagam? Validação externa é apenas o sintoma de uma falta interna que só pode ser preenchida pelo encontro com o ‘’Eu’’ , e não com a imagem arremessada. O que você fará com o que viu? Continuará a ser um voyeur ou ousará olhar para dentro? ''No teatro do exibicionismo, o público não é ausente nem opcional, ele é o próprio roteiro.'' - Dan Men a Euphoria Usa a Estética para Questionar a Própria Estética No âmago de análise faço uma pausa para delatar onde reside uma contradição fundante que é também minha mais arguta crítica. A série executa uma denúncia feroz da cultura do espetáculo por meio de uma ‘’teoria do belo’’ que ela mesma impulsiona a quintessência do majestoso. Esta não é uma falha propriamente, mas a sofisticação de sua mensagem. A direção de arte que transforma o suor em joias e as lágrimas em brilhos cintilantes, a edição frenética que imita o ‘’scroll’’ infinito das redes. Tudo isso compõe um véu de glamour que não esconde, mas enfatiza a nudez emocional dos personagens ao nos apresentar o martírio adolescente com uma magnificência visual tão sedutora e hiper-real. Sam Levinson não está simplesmente glamourizando o abalo impactante do trauma, está replicando a lógica perversa da economia da atenção na qual vivemos. Euphoria não se limita a criticar o voyeurismo, ela o encena e nos embala dentro dele. A ambiguidade é metodológica. Então, pergunto: é possível criticar o mecanismo sem utilizar suas próprias ferramentas, ou se, ao fazer isso, a crítica é inevitavelmente corrompida, se tornando mais uma mercadoria no grande palco digital que pretende desmontar? Esta auto-reflexão é o que eleva a obra de um simples retrato geracional a um sintoma cultural consciente de si. A Metáfora do Vazio no Palco Digital Chegamos ao fim, mas a verdadeira análise apenas começa. Euphoria não é uma série, é um diagnóstico cultural em neon. O que assistimos não é a vida de adolescentes, mas a encenação da crise na condição de ser na era da hiper-visibilidade. Tal cativeiro que se manifesta em Rue, Jules e Cassie, não é um desvio comportamental, senão, a nova normalidade de uma sociedade que terceirizou sua alma para o algoritmo. O tema exige a compreensão de que o exibicionismo digital é a última linha de defesa contra o vazio ontológico. A Geração Z, e todos nós que participamos de uma forma ou outra, estamos presos em um paradoxo cruel: quanto maior a vitrine, mais nos esvaziamos . Cada like é um curativo narcísico que impede a cicatrização da ferida original. O ''feed'' infinito não é uma galeria de vidas, mas um cemitério de subjetividades onde a autenticidade é sacrificada no altar teatral. A série nos confronta com a perversão da pulsão elevada ao cubo. Não somos mais simples ''voyeurs passivos'' , nos tornamos comparsas ativos de um sistema que monetiza o tormento e a suscetibilidade. A beleza na composição articulada de Euphoria é sua armadilha, o açúcar que torna palatável o veneno da reclusão. Ela nos seduz, enquanto o nosso embate permanece intocado, escondido sob a pele de um perfil perfeitamente curado e filtrado. ''Ser visto é uma forma de existir na contemporaneidade, ser consumido é uma forma de desaparecer dele.'' - Dan Mena Corpo e imagem se tornam espetáculo diante dos olhares alheios. O verdadeiro ato revolucionário, não estaria em desligar a tela, sair do Face e do Insta, mas em desligar o desejo como objetivo principal de ser visto e reconhecido(a). Eu chamaria isso de subversão do olhar. O que aconteceria se, por um instante, decidirmos que nossa existência não precisa de testemunhas? Se a liberdade não estivesse na exposição, mas na recusa em participar do espetáculo? Euphoria nos deixa a ponderação mais perigosa de todas, aquela que o algoritmo não pode responder: Se a sua vida fosse um artigo, qual seria o título que você daria para ele, sabendo que ninguém jamais o leria? Vulnerabilidade pode ser espetáculo e arma ao mesmo tempo. A resposta a essa pergunta é o único caminho para a independência. É o ato que pode transformar o palco digital em um espelho, e o ''voyeur'' em um sujeito. ''Entre o olhar e o corpo existe uma política altamente secreta, a do controle de quem pode desejar quem'' - Dan Mena Referências Bibliográficas FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Porto Alegre: L&PM, 2016. FREUD, Sigmund. O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago, 1997. LACAN, Jacques. Escritos. São Paulo: Perspectiva, 2014. LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. 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Palavras Chaves exibicionismo, autoexposição, narcisismodigital, Euphoriapsicanálise, pulsãoescópica, culturaovisibilidade, autoimagemonline, identidadeperformática, validaçãopelook, traumanarede, fetichismodoolhar, crisegeracional, subjetividadeZ, olharOutro, exposiçãoemocional, economiaovisual, espelhovirtual, Euphoriaestética, dependênciavisual, adolescênciaexposta #exibicionismo, #autoexposição, #narcisismodigital, #Euphoriapsicanálise, #pulsãoescópica, #culturaovisibilidade, #autoimagemonline, #identidadeperformática, #validaçãopelook, #traumanarede, #fetichismodoolhar, #crisegeracional, #subjetividadeZ, #olharOutro, #exposiçãoemocional, #economiaovisual, #espelhovirtual, #Euphoriaestética, #dependênciavisual, #adolescênciaexposta FAQ - Frequently Asked Questions O que é exibicionismo digital na série Euphoria da HBO? É o comportamento dos personagens que usam redes sociais para mostrar corpo, emoções e crises visando atenção e validação. Como a psicanálise explica o exibicionismo na série? A psicanálise entende o exibicionismo como busca do olhar do Outro, ligada a falta, desejo, narcisismo e necessidade de reconhecimento. Auto-exposição digital pode se tornar dependência? Sim. Quando a pessoa passa a precisar de curtidas e visibilidade para regular emoções, instala-se uma dependência psíquica. Por que os personagens de Euphoria se expõem tanto? Porque encontram na visibilidade digital uma forma de lidar com traumas, inseguranças e vulnerabilidades internas. O que é pulsão escópica e como aparece na série? É a pulsão do olhar, o desejo de ver e ser visto. Em Euphoria, ela surge em ''selfies'', vídeos, voyeurismo e performances online. Qual a relação entre narcisismo digital e exibicionismo? O narcisismo digital intensifica a necessidade de aprovação, levando à exposição contínua da autoimagem para manter a autoestima. O espelho em Euphoria tem significado psicanalítico? Sim. Ele simboliza o lugar onde o sujeito busca identidade, reconhecimento e confirmação do próprio valor. Por que as redes sociais amplificam comportamentos exibicionistas? Porque oferecem visibilidade imediata, métricas de atenção e sensação ilusória de amor e pertencimento. Exibir vulnerabilidade nas redes é perigoso? Sim. A vulnerabilidade pode virar espetáculo e reforçar a dependência emocional da validação digital. Como máscaras, filtros e maquiagem funcionam na psicanálise? São defesas psíquicas. Protegem, encobrem traumas e criam versões idealizadas do Eu para serem consumidas pelo público. O que a série revela sobre a identidade da Geração Z? Mostra que identidades digitais são fluidas, performáticas e construídas a partir do olhar dos outros. A auto-exposição pode gerar sofrimento psicológico? Sim. Pode causar ansiedade, baixa autoestima, comparação tóxica e sensação de não pertencimento. Como a estética de Euphoria estimula o exibicionismo? A linguagem visual sedutora transformadora, sexualidade e angústia em imagens hiper-estilizadas e compartilháveis. Existe diferença entre exibicionismo sexual e emocional? Sim. O sexual envolve corpo e erotização; o emocional expõe sentimentos, fragilidades e crises íntimas. O que podemos aprender sobre autoexposição observando Euphoria? Que o desejo de ser visto pode virar ciclo, quanto mais atenção recebida, mas o sujeito precisa se mostrar. Leia outros artigos relacionados no BLOG A Substância: A Tirania da Perfeição Estética, Narcisismo, Ideal do Ego A Inveja da Alma: Desejo e Perversão da Estrutura de Classes em Parasita A Tatuagem da Alma: Trauma, Sexualidade e Desejo em Os Homens que Não Amavam as Mulheres Estou Pensando em Acabar com Tudo: Solidão e Fantasia na Obra de Charlie Kaufman Garota Exemplar: Manipulação, Perversão e Falsa Identidade — O Espelho Quebrado do Casamento Moderno OPPENHEIMER e a Culpa do Criador: Poder e Superego O Show de Truman: O Espelho da Alma em um Mundo Fabricado Além do Estupro: Poder e Desejo no filme Elle Ninfomaníaca: Uma Odisseia Psicanalítica no Labirinto do Desejo Alice in Borderland: O Jogo Final e o Preço da Sobrevivência A Psicanálise dos Contos de Fadas: Histórias que Curam a Alma Análise Psicanalítica do Filme Secretária (Secretary, 2002): Desejo, Perversão e Submissão Conheça meu mais novo livro; EROS - O Poder do Desejo (Livro | Lançamento) Visite minha loja ou site: https://uiclap.bio/danielmena https://www.danmena.com.br/ Dan Mena – Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise (CNP 1199, desde 2018); Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise (CBP 2022130, desde 2020); Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University – Florida Department of Education, EUA (Enrollment H715 / Register H0192); Pesquisador em Neurociência do Desenvolvimento – PUCRS (ORCID™; Especialista em Sexologia pela – Therapist University, Miami, EUA (RQH W-19222 / Registro Internacional).
- Promising Young Woman (Bela Vingança): Psicanálise do Trauma e Vingança
Promising Young Woman (Bela Vingança): Psicanálise do Trauma e Vingança Promising Young Woman (Bela Vingança): Psicanálise do Trauma e Vingança O Espelho Estilhaçado da Justiça Implícita A experiência de imergir em Promising Young Woman Bela Vingança Psicanálise do Trauma e Vingança é daquelas que nos roubam o fôlego, um soco no estômago que dói por muito tempo depois dos créditos finais. É como se, de repente, uma lente de aumento implacável fosse colocada sobre a nossa sociedade, expondo em detalhes microscópicos as micro e macro-agressões cotidianas, os comentários aparentemente inofensivos e os comportamentos tóxicos que, em sua aparente insignificância, constroem e perpetuam a violência de gênero em escala alarmante. Vemos isso com extrema frequência nos noticiários. A cortina se rasga, somos forçados a enxergar o que sempre esteve ali, à vista de todos, mas convenientemente ignorado. O que vemos não é um retrato individual, nem a história de Cassandra Thomas , a protagonista em busca de redenção. O que se manifesta são os pedaços espalhados de uma estrutura social doente, carcomida por dentro, que clama por revisão. Emerald Fennell , com uma direção que beira a perfeição, nos entrega uma obra espetacular, distante da narrativa da vingança, tão comum no cinema hollywoodiano, com suas cenas de ação e a promessa vazia de um final feliz. Em vez disso, aponta com crueldade nossas falhas sociais, lançando o espectador numa discussão incômoda, acima de tudo, necessária sobre a busca por justiça, não aquela que se encontra nas instâncias dos tribunais, senão, a que reside no âmago da psique. No plano simbólico do reconhecimento da dor alheia e na árdua e frustrante tentativa de reparar o irreparável, de curar as chagas que a sociedade se esforça tanto em esconder. Desforra Psíquica e o Questionamento da Cumplicidade: O Constrangimento da Verdade em Bela Vingança. ''Quando o trauma cala a história, o símbolo sussurra o que a realidade tentou sepultar no silêncio dos cúmplices.'' - Dan Mena Cassie , a personagem central, personifica essa busca. Ela está presa em um ciclo vicioso, paralisada por um trauma que a consome, mesmo não sendo o dela. Ela assume essa dor como uma missão pessoal, uma cruz que carrega com resignação e autodestruição. Sua narrativa se desenrola como um luto interminável, uma fenda que se recusa a cicatrizar, pois o sistema que a causou se mantém inerte, negando a existência da própria ferida. Explorar Promising Young Woman (Bela Vingança): Psicanálise do Trauma e Vingança é ir além da crítica convencional, para não ser mais um. Quero desmantelar as nuances da culpa, essa que deveria assombrar os agressores quanto a sua internalização, aquela que se manifesta em sintomas, em padrões repetitivos, por fim, em um destino implacável. Cassie não busca apenas a punição dos culpados, ela anseia por algo muito mais desordenado: a validação da sua angústia, o reconhecimento do seu sofrimento. Se coloca em situações de risco, simulando vulnerabilidade, para confrontar homens aparentemente respeitáveis com a sua própria sombra, como o predador que se esconde por trás de sua fachada de normalidade. O que ofereço aos meu leitores(as) não é simplesmente uma crítica cinematográfica, gosto de pensar numa psicanálise cultural, um exame clínico da sociedade, algo que possa devolver ao filme aquilo que ele tem de mais incômodo, sua recusa em ser domesticado. O Impacto Social de Promising Young Woman: Um Documento Cultural sobre a Mudança de Paradigmas. Meu texto, pretende humildemente devolver ao filme a dimensão da cura que a obra, por sua natureza trágica, não pode oferecer. Vamos em frente. Cada um desses encontros representa um ato de resistência, uma tentativa desesperada de suturar uma sociedade que banaliza a hostilidade de gênero e silencia suas vítimas. Vou avaliar como o filme subverte o gênero "rape and revenge", (estupro e vingança) o transformando em um estudo perspicaz sobre a memória traumática e a busca por justiça em um mundo onde se calar é interpretado como consentimento, e o poder, sinônimo de impunidade. Mostrar como a vida de Cassie é uma tentativa inquieta de ressignificar o passado, de dar voz a quem foi silenciado e confrontar assim o universo com a realidade brutal que se esforça para ignorar. ''A ausência de culpa é o veneno social que transforma homens comuns em arquitetos da própria impunidade.'' - Dan Mena O Caso de “E.”, Um Estudo Analítico de Justiça Interior Entre os inúmeros casos clínicos que atravessam minha prática e poderiam se encaixar sobre a trajetória de Cassie no filme, há um que aparece de modo particular e sensível, capaz de afinar a escuta para o drama subterrâneo de ‘’Promising Young Woman’’ - (Bela Vingança) . Vou chamar essa paciente de ‘’E’’ ., uma jovem de trinta e um anos, cuja história se desdobrou ao longo do tempo, impregnado por um acontecimento que não lhe pertencia, mas que a definia por dentro de alguma forma. ‘’E’’, não buscou análise por um sintoma clássico. Chegou a consulta tomada por uma sensação nebulosa de suspensão, como se a habitasse uma vida emprestada, uma existência marcada por um trauma que não fora vivido por ela diretamente, mas que era vivido como se seu fosse. Sua melhor amiga fora vítima de violência sexual na adolescência e nunca encontrou amparo familiar, institucional ou social. O silêncio que se seguiu a esse episódio se transformou numa espécie de criptografia psíquica. Ao contar e se depositar no corpo de ‘’E’’., ela se tornou guardiã involuntária de um segredo que não era próprio, mas que a possuía. A Tutela das Instituições: Como o Sistema Jurídico Valoriza o Futuro do Agressor. No percurso analítico, identifiquei em ‘’E’’, uma forma sofisticada da compulsão à repetição, não ao retorno do seu trauma, mas do alheio, introjetado como missão ética e afetiva . Se estabeleceu nesse laço uma confusão de linguagens, na qual o amor pela amiga se converteu em identificação. Talvez, eu reconhecesse ali a tentativa de reparar o objeto interno ferido, um ‘’falso self moralizado’’ , erguido para sustentar um mundo que falhara com alguém que ela amava. Essa leitura também se movia no eixo para tamponar o furo simbólico deixado pela impotência do discurso social. Certamente ‘’E’’, adotou uma postura arquetípica da ‘’justiceira ferida’’ , uma ‘’Atena’’ deslocada para o século XXI. Quando menciono Atena, não o faço apenas como referência mitológica, mas como evocação simbólica que atravessa os séculos. A deusa que já nasce armada, filha da cabeça de Zeus, isto é, uma entidade cuja origem não é o ventre, mas o pensamento, a estratégia, a razão convertida em ‘’potência defensiva’’ . Em inúmeras passagens, ela aparece como guardiã da justiça, mas uma lei que raramente se confunde com a compaixão. Uma razão psíquica estruturante, que intervém quando a ordem simbólica se rompe. Nesse sentido, ‘’E’’ encarnou uma versão atual dessa figura, uma Atena moderna, embora sem armadura de bronze, mas movida por um senso interno de responsabilidade, carregando a espada não para ferir, mas para recompor. Sua postura não era heroica, mas sintomática, tentando corrigir o desequilíbrio ético que sua amiga nunca pôde dar nome, respondendo a um chamado que se alojou nela como missão involuntária. Assim, ‘’E’’ transformou a dor alheia em matéria moral, se tornando essa personagem ferida, não aquela que triunfa, mas, que eleva o peso do que deveria ser justo. Esse enigma, como mensagem traumática não decifrada pela amiga, buscou outra casa, e encontrou em ‘’E’’, um corpo disponível para lhe acolher. Por isso sempre insisto em falar, que o trauma das pessoas, na maioria dos casos, é uma história contada tarde demais, quando já encontrou múltiplos hospedeiros. Violência de Gênero em Filmes: A Inconveniência da Verdade e o Conforto do Silêncio. Ao longo da análise, ‘’E’’. me conta um ponto relevante, sua dor só teria sentido se pudesse se oferecer como gesto de restauração simbólica. Logo, ela não buscava vingança, mas um testemunho. Desejava, antes de tudo, que o mundo escutasse. Quando pôde nomear esse desejo não para agir, mas para existir, algo se deslocou. Não houve “cura” , mas ''descompressão do fardo'' , um alívio que surge quando a verdade finalmente encontra sua integração e linguagem. Portanto, espremo, Cassie (no filme), não teve essa passagem. Ela não buscou apoteose, senão legibilidade. Enquanto "É'', minha paciente, encontrou na palavra o seu ponto de retorno, por outra perspectiva ela encontra na morte seu marco de inscrição. A primeira sublima, a segunda denuncia. A primeira elabora; a segunda acusa. Destarte, ambas manifestam o mesmo princípio, há traumas que não pertencem a um indivíduo, mas a um campo subjetivo inteiro, e exigem, de algum modo, serem ouvidos para pacificar a alma. A Arquitetura da Reiteração: O Trauma como Fado e Liturgia A existência de Cassandra Thomas é um eterno retorno. Ela abandonou a faculdade de medicina, trabalha numa cafeteria e mora com seus pais, vive uma espécie de adolescência cristalizada. Essa estagnação não denota apatia, mas sim um sintoma eloquente. Em termos psicológicos, Cassie se encontra fixada no momento do trauma de sua amiga, Nina. A repetição de seus expedientes noturnos, simular embriaguez para desvelar a índole verdadeira dos "bons rapazes" , não é uma busca por prazer ou mesmo por uma desforra. É uma compulsão à repetição, um construto freudiano que descreve o ímpeto inconsciente de reviver vivências dolorosas na tentativa de as dominar. Cada indivíduo que ela confronta é um substituto, um ‘’stand-in’’ para o agressor original e para todos os que foram cúmplices em seu mutismo. Exegese Metapsicológica de Bela Vingança: A Subversão da Vingança Tradicional. O ritual de Cassie é meticulosamente urdido. A maquiagem desfeita, o corpo inerte, a súbita sobriedade, tudo é uma encenação calculada para romper a quarta parede da negação masculina . Ela não os agride fisicamente, sua arma é a gnose. Ao registrar cada conquista em seu diário, ela não está colecionando troféus, mas sim, erigindo um dossiê pessoal contra a omissão. Este ato de catalogação é um esforço para impor ordem ao caos do seu trauma, de transubstanciar a dor amorfa em dados concretos. Essa