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- O Superego.
Desvende os segredos do seu inconsciente e liberte-se da tirania do Superego. “Adota diversas formas, desde ser um mentor benevolente até um juiz implacável, conforme as experiências e influências que transitam pela nossa jornada pessoal.” Dan Mena. Por Dan Mena. Poucos conceitos são tão substanciais e vitais para a compreensão da mente quanto a instância psíquica do Superego. Ele desempenha um papel relevante na formação da personalidade e na regulação do nosso proceder, atuação, práticas, hábitos e desenvolvimento de costumes. Como estrutura, se desenvolve a partir das identificações e introjeções das figuras genitoras e familiares. Essa invocação, que internalizamos na forma de regras, normas e proibições sociais, vão atuar, agir e operar como uma função crítica e avaliativa sobre o desempenho do Ego. Freud, em seu livro “O Ego e o Id”, o posiciona como herdeiro do complexo de Édipo, representando reivindicações e influências das gerações passadas e das tradições sociais recebidas. Seria esta uma exigência impositiva interiorizada, que nos guia em direção a uma trilha de conformidade e à moralidade obrigatória, forçosa e compulsória, como um conjunto, mas também, pode ser uma fonte de incertezas, conflitos e culpa. Seu hermetismo e escuridão intrínsecos, não apenas vai nos influenciar conscientemente, senão que, infiltrado no inconsciente, moldará nossas escolhas e desejos. Em sua manifestação prática, colide em diversas formas de sofrimento psíquico, desde ansiedade, crises de identidade, angústia e sintomas neuróticos. Boa leitura. Acho interessante antes de adentrar em leituras, dar dois exemplos lúdicos quanto a sua atuação e sua forma de manifestação; Onde mora o Superego? Imaginemos nossa mente como se fosse uma casa habitada por três pessoas muito especiais: o nome deles(as); Id, Ego e Superego. Cada um deles(as) tem uma função é um papel importante na maneira como essa casa é gerida e administrada. Id é uma criança pequena, que só quer saber de se divertir, brincar e satisfazer seus desejos mais imediatos, como; comer doces o tempo todo, brincar sem parar e apenas fazer coisas que lhe proporcionem prazer. Ele(a) não se preocupa com regras, organização, horários ou com as consequências dos seus atos. Ego, por sua vez, é um adulto responsável, ele(a) tenta equilibrar, harmonizar, adequar e articular os desejos de Id com a realidade. Ele(a) seria como o mediador da casa, tentando encontrar maneiras de satisfazer os desejos de Id seguramente, colocando tudo no caminho socialmente aceitável e ordenado. Finalmente, entre os moradores da casa temos Superego, que seria como um professor ou tutor dentro dela. Ele(a) representa todas as regras, valores e normas que vamos aprendendo ao longo da vida, seja com nossos pais, professores, amigos e a sociedade. Superego está sempre muito atento(a), lembrando a Ego e Id o que é certo e errado, apropriado, oportuno, inadequado, pertinente, etc., muitas vezes, usando a voz da própria consciência. Agora, vejamos um exemplo clínico: Um paciente de nome João chega ao consultório se queixando de ansiedade extrema, sempre que precisa tomar decisões importantes em sua vida, como escolher uma carreira, se assume ou não um namoro, se continua a morar com seus pais ou sozinho, etc. Durante as sessões, descubro que ele tem um Superego muito escrupuloso e implicante, que o faz se perceber constantemente julgado e incapaz de satisfazer suas próprias expectativas. Ao longo do processo terapêutico, investigamos conjuntamente as origens desse Superego censurador e repreensor, descobrindo que ele foi internalizado a partir das expectativas elevadas de seus pais e da pressão social de familiares próximos que pressionavam para que ele atingisse sucesso nas suas empreitadas. Ele revela, que desde criança sempre foi cobrado pela perfectibilidade das suas ações, de ser bem-sucedido em tudo que fazia, o que gerou uma sensação constante de incoerência, dissonância e ansiedade existencial. Nas raízes desse Superego rígido e inflexível que o acompanha desde sua infância, ele pode gradualmente aprender a se libertar dessas expectativas irreais e a confiar mais em si e na tomada de decisões. Na terapia, João desenvolve uma voz interna mais compassiva e tolerante consigo mesmo, o que contribuirá para o reconhecimento das suas conquistas no seu tempo e forma, e a valorizar suas escolhas, independentemente do resultado, promovendo seu autoconhecimento e crescimento pessoal. O herdeiro do complexo de Édipo. Para fechar a didática, sendo o Superego herdeiro do complexo de Édipo, vamos a sua definição; Ele tem sua origem na fase fálica do desenvolvimento psicossexual, quando como crianças experimentamos desejos intensos em relação ao genitor do sexo oposto e o surgimento de uma rivalidade com o genitor do mesmo sexo. O termo “Édipo” é derivado da tragédia grega “Édipo Rei”, onde o protagonista, Édipo, mata o pai e se casa com a mãe, sem saber de sua relação de parentesco. Nesse contexto, o menino desejaria inconscientemente a mãe e se sentiria em competição com o pai pelo amor dela. Enquanto a menina, desenvolveria desejos pelo pai e competiria com a mãe pela atenção dele. O sucesso dessa fase de resolução, será advinda do complexo de Édipo, fundamental para o desenvolvimento psicológico saudável da criança, pois permite a internalização das normas sociais e a formação do Superego. O Superego não é uma entidade isolada. Estabelecido na trama social e cultural em que estamos imersos, nossa moral elaborada individualmente, é também o reflexo das normas e valores que absorvemos da sociedade, que serão, adiante, reproduzidas pela influência do Superego coletivo. Essa interação entre o superego individual e o social, vão criar uma complexa rede de ícones, significados e simbolismos, que irão moldar, não apenas nossa vida interior, mas também, certamente, às interações relacionais, sociais e políticas. Para tanto, seguimos a acertada ideia freudiana de que o controle das pulsões, promovidas e impostas pela civilização moderna é prejudicial às prerrogativas e possibilidades de felicidade, devido às renúncias que tais nos exigem. O conceito será, portanto, decisivo para compreender esse enigma da relação do sujeito com a lei e a origem da consciência moral. Visto, que não temos uma total disposição, muito menos inata para a tal da socialização, e que verificamos que uma criança não consentiria em domar por si suas pulsões autoeróticas e a agressividade característica para com seus pares, senão, que sua origem estará intimamente conectada ao medo de perder o amor e cuidados dos pais e cuidadores. Como dependentes que somos durante muitos anos das cautelas, atenções e prudências, estamos acampados inevitavelmente pelo medo do desamparo primitivo, um terror original ao nascimento, fato primário e impossível de ser eliminado pela própria concepção estrutural da existência da raça. Como tal, será ela a coluna vertebral pela qual naturalmente somos submissão à lei. Porque nós submetemos? No entanto, o medo primordial ao que me refiro não será suficiente, a verdadeira consciência moral surge quando estas ordens, limitações e proibições são interiorizadas sob a forma da instância superegoica. Quando isso acontece, não temos escapatória, porque é o próprio sujeito que se vigia a si, e não pode escapulir da sua patrulha pessoal. Mas há algo ainda mais surpreendente, sendo o fator preponderante dessa instância do Superego, em não distinguir entre a realização do ato real e o mero desejo pensado. Por outras palavras, como dizemos popularmente; não é crime pensar. Será que é assim para o Superego? Lamentavelmente isso não funciona desta maneira, ele produz um sentimento de culpa inconsciente em relação ao que não deveria passar de um devaneio ou desejo. Destarte, os quereres não podem ser eliminados pela nossa simples vontade, assim permanecemos inicialmente de causas a efeitos, todos culpados, mesmo por pensamentos, inclusive pelas elucubrações e ponderações das fantasias, que conforme o entendimento do Superego são absolutamente reais. Qualquer inclinação nossa ao imaginar, mesmo que seja tolhida, reprimida ou refreada, não irá se afastar da mente, permanecerá ativa e circulante no inconsciente. Por esta leitura, passamos a compreender o desarranjo que surge como uma comoção emocional de dívida diante do pecado original, que se hospeda em cada um de nós. Estou certo que muitos já nos perguntamos; porque dessa submissão voluntaria a punições, escarmentos, castigos, obrigações e servidões desnecessárias.? A resposta fica clara quando essa reflexão passa por esta jurisdição da constituição do ser como uma instância característica e distintiva do Superego, que produz tal suposta dívida pre-existente. Essa ponderação, responde inequivocamente ao fato de termos e estarmos sempre numa posição cativa e subjugada, concedendo complacência a dominações tirânicas ao longo da história. O Superego não diferencia pensamento, ato ou desejo. A verdadeira consciência moral se insurge quando ditas ordens, negações e impedimentos são interiorizadas pela instância superegoica; (é uma parte da mente que age como uma voz interior, ela internaliza as regras sociais e morais que aprendemos desde a infância. Um compartimento psíquico que nos faz sentir culpados quando violamos essas regras, e ironicamente nos orgulham quando as seguimos a rigor). Ela estaria numa posição de supervisor moral, controlando, dando nota, aplaudindo ou reprovando. Desta mecânica não há escapatória, é um arcabouço, porque o próprio sujeito passa a se vigiar e não pode fugir da sua auto-observação e patrulha. Ainda, posso mencionar algo mais impensado, nesse campo ou premência, o Superego não consegue diferenciar entre o ato executado e o mero desejo; o que pode ser metaforicamente desenhado assim; o pensamento em si não é um crime, não é verdade?. Destarte, não funciona desta maneira para o Superego, que produz um sentimento de culpa inconsciente em relação ao que não passa verdadeiramente de um desejo. Como tal, eles (os desejos), não podem ser ignorados ou simplesmente descartados, logo, todos somos culpados a princípio. A tendência será, que mesmo conscientemente reprimida não vai desaparecer, vai permanecer ávida no inconsciente procurando sua realização. É por isso que a psicanálise, detentora da descoberta e averiguadora da dinâmica do inconsciente, compreende como nenhuma outra ciência esse sentimento de pressuposto débito em relação ao pecado original. A existência no psiquismo da instância do Superego, produz a culpa, a dívida, e a necessidade de punição, o que verticalmente, embora muitas vezes encoberta ou negada, é sim uma grande quimera utópica para nós. “O Superego não discrimina entre pensamentos transitórios, ações concretizadas ou desejos latentes; ele os examina a todos com sua rigidez inclemente.” Dan Mena. O Superego obscuro. Lacan, por sua vez, oferece uma perspectiva provocativa do Superego, desafiando as concepções convencionais de sua natureza e função. Ele introduz a noção de “superego obscuro”, uma faceta sombria e muitas vezes opressiva do Superego, que nos confronta com a inevitabilidade do sofrimento. “O superego obscuro é como uma sombra que paira sobre a mente, uma presença silenciosa e poderosa que influencia nossos pensamentos e ações sem que estejamos plenamente conscientes de sua presença.” Lacan. Pois então, pensemos no Superego como uma espécie de “juiz interno” atuando em nossa mente, dizendo e ditando o que é certo e errado, com base nas regras que aprendemos desde pequenos. Normalmente, o indivíduo alerta consegue perceber esses preceitos interagindo, pela via das prescrições e moralidades que assomam. Agora, o Superego obscuro, é como uma parte desse juiz que fica escondido, lá, no fundo da mente. Ele é meio misterioso, e nem sempre sabemos o que está planejando. Isso acontece porque é alimentado por coisas e situações que não lembramos muito bem. Usa desses artifícios articuladamente, seja como experiências da infância ou sentimentos profundos que tentamos ignorar, negar ou esconder de si. Basicamente, o Superego obscuro é como um ninja mental, que opera nas sombras da consciência e influencia sutilmente nossas ações de forma que não apercebemos. Não é apenas um guardião das normas sociais, mas também uma força interna que nos confronta com a angústia existencial inteligentemente. “O Superego é verdadeiramente a encarnação do dever de gozar” Lacan. Em essência, essa frase sugere que o Superego é a personificação do dever ou a obrigação que sentimos de buscar e experimentar o gozo de acordo com certas regras e expectativas. Ele molda não apenas nossos comportamentos externos, mas também nossa experiência interna de prazer e satisfação, exercendo uma interferência cavada e inconsciente sobre nossas vidas. Em Lacan, vemos a concepção freudiana se alterar, ela privilegia a interiorização da lei, que ocorre no ser de forma infalivelmente patológica, como um mal-estar estrutural infundado e sem relação com um ato efetivamente praticado. É sobre este fator do direito que se debruça, como ordenado em relação ao dever e à proibição, ou que será, portanto, construído. A constatação lacaniana de que o sujeito é, à partida, largando completamente indefeso perante a montanha de palavras que chegam do outro e que ainda não conseguimos elaborar e compreender. É esta voz que nos fala sem algum sentido que está na origem do Superego, uma reivindicação na forma de murmulho, que comanda algo sem significação, sem norte, enquanto está fora da simbolização. O Superego é um dos nomes do inconsciente, que tem duas faces: a face amigável dos sonhos ou lapsos cuja mensagem pode ser decifrada e a outra opaca, aquela do barranco abaixo, para algo sem direção ou contexto. "O superego é o resultado da identificação com o agressor." Desta forma, Lacan sugere que o Superego se forma através da identificação com figuras de autoridade ou modelos parentais, muitas vezes aqueles que exercem controle ou autoridade de forma intimidadora. Neste ponto, se faz uma ponderação inédita: a necessidade de punição também satisfaz a pulsão. Ou seja, que aqueles que se julgam os mais virtuosos, ao renunciarem à satisfação da pulsão estão de alguma forma realizando suas pulsões, tanto ou mais do que aqueles que se entregam à libertinagem, porque a renúncia e a privação, assumem também o caráter de um prazer paradoxal, a que irá chamar de ''gozo''. Lendo Lacan a partir do gozo, eu concluo que; “O gozo é como um labirinto psíquico, um complicado emaranhado de prazeres proibidos e dores ocultas, onde nos perdemos na busca pela completude, uma trajetória tumultuada do ser, marcada pela incessante tentativa de saciar desejos que, por sua própria natureza, resistem à plenitude.” Dan Mena. Esse lugar pode ser encontrado no sacrifício, castigo, humilhação e no suplício. O Superego tem esta faculdade desconcertante de transformar os ideais mais benéficos em imperativos mortificantes, que por sua vez, se voltam contra o próprio sujeito e os seus semelhantes. Assim, o transmissor da lei acaba por se tornar ele próprio o instrumento da pulsão de morte, infringido ao outro, como agente do gozo sádico contra aqueles que finge dirigir moralmente e por satisfazer a sua pulsão masoquista, ou que pode ser verificado, por exemplo, nos rituais religiosos, na prática da autoflagelação, etc., que consistem em infligir dor a si. “A pulsão de morte em Lacan é como um sussurro de sombras, um eco que reverbera nos abismos da nossa psique, tecendo uma dual trama enigmática entre a busca pelo prazer e a ânsia silenciosa pela autoaniquilação.” Dan Mena. “A tirania do Superego pode nos levar a um estado de autocrítica constante, alimentando um ciclo de autocondenação e insatisfação.” Dan Mena. Esta força obscura do Superego é o que encontramos também nos sintomas, é o lado do gozo inconsciente. O campo inconsciente, não é apenas o encontro com uma verdade escondida que nos liberta quando é decifrado, mas a existência de uma lei sem sentido, uma espécie de princípio melindroso, puro e opaco, aquele que condena o sujeito a ser rejeitado, punido, maltratado, a se sentir culpado ou a ter constantemente o pressentimento de que algo de mau vai ou possa acontecer, porque, claro, ele merece, mesmo ignorante, o que não saiba o porquê. Também encontramos essa perspectiva nas pessoas que parecem ser objeto de um destino trágico, aquelas(es) que se sentem perseguidas para além das suas ações reais ou que parecem ser tocadas(os) pelo destino, de serem vítimas repetidas dos desejos perversos de um terceiro agressor. Na psicanálise, nossa meta terapêutica é apaziguar e diminuir a potência dessa voz interiorizada inconsequente que condena, coage, constrange, compele o sujeito para um destino hipoteticamente funesto e infeliz. “A relação entre o Ego e o Superego em Lacan é marcada por um conflito constante entre o desejo de autonomia do sujeito e a pressão para se conformar às normas sociais.” Dan Mena. Neste caso seria pertinente te dar alguns exemplos de estudos de caso que ilustram a interação entre o Superego e outros