reiteração, funciona como uma liturgia profana, um empenho desesperado para alcançar uma reparação simbólica que a jurisdição formal jamais lhe poderia propiciar. Ela repete para não esquecer, mas, paradoxalmente, esse mesmo retorno a impede de progredir, aprisionada num ciclo de imobilidade. ''O corpo feminino, tantas vezes objetificado, se torna aqui a arma que desmascara a sombra escondida por trás da virtude performada.'' - Dan Mena Será que a iteração de um trauma, ainda que de forma controlada, pode de fato conduzir à convalescença, ou apenas aumenta a mágoa primordial? Até que ponto um ato simbólico pode suprir a ausência de uma equidade real e palpável? "A alma não busca retaliação, mas anseia suscitar no outro o reconhecimento da dor que a silenciou, na esperança de que, um dia, o mutismo cesse de clamar." - Dan Mena Trauma Sexual e Reparação: A Conexão entre a Memória Traumática e a Cinematografia. A Mecânica da Culpa, do Negacionismo à Projeção O filme Bela Vingança constitui um estudo exímio sobre as múltiplas facetas da culpa. A mais conspícua é a sua ausência nos algozes e coadjuvantes. O jurisconsulto, o reitor da universidade, as antigas companheiras de classe, todos(as), arquitetam historinhas auto-indulgentes para se eximir de responsabilidade. "Era um tempo diferente", "ela estava bêbada", "precisamos proteger o futuro de jovens promissores" . Essas afirmações são meros mecanismos de defesa psíquicos, racionalizações que sustentam uma base de poder e impunidade. A engrenagem da culpa na obra opera por deslocamento e denegação. A insuportável culpabilidade para o sistema, é lançada na vítima: ‘’ela arruinou a própria vida, ela estava querendo isso’’ . ''A reparação simbólica é o gesto que tenta religar o que o trauma partiu, mesmo que jamais restaure o que foi perdido.'' - Dan Mena Cassie, por sua vez, se torna o receptáculo desse sentimento repudiado. Ela carrega o ônus não apenas da violência sofrida por Nina, mas da inação de todos. Sua incumbência é uma tentativa de forçar a restituição dessa autoria aos seus legítimos detentores. Ao confrontar a reitora (Connie Britton) , ela não a acusa de um delito, mas de uma falha moral. A argúcia reside em demonstrar que a violência não se finda no ato em si, mas se perpetua na teia de cumplicidade que a encobre. Numa perspectiva kleiniana, é fundamental a capacidade de reparação. Sem a experiência da culpa, inexiste a possibilidade de reparar o dano infligido. Os personagens que Cassie confronta são inaptos a sentir essa sensatez genuína, pois isso abalaria os pilares de suas identidades e privilégios. A odisseia de Cassie é, portanto, uma tentativa de induzir a culpa para que a reparação, ainda que tardia e simbólica, possa ser deflagrada. Quando a culpa não é sentida pelo opressor, para onde ela se desloca? Pode a vítima, ou alguém que a represente, suportar esse fardo sem se aniquilar no processo? "A ausência de culpa no opressor não anula o débito; apenas o transfere para a consciência, que se torna coadjuvante pelo silêncio." - Dan Mena A Desforra Psíquica e a Subversão do Feminino Arquetípico O filme desconstrói de modo brilhante o arquétipo da vingadora. Cassie não se arma com pistolas e espadas, suas armas são a inteligência, a elocução e o próprio corpo colocado como isca e instrumento de equidade. Sua feminilidade é uma fantasia performática, os trajes em tons pastéis, as unhas policromáticas, o cabelo loiro e comprido. Essa estética que evoca uma inocência adolescente, estabelece um contraste lancinante com a obscuridade da sua missão. É uma subversão do cânone e das expectativas sociais sobre a mulher. Ela utiliza os estereótipos de fragilidade e doçura como uma camuflagem para sua fúria contida e sua mente estratégica. Esse desterro psíquico é mais sutil e, quiçá, mais devastador do que a violência física. Cassie não deseja tirar a vida dos homens que encontra; ela pretende aniquilar a certeza de sua inocência. Quer plantar uma semente de dúvida, um desconforto perene que os assombre sempre que lembrarem de uma mulher vulnerável. Psicologia Social do Abuso: A Responsabilidade Coletiva na Perpetuação da Violência. ''A culpa só produz reparação quando reconhecida; até lá, permanece um fardo lançado sobre o corpo errado.'' Dan Mena A cena com Ryan (Bo Burnham) , que parece ser a promessa de uma eclosão desse ciclo, é substancial. Ele representa o bom moço por excelência, mas sua ligação com o trauma primordial expõe a linha frágil entre o bem e o mal, e que a cumplicidade passiva é, em si, uma modalidade de atentado. Tal desilusão com Ryan é o golpe derradeiro que solidifica sua convicção de que a metamorfose não virá da redenção masculina, mas de um ato de sacrifício que force uma ruptura no sistema. Ao empregar a própria feminilidade como instrumento, Cassie está se fortalecendo, ainda que ironicamente diante dos moldes que a sociedade utiliza para subjugar? É factível uma represália puramente psíquica sem que ela contamine e destrua o retalhador? "A retaliação mais potente não é aquela que destrói o corpo do outro, mas a que implode a narrativa que sustenta sua isenção." - Dan Mena Reparação Simbólica como Ato Consumado O clímax de Bela Vingança é um dos mais debatidos e polarizados da cinematografia recente. O óbito de Cassie não é uma capitulação, mas o apogeu de sua estratégia de restauro. Ao se travestir de enfermeira, uma figura de zelo e convalescença e confrontar o carrasco, Al Monroe , em sua despedida de solteiro, ela detona no santuário da masculinidade tóxica. Sua intenção não era o homicídio, mas a estigmatização, se inscrever em seu corpo com o nome de Nina, tornando a memória viva da vítima indelével. Era um batismo de culpa, uma tentativa de compelir o agressor a portar fisicamente o peso de seu delito. ''O trauma não marca apenas o passado de alguém, ele redesenha o futuro com linhas que o sujeito não escolheu.'' - Dan Mena O Questionamento da Cumplicidade: A Audiência Confrontada pela Narrativa de Bela Vingança. O plano fracassa em sua execução, mas triunfa em seu desígnio. A morte de Cassie é prevista por ela como uma possibilidade concreta, é o ato final que assegura que a verdade apareça. As mensagens programadas, as provas remetidas, a localização de seu cadáver, tudo compõe um testamento previamente elaborado. Ela se sacrifica para que a justiça, ainda que póstuma, seja estabelecida. Em termos psicológicos, seu suicídio simbólico (que se torna literal) é a única via que ela encontra para romper a compulsão à reiteração e conferir um significado final à sua dor e à de Nina. Ela se torna o veneno e o antídoto. Seu falecimento não é um epílogo, mas uma transmissão. Delega de alguma forma o bastão da responsabilidade ao sistema legal, o forçando a agir. É a reparação última, se não se pode restabelecer o passado, se pode garantir que ele não seja esquecido e que gere consequências reais no presente. O custo de uma vida pode ser considerado um ato de ajuste válido, ou é a expressão máxima do desespero? Ao planejar a própria morte como peça central de sua retaliação, Cassie alcança a igualdade ou apenas perpetua o ciclo de violência, se voltando contra si mesma? "Por vezes, a única forma de reparar um mutismo ensurdecedor é reconfigurar seu grito, ainda que custe a própria voz." - Dan Mena O Perfil Psicológico dos Protagonistas Cassandra "Cassie" Thomas (Carey Mulligan) : é a personificação do trauma vicioso e do luto congelado. Sua identidade psíquica está amarrada à de Nina. Ela opera sob o domínio do que Freud denominou pulsão de morte, não no sentido de um desejo literal de morrer (embora isso se concretize), mas como uma força que busca desmantelar estruturas, dissolver tensões e retornar a um estado de quietude que foi subtraída de sua amiga. Seu perfil é o de uma justiceira, cuja audácia fulgurante e potencial foram sequestrados por uma missão reparadora. Ela padece de uma forma de estresse pós-traumático, vivendo em um estado de hipervigilância e dissociação. Sua aparente tranquilidade é uma couraça contra a dor avassaladora que carrega. ''A justiça simbólica, quando negada no mundo externo, busca abrigo no inconsciente, onde se torna a liturgia de resistência.'' - Dan Mena Ryan Cooper (Bo Burnham) : Ryan é o tipo do "nem todo homem" . Ele é cativante, espirituoso, aparentemente sensível e representa a promessa de normalidade e convalescença para Cassie. Psicologicamente, ele funciona como um objeto de teste. Sua falha em reconhecer a gravidade do acontecido e sua participação, ainda que passiva, no coro dos que duvidaram de Nina, o desmascaram. Ele não é um monstro, e essa é a questão, ele é a representação da cumplicidade medíocre, do homem fraco, que, por conveniência opta por não ver, não ouvir e não agir, se tornando um pilar silente do sistema. ''Há monstros que gritam, mas os mais perigosos são os que sorriem, certos de que o mundo protegerá seus segredos.'' - Dan Mena Al Monroe (Chris Lowell) : Al é o predador narcísico. Ele encapsula o privilégio masculino em sua forma mais deletéria. Sua completa ausência de remorso não é apenas sociopatia, é o produto de uma cultura que o assegura de sua impunidade. Para ele, o estupro de Nina não foi um evento traumático, mas um deslize juvenil, um pormenor em sua trajetória de sucesso. Seu perfil psicológico é marcado por uma denegação patológica e uma inaptidão para a empatia. Ele não percebe suas vítimas como iguais, mas como objetos para sua gratificação, descartáveis e efêmeros. Ele é o mal que não se reconhece como tal, o que o torna ainda mais perigoso. ''A ética não se resume a leis, mas ao rosto que encaramos quando a verdade se impõe.'' - Dan Mena Como a presença de personagens como Ryan pode ser mais insidiosa para a psique da vítima do que a malignidade explícita de um algoz? A identidade de Cassie é uma construção autêntica ou apenas um reflexo do trauma de Nina? "O monstro mais difícil de combater não é aquele que ruge na escuridão, mas aquele que sorri à luz do dia, convicto de sua própria virtude." - Dan Mena O Impacto Social e a Relevância Contemporânea Enxergo neste filme um documento cultural, um sismógrafo que registra os tremores de uma mudança de paradigmas. A obra dialoga muito diretamente com as discussões sobre cultura do estupro, aquiescência e a responsabilidade coletiva na perpetuação da violência de gênero. O filme apresenta a fragilidade do discurso que advoga para auscultar as vítimas, demonstrando como, na práxis, a dúvida, a culpabilização e a tutela das instituições ainda prevalecem. Vejo em Cassie um exemplo da frustração de inúmeras mulheres que viram suas denúncias serem desacreditadas ou minimizadas. A relevância do filme está em sua intrepidez de apontar o dedo não apenas para os delinquentes, mas para o ecossistema que permite que eles prosperem. Está tudo incluso, o sistema educacional, o jurídico e a própria estrutura social que valoriza mais o futuro de um jovem talento do que a existência de uma mulher. A estética pop e a trilha sonora contagiante, uma versão sinistra de "Toxic" de Britney Spears , funcionam como um Cavalo de Tróia, nos atraindo com uma embalagem sedutora para entregar uma mensagem dura e devastadora. A Estética Pop como Cavalo de Tróia: Subversão de Gênero e a Crítica à Aquiescência Social. O filme de certa forma constrange, quando questiona alguma cumplicidade. Quantas vezes já sorrimos de uma piada misógina? Ou duvidamos de uma vítima? Quantas vezes alguns preferem o conforto do silêncio à inconveniência da verdade? De que maneira a estética pop e o humor cáustico do filme potencializam ou diminuem o impacto de sua mensagem sobre a violência sexual? Pode uma obra de ficção realmente provocar uma alteração social, ou apenas colocar a amostra de ansiedades deste tempo? "A cultura é o solo onde a violência lança raízes. Para a extirpar, não basta podar os ramos; é imperioso revolver a gleba que a nutre." - Dan Mena A Cicatriz que se Converte em Cartografia O que fica de Promising Young Woman? Subsiste a imagem de uma mulher que modificou sua dor e dissecou a hipocrisia de uma sociedade. Cassie Thomas não é uma heroína no sentido clássico. Ela é uma figura trágica, uma mártir moderna cuja única saída foi a imolação. Sua história nos deixa com um sabor amargo, uma mescla de admiração por sua bravura e uma melancolia por seu martírio. ''Toda topografia emocional nasce de uma ferida, mas só a interpretação transforma esse território em rota.'' - Dan Mena Ela nos recorda que a busca por justiça em um mundo iníquo possui um custo psíquico incomensurável. A reparação que Cassie almeja e, de certa forma, alcança, não é a convalescença. A ferida de Nina, e a sua própria, jamais se apagará. Mas, seu ato é uma cartografia, um mapa real que desnuda as rotas do coleguismo, que assinala os sítios da denegação e que aponta para a gênese da violência. O passado para alguns persiste, não como uma âncora paralisante, mas como um farol que ilumina o presente, assegurando que as lições aprendidas não se percam na névoa do tempo. Deixo a sala, não aliviado pela crença vaga de uma resolução, mas sim com a clareza dolorosa das fissuras do sistema. A verdadeira reparação não reside na ilusão de um ponto final, mas no despertar da consciência. É um chamado à ação, um imperativo moral que nos impele a confrontar a fragmentação distorcida da sociedade. ''A cicatriz é a primeira forma de escrita que o corpo produz, um texto marcado em carne aguardando leitura.'' - Dan Mena Psicologia Social do Abuso: A Responsabilidade Coletiva na Perpetuação da Violência. FAQ (Perguntas Frequentes) Qual a principal abordagem psicológica do filme Bela Vingança? A exegese foca na reparação simbólica e na mecânica da culpa, explorando como a protagonista lida com um trauma vicário através da compulsão à reiteração. O que é reparação simbólica no contexto do filme? É a tentativa de Cassie de obter equidade e validação para sua amiga falecida por meio de atos que desvelam a culpa dos algozes e coadjuvantes, em vez de buscar uma punição legal direta. Como Bela Vingança aborda o trauma sexual? O filme explora as consequências psicológicas duradouras do trauma, não na vítima direta, mas em alguém próximo, demonstrando como a dor e o luto podem cristalizar uma vida e motivar uma busca por equidade. Qual o papel da culpa no filme? A culpa é basilar, especialmente sua ausência nos algozes e sua projeção para a protagonista, que se torna portadora do sofrimento e da responsabilidade de expor a verdade. Cassie, a protagonista, pode ser considerada uma heroína? Ela é uma anti-heroína ou uma figura trágica. Suas ações são moralmente ambíguas e sua odisseia culmina em sacrifício, questionando o conceito tradicional de heroísmo. O que significa a "desforra psíquica" em Promising Young Woman? Significa que a retaliação de Cassie visa o psiquismo dos homens, buscando aniquilar sua autoimagem de "bons rapazes" e implantar uma semente de culpa, em vez de causar dano físico. Qual a importância do epílogo do filme? O final sacrificial de Cassie, embora trágico, é o ato que assegura que a equidade seja alcançada, transmutando seu óbito em uma prova irrefutável e compelindo o sistema à ação. Como o filme critica a cultura do estupro? Ele critica ao expor como a sociedade, por meio de suas instituições e indivíduos, tutela algozes, desacredita vítimas e perpetua um ciclo de violência pela denegação e cumplicidade. Qual o perfil psicológico de Cassie? Cassie exibe sintomas de trauma complexo e luto não resolvido, operando em um modo de compulsão à reiteração e utilizando a dissociação como mecanismo de defesa para executar sua incumbência. O filme oferece uma visão otimista sobre a justiça? Não, o filme é pessimista, sugerindo que a equidade real é quase inatingível e que, por vezes, requer um sacrifício extremo para forçar uma responsabilização mínima. Por que o filme usa uma estética pop e colorida? A estética estabelece um contraste irônico com a temática sombria, funcionando como um cavalo de Tróia para atrair o público e entregar uma mensagem socialmente potente e perturbadora. Qual a relação do filme com o movimento #MeToo? O filme é um ato direto e uma crítica contundente das questões suscitadas pelo #MeToo, como aquiescência, credibilidade da vítima e a cumplicidade sistêmica. O que o personagem Ryan representa? Ryan representa o "homem probo" cuja passividade e denegação o tornam coadjuvante do sistema opressor, demonstrando que a ausência de malignidade explícita não equivale à isenção. A desforra de Cassie é bem-sucedida? Simbolicamente, sim. Embora ela venha a falecer, seu plano derradeiro funciona, conduzindo à prisão dos culpados e assegurando que a história de Nina não seja olvidada. O que o breviário de Cassie simboliza? O diário é uma tentativa de impor ordem ao caos, de documentar a culpa e de criar um registro contra a omissão coletiva, funcionando como sua prova e testamento. Por que Cassie abandonou a faculdade de medicina? Seu abandono simboliza como o trauma interrompeu seu futuro e a aprisionou ao pretérito, dedicando sua existência integralmente à missão de retaliação por sua amiga. O filme é considerado feminista? Sim, é amplamente considerado um filme feminista por sua crítica à misoginia, à cultura do estupro e pela forma como subverte os papéis de gênero na cinematografia. Qual a mensagem basilar de Bela Vingança? A mensagem central versa sobre a falha sistêmica em tutelar as vítimas e responsabilizar os algozes, e o custo psíquico devastador que essa falha impõe. O que significa o título Promising Young Woman? O título é irônico e refere-se tanto a Nina, cujo futuro promissor foi destruído, quanto a Cassie, que também imola seu potencial, e aos "jovens promissores" que a sociedade tutela a todo custo. O filme é baseado em uma história real? Não, é uma obra de ficção, mas foi inspirado por inúmeras histórias verídicas de agressão sexual em campus universitários e pela frustração com a carência de equidade. Palavras-Chave Bela Vingança exegese metapsicológica, Promising Young Woman interpretação profunda, reparação simbólica cinema, mecânica da culpa psicologia, desforra psíquica e trauma, trauma sexual em filmes, Carey Mulligan atuação, análise psicológica de Cassandra Thomas, metapsicologia e cinema contemporâneo, cultura do estupro no cinema, poder feminino e retaliação, equidade simbólica e luto, ética da desforra análise, identidade psíquica e trauma, subversão de gênero em Promising Young Woman, abuso sexual e psicologia social, culpa freudiana no cinema, teoria do trauma e reparação, violência de gênero em filmes, memória traumática e cinematografia Hashtags #BelaVingança, #PromisingYoungWoman #ExegeseMetapsicologica, #CinemaePsicanalise, #ReparacaoSimbolica, #MecanicaDaCulpa, #TraumaSexual, #CareyMulligan, #EmeraldFennell, #CulturaDoEstupro, #RetaliacaoFeminina, #PsicologiaNoCinema, #EquidadeParaNina, #MeToo, #ViolenciaDeGenero, #EmpoderamentoFeminino, #CriticaFílmica, #SaudeMental, #DanMenaAnalisa, #CinemaContemporâneo Referências Bibliográficas BADIOU, Alain. 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Visite minha loja ou site: https://uiclap.bio/danielmena https://www.danmena.com.br/ Dan Mena – Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise (CNP 1199, desde 2018 ); Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise (CBP 2022130, desde 2020); Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University – Florida Department of Education, EUA (Enrollment H715 / Register H0192); Pesquisador em Neurociência do Desenvolvimento – PUCRS (ORCID™); Especialista em Sexologia e Sexualidade – Therapist University, Miami, EUA (RQH W-19222 / Registro Internacional).