elementos da mente: Interatividades do Superego. Caso de Anna O. (Bertha Pappenheim): Anna O. sofria de histeria, e seu caso foi estudado por Breuer e Freud. Durante o tratamento, ela desenvolveu uma série de sintomas físicos, como paralisia e problemas de visão, que os médicos acreditavam serem causados por conflitos psicológicos. Uma das questões centrais no tratamento dela foi o papel do Superego, representado pelas expectativas sociais e morais impostas a Anna, especialmente por sua posição na alta sociedade. Seu Superego, fora influenciado por essas expectativas, contribuindo para a repressão dos seus desejos e emoções, levando-a ao desenvolvimento de sintomas físicos, que não tinham causa alguma em patologias físicas. “O caso de Anna O, continua envolto em mistério e controvérsia, permanece como um marco emblemático na história da psicanálise, destacando os paradoxos, caminhos da mente e inspirando inúmeras reflexões sobre a natureza do sofrimento psíquico.” Dan Mena. Caso do Homem dos Lobos (Serguei Pankejeff): Este paciente, estudado por Freud, tinha uma fobia de lobos e sofria de neurose obsessiva. O Superego desempenhou um papel importante neste caso, se manifestando na forma de proibições e exigências internas que o Homem dos Lobos sentia. Essas limitações eram tão poderosas que ele se sentia culpado por seus desejos e impulsos naturais, o levando a um conflito interno intenso que contribuía para sua neurose. “O Homem dos Lobos, com suas nuances de angústia, dor, desejo e trauma, ressoa como um relato contundente dos conflitos internos, nos instigando clinicamente a adentrar nos insights da sua verticalidade e possíveis curas.” Dan Mena. Caso de Dora (Ida Bauer): Dora foi tratada por Freud devido a uma série de sintomas neuróticos, incluindo tosse crônica e depressão. Durante o tratamento, ele identificou o papel do Superego dela na internalização de expectativas sociais, particularmente em relação à sexualidade. Seu Superego estava em conflito com seus desejos inconscientes, resultando em sintomas neuróticos que foram expressões indiretas desses embates emocionais. “Com sua trama intricada de desejos reprimidos e conflitos não resolvidos, o Caso de Dora, continua a fascinar como um convite a adentrar nas profundezas do inconsciente em busca de compreensão e resolução.” Dan Mena. Os dois mecanismos de defesa ligados ao Superego. Mecanismos de defesa nos ajudam a proteger o Ego contra ansiedades e conflitos internos, eles desempenham um papel importante na regulação do comportamento e das emoções. No entanto, quando usados de forma excessiva, podem levar a distorções na percepção da realidade e dificultar o enfrentamento saudável dos desafios emocionais a que estamos expostos. Formação reativa: A formação reativa é um mecanismo de defesa pelo qual expressamos comportamentos ou sentimentos opostos aos verdadeiros desejos, ou impulsos que nos abordam. No contexto do Superego, isso ocorre quando adotamos atitudes exageradamente moralistas ou virtuosas para esconder ou negar os verdadeiros desejos que consideramos inaceitáveis. Por exemplo; alguém que tem desejos de práticas violentas, pode desenvolver uma atitude excessivamente pacífica ou de cuidado extremo com os outros, como uma forma de mascarar esses impulsos agressivos. Projeção: A projeção é um segundo mecanismo de defesa ao qual atribuímos, lançamos para um terceiro. Pensamentos, sentimentos ou desejos indesejados que não suportamos nos habitarem. No contexto do Superego, isso pode ocorrer quando projetamos esses sentimentos de culpa, vergonha ou inadequação em outras pessoas. Por exemplo; alguém com um Superego muito crítico, pode tentar transferir esses sentimentos para o outro, os enxergando e apontando como críticos, abusivos, impertinentes, implicantes e incontentáveis, quando, de fato, e ele(a) mesmo(a) quem se sente assim, sendo, aquele(a) que acusa e argumenta o portador real de tal incômodo. O Superego na cultura contemporânea. Atualmente, o Superego é moldado por uma variedade de influências, incluindo os valores predominantes da sociedade, as normas sociais, as expectativas familiares e as pressões culturais e midiáticas contemporâneas. Vivemos num mundo cada vez mais conectado e globalizado, onde essas intervenções e manifestações rotineiras, podem ser ainda mais ambíguas e contraditórias. Por um lado, vemos um aumento da ênfase na autenticidade, na autoexpressão e no individualismo, o que nos leva a uma desafiadora relação de embate entre o Superego e o desejo de autoafirmação. Persistem assim incessantemente, aplicação de normas sociais e culturais que demandam e requerem de nós uma conformidade, implicando adesão a padrões e preceitos de toda ordem, sempre pré-estabelecidos. Originam grandes conflitos internos entre o desejo individual e as expectativas externas. Contemporaneidade. A sociedade moderna nos apresenta uma série de desafios para a lida com o Superego individual e coletivo. A rapidez das mudanças politicas, sociais e tecnológicas, dificultam nossa adaptação a esses padrões morais e éticos, nos levando a um sentimento de incerteza em relação ao que seria certo ou errado. Enfrentamos a pressão por sucesso, realização material e perfeição, que intensifica os modelos e arquétipos impostos pelo Superego, levando a um aumento nos casos de ansiedade, depressão e distúrbios alimentares. A cultura do consumo também manipula, alimenta inegavelmente um Superego ambicioso e absolutamente incontentável, baseado na comparação social e na busca ininterrupta e contínua por posição, poder, fama e reconhecimento externo. Diante desses desafios apresentados, é importante desenvolver uma relação saudável com o Superego, buscando um equilíbrio entre a conformidade social e a autenticidade pessoal. A psicanálise pode oferecer um espaço interessante para explorar e compreender as origens e as influências do Superego, promovendo uma maior consciência e aceitação das próprias motivações e desejos. Acredito ser muito relevante, o cultivo da autocompaixão e da resiliência emocional, como chave fundamental para enfrentar às instigações e provocações impostas por um Superego altamente perscrutador e implicante. Buscar sempre, um equilíbrio entre as demandas internas e externas, semeando uma relação mais saudável conosco e com os outros. “Explorar e compreender as origens do Superego é essencial para promover uma relação mais saudável e equilibrada entre a conformidade social e a autenticidade pessoal.” Dan Mena. “O Superego é a parte da personalidade que reflete as normas e valores internalizados da sociedade.” Freud. “O Superego é o guardião da moralidade em nós, se confrontando com sentimentos de culpa e autojulgamento.” Lacan. “O Superego é a voz crítica em nós, que nos faz sentir inadequados quando não cumprimos padrões sociais ou pessoais.” Horney. “O Superego pode ser uma fonte de conflito interno, causando angústia quando nossos desejos pessoais entram em conflito com as expectativas sociais.” Jung. “O Superego é como um ditador interno, impondo suas regras e julgamentos sem piedade.” Winnicott. Como identificar o Superego? Discernir e reconhecer o Superego pode ser um processo difícil, uma vez que na sua instância psíquica opera principalmente no nível inconsciente da mente. No entanto, darei umas dicas práticas para verificar suas manifestações; Autojulgamento excessivo: Se você se encontra constantemente criticando suas próprias ações ou pensamentos, mesmo quando não há motivos claros para isso, pode ser um sinal da influência do Superego. Essa autocrítica muitas vezes reflete as normas e expectativas internalizadas impostas pela sociedade. Sentimentos de culpa e vergonha: Frequentemente ele induz sentimentos intensos de culpabilidade e constrangimento quando suas normas são violadas, mesmo que racionalmente não haja motivo para surgirem tais sentimentos. Conformidade excessiva: Se você se sente compelido(a) a seguir rigorosamente as normas sociais e as expectativas e desejos dos outros, mesmo que isso vá contra seus próprios desejos e valores pessoais, pode ser um sinal de um Superego dominante. Idealização e perfeccionismo: Um Superego forte e extremado leva à busca implacável pela impossível perfeição, ideais de beleza, culto ao corpo, sucesso a qualquer custo, e à idealização de um padrão inatingível ou copiado superficialmente de comportamentos e realizações de outros. Repressão de desejos e impulsos: Se você se observa reprimindo, recalcando ou negando continuamente seus desejos e impulsos naturais com base em normas morais internalizadas, isso pode indicar a influência atuante do Superego na sua vida. Conflitos internos: Pugnas internas entre o que você quer fazer e o que acha que deveria realizar, podem ser um sinal de uma luta aferrada entre o Superego e outras partes da psique, como o Id e o Ego. Inflexibilidade mental: Uma tendência clássica para quem pensa de forma rígida e inflexível. Pessoas com dificuldade em considerar outros ângulos e perspectivas, refletem a influência inegável do Superego na maneira como processamos informações e tomamos decisões unilaterais que não consideram o outro nem o social. O Superego não é uma entidade tangível que pode ser diretamente observado, mas sim, uma construção teórica que nos ajuda a entender melhor determinados aspectos das funções comportamentais e mentais. Quando identificamos e observamos suas manifestações é importante requerer o autoconhecimento, a reflexão, ponderação, e em alguns casos, a supervisão e orientação de um profissional qualificado para realizar interpretações precisas. Finalizando. Por fim, o Superego é estruturado segundo a introjeção das normas e a identificação das nossas figuras parentais. Ele entra em conflito, ao funcionar em detrimento do bloqueio do Ego. Por sua vez, o Ego representa nossas paixões, a libido sem discriminação do real, da fantasia e do imaginário, enquanto o Superego, representa as normas e leis que severamente interiorizamos. Daí que o conflito seja constante, pelo que será necessária a intervenção do Ego, já que uma forte e absurda imposição das normas geraria uma ativação massiva dos mecanismos de defesa para controlar a investida de um Ego cativo e enclausurado. Por outro lado, um ''eu'' superior fraco, daria concessão para um desempenho indiscriminada dos impulsos libidinais com pouca ou nenhuma mediação, dificultando a nossa adaptação social. Podemos logo reconhecer tal fator em sujeitos com determinadas perturbações de personalidade, como o antissocial e o psicopata. O que escapa então ao domínio superegóico e à regulação cultural, é uma caligrafia que determina o que há de mais ''sui generis'', diferente, imaginativo, inovador e criativo no ser, más, e também, um elemento subversivo que pode se instalar como fonte de angústia, provocando o retorno do recalcado via manifestações, sintomas e pulsões. Analisados ambos pontos de vista, concepções e entendimentos, tanto freudianos quanto lacanianos, posso concluir acertadamente, que está o Superego similarmente, tanto quanto mestre e déspota. Carregamos sua ambiguidade ativa e inconsciente, destarte plena, mesmo quando nos acreditamos fantasiosamente livres das nossas escolhas. Sua exigência produz angústia, e esta, por sua vez, nos mobiliza em múltiplas direções quanto sintomas, atos destrutivos e excessos de satisfação pulsional, falhas de todos os tipos, entre outros. Ao poema; Guardião da Consciência. Por Dan Mena. No recôndito da mente, ele faz morada, O Superego, com sua voz tão severa, Impõe regras, numa trajetória ordenada, Ditando o que é certo, o que nos espera. Como um juiz implacável, de olhar austero, Julga cada ato, cada pensamento inteiro, Cobra padrões e regras num ciclo verdadeiro, Nos fazendo sentir o peso do seu intento. No âmago do ser, uma sombra se faz, Refletindo normas na sociedade, incapaz, Nos impõe cumprir um ideal, difícil de alcançar, Como uma obrigação, difícil de suportar. Entretanto, nos leva a questionar, A legitimidade dessas normas observar, Nos recorda a urgência de encontrar, Equilíbrio entre razão e sentir, sem vacilar. É uma parte essencial, mesmo que duro, Em sua sombra densa, nos faz pensar, É elemento regulador, ainda que denso, Na jornada do ser, o que é imenso. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 — CNP 1199. Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 — CBP 2022130.
- Doutor Honoris Causa em Psicanálise pelo Conselho Universitário da Christian Education Universíty da Florida - Departament of Education - USA.
Reconhecimento e Legado na Psicanálise: A Concessão do Título de Doutor Honoris Causa e a Importância da Dedicação ao Estudo e à Pesquisa na Trajetória de Dan Mena. Agradeço, muito honrado, o título de Doutor Honoris Causa em Psicanálise que o Conselho Universitário da Christian Education Universíty da Florida - USA, generosamente me concedeu. Quero assim receber permeado de laços de apreço intelectual e pelo apoio que dela recebi, para mim tão estimulante. Quero me valer das palavras de Arendt; ''O conhecimento está ao nosso alcance pela persistente e contínua dedicação ao estudo e à pesquisa. O reconhecimento não''. É algo a que podemos aspirar, mas que não nos cabe reivindicar. É um dom, que nos é conferido na pluralidade da condição do ser. Esta admissão, que me é dada pela outorga, que agradeço imensamente sensibilizado. ''Ao escutar o que nem sempre pode ser expresso por palavras, encontramos o verdadeiro amor pelo mundo, tecendo laços de empatia que se tornam a própria felicidade.'' Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 — CNP 1199. Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 — CBP 2022130. Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University - Florida - Departament of Education - USA. Enrollment H715 - Register H0192.
- O Amor em Colapso.
Eros e Psique: Um Amor que Transcende os Mundos. ''O amor verdadeiro não busca a perfeição, mas sim a coragem de nos entregarmos à imperfeição do outro''. Dan Mena Quem nunca sonhou com um amor de conto de fadas? A história de Eros e Psique é, sem dúvida, uma das mais belas e inspiradoras da mitologia grega. Uma história que nos transporta para um universo de paixões intensas, desafios, e um final feliz que nos faz acreditar no poder do amor verdadeiro. Mais, antes de entregar o texto do artigo, quero responder uma pergunta que vários pacientes e leitores já me fizeram. Dan, por que você usa frequentemente a mitologia em sua escrita? Bem, como indivíduo e hoje psicanalista, sempre me fascinou o poder da mitologia com sua capacidade de revelar a mente. Recorro, porque me fornece uma linguagem simbólica que vai além do racional, e que toca verticalmente o inconsciente. Por sua vez, os mitos são histórias incríveis, e eu simplesmente adoro esses relatos, são carregados de conteúdos e significações que atravessaram culturas e épocas. Ao usá-los, consigo explorar os conflitos emocionais que nos atravessam, assim, dialogar em um nível mais profundo e arquetípico, o que muitas vezes é inacessível pela linguagem cotidiana. Na prática da clínica, percebo como esses temas aparecem recorrentemente, gosto de usar os dilemas e queixas de cada paciente, fazendo associações lúdicas ao respeito. Além disso, figuras mitológicas, como heróis e monstros, o que Jung identificou como arquétipos do inconsciente coletivo, são metáforas poderosas para os desafios que enfrentamos. Elas surgem nos sonhos, nas narrativas de vida e nas projeções que trazemos à análise. ''Os mitos são como mapas simbólicos que guiam o psicanalista e o paciente através das paisagens do inconsciente, iluminando seus pontos obscuros''. Dan Mena Usar esses símbolos, é uma forma de dar corpo às forças invisíveis que moldam nossas emoções e comportamentos. Cada mito que escolho, reflete, de certa forma, as lutas que travamos em nossa jornada psicológica. Na psicanálise, assim como nas narrativas mitológicas, sempre há uma jornada heroica, o encontro com o desconhecido, o enfrentamento com os próprios monstros internos e, eventualmente, uma possível mudança. O que me envolve no seu uso, é como elas trazem um tom poético, quase ritualístico, tanto para a fala quanto a escrita. Ao evocar essas fábulas, convido o interlocutor a olhar para suas experiências via um prisma que transcendem o tempo. É como se, ao ler sobre uma determinada história, estivesse o outro, inconscientemente, reencontrando partes de si que ainda não foram plenamente integradas. Minha intenção vá além da reflexão, desejo que ela toque a alma, provocando uma conexão com esses ícones universais e ancestrais que continuam a moldar a nossa condição atual. Boa leitura. ''Mitos como o de Eros e Psique revelam jornadas psicológicas que espelham as lutas do sujeito na busca por autoconhecimento e transformação''. Dan Mena A Beleza que Encanta os Deuses. Muito ressumidamente, era uma vez… em um reino distante, vivia uma jovem de beleza tão radiante que eclipsava a de qualquer mortal. Seu nome era Psique, que em grego significa “alma”. Sua beleza era tal, que até mesmo a deusa Afrodite, a mais bela de todas, sentiu inveja dela. Tomada pela ira, Afrodite bola um plano para punir Psique por possuir tamanha