- Pobres Criaturas (Poor Things): Análise Psicanalítica da Sexualidade Feminina
Pobres Criaturas (Poor Things): Análise Psicanalítica da Sexualidade Feminina Do Horror à Libertação: De Mary Shelley a Lanthimos - A Reinvenção de Frankenstein e a Sexualidade Feminina em ‘’Pobres Criaturas’’ ''O desejo que não ousa se nomear apodrece no sintoma e endurece no corpo, vira a gaiola do pássaro que se conformou em não voar.'' – Dan Mena Quero compartilhar com vocês uma das descobertas mais eletrizantes como analista, neste caso, cinematográfico. Enquanto assistia focado nas camadas simbólicas de "Pobres Criaturas" , minha mente começou a tecer conexões que mudaram completamente a compreensão da obra. Sabe, aquela sensação familiar que insistia em me inquietar se abriu finalmente, como a chave para decifrar o projeto mais ambicioso de Yorgos Lanthimos ao estabelecer um diálogo consciente e transformador com Mary Shelley . Minha epifania não era um mero acaso intelectual, mas a decodificação de um brilhante projeto artístico. Lanthimos não apenas refere Frankenstein, ele o subverte radicalmente, o transformando a tragédia da rejeição em comédia existencial, o monstro solitário em mulher libertária. Enquanto a criatura de 1818 definhava na solitude imposta por seu criador, nossa Bella de 2023 explode em vitalidade, precisamente porque escapa do controle paterno. Representação do desejo feminino autônomo através de Bella Baxter em Pobres Criaturas. Psicanálise da Sexualidade Feminina em Bella Baxter Num cenário gótico onde a ciência transgride todos os limites éticos, surge Bella Baxter , uma criatura reanimada pelo excêntrico Dr. Godwin Baxter . Esta obra-prima supera o cinema para se tornar um tratado autêntico e original sobre os mecanismos da psique. Mais do que narrar estranhezas, o filme perfila as entranhas do desejo e sinaliza os dispositivos sociais que historicamente encarceraram o feminino. A transmigração de Bella da ingenuidade para a soberania existencial se configura como a mais potente alegoria do nascimento do sujeito que já testemunhei, uma experiência psicanalítica viva, onde temos o privilégio de observar a emergência do ‘’Id’’ em direção às articuladas transações psíquicas com o ‘’Ego’’ e ‘’Superego’’ . Entrei de cabeça no manuscrito, decifrando claramente como a sexualidade feminina se ergue como alicerce fundamental para a edificação da autonomia individual. Através desse olhar psicanalítico que tanto amo, fui tirando o véu da Lei do Desejo que propulsiona Bella, essa energia primordial que a conduz por uma travessia de descobertas, embates morais e fraturas existenciais que reproduzem a vida de muitos. A peça, ao nos apresentar essa criatura sem história, nos convida a revisitar a própria gênese psíquica. O que é a consciência sem a memória? O que é o desejo sem o tabu? A sexualidade de Bella é, inicialmente, uma curiosidade desimpedida. Ela não tem o ‘’Superego’’ internalizado que dita o que é "certo" ou "errado", "puro" ou "perverso" . É simplesmente sua manifestação pura mais literal, buscando a satisfação imediata, o gozo sem mediação. Eros e Thanatos: análise das pulsões de vida e morte na narrativa de Pobres Criaturas. O que Lanthimos nos apresenta não é propriamente a conversão, mas a angústia de viver sob uma máscara social que sufoca a verdade do desejo . Bella, em sua descoordenação linguística, é a prova de que somos uma elaboração, um ''constructo social'' e psíquico. Seu descolamento na rota íntima será a de desconstruir o rosto simbólico, expondo as fragilidades que nos habitam. ''Somos todos Godwin Baxter, cientistas improvisados tentando remendar a criatura ferida que vive em nós, apenas o desejo sabe costurar essa pele.'' – Dan Mena Abordarei a castração simbólica não como lacuna, mas como eixo de busca, e como os vínculos de Bella com figuras como Duncan Wedderburn e o próprio Godwin denunciam dinâmicas edípicas radicalmente reinterpretadas. Este ensaio, propõe uma imersão no âmago do ser, interrogando o que ocorre quando o anseio é emancipado de suas algemas culturais. Como se constitui uma consciência quando o corpo antecede a socialização? ''O inconsciente não é uma caverna sombria, mas um oceano onde nadam as sereias e os tritões dos nossos desejos mais interditos.'' – Dan Mena A busca de Bella por prazer representa uma fuga da neurose ou alicerce para um novo sujeito? Podemos conceber Godwin Baxter como arquétipo paterno na economia libidinal de Bella? O que o desespero de Duncan Wedderburn mostra sobre a masculinidade ante o desejo feminino indomável? ‘’O anseio constitui a assinatura da alma no corpo, escritura primordial que a cultura pretende em vão, vilmente, censurar.’’ - Dan Mena O Gótico Vitoriano e a Estética da Alteridade O padrão visual do filme se veste de preto e branco para cores saturadas, não é um mero capricho visual, é um mapa mental. O mundo vitoriano e escuro de Godwin Baxter é o reino da repressão, onde a ciência (a razão) tenta dominar o caos (a pulsão) . O gótico é o cenário ideal para o trauma como narrativa visual, pois é o lugar onde o passado (o corpo de Victoria) retorna para assombrar o presente (a vida de Bella). A diversidade de Bella é o que a torna um objeto de estudo e de desejo. Ela é o ‘’Outro’’ radical, o que não se encaixa no binário da sociedade . Sua existência questiona a normalidade e a patologia. O que é padrão em um universo que exige a castração do desejo para funcionar? Bella, ao não se submeter, se torna a crítica presente da norma. Formação do sujeito e a Lei do Desejo: psicanálise aplicada a Pobres Criaturas. A Gênese do Inacabado, Godwin Baxter e a Sombra Paterna Ao observar a trama inaugural, vejo Bella como uma página em branco fascinante, uma consciência infantil habitando um corpo adulto. Dr. Godwin, assume imediatamente a função do Pai da Lei, figura que introduz a ordem, a linguagem e os interditos primordiais . Seu laboratório representa a barriga simbólica onde a novíssima psique de Bella é gestada. Esse vínculo gerado entre ambos, configura a camada inicial do ‘’complexo edípico’’ que estrutura sua subjetividade. Godwin não é o genitor ameaçador no sentido clássico, sua castração é suave, quase científica. Ele observa, registra, controla o ambiente, mas falha redondamente em conter a ''erupção libidinal'' que define Bella. Em miúdos, ele personifica o ‘’Superego’’ na forma embrionária, uma voz racional e protetora que, contudo, não consegue asfixiar os impulsos do ‘’Id’’ . ''Socializar na contemporaneidade é aprender a trocar o próprio gozo por aprovação, é esse e o negócio mais ruinoso da alma.'' – Dan Mena Sua deformidade física evoca potencialmente uma psique lesada, a incapacidade da razão pura (a ciência) de engendrar um ser integralmente acoplado, sem atravessar o desejo e o trauma. Ele é, ele próprio, "pobre criatura", produto de experimentos paternos mal-sucedidos, repetindo esse ciclo com Bella, porém com uma curiosidade genuína que é tangente ao afeto. Até que ponto a "criação" de Godwin configura ato de afeto ou narcisismo científico? A deformidade de Baxter expõe a deformidade moral da sociedade que Bella enfrentará? Assista ou reveja o filme, use os questionamentos apresentados no artigo quando acompanhar sob uma perscrutação diferente. ‘’A sombra do progenitor criador é extensa, mas o anseio da filha é sol que desconhece o crepúsculo.’’ - Dan Mena O Despertar do Id na Sexualidade como Léxico Primordial Vejamos caro leitor(a), antes da linguagem articulada, anterior à moral, existe a corporeidade. E o corpo de Bella que profere a língua franca do prazer. Seu autoerotismo precoce é posterior à exploração sexual com Duncan Wedderburn , assim, não constituem atos de depravação, mas de pura descoberta. Olha então, o ‘’Id freudiano’’ em estado bruto, o princípio do prazer governando suas ações. A sexualidade em "Pobres Criaturas" não é subtexto, é texto sem mácula, através do qual Bella decifra o mundo. Cada êxtase orgásmico é, vocábulo novo em seu léxico existencial, confirmação de seu ser-no-mundo. ''A lei do pai orienta, mas é a do desejo que governa, ignorar essa voz é viver com a vida emprestada.'' – Dan Mena Esta demanda hedonista é a força propulsora que a extrai do confinamento laboratorial e a projeta em uma ópera global. A saga com Duncan não é uma fuga romântica, mas uma peregrinação em demanda de sensações. Aqui invoca Freud, a pulsão sexual (Eros) como energia vital fundamental . A peregrinação de Bella materializa essa energia como uma fuga à estagnação neurótica que define a "civilização contemporânea" . Ela não busca o prazer como vício, mas como fundamento. O prazer sexual representa, para Bella um ato de conhecimento ou insurreição? A sociedade poderia alguma vez acolher um sujeito cuja libido flui tão livremente? ‘’O corpo que goza é território emancipado, geografia de si mesmo anterior à colonização alheia.’’ - Dan Mena Simbolismo do corpo e do prazer na construção da identidade em Pobres Criaturas. Bella Baxter e a Onipotência Infantil, a Transgressão do Tabu A fábula infantil de Bella é o alicerce para sua ‘’perversão psicanalítica’’ . Ela age a partir de um princípio de prazer sem limites, ignorando o princípio da realidade. O sexo, para ela é uma atividade lúdica, uma fonte de renda e de conhecimento, desprovida de qualquer carga moral ou emocional. Assim, transgride o tabu da prostituição com a mesma naturalidade com que come um doce. Essa ruptura não é um ato de rebeldia, mas de ignorância. Bella não conhece a Lei, e, portanto, não pode se sentir culpada por quebrá-la. Sua distorção é a liberdade radical de um sujeito que ainda não foi totalmente capturado pela linguagem e pela castração simbólica. Ela é o desejo que se manifesta sem a mediação do ‘’Outro’’ . Duncan Wedderburn como Espelho da Masculinidade Vulnerável A personagem de Duncan, interpretada com frenética comicidade por Mark Ruffalo , é determinante para compreender a Lei do Desejo na perspectiva de Bella. Duncan se apresenta como um sedutor experiente, homem que domina o ‘’game sexual’’ . Contudo, camuflado, aparece rapidamente como um oposto, um menino frágil, cuja identidade masculina se desintegra diante do apetite sexual feminino que não pode controlar ou possuir. ''O hedonismo de Bella não é vazio, e a fome primordial do espírito despertando um corpo que deseja devorar a própria existência.'' – Dan Mena Duncan encarna o falocentrismo em colapso. Acredita ser sujeito do desejo, mas descobre ser objeto temporário e provisório no caminho insaciável de Bella. Sua queda na desgraça e enfermidade não é somente física, mas psíquica. Sofre com uma castração simbólica pelas mãos de Bella. Ela, inadvertidamente descortina a ilusão de seu domínio. A neurose moderna do homem que precisa sentir e estar no controle é exposta em toda sua patética vulnerabilidade. A relação entre ambos constitui um estudo especial sobre como o desejo feminino autêntico pode desestabilizar as estruturas patriarcais mais arraigadas. Duncan não é vilão; é sintoma, traço de masculinidade que ignora como existir sem subjugar o anseio alheio. A desintegração de Duncan representa tragédia pessoal ou consequência inevitável do despertar de Bella? O que a reação de Duncan apresenta sobre o temor do feminino irrestrito no imaginário masculino? ‘’A masculinidade vulnerável estremece não ante o poder, mas diante o prazer que não pode disciplinar.’’ - Dan Mena Estudo do personagem Godwin Baxter como figura paterna em Pobres Criaturas. A Jornada Como Rito de Iniciação, Lisboa, o Navio e Paris A narrativa de "Pobres Criaturas" se estrutura como uma sequência de atos correspondentes a estágios no desenvolvimento psíquico de Bella. Lisboa, simboliza a descoberta inicial, o êxtase sensorial e a liberdade sexual em estado original. A embarcação é espaço liminar, salva-vidas flutuante onde sementes da dúvida e do pensamento crítico florescem. Paris representa o palco final de sua iniciação, lugar onde o princípio do prazer começa a ceder espaço ao princípio da realidade. Se defronta com a experiência, injustiça e limites da voluptuosidade como projeto vital. Trabalhar num bordel não constitui degeneração, mas educação acelerada nas dinâmicas de sobrevivência. ''A neurose é a trilha sonora da civilização, Bella dança uma música ancestral, estranhamente livre, que poucos suportam ouvir.'' – Dan Mena Esta fase da tese central do filme vai soar como uma sátira social na obra, a qual se intensifica. A sociedade, com suas hierarquias e hipocrisias, vai ser dissecada pelos olhos inocentes, porém crescentemente perspicazes de Bella. Ela não internaliza a culpa, senão questiona a estrutura que a produz. A passagem de Bella pelo bordel representa corrupção ou iluminação? Como essa peregrinação geográfica ensina quanto a topografia interna da formação de seu Ego? ''A viagem constitui um rito de passagem onde o ‘’eu’’ encontra não apenas novas paragens, mais camadas da própria sombra.'' - Dan Mena Esse é o momento em que Bella se depara com a dor do mundo, a miséria e a injustiça. É a viagem onde ela vê a pobreza e o sofrimento, que a tira da bolha de seu gozo irrestrito. Este é o ponto de virada ético do filme. O decoro da psicanálise, é a de não ceder ao seu desejo. Bella, ao se deparar com o Real (o que não pode ser simbolizado), é forçada a fazer uma escolha de valores. Ela usa o dinheiro de Duncan para ajudar os pobres, um ato que é, ao mesmo tempo, ingênuo e moral. Logo, começa a se importar com o ‘’Outro’’ , a sair de seu limiar infantil. A Lei do Desejo Para Além do Prazer Conforme Bella avança seu anseio evolui. Se transforma em uma investigação autoerótica por sensações que a conectem com o ‘’outro’’ . Seu ativismo político incipiente e a decisão de estudar medicina representam a sublimação de sua libido. É o processo pelo qual essa energia sexual vai ser direcionada para atividades socialmente valorizadas e criativas. Aqui testemunhamos a forja no aço do ‘’Ego’’ robusto. Ela aprende a negociar entre impulsos (Id), exigências da realidade (Superego internalizado) e valores emergentes. Destarte, não rejeita o prazer, o integra a um projeto existencial mais amplo. A cena onde debate com estudantes de medicina constitui esse marco do seu desenvolvimento. O estudo da medicina representa negação de seu passado hedonista ou uma culminação lógica? A empatia de Bella constitui desenvolvimento natural ou reação aos horrores que testemunhou? ‘’O Ego não é prisão do desejo, mas arquitetura que se ergue para habitar o mundo.’’ - Dan Mena Superação do Complexo de Édipo por Bella Baxter de forma não convencional. O Retorno e a Transfiguração do Pai O regresso de Bella à mansão de Godwin Baxter não define uma regressão, mas, um retorno em nível superior de compreensão. Não é mais uma criatura infantil, mas mulher plena, médica, mãe (adotiva). Enfrenta o "pai" não com ódio, mas com gratidão e nova autoridade. Cuidar dele em momentos finais inverte a dinâmica de poder. ''Ser uma “pobre criatura” é a condição fundamental do ser, imperfeitos, desejantes, eternamente inacabados no ofício de nos re-fazermos.'' – Dan Mena Este ato sela a resolução de seu ‘’Complexo de Édipo’’ de maneira não convencional. De fato que não "assassina" o pai simbolicamente para ficar com a mãe. Esse ato humaniza, e assume portanto seu lugar como sujeito autônomo. A presença da criança, Felicity, reforça esse ciclo. Bella se torna figura cuidadora, criadora, aquela que oferece nova oportunidade. O que significa "liberdade" para Bella no epílogo, comparado ao prólogo de sua construção? A cura de Godwin por Bella representa perdão ou superação definitiva? ‘’A maturidade psíquica chega quando podemos cuidar do nosso criador, não por obrigação, mas por compaixão nascida da própria autonomia.’’ - Dan Mena Além do Falo e o Gozo do ‘’Outro’’ em Lacan A sexualidade de Bella é o que Lacan chamaria de ‘ ’Gozo Outro’’ (jouissance Autre) , um gozo que não se inscreve totalmente na função fálica, na lógica do ter ou não ter o falo. Ela está diante de um gozo excessivo, que transborda o simbólico. Portanto, não se define pela falta do falo (significante do desejo), mas por um gozo que é ''não-todo'' capturado pela linguagem. Seu traquejo sexual é uma forma de conhecimento, uma vereda por uma verdade que está além do que a sociedade permite nomear. Ela é a prova de que a mulher não é apenas um sintoma para o homem, mas um sujeito com um gozo próprio, que a Lei do Desejo tenta, em vão, enquadrar. Frankenstein Revisitado como uma Revolução de Lanthimos Agora quero levar vocês ao âmago de minha descoberta mais transformadora, uma constatação inescapável. Lanthimos estabelece com Frankenstein um diálogo tão entrelaçado quanto revolucionário . Enquanto Mary Shelley nos apresentou um monstro masculino e destruído pela rejeição social, Lanthimos nos oferece uma heroína feminina que se ilumina precisamente no oposto, através do contato social. Esta virada social não é acidental em ‘’Pobres Criaturas’’ , mas o coração do projeto artístico. Godwin Baxter , como Victor Frankenstein, é um cientista que desafia os limites éticos da criação. Contudo, enquanto Victor foge de sua responsabilidade paternal, Godwin permanece, mesmo que perplexo, mas presente. Esta diferença vertebral é a chave mestra para compreendermos a quebra de paradigma do mito. ''O mundo tenta civilizar o que é livre, mas o indomável, cedo ou tarde, rompe as paredes com o próprio riso.'' – Dan Mena Pobres Criaturas como alegoria da neurose contemporânea e repressão sexual. A criatura de Shelley desenvolve consciência através da leitura solitária. Bella constrói sua subjetividade através das experiências corpóreas imediatas. Onde o monstro de 1818 aprende sobre humanidade através da dor, Bella de 2023 descobre a humanidade através do prazer. Esta mudança arquetípica traduz nossa evolução cultural, do horror gótico à sátira filosófica do século XXI, da tragédia da rejeição à comédia da libertação. O que esta releitura do mito ‘’franksteiniano’’ traz de novo sobre a evolução de nossa compreensão quanto à responsabilidade parental? Como a transfiguração do monstro masculino em protagonista feminina cura as feridas abertas originais do mito? ‘’A verdadeira intertextualidade não repete, mas transfigura, e nessa transmutação que novas verdades falam sobre velhos fantasmas.’’ - Dan Mena O Feminino Quebrado e a Crítica à Cultura Performativa A mulher quebrada em Victoria é reparada pela força de Bella. O filme é uma crítica direta à cultura que exige a perfeição e a repressão do desejo feminino. Bella, em sua imperfeição e busca por prazer é a negação da performance. O escrutínio à cultura performativa é a de que a autenticidade é mais importante do que a máscara social . Bella nos ensina que a verdadeira liberdade está em ser o que se é, sem medo da culpa e do julgamento. A Ressonância da Libertação "Pobres Criaturas" em Bella Baxter, não é produto finamente acabado, é processo contínuo. A pedra angular da genialidade do filme de Yorgos Lanthimos reside em nos presentear com uma protagonista que se subtrai a todas categorias fáceis, desafiando e embatendo não apenas a moralidade vigente, mas as próprias teorias que se utilizam para julgar e decifrar. A explicação psicanalítica desoculta que a sexualidade feminina, longe de detalhes narrativos, é eixo radical em torno do qual gira toda estrutura de soberania em Bella. A Lei do Desejo que ela segue não é a do caos, mas a ordem interna primordial que a conduz paradoxalmente à ética e responsabilidade. ''A alma que desperta tarde demais descobre que nunca faltou mundo, carece apenas de coragem para habitar o próprio corpo.'' – Dan Mena Bella Baxter é uma refinada leitura, transita pelos espelhos clássicos das nossas próprias "pobres criaturas" internas, partes de nós, mesmo amputadas, controladas ou recalcadas . É convite aberto e explícito à coragem de desejar, errar, acertar, aprender e, sobretudo, nos refazer continuamente. A autonomia de Bella é ideal inatingível ou convocação para a existência? O que você está disposto(a) a desaprender para se tornar como Bella, autor da própria vida? ‘’A maior obra de arte não é uma escultura ou pintura, mas vida vivida com coragem de anseio que não solicita permissão.’’ - Dan Mena Viagem como rito de passagem psíquico: jornada interior de Bella Baxter. O Que Sobrou de Nós Enquanto Pobres Coisas? O que ‘’Pobres Criaturas’’ deixa como legado? Em sua simetria barroca e seu humor cáustico, não é apenas a história de uma mulher que se faz fora da Lei, mas a radiografia de uma civilização que se desintegra sob o peso de suas próprias proibições. O filme questiona a fundação de nossa moralidade, a origem de nossa culpa e a verdade do desejo. Bella, a criatura que se tornou criadora de si, é a prova de que a Lei do Desejo é implacável. Ela nos força a perguntar: se a liberdade sexual e a autonomia do corpo não são mais um tabu, o que resta da neurose moderna? O que nos impede de sermos tão livres, tão não-todos capturados pela função fálica, quanto Bella? A resposta é dolorosa: a nossa própria covardia, o apego à máscara social, o medo de confrontar o Real que Bella abraça com toda a sua força e inocência, uma criança com a voracidade de uma mulher. O filme nos devolve o rastro interpretativo na condição de "pobres coisas" . Somos seres que desejam, nesse querer, nesta falta constitutiva, que reside a humanidade. Bella, ao final, não cura o mundo, mas se livra da neurose que o acompanha, redefinindo o trauma em reparação icônica e a culpa em autonomia. O que resta após esta análise? A certeza de que a psicanálise não é um manual, mas um guia para o autoconhecimento. A liberdade não é um destino, mas um ato contínuo de escolhas, boas ou não. E o desejo, ah, o desejo é a única verdade que permanece inalterada. Que a história de Bella Baxter nos inspire a desobedecer à neurose e a abraçar a ética dos quereres. Filosofia existencial e liberdade feminina na narrativa de Pobres Criaturas. ''Quem verdadeiramente vive não teme a sombra da morte, pois reconhece que o gozo do desejo, do corpo e da consciência é mais potente que qualquer castração. Que cada instante vivido seja uma pequena revolução contra as leis que tentam aprisionar a alma.'' – Dan Mena FAQ – Pobres Criaturas: Psicanálise, Sexualidade e Autonomia de Bella Baxter O que é a Lei do Desejo em Pobres Criaturas? A ' 'Lei do Desejo'' é a força motriz que orienta Bella Baxter, representando a pulsão do ''Id'' por prazer, conhecimento e experiência, inicialmente desvinculada de construtos morais e sociais. Como a psicanálise interpreta a sexualidade de Bella Baxter? A sexualidade de Bella é manifestação pura do princípio do prazer (Eros), energia libidinal que permite auto-exploração, formação do ‘’Ego’’ e inserção no universo simbólico, sem mediação cultural inicial. Quem é Godwin Baxter na perspectiva psicanalítica? Godwin é figura paterna e Superego em formação, cientista que tenta impor ordem e razão, mas cuja criação escapa ao controle diante da irrupção do desejo de Bella. O que Duncan Wedderburn simboliza no filme? Duncan representa a masculinidade vulnerável e o falocentrismo em crise, cuja identidade desintegra-se ao confrontar o desejo feminino autônomo que não pode controlar. Qual a relação entre Eros e Thanatos em Pobres Criaturas? Eros (vida, prazer) e Thanatos (morte, finitude) dialogam na jornada de Bella: a pulsão de morte se transforma em motivação para cuidar da vida e projetar autonomia. O que é castração simbólica no contexto do filme? É a experiência de Duncan, cuja ilusão de poder é seccionada por Bella; ela opera fora da economia tradicional da falta, revelando a autonomia do desejo feminino. Como a obra aborda a formação do sujeito? Bella evolui através de experiências sensoriais e confrontos sociais, sublimando desejos em projetos intelectuais e éticos, integrando corpo, mente e Ego. Pobres Criaturas constitui uma crítica social? Sim, o filme critica hipocrisia, exploração de classes, estruturas de gênero e normas rígidas, expondo desigualdades e castrações simbólicas históricas. Qual o significado da viagem de Bella (Lisboa, navio, Paris)? É rito de passagem e autoconhecimento: Lisboa simboliza liberdade inicial, o navio espaço liminar de ponderação, e Paris confronta limites do prazer, ética e realidade social. Bella Baxter supera o Complexo de Édipo? Sim, de forma não convencional: ao cuidar de Godwin, assume autonomia, gratidão e reintegração da figura paterna, sem violência ou rivalidade clássica. A liberdade de Bella é apenas sexual? Não, evoluiu da liberdade sexual para intelectual, econômica e moral, culminando na capacidade de escolher seu destino e cuidar dos outros. O que a neurose representa no filme? A neurose se manifesta nos personagens que cercam Bella (Duncan, aristocratas), fruto de recalque, submissão a normas sociais opressivas e incapacidade de lidar com desejo livre. Como a teoria lacaniana se aplica a Pobres Criaturas? Conceitos como Lei do Pai (Godwin), gozo do Outro (Bella) e fragilidade masculina (Duncan) estruturam a narrativa e revelam tensão entre desejo, simbólico e real. O final do filme é feliz? Ambíguo e potente: Bella alcança realização pessoal e autonomia, mas o custo emocional e a permanência do sofrimento no mundo permanecem evidentes. Por que o filme se chama Pobres Criaturas? O título reflete compaixão por todos os personagens, que são falhos, incompletos e produtos de traumas sociais, científicos e pessoais. Qual a importância do corpo no filme? O corpo é território de experiência, prazer, sofrimento e agência de Bella. Por ele, ela conhece o mundo, aprende a cuidar e transforma o desejo em ação. Bella Baxter é feminista? Sim, Bella desafia estruturas patriarcais e atua de forma radicalmente autônoma, embora não seja guiada por ideologia política explícita. Como o prazer se relaciona com o poder de Bella? Inicialmente desvinculado do poder, o prazer se torna ferramenta de autoconhecimento e, posteriormente, instrumento para se empoderar e influenciar outros. O laboratório de Godwin representa o quê? Simboliza o útero científico e o controle racional sobre a criação da psique, mas falha diante da irrupção do desejo e necessidade de experiência mundana. A vingança é tema central em Pobres Criaturas? Não. Diferente de Bela Vingança, o tema central é a libertação da criação, autonomia e afirmação existencial, não reparação ou revanche. Palavras-Chave Pobres Criaturas, Psicanálise, Sexualidade Feminina, Bella Baxter, Lei do Desejo, Explicação Psicanalítica, Liberdade Sexual, Análise Psicanalítica Pobres Criaturas, Freud Sexualidade, Lacan Lei do Desejo, Bella Baxter Psicanálise, Castração Simbólica, Eros e Thanatos, Filme Pobres Criaturas Análise, Yorgos Lanthimos, Duncan Wedderburn, Crítica Social Pobres Criaturas, Formação do Sujeito, Prazer Feminino, Neurose Contemporânea, Godwin Baxter Pai, Desejo Feminino Autônomo, Sublimação Psicanálise, Princípio do Prazer, Complexo de Édipo Bella Baxter, Psicanálise e Cinema, Emma Stone Bella Baxter, Significado Pobres Criaturas, Filosofia no Cinema, Liberdade Existencial Hashtags #PobresCriaturas, #Psicanálise, #SexualidadeFeminina, #BellaBaxter, #LeiDoDesejo, #ExplicaçãoPsicanalítica, #LiberdadeSexual, #AnálisePsicanalítica, #Freud, #Lacan, #CastraçãoSimbolica, #ErosEThanatos, #YorgosLanthimos, #CinemaEpsicologia, #CríticaSocial, #FormaçãoDoSujeito, #PrazerFeminino, #Neurose, #DanMena, #AnáliseDeFilme Referências Bibliográficas BUTLER, Judith. 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Visite minha loja ou site https://uiclap.bio/danielmena https://www.danmena.com.br/ Dan Mena – Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise (CNP 1199, desde 2018) Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise (CBP 2022130, desde 2020); Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University – Florida Department of Education, EUA (Enrollment H715 / Register H0192) Pesquisador ORCID™, Neurociência do Desenvolvimento – PUCRS Especialista em Sexologia e Sexualidade pela Therapist University, Miami, EUA (RQH W-19222 / Registro Internacional.