graciosidade. Logo Afrodite ordena a seu filho. Eros, o deus do amor, que a fizesse se apaixonar pelo homem mais horrível do mundo. No entanto, os planos dela falham, pois ao ver Psique, Eros se apaixona perdidamente. Em vez de fazê-la sofrer como se pretendia, ele a leva para um palácio mágico, onde a visita todas as noites sob o véu da escuridão. Mas Psique, consumida pela curiosidade, decide desobedecer às ordens de Eros e tenta ver seu rosto. Ao fazer isso, ela desperta a ira do deus do amor, que a abandona, e a deixa sozinha e desesperada. Uma Jornada de Superação Psique, determinada a reconquistar o amor de Eros, enfrenta uma série de desafios cruéis impostos por Afrodite. Com coragem e perseverança, ela supera todas as dificuldades e, com a ajuda de outros deuses, consegue provar seu amor e se tornar imortal. Um Amor Eterno A história de Eros e Psique é um símbolo do amor verdadeiro, capaz de superar qualquer obstáculo. É uma celebração da paixão, esperança e beleza da vida. A união entre eles, representa o laço perfeito entre o corpo e a alma, entre o amor físico e o espiritual. Por que essa história continua a nos encantar? * A beleza da alma: A história de Psique nos mostra que a beleza interior é mais importante do que a exterior. * O poder do amor: O amor de Eros e Psique consegue transcender as barreiras do tempo, da distância e da morte. * A importância da perseverança: A jornada de Psique nos ensina que, com determinação e coragem, podemos superar qualquer desafio imposto. * A busca pela felicidade. Sua história é uma jornada em busca da bem-aventurança e do amor. Você já conhecia essa história? O que mais te encanta nessa lenda? ''O uso de mitos na psicanálise transcende a linguagem cotidiana, permitindo o acesso a camadas inconscientes muitas vezes inacessíveis pelo discurso racional''. Dan Mena A Agonia do Eros Vamos agora nos transportar para o nosso tempo, trazendo uma leitura do mais iminente filósofo social da atualidade, Byung-Chul Han, especialmente por suas reflexões críticas sobre as transformações sociais e culturais da modernidade tardia. Em seu livro “A Agonia do Eros”, examina o conceito de amor e nos revela como ele tem sido devastado pelas forças culturais, tecnológicas e econômicas que moldam o mundo contemporâneo. Nessa análise, aponta os sintomas dessa crise, mas também, nos desafia a refletir sobre o que está em jogo quando o amor perde sua essência. O Amor na Sociedade do Desempenho Sua obra é uma crítica a sociedade do desempenho, que foi tema do meu artigo anterior. Para ele, vivemos em uma era onde o valor das pessoas e das relações é medido pela produtividade, pela eficiência e pelo sucesso individual. Nesse contexto, o amor, que tradicionalmente escapava às lógicas mercantis e funcionais, é cada vez mais capturado e redefinido por essas mesmas lógicas. Ele sugere que o amor, uma vez visto como uma força transcendente capaz de conectar as pessoas em um nível profundo e espiritual, está sendo reduzido a uma questão de conveniência e troca de benefícios. As relações, ao invés de serem espaços de encontro genuíno tornam-se transações, onde o outro é percebido como um meio para alcançar objetivos pessoais, sejam eles emocionais, sociais ou econômicos. A Era Digital e a Fragmentação do Amor Percebemos a influência avassaladora das tecnologias digitais nas relações. Na era dos aplicativos de namoro e das redes sociais, o amor agora é mediado por plataformas que encorajam uma “dataficação” das interações. Mediante algoritmos, agora somos reduzidos a perfis, e o valor de um laço é muitas vezes calculado com base em métricas frias e superficiais, como curtidas, seguidores e correspondências diversas. Essa mudança, revisita um fenômeno no mínimo inquietante, a instantaneidade substituí a base do aprofundamento no outro e a paciência necessária para o surgimento de sentimentos, por consequência, sua semente principal. Sabemos que o amor para existir de forma autêntica, requer tempo, mistério, construções e uma abertura ao desconhecido, com qualidades necessárias que estão sendo corroídas pelo imediatismo digital. Ao eliminar a imprevisibilidade e o risco, elementos essenciais ao sentimento. Assim, plataformas criam uma ilusão de controle e segurança que, na verdade, impedem a formação de encontros e cruzamentos reais. ''O amor verdadeiro não é sobre a perfeição, mas sobre a coragem de se entregar às imperfeições do outro''. Dan Mena A Morte do Desejo Essa agonia que Eros experimenta, remonta à filosofia grega e à psicanálise de Freud, ela representa o desejo e a energia vital que impulsionam a criatividade e a conexão humana. Uma força que outrora despertava paixão, mistério e renovação, está sendo sufocada pela racionalização e mercantilização. Ditos elementos, promovem uma cultura de auto exploração, onde nos vemos constantemente empenhados(as) em maximizar o próprio valor e suposto desempenho. Essa cultura que ao exigir controle e previsibilidade, elimina a irrupção do inesperado, da surpresa, fundamental para o Eros. Com isso, as relações se tornam cada vez mais calculadas e frias, perdendo inevitavelmente sua eroticidade, no próprio sentido filosófico do termo — ou seja, menos abertas à experiência. O Narcisismo e a Extinção do Amor Outro tema central nessa leitura é o papel crescente do narcisismo, uma característica predominante e marcante na sociedade atual. Exacerbado pelas redes sociais e pela cultura da estética e a imagem, tornam o amor impossível, embasado na ideia de que o outro deve servir como um reflexo perfeito do próprio ego, o que é uma elaboração impossível. Nesse sentido, o outro, deixa de ser visto em sua personalidade, alteridade e complexidade como indivíduo, sendo reduzido(a) a um simples objeto de autoafirmação. Isso impede a verdadeira vivência do amor, que por sua natureza exige exposição de vulnerabilidades, abertura, e a capacidade de se perder no outro. Quando esse afeto é reduzido a uma busca pessoal por confirmação e validação do próprio eu, perde sua mestria de se transpor e de nos conectar a algo maior do que nós mesmos. O amor, em sua forma narcisista, não é, portanto, uma força potencial que possa nos elevar, mas um espelho, que reflete apenas nossa própria banalidade e superficialidade. ''No mundo narcisista de hoje, amar significa transcender a busca pelo reflexo perfeito e aceitar o outro em sua totalidade imperfeita''. Dan Mena ''Resgatar o amor do narcisismo é reencontrar a energia criativa que unifica desejo e espírito, em harmonia verdadeira''. Dan Mena O Resgate do Amor Esse triste diagnóstico transparece a crise do amor, mas também nos convida a reconsiderar profundamente o que significa amar em um mundo que parece cada vez mais hostil a essa experiência. Isso nos alerta que, se perpetuarmos e não resistirmos às forças que o estão desfigurando, arriscamos perder uma das dimensões mais essenciais da nossa articulação. O resgate dos afetos reais, dependem da recuperação do Eros, da reconquista da agudeza, sagacidade, perspicácia, penetração e da rejeição do narcisismo que dominam a cultura. O amor não pode ser controlado ou domesticado, exige que nos entreguemos ao oculto e secreto, que aceitemos nossa fragilidade e que estejamos dispostos a nos transformar pelo simples encontro com o outro. Sem dúvidas, estamos diante de uma condição agonizante, que necessita de uma restauração como força vital da vida. Devemos imaginar um futuro, onde exista um lugar para florescer novamente, livre das amarras do narcisismo e da atuação. Renovar a consciência da força transcendente que historicamente vinculava as pessoas que está sendo despojado de seu lugar e poder, onde a produtividade, eficiência e narcisismo são idolatrados. ''A ausência de desejo, abafada pelo controle e previsibilidade moderna, são os maiores obstáculos para a vivência do amor genuíno''. Dan Mena O Desempenho e a Psicanálise do Eu Fragmentado. Do ponto de vista da psicanálise, o conceito de “sociedade de desempenho” pode ser entendido como uma extensão as demandas superegóicas impostas ao sujeito contemporâneo. Ao contrário das formações sociais anteriores, onde o desejo estava frequentemente em conflito com as normas repressivas, a sociedade introduziu uma nova forma de repressão: a auto exploração. Freud já falava sobre a civilização como fonte de mal-estar, o que parece ter levado essa ideia ao extremo, onde o sujeito é compelido a se explorar sem limites e a maximizar seu próprio potencial a qualquer custo. Essa pressão incessante para o desempenho, não só nos fragmenta e subjuga como sujeitos, mas também, impede a formação de vínculos. Será o Fim do Amor ou a Possibilidade do Renascimento? O colapso do amor, como discutido e apresentado não é inevitável. A psicanálise nos ensina, que é possível resgatar as partes perdidas de nós mesmos, assim como Eros e Psique superaram seus desafios. Precisamos então, abraçar novamente o desejo, a chama, o mistério e o risco — elementos que o tornam vivo. Ao recuperarmos a capacidade de amar sem a obsessão pela perfeição redescobrimos o Eros, essa força vital que nos conecta a outro nível, hoje desprezado ou esquecido. Freud, em sua investigação do amor, ofereceu na minha visão uma ótica fundamental: ele estaria indissoluvelmente ligado ao desejo e à pulsão, essas forças inconscientes que entram muitas vezes em choque com as exigências civilizatórias. O Eros não se refere apenas à sexualidade, mas a uma energia criativa que busca união e continuidade, em oposição à pulsão de morte, o Thanatos, que visa a destruição. O “mal-estar na civilização”, é o resultado da repressão de nossas pulsões íntimas, e isso se manifesta especialmente nas relações amorosas, onde o desejo é sufocado pelas normas sociais e expectativas fantasiosas de sublimidade. Amor e trabalho são os pilares da vida, mas quando aprisionados por expectativas irreais, se tornam vazios e mecânicos. ''O amor está enraizado nos quereres, e é essa pulsão vital que sustenta nossa capacidade de conexão verdadeira''. Dan Mena Lacan, por sua vez, nos amplia essa compreensão, ao afirmar que “amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer.” Sempre relacionado à falta, ou àquilo que o outro jamais pode preencher completamente. O desejo é o motor do amor, mas esse querer é perpetuamente insatisfeito, ao buscar algo inatingível, uma lacuna impossível de ser alcançada. No entanto, é essa falta que o sustenta, o encontro amoroso não está em esbarrar na completude do outro, mas em aceitar sua imperfeição e incompletude. Destarte, não é a busca por um ideal, mas o reconhecimento de que o outro, com suas falhas, é suficiente para nos transformar. ''Lacan nos lembra que amar é dar o que não se tem; é na falta e na incompletude que o amor se sustenta''. Dan Mena Finalmente, não pode ser reduzido a uma equação de troca ou a um ideal. Floresce na aceitação do desconhecido, na abertura ao imprevisível e no encontro com o que escapa à lógica. Ao restaurarmos essa visão, voltamos a acessar o Eros — abrindo a janela para uma das principais forças que nos mantém vivos e engajados com o mundo. Como nos ensina Lacan, ao darmos aquilo que não temos, permitimos que o amor exista não como completude, mas como uma jornada positiva. Se há neste texto uma mensagem final, é que o amor verdadeiro, assim como o de Eros e Psique, demandam tempo, paciência, entrega e fazer as releituras digitais que nos condicionam. Ele não pode ser medido em números, por algoritmos ou perfis, menos ainda, reduzido a transações. Seu melhor ambiente está no erro, na coragem de nos deixar transformar pelo encontro. Que possamos então, como sociedade, redescobrir esse amor — não como uma apresentação ou um objetivo, mas como uma travessia infinita em busca de algo que nos une como sapiens. Porque no fim, ele não é um estado fixo, mas um ato de arrojo, de bravura, uma entrega que não pode ser controlada, mas que nos brinda com o melhor que a vida pode oferecer. ''O amor floresce na incerteza e na imperfeição, não nas garantias e métricas superficiais das redes sociais''. Dan Mena Ao poema; Deuses e Desejos Por Dan Mena Eros e Psique, amor sem igual, Transcendem o mundo, num conto imortal. Psique, curiosa, o véu levantou, Perdeu seu amado, mas não desistiu. Afrodite, invejosa, a fez sofrer, Mas o amor de Psique não ia ceder. Com coragem e força, os deuses venceu, E o coração de Eros de novo acendeu. O amor verdadeiro não é só perfeição, Mas entrega sincera, aceitação. Eros e Psique, na alma se uniram, Corpo e espírito, enfim se fundiram. No mito se esconde a psique do ser, Que na jornada do amor, aprende a viver. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 — CNP 1199. Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 — CBP 2022130. Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University - Florida Departament of Education - USA. Enrollment H715 - Register H0192.
- Memória e Esquecimento.
A Memória e o Inconsciente: Desvende os Segredos da Sua Mente com a Psicanálise. ''A memória é o baú das lembranças, o esquecimento, a fechadura que protege seus enigmas'.' Dan Mena, por Dan Mena. Memória e esquecimento são vistos como partes fundamentais da forma como nossa mente funciona. Em vez de apenas guardar informações como um computador, é moldada por emoções, desejos e experiências passadas. Para a psicanálise, a memória é atual, implica num passado que se torna vivo e carne pela bagagem que carregamos. Então, a lembrança é recuperada em uma nova malha, um novo signo psíquico que a torna a potência do pensamento. Seria, portanto, a soma de lembranças, desejos ou medos que influenciam nosso dia a dia, mas sem que o percebamos. Tanto a história quanto a memória, não apenas conectam esses conteúdos, fronteiras, demarcações e datas, mas também, estabelecem relações de razão e decorrência, causa e efeito. São o mais próximo e real de um legado, aquele que podemos passar adiante. Quando a historicidade é elaborada, construída paralelamente de modo que se transforme em memória eficaz, podemos anotar isso como a ferramenta mais dominante e soberana do sapiens. Seria um grande equívoco afirmar que psicanálise, memória e cronologia são sinônimos, destarte, caminham intimamente pertinentes e concernentes a alguns aspectos particulares entre si. Em nossa prática clínica, falamos em memória e cronologia, o que pode ser classificado como a própria teoria delas e da psicanálise em si. Obviamente, que tais não se justapõem, pois; ''A história pode existir sem a memória, mas, não há reminiscências sem história''. Dan Mena. Olhando pelo ângulo freudiano, ele nos sugere e propôs diversas formas de recordações, entre elas; o id, que representa os anais da história da espécie, o superego, retratando e simbolizando o contexto, e a história da família e o ego, que reúne e estampa essa linha do tempo unificadamente. Boa leitura. Memória reprimida, lapsos freudianos e a interpretação dos sonhos. O esquecimento, para a psicanálise, não é apenas uma falha da memória, mas pode ser uma forma de defesa psicológica. Por exemplo; podemos desmemoriar eventos dolorosos ou traumáticos como uma maneira de nos protegermos do sofrimento que eles nos causaram. Além disso, na análise reconhecemos que elas não são estáticas; podem ser reinterpretadas e reconstruídas ao longo do tempo. Isso significa, que nossas lembranças podem mudar conforme nossa perspectiva e estado emocional atual. Essa maneira de entender como lembramos e esquecemos coisas, não são apenas registros neutros do passado, mas são poderosamente influenciadas por nossos desejos, medos e know-how emocional. Um dos conceitos dessa interpretação é a “memória reprimida”. Quando vivenciamos algo muito doloroso, nossa mente pode tentar esquecer para nos proteger dessa angústia, ficando guardadas no nosso inconsciente, induzindo nossos comportamentos sem que estejamos conscientes deles. Por outra parte, os “lapsos freudianos” ou “atos falhos”, que são pequenos erros aparentemente insignificantes, como esquecer o nome de alguém, trocar o nome do parceiro(a), ou cometer um deslize na fala. Essas lacunas, revelam pensamentos ou desejos inconscientes que estamos tentando esconder. Somado a esses eventos, temos a ''interpretação dos sonhos'', parte crucial da teoria de Freud. Sonhos, são uma forma de expressão do inconsciente e suas imagens e símbolos podem revelar nossas aspirações e interesses ocultos, tanto quanto camuflar conflitos psicológicos não solucionados. Podem sem duvidas, nos ajudar a entender melhor a nós mesmos e os problemas que enfrentamos no percurso da vida. A Profundidade do inconsciente. O inconsciente atua como uma vasta reserva de pensamentos, desejos, memórias e impulsos que permanecem fora do alcance da nossa consciência imediata. Estes conteúdos embrulhados, exercem uma intervenção prestigiosa sobre nós. Por exemplo; consideremos alguém que se vê preso em relacionamentos conturbados, marcados por brigas, birras e desentendimentos constantes. Por mais que essa pessoa tente compreender as razões por trás dessas dificuldades, ele(a) podem não atentar que estão repetindo padrões de estreiteza moldados por experiências passadas, como a dinâmica familiar da