- Análise Psicanalítica de Rivais (Challengers): Triângulo Amoroso
Análise Psicanalítica de Rivais (Challengers): Triângulo Amoroso e Poder Análise Psicanalítica Rivais Challengers O Drama Oculto de “Rivais” (Challengers) : Relacionamentos Tóxicos, Trauma e o Jogo Psicológico por Trás da Quadra Rivais é menos um filme sobre tênis e mais um ‘ ’experimento psíquico’’ onde o corpo fala, o desejo organiza a cena e a competição funciona como idioma secreto das pulsões. Guadagnino veste o triângulo amoroso com a aparência de um drama esportivo, mas o que realmente coloca em jogo é a sua visão e atualização contemporânea do ‘’triângulo edípico’’ , agora, traduzido em rivalidade. Apresenta o homoerotismo latente e as feridas narcísicas que vibram como cordas tensionadas. A quadra deixa de ser cenário para se tornar o aparelho simbólico, a superfície onde o inconsciente rebate aquilo que os personagens silenciam. No eixo dessa engrenagem afetiva, Tashi, Art e Patrick, no fundo não competem por amor, senão por competência e sobrevivência psíquica. Art precisa ser amado para existir; Patrick, ser desejado para se validar; Tashi quer controlar o jogo para não ruir internamente . O que se apresenta, então, não é um romance, mas uma bela coreografia de dependências, um sistema de caleidoscópios quebrados, onde cada sujeito tenta recuperar uma parte perdida de si. A partida decisiva nunca é a final do torneio: é a luta simbólica pela legitimação no olhar do outro . O filme mostra como ‘’Eros’’ e a agressividade se imbricam, como a culpa e o prazer se retroalimentam, como afeto, inveja e posse, deslizam de um lado a outro com a naturalidade de um saque muito bem executado. Neste ponto, o homoerotismo não é insinuado, é simplesmente estrutural. É o vetor primário que conecta Art e Patrick antes mesmo de Tashi se tornar o fulcro desse campo pulsional. Ela apenas nomeia a tensão que já existia. Assim, “Rivais” nos mostra que o verdadeiro jogo não acontece na quadra, mas nas zonas onde desejo, inveja, admiração e ódio se entrelaçam. Guadagnino transforma o tênis em metáfora de algo que nos constitui desde sempre: a necessidade primária e vital de um ‘’outro’’ que nos confirme, desequilibre, nos deseje e, ao mesmo tempo, nos destrua. Como alguém que penetra na mente através das telas, vejo o filme "Rivais" não apenas como uma narrativa sobre tênis, esporte que adoro e pratico. Análise psicanalítica do triângulo amoroso em Rivais: desejo e rivalidade em Freud. Olhando como uma vidraça do inconsciente coletivo, aparecem desejos reprimidos e feridas emocionais que se entrelaçam em um jogo de sombras inconscientes. Esta obra magnífica, lançada em 2024 pela Amazon MGM Studios sob direção de Luca Guadagnino, captura a essência de relacionamentos tóxicos com uma intensidade que evocam Freud e Lacan a uma presença cinematográfica. Os protagonistas – Tashi Duncan (Zendaya), Art Donaldson (Mike Faist) e Patrick Zweig (Josh O'Connor), formam um triângulo onde a rivalidade competitiva se mistura a tensões eróticas, trazendo a tona a manipulação psicológica e ciúmes como conexão. Minha abordagem aqui, é traçar o perfil psicológico desses personagens, e o fundo analítico de uma contra-imagem de como o esporte serve de metáfora para pulsões de paixão e poder, enquanto questiono o impacto social dessa dinâmica na nossa era. O Contexto Psíquico de Guadagnino: Ambição, Dor e Desejo em Movimento Começo pelo contexto da obra: Guadagnino, e um mestre em retratar desejos carnais como em "Me Chame Pelo Seu Nome", (recomendo o filme), aqui, ele transforma a quadra em arena psíquica. Zendaya encarna Tashi como uma ex-atleta cuja ambição vira veneno, moldando maridos e amantes em peças de seu xadrez emocional. Faist traz Art como o campeão fragilizado, decadente e dependente de aprovação externa, enquanto O'Connor, infunde Patrick com um charme rebelde que mascara suas inseguranças densas. O ano de produção, marcado por debates sobre saúde mental no esporte, vem para amplificar esse olhar que vou dar sobre trauma e resiliência. Nesta análise vou fatiar tecnicamente o desejo libidinal que impulsiona o enredo. O triângulo amoroso não é mero clichê, é um campo de batalha degradante onde o ‘’id’’ confronta o ‘’superego’’ , e a mecânica da culpa surge como mecanismo de sobrevivência. Tashi, por exemplo, carrega o peso de uma lesão que rouba sua carreira, redefinindo a dor ‘’em controle’’ sobre os homens ao seu redor. ‘’No vórtice do desejo, o triângulo amoroso expõe culpas ancestrais que moldam destinos invisíveis.’’ - Dan Mena Homoerotismo latente em Challengers 2024: tensões eróticas e manipulação psicológica. Podemos ver aqui uma reparação simbólica que Lacan chamaria de busca pelo "objeto a" perdido. Art, o marido obediente, personifica o narcisismo ferido, vivendo vicariamente através de vitórias que mascaram sua total passividade. Patrick, o ex-amante, representa o caos do ‘ ’Eros’’ não contido, com traços de homoerotismo latente que aparecem em cenas de intimidade filtrada entre ele e Art. Do ponto de vista psicológico, o filme ilustra relacionamentos tóxicos como ciclos viciosos de co-dependência. A neurociência nos lega o saber, que o ciúmes ativa regiões cerebrais ligadas ao medo e à recompensa, explicando por que esses personagens se atraem pelo conflito. Socialmente, é uma crítica a sociedade performativa, onde sucesso atlético encobre os vazios afetivos, firmando claramente debates atuais sobre masculinidade tóxica e o empoderamento feminino. Guadagnino usa a metáfora do tênis para simbolizar o vaivém da paixão, onde cada rebatida é uma negociação de poder, cada set uma etapa de sedução e traição. ‘’O amor possessivo surge como escudo contra o vazio, mas corrói laços com sua mecânica implacável.’’ - Dan Mena Vejo na teia de acontecimentos o homoerotismo não como subtrama, mas como pulsão sexual que subverte normas hétero-normativas, nos convidando como espectadores a questionar identidades fluidas. Vivendo na pós-pandemia, onde o isolamento da época ampliou as ansiedades relacionais, este filme oferece uma catarse, se transformando em dor e ao mesmo tempo insight. Ao longo dos tópicos a seguir, vou desdobrar e filtrar esses elementos, integrando temas sexuais sob uma compreensão mais ampla. Quero lhes oferecer uma leitura que não só informa, mas desperta ponderações, afinal; quem nunca jogou um ‘’game emocional’’ em busca de vitória? ‘’O desejo libidinal impulsiona ações, abrindo feridas que a sociedade prefere ignorar.’’ - Dan Mena Essa aliança heurística é uma descrição imagética da quadra como “zona” e do enredo como “coreografia de dependências”, tal, encontra, na máxima lacaniana “Le désir de l'homme, c'est le désir de l'Autre” - (“O desejo do homem é o desejo do ''Outro''.”) . Uma teoria que transforma metáfora em diagnóstico. O que Guadagnino põe em cena é o humano que se constitui por mediação. Não há desejo que exista fora do campo do ''Outro'' . O campo de jogo, então, é uma superfície simbólica onde cada bola rebatida é uma tentativa de reinstalar um lugar no espelho do outro; e cada falha coloca a mostra a ausência constitutiva que torna o sujeito continuamente mendicante de reconhecimento. Em termos estéticos e clínicos, essa interseção estaria entre minha leitura e Lacan como citação-âncora. Amor possessivo e ciúmes como conexão na narrativa de Luca Guadagnino. A Ferida Latente no Triângulo Amoroso No centro de "Rivais", a dor simbólica surge como um chamado irresistível, propondo nos seus personagens a confrontação de desejos não articulados. Tashi, cuja carreira é abruptamente ceifada por uma contusão, encarna a ferida original que Freud associaria ao luto não resolvido. Sua transição para treinadora não é mera adaptação; é uma tentativa de reparação simbólica, onde ela projeta suas ambições frustradas em Art e Patrick. O triângulo amoroso, agora configurado assim, se torna um palco para essa angústia, com a rivalidade competitiva mascarando vulnerabilidades de vários ângulos . Psicologicamente Tashi exibe traços de narcisismo adaptativo, usando manipulação psicológica para manter controle. Art, por sua vez, tem um perfil de dependência afetiva, vivendo à sombra da esposa como forma de evitar seus confrontos internos. Patrick, com seu ar de desprendimento, esconde inseguranças que o levam a sabotar conexões, ilustrando como o desejo libidinal pode virar uma arma auto-destrutiva. Guadagnino filma isso com ''close-ups'' intensos, tornando o homoerotismo palpável nas trocas de olhares entre os homens, sugerindo tensões eróticas que vão além do esporte e das quadras. ‘’A manipulação psicológica orquestra jogos emocionais e põe à mostra nossas vulnerabilidades.’’ - Dan Mena Socialmente, essa dinâmica mostra claramente a pressão contemporânea por performance, onde relacionamentos tóxicos aparecem em ambientes competitivos. A mecânica da culpa opera aqui livremente como cola, unindo os três em um ciclo de ciúmes, onde cada traição reforça laços paradoxais. Filosoficamente em Nietzsche, encontramos aqui uma resposta, como a vontade de poder disfarçado de amor. O que acontece quando o desejo se torna prisioneiro de uma ferida não curada? Como o triângulo amoroso expõe nossas silhuetas relacionais? Será que a rivalidade é sempre destrutiva ou pode ser catalisadora de crescimento? ‘’A ferida que não sangra visivelmente é a que mais corrói a alma, transformando o amor em arena de batalhas internas.’’ - Dan Mena Desejo Libidinal e Performance no Mundo Esportivo Por trás das quadras impecáveis, "Rivais" desvela disfarces sociais que ocultam pulsões sexuais e ambições vorazes. Tashi se veste no papel de mentora implacável, mas sua fachada esconde um desejo que Lacan veria como ‘’falta inerente’’ , a impulsionando a dominar Art e Patrick. A metáfora do tênis aqui brilha, onde cada saque é uma exibição performática, cada ponto uma negociação de poder, maturando como a sociedade contemporânea exige encenações constantes para validação. Art se destaca como o perfeccionista ansioso, cuja obediência à esposa mascara medos de inadequação. Patrick, contrastando, adota uma persona de rebelde charmoso, mas sua rivalidade competitiva com Art evidência invejas e recalques, com toques de homoerotismo que surgem em cenas da sauna ou dos churros compartilhados, momentos em que Guadagnino usa para sublinhar tensões eróticas não verbalizadas. Zendaya, em sua atuação magistral, infunde Tashi com camadas de vulnerabilidade, se tornando a não vilã, mas vítima de um sistema que pune ambições femininas. ‘’Challengers’’ ou Rivais é uma metáfora esportiva do amor que ilustra vaivéns da existência, entre vitórias e derrotas internalizadas.’’ - Dan Mena Olhando do lado social, o filme faz crítica a cultura do espetáculo, onde paixão e poder se entrelaçam em relações possessivas. Neuro-cientificamente, isso ativa circuitos de recompensa semelhantes ao vício, explicando a atração por dinâmicas tóxicas. Aqui enxergo o tênis que tanto gosto de praticar como esporte, como uma alegoria para o jogo amoroso moderno, onde vitórias externas parecem querer compensar grandes vazios internos. Por que adotamos peles emprestadas que nos aprisionam em relacionamentos tóxicos? O que o desejo libidinal assoma sobre nossas performances diárias? Como o homoerotismo desafia as normas sociais rígidas? ‘’Nas máscaras que usamos contemporaneamente, o desejo se disfarça de estratégia, mas a verdade sempre rebate como uma bola imprevisível.’’ - Dan Mena Pulsão sexual no cinema: explorando paixão e poder em Rivais. Manipulação Psicológica e o Colapso das Ilusões A narrativa não linear de "Rivais" culmina em quedas emocionais, e a nossa fragilidade se apresenta visivelmente. Tashi's, e sua articulação psicológica orquestram o torneio para confrontar Art e Patrick, isso marca o ponto de ruptura, onde ilusões de controle desmoronam. Olha ae o ‘’id’’ irrompendo contra o ‘’ego’’ , com a mecânica da culpa amplificando o caos. Patrick com seu histórico de privilégios, cai ao confrontar suas falhas pessoais, o seu amor possessivo por Tashi que se misturam ao ciúmes como ligação com Art. Assim, desaba sob o peso da dependência, escancarando sua baixa autoestima, agravada por pressões atléticas. Guadagnino captura isso magistralmente em sequências eletrizantes, com a trilha de Reznor e Ross pulsando como batimentos cardíacos acelerados. ‘’A reparação simbólica surge do caos, curando feridas através de confrontos inevitáveis.’’ - Dan Mena Socialmente, o filme questiona como competições exacerbam desigualdades de gênero, com Tashi representando o feminino insurgente em um mundo masculino. Filosoficamente fala sobre o poder que circula em redes relacionais, tornando a queda inevitável. Qual o custo emocional de manipulações que visam reparação simbólica? Como as quedas pessoais se copiam para colapsos sociais maiores? O que acontece quando ilusões se quebram em meio a rivalidades? ‘’A queda não é o fim, mas o instante em que o ‘’ego’’ confronta o fosso de suas próprias ilusões. - Dan Mena O Arquétipo Ferido e a Pulsão Sexual em Temas Sexuais no Cinema Nesta obra cinematográfica, "Rivais" (Challengers, 2024) nos assombra com os arquétipos feridos através da pulsão sexual que permeia cada interação. Tashi encarna a mulher escoriada, cuja lesão física simboliza a castração simbólica, isso a impulsiona a uma sexualidade assertiva que desafia os padrões. O homoerotismo entre Art e Patrick, carregados de miradas e toques secretos são como manchas integradas através do conflito. Patrick exibe finalmente seus traços impulsivos, aventando desejo libidinal e guiando suas sabotagens. Art, fica mais reprimido, luta com inibições que a neurociência liga ao estresse crônico. Guadagnino é um grande diretor, ele eleva temas sexuais no cinema, destarte, tornando o erótico não tão explícito, sutil, mas insinuado, excelente, sou seu admirador de carteirinha. ‘’Em Guadagnino vemos a mecânica da culpa meio que operando silenciosamente, guiando trajetórias rumo a autodescobertas.’’ - Dan Mena Socialmente, o filme aborda a fluidez sexual em contextos competitivos, questionando binários de gênero. Minha perspectiva vê o arquétipo como um portal para o auto-conhecimento. Por que pulsões sexuais mascaram feridas emocionais? Como o cinema usa esse erotismo para adentrar nas estruturas simbólicas do ser? O que o ‘’Eros’’ homo-social levanta sobre repressões coletivas? ‘’No mito estruturante do ferido, a pulsão sexual se junta ao limiar entre cura e destruição, pondo à mostra verdades ocultas.’’ - Dan Mena A Confrontação com o Real e os Ciúmes como Conexão nos Relacionamentos Tóxicos O clímax força confrontos com o ‘’real’’ , onde suspeitas como interligações, unem os três em um vórtice radioativo. Tashi's, na orquestração do jogo final expõe suas verdades dolorosas: Art's dependência, Patrick's rebeldia e sua própria ambição como defesa. Toda essa tensão erótica culmina em um abraço que transcende a vitória, sugerindo uma reparação iconica. Isso ilustra ciclos tóxicos, com ciúmes ativando respostas de luta ou fuga. Socialmente, tem muito a dizer quanto aos relacionamentos modernos, fragmentados por ambições. Guadagnino usa o esporte como lupa para esses confrontos. Como o ciúmes pode se conectar ao invés de separar? Por que os embates com a realidade são transformadores? O que os relacionamentos danosos nos ensinam quanto a si mesmos? ‘’No confronto com o real, os ciúmes tecem laços invisíveis, reconfigurando toxicidade em revelações.’’ - Dan Mena A ferida inicial instaurada pela perda do objeto amado funda uma economia psíquica marcada no sujeito pela ambivalência, onde amor e ódio coexistem, deste conflito nasce a necessidade de reparar. A culpa, longe de ser um juízo moral abstrato, funciona como força motivadora que impele o sujeito a realizar gestos de reparação. Sejam eles fantasiosos ou reais, são destinados a recompor o objeto interno que se acredita danificado. Em triângulos passionais como o que vemos em ''Rivais, as manipulações, ciúmes e performances podem ser entendidas como tentativas de remendar essa perda primária. Cada disputa, cada submissão ou boicote é uma tentativa de encenação reparadora, ora possa ser bem-sucedida, ora falha, uma forçada maneira de reafirmar um laço quanto o seu risco de aprofundar a fratura original. Metáfora Esportiva do Amor e a Pulsão de Paixão e Poder Finalmente, essa ressignificação reparadora surge no ‘’set’’ final, onde a correspondência poética no âmbito esportivo do amor resolve as tensões. Tashi encontra paz substitutiva, Art ganha autonomia, Patrick redescobre a paixão. Psicanaliticamente isso pode ser lido como a pura integração do ‘’id’’ e o ‘’superego’’ em ação, pulsões de paixão e poder, agora equilibradas. O filme propõe que ditas competições podem curar, questionando as dinâmicas de poder. Por que essas paisagens psíquicas demandam confronto? Como o esporte metaforiza o amor? O que a paixão ensina sobre potência e poder? Metáfora esportiva do amor: tênis como símbolo de relacionamentos tóxicos. Édipo Rei O Rei Édipo (ou Édipo Rei) é uma das mais famosas tragédias gregas antigas, escrita pelo dramaturgo Sófocles por volta de 427 a.C. Ela levanta temas como destino, culpa e auto-descoberta através da história de um rei que, sem saber, cumpre uma profecia. Não é uma narrativa de infortúnio, mas, uma meditação sobre nossa subjetividade e a interseccionalidade entre mito, psique e sociedade. Sua relevância atesta a genialidade de Sófocles em capturar as tensões existencialistas. A peça nos mostra a realização de nossos desejos infantis. No entanto, mais afortunados do que ele, nós conseguimos, na medida em que não nos tornamos psico-neuróticos, separar nossos impulsos sexuais de nossas mães e esquecer nosso ciúme de nossos pais. Há então uma indicação inconfundível no texto da própria tragédia de Sófocles que a lenda de Édipo surgiu de algum material de sonho primitivo que tinha como conteúdo a perturbadora relação da criança com seus pais através das primeiras agitações da sexualidade. Em um ponto onde Édipo, ainda não iluminado, começa a se sentir incômodo por sua recordação do oráculo, Jocasta o conforta se referindo a um sonho que muitas pessoas têm, embora na opinião dela não tenha significado: ‘’Muitos homens em sonhos de tempos antigos jazem com aquela que os gerou... Menos se perturba, quem não toma nota de tais presságios’’ . Hoje, como em tempos passados, muitos homens sonham em ter relações sexuais com suas mães, e mencionam esse fato com indignação e espanto na clínica. Isso é claramente a chave para a tragédia e o complemento do sonho do pai do sonhador já estar morto. A história de Édipo é a reação da imaginação a esses dois sonhos típicos...Sigmund Freud, A Interpretação dos Sonhos, 1900. Ciúmes controle psicológico: impactos em triângulos (trisal) amorosos fílmicos. Usando esta referência, vou interpretar; Essa passagem freudiana, que retirei da exploração dos sonhos típicos, acena para o triângulo amoroso no filme "Rivais" ao desencobrir a estrutura edípica como uma constelação primordial de desejos incestuosos e rivalidades assassinas, onde o desejo pela mãe e o ódio pelo pai se entrelaçam como pulsões básicas da subjetividade. O simbolismo dos conflitos edípicos vibra precisamente nessa dialética. O desejo e a disputa não são meros acidentes narrativos da obra, mas manifestações da economia libidinal que Freud nos descreve, em que o poder surge da tensão entre amor e ódio como vulnerabilidades da repressão das potências infantis. Se tensiona a cena ao ancorar o mito em material onírico primitivo, ampliando o texto e sugerindo que a quadra de tênis é um palco onírico moderno, onde os saques e jogadas se transmutam em ícones do vaivém contemporâneo das pulsões sexuais agressivas, reprimidas, mas persistentes no inconsciente. O contraste reside na prosa analítica e mitológica de Freud, muito densa, quase arqueológica, que desenterra impulsos universais com a precisão de um oráculo, contra a fluidez cinematográfica de Guadagnino, criando um diálogo onde a teoria psicanalítica irrompe como uma clareira trágica de intersubjetividade e sexualidade reprimida no simbolismo corporal. A rixa no filme "Rivais" é um balé edipiano de posse e perda. Nesse entrecruzamento, emerge o mito, onde desejos e vulnerabilidades, equilibrados ou não, impulsionam a busca por um trabalho de restituição do ''eu'' . Assim fica notadamente marcado esse eterno conflito entre Eros e agressão, uma completude ilusória ao inevitável embate envolvendo o ''Outro'' paterno. A Verdade que Permanece em Reflexões sobre o Filme "Rivais" Ao final em "Rivais", fica a verdade indelével dos nossos desejos, quereres, culpas e duelos que tecem a existência palpável. O diretor nos entrega não só entretenimento de qualidade, mas, à introspecção, onde o ‘’trisal’’ se engrandece sob nossas próprias batalhas internas. Zendaya, Faist e O'Connor, personificam perfis que nos tocam de forma muito próxima. Ambições, pretensões, anseios e propósitos, o dependente resiliente, o rebelde vulnerável. Coletivamente, o filme indaga quanto equilíbrios e preponderância de poderes em uma era de manifestações performáticas. Por outra perspectiva, enquanto psicanaliticamente olhado, vemos os caminhos da reparação em plena ação. "Rivais", um triângulo amoroso como o fator edípico moderno que desafia estruturas sociais, convidando diferentes pontos de ponderação. Que esta análise desperte em você questionamentos duradouros. Se indague; e se nossas paixões fossem quadras de tênis onde jogamos pelo auto-conhecimento? Compartilhe seus pontos de vista no meu site; www.danmena.com.br – talvez ali, possamos encontrar mais verdades coletivas, juntos. Temas sexuais do cinema moderno: homoerotismo e desejo libidinal em ação. FAQ - Filme "Rivais" (Challengers) O que representa o triângulo amoroso em "Rivais"? O triângulo amoroso simboliza conflitos edípicos, onde desejo e rivalidade entrelaçam poder e vulnerabilidade. Qual o papel do homoerotismo latente no filme? O homoerotismo explora tensões sexuais reprimidas, enriquecendo a dinâmica entre Art e Patrick. Como a análise psicanalítica freudiana se aplica a Tashi? Tashi personifica o id em busca de reparação, transformando trauma em controle sobre amantes. O que é a mecânica da culpa em "Rivais"? A mecânica da culpa impulsiona manipulações, servindo como mecanismo de sobrevivência emocional. Por que a metáfora do tênis é central? O tênis metaforiza relacionamentos, com cada rebatida representando negociações de paixão e poder. Qual o impacto social de relacionamentos tóxicos no filme? Reflete pressões contemporâneas por performance, criticando desigualdades de gênero e ambições destrutivas. Como Zendaya's em sua atuação contribui para temas sexuais? Sua interpretação infunde Tashi com assertividade erótica, desafiando normas femininas. O que é desejo libidinal na narrativa? O desejo libidinal impulsiona ações, misturando eros e Thanatos em ciclos viciosos. Por que ciúmes atua como conexão? Ciúmes conecta personagens paradoxalmente, reforçando laços através de conflitos. Qual a reparação simbólica no final? A reparação ocorre no abraço, integrando sombras e oferecendo catarse. Luca Guadagnino explora o erotismo como? Através de insinuações visuais, tornando o sensual subtexto para dinâmicas psicológicas. O que é pulsão sexual nos protagonistas? Pulsão sexual guia rivalidades, revelando repressões e atrações fluidas. Como o filme aborda amor possessivo? Amor possessivo surge como defesa contra perdas, levando a manipulações. Qual o perfil psicológico de Art? Art exibe dependência afetiva, buscando validação em vitórias externas. Por que rivalidade competitiva é chave? Rivalidade impulsiona crescimento, mas expõe vulnerabilidades profundas. O que temas sexuais no cinema revelam em "Rivais"? Revelam fluidez identitária, questionando binários sociais. Como a tensão erótica constrói o suspense? Tensão erótica amplifica conflitos, tornando cada cena carregada de expectativa. Qual o legado de "Challengers 2024"? Seu legado está em mesclar esporte e psique, inspirando debates sobre desejo. Por que análise cinematográfica é essencial? A análise cinematográfica revela camadas inconscientes, enriquecendo compreensões humanas. O que paixão e poder ensinam? Paixão e poder entrelaçados mostram equilíbrios frágeis em relações. Palavras-chave análise psicanalítica rivais, challengers 2024 triângulo amoroso, homoerotismo latente filmes, amor possessivo psicologia, rivalidade competitiva análise, desejo libidinal freud, pulsão sexual cinema, ciúmes controle relacionamentos, manipulação psicológica filmes, metáfora tênis amor, relacionamentos tóxicos psicanálise, tensão erótica guadagnino, zendaya atuação challengers, paixão poder freudiana, temas sexuais cinema, análise cinematográfica rivais, mecânica culpa psicanalítica, reparação simbólica desejo, triângulo edípico filmes, homoerotismo rivalidade. Links Internos Pobres Criaturas: Sexualidade Feminina e Liberdade - Explicação Psicanalítica - Sobre desejo e liberdade sexual, cruzando com temas de erotismo e relações complexas. Promising Young Woman: Reparação Simbólica e Mecânica da Culpa - Exploração psicanalítica de culpa e reparação em narrativas cinematográficas, dinâmicas de poder e rivalidade. Exibicionismo em Euphoria: Análise Psicanalítica - Discussão sobre exposição e dependência emocional em séries, conectando com homoerotismo latente e relacionamentos tóxicos. A Criada: Desejo, Fetichismo e Feminilidade - Análise do desejo e fetichismo em cinema, alinhada a triângulos amorosos e pulsões sexuais. A Substância: Tirania da Perfeição e Narcisismo - Estudo psicanalítico de narcisismo e ideal do ego, temas da paixão, poder e manipulação psicológica em obras visuais. Hashtags#AnálisePsicanalíticaRivais, #Challengers2024TriânguloAmoroso, #HomoerotismoLatenteFilmes, #AmorPossessivoPsicologia, #RivalidadeCompetitivaAnálise, #DesejoLibidinalFreud, #PulsãoSexualCinema, #CiúmesControleRelacionamentos, #ManipulaçãoPsicológicaFilmes, #MetáforaTênisAmor, #RelacionamentosTóxicosPsicanálise, #TensãoEróticaGuadagnino, #ZendayaAtuaçãoChallengers, #PaixãoPoderFreudiana, #TemasSexuaisCinema, #AnáliseCinematográficaRivais, #MecânicaCulpaPsicanalítica, #ReparaçãoSimbólicaDesejo, #TriânguloEdípicoFilmes, #HomoerotismoRivalidade. Outros links sobre o filme https://www.youtube.com/watch?v=MY919RNWXn4 https://www.instagram.com/reel/C_F8sxwuD34/ https://www.youtube.com/watch?v=HlJ9h_BH5kQ https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/rivais-zendaya https://www.youtube.com/watch?v=e1oyBBGn5as https://www.reddit.com/r/psychoanalysis/comments/1da2wg6/analytic_takes_on_the_movie_challengers_spoilers/ https://orca.cardiff.ac.uk/id/eprint/171205/1/sobande-2024-challengers-a-cultural-studies-commentary-on-the-fire-and-ice-of-filmic-desires.pdf https://culturadoria.com.br/challengers-linguagem-do-desejo/ http://agemt.pucsp.br/noticias/challengers-relacionamentos-obsessoes-e-acima-de-tudo-tenis https://dariollinares.substack.com/p/lust-love-and-lobs-the-shallow-spectacle Referências Bibliográficas Althusser, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1985. Baudrillard, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio d’Água, 1991. Butler, Judith. Corpos que importam: sobre os limites materiais e discursivos do “sexo”. São Paulo: Boitempo, 2019. Deleuze, Gilles. Diferença e repetição. Rio de Janeiro: Graal, 1988. Foucault, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988. Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Freud, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2016. Giddens, Anthony. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Editora UNESP, 1993. Jung, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. Kristeva, Julia. Poderes do horror: ensaio sobre a abjeção. Rio de Janeiro: Rocco, 1989. Lacan, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. Lacan, Jacques. O seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. Marcuse, Herbert. Eros e civilização. 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Visite minha loja ou site https://uiclap.bio/danielmena https://www.danmena.com.br/ Dan Mena – Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise (CNP 1199, desde 2018); Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise (CBP 2022130, desde 2020); Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University – Florida Department of Education, EUA (Enrollment H715 / Register H0192); Pesquisador em Neurociência do Desenvolvimento – PUCRS (ORCID™; Especialista em Sexologia e Sexualidade – Therapist University, Miami, EUA (RQH W-19222 Registro Internacional).
- Retrato de uma Jovem em Chamas: Desejo, Lesbianismo e o Drama do Olhar
Lesbianismo e o Drama do Olhar* captura o instante em que o desejo lésbico e o olhar feminino se acendem como força psicanalítica e narrativa.'' Quando assisti pela primeira vez a Retrato de uma Jovem em Chamas (Portrait de la jeune fille en feu, 2019), dirigido por Céline Sciamma, algo se deslocou dentro de mim. Não era apenas admiração estética. Era o reconhecimento imediato de um desejo que não pede licença, que atuou livre, e que, por isso mesmo, atravessa qualquer corpo que ousa olhar . Dou este título ao artigo porque reúne esses 3 elementos conceituais para a psicanálise; O filme não conta uma história de amor lésbico “bonitinha”. Ele expõe, com frieza e calor ao ponto insuportável, como o desejo entre mulheres pode ser ao mesmo tempo um espaço de liberdade absoluta, e ao mesmo tempo, a mais cruel das prisões. Temas fortes como Desejo, Lesbianismo é o Drama do Olhar vão se entrelaçar na obra. Marianne (Noémie Merlant) , pintora contratada para fazer um retrato de casamento secreto, e Héloïse (Adèle Haenel) , uma jovem prometida a um milanês que nunca viu, iniciam uma relação que começa pelo entrever proibido que termina em sublimação trágica. Ao lado delas, Sophie (Luàna Bajrami) , a criada que carrega um aborto clandestino, completam o trio que reescreve, em silêncio, as leis do patriarcado. “O olhar entre Marianne e Héloïse captura o desejo lésbico proibido e inaugura o drama visual que sustenta Retrato de uma Jovem em Chamas na sua leitura psicanalítica.” Aqui não vou fazer crítica de cinema comum. Vou entrar no inconsciente do filme. Destrinchar, com Lacan, Freud, Kristeva e as vozes contemporâneas do feminismo o que realmente acontece quando duas mulheres se notam sem a mediação masculina. Vamos falar de gozo feminino que não se deixa domesticar, do ‘’objeto a’’ que escapa, do Real que irrompe no corpo, da melancolia que se torna arte. E, sobretudo, vamos tocar na dor invisível que tantas pacientes trazem ao meu consultório: “Eu desejei tanto que doeu, e mesmo assim tive que abrir mão.” “O desejo só mostra sua verdade quando dói, porque é justamente no ponto onde não alcançamos o outro que finalmente o encontramos.” - Dan Mena Se prepare, este artigo tem quase 4.000 palavras porque o filme merece. É você, precisa entender que mesmo tantos anos depois de assistir a obra, ainda chora na cena final sem saber explicar. “O que não pode ser dito aparece como emoção.” - Lacan Quando o Desejo Nasce da Falta Tudo começa com uma contemplação que não deveria existir. Marianne pinta Héloïse sem que ela saiba. O ato de ver sem ser visto instaura imediatamente a estrutura do desejo lacaniano: há sempre uma falta, um furo, um ‘’objeto a’’ que causa o querer e que nunca será alcançado por inteiro. Esse olhar furtivo é o falo ausente. Héloïse recusa posar porque sabe, inconscientemente, que ser vista é ser capturada pelo ‘’Outro’’ patriarcal . Quando finalmente aceita ser retratada, o desejo explode. O que era voyeurismo vira encontro, e o encontro em Lacan, é sempre traumático. Por que o olhar tem tanto poder? Você já desejou alguém que não podia ter e sentiu o corpo inteiro em chamas? E se o proibido for exatamente o que nos mantém vivos? “O desejo é o desejo do ‘’Outro’’, mas quando duas mulheres se olham sem terceiro, o desejo se torna puro gozo, insuportável e possivelmente libertador.” - Dan Mena “O olhar feminino lacaniano revela o ‘objeto a’, núcleo do desejo que o filme transforma em fogo simbólico.” O Estádio do Espelho Sexualizado Certamente a cena mais comentada do cinema contemporâneo; Héloïse abre as pernas, coloca um pequeno espelho entre as coxas e pede que Marianne se veja ali. A pura representação de O ‘’estádio do eselho lacaniano’’ ganha carne, sexo, umidade. Não é mais a criança que se reconhece na imagem especular. São duas mulheres adultas que se reconhecem no sexo uma da outra. o gozo feminino aparece como Não-Todo fálico . Não há mediador. Não há nada que regule. Há apenas o excesso, o infinito, o que Lacan chamou de “gozo Outro” . A vulva refletida é o Real do corpo que a linguagem não alcança. Já se olhou no espelho e sentiu medo do que viu? O que acontece quando o espelho nos devolve não uma imagem, mas um abismo de prazer? “Há um gozo dela… um gozo do corpo que está para além do falo. Um gozo que ela mesma nada sabe, e sobre o qual não diz nada.” - Lacan, Seminário 20 – Encore, de 20/02/1973. E se o êxtase feminino for, por natureza, impossível de representar? “Ao gozo da mulher não falta nada, ele é ausente ao significante, por isso assusta e fascina.” - Dan Mena A Cena do Aborto: O Real Invade o Simbólico Sophie engravida de um marinheiro qualquer. As três mulheres, sozinhas na ilha, realizam um aborto com ervas enquanto uma parteira desenha a cena. Em seguida, recriam o mito de Orfeu e Eurídice; O sangue escorre. Ninguém chora de dor. Choram de alívio. (Orfeu, o maior músico da Trácia, desceu ao Hades (“descer ao Hades” significa literalmente entrar no reino dos mortos governado pelo deus Hades e sua esposa Perséfone) para resgatar Eurídice, morta por picada de serpente no dia do casamento. Com sua lira, encantou Caronte, Cérbero e os próprios reis do submundo. Hades aceitou devolvê-la com uma condição, que Orfeu caminha-se à frente e não olharia para trás até saírem completamente das trevas. Quase na luz, consumido pela dúvida e pelo amor, Orfeu se virou, Eurídice, ainda na sombra, desmaiou para sempre com um último “adeus” . Assim, ele ganhou a amada de volta por um instante, mas a perdeu duas vezes: primeiro pela morte, depois pela impossibilidade de suportar a falta. Logo, o mito fala da tensão torturante entre desejo e proibição, entre ter e não ter. Aqui o Real lacaniano irrompe com violência. O corpo feminino, grávido contra a vontade, é o lugar onde o simbólico patriarcal se ressalta mais cruel. Essa interrupção da gestação não é mostrada como tragédia, senão como ato de resistência coletiva. Três mulheres que re-escrevem o destino. Lacan (Seminário 11 - Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise, 1964) “O real não é do domínio da verdade. O real é o que escapa à simbolização. É aquilo que retorna sempre ao mesmo lugar. Por isso que o defino como o impossível: impossível de suportar, impossível de dizer, impossível de negar. Quando o simbólico falha, quando o imaginário vacila, é o real que irrompe — sem sentido, sem porquê, com a violência do que não pode ser integrado.” “A paisagem costeira reforça a análise psicanalítica do Real lacaniano, onde o gozo feminino irrompe como excesso e ameaça à ordem patriarcal.” Você já precisou interromper algo que crescia dentro de você sem ter escolhido? O que significa cuidar do corpo do outro quando o mundo inteiro quer te controlar? “O aborto clandestino é o ato político mais radical, pois corta literalmente o falo que quer se implantar.” - Dan Mena Mito de Orfeu Reescrito por Mulheres Escolhem a Perda Héloïse solta a frase que muda tudo: “Talvez Orfeu tenha virado para trás porque o poeta assim quis. Ele escolheu a memória da amada em vez da própria amada.” Lacan diria que ‘’o amor é dar o que não se tem’’ . Sciamma vai além: o amor entre mulheres é escolher a falta para preservar o gozo. Elas se separam conscientemente para que o desejo permaneça eterno. A sublimação vence o luto. Você já abriu mão de alguém exatamente para poder continuar amando? A memória dói menos que a presença? Quando penso em Orfeu reescrito por mulheres, percebo que há amores que só sobrevivem quando não se cumprem. Não é uma renúncia, é uma forma superior de cuidado. Há vínculos tão intensos que a presença os diminuiria, como se o cotidiano fosse incapaz de segurar o que o mito suporta. O gesto mais amoroso é precisamente esse ''virar para trás'' , não para recuperar o que se perdeu, mas para dar ao outro a dignidade de permanecer irretocável. A ausência, nesse sentido, não destrói o amor, ela o amplia até onde o corpo não pode ser alcançado. A presença fere porque nos lembra da falta? “A verdadeira tragédia não é extraviar o amor. É perder a possibilidade de perdê-lo.” – Dan Mena “O retrato queimado simboliza a destruição do falo significante e materializa o ''gozo Outro'', tema central do filme e do meu artigo.” Marianne e Héloïse, Perfis Psíquicos Aprofundados Marianne – estrutura obsessiva com traços histéricos. Pintora, domina o significante (a arte), mas é atravessada pelo Real do desejo quando Héloïse a olha de volta. Seu gozo é fálico: quer capturar e dominar pela imagem. Só se liberta quando destrói o quadro. Héloïse – elaboração perversa com fundo melancólico. Recusa o retrato de casamento porque sabe que ser vista é ser morta simbolicamente. Seu gozo é do lado do Não-Todo. Não quer possuir, quer ser invadida pelo vazio. Por isso aceita a separação. Sophie – o sujeito barrado em sua total plenitude. O aborto é o ato que a faz passar de objeto a sujeito. Representa todas as mulheres que o patriarcado transformou em útero ambulante. Qual das três você carrega dentro de si hoje? Você domina ou se deixa dominar pelo olhar do ‘’Outro’’? E se a liberdade for exatamente abrir mão do controle? “O sujeito feminino não busca o falo. Ela sabe que ele nunca existiu.” - Dan Mena O Gozo Feminino que Lacan Não Conseguiu Dizer No Seminário 20, Lacan nos confessa: “A mulher não existe” e “o gozo feminino é suplementar” . Sciamma responde com imagens: o gozo feminino existe, é múltiplo, é coletivo, ele é isento de articulação. Não precisa do falo para acontecer. Se verifica a apesar dele. Na dança da fogueira, nas risadas depois do aborto, no orgasmo silencioso da página 28, vemos o que a teoria só pôde balbuciar. O gozo ‘ ’Outro’’ não é místico. É político. A cena que ficou conhecida como “página 28” é, talvez, o momento mais radical do cinema contemporâneo. Héloïse, nua na cama, pega um pequeno espelho de mão, abre as pernas e o posiciona entre as coxas. Com calma, pede a Marianne: “Te Olha” . Marianne se inclina e vê o próprio sexo projetado na vulva de Héloïse. O nome “página 28” vem do roteiro original de Céline Sciamma, exatamente na página 28 do script que acontece essa sequência. Sciamma declarou em entrevistas que escreveu a cena pensando no ‘’estádio do espelho lacaniano’’ , mas, pela primeira vez, totalmente sexualizado e entre mulheres. Não há toque. Não há som. Apenas o olhar cruzado. E, no entanto, ambas chegam ao orgasmo, de forma silenciosa, convulsa, apenas pelo ato de ver e ser vista. É a encenação mais literal do gozo ‘’Outro’’, o prazer que não precisa do falo, que se multiplica no espelho, que escapa à economia masculina. Página 28 não é erotismo. É uma revolução para ser entendida. Você já sentiu prazer que não cabia em palavras? Essa volúpia te assustou ou libertou? E se o medo do gozo feminino for o último bastião do conservadorismo? “O gozo da mulher não é falta. É excesso que transborda todos os copos.”- Dan Mena 28 Segundos de Gozo Puro e Traumatismo Anos depois. Héloïse já casada, mãe, na plateia de um concerto. Começa a tocar a Primavera de Vivaldi. Um ''close-up'' fixo de 28 segundos. O rosto dela se desfaz em lágrimas, o corpo inteiro treme. Não é tristeza. É prazer puro, retornando como traumatismo. O Real volta sempre ao mesmo lugar. O amor por Marianne nunca foi simbolizado por inteiro. Permaneceu icônico como um furo. A música funciona aí como significante-mestre que faz a excitação irromper. Você já chorou em público sem saber o motivo? E se essas lágrimas forem a única forma de dizer o indizível? O que acontece quando o gozo atravessa o véu da civilização? “O choro de Héloïse não é luto. É a fruição que finalmente encontra sua passagem.” - Dan Mena “O encontro silencioso entre Marianne e Héloïse revela o desejo não domesticado, sustentando a tese de que o filme é uma revolução do ''female gaze''.” Retrato de uma Jovem em Chamas e o Feminismo O filme não é só lésbico, é anti-capitalista, anticolonial e anti-patriarcal . Três mulheres de classes diferentes unidas contra a mesma lei. O retrato do casamento é destruído porque nenhuma delas aceita ser objeto-mercadoria. Vemos então a arte virar ato revolucionário. O desejo entre mulheres sempre foi ameaça ao sistema? Você sente que seu desejo ainda precisa de permissão? O que faria se pudesse amar sem retrato de casamento? “O amor entre mulheres não pede licença. Ele simplesmente acende o que precisa ser queimado.” – Dan Mena O Fogo que Não Apaga Termino este texto com alguns questionamentos; O que você faria se pudesse olhar alguém sem medo de ser visto? Até onde você iria para preservar um amor que o mundo inteiro condena? E se a separação for a forma mais radical de fidelidade ao desejo? Eu, que passo muitas horas ouvindo histórias de desejo proibido, de corpos que doem de tanto querer, sei que este filme cura e fere ao mesmo tempo. Cura porque nomeia. Fere porque lembra que nomear nem sempre basta.Talvez o que mais persiga em Retrato de uma Jovem em Chamas não seja o amor que se consome, nem o gozo que escapa, nem o trauma que retorna, mas algo ainda menos confortável. Vejo uma perspectiva, a constatação de que aquilo que surge entre duas mulheres não é uma exceção narrativa, senão uma chaga na história do desejo. É como se Sciamma tivesse roubado uma brasa antiga e colocado na mão de cada espectador(a) é dito: agora lide com isso, veja o que faz com o fogo que não pediu. Enquanto escrevia este texto, voltei inúmeras vezes à imagem final de Héloïse ouvindo o movimento Presto do “Verão” , do conjunto ‘’As Quatro Estações de Vivaldi’’ . Esse instante musical tem um peso simbólico, é a mesma peça que Marianne toca no início do filme. A música se transforma na trilha sonora do desejo, da memória, da perda e do impossível amor entre as duas. Já não me parece apenas recordação nem saudade. Nem sequer um querer. É outra coisa, mais desobediente, rebelde, uma espécie de testemunho. Como se aquela lágrima dissesse, “eu sobrevivi ao que senti, mas não saí ilesa” . Talvez ninguém saia. Quem sabe o amor entre mulheres exponha aquilo que os séculos gastaram tentando encobrir. “A cena da fogueira encena o gozo feminino Não-Todo, e explica por que Retrato de uma Jovem em Chamas se tornou um marco do cinema lésbico e feminista.” Quando elas se desejam, o mundo treme porque se perde a referência. Não há falo para ordenar, não há narrativa para disciplinar, não há linguagem para controlar. É por essa razão que no seu fundo, este filme causa algum terror. Ele devolve a audiência uma pergunta que não admite resposta rápida: o que fazer com um desejo que não se dobra a nenhuma lei conhecida? O feminismo dá coragem, mas não dá garantias. A arte dá forma, mas não fecha a ferida. Sciamma faz o oposto do que se espera tradicionalmente de um romance ao não oferecer futuro. Apenas solta uma faísca que insiste em queimar, mesmo depois do fim. Talvez seja isso que nenhum outro discurso crítico ousou dizer. O amor entre Marianne e Héloïse não fracassa. Ele permanece justamente porque não se concretiza nos moldes esperados. Se sustenta na falta, mas uma ausência ativa, criadora, um vácuo que produz sentido. A separação não é obviamente para mim uma derrota, é o único modo de conservar vivo o que elas tocaram. Amar, aqui, não é possuir: é atravessar o incêndio sem tentar apagar a fumaça. Se você chegou até o fim deste artigo, carregue essa pergunta; não pára para dar resposta, mas, deixá-la roer. Do que você abriria mão para não matar o próprio desejo? Que verdade você teme descobrir quando alguém finalmente te olha de volta sem medo? Talvez seja aí, nesse instante impronunciável, que cada um de nós se torne, por um segundo, pura labareda. “O mito de Orfeu reescrito pelas personagens ganha corpo nesta imagem, onde a escolha da perda preserva o desejo e subverte o amor romântico.” FAQ – Retrato de uma Jovem em Chamas (Portrait de la jeune fille en feu, 2019) O que significa gozo feminino em Retrato de uma Jovem em Chamas? O gozo feminino é o prazer excessivo que não passa pelo falo e aparece nas cenas de orgasmo silencioso, dança coletiva e choro final. Por que a cena do aborto é tão importante no filme? Ela mostra três mulheres realizando um ato político de autonomia corporal, reescrevendo o mito de Orfeu como resistência ao patriarcado. Qual o significado da página 28 no filme? Héloïse usa um espelho para que Marianne veja sua própria vulva, é o estádio do espelho sexualizado e a revelação do gozo ‘’Outro’’. O que Lacan quis dizer com “a mulher não existe”? Que não há significante universal para a mulher, o gozo feminino é suplementar e escapa à lógica fálica, exatamente como o filme mostra. Por que Héloïse chora na última cena? É o retorno traumático do Real: a música faz o gozo reprimido irromper após anos de sublimação. Retrato de uma Jovem em Chamas é filme lésbico ou feminista? É ambas as coisas e muito mais: anticapitalista, anticolonial e antipatriarcal em sua essência. O que é o ‘’objeto a’’ no filme? O olhar roubado de Marianne sobre Héloïse, que causa um desejo que nunca será plenamente capturado. Qual a relação entre o mito de Orfeu e o filme? Héloïse sugere que Orfeu escolheu a perda para preservar o amor na memória, as mulheres do filme fazem o mesmo. Por que o filme se chama Retrato de uma Jovem em Chamas? Porque o desejo lésbico queima tudo ao redor, inclusive o retrato que tentava aprisioná-la. O filme tem final feliz ou triste? Nem um nem outro. É um final sublime onde a separação consciente preserva o desejo eterno. Palavras Chave retrato de uma jovem em chamas análise psicanalítica, gozo feminino lacaniano, desejo lésbico proibido, página 28, espelho vulva, cena aborto retrato jovem chamas, mito orfeu héloïse, olhar feminino lacan, objeto a marianne héloïse, não-todo gozo mulher, real lacaniano cinema, sublimação amor lésbico, céline sciamma psicanálise, retrato casamento destruído, choro final héloïse significado, gozo outro retrato chamas, feminismo no cinema, melancolia amorosa filme, dança fogueira retrato, eurídice lacan filme, retrato jovem chamas lacan Hashtags #RetratoDeUmaJovemEmChamas# #GozoFeminino# #PsicanaliseLacaniana# #DesejoLesbico# #Pagina28# #OlharFeminino# #CelineSciamma# #Objetoa# #GozoOutro# #MitoDeOrfeu# #Feminismo# #CinemaLesbico# #RealLacaniano# #SublimacaoDoDesejo# #AbortoNoCinema# #MelancoliaAmorosa# #RetratodeCasamento# #FemaleGaze# #GozoDaMulher# #SexualidadedaMulher# #LacanNoCinema# #DesejoProibido# #SexoFeminino# #Lesbianismo# Referências Bibliográficas Amorim, Patrícia Mafra de. A recusa da vagina: Karen Horney, o feminismo e a feminilidade na psicanálise. São Paulo: Aller, 2021. Beauvoir, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. Braidotti, Rosi. O pós-humano. Campinas: Editora da Unicamp, 2014. Butler, Judith. Corpos que importam. São Paulo: Boitempo, 2019. Butler, Judith. Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. Ceccarelli, Paulo. Psicanálise, sexualidade e gênero: Um debate em construção. São Paulo: Ideias & Letras, 2019. Cixous, Hélène. O riso da Medusa. São Paulo: Perspectiva, 2020. Foucault, Michel. História da sexualidade 1: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988. Freud, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, 2006. Haraway, Donna. Manifesto ciborgue. São Paulo: Autêntica, 2018. Irigaray, Luce. Este sexo que não é um. São Paulo: Perspectiva, 2018. Kristeva, Julia. Histórias de amor. Rio de Janeiro: Rocco, 1989. Lacan, Jacques. O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. Lacan, Jacques. O Seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1991. Laplanche, Jean. Novos fundamentos para a psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Lattanzio, Felippe. O lugar do gênero na psicanálise: Metapsicologia, identidade, novas formas de subjetivação. São Paulo: Aller, 2021. Lauretis, Teresa de. Tecnologias do gênero. São Paulo: Autêntica, 2019. Miskolci, Richard. Teoria queer: Um aprendizado pelas diferenças. Belo Horizonte: Autêntica, 2012. Mitchell, Juliet. Psicanálise e feminismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. Moreira, Maíra Marcondes. O feminismo é feminino?: A inexistência da mulher e a subversão da identidade. São Paulo: Jandaíra, 2021. Preciado, Paul B. Um apartamento em Urano. São Paulo: Zahar, 2021. Rubin, Gayle. O tráfico de mulheres. São Paulo: Boitempo, 2020. Sedgwick, Eve Kosofsky. Epistemologia do armário. São Paulo: Autêntica, 2017. Trujillo, Gracia. 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- Anatomia de uma Queda: Uma Análise Psicanalítica do Casamento e da Culpa