sua infância. Outro modelo que pode ser observado em casos de fobias inexplicáveis. Uma pessoa pode desenvolver um medo intenso e irracional de algo, como voar de avião, ter medo de elevadores, de altura, de participar de atividades sociais, etc., sem uma causa ou motivos aparentes. Memória traumática. A memória traumática é como uma ferida invisível que persiste em permanecer na mente, ela repercute de maneira entrelaçada e por vezes perturbadora. Uma forma de execução se dá pela ''repetição compulsiva''. Assim, reiteramos logo padrões e estruturas de comportamento que parecem reencenar eventos que nos abalaram no pretérito. Alguém que sofreu abuso na infância, pode se ver espelhando e vivendo ciclos constantes e regulares de relacionamentos tóxicos, abusivos e tirânicos, sem compreender suas verdadeiras raízes quanto às suas péssimas escolhas. Dita recorrência ocorre, porque o trauma não foi processado adequadamente na primeira vez da circunstância em questão. Em vez de ser integrado à consciência e ser elaborado, o padecimento ficou latente, armazenado no inconsciente, onde continua a rondar e exercer sua ingerência de maneira disfarçada. Portanto, podemos ficar presos em estágios de comportamento autodestrutivo, tentando inconscientemente dominar e governar uma situação que não encontrou sua resolução psíquica. Por isso, a ''repetição compulsiva''. Memória encobridora. Outro aspecto que preciso ressaltar é a ''memória encobridora'', na qual o trauma é reprimido ou esquecido conscientemente. Podemos bloquear a lembrança dessa comoção como uma forma de autopreservação, destarte, o impacto e baque sofridos não desaparecem simplesmente porque foi omitido. Ele retorna a conduta de maneiras sutis, muitas vezes causando sintomas como ansiedade, depressão ou flashbacks. Podem emergir novamente, muitas vezes em momentos de estresse ou quando algo no ambiente atual lembra o evento marcado anteriormente. Essas memórias podem se manifestar de formas simbólicas, como sonhos ou lapsos, se exprimindo e emitindo pistas do que está escondido no inconsciente. É importante fazer uma reflexão sobre a própria natureza do trauma psicológico. Trauma não se refere apenas a eventos extremos, como desastres naturais, agressões ou abuso físico. Ele inclui experiências emocionais intensas, como perda, momentos da sexualidade, rejeição ou humilhação, que deixam uma marca duradoura na mente. O impacto deles é sempre individual e subjetivo. O que é ou caracteriza uma mágoa, tristeza, sofrimento, angústia e amargura para uma pessoa, pode não ser paralelamente sentido para outra. ''Memória e esquecimento são dois elementos da mesma máquina fotográfica, onde a análise funciona como a lente grande angular dos detalhes ocultos''. Dan Mena. A Memória coletiva e cultural. Unindo indivíduos e comunidades por eventos históricos e fatos compartilhados, entram às reminiscências, que não apenas contornam nossa psique individual, mas também a coletiva. Às raízes da história repartida, seja por lances significativos, como guerras, revoluções, levantes sociais ou mesmo embates culturais, deixam marcas na consciência pública da sociedade. Essas vivências comuns se tornam parte do tecido da memória comunitária. Por sua vez, serão transmitidas de geração em geração mediante narrativas, tradições e rituais. Uma pessoa pode carregar consigo o peso de episódios históricos que ocorreram antes de seu nascimento, como o Holocausto, Genocídio Armênio ou a Escravidão. Mesmo que não tenham vivenciado diretamente esses acontecimentos coletivos, eles podem se manifestar em sonhos, fantasias, ou mesmo em padrões comportamentais, afetando como vemos o mundo e nos relacionamos com os outros. De uma geração para outra, por meio de processos como a identificação e a internalização, os traquejos e valores societários são passados de pais para filhos, criando uma continuidade, uma ponte entre o passado e o presente. Essa transmissão não é apenas um ato de preservação, pode ser uma fonte de conflito e tensão, especialmente, quando as memórias traumáticas não são adequadamente processadas. Desvendando o esquecimento. O esquecimento é como uma névoa pesada que envolve nossa memória, às vezes ocultando lembranças importantes ou detalhes do passado. Na psicanálise, exploramos as diferentes formas de ausência e desmemória, desde aquele ato deliberado, até lapsos de memória não intencionais, para entender como lidamos com o passado. Examinemos mais de perto essas duas facetas e como realizamos sua interpretação na clínica. Esquecimento deliberado: A Repressão. Falar do esquecimento proposital é também invocar a repressão, isso ocorre quando conscientemente empurramos lembranças e emoções insuportáveis para o fundo da mente. Estaria essa obra metaforicamente representada, como se estivéssemos trancando uma porta para evitar enfrentar o que se esconde atrás dela, para aquilo que é doloroso ou ameaçador. Alguém que passou por um trauma, pode reprimir essas memórias como uma forma de autopreservação, as mantendo fora da consciência para evitar a dor que carregam para si. Sabemos que a inibição é um mecanismo de defesa natural da mente para lidar com conflitos emocionais intensos. Assim, essas reminiscências recalcadas, continuam a exercer sua influência, muitas vezes se manifestando de maneira indireta via sonhos, lapsos de memória, chistes ou sintomas psicológicos, como ansiedade ou depressão. O trabalho do analista, é auxiliar o paciente a revisitar essas memórias desacolhidas para serem re-elaboradas de forma saudável. Esquecimento não intencional: Lapsos de memória. O esquecimento não intencional se refere a lapsos que ocorrem sem que haja uma intenção consciente de obliteração. Esses vácuos, podem acontecer por uma variedade de razões, como distração, estresse ou simplesmente falhas na recuperação da informação armazenada em nossa mente. Podemos esquecer o nome de uma pessoa que acabamos de conhecer ou onde colocamos às chaves do carro que a alguns minutos estavam em nossas mãos. Ditas imprecisões, deslizes, gafes de memória, são vistos como descobertas, mensagens, diligências de processos inconscientes que estão em jogo. Acreditamos que são uma forma de expressão do desejo inconsciente, onde a mente revela o que está abstruso por trás da cortina da consciência. Por exemplo; esquecer o aniversário de alguém, pode ser uma forma de protesto do interesse dele(a) em esquecer ou evitar dita celebração dessa pessoa. Memória e identidade. Como um baú de tesouros, nossa memória é cheia de lembranças que plasmam quem somos e como vemos o mundo. Ela desempenha um papel crucial na formação de nossa identidade e senso de self. O tecido que envolve essa formação é como uma colcha de retalhos, feita de experiências, emoções e relações que acumulamos ao longo da vida. São os fios que costuram esses retalhos, pedaço a pedaço, más, juntos, formando uma narrativa coesa de personalidade, e como chegamos a ser, nós identificamos e projetamos. Desde as memórias de nossa infância até os eventos mais recentes, elas suturam, cirzam e cosem essa tarimba da trajetória de vida, delineando e criando uma visão panorâmica de si e da dimensão global universal. Como autores de nossa história, construímos uma biografia que dá sentido às nossas vivências e nos ajudam a entender quem somos. Essa linguagem própria e singular não é apenas uma lista de eventos cronológicos, mas sim, um balaio de significados e emoções que atribuímos às nossas memórias. Podemos, por essa trilha, reinterpretar um evento traumático do passado como uma fonte de força e resiliência, dando uma nova acepção a essa crônica pessoal. Às narrativas que construímos podem ser instigadas por memórias reprimidas, desejos inconscientes e padrões de comportamento repetitivos. Ao revisitar essas lembranças e explorar sua conexão com a identidade, podemos começar a reconstruir uma produção mais autêntica e coerente de existência. Elas são como a argamassa que sustenta toda nossa identidade e nos ajudam a dar sentido às nossas vidas. Através dessa sondagem memorial, podemos reorganizar nossa fábula, prosa e ficção pessoal. Memória e envelhecimento. Chegar a terceira idade é como participar de uma jornada através do tempo, onde memórias se tornaram uma riqueza peculiar que esculpiram e formaram nossa identidade. A relação que entendemos clinicamente entre memória e envelhecimento é heterogênea, com desafios únicos, como a demência e a doença de Alzheimer, mas também, oferecem oportunidades para preservar nossa analogia na senilidade. À medida que nos dirigimos para vetustez, é natural que nossa memória passe por mudanças. Podemos perceber que aconteçam lapsos memoriais mais frequentes e dificuldade em evocar detalhes específicos dessa peregrinação e giro pela vida. Para algumas pessoas, esses reveses podem se agravar, levando a condições de saúde psiquicamente comprometidas, onde sua perda é mais grave e afeta significativamente a rotina. Reconheço que essas mudanças análogas podem ser difíceis de enfrentar, por estarem inerente e profundamente ligadas à nossa identidade e ao senso de self. À medida que esquecemos pormenores sensíveis da nossa existência, podemos, ainda, ser invadidos por sentimentos de desconexão de quem éramos e da história que construímos. Preservação da identidade. No entanto, a psicanálise nos lembra que nossa identidade vai além das nossas memórias conscientes. Mesmo quando ela falha, ainda podemos manter uma sensação de continuidade e coesão. Isso ocorre porque nossa identidade é montada não apenas com base em eventos passados, mas também por relacionamentos, valores e aspirações. Destaco a importância de encontrar formas de salvaguardar nossa personalidade na velhice, mesmo diante dos desafios da memória. Isso pode incluir atividades que nos agregam com outras pessoas, como contar histórias, participar de grupos sociais, atividades físicas coletivas, deixando consequentemente um legado positivo para as gerações futuras. Ao manter essas ligações e atividades significativas, fortalecemos nossa função cognitiva e encontramos crédito na fase tardia. Enfrentando esses embates com compreensão e apoio, podemos envelhecer com dignidade e resiliência, nos mantendo ativos e funcionais em nossa verdadeira essência. Independentemente das mudanças e restrições naturais que possam advir pelo traquejo inevitável do desgaste físico inevitável. A memória na clínica psicanalítica. O esquecimento de impressões, experiências e vivências, na maioria das vezes, se reduz a um simples bloqueio delas. Quando o paciente se refere a esse desmemoriamento intencional ou não, deixa raramente de acrescentar. Sejam eles por eventos traumáticos ou reprimidos que continuam a exercer preponderância, modelando pensamentos, sentimentos, hábitos e condutas. Vejamos isso nas palavras de Freud: “A memória é o armazém de nossas experiências.” “Os esquecimentos reais são raros; mais frequentemente, o que se supõe olvidar é apenas um encobrimento.” “O passado é tudo o que não está presente.” Não é raro que o paciente exteriorize sua desilusão por não conseguir lembrar o suficiente das coisas que poderia reconhecer como assuntos deixados para trás, elementos dos quais nunca mais pensou depois que aconteceram. Destarte, essa suposta nostalgia, também será satisfeita via às histerias de conversão. Verifico, também, outra restrição relevante das ''memórias encobridoras''. Quando trabalhamos a amnésia infantil, ela é contrabalanceada por essa instrumentação, articulando que não apenas tenta se proteger de algo essencial dessa fase, mas sim, de tudo o que é sua base primaria pueril. Eles vão se formar e aglutinar como um conjunto impecavelmente construído aos anos infantis supostamente esquecidos, assim como o conteúdo manifesto dos sonhos estão para os pensamentos imaginários e oníricos. Na neurose obsessiva, o esquecimento muitas vezes se limita à dissolução de conexões e o isolamento dessas memórias. Para tal, experiências ocorridas quando crianças, apenas podem ser levantadas e conhecidas por meio dos sonhos. Resistência a análise. A superação a resistência se inicia pelo ato de tornar evidente aquilo que não se expressa, que por sua vez, deve ser repassado ao analisado(a), que nunca deseja tomar contato com ela ou simplesmente não a capta. Verifico que muitos psicanalistas iniciantes confundem esse começo com a análise na sua totalidade. Por esta razão, será imprescindível criar e desenvolver o senso cronológico, dar tempo ao paciente para que se inclua nessa decisão de resistir, e refazê-la, obedecendo à regra analítica da técnica. O analisado(a), será imerso no trabalho conjunto, alavancando suas mobilidades pulsionais reprimidas que o/a suprem, de cuja extensão e permanência ele(a) se atesta em virtude da sua própria prática. A reelaboração dos entraves, pode se tornar uma tarefa melindrosa e fatigante para o analisado(a), embora, é a parte do trabalho que produz o maior efeito transformador. ''Entre os escombros da memória e os abismos do esquecimento, a psicanálise ergue pontes para a reconciliação com o passado e a libertação do presente''. Dan Mena. O nó borromeano. Como sempre faço leitura, Lacan amplia as ideias freudianas, então ele acrescenta; “O inconsciente é estruturado como uma linguagem.” “A memória é uma ilusão de continuidade.” “O passado não cessa de não se escrever.” A análise não se limita à recuperação de memórias individuais, mas também envolve a desconstrução dos sistemas simbólicos que moldam nossa experiência. O conceito de “nó borromeano lacaniano”, representa a interconexão entre o simbólico, o imaginário e o real. Sugere que a memória é tecida dentro desses registros compostos. Ele descreve essa inter-relação dos três momentos psíquicos fundamentais: anotados acima. Esse conceito deriva do emblema heráldico da família Borromeo; (família nobre italiana que desempenhou um papel significativo na história da Itália e da Igreja Católica), seria composto por três argolas entrelaçadas de tal forma que, se uma argola fosse removida, as outras duas se soltam. Cada uma dessas designações; (simbólico, imaginário e real) são distintas, mas, estão interligadas de uma maneira tal, que mudanças em uma, afetariam às outras duas. Esse nó, representa a dependência mútua entre ditas referências. Simbólico; Seria à dimensão linguística, cultural e social da nossa experiência. É o domínio das palavras, símbolos e significados que estruturam a realidade do sujeito. Imaginário; Diz respeito à dimensão das imagens, das identificações e das relações especulares. Ele está associado à formação do eu e das identidades baseadas em imagens e ideais. Real; É aquilo que não pode ser simbolizado ou representado plenamente, é o domínio do trauma, do corpo e das experiências que escapam à linguagem e simbolização. A análise deve considerar essa correlação, para que se possa compreender a experiência da raça e os conflitos psíquicos que nos acometem. “O inconsciente é inteiramente redutível a um saber, e o mínimo que pressupõe o fato de poder ser interpretado”. “Esse saber do qual o inconsciente é uma escrita, se mostra entre dois significantes, representando o sujeito, ou seja, segundo a realidade”. Esses dois pontos fundamentais; que o inconsciente funciona como um saber, e só pode ser acessado por meio de um trabalho de rememoração. Que em segunda leitura; só existe o sujeito quando ele(a) se fala ou escreve, significando, o qual é esse movimento entre significantes. (Wunsch-Desejo). “Entre memórias e lembranças, a psicanálise propõe a inscrição simbólica que permite esquecer aquilo que não é possível deixar de lembrar”. Lacan. Desse modo, se introduz o sujeito no tempo do seu desejo. Finalizando, fica muito transparente que nossa memória está diretamente conectada e relacionada ao inconsciente, então, ela se faz letra quando invocada. Se estabelece, se inscreve no discurso, na narrativa e significações compartilhadas. Seu saber, só se torna memória no momento em que incompetentes de fazer sua leitura, a traçamos, desenhamos e grafamos com palavras. Nesse enunciado, surge uma mensagem inconsciente, que vem à luz como uma ligação sonora, rachando, despedaçando aquele sentido objetivado. Como diria Eluard; “Outro mundo surge aí, desorganizando os lugares dos implicados, como uma dança cósmica de realidades entrelaçadas.” Interpreto assim; como alguém que antecipa sua direção, seu norte no ato de expressar, o que antes não era recordável. Ao poema; Lembrança e Memória por Mario Quintana. Essa lembrança que nos vem às vezes... folha súbita que tomba abrindo na memória a flor silenciosa de mil e uma pétalas concêntricas... Essa lembrança... mas de onde? de quem? Essa lembrança talvez nem seja nossa, mas de alguém que, pensando em nós, só possa mandar um eco do seu pensamento nessa mensagem pelos céus perdida... Ai! Tão perdida que nem se possa saber mais de quem! Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 — CNP 1199. Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 — CBP 2022130. Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University - Florida Departament of Education - USA. Enrollment H715 - Register H0192.
- O Cansaço da Alma.
Uma Leitura Psicanalítica da Sociedade Contemporânea do Desempenho. ''A sociedade do cansaço, ao negar a finitude, alimenta a ilusão de uma vida eterna, intensificando o medo da morte e a angústia existencial." Dan Mena. Para adentrar no tema deste artigo, vou me permitir dar início ao texto usando um aforismo com O Mito de Prometeu. Na mitologia grega, ele era um titã que desafiou a autoridade de Zeus ao roubar o fogo dos deuses e fazer entrega do mesmo aos humanos. Visto como um ato de desobediência, sua motivação não era outra, senão, sua grande compaixão pela humanidade, que se encontrava na primitividade, angustiada, carente, desafortunada, castigada, acuada e sofrida. Prometeu então, ofereceu o fogo aos humanos, com ele, a capacidade de cozinhar alimentos que antes eram consumidos crus, a de dominar a natureza e o ambiente, sair da escuridão noturna, defesa contra os predadores e se proteger do frio congelante entre outros. O Desejo de Conhecimento e a Culpa. Ao analisar o mito de Prometeu sob a ótica da psicanálise, identificamos diversos fatores que ressoam para a nossa experiência como sapiens. Seja pela inerente busca pela autonomia, desejo de conhecimento e a desobediência nata as regras, proposições universais que alimentam a psique do ser. Ao roubar o fogo, Prometeu não apenas nos ofereceu um regalo dos Deuses, ele confrontou a ordem prescrita, conflagrando uma guerra. Essa pugna conflituosa entre o desejo e a necessidade de submissão à autoridade, será lida e interpretada como uma expressão alegórica e representativa da luta entre o Id e o Superego, tais conceitos elementares da nossa teoria psicanalítica. De forma que o Id atua e representa nossos desejos naturais, o Superego espelha internamente as normas morais e sociais. Ao ceder Prometeu ao seu desejo de contribuir com a aflição humana, defrontou o poderoso Superego, logo representado nesta comparação na figura de Zeus. A Herança de Prometeu e a Fadiga. Na obra “A Sociedade do Cansaço” de Byung-Chul Han, somos convidados a refletir sobre o esgotamento inveterado que nos acomete. Esse estabelecimento da busca incessante por produtividade e a valorização agravada do individualismo. Ambos, nos conduzem inconscientemente a um estado de fadiga infinita. Esse paralelo que agora transporto, entre o mito de Prometeu e a nossa condição atual. Da mesma forma que ele nos brindou com o fogo, a ciência e a tecnologia moderna nos promoveram, facilitaram avanços notáveis e valorosos, ampliando exponencialmente a qualidade de vida. No obstante, tal prosperidade nos conduziu a um ponto de exaustão. O Fogo como Metáfora do Conhecimento e da Destruição. Essa translação, tanto a da cognição quanto da destruição, nos concederam domínio para a transformação da matéria, a criação de ferramentas, etc., no entanto, também podem dar causa a destruição e incêndios. Paralelamente, o conhecimento pode ser utilizado tanto para o bem quanto para a produção do mal. Esse suposto saber científico que adquirimos, enfrenta atualmente desafios profundos sob à ética e à responsabilidade. A procura desenfreada por inovação, não nos conduziu de forma alguma a construção de um mundo mais justo e pacífico. Prometeu, o Cansaço e Nós. Imagine então o mito de Prometeu, o rebelde: Ele desafiou os deuses, assim como nós, muitas vezes reptamos as regras, limites e leis. Queremos ser melhores, queremos alcançar o sucesso, queremos sempre mais, nunca estamos satisfeitos. Essa investida constante por algo mais, pode nos direcionar a um lugar bem diferente daquilo que projetamos e deduzimos como resultado esperado. A segunda parte do mito, fala de uma águia: Assim, Prometeu é torturado por uma águia que devora seu fígado, o que nesta simbiose, pode representar a angústia e o sofrimento que sentimos quando nos demandamos exaustivamente, forçamos e exigimos ao extremo. Surge então uma voz interior, como uma águia, que nos diz que nunca é o bastante, que devemos fazer mais e mais. E eu me pergunto? Para que? "O fígado de Prometeu, devorado diariamente por uma águia, pode ser visto como uma metáfora do sofrimento psíquico, presente na sociedade contemporânea, marcada pela ansiedade e pela depressão." Dan Mena. A Interpretação do Cansaço como Castigo. Dita busca citada, incansável por triunfo, estética, fama, reconhecimento, poder, etc., é o que o Byung-Chul Han vai chamar de “cansaço”. Essa que não vem do esforço físico, senão de uma pressão interna imposta por si, de uma condição elaborada que colocamos como uma carga ininterrupta sobre nós. "A sociedade do cansaço, ao negar a dimensão trágica da existência, impede o sujeito de elaborar suas perdas e frustrações, levando a um sofrimento psíquico crônico." Dan Mena. A Sociedade do Desempenho. Foi assim, que transitamos na passagem da sociedade do controle para criarmos a ponte para outra, que valoriza e foca abusivamente na produtividade, no sucesso individual e a eficiência. Essa coerção voluntária, nos empurra a dar o que muitas vezes não temos, nos levando a um estado imperativo de rendimento e competência que deflagra sintomas. É como se estivéssemos em uma maratona infinita, tentando chegar a uma linha de chegada que não tem bandeirada. Fala Prometeu… Você se reconhece nessa história? Se percebe preso a uma gangorra, uma roda gigante? Sobe e desce sem parar, sem chegar a nenhum lugar? Pois é… se você identifica, se sente assim, tenho uma notícia, você não está sozinho nessa. Muitos de nós, a grande maioria, nos sentimos totalmente imersos na mesma forma desse circuito vicioso de vida. "O fardo de Prometeu, a culpa por ter oferecido o fogo aos homens, ecoa na angústia do sujeito contemporâneo, que se sente responsável pela própria infelicidade, aprisionado em uma cultura do desempenho." Dan Mena. A Sociedade na Era Contemporânea. Esse diagnóstico que tecemos sob uma crítica incisiva da sociedade performática, está caracterizada pela valorização intensificada da positividade e do individualismo. Ao analisar tais transformações da sua subjetividade, verificamos um estado de esgotamento inveterado que nos acomete massivamente. Podemos aqui levantar uma comparação entre a antagônica sociedade patriarcal e a atual contemporânea, ela pode nos auxiliar a compreender melhor as especificidades dessas rupturas sociais nas formas do exercício do poder e nas dinâmicas subjetivas que a compõem. Sociedade Patriarcal: poder, disciplina e submissão. Caracterizada por uma rígida hierarquia de gênero e por relações de autoridade baseadas na força e na dominação, se exercia como um controle sobre os indivíduos, utilizando mecanismos de disciplina, castigo e punição. A submissão era imposta através da violência física e simbólica, e a identidade, era moldada pelas normas e os valores sociais. O poder suave, positividade tóxica e auto exploração. Por sua vez, o poder, se tornou mais sutil, funcionando via mecanismos de sedução e auto exploração. O que era antes a disciplina, foi sendo substituído por uma autodisciplina, na qual os indivíduos são incentivados a se automonitorar e a se autocorrigir. A positividade tóxica, exige do indivíduo um otimismo constante para essa corrida louca e incessante por felicidade, que ao final se tornou a norma. Continuidades e rupturas. Se debruçando nas diferenças entre a sociedade patriarcal e a contemporânea, é possível verificarmos algumas continuidades. Em ambas, a identidade individual é moldada e configurada por forças externas, seja através da família, cultura e a religião, onde verificamos uma tendência a negação e a reprimir as emoções negativas, como a raiva, ódio, angustia, tristeza e a frustração. Destarte, existem rupturas significativas, enquanto a sociedade patriarcal se baseava na violência e na força, a contemporânea age mediante rotas imperceptíveis de controle midiatico. A submissão, que antes era imposta pela força, agora é internalizada pelos próprios indivíduos, que se exploram em busca de uma impossível perfeição, reconhecimento e sucesso. Essa fadiga que acomete a sociedade atual, pode ser entendida como uma expressão das contradições, ambiguidades e conflitos internos que caracterizam a passionalidade moderna. Como incentivados que somos à exercer a autonomia e à autorrealização, estamos aprisionados em uma roda-viva, algo que parece estar sempre além das possibilidades de ser alcançado. "O sujeito da sociedade do cansaço, fragmentado pela cultura do instantâneo, busca desesperadamente um ego coeso, mas encontra apenas um mosaico de identidades flutuantes, intensificando o sentimento de vazio existencial." Dan Mena. Implicações para a Saúde. O burnout, cansaço crônico, ansiedade e depressão, são sintomas comuns nesta sociedade, onde ditos problemas podem ser lidos como resultado e consequência de uma adaptação malograda do indivíduo e às demandas da sociedade. A busca por felicidade e sucesso, pressão por resultados e a ausência de limites atingiveis, podem nos levar ao esgotamento físico, psíquico e emocional. A Necessidade de uma Nova Ética. Um cenário que demanda atenção urgente, e a construção de uma nova ética que valorize a lentidão, o ócio, a negatividade, empatia e solidariedade. Precisamos resgatar o valor do tempo livre, da contemplação, a vida em família, aceitar a experiência estética natural e o fortalecimento das relações autênticas. A busca por uma vida mais equilibrada e significativa exige uma transformação profunda da sociedade e da subjetividade. A Tecnologia como Extensão do Eu e Intensificador do Cansaço. A engenharia da tecnologia, indiscutivelmente tem um papel central nesse modelo, configurando profundamente a sociedade atual, intensificando os processos de individualização e auto-otimização. Hiper conectividade e Vigilância Constante. Internet, plataformas, apps e dispositivos móveis nos conectam 24 horas por dia, criando uma falsa sensação de estar sempre disponível e produtivo. A vigilância constante das redes sociais e o medo de perder informações relevantes geram um estado de alerta constante, intensificando o estresse e a ansiedade. "A hiperconectividade, característica das redes sociais, fragiliza a função de barreira do ego, expondo o sujeito a um fluxo incessante de informações e estímulos que o sobrecarregam e o desconectam de si mesmo." Dan Mena. Auto-Otimização e Comparação Social. As redes sociais por sua vez funcionam como verdadeiras vitrines artificiais da vida, onde as pessoas apresentam, constroem e separam apenas os cortes, com os melhores momentos de suas vidas cuidadosamente trabalhados. Essa hiper exposição constante leva à comparação social, gerando sentimentos de insegurança, inferioridade e insatisfação. Essa fabricação ilusória da imagem possivelmente perfeita nas redes, se tornou um fardo psicológico insustentável para o ser. "A busca por uma vida perfeita, propagada nas redes sociais, gera um sentimento de inadequação e frustração, alimentando a comparação social e a inveja." Dan Mena. Distração Constante e Dificuldade de Concentração. Chats de todos os tipos, notificações, e-mails e mensagens de texto, interrompem o fluxo de trabalho e dificultam a concentração nas tarefas de qualquer índole. A fragmentação da atenção, pulveriza a dedicação a uma única tarefa contribuindo para o sentimento de esgotamento e superficialidade. A Educação na Reprodução da Sociedade. Vista tradicionalmente como um meio de emancipação, a educação atual tem contribuído para essa vinculação. Na medida que passou a enaltecer a competição individual, pressão por notas altas e o medo do fracasso, gerando estresse crônico nos estudantes. Criamos uma cultura adaptada exclusivamente para o mercado de trabalho, formando profissionais altamente qualificados, mas, muitas vezes desumanizados, alienados e autômatas. Falta de Espaço para a Criatividade e a Reflexão. Essa carga, totalmente direcionada para o setor profissional, tem levado à diminuição do espaço para a criatividade, a reflexão e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais. Para transformar essa realidade, é necessário: Repensar o currículo escolar: Priorizar o desenvolvimento de habilidades como a colaboração, a empatia e o pensamento crítico. Promover a educação emocional: Ensinar os alunos a lidar com suas emoções, a construir relacionamentos saudáveis para encontrar significado na vida. Valorizar o aprendizado ao longo da vida. Incentivar a busca por conhecimento de forma autônoma e prazerosa, fora dos muros da escola. Construindo uma Nova Ética. Para superar o cansaço contemporâneo, é preciso construir uma nova ética que valorize: A lentidão e o ócio: É preciso reservar tempo para o descanso, a reflexão e o lazer. As relações humanas: É fundamental cultivar relações autênticas e significativas com as pessoas ao nosso redor. A natureza: É preciso estabelecer um contato mais profundo com a natureza, reconhecendo nossa interdependência com o planeta. A solidariedade: É preciso construir uma sociedade mais justa e equitativa, onde todos, tenham oportunidades iguais. Por fim; A sociedade do cansaço precisa ser revisitada pela relação entre o sujeito e o gozo. A busca por prazer e reconhecimento, nos aliena do nosso desejo mais profundo. Como afirma Lacan, ''o gozo não é uma coisa que se tem, mas uma coisa que se perde''. A psicanálise desvela os mecanismos inconscientes que nos aprisionam, nos oferecendo a possibilidade de construir um novo laço social, baseado na solidariedade e na ética do cuidado. Nossa saúde depende da capacidade de construir um espaço de transição, um lugar onde a fantasia e a realidade se vinculem e encontrem. É preciso reconhecer, que esse lugar de transição é cada vez mais restrito, dificil de ser acessado, nos levando a um sentimento de desrealização e vazio existencial. Ao oferecer um espaço continente para a subjetividade, podemos ajudar a restaurar essa capacidade de brincar e criar. Não em vão, Freud nos alertou para os perigos do princípio do prazer e da satisfação imediata, que nos levaria a um estado de insatisfação. Por isso, é fundamental convidar a explorar os meandros do inconsciente, que nos permita encontrar um equilíbrio entre o princípio do prazer e o da realidade. Implicações para a Clínica. A compreensão das raízes históricas do cansaço contemporâneo pode nos auxiliar como profissionais e terapeutas a desenvolver intervenções mais eficazes. Ao identificar os mecanismos de poder que operam na sociedade e as suas consequências para a subjetividade, é possível auxiliar os pacientes a desenvolverem estratégias para lidar com o esgotamento e construir uma vida mais autêntica e significativa. Diante disso. O que podemos fazer? Reconhecer o problema: O primeiro passo é reconhecer que estamos nos exigindo demais. Quebrar as correntes: Precisamos aprender a dizer não, a estabelecer limites e a priorizar o nosso bem-estar. Celebrar as pequenas vitórias: Em vez de nos concentrarmos apenas nos grandes objetivos, podemos celebrar as pequenas conquistas do dia a dia. Cultivar a gratidão: A gratidão pode nos ajudar a apreciar o que temos e a reduzir o sentimento de insatisfação. Somos humanos, e não máquinas autômatas. Precisamos de tempo para descansar, para nos divertir e para cuidar de nós mesmos. A felicidade não se encontra numa corrida pelo sucesso, mas sim na construção passo a passo de uma vida mais equilibrada e significativa. Do Mal-estar Contemporâneo. Finalizando, ''A sociedade do Cansaço'', meticulosamente analisada, representa um paradigma, está claramente marcada pela exaustão, consumismo e foco na produtividade. Ao investigarmos como analistas seus meandros, obtemos ferramentas indispensáveis para compreender esse mal-estar. A pressão por desempenho, a cultura do narcisismo e a fragmentação do sujeito, tão características da nossa época, encontram ressonância nas dinâmicas psíquicas descritas por Freud, Lacan e Winnicott, por isso, pelos seus legados, a compreendemos perfeitamente. "O prazer imediato, oferecido pela cultura do consumo, atua como um falso self, mascarando as angústias e os conflitos internos, levando a uma sensação de vazio crônico." Dan Mena "O narcisismo exacerbado, ao idealizar uma imagem perfeita de si, gera uma angústia de castração constante, alimentando a busca por um prazer imediato e fugaz." Dan Mena. O ideal do eu, tal como concebido por Freud, cada vez mais inalcançável, gera um sentimento de insuficiência cronológica. A cultura digital, por sua vez, intensifica essa atuação, promovendo uma vigilância constante e divisão da atenção, fatores que dificultam a construção de um psiquismo coeso. A noção lacaniana de gozo, aliada à lógica insana do capitalismo neoliberal, leva a uma busca insaciável por prazer, que se revela, no entanto, fonte de sofrimento para todos. Por sua vez, não podemos esquecer a importância do ambiente facilitador para o desenvolvimento psíquico saudável. A falta de um ambiente suficientemente bom, marcado pela ausência de figuras de apego consistentes e pela precariedade das relações sociais, contribui para o aumento do nosso sofrimento psíquico. A sociedade do cansaço não é apenas um fenômeno individual, mas também um problema social que exige soluções coletivas e políticas. É fundamental investir em ações que valorizem o cuidado de si e a criação de espaços de reflexão e transformação. "A ausência de um Outro que ofereça um limite ético, somada à pressão por um desempenho ilimitado, leva a um desregramento pulsional que se manifesta em comportamentos aditivos e autodestrutivos." Dan Mena. A tarefa de superar esse esgotamento é complexa, exige uma transformação profunda da nossa cultura. A psicanálise, em diálogo com outras disciplinas, como a filosofia e as ciências sociais, podem abrir caminho para construir um futuro mais sustentávelmente equilibrado. Ao poema; A Nau dos Loucos Por Dan Mena. Num mundo frenético, a alma se esgota. Em busca incessante, um fardo se entoca. A roda gigante gira, gira sem parar. E o ser exausto, não mais pode amar. Perseguimos a perfeição, um ideal inalcançável, No alto desempenho há uma prisão inevitável. Por isso ansiamos por um refúgio sustentável. Em contato com a terra, voltar a nossa medula. O superego, sempre um tirano insano. Impõe metas, que ferem o ser humano. O ideal do eu, é um sonho cruel. Que aprisiona a alma, sem poder. Em meio ao caos digital, a mente vagueia, Em busca do impossível, a alma se esvai. Na solidão, um vazio interior se perfaz. E o ser, exausto, se desfaz. Conexão, irônica e impiedosa. Nas redes sociais, a alma está despida. O like, a curtida, a falsa vitrina. Escondem a angústia da sociedade da mentira. A psicanálise, um farol para guiar, Transforma a alma, para se libertar. O inconsciente, um abismo a explorar, Onde os desejos ocultos se revelam a par. A cura, um processo lento e demorado. A esperança, virá como um bálsamo sagrado. Aprender a ser, a amar e a viver. Contemplar o caminho para a paz viver. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 — CNP 1199. Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 — CBP 2022130. Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University - Florida Departament of Education - USA. Enrollment H715 - Register H0192.
- A Narrativa Perdida.