Uma Análise Psicanalítica do Casamento e da Culpa Anatomia de uma Queda: Uma Análise Psicanalítica do Casamento e da Culpa Dirigido por Justine Triet e vencedor da Palma de Ouro em 2023, além do Oscar de Melhor Roteiro Original em 2024, nos oferece uma obra cerebral de um casamento em colapso. Vejo nessa narrativa uma introdução acessível de temas como incerteza e desejo reprimido, ideal para quem busca entender as dinâmicas relacionais modernas. A trama, centrada em uma escritora acusada de assassinato, usa o tribunal como metáfora para julgamentos cotidianos, promovendo empatia sem respostas definitivas. Evidências sugerem que casamentos frequentemente desabam sob pressões invisíveis, como rivalidades criativas, o que vemos claramente no conflito entre Sandra e Samuel. Isso reforça a necessidade de reconhecer ambivalências, transformando culpa em crescimento, embora controvérsias existem sobre, se o filme reforçaria estereótipos de gênero ou os desconstrói, com visões feministas destacando o dito empoderamento. Inspirado em Freud e Lacan, o filme mostra verdade como construção mítica, parcial e eficaz para elaborações subjetivas. Jung adiciona a noção de sombras reprimidas, uma ponderação pessoal sem julgamentos absolutos. Culpa e Desconstrução do Casamento: Análise Psicológica no Cinema Francês A Desconstrução do Casamento na Tela Existem cicatrizes que se infiltram nas tramas das conexões emocionais sem fazer alarde, como murmúrios em passagens desertas, esculpem caminhos sem consentimento. No epicentro das parcerias afetivas, onde o carinho se funde ao rotineiro, surgem penumbras que desafiam o cerne do que rotulamos como possível autenticidade. A obra cinematográfica "Anatomia de uma Queda" (Anatomie d'une chute, 2023) , é orientada pela talentosa Justine Triet, que nos brinda com uma visão robusta para esse olhar. Nela, rastreia Sandra Voyter, interpretada com maestria por Sandra Hüller, uma narradora de origem germânica estabelecida nos Alpes franceses, sob acusação de matar o seu parceiro Samuel Maleski (Samuel Theis). O filho, Daniel (Milo Machado Graner), acometido por restrição visual, ascende como um observador, perambulando por lealdades estilhaçadas. Essa peça, além de conseguir seis prêmios César, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção, traz a essência coletiva de nossa época. Eu enxergo nela uma oportunidade ímpar para desvendarmos o inconsciente. Isso vai além de meros signos; ela espreme como o matrimônio atual, essa formação sensível, desaba sob o fardo da verdade particular. O que subsiste como verídico quando reminiscências se juntam a aspirações contidas? O remorso, esse aparato primordial de tenacidade, não se manifesta como ato judicial, mas como estímulo que corrói as ligações. Sandra encarna o feminino desafiador, uma criadora que contesta padrões seculares, enquanto Samuel se materializa no masculino exausto, afligido por ciúmes artísticos e insatisfações paternas. Daniel, o adolescente, que privado de sua visão plena, personifica a ingenuidade ferida, impelido a redefinir a vida por meio de filtros e pelo tumulto doméstico. No âmbito judicial, a interação da dupla expõe hostilidades emblemáticas: atribuições de furto intelectual, infidelidades e hegemonia. Lacan designaria isso como falta de "rapport sexual", a impraticabilidade de equilíbrio total entre as polaridades sexuais. Observo essa trama como a malha sofisticada de intercâmbios subconscientes que converte o refúgio em domínio de confronto. Estruturo esta meditação em camadas: primeiramente, a desagregação das ligações afetivas como arena de forças; seguidamente, a plasticidade da genuinidade como história volúvel; depois, o remorso como energia ambígua; a seguir, a simulação do choro e seus disfarces; logo, o deslocamento e afinidade do público; por fim, as trocas subconscientes que tecem o script da dupla. Em uma era de representações, onde plataformas digitais inflamam fantasias, produções assim nos confrontam com o real lacaniano, aquilo que foge à denotação. Confabulação e Verdade Subjetiva: Como o Inconsciente Molda Narrativas Amorosas Arena de Forças Invisíveis No centro de "Anatomia de uma Queda" , as alianças sentimentais se configuram como construções instáveis, erguidas sobre bases de ambições e submissões. Sandra e Samuel, forasteiros em uma cabana remota, exemplificam como relacionamentos contemporâneos colapsam sob pesos sutis. Ele, um instrutor desanimado, a culpa pela apropriação de suas ideias; ela, contadora de histórias bem-sucedida, luta por autonomia. Essa troca de domínio chama o que eu denomino de agressão simbólica no par, onde o afeto se contamina por competições egocêntricas. Sandra demonstra vigor neurótico, se protegendo com um pensamento afiado; Samuel, deprimido, transfere suas falhas para ela; Daniel, angustiado, assimila o conflito, erigindo barreiras precoces. O que isso desperta em nossos laços? Como o escondido modela desavenças diárias? E se a autêntica fragmentação iniciasse ao admitirmos as vulnerabilidades mútuas? ‘’Nesse consórcio, a dualidade sentimental não é defeito, mas essência, um apelo à recomposição emblemática que poucos abraçam.’’ - Dan Mena "Todos carregam uma penumbra, e quanto menos ela se integra à existência consciente do indivíduo, mais obscura e densa se torna." – Carl Gustav Jung, Psicologia e Religião (1938). Essa declaração de Jung nos esclarece a tensão no casal: a sombra, uma faceta suprimida da psique, que se exterioriza em recriminações recíprocas, ampliando o abismo entre eles. Ela tensiona a interpretação ao propor que a fragmentação não é uma simples derrocada do laço, mas, a chance de integração, contestando noções rasas de equilíbrio matrimonial. Em síntese, une o simbólico ao existencial, nos instigando como espectadores a enfrentar nossas próprias penumbras relacionais. Ampliando o horizonte, considerem verificar como a autoria feminina de Justine Triet fortalece vozes femininas. Em visões igualitárias, Sandra simboliza a mulher que transcende convenções, desafiando arranjos patriarcais. Isso dialoga com Butler em "Corpos que Importam" , onde gêneros são encenações moldadas por discursos sociais. No filme, o julgamento intensifica esses diálogos, indagando se o remorso de Sandra é factual ou fabricado por vieses sexuais. Explorando as Raízes Inconscientes da Desagregação Essa desarmonia e desagregação conjugal em "Anatomia de uma Queda" denota padrões universais de ruptura afetiva, onde o lar se transforma em campo minado de projeções inconscientes. Nas minhas práticas clínicas, observo que casais frequentemente replicam seus traumas geracionais, similar ao que Daniel vivencia, uma cegueira literal que simboliza a incapacidade coletiva de "enxergar" verdades dolorosas. Em termos neurocientíficos, pesquisas sobre plasticidade cerebral indicam que exposições prolongadas a conflitos alteram circuitos de recompensa, tornando a ambivalência uma resposta adaptativa, embora destrutiva. Samuel, atormentado por seus fracassos profissionais, projeta invejas em Sandra, ilustrando como o narcisismo ferido roça os laços. Sandra, por sua vez, encarna a resiliência, mas sua racionalidade esconde vulnerabilidades, aqui, invocando o "falso eu" de Winnicott – uma defesa contra o caos interno. O filme faz crítica a sociedade performativa, ampliada por mídias digitais, que exacerbam essas rupturas. Em um mundo onde narrativas pessoais competem por validação, uniões se tornam verdadeiras batalhas por autenticidade, nos convidando a questionar: até que ponto admitimos nossas sombras para nos reconstruir? Ética do Desejo no Relacionamento: Análise de Anatomia de uma Queda A Fluidez A autenticidade nesse drama legal, se dissolve em variantes pessoais, com cada depoimento inventado para sanar vazios mentais. O tribunal, vai ser usado como uma alegoria da sociedade encenadora, que desnuda histórias de verdade e falsidade. Filosoficamente, essa maleabilidade da autenticidade em cinema nos remete a Nietzsche: '' No subconsciente e nas uniões amorosas, invenções servem como escudo contra o trauma real.'' "Não há relação sexual." – Jacques Lacan, Seminário XX: Encore (1972-1973). Lacan expande essa visão ao afirmar a impossibilidade de uma harmonia plena, ampliando narrativas como tentativas vãs de preencher lacunas. Isso aponta ilusões românticas, ilustrando como as confabulações escondem o vazio central nas uniões. Sinteticamente, integra o linguístico ao afetivo, abrindo construções simbólicas que, ao se dissolverem, colocam à mostra a essência pulsional das relações. Para enriquecer, separo sequências específicas: a gravação oculta de uma briga que revela relatos conflitantes, onde cada parceiro reconta eventos para justificar ações. Isso traz Laplanche para o tema em "Ensaios sobre a Alteridade" , onde enigmas do outro moldam o sujeito. Na neurociência, confabulações estão ligadas ao hipocampo, que reconstrói memórias sob influência emocional, explicando por que casais "lembram" de forma diferente das suas brigas. O papel de Daniel como testemunha destaca como crianças internalizam narrativas parentais, perpetuando traumas intergeracionais. Estudos mostram que deficiências sensoriais expandem a dependência afetiva, o deixando vulnerável a manipulações inconscientes. A Construção Narrativa como Defesa Psíquica A fluidez narrativa no filme serve como mecanismo defensivo contra o real traumático, onde personagens preenchem lacunas com fabricações que sustentam suas identidades. Eu percebo aqui um paralelo com Freud em "Construções em Análise" , onde interpretações analíticas sugerem angústia ao se aproximar de fragmentos históricos, confirmados indiretamente por associações emergentes. No tribunal, testemunhos funcionam assim: cada versão, embora parcial, gera efeitos subjetivos, como o alívio ou o desespero. Lacan complementa ao descrever verdade como "meia-verdade", sempre incompleta, mas potente quando provoca mudanças. Em relações amorosas, essas fabricações viram pilares frágeis; o que acontece quando confabulações se tornam a única ponte sobre o vazio? O Remorso como Energia Ambígua Remorso e responsabilidade afetiva permeiam a trama, modificando o luto em um inquérito moral. Na ética do desejo relacional, vai servir como barreira, mas também como tóxico, perpetuando rancores. A psicanálise evidencia o arrependimento como estímulo, o que mistura autopunição e reparação. "Somos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o objeto amado ou seu amor." – Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização (1930). Essa ambiguidade liga o remorso ao luto amoroso, expandindo como ele surge da perda inevitável. Contestando simplificações, conecta o individual ao cultural. Sinteticamente, funde o afetivo ao estrutural, deixando o arrependimento como uma ponte entre desejo e realidade. Seria então uma dívida simbólica, onde Sandra carrega o ônus do sucesso enquanto Samuel internaliza o fracasso. Comparando a outros filmes, como "Ninfomaníaca" de Lars von Trier, que já analisei anteriormente, o remorso sexual e afetivo, ele evidência padrões semelhantes de autodestruição. Siga o link para ler o artigo; https://www.danmena.com.br/post/analise-psicanalitica-ninfomaniaca-sexualidade-trauma Desconstrução do Casamento Moderno A Ambivalência do Remorso nas Dinâmicas Familiares Esse mecanismo de sobrevivência que, paradoxalmente, acelera a queda, especialmente em contextos familiares traumáticos. Daniel sinaliza a internalização de conflitos parentais, onde a culpa aumenta o seu isolamento. Falhas em expressar apreço geram ciclos de ressentimento. Socialmente, o filme questiona a normalização de remorsos tóxicos, alguns veem arrependimento como uma ferramenta patriarcal, outros como via universal para reparação. Máscaras Sociais Badiou em "Em Louvor ao Amor" propõe que o afeto genuíno resiste à performance, mas no filme, o choro de Sandra é escancarado publicamente, mostrando o uso das máscaras sociais. Da perspectiva analítica, o "falso self" protege o verdadeiro, como Sandra, que adota a racionalidade para esconder sua vulnerabilidade. A ansiedade persistente no filme, foi planejada pela diretora para instigar o incômodo. O Luto como Espetáculo e Seus Efeitos Psíquicos A performatividade do luto transforma a dor particular em narrativa pública, mascarando agressões invisíveis como o controle emocional. Em "Anatomia de uma Queda" , o tribunal aumenta isso, com testemunhos virando atuações que demonstram traumas. Eu percebo aqui uma crítica à humanidade, onde julgamentos reduzem indivíduos a fragmentos. Transferência e Conexão do Público O filme desloca os espectadores que se identificam com Sandra, lançando dilemas pessoais nas versões da 'verdade' . Essa identificação transforma a obra em paraquedas mental. Como nossas projeções alteram percepções de justiça? E se a verdade for mera projeção coletiva? ‘’A projeção do espectador nos lembra que vemos no outro o que negamos em nós.’’ - Dan Mena "O falso self é sem dúvida um aspecto do verdadeiro self. Ele o esconde e protege, e reage às falhas de adaptação, desenvolvendo um padrão correspondente." – Donald Winnicott, The Maturational Processes and the Facilitating Environment (1965). Exploração Psicológica em Dramas Judiciais. A Implicação do Espectador na Teia Inconsciente A conexão do público com o filme surge de sua ambiguidade, que se implica nos jogos de subjetividade onde nossas projeções moldam interpretações. O Enigma do Afeto Moderno Trocas ocultas no casal tecem redes complexas: diálogos, dualidades afetivas, que esculpem identidades. Por que ignoramos sinais ocultos? A complexidade das interações inconscientes no casal é o verdadeiro enigma do amor moderno. – Dan Mena "As mensagens enigmáticas que encontramos na vida cotidiana evocam incessantemente nossas respostas." – Jean Laplanche, Essays on Otherness (1999). Laplanche discute interações com traduções de enigmas em adultos, que pressionam e moldam o sujeito. Sinteticamente, integra o tradutivo ao pulsional, enriquecendo a visão de uniões como elaborações contínuas. Um Chamado à Consciência Em um panorama societal onde uniões desabam sob demandas, "Anatomia de uma Queda" é um manifesto. Seu olhar contemporâneo sobre o anelo e o remorso interrogam o coletivo: por que banalizamos violências sutis? O filme, com sua autoria feminina e discurso, empodera vozes silenciadas. Trauma e Reconstrução O filme retrata como problemas familiares moldam subjetividades, perpetuando ciclos que ressoam em sociedades performativas. Daniel representa e simboliza as distorções coletivas, onde preconceitos obscurecem a justiça. Controvérsias incluem as visões feministas que celebram o empoderamento, contrapostas a críticas de ambiguidade excessiva. O chamado é para consciência: desconstruir narrativas tóxicas, reconstruindo laços autênticos. Família, Trauma e Subjetividade: Temas Inconscientes em Obras Contemporâneas FAQ - Anatomia de uma Queda: Uma Análise Psicanalítica do Casamento e da Culpa O que simboliza a veracidade individual em "Anatomia de uma Queda"? Refere-se a como protagonistas erguem relatos pessoais, orientados pelo oculto, para gerir lesões. Como a análise esclarece o remorso? Resguardo e derrocada. Qual a função da simulação do pranto no enredo? Encobre aflições reais, convertendo o lamentador em intérprete coletivo para validar candura ou dor. O que é fabricação na reflexão do filme? Preenchimento oculto de hiatos mnemônicos, empregado para forjar edições consistentes da "autenticidade". Como se processa o deslocamento do observador? Deslocam tormentos próprios nos protagonistas, associando-se a incertezas e dilemas éticos. Qual a sofisticação das permutas ocultas no par? Delineiam essências via enigmas, desvelando atritos não expressos. Por que o consórcio é fragmentado na criação? Desmorona sob supremacia, ressentimento e lapsos comunicativos, salientando agressão simbólica. O que a análise desnuda sobre elos matrimoniais? Bipolaridades, anseios suprimidos e sequências de repetição lesiva. Qual o perfil psíquico de Sandra? Exibe robustez neurótica, resguardando soberania com raciocínio. E de Samuel? Representa masculino esgotado, com traços abatidos e deslocadores. Como a narrativa aborda a ética do anelo? Como potência moral, conflituosa em uniões. O que é agressão simbólica no par? Agressão sutil via supremacia e imputações, sem corporalidade. Qual a função do olhar analítico? Decifra emblemas ocultos. Bipolaridade afetiva no casal significa o quê? Amálgama de carinho e aversão, essencial mas prejudicial se não elaborada. Simulação da autenticidade no choro? Interpretação da autenticidade para manejar perda, velando interiores. Impulsões e elos matrimoniais na trama? Impulsões amalgamam eros e thanatos, sustentando ou demolindo uniões. Clã, lesão e individualidade? A clânica esculpe individualidades, eternizando sequências. Interpretação psíquica da criação? Centra em atritos internos, deslocamentos e correções psíquicas. Fragmentação dos relacionamentos atuais? Desnuda delicadezas sob cargas coletivas e ocultas. Como a ciência neural se vincula à reflexão? A ferida remodela estruturas cerebrais, influenciando condutas relacionais. Quais troféus a criação obteve pós-estreia? Oscar 2024 de Roteiro Original, seis César 2024, entre outros. Por que cotejar com "História de um Casamento"? Triet inspirou-se na sequência de atrito para responder ao solilóquio masculino. Hashtags #AnatomiaDeUmaQueda, #PsicanaliseNoCinema, #RelaçõesConjugais, #VerdadeSubjetiva, #CulpaNoCasamento, #DesconstruçãoDoCasamento, #PerformatividadeDoLuto, #Confabulação, #ProjeçãoEspectador, #InteraçõesInconscientes, #CinemaPsicológico, #JustineTriet, #SandraHüller, #TraumaFamiliar, #ViolênciaSimbólica, #AmbivalênciaEmocional, #PulsõesConjugais, #ÉticaDoDesejo, #FamíliaETrauma, #SubjetividadeDaVerdade. Referências Bibliográficas Badiou, Alain. Em Louvor ao Amor. São Paulo: Martins Fontes, 2012. Butler, Judith. Corpos que Importam. São Paulo: Boitempo, 2019. Freud, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1974. Freud, Sigmund. Totem e Tabu. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Jung, Carl Gustav. Psicologia e Religião. Petrópolis: Vozes, 1984. Jung, Carl Gustav. O Homem e Seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. Klein, Melanie. Inveja e Gratidão. Rio de Janeiro: Imago, 1991. Klein, Melanie. Contribuições à Psicanálise. São Paulo: Mestre Jou, 1975. Lacan, Jacques. Seminário 20: Ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. Lacan, Jacques. Os Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. Laplanche, Jean. Ensaios sobre a Alteridade. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Laplanche, Jean. Novos Fundamentos para a Psicanálise. São Paulo: Escuta, 1992. Nietzsche, Friedrich. A Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Nietzsche, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. Ogden, Thomas. Assuntos de Existência. Porto Alegre: Artmed, 1996. Winnicott, Donald. O Ambiente e os Processos de Maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983. Winnicott, Donald. Jogar e Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. Zizek, Slavoj. O Sublime Objeto da Ideologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989. Zizek, Slavoj. Como Ler Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010. Bion, Wilfred. Aprendendo com a Experiência. São Paulo: Blucher, 2018. Visite minha loja ou site: https://uiclap.bio/danielmena https://www.danmena.com.br/ Dan Mena – Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise (CNP 1199, desde 2018); Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise (CBP 2022130, desde 2020); Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University – Florida Department of Education, EUA (Enrollment H715 / Register H0192); Pesquisador em Neurociência do Desenvolvimento – PUCRS (ORCID™; Especialista em Sexologia e Sexualidade – Therapist University, Miami, EUA (RQH W-19222 / Registro Internacional).
- Joker (2019): Análise Psicanalítica, Indiferença Social e o Colapso do Sujeito Moderno
Narcisismo patológico no filme Joker: busca por reconhecimento. Joker (2019): Análise Psicanalítica, Indiferença Social e o Colapso do Sujeito Moderno Imagine um homem rindo no escuro de uma cidade que o esmaga, onde cada gargalhada soa como um grito abafado. Arthur Fleck, o palhaço falido que se torna o Coringa . Ele não surge do além, ele é forjado no fogo lento da indiferença social , das feridas antigas que nunca cicatrizam. Neste filme de 2019, dirigido por Todd Phillips , vemos uma descida ao caos das fraturas da psique contemporânea. A obra abre uma fenda interessante para olhar para o trauma infantil que molda o ego frágil, levando ao desmoronamento do sujeito perante uma sociedade que o rejeita. O trauma visto pela trilha é o alicerce de uma existência despedaçada. Arthur carrega marcas de abusos físicos e emocionais da infância que se fazem presente em flashes cruéis que explicam seu riso incontrolável. Um sintoma claro de afeto pseudobulbar com sequela neurológica de lesões cerebrais. Isso vai nos remeter ao conceito freudiano de repetição compulsiva , onde o passado irrompe no presente, forçando o indivíduo a reviver o horror para tentar sua dominação. Mas em Arthur, essa reincidência vira rebelião. O riso se torna a arma contra uma cidade; ‘’Gotham’’ que simboliza iconicamente o colapso do sujeito moderno, alienado em meio à desigualdade rampante. Psicopatia emergente: da vítima ao Coringa. Dito narcisismo patológico de Arthur, que busca reconhecimento em fantasias delirantes, e a psicopatia emergente é alimentada pela ausência de empatia social. Lacan nos ajuda nesta leitura ao ver o "objeto a" como o desejo inalcançável na figura materna ilusória e no pai ausente, que será representado por Thomas Wayne . O filme questiona; até que ponto o sistema capitalista, com suas deficiências em saúde mental, fabrica seus monstros? Aqui, essa implosão não é individual; é coletiva, apoiadas em teorias sociológicas de alienação em Durkheim, misturadas à filosofia existencial de Nietzsche no niilismo. (Niilismo é a postura que afirma a ausência de sentido, valor ou fundamento na vida. Ele surge quando as crenças que sustentam nossa experiência se esvaziam, nos deixando diante de um vazio de significado) . A perspectiva da análise será focada no isolamento digital e crises mentais, Arthur encarna o sujeito fragmentado, cuja loucura é sintoma de uma era que ignora o sofrimento alheio. Por que o Coringa ri – e por que nós, espectadores, sentimos um calafrio familiar? Joker (2019): Análise Psicanalítica, Indiferença Social e o Colapso do Sujeito Moderno ‘’O trauma, qual sombra persistente, devora a luz do ego até restar apenas o caos interior.’’ - Dan Mena O Riso Incontrolável como Defesa Psíquica Arthur Fleck cai na risada nos momentos mais inadequados, como se seu corpo traísse a alma. Esse riso, longe de ser uma alegria genuína, aponta para o afeto pseudobulbar, uma disfunção decorrente de traumas cranianos na infância. Neurologicamente, lesões no lobo frontal desregulam o controle emocional, mas psicanaliticamente detecto uma manifestação do recalcado , o riso como catarse e falha, liberando tensão acumulada sem resolver o conflito subjacente. Em Gotham, uma metrópole de contrastes brutais, esse sintoma acaba isolando Arthur o tornando alvo de escárnio. O colapso do sujeito moderno surge aqui, o indivíduo, bombardeado por estímulos opressivos, perde a coesão do ego. Lacan falaria que o riso é o Real adentrando, o inefável que escapa à ordem simbólica. Sociologicamente, Bauman e sua "modernidade líquida" o transfere para os laços frágeis que aumentam o sofrimento. ‘’No vazio do reconhecimento negado, o narcisista ergue castelos de fácil desmoronamento.’’ - Dan Mena Mas e se esse riso fosse resistência? Arthur o transforma em identidade, o ‘’Coringa’’ nasce como ‘’persona’’ que subverte a norma. Uma loucura transfigurada em crítica ao poder, que questiona a sanidade coletiva. No entanto, o preço é alto. O isolamento leva à violência. Por que a gargalhada de Arthur nos incomoda tanto? Será que põe à mostra nossas máscaras sociais? Ou encena o quanto ignoramos os sinais de dor alheia? ‘’No abismo entre o cômico e o trágico, o riso se torna tambor de um vazio que a sociedade prefere silenciar.’’ - Dan Mena Alienação social em Gotham: desigualdades no cinema. O Trauma Infantil e as Raízes do Desmoronamento Egóico As constatações sobre a infância de Arthur chocam. Encontram seu filtro em abusos repetidos pela mãe e seu companheiro, elas vão deixar cicatrizes físicas e psíquicas. Por esta razão, ele elabora o "falso self" , uma fachada construída para sobreviver à falha ambiental materna. Aqui, o trauma não é um evento isolado, é a estrutura fundante, moldando um ego fraco que busca permanentemente a validação externa. Estudos em apego mostram como a negligência precoce leva a desregulação emocional, predispondo o sujeito a ‘’transtornos borderline’ ’. Em Arthur, isso se manifesta em delírios narcisistas, onde a fantasia vai substituir a realidade. Um espelho quebrado, ausente de um imaginário coeso que acaba recaindo no Real traumático. Socialmente, o filme JOKER (2019) , critica sistemas que falham em proteger os mais vulneráveis, encaixando a obra nas teorias de Bourdieu sobre capital cultural que são negadas aos menos favorecidos. A filosofia hegeliana vê nisso a dialética do senhor-escravo invertida, onde o oprimido vira dono do caos. E se traumas semelhantes habitassem muitos de nós? Como podemos detectar sinais precoces em crianças? Por que nas sociedades modernas se perpetuam os ciclos de violência? Narcisismo Patológico e a Busca por Reconhecimento O protagonista anseia por holofotes, sonhando ser um comediante admirado. Esse desejo que expõe seu narcisismo ferido, onde o ego inflado se esconde no seu vazio interno. Uma falha visível do espelhamento parental que o leva a desenvolver um tipo de grandiosidade compensatória. No filme, ‘’Delírios’’ com Murray Franklin ilustra isso. Projeções idealizadas que preenchem lacunas afetivas. Psicanaliticamente, estaria presente o ‘’estádio do espelho lacaniano distorcido’’ , com o ‘’Outro’’ falhando em confirmar sua existência. Sociologicamente vemos a era das redes sociais, onde ''likes'' substituem conexões reais, agravando o isolamento. O Coringa como o super-homem niilista, transcende a moralidade para acessar sua auto-afirmação. Por que tantos buscam fama a qualquer custo? O narcisismo é uma epidemia moderna? Como a análise psicanalítica pode recompor e fazer releitura desses ferimentos? ‘’Na rachadura do ego, a imagem distorcida clama por aplausos que nunca chegam.’’ - Dan Mena Psicopatia Emergente: Da Vítima ao Algoz Inicialmente vítima, Arthur evolui para predador frio e calculista. Essa transição evoca a psicopatia secundária forjada por traumas, não como inata. Seus traços inegáveis como falta de remorso, manipulação e impulsividade . Uma pulsão de morte liberada que destrói laços, o sujeito barrado, sem o desejo do ‘’Outro’’ , cai em definitiva no gozo mortífero. Socialmente, o filme denuncia desigualdades que geram violência, alinhados ao colonialismo interno, onde o absurdo leva a uma revolta descabida. Será que a empatia pode prevenir tal virada? Como diferenciar psicopatia de reação traumática? Como as sociedades criam seus monstros? ‘’Da dor suprimida surge o predador, reverberando o silêncio de uma humanidade que se mostra totalmente indiferente.’’ - Dan Mena O Papel da Sociedade e a Desigualdade em Gotham Gotham pulsa com seus contrastes, vemos ricos indiferentes e pobres esmagados. Arthur é o produto final dessa fissura, sua loucura é um reflexo de um sintoma social. É o ‘’Grande Outro’’ falível, incapaz de simbolizar desejo. Um mal coletivo, onde a indiferença permite a elocução de atrocidades. Por que ignoramos desigualdades? Reformas sociais previnem colapsos? O Coringa é ao final um espelho atual? ‘’Nas ruas fragmentadas da metrópole moderna, o sujeito se dissolve em meio ao ruído da indiferença coletiva.’’ - Dan Mena Pulsão de morte freudiana na violência. Delírios e Realidade numa Fronteira Dissolvida Arthur confunde fantasia e fato, como o romance imaginário com sua vizinha. Isso aponta diretamente para uma ''esquizofrenia paranoide'' , mas psicanaliticamente, é uma defesa contra a angústia. Em Lacan: o Nome-do-Pai ausente leva à foraclusão , onde o Real invade. Na psicologia cognitiva, será visto como viesses confirmatórios que agravam delírios. E se nossos devaneios cotidianos fossem expostos? Como ancorar a realidade? A Terapia resgata fronteiras? ‘’Entre a ilusão e a verdade, o sujeito contemporâneo dança na corda bamba.’’ - Dan Mena A Violência como Catarse e o O Nascimento do Coringa Os assassinatos que Arthur pratica não são aleatórios, são uma forma de liberação catártica, uma via perversa que purga sua raiva acumulada. Uma violência que leva ao ‘’acting out’’ e explode em sua versão literal. (‘’acting out’’, quando alguém expressa um conflito interno por meio de ações impulsivas , em vez de pensar ou falar sobre o que está sentindo. É o inconsciente tomando o lugar da palavra) . Por que a violência fascina o ser? Pode ser evitada com empatia? O Coringa nos humaniza ou desumaniza? Impacto Contemporâneo e Saúde Mental na Era Digital Hoje, estamos lado a lado com o isolamento online, isso se cruza com a solidão de Arthur. Como as redes sociais afetam nossa psique? Políticas públicas bastam? O filme alerta ou romantiza a loucura? Um Caso Clínico Replicando o Coringa e o Afeto Pseudobulbar Durante minha prática, atendi um paciente que vou chamar de Marcos, um homem de quarenta e um anos, cuja trajetória se cruza de forma simbólica com o arco psíquico de Arthur Fleck. Ele sempre chegava às sessões com um sorriso forçado . Após alguns avanços, estava claro que escondia uma dor consolidada em abusos infantis por causa do seu pai alcoólatra . Sofria de ciclos de risos incontroláveis , principalmente em momentos tensos, diagnosticado como afeto pseudobulbar pós-traumático de concussões repetidas. O afeto pseudobulbar surge quando a expressão emocional se desprende do eixo simbólico que costuma nos proporcionar sentido. Após concussões repetidas , certas vias neurais que modulam a passagem entre o afeto e sua manifestação motora ficam fragilizadas. O resultado é um transbordamento involuntário , onde riso ou choro entram sem corresponder ao vivido. Não se trata de um conflito recalcado que retorna de forma deslocada, é antes de tudo uma falha na mediação entre o corpo e o discurso que propomos. A emoção, fica destituída de elaboração psíquica suficiente, dá um salto para o ato , como se a mente perdesse, temporariamente, sua capacidade de ‘’representar antes de expressar’’. Mesmo assim, os efeitos subjetivos são evidentemente clínicos. Vergonha, estranhamento diante do próprio corpo, sensação de desajuste nos relacionamentos e laços sociais . Essa vivência cria ansiedades secundárias, defesas diante do olhar do outro e empobrecimento da espontaneidade. Afeto pseudobulbar: sintoma neurológico no palhaço em JOKER. Embora o fenômeno tenha origem neurológica, seu impacto simbólico e relacional é inegável, o indivíduo se vê exposto a um afeto que o atravessa sem uma autorização , cortando a delicada fronteira entre corpo, palavra e vínculo . O recalcado retornava em Marcos, isso se manifestava em delírios de grandeza , sonhando ser um artista musical famoso enquanto trabalhava em empregos precários. Esta forma de ver o ''Outro falho'' , uma mãe negligente que não forneceu o Nome-do-Pai , o deixou à mercê do Real. Esse Real que se aventa em atos impulsivos, como brigas em bares, agressividade social que remetem a turbulência mental do Coringa. ‘’Quando o Real lacaniano invade, dissolve as fronteiras da sanidade.’’ - Dan Mena Socialmente, Marcos era morador de comunidades, onde as desigualdades se instalam na forma de de ''suicídio anômico'' ; (conceito que descreve um tipo específico de suicídio relacionado à quebra das normas, desregulação social e perda de referências coletivas, mas aqui, era pura violência internalizada). Ele construía personagens para sobreviver, mas colapsou em crises narcisistas, destruindo sua confiança básica. Na sua análise, ele reconheceu suas repetições compulsivas, reviveu suas rejeições em relacionamentos e ligações buscando reparação simbólica. Esse caso do meu paciente, ilustra que traumas não definem o indivíduo, destarte, a psicanálise resgata o sujeito. ‘’A violência pode surgir de traumas, estourando em revoltas imprevisíveis.’’ - Dan Mena Trauma e Loucura em Coringa. Perfis Psicológicos dos Personagens Joaquin Phoenix interpreta Arthur Fleck/Coringa , um comediante falido cuja transformação escancara crises mentais. Arthur: Ego frágil, marcado por narcisismo e psicopatia secundária, traumas infantis levam a delírios, como defesa. Penny Fleck (Frances Conroy) : Mãe delirante, com transtornos borderline, negligência materna agrava feridas de Arthur, simbolizando sua falha simbólica. Murray Franklin (Robert De Niro) : Apresentador cínico, representa o ‘’Outro’’ social rejeitador, manipulador, representa a indiferença coletiva. O filme provoca um olhar para as desigualdades, quem é o verdadeiro vilão? FAQ - Joker (2019): Análise Psicanalítica, Trauma e o Colapso do Sujeito Moderno O que representa o riso incontrolável em Coringa? O riso é sintoma de afeto pseudobulbar, sequela de traumas que erguem uma defesa psíquica freudiana. Qual o impacto do trauma infantil em Arthur Fleck? Traumas moldam um ego frágil, levando a repetições compulsivas e o colapso identitário. Arthur tem narcisismo patológico? Sim, busca reconhecimento delirante para compensar o vazio interno. Psicopatia em Coringa é inata ou adquirida? Adquirida por traumas, emergindo como transição de vítima a algoz. Como a sociedade contribui para o colapso de Arthur? Alienando os vulneráveis. Os delírios de Arthur apagam a realidade? Sim, essa fronteira dissolvida expõe a foraclusão lacaniana. Violência no filme é catarse? Catarse perversa, liberando pulsão de morte freudiana. Saúde mental na era digital se conecta ao Coringa? Isolamento online agrava crises, similar à solidão de Arthur. O que é afeto pseudobulbar? Desregulação emocional pós-lesão cerebral, causando risos inadequados. Trauma leva a psicopatia secundária? Sim, em contextos de negligência crônica. O Narcisismo compensa falhas parentais? Sim, como um falso self. A Sociedade fabrica monstros como Coringa? Desigualdades perpetuam ciclos de violência. Delírios narcisistas são comuns? Em era de redes sociais, buscas por validação exacerbam o narcisismo. Violência simbólica em Gotham? Uma opressão que explode literalmente. Filosofia existencial no filme? Representa o Niilismo caótico. Neurociência explica o riso de Arthur? Estresse altera circuitos de empatia. Colapso do sujeito moderno? Fragmentação do indivíduo. Terapia previne trajetórias como a de Arthur? Sim, integrando traumas narrativamente. Psicanálise lacaniana no Coringa? O Real explode diante do ‘’Outro’’ falho. Impacto social do filme? Alerta para crises mentais contemporâneas. Empatia falha e revolta psíquica no filme CORINGA. Palavras-Chave análise psicanalítica Coringa 2019, trauma infantil Joker, colapso sujeito moderno, afeto pseudobulbar Arthur Fleck, narcisismo patológico filme, psicopatia secundária Coringa, alienação social Gotham, delírios realidade Joker, violência catarse psicanálise, saúde mental era digital, riso incontrolável trauma, repetição compulsiva Freud, foraclusão Lacan Coringa, anomia Durkheim filme, niilismo Nietzsche Joker, falso self Winnicott, pulsão morte Freud, modernidade líquida Bauman, banalidade mal Arendt, hiper-realidade Baudrillard Referências Bibliográficas BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. BOURDIEU, Pierre. A Distinção. Porto Alegre: Zouk, 2007. CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2006. CARUTH, Cathy. Unclaimed Experience: Trauma, Narrative, and History. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1996. DURKHEIM, Émile. O Suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2000. FANON, Frantz. Os Condenados da Terra. 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Links Externos Analysing Joker: an attempt to establish diagnosis for a film icon Episode 067: Joker: An In Depth Character Analysis Examining the Personality of Arthur Fleck in Joker 2019 The Joker Unmasked: A Literary Psychoanalytic Study The Psychology of the Joker from 'Joker' (2019) Joker 2019 film Research Papers Using Joker to Understand Psychoanalytic Principles THE ANALYSIS OF PSYCHOLOGICAL ASPECTS OF THE MAIN ... Five Philosophers Discuss “Joker” A FREUDIAN PSYCHOANALYSIS OF ARTHUR FLECK Links Internos Análise Psicanalítica de Rivais (Challengers): Triângulo Amoroso Anatomia de uma Queda: Uma Análise Psicanalítica do Casamento e da Culpa Ansiedade na Era da Incerteza: Como a Psicanálise Explica? Cinema, Sonhos & Psicanálise Dentro da Mente, Neurociência e Psicanálise Trabalham Juntas Retrato de uma Jovem em Chamas: Desejo, Lesbianismo e o Drama do Olhar Tristeza e Depressão: A Dor Existencial Visite minha loja ou site https://uiclap.bio/danielmena https://www.danmena.com.br/ Dan Mena – Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise (CNP 1199, desde 2018); Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise (CBP 2022130, desde 2020); Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University – Florida Department of Education, EUA (Enrollment H715 / Register H0192); Pesquisador em Neurociência do Desenvolvimento – PUCRS (ORCID™;Especialista em Sexologia e Sexualidade – Therapist University, Miami, EUA (RQH W-19222 / Registro Internacional).