A Morte de Deus e a Ascensão da Ciência. “A ciência substituiu o sagrado, mas desumanizou a vida.” Dan Mena. Ao refletirmos sobre o tempo anterior à era atual, somos conduzidos a observar um período marcado por narrativas sólidas e estruturas sociais bem definidas. Uma extensão temporal, onde as certezas eram ancoradas em tradições, religiões e sistemas de pensamento que ofereciam uma sensação de continuidade e estabilidade. Vivíamos em um mundo, onde as fronteiras entre o público e o privado eram mais claramente delineadas e respeitadas, e a identidade pessoal encontrava suas bases em comunidades físicas e culturais mais restritas. Esse passado recente, sem evocar aqui nenhum saudosismo, onde narrações tradicionais foram perdendo sua força repressiva, logo, substituídas por outras fluidas, que deram lugar a fronteiras difusas entre o real e o virtual. Eis, que a tal da velocidade e a eficiência, passaram a ser mais valorizadas do que o diálogo, a contemplação e a reflexão. “Vínhamos de uma era de continuidade estável, agora acelerada pela eficiência que sacrificou a reflexão.” Dan Mena Nesse passado, o ritmo da vida era mais lento, permitia uma conexão mais íntima com o ambiente natural, físico e social. Pessoas viviam em um tempo marcado pelas estações, rituais e fases. A experiência do tempo era mais cíclica e menos linear, com um senso de continuidade transmitido de geração em geração. Tudo era compreendido como um período estático, era como observar uma tela de uma paisagem, em que tudo já estava presente, já estava tudo dado. Não havia a necessidade de alcançar algo, o propósito estava naturalmente estabelecido. O cristianismo oferecia uma explicação clara sobre de onde viemos e para onde vamos, propiciando um amparo. Havia um calendário de eventos cristãos, como a Páscoa e o Natal, que marcavam o tempo, e conferiam o significado necessário a cada dia. Com o tempo advindo, essa estrutura narrativa foi se desintegrando. Deus, que antes ocupava o centro da vida das pessoas, perdeu seu papel central. Nietzsche captou bem isso, e se preocupou com essa mudança ao falar sobre a “Morte de Deus”. Ele, não se referia apenas ao declínio da fé religiosa, mas ao desaparecimento de um sistema que conferia propósito e direção a todos. A perda desse quadro estático da moral e costumes, levou ao que experimentamos hoje: uma vida mensurada pelo relógio, em que o tempo é visto como algo a ser otimizado, corremos atrás dele, e a produtividade se tornou a nova moral. Tomemos, por exemplo, a relação com o trabalho. No período pré-industrial ele não era separado da vida; fazia parte de uma rotina natural. O artesão trabalhava no seu ofício, muitas vezes seguindo tradições familiares, e seu tempo de produção estava ligado aos ritmos da terra ou à necessidade local. Havia uma sensação de pertencimento e perpetuação, onde o sujeito se via como parte de algo maior, contribuindo para a comunidade e sendo valorizado dentro dela. A acomodação do lazer também seguia essa lógica, e as pausas para descanso, especialmente as rotinas religiosas eram respeitadas e até sacralizadas. A tecnologia e a globalização conectaram o mundo de maneiras nunca imaginadas, transformando a experiência do tempo em algo instantâneo e pulverizado. Redes sociais e meios de comunicação ampliaram nossas possibilidades de interação, mas também fragmentaram nossa atenção. Hoje, vivemos em uma sociedade dominada pela pressa e a eficiência. A noção de tempo e sua cronologia foi despojada de qualquer caráter sagrado, se tornando uma simples mercadoria. Somos constantemente bombardeados por demandas de produtividade, criamos a ilusão de que devemos estar sempre ligados, produzindo ou consumindo. Nesse cenário, a vida parece se diluir, com as pessoas buscando obstinadamente reconhecimento e validação por meio de curtidas, seguidores e interações diversas, o que acaba minando a construção de relações autênticas. Essa variante que não é apenas tecnológica, mas também filosófica e cultural, produziu a perda das narrativas tradicionais e a ascensão da pretensa visibilidade, desconstruindo a compreensão do eu e do outro. Estamos sob intensa pressão, obrigados a se auto gerenciar e se apresentar de maneira otimizada em busca de ratificação. Como psicanalista percebo essa mudança, que observo carregar consequências psíquicas consideráveis. Na era pré-moderna, o indivíduo encontrava segurança e sentido nas narrativas externas que o cercavam — Deus, a família, costumes e a tradição. Porém, com a ascensão da nova era e a queda desses relatos importantes, fomos deixados à deriva. Destarte, agora forçados a criar nosso próprio sentido de permanência, subsistência, realidade e senso de identidade, resultou em ansiedade, depressão, sensação de vazio e desorientação, sintomas que derivam na sua maioria da tensão entre as demandas sociais e os desejos individuais. Essa apreensão só fez aumentar, e agora, somos os únicos responsáveis por se moldar e se vender no mercado das aparências. Essa aceleração também se reflete na forma como lidamos com o tempo. Perdemos a capacidade de contemplação e imersão em atividades que não tenham um valor imediatamente quantificável. O tempo vazio, tão necessário para a criatividade e a meditação, foi trocado pelo tempo útil, aquele que deve ser sempre preenchido com algo essencialmente produtivo ou divertido. Esquecemos nossa capacidade tridimensional de olhar para o céu, do fazer nada, de brincar. Comprometemos uma herança importante da qualidade de vida que redunda dessa desconexão, do ócio criativo e da capacidade de simplesmente estar, em vez de fazer algo o tempo todo. Atento aqui para um paradoxo introduzido por Nietzsche. Quando ele anuncia que “Deus está morto”, o qual não se refere simplesmente ao declínio das religiões tradicionais, mas à perda de uma centralidade que dava sentido e direção à nossa experiência. É isso, nada tem a ver se você é cristão, protestante, espiritualista, etc., ou acredita ou não em Deus, se é ateu ou religioso. No mundo pré-moderno, o tempo e o senso comum estavam estruturados em torno de algo transcendente ou de uma ordem espiritual. Após a dita filosófica, o homem é forçado a encontrar significado em um contexto que, segundo Nietzsche, se torna essencialmente caótica e sem propósito. ''Nietzsche nos alertou sobre a “morte de Deus” como sendo a perda de uma ordem transcendente, e agora, a nossa busca por sentido é um labirinto sem saída no caos moderno.'' Dan Mena Esse diagnóstico, reflete claramente as mudanças, sem uma narrativa articulada num eixo para dar sentido ao tempo, somos jogados e lançados em uma existência desagregada, onde o tempo se tornou algo a ser consumido, e o ''eu'', um projeto a ser vendido. Dita ruptura, também resulta em uma dificuldade crescente em estabelecer laços, pois os afetos passaram a ser permeados pela lógica de mercado, onde o valor do outro é medido pela sua utilidade ou atuação. Portanto, essa metafórica morte de Deus, é também a falência de uma estrutura que nos permitia saborear o tempo de forma mais rica. Agora, sem uma narrativa primordial e mediana, ele se tornou uma série de momentos frágeis e desconectados, onde a imposição para estar sempre em movimento, sempre “fazendo”, nos impedem de acessar o simples prazer de ser, estar e existir. Tomei para dar um exemplo um trecho do livro 'A Gaia Ciência', que se refere a essa abordagem por vezes lúdica e perturbadora, espelhando o tema da superação de antigos valores e a criação de novas conceituações. Em uma das passagens centrais do livro, não se afirma literalmente a morte de Deus, mas sim, se faz uma simbiose do colapso dos valores religiosos e metafísicos que sustentavam a moral e o sentido da vida na cultura ocidental. Surge então o desafio de como viver em um mundo sem essas bases. Veja o trecho abaixo, e ao fim, uma análise; Vocês nunca ouviram falar daquele louco que, em plena manhã, acendeu uma lanterna e correu para a praça, gritando: “Procuro Deus! Eu procuro Deus!”? Havia muitos por ali que não acreditavam nele, e eles riam, provocando: “Mas o que aconteceu, ele está perdido? Será que é como uma criança que se escondeu? Está com medo de nós? Viajou para longe?” O louco, então, olhou fixamente para eles e, com um grito de desespero, respondeu: “Para onde foi Deus? Eu lhes direi: nós o matamos — vocês e eu! Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos esvaziar o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? O que fizemos quando desencadeamos a Terra de seu sol? Para onde estamos indo agora? Não estamos continuamente caindo para frente, para trás, para o lado, em todas as direções? Há ainda um 'acima' ou um 'abaixo'? Não estaremos vagando por um nada infinito? Não sentimos o vazio se expandindo sobre nós?” Nesse trecho poético e dramático, Nietzsche não apenas expressa essa tal “morte de Deus”, mas desenha fielmente um retrato sombrio das consequências para a nossa civilização. Como podemos interpretar essa metáfora literária? A imagem do louco, correndo pela praça em plena luz do dia com uma lanterna, sinaliza a busca desesperada por algo que foi perdido — não apenas Deus como entidade, mas a estrutura de valores, moral, costumes e sentido que ele representava para o mundo. Quando o louco grita “nós o matamos”, não está apenas falando de um ato individual ou literal, mas de uma transformação cultural e espiritual, essa que estamos assistindo. O “assassinato de Deus”, simboliza o colapso da moralidade tradicional e das certezas que, por séculos, deram sentido à nossa existência. Ao perguntar num trecho, “como conseguimos esvaziar o mar” ou “apagar o horizonte”, convoca a ponderação sobre como, ao destruir esse centro, perdemos as referências que organizavam o mundo e o tornavam compreensível. A alegoria da Terra sendo “desvinculada de seu sol”, conclama a ideia de que, sem Deus, o mundo foi despojado de seu ponto fixo — tudo o que antes parecia estável, agora está em queda livre. Então, o louco pergunta; “para onde estamos indo agora?”, e a resposta é desoladora: sem um ponto essencial que nos oriente, estamos condenados a vagar por um “nada infinito”, sem direção ou propósito. O “vazio que se expande”, expõe a ausência de sentido que permeia e invade a vida atual, após a perda das antigas verdades. Em essência são esses elementos que assistimos diariamente, como partícipes de uma era onde Deus foi tirado do trono, e obviamente, nada pode substituir sua ausência. Somos absolutamente incapazes de construir um novo conjunto de valores que sustentem a sociedade. Podemos então enfrentar esse abismo existencial que se abre diante de nós? Sem ele, resta a suposta liberdade — mas também, a responsabilidade assustadora de criar novos horizontes. O grande paradoxo é que nossa busca por uma enganosa liberdade e inovação, nos aprisionou em um ciclo interminável de produção e consumo, alienados de nós mesmos e dos outros. E essa tal de liberdade? Será que é como a pensamos? Por isso, farei um aparte sobre liberdade; No ângulo da psicanálise, esse conceito vai além da simples ausência de restrições externas. Ela está relacionada ao inconsciente, às forças internas que moldam a personalidade e à nossa capacidade de lidar com os anseios, conflitos e responsabilidades. Freud a descrevia como algo paradoxal. Afirmava, que a mente é governada por impulsos inconscientes que estão muitas vezes fora do nosso controle. Esses incitamentos, relacionados aos quereres, ao medo e à culpa, exercem grande poder e influência sobre nossas escolhas e ações. Assim, a ideia de liberdade é totalmente rejeitada como pensada horizontalmente, uma vez que o inconsciente nos limita, e de certa forma, interage na nossa capacidade de atuar de maneira completamente autônoma. Constituídos que somos por uma falta estrutural, desde o nosso nascimento, carregamos uma parcialidade inerente que nos separa de qualquer forma de totalidade. O conceito de “separação-individuação”, é um momento mágico e irrepetível, quando no ventre materno somos ''UM'', bebê e mãe, interligados de maneira indissociável. Ao nascer, ocorre a separação física e psicológica, que marca o início da nossa individualidade e a percepção de si(s) como um ser separado dela. Essa traumática divisão inicial, gerará sentimentos de ausência e falta, ao representar a perda do estado de plenitude e fusão emocional. A compreensão dessa quebra como um evento fundamental na formação psíquica instigará o desenvolvimento emocional, os relacionamentos e a busca por sentido ao longo da vida. Assim surge o desejo, como nosso ato primordial, e ele, como a manifestação primeira dessa carência. Como sujeitos, desejaremos um retorno àquilo que nunca poderá se repetir, pois o ''objeto'' desse querer será sempre inatingível. Nunca estaremos saciados, pois e nessa busca por sermos completos novamente que a vida vai se impulsionar e acontecer. ''O paradoxo da liberdade, está em aceitar que nossos impulsos inconscientes limitam nossa autonomia plena, ainda que nos impulsionem a agir.'' Dan Mena A liberdade nesse contexto, não reside na realização plena dos desejos, mas no reconhecimento dessa privação como parte constitutiva do ser. A verdadeira liberdade emerge quando tomamos clara consciência dessa dinâmica entre desejo e falta, nos posicionando de forma ativa e responsável frente a eles, em vez de sermos meramente conduzidos. E agora? Será que dá para repensar essa concepção abstrata do que realmente é liberdade? ''Liberdade é aceitar que a vida se movimenta através do desejo, mas que a satisfação plena está sempre fora do nosso alcance.'' Dan Mena Vamos prosseguir; Qual seria então a principal consequência dessa transição? ''A “morte de Deus”, pode ser lida como o colapso do grande “outro” simbólico, que sustentava nossa identidade e ancorava nossas neuroses em um sistema de sentido coletivo.'' Dan Mena Abrimos caminho para o surgimento da ciência como a nova narrativa central na construção da modernidade. Com sua ascensão, o foco se deslocou das explicações transcendentes e espirituais para uma revisão do mundo regido pela razão, empirismo e progresso. A ciência, passou a ocupar o espaço deixado pelo divino, por Deus propriamente, oferecendo respostas objetivas e práticas para o funcionamento do mundo e da natureza. Essa mudança de paradigma, trouxe muitos avanços inegáveis — desde a Revolução Industrial até os saltos científicos nas áreas da medicina, comunicação e transportes. No entanto, também contribuiu para uma desumanização gradual. A ciência, em sua busca pela eficiência e precisão, muitas vezes desconsidera a subjetividade, os aspectos emocionais e espirituais da nossa espécie. O mundo passou a ser visto de forma mecanicista, e nós, transfigurados apenas como mais uma engrenagem irrelevante para servir ao sistema. ''O paradoxo da modernidade é buscarmos a liberdade, mas nos encontrarmos aprisionados em uma incessante máquina de produção e consumo.'' Dan Mena Leituras que faço do texto 'A Gaia Ciência' sob a interpretação da psicanálise; ''A lanterna do louco é uma metáfora da busca pelo ego perdido no vazio existencial, onde o sujeito moderno tenta resgatar uma identidade fragmentada em um mundo sem narrativa''. ''Quando fala da Terra desvinculada de seu sol, podemos ver o ser pós-moderno à deriva, sem um “centro” que organize seu desejo e angústia psíquica''. ''A ausência de Deus é também a ausência do superego cultural, que antes limitava e regulava o comportamento, e agora nos confronta com a liberdade de recriar nossos próprios valores''. ''O “vazio que se expande” simboliza, psicanaliticamente, o retorno do Real, o insuportável encontro com a falta de sentido que desestabiliza a psique na era pós-Deus''. ''Sem o horizonte da narrativa religiosa, o sujeito contemporâneo está condenado a viver o desamparo, um estado de angústia primal semelhante ao sentimento de abandono que ocorre no início da vida psíquica''. ''O grito do louco “nós o matamos” reflete a pulsão de morte freudiana, na qual o sujeito destrói suas referências simbólicas, mas se encontra no vazio, preso entre a destruição e a criação de novos sentidos''. A “queda livre” representa o deslocamento da pulsão, que antes era direcionada pela religião e agora está desorganizada, buscando desesperadamente novas formas de sublimação''. ''A responsabilidade de criar novos valores após a morte de Deus, gera uma angústia existencial que, na psicanálise, pode ser vista como o peso do sujeito de assumir o lugar do grande “outro”, agora ausente''. ''O ciclo interminável de produção e consumo reflete, na psicanálise, a compulsão à repetição, onde o sujeito alienado tenta preencher o vazio simbólico com o gozo imediato, sem nunca alcançar satisfação''. Os efeitos dessa transição são claros. A ciência, ao suprimir nossas narrativas ancestrais mais subjetivas e espirituais, nos trouxeram ao cenário da pós-modernidade, onde a busca pelo sentido é individualizada, encapsulada e desmembrada. O progresso científico, embora tenha melhorado muitos aspectos da vida, também intensificou a alienação e o sentimento de vazio. Assim, o tempo passou a ser medido em função da produtividade, nosso valor quantificado em termos de utilidade, como se fossemos parte de um grande experimento. Fala a verdade, você não se sente assim? O tempo agora parece evaporar diante de nossos olhos, a tecnologia dita o ritmo da vida e da informação, consumida como Nescafé. A narrativa, como uma das expressões mais antigas, se depara hoje com uma profunda crise. Aquela tradição de contar histórias e recebê-las de nossos avós se perderam, aquela sabedoria e experiência, passadas de geração em geração — está sendo corroída. O conteúdo se tornou efêmero, descartável, banal e desprovido, lançando um alerta sobre o colapso dessa capacidade fundamental do sapiens: a de contar histórias que nos conectam ao passado, presente e futuro. Desde os primórdios, foram mais do que simples entretenimento ao redor de uma fogueira; elas moldaram civilizações, construíram identidades e forjaram os laços invisíveis que mantinham as comunidades unidas. Das pinturas rupestres e mitos primitivos, às epopeias heroicas, das alegorias religiosas ao Iluminismo e o Renascimento, cada era, teve suas histórias que davam sentido ao mundo. Eram o tecido forte que nos ligavam ao coletivo, a realidade, a fantasia, ao imaginário, tempo e espaço. ''A ciência pode ter avançado nossa compreensão, mas também nos isolou, transformando o 'eu' em um número e o tempo em uma mercadoria efêmera.'' Dan Mena Questiono; como chegamos a esse ponto, e o que perdemos ao longo do caminho. Ao analisar ditas mudanças, e na forma como as histórias foram contadas — e deixaram de ser transmitidas — viso entender as consequências dessa ruptura. O que acontece então quando perdemos a capacidade de recontar vivências e ensinamentos que transcendem o momento presente? Estamos apenas perdendo nossas raízes ou estamos também desassistindo a própria essência? Como foram afetadas às diversas dimensões da vida? Crise de Sentido Existencial: Sem Deus como ponto de referência para o propósito da vida, mergulhamos em um estado de niilismo, caracterizado pela incerteza. Os valores tradicionais, antes sustentados por uma narrativa religiosa, perderam sua força, e nos deparamos com uma crise de significado. A vida, que antes tinha sua estrutura delineada pelo divino, agora parece desprovida de direção, gerando questionamentos sobre o sentido de existirmos e o nosso papel no mundo. Liberdade Acompanhada de Angústia: A ausência de uma autoridade transcendente que defina regras morais e éticas nos colocou diante de uma liberdade extrema, mas também de uma responsabilidade esmagadora. Agora, cada um precisa criar seus próprios valores e determinar o que é certo ou errado, o que pode ser ao mesmo tempo, libertador e aterrorizante. O fardo de carregar essa responsabilidade moral em um mundo desprovido de garantias absolutas é uma das principais fontes de angústia. Essa liberdade, antes desejada, agora se revela uma carga insuportável, uma vez que nos exige a constante criação de próprio sentido. Fragmentação e Polarização: Com a perda de uma narrativa unificadora proporcionada pela religião, a sociedade experimenta uma fragmentação crescente de valores e ideologias. Sem um consenso moral comum, indivíduos e grupos se guiam por diferentes crenças e prioridades, gerando polarização, conflitos e uma crescente sensação de desconexão. Essa pluralidade de valores, embora seja o reflexo da liberdade moderna, também, intensifica rachas, e cria uma crise de identidade, onde a coesão e o sentido de pertencimento coletivo são cada vez mais difíceis de alcançar. Ascensão do Materialismo: Na ausência de apelos ao espiritual, a nova sociedade tende a buscar significado na aquisição de bens materiais, no consumo e no progresso tecnológico. Embora esses elementos tenham impulsionado avanços econômicos e científicos, eles alimentam um vazio emocional. O consumo incessante, apesar de oferecer gratificação imediata e provisória, não consegue suprir as necessidades de propósito. A busca por sentido no materialismo frequentemente resulta em alienação, em vez de preencher o vazio existencial deixado pela ausência de uma narrativa espiritual mais ampla. Busca por Novos Sentidos: Com a morte de Deus, muitos de nós procuramos novas formas de significado em campos como a arte, a escrita, a filosofia, a ciência e novas práticas espirituais. Enquanto alguns conseguem reinventar suas crenças e valores, outros caem em estados de desesperança, cinismo ou até apatia. Essa busca por novas direções se torna uma jornada melindrosa, que reflete tanto a liberdade moderna quanto a dificuldade de encontrar algo que substitua o papel central que Deus outrora ocupou. O Paradoxo da Nova Era: Ela trouxe avanços inegáveis, progresso científico e tecnológico, mas também gerou um contradição. Ao eliminar Deus, a sociedade criou um mundo onde todas as possibilidades parecem acessíveis, mas onde o sentido da existência se esvai. Liberdade sem diretrizes éticas nos lançam em um oceano de escolhas, mas a ausência de uma orientação clara provocam angústia e incerteza. Agora, navegamos em um universo de possibilidades infinitas, mas a falta de um limiar transcendente torna essa multiplicidade solta e corrosiva. O Fardo dos Novos Valores: Esse ponto de virada, se, por um lado nos ofereceu uma suposta liberação das amarras da moralidade religiosa e das narrativas pré-estabelecidas, por outro, nós impôs o pesado estorvo de criar novos valores em um cenário de vazio existencial. Essa mudança, trouxe consigo consequências psicológicas, sociais e culturais. Enquanto o terreno fértil do moderno impulsiona a liberdade e o progresso, ele também nos confronta com a angústia de viver em um mundo onde as respostas foram dissolvidas, e o sentido último do ser, se tornou um enigma. Estamos diante de um desafio monumental: como reconstruir as pontes entre passado e presente sem nos perder no vazio da aceleração contemporânea? Precisamos revisitar a narrativa, não com o olhar saudoso, mas com a intenção de recriar um espaço e lugar, onde as histórias voltem a florescer, nutrindo o que há de mais humano em nós. Qual o seu papel nisso? Como você percebe a função das histórias em nossa incessante busca por sentido? Questões como essas nos convidam a descer às camadas mais profundas ,onde o tempo, a memória e a identidade se entrelaçam, nos desafiando a buscar, novamente, o fio condutor que nos conecta ao todo, principalmente a Deus, em meio à desordem e à incerteza que marcam o presente. ''A perda da capacidade de contar e ouvir histórias pode significar mais do que uma desconexão com o passado; pode ser um abandono da própria essência''. Dan Mena Ao poema; Paradoxo do Tempo Por Dan Mena. No tempo passado, sólido e certo, Vivíamos com histórias e o universo aberto. Narrativas firmes, tradições a brilhar, Em cada conto, um caminho a se traçar. Com o avanço da ciência, a fé se esconde, O sagrado se apaga, e a alma se encobre. O tempo, antes cíclico, agora é linear, E o ser, um novo projeto a desvendar. No passado, o trabalho e o lazer se entrelaçavam, No ritmo das estações, as vidas se formavam. Agora, na pressa, a vida se desfaz, Em busca de produtividade, o valor se refaz. O tempo, outrora rico, virou mercadoria, Conexões se fragmentam, perdem a harmonia. A ciência avança, mas deixa um vazio, Substituindo histórias por números frios. Nietzsche falou da morte do divino, E agora buscamos sentido em um labirinto fino. Sem uma narrativa para nos guiar, Vivemos momentos esquecendo o espiritual. O paradoxo da modernidade é evidente, Buscamos liberdade, mas somos prisioneiros, de repente. Entre produção e consumo, nossa essência se esconde, E a sabedoria ancestral na bruma se confunde. As histórias que moldaram nossa identidade, Hoje são efêmeras, perdidas na superficialidade. De fogueiras e mitos a epopeias sem fim, O passado nos liga, mas está se esvaindo assim. Precisamos reconstruir a ponte do saber, Onde anedotas antigas possam renascer. Para não perder o que há de mais real, E encontrar no caos um sentido vital. Questione o que perdeu, busque a conexão, Entre passado e presente, encontre a lição. A narrativa é o fio que nos mantém no instante, Ligando o ser ao todo, ao divino, ao constante. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 — CNP 1199. Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 — CBP 2022130. Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University - Florida Departament of Education - USA. Enrollment H715 - Register H0192.
- Inteligência Artificial e Psicanálise - Emoção em Colisão.
Desvendando a Singularidade — Ética e Emoção na Era da IA. “A verdadeira harmonia não se encontra na ausência de conflitos.” — Dan Mena Enquanto escrevia este artigo, me venho à mente uma passagem marcante da minha vida profissional, quando trabalhei na Ford. Durante as visitas que realizava a clientes, minha ferramenta indispensável era o Guia 4 Rodas. Todos os anos, eu comprava a versão atualizada, um ritual que tornava minha jornada mais simples. Me lembro de uma visita específica, em que, para encontrar o endereço, tive que parar e interagir com quatro ou cinco pessoas diferentes. Cada uma delas me dava uma dica valiosa, um apontamento, uma história. Essas trocas, não eram apenas sobre endereços; eram pequenos momentos de conexão com o outro, que enriqueciam minha experiência. Hoje, ao comparar essa realidade de 20 ou 30 anos atrás com o uso do GPS no celular, enxergo um paradoxo. Com a tecnologia atual, ja cheguei a centenas de destinos no Brasil e exterior, sem interagir com ninguém. A eficiência é inegável, mas o que perdi nesse caminho? Onde antes havia diálogo e percurso, agora existe um silêncio individual e digital. Esse distanciamento, me traz uma certa nostalgia pelo passado. Onde às interações, cheias de nuances e incertezas, foram substituídas pela certeza e precisão das máquinas. Essa transformação, levanta questões sobre o que significa ser humano em um mundo cada vez mais mediado pela tecnologia. Esse é o contexto em que nos encontramos hoje ao explorar a relação entre a Inteligência Artificial e a Psicanálise: um mundo, onde a busca por eficiência pode, paradoxalmente, nos afastar das relações sociais que nos definem. Boa leitura. “A busca por eficiência pode silenciar o desejo humano.” — Dan Mena Explorando o Futuro dessa Relação Ambígua. O filme Transcendence — A Revolução, dirigido por Wally Pfister, oferece uma reflexão instigante sobre a fusão da nossa inteligência com a artificial (IA). A trama, gira em torno do Dr. Will Caster — (Johnny Depp), no papel de um pesquisador renomado em IA que, diante da sua morte certa, transfere sua consciência para um sistema computacional, desencadeando eventos que desafiam os limites éticos e filosóficos da era tecnológica. Essa narrativa, ilustra o conceito de singularidade informática, onde as máquinas superam a nossa capacidade, e levanta questões cruciais: até que ponto a IA pode otimizar a vida contemporânea sem desumanizá-la? A Dualidade do Progresso, seus Benefícios e Perigos. Computadores quânticos exploram a suposta busca por um mundo melhor, que pode como está, paradoxalmente, levar à perda de postos de trabalho e da liberdade. Na trama, ao curar doenças e aprimorar a biologia, a IA-Caster, suprime a autonomia dos indivíduos, revelando um dilema central: a inteligência artificial é moralmente neutra ou seu poder será corrompido pelo desejo de controle? Essa questão se entrelaça com a psicanálise, que nos ensina sobre a complexidade do desejo e a inevitabilidade do sofrimento. Estamos sendo vertiginosamente substituídos por máquinas e sistemas automatizados, é uma tendência crescente em diversas áreas. Darei alguns exemplos; robôs em fábricas desempenham funções como montagem, soldagem e embalagem, no setor de transporte, o Uber revoluciona a maneira como nos deslocamos, conectando motoristas e passageiros por meio de uma plataforma digital, diminuindo a necessidade do táxi tradicional. No setor de turismo e hospedagem, o Airbnb permite que proprietários aluguem suas casas diretamente aos hóspedes, diminuindo sensivelmente a figura do corretor de imóveis, transformando o mercado imobiliário. A automação, também se faz presente em serviços de atendimento ao cliente, onde chatbots e assistentes virtuais, como Siri e Alexa, assumem funções que antes eram desempenhadas por secretárias. Além disso, caixas automáticos em supermercados, têm se tornado cada vez mais comuns, permitindo que os clientes realizem suas compras sem a necessidade de um caixa humano. Robôs de limpeza, como o Roomba, são uma alternativa prática para a manutenção de ambientes, assumindo o espaço dos serviços de limpeza tradicionais. Em ambientes corporativos, máquinas de café automáticas permitem que os funcionários preparem suas bebidas com facilidade, sem depender de uma copeira. A entrega de encomendas, também está passando por uma transformação com o uso de drones. Empresas como a Amazon, estão testando essa tecnologia para tornar a logística mais ágil e eficiente, reduzindo a necessidade de entregadores. Por fim, entre outros, técnicas de diagnóstico e intervenção cirúrgica robotizada por software, estão revolucionando o campo da medicina. Por esta razão, o filme Transcendence serve como um alerta sobre os desafios que a inteligência artificial nos impõe, ressaltando a necessidade de equilibrar esse progresso tecnológico. Nesse contexto, a fusão entre psicanálise e IA se torna essencial para poder compreender as implicações emocionais dessa suposta evolução, sugerindo, que, ao enfrentar ditos avanços, devemos lembrar da riqueza da nossa experiência, que não pode ser reduzida ao bel-prazer da tecnologia. “A automação pode ser um convite ao vazio emocional.” — Dan Mena O Paradoxo da Eficiência e o Perigo de Suprimir a Imperfeição. No final do século XIX, Freud revolucionou a compreensão da mente ao fundar a psicanálise. Pela primeira vez na história, os mistérios do inconsciente ganharam um papel, é um lugar de fato, até então renegados. Com a introdução de conceitos como desejo, repressão e o significado dos sonhos, transformou a maneira como enxergamos hoje o sofrimento psíquico, abrindo caminho para uma compreensão da subjetividade, do ser, e dos conflitos internos que nos moldam. Mais de um século depois, enfrentamos uma nova revolução: a era da inteligência artificial (IA). Assim como a psicanálise propôs e lançou um confronto para às visões dominantes da época Vitoriana, a IA, nos instiga hoje a estabelecer quais são os limites do que é cognitivo, emocional e comportamentalmente possível. Freud pontuou, percebo que “o Eu não é senhor em minha própria casa”. Nossas ações e desejos são na maioria guiados por forças irracionais e desconhecidas. No âmago da nossa existência, ele habita o que nos escapa à razão: desejos reprimidos, impulsos inconscientes e uma constante luta interior. Marcados que somos por uma pressão constante entre os estímulos primitivos e as exigências da sociedade. Eis, que aqui surge uma questão: será que uma máquina, por mais avançada que seja, pode compreender essa tensão? Uma IA, pode encampar e abarcar aquilo que nem nós mesmos conseguimos decifrar? Podemos então também nos perguntar: como a tal, movida pela lógica e previsibilidade, pode lidar com esse lado irracional que é tão característico da nossa fantasia? Como um algoritmo poderia entender o que nem sempre pode ser verbalizado? A promessa da IA, com seu apelo à eficiência, controle e previsibilidade, parece sugerir que nossos problemas, erros, falhas e sofrimentos — podem ser eliminados. Mas, como Freud nos alertou, o sofrimento é parte integrada a nossa condição. Ao tentar escapar dele, corremos o risco de nos distanciar de nós mesmos. Será que, ao buscar suprimir a imperfeição a IA não estaria tentando nos desumanizar? “A ausência de falhas desumaniza a nossa existência.” — Dan Mena Lacan nos diria que o desejo nunca é totalmente satisfeito, e que qualquer tentativa de suprimir esse aspecto da psique nos leva inevitavelmente à alienação. A promissão de uma IA que otimiza e controla tudo, cria a ilusão de um mundo sem falta – mas, se eliminarmos a carência, a falta, o que aconteceria com o desejo? E sem ele, o que restaria da nossa humanidade? Essa amálgama entre ambas, nos coloca diante de outra reflexão inquietante: até aonde a tecnologia pode ir sem apagar aquilo que nos define? Ao tentar solucionar nossos dilemas emocionais e psíquicos, a IA pode estar apagando o que há de mais essencial em nós: a imperfeição, a busca, e a incompletude que nos move e impulsiona. “A conexão autêntica resiste à lógica fria dos algoritmos.” — Dan Mena A Fragilidade Humana e o Perigo da Superação. Os desafios para a psicanálise se tornam cada vez mais evidentes; qual é o lugar da subjetividade em um mundo onde os algoritmos podem prever comportamentos? Lacan, ao discutir o desejo, lembra que; “o desejo é o desejo do Outro”, significando, que ele nunca pode ser completamente satisfeito ou previsto. A IA, por sua vez, opera com dados e previsões, tentando preencher lacunas com respostas prontas e soluções imediatas. Esse paradoxo, levanta outra questão: se a tecnologia visa eliminar o desprovimento, o que aconteceria com o intangível, o desejo e a subjetividade? A Psicanalista Elisabeth Roudinesco, levanta preocupações sobre nosso futuro. Ela menciona; que “ao tentar transcender os limites do corpo e da mente, podemos perder o que fundamentalmente nos torna humanos”. Esse pensamento se alinha aos debates pós-humanistas, que defendem a criação de uma nova espécie, uma reformada “raça pós-humana”, que seria imune à imperfeição. Mas o que transcorreria com a dimensão do inconsciente nesse cenário? O sofrimento e a falta, como elementos constitutivos do ser e sua tentativa de serem apagados, poderia resultar em uma alienação ainda maior. Nesse cenário, a IA pode substituir a abstração, ou há algo inerentemente nosso que as máquinas nunca poderão replicar? Contudo notemos, que ao contrário das revoluções anteriores, que visavam facilitar a vida em termos de materialidade e produtividade, a atual, está interferindo diretamente na sociedade, criando a faculdade de alterar a biologia, usando biotecnologia, nanotecnologia, nanomateriais e principalmente; a CRISPR-Cas9: uma engenharia de edição genética que permite a modificação precisa de sequências de DNA. Más, até onde essas transformações podem ou devem ir? O que está em jogo não é apenas o desenvolvimento cientifico, senão a nossa natureza, se embaralhando com questões éticas que emergem nesta nova era. “A IA não pode compreender a complexidade do eu.” — Dan Mena Definindo a Quarta Revolução Industrial. Estamos diante da Quarta Revolução Industrial, conhecida como 4.0, caracterizada pela combinação de avanços que está borrando as fronteiras entre os mundos físico, digital e biológico. Ela envolve áreas como (IA), robótica, nanotecnologia, biotecnologia, internet das coisas (IoT), impressão 3D, computação quântica e outras inovações. Ás anteriores, que se basearam na mecanização, eletrificação e automação, diferem desta, que foca na automação avançada e na integração de sistemas inteligentes, capazes de realizar tarefas complexas de maneira autônoma. Essa transformação promete subverter o modo como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos, criando novas articulações e modelos de negócios, cadeias produtivas e dinâmicas sociais. Um dos seus aspectos centrais é o uso massivo de dados, interconectando dispositivos e processos em tempo real, e a capacidade de máquinas tomarem decisões com base em grandes volumes de informações. No entanto, também traz desafios éticos e sociais, como a substituição dos postos de trabalho por sistemas digitais autômatos e a reconfiguração das relações econômicas e sociais. Assim, questiono: até que ponto podemos nos permitir acreditar que a IA pode nos libertar de nossas limitações? E se, no final das contas, a desumanização da tecnologia for apenas o reflexo de nossa própria incapacidade de enfrentar o que nos constitui? “O controle é uma ilusão que ignora o inconsciente.” — Dan Mena A Promessa do Pós-Humanismo: Libertação ou Autodestruição? Ao contemplarmos o transumanismo, esse sonho moderno de transcendência, somos inevitavelmente levados a reconhecer um desejo que, desde tempos imemoriais, reside no âmago do nosso pensamento primitivo: o anseio de superar limitações. Nas entrelinhas de cada progresso científico, encontramos um eco freudiano das pulsões inconscientes. A fusão entre o ser e a máquina, não é senão, a tentativa contemporânea de curar a falta essencial que permeia nossa condição. Ao exaltar a IA como uma extensão natural do progresso, os defensores desse conceito nos apresentam uma miragem. O que Lacan rebate em sua análise do desejo, e nos adverte, que nada poderá preencher essa lacuna, os quais, são particularmente constitutivos da nossa premissa existencial. Tal como o inconsciente, ele é uma força que escapa à lógica, à previsibilidade — é a sombra que nos persegue além do alcance da razão. “A busca pela imortalidade reflete o medo da morte.” — Dan Mena Se avançarmos para outra visão, o pós-humanismo tenta transcender a própria biologia do homem, a de criar uma “raça pós-humana”, livre das fraquezas que portamos. Creio que de uma outra forma já assistimos o resultado desse horror no ''Holocausto''. Sob esse prisma e que prometem nos libertar do sofrimento e a imperfeição? Em seu texto; ''O Futuro de uma Ilusão'' de (1927), Freud alude; que a religião emerge como uma forma de lidar com a angústia existencial e a impotência diante das forças incontroláveis da natureza. O homem primitivo, incapaz de entender ou controlar os fenômenos naturais, criava então às divindades, que lhe ofereciam suposta proteção e sentido em meio ao caos ancestral. Essa crença, se elabora como uma espécie de defesa psíquica, uma tentativa de encontrar conforto em uma ordem maior que se preocupasse com seu bem-estar e sobrevivência. Assim como a criança recorre à figura paterna para se sentir protegida(o), o homem originário, projetava essa imagem em uma potestade, uma entidade que de alguma forma lhe desse explicações para esse mundo incerto e ameaçador que habitava. Contudo, o desejo de escapar da dor está inextricavelmente ligado ao impulso de morte — o que traduzido na psicanálise, está para o “instinto de retorno ao inorgânico”; (reflete o desejo inconsciente de retorno ao estado original de “não-vida”, quando não havia dor, conflitos ou tensões. Isso se manifestaria por meio de comportamentos autodestrutivos, agressivos ou repetitivos que parecem desafiar a lógica da autopreservação, como no caso de tendências destrutivas, suicídio, violência e, em última instância, o desejo de "descanso" absoluto que a morte proporcionaria. O pós-humanismo, ao propor essa ruptura radical com nossa natureza, evoca então essa pulsão de morte, que nos revisita disfarçada sob o manto da evolução digital. “O que nos torna humanos pode ser eclipsado pela ambição tecnológica.” — Dan Mena Destarte há uma dimensão da nossa experiência que a máquina jamais poderá alcançar: o Real. Este é o campo do indizível, do que escapa à simbolização, o território onde residem nossos traumas e aquilo que é, por natureza, irrepresentável. A imaterialidade, abstração, e impalpabilidade da nossa natureza, com seus labirintos de desejos, medos e fantasias, não pode ser reduzida a algoritmos. A IA, por mais avançada, permanecerá enclausurada no mundo do simbólico — enquanto nós, em nossa essência, somos atravessados pelo Real, por aquilo que não pode ser codificado, calculado ou previsto. “As emoções não podem ser codificadas em algoritmos.” — Dan Mena E assim, analisando; o que restaria do humano quando eliminada sua vulnerabilidade? Se a IA nos promete uma vida sem erro, sem angústia, não seria essa a negação da própria experiência que nos constituí? Ao tentar domesticar o caos que habita em nosso interior, arriscamos perder nossa própria definição: a imperfeição, o desejo inatingível, e, sobretudo, a capacidade de sonhar. Por isso entendo, que a dita virtuosidade prometida pela máquina, é uma ilusão, que pode no fim, nos alienar de nossa razão de ser e existir. A Ilusão da Harmonia e às Emoções Suprimidas da Ordem Artificial. No filme ''O Doador de Memórias'' — (The Giver, 2014), dirigido por Phillip Noyce, a sociedade utópica apresentada na longa-metragem, eliminou às emoções intensas do ser, às memórias dolorosas e a liberdade de escolha foram suprimidas para garantir uma aparente harmonia social. Um dos seus protagonistas, o jovem Jonas, é escolhido para receber as memórias do passado e, ao experimentar o que foi perdido, questiona a excelência desse mundo, agora totalmente controlado. Isso pode ser interpretado como uma analogia à relação contemporânea entre nós e a atual (IA). Na obra cinematográfica, a