- De Darwin a Freud: O Design Inteligente Universal. Parte I.
"As histórias que contamos sobre nós mesmos não são simples narrativas; são a forma que encontramos para dar sentido ao caos, uma tentativa de colocar ordem no desordenado e beleza no aparentemente sem forma." Dan Mena. A ciência e a religião, são frequentemente vistas como antíteses, destarte, podem surpreendentemente se complementar quando adentramos na investigação da criação, origem e propósito do cosmos e da vida. Neste artigo "De Darwin a Freud: O Design Inteligente Universal" , proponho uma análise que une perspectivas, Desde a biologia, teologia, design inteligente e psicanálise. Cada uma dessas áreas oferece suas contribuições valiosas, e é neste cruzamento que o texto ganha força. Como psicanalista, sempre mantive uma abordagem neutra nas minhas escritas, principalmente em relação a questões religiosas, respeitando sempre a diversidade de crenças. Contudo, não será esta uma violação a esta regra, dado que esta publicação me aventa a um posicionamento mais pessoal e autêntico, integrando minha formação acadêmica como teólogo, psicanalista e minha fé. É um espaço, onde razão, espiritualidade e ciência se encontram para enriquecer o diálogo sobre o que está além do visível e do mensurável. "O inconsciente carrega em si uma eterna tensão entre o visível e o invisível, como se a essência da criação fosse um espelho onde ciência e espiritualidade se entrelaçam." – Dan Mena. O Design Inteligente abrange tanto a busca pelo conhecimento quanto o reconhecimento do hermetismo do universo. Com humildade e respeito, invito meus leitores(as) a me acompanhar, sempre comprometido em fomentar um debate plural e enriquecedor. Dado o nível de amplitude do tema, optei por dividir este artigo em três partes, com o objetivo de tornar a leitura mais fluida e acessível, sem que o conteúdo se torne demasiadamente extenso e cansativo. Essa separação visa oferecer uma análise mais detalhada e cuidadosa, sem sobrecarregar a leitura. A boa notícia é que a segunda e terceira parte serão publicadas simultaneamente com a primeira, sem qualquer demora, para que vocês possam acompanhar a continuidade do tema de maneira direta e completa. Convido vocês a acompanhar a leitura da primeira parte e seguir com a segunda, onde encontrarão o link da parte II e III ao final do rodapé. "Pois as coisas invisíveis de Deus, desde a criação do mundo, são claramente vistas, sendo compreendidas pelas coisas que foram feitas, tanto o seu poder eterno, como a sua projeção" - Romanos 1:20. "Freud nos mostrou que os mistérios da psique são tão vastos quanto os enigmas do cosmos, e ambos pedem um olhar que transcenda a lógica pura." – Dan Mena. Boa leitura. "A articulação diante do caos é a verdadeira arte de viver. Quando aceitamos que nada é permanente, passamos a ver a mudança como uma chance de reinventar a nós mesmos e o mundo ao nosso redor." Dan Mena. A Teoria do Design Inteligente (TDI) propõe um alicerçamento radical nas discussões sobre a origem da vida e a estrutura universal, desafiando os paradigmas mais arraigados da ciência convencional. Essa tese sugere que as complexidades intrínsecas do cosmos, assim como a intrincada organização da vida, possam ter surgido de um planejamento intencional, em vez de ser o resultado de meros processos naturais, evolutivos e aleatórios. Mas o que isso revela em relação ao pensamento dos grandes estudiosos, como Charles Darwin e Sigmund Freud? Estamos sem saber mesmo? Ou somos ignorantes de uma peça fundamental na busca pelo entendimento de nossa própria existência? As interconexões entre a TDI, as obras de Darwin, a Bíblia e Freud são mais sondas do que parecem. Darwin, com sua teoria da evolução, foi muitas vezes considerado o oposto da ideia de Design inteligente. Todavia, muitos proponentes da TDI argumentam que a evolução, poderia na verdade ser uma evidência de um elemento inteligente subjacente. De acordo com Michael J. Behe, em "A Nova Ciência do DNA que Desafia a Evolução" e "A Dúvida de Darwin" , a precisão detectável e afirmada no DNA e em outras estruturas biológicas sugerem um ajuste fino que não poderia ser meramente o resultado de mutações aleatórias ao longo do tempo. "Se o DNA é um código biológico e o inconsciente um manual emocional, ambos ilustram um universo que opera sob as leis de uma linguagem intencional e simbólica." – Dan Mena. Por outro lado, Freud, em suas análises do inconsciente, trouxe à tona a lógica que opera na mente, mostrando que, mesmo que muitos de nossos comportamentos parecem arbitrários ou impulsivos, seguem uma narrativa ordenada e coordenada, embora invisível. Essa capacidade de interpretação do inconsciente apresenta um paralelo intrigante às teorias que sugerem um planejamento do universo; assim como o inconsciente revela significados ocultos, a própria estrutura do cosmos sugere uma perfeita intencionalidade. Essa intersecção entre o cosmos e a mente nos faz questionar: será que tanto a natureza quanto a psique operam em níveis de organização que superam explicações puramente materialistas? O trabalho de Marcos Eberlin , particularmente em "Fomos Planejados" e "Antevidência : Como a Química da Vida Revela Planejamento e Propósito" , reforça essa noção ao apresentar a ideia de que tanto na biologia quanto na psique existem padrões que clamam por interpretação e que, por sua essência, expressam um propósito lateral. Stephen C. Meyer, em suas investigações sobre a explosão da vida durante o período Cambriano, conclui que as evidências disponíveis apontam para uma causa inteligente. Freud, por sua vez, ao estudar o inconsciente, argumentou que nossos sonhos e sintomas possuem um sentido, uma intencionalidade, paradoxalmente desviada de nossa percepção consciente. Esse entrelaçamento de conceitos nos leva a refletir sobre a possibilidade de que tanto a natureza quanto o cérebro operem em níveis que vão além das simples explicações físicas. "O inconsciente não conhece o tempo, e seus conteúdos são atemporais e persistem, apesar das defesas do ego." O DNA, segundo Behe, contém uma informação que se assemelha a um sofisticado código biológico, o que implica a presença de um programador universal. Na esfera da psicanálise, a origem da linguagem simbólica do inconsciente também denota uma informação elaborada. Se entendermos o DNA como um guia biológico de instruções, podemos ver o inconsciente como um manual de orientações emocionais, onde significados e simbolismos orientam nossas vidas e experiências. Essa abordagem nos leva a um entendimento: estamos continuamente decifrando códigos, tanto no nível molecular quanto no emocional. "O design inteligente e a psicanálise convergem na consideração de que o caos aparente oculta uma organização elaborada metodologicamente, seja na biologia molecular ou nos mistérios da psique." – Dan Mena. A antevidência defendida por Eberlin se conecta diretamente à psicanálise, realçando que tanto na vida material quanto na mental, planejamento e antecipação são requisitos essenciais. A química da vida, por sua vez, que se adapta e responde às necessidades futuras, ecoa a disposição do inconsciente de prever e enfrentar desafios emocionais antes que se tornem conscientes. Essa harmonia sugere que tanto o universo quanto a psique são dotados de uma inteligência especializada, guiada por propósitos que vão além da mera existência material. Seria possível que estivéssemos subestimando o poder do planejamento inconsciente e suas repercussões cósmicas? Na discussão sobre design inteligente, não podemos ignorar as raízes bíblicas dessa concepção. A Bíblia, em Gênesis 1:1, afirma: "No princípio, criou Deus os céus e a terra."... Este versículo não apenas fundamenta a crença na criação deliberada e planificada, mas também sugere que o universo e especificamente a terra foram intencionalmente moldados. Outro versículo que sustenta essa afirmação é o Salmo 19:1, que diz: "Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos ." Essa mensagem sugere que a própria natureza é uma poderosa evidência da mão criadora, estrutura, harmonia e beleza universal—desde a precisão das leis físicas até a diversidade da vida—funcionam como testemunhos do design inteligente que permeia tudo que conhecemos. "Não existe um mapa exterior que possa nos conduzir a obter significados, mas sim uma construção interior que nasce da nossa própria experiência e introspecção." — Dan Mena. Não seria lógico considerar que a majestade infinita do espaço sideral que nos inclui, sugere a existência de algo grandioso e imponderável sobre nossas cabeças? "Se a vida nos apresenta desafios, é porque o inconsciente já ensaiou as respostas antes mesmo que compreendêssemos as perguntas." — Dan Mena. O apóstolo Paulo também abordou este tema em Romanos 1:20, afirmando: "Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido claramente vistos, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis." Este versículo enfatiza que a criação pode ser percebida através do estudo e observação do mundo à nossa volta, se alinhando substancialmente ao fundamento da TDI. Como podemos ignorar essas evidências? Podemos encontrar ainda outros vislumbres de um design premeditado em Jó 38:4-7, onde Deus questiona Jó: "Onde você estava quando lancei os fundamentos da terra? Diga-me, se você tem entendimento. Quem determinou suas medidas – certamente você sabe! Ou quem estendeu a linha de medir sobre ela? Em que bases foram assentadas, ou quem colocou sua pedra angular, quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus bradavam de júbilo? " Esse questionamento resulta na reflexão sobre a grandiosidade da criação e a possibilidade de um engenheiro, arquiteto divino, uma inteligência que sutilmente permeia tudo o que há. "O inconsciente, assim como o universo, possuem uma arquitetura que escapa à nossa visão imediata, utópicamente, evidenciam seu total planejamento quando ousamos desvendar suas engenharias."— Dan Mena. Além disso, as heterogeneidades incrivelmente entrelaçadas dos processos biológicos e a precisão com que operam corroboram a ideia de um Criador. Eberlin observa, que a bioquímica da vida é tão bem ajustada que a probabilidade de sua existência vinda do acaso se torna infinitesimal, solidificando ainda mais a tese do design inteligente. A relação entre todas as matérias, nos convidam a uma busca de sentido e propósito. Seria o inconsciente—com sua lógica simbólica e narrativa— um reflexo microcósmico da inteligência que permeia o universo? Enquanto a TDI desvenda o design na biologia, a psicanálise alvoreceu os mistérios que Freud e nossos psicanalistas contemporâneos exploraram com determinação e fervor. A intersecção entre esses campos aponta para uma realidade onde a obscuridade é tão significativa quanto a luz, nos desafiando a ir além das aparências e contemplar maravilhados esse planejamento incalculável que sustenta a existência. A integração desses saberes não só amplia as fronteiras do conhecimento, mas nos encoraja a considerar que a busca por significado, seja nas estrelas ou nas profundezas da alma, há uma jornada que transcende a ciência, a filosofia e a espiritualidade. Inter-relação entre ciência e fé nos lembra que os incógnitos do cosmos, assim como a psique, são ao meu ver forças empreendedoras de uma busca incessante por sentido. "A ciência explica o 'como'; a filosofia e a teologia exploram o 'porquê'; e a psicanálise nos revela o ‘que’ dentro de nós mesmos anseia por todas essas respostas." Dan Mena. Diante deste paradigma inovador, estou muito motivado, gostando muito desta nova perspectiva, analisando os dados científicos mais recentes sobre a origem da vida e do universo enquanto os observo, sob o prisma de eloquentes evidências. Esses elementos vão além da mera biologia; aspectos como a informação semântica, a ante-vidência e a pluralidade organizacional se atravessam para formar uma abordagem crítica e interdisciplinar que enfatiza a interdependência entre razão, crença e a nossa experiência. Assim, ao abordarmos este tema, é fundamental reconhecer que, embora a ciência nos forneça informações valiosas e explicações abrangentes, ela, por si só, tem sido insuficiente para compreender o tudo. Portanto, acredito que mesmo distantes de uma elucidação, o verdadeiro entendimento do universo será também uma caminhada, destarte, tudo está escrito, onde encontraremos pistas que se encontraram através da combinação de ciência, filosofia e espiritualidade. Negar a validade dessas contribuições seria limitar nossa capacidade de entender a própria vida e das meta galáxias que comprovadamente existem, endurecendo a percepção e impedindo um entendimento mais amplo. "O universo e a psique têm um mesmo propósito: nos lembram de que o invisível é tão real quanto o palpável." — Dan Mena. Neste lugar de validação podemos também nos remeter ao "Ver para crer" enraizado na nossa tendência de acreditar apenas no que é explicado aos nossos sentidos. Isso é bem ilustrado no diálogo entre Jesus e Tomé. Após a ressurreição, Tomé expressou dúvidas sobre o ressuscitamento de Jesus e declarou que só acreditaria se visse as marcas dos cravos em Suas mãos e tocasse Seu lado ferido . Quando ele apareceu aos discípulos novamente, Ele convidou Tomé a ver e tocar Suas feridas . Após isso, Tomé exclamou: "Meu Senhor e meu Deus!". Jesus então respondeu: "Porque me viste, creste; bem-aventurados os que não viram e creram." (João 20:29). Essa declaração de Jesus, sublinha a importância da fé que não deveria depender de evidências físicas ou científicas. Ele nos chama a confiar em algo além do visível, transcender a necessidade de provas tangíveis e desenvolver uma insuspeição. Conhecedor de nossos corações estava desafiando essa tendência do ser. Ele incentivava uma fé que transcende a necessidade de evidências, nos convidando a olhar para os aspectos da espiritualidade e do entendimento que estão além da nossa percepção imediata. "Mas o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porquanto se discernem espiritualmente." 1 Coríntios 2:14. A TDI se esforça para desafiar as narrativas científicas predominantes, ela nos obriga a refinar nossa agnição da realidade ao integrar ângulos de várias disciplinas. Esse exercício intelectual não só enriquece o diálogo científico, como também projeta um futuro onde a busca pelo sentido cria uma rica e diversificada concepção. Essa alquimia de ideias sobre o nosso lugar no universo e a natureza da inteligência que, se não está explicitamente visível, ressoa em cada fibra do nosso ser. "A fé que transcende os sentidos é o salto que nos conecta ao invisível e dá significado ao inexplicável." — Dan Mena. "A unidade genética que nos conecta a um único ancestral nos leva a uma ponderação: somos seres que vivemos divididos por constantes ilusões de separação." – Dan Mena. Fundamentos da Teoria do Design Inteligente. Ao me aprofundar na teoria, sou constantemente cativado pela intrigante possibilidade de que esse mistério intrínseco do universo e das formas de vida que habitam este planeta minúsculo possa ser resultado de um planejamento consciente e intencional, em vez de meras ocorrências aleatórias. "Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos" (Salmos 19:1). Esta premissa emergente não é apenas uma crítica fundada à perspectiva darwiniana tradicional, mas também uma proposta enriquecedora que provoca nossa maneira de interpretar a realidade. Será que estamos prontos para reexaminar a forma como vemos nosso mundo? “A complexidade da vida, inscrita no DNA como uma assinatura sutil, é uma prova de que a existência não é um acidente evolutivo, mas uma narrativa intencional, repleta de significado e propósito.” — Dan Mena. Certos sistemas biológicos são tão complicados que não podem ser adequadamente explicados através de processos evolucionários comuns. Um exemplo muito citado é o da "complexidade irredutível" , defendido por pensadores como Michael Behe. Ele expõe, que estruturas como o "flagelo bacteriano" não podem funcionar se uma de suas partes estiver ausente. Essa realidade provoca uma questão: se partes essenciais de um sistema X são interdependentes, não seria razoável supor a existência de um designer, uma inteligência que organiza essas partes com um propósito específico? "Levanta os olhos para os céus e veja: quem criou tudo isso? Aquele que põe em marcha cada estrela do seu exército celestial e todas chama pelo nome." Isaías 40:26. Tenho lido também as críticas à TDI, que geralmente interpretam essa insinuação como um retorno a explicações teológicas que fogem da ciência. No entanto, esse não é o caminho que eu desejo e quero seguir. Para mim, a TDI não se posiciona como uma antítese à ciência, mas, ao contrário, propõe um diálogo enriquecedor que nos intima a questionar as limitações de nossa compreensão científica. A questão que se coloca, então, é: a teoria da evolução, por si só, pode realmente explicar toda a complexidade que observamos no mundo biológico? "Ele fez a terra pelo seu poder; ele distribuiu o mundo por sua sabedoria e estendeu os céus por seu entendimento." Jeremias 10:12. Além da complexidade estrutural, outra caracterização dentro da sua hermenêutica é a informação contida no DNA. Trata-se de um código biológico que, de tão sofisticado e perfeito, leva muita gente a acreditar que não poderia ter surgido por si só. Esse aspecto nos leva a refletir sobre a natureza da informação e o que isso implica sobre a vida e o seu surgimento. Aqui, cabe uma pergunta: se o DNA pode ser considerado um sofisticado código de computador biológico, seria ele fruto do acaso ou da ação de um poder? "Se a harmonia entre as partes essenciais da vida desafia explicativamente, talvez devamos supor que a inteligência por trás disso transcende o acaso." — Dan Mena. "Porque Deus é o Criador de todas as coisas, e o que se conhece de Deus é manifesto entre eles, porque Deus os manifestou. Pois desde a criação do mundo são atributos invisíveis de Deus, Seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido claramente vistos, sendo compreendidos por meio das coisas criadas" (Romanos 1:19-20). Essas interseções entre a TDI, a filosofia e a teologia relacionam que as discussões sobre design e propósito não são novas. A história da humanidade é repleta de tentativas de entender nossa posição no cosmos e o propósito existencial. Esse novo ângulo para o debate propõe que a lógica científica e o entendimento espiritual não sejam, necessariamente, opostos e concorrentes. O que nos desafia é: como podemos integrar essas visões panoramicamente de um modo que respeite tanto a base científica quanto as profundas convicções espirituais de muitos, inclusive a minha. "A sabedoria do Senhor fundou a terra; o entendimento do Senhor estabeleceu os céus" (Provérbios 3:19). "O mistério da criação universal não se refere apenas ao que é visível, mas na interdependência perfeita que sustenta o que somos e o que percebemos como seres indissociáveis do todo." — Dan Mena. Um ponto que surge nessas conversas é como elas ressoam em nós. Assim, à medida que investigo, percebo que a busca universal por significado permeia muitos aspectos da vida. Quando observamos a natureza ao nosso redor, as perguntas sobre propósito e design não são apenas questões filosóficas; elas também estão enraizadas em nossa psicologia. O que nos leva a indagar se a nossa busca por um sentido maior se origina de um desejo inato ou se é meramente uma construção cultural. "Tudo Deus fez formoso no seu tempo; também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade, mesmo assim este não consegue compreender especificamente o que Deus fez." Eclesiastes 3:11. Marcados por crises sociais e ambientais, a TDI surge como uma ferramenta poderosa para a contemplação e observação. A ansiedade coletiva que muitos sentem frente ao futuro pode ser amenizada ao buscar conexões entre nossas vidas e um cosmos que, por sua vez, resulta de um design inteligente. Nesse sentido, não apenas alimenta a curiosidade científica, mas também pode oferecer um alicerce emocional e espiritual à nossa experiência cotidiana. Isso nos leva a considerar: como podemos nos reconectar com esse sentido maior enquanto navegamos pelos desafios que a vida nos apresenta? "O Senhor formou o homem do pó da terra e soprou-lhe nas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou alma vivente." Gênesis 2:7."O Senhor fez os céus com sua força e os firmou com seu poder." Jeremias 10:12. "A singularidade da mente que carregamos é um apontamento de que nem todas as respostas cabem nos moldes de teorias preexistentes." Dan Mena É inegável a relevância dos temas que emergem para as discussões sobre moralidade, ética e identidade. Até que ponto essa matéria poderia contribuir para a construção de uma sociedade mais consciente e responsável? Não é somente uma questão científica; é, acima de tudo, um aceno para a introspecção das dimensões de nossa experiência que vou abordar no próximo tópico. Entendo que a maneira como nos relacionamos com nossa realidade biológica pode influenciar não apenas o entendimento de nós mesmos, mas também a forma como lidamos com o outro. "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Marcos 12:31). Palavras Chaves: Design Inteligente, Design Inteligente Origem da Vida, Design Inteligente Estrutura Universal, Design Inteligente Ciência, Design Inteligente Paradigmas, Design Inteligente Evolução, Design Inteligente Complexidade, Design Inteligente Complexidade Irredutível, Design Inteligente Complexidade Específica, Design Inteligente Princípio Antrópico, Design Inteligente Teoria, Design Inteligente Debate, Design Inteligente Filosofia, Design Inteligente Cientistas, Design Inteligente Críticas, Design Inteligente Controvérsias, Design Inteligente Inovação, Design Inteligente Futuro, Design Inteligente Sustentabilidade, Design Inteligente Educação, design inteligente, ciência, inconsciente, Darwin, Freud, DNA, criação, psicanálise, propósito, vida, simbiose, desenvolvimento embrionário, inteligência organizada, arquétipo, criador, acaso, significado existencial, mente humana, biologia, química Bibliografia consultada: Design Inteligente: O Desafio da Evolução - Michael Behe A Caixa Preta de Darwin - Michael Behe A Revolução do Design - William A. Dembski Assinatura na Célula - Stephen C. Meyer A Linguagem de Deus - Francis S. Collins Design Inteligente - A Ponte Entre Ciência e Teologia - William A. Dembski A Inferência do Design - William A. Dembski O Que é a Vida? - Paul Nurse Evolução: Uma Teoria em Crise - Michael Denton Evolução e o Mito do Criacionismo - Tim M. Berra A Nova Ciência do DNA que Desafia a Evolução - Michael J. Behe A Dúvida de Darwin - Michael J. Behe A Interpretação dos Sonhos - Sigmund Freud O Ego e o Id - Sigmund Freud A Psicanálise e a Filosofia - Paul Ricoeur O Inconsciente - Sigmund Freud Os Fundamentos da Psicanálise - Melanie Klein Bíblia Sagrada - 2ª ed. São Paulo - Sociedade Bíblica do Brasil, 1993. A origem das Espécies - Charles Darwin Evolução ou Design Inteligente? - Marcos Eberlin Fomos Planejados - Marcos Eberlin Em Busca de Sentido - Viktor Frankl Meditações Metafísicas - René Descartes ORCID™ - Pesquisador - iD logo são marcas comerciais usado aqui com permissão. "Open Researcher and Contributor ID" Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 — CNP 1199. Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 — CBP 2022130. Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University — Florida Departament of Education — USA. Enrollment H715 — Register H0192.