comunidade vive sob uma estrutura que suprime o imprevisível, semelhante aos algoritmos modernos, que visam controlar e prever nosso comportamento. Assim como a IA visa otimizar nossas vidas, removendo incertezas, a sociedade de Jonas reprimem a bagunça emocional em nome da ordem. Somos governados por forças inconscientes, e o controle completo sobre elas é uma absoluta ilusão. Em ''O Doador de Memórias'', a eliminação das emoções e memórias, reflete a tentativa de se criar uma sociedade onde o “Real” é ignorado, substituído por um sistema que suprime a imaterialidade em prol de uma ficção tecnológica. No entanto, assim como Jonas descobre ao receber as memórias a vida sem dor, percebe o esvaziamento de uma vida sem significado. Logo, ao removermos o sofrimento, se perde o amor, a beleza, contemplação e a profundidade da nossa experimentação. A IA, apesar de sua eficiência, não pode substituir o que é nosso essencialmente, a capacidade de sentir, tocar, errar e desejar, eliminando assim às nuances de uma vida autêntica. Isso nos lembra, que o verdadeiro ser que nos habita, não pode ser totalmente capturado ou regulado por máquinas. A Conexão Humana: Em Busca de Relações Autênticas na Era Digital. A diferença essencial entre a IA e a psicanálise reside na forma como cada um lida com o desejo. Por sua natureza a IA, responderá para resolver demandas. No entanto, ao tentar satisfazer todas as necessidades imediatamente, elimina a possibilidade de que o desejo floresça e se espalhe. A psicanálise, por outro lado, não oferece respostas prontas, apenas permite que o sujeito entre em contato com sua própria singularidade, assim, o guia. Essa distinção é básica quando se pensa o nosso papel como analistas. Estamos numa posição ou lugar, não para fornecer soluções, mas para criar um espaço onde o sujeito confronte o Real e elabore realmente seu querer. IA, está programada para resolver problemas eficientemente, mas não consegue lidar com a nossa complexidade subjetiva. Em um artigo publicado na revista Time, intitulado; “Cuidado com o que desejas”(2013), Sherry Turkle, destaca nossa entranhada conexão com o inconsciente, provocando uma reflexão sobre a interseção entre tecnologia e intangibilidade. Em sua afirmação de que “somos criaturas da história, da psicologia profunda e das relações complexas”, ela nos lembra que nossa substância, reside não apenas nas capacidades racionais, mas também nas emoções, nas histórias que vivemos e nas interações que moldam nossas vidas. Neste contexto, o “momento robótico” que Turkle menciona, não é apenas um fenômeno técnico, mas uma chamada à consciência. Ao nos confrontar com as tribulações e os prazeres da era digital, nos convida a não nos tornarmos meros espectadores passivos dessa transformação. O desafio, portanto, é duplo: precisamos reconhecer os benefícios da artificialidade, enquanto nos mantemos alerta para os riscos de uma desumanização progressiva. “O hermetismo da passionalidade humana escapa à lógica da IA.” — Dan Mena A questão que surge é: até que ponto estamos dispostos a sacrificar nossa rica complexidão em nome da eficiência? Pode certamente a tecnologia oferecer facilidades e soluções impressionantes, mas isso não deve nos levar a uma renúncia das emoções e afetos que nos caracterizam. Como bem lembra o psicanalista Paul Verhaeghe, “a saúde mental não é apenas uma questão de funcionalidade, mas de conexão genuína com os outros e consigo mesmo”. Assim, a luta pela manutenção dessa ligação se torna imperativa. Devemos refletir muito enquanto há tempo sobre as consequências de permitir que a tecnologia substitua interações autênticas. É um trabalho muito sério desafiar essa tendência. Implica em criar espaços onde o diálogo e a empatia possam frutificar, onde possamos partilhar nossas vulnerabilidades, em vez de apenas consumirmos ou delegarmos a máquinas. O equilíbrio entre tecnologia e essência, não é apenas desejável; é um requisito para a preservação desse mundo que herdamos do nosso criador. Como moldaremos e transmitiremos aos nossos filhos e netos esse futuro? A responsabilidade está em nossas mãos: seremos protagonistas ou meros espectadores de uma narrativa que pode nos levar a um abismo de desumanização? Essa ponderação não é apenas uma crítica, mas um convite à ação. Que possamos, então, nos empenhar em cultivar um amanhã em que a tecnologia sirva como aliada na promoção da nossa história, ao invés de um fator que a comprometa. A escolha está diante de nós: o que queremos realmente para nossa jornada como indivíduos e coletividade? Que possamos buscar respostas e sabedoria que reafirmem nossa condição em meio a uma revolução que está apenas começando. “O 'momento robótico' nos chama à consciência, não à passividade.” — Dan Mena Ao poema; Algoritmos e Sonhos. Por Dan Mena. Enquanto escrevo, minha mente aflora, O paradoxo da eficiência, tão frio, tão certo, Esconde um silêncio que deixa o coração incerto. Onde antes havia diálogo e nuances a pulsar, Agora, um eco digital, a solidão parece reinar. Transcendence nos mostra um futuro desconexo, Entre máquinas e humanos, o dilema é deserto. A IA avança, curando, mas a que custo, Ao suprimir a autonomia, o que é justo? Na dança da automação, o homem se esvai, Na busca por controle, que destino nos traz? O desejo é um labirinto, repleto de dor, Mas ao errar, ao sentir, encontramos o amor. Freud nos ensina sobre o inconsciente profundo, Entre impulsos e normas, nossa luta no mundo. Será que uma máquina pode entender a confusão, Dos desejos ocultos, da nossa condição? Na Quarta Revolução, o que estamos criando? Um futuro em que a conexão vai se apagando? A promessa do pós-humanismo é sedutora, Mas será que perdemos a própria trajetória? No filme "O Doador de Memórias", a harmonia é fria, Sem dor e sem amor, a vida é só melancolia. Entre controle e emoção, a linha é tênue e sutil, A IA não preenche o vazio do nosso perfil. Que possamos então refletir e ponderar, Sobre as relações que podemos cultivar. Em meio a máquinas, que não nos façam olvidar, Que ser humano é pensar, sentir, amar e ensinar. Assim, a tecnologia pode ser aliada, Mas nunca em detrimento da vida amada. Que o amanhã nos reserve um espaço sincero, Entre emoção e razão, um caminho em direção a Deus. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 — CNP 1199. Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 — CBP 2022130. Dr. Honoris Causa em Psicanálise pela Christian Education University - Florida Departament of Education - USA. Enrollment H715 - Register H0192.
- A Luxúria.
A luxúria vem do luxo, e o luxo pela sua etimologia é a abundância. Ao longo da história, e partindo do cristianismo, com o seu lugar na literatura, na arte e no social, sob certas leituras, como um valor religioso. Desde uma perspectiva psicanalítica, poderia ser considerado uma antítese. Às religiões em geral definem a luxúria como um pecado grave, um desejo sexual desenfreado e incontrolável. Por Dan Mena. A luxúria vem do luxo, e o luxo pela sua etimologia é a abundância. Ao longo da história, e partindo do cristianismo, com o seu lugar na literatura, na arte e no social, sob certas leituras, como um valor religioso. Desde uma perspectiva psicanalítica, poderia ser considerado uma antítese. Às religiões em geral definem a luxúria como um pecado grave, um desejo sexual desenfreado e incontrolável. Destas ideologias, sua qualificação como luxurioso poderia indicar um vício sexual e suas possíveis ''transgressões''. Ditas regras morais dos primeiros ensinamentos cristãos se baseavam numa categorização dos vícios, alguns menores e outros mortais, que dependendo da prática, ameaçavam o ser a sua condenação eterna. Consistiam em uma lista de sete pecados mortais, com seus devidos opostos, que eram às sete virtudes, pelo que a castidade se contrapunha à luxúria. Para a psicanálise, é interessante decifrar o oposto, neste caso, os valores católicos propostos, a virtude representa o bem, enquanto o mal está do lado da luxúria. Mais tarde, cada pecado foi associado a um demônio e a luxúria foi atribuída a Asmodeus, que já figurava no Antigo Testamento, bem como no Talmude Persa, este anjo das trevas que veio posteriormente para o judaísmo, mais tarde para o cristianismo. No Antigo Testamento, ele é o símbolo do desejo da carne, no Talmude, apareceu em ligação com o rei Salomão, como rei de todos os demos, semelhante à ideia cristã de Satanás e a amante de Lilit. Também, nas mitologias de todas às culturas existem suas deusas ligadas a luxúria e o amor, tais como; Vénus em Roma, Afrodite na Grécia, Kamadeva no Hinduísmo e Lilit na Babilônia. Olhando pela Psicanálise, Freud introduz a ideia de que não existe um instinto puramente natural no ser humano, mas que é a cultura que modula o seu impulso físico de sobrevivência, onde a sexualidade é uma fonte de prazer tanto físico como psíquico. Culturas diferentes, tratam essa energia de diversas formas, como o tabu, incesto, rituais, masturbação, entre outros. É considerado, em termos psicológicos, como qualquer outro vício, sendo uma perda de controle ou a incapacidade de uma pessoa se inibir de fazer ou praticar atos que produzam consequências adversas para si. A luxúria e o amor, estão frequentemente relacionados com relações íntimas, embora não na mesma dimensão. Uma implica intimidade sexual, um interesse exclusivamente físico, e a outra, uma estreiteza ligada ao emocional. Na sociedade atual, a luxúria é acompanhada da imaginação, impulsionada por anúncios televisivos, revistas, redes sociais, moda, canais pornográficos, que transformam o privado em público, oferecendo todo um mercado do sexual, como brinquedos eróticos, estética, pornografia e tudo o que possa gerar lucro. O ser humano não é dominado pelo instinto, ele é habitado pelo impulso, onde coexiste com uma força constante de energia sexual, que precisa conter, modular e dar-lhe seu destino. Domesticado por uma rede social de proibições e leis que se organizam em termos de uma variedade de usos. Logo, a sexualidade contemporânea teria então duas alternativas: ou se submete à “civilização”, como diria Freud em “O Mal-estar na Cultura”, e se satisfaz com certas restrições impostas, ou a transforma em erotismo, cuja característica principal seria transgredir a proibição a fim de se satisfazer. Portanto, o erotismo não poderia ser produzido sem a existência de uma restrição, onde uma proibição, provoca a fantasia de poder transgredi-lo. Não confundiremos luxúria e amor; Há várias diferenças entre eles, são dois sentimentos que embora se possam manifestar em todas às relações simultaneamente, há sempre mais de uma do que da outra. Dualidades que frequentemente se encontram, mas não são sinônimas, uma vez que na ideologia coletiva, a luxúria é entendida como aquela relacionada com o sexo puro, enquanto o amor, implica uma relação muito mais pessoal e profunda. Embora se entenda como duas vertentes diferentes, é difícil estabelecer onde termina uma relação luxuriosa e começa uma amorosa. Pode haver luxúria no amor, e encontrar um lugar no amor para a luxúria, tudo depende de como se vive, isso inclui o olhar particular que desprendemos sobre eles. É por isso que me pergunto… Em que parte da luxúria existe ou está o pecado? No desejo, no que desejamos ou no grau de desejo que a ele incorporamos? Deixo a pergunta para cada um dar sua interpretação. Nesta frase de Dante, eu particularmente encontro uma certa conciliação para o seu lugar. A luxúria merece ser tratada com piedade e desculpa, quando é exercida para aprender a amar. Dante Alighieri O ser humano precisa de sexo, considerado uma das necessidades básicas de acordo com Abraham Maslow, psicólogo estado-unidense, um dos fundadores e principal expoente da psicologia humanista e sua pirâmide de necessidades. O sexo, como a fome, sono, sede, agressividade e temperatura, são provimentos básicos na escala das motivações humanas. Já quando falamos do debate fisiológico, é óbvio que podemos viver sem ele, mas não sem comer, beber ou dormir; eis que aqui surge uma questão; sem sexo, como iriamos nos reproduzir? Por essa razão que o mesmo é permitido pela religião católica e outras, desde que condicionado por obrigações, como a instituição do casamento. Seria, portanto, perigoso o desejo? Sabemos que é precedido por um sentimento, seguido pela atração. Às afeições, no que lhe concernem, são emoções básicas, como a raiva, solidão, medo, tristeza, alegria, medo, etc. Já o amor não é um afeto puro simplesmente, pode ou não ser acompanhado da excitação sexual. Neste sentido, o que ele produz é tornar-nos mortais, dirigindo nossa atenção para o outro, e não para Deus e às religiões. Assim, identificamos que o mecanismo regulador utilizado historicamente para essa instrumentalização tem sido o medo, tentando manipular a sexualidade para à mera procriação. Outrossim, tentou negar fatores como o prazer, a descoberta do corpo, impedindo que indivíduos desenvolvessem sua sexualidade de uma forma saudável, desinibindo e partilhando trocas com seus pares como um presente biológico legítimo da vida. Além disso, seu reconhecimento, significa uma aceitação incondicional do corpo como estrutura, um receptor e transmissor do amor, que pela sua trilha, capacita a cura das nossas feridas existenciais mais profundas. Diante do exposto, sobre os pecados, não há dúvidas que o equilíbrio é de grande importância no seu manejo. A luxúria e a abundância são fatores determinantes, porque podemos encontrar em seu excesso uma defesa repleta de argumentos. Tal como o sexo pode ser um veículo de ligação com o nosso ser, também sua exorbitância pode ter um lado negativo, levando-nos para longe de sim. Uma procura constante de volúpia, indica um pressuposto emocional para evitar pensar ou sentir a verdadeira ligação interior com o nosso ser, concedendo um alimento de fuga para o Ego, que cria uma segurança fictícia e fragilizada, nos conduzindo a um círculo vicioso arriscado. Pode ser assustador fundamentar e projetar nele o próprio vazio, do qual tentemos escapar através dos seus estímulos, tentando preencher o âmago da alma com orgasmos. No entanto, práticas sexuais transgressivas sempre existiram, hoje em dia aparecem com maior nitidez sob diferentes tipos de vícios, como drogas, pornografia, jogos de azar, trabalho, telas, etc. Sob uma perspectiva Psicanalítica, a luxúria em desequilíbrio pode estar ligada à perversão, e a devassidão como estrutura, na qual nos coloca como instrumento de gozo do Outro, que também e objeto na posição da fantasia e sua estratégia. Fiquemos atentos para a exaltação dos sentidos que nos é imposta pelas mídias como uma obrigação para alcançar o paraíso fictício, surreal, impossível, que não tem consistência nem se sustenta para quem reflete. Estamos diante de novas modalidades de gozo, que rompem e evidenciam a derrubada de ordenações psíquicas e sociais importantes para a vida. Posso citar como exemplo; os enfrentamentos a autoridade paterna e materna atuais, condições que produzem sujeitos expostos a experiências frugais, tornando-os escravos/as de impulsos que assumem uma indesejável posição soberana sobre a vida. A luxúria é como a pimenta, só pode ser tolerado em pequenas doses. Mercier Apreciemos o Soneto 129 de William Shakespeare. O desgaste do espírito quando se envergonha É obra da luxúria; e, até a ação, a luxúria É perjura, assassina, sanguinária, culpada, Selvagem, extrema, rude, cruel, desleal, Logo desfrutada, porém, em seguida, desprezada, Perdida a razão, e logo esquecida, Odiada razão, como isca lançada De propósito para enlouquecer a presa; Insano ao ser perseguido, e possuído; Tido, tendo, e quase ao ter, extremo; Felicidade ao provar, e uma vez provado, a tristeza; Antes, uma ansiada alegria; por trás, um sonho; O mundo bem sabe, embora ninguém se lembre De descartar o céu que a este inferno os conduz. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- Amor-próprio.
A introspecção é o hábito de olhar-nos interiormente. Tal como a maioria das atividades humanas, isto poderia afirmar em cada um, efeitos positivos ou negativos. Há momentos, que o reflexo da nossa imagem consegue criar produtos resolutos e práticos. Encontramos muitos obstáculos que eventualmente nos compelem a desenvolver inseguranças. A introspecção é o hábito de olhar-nos interiormente. Tal como a maioria das atividades humanas, isto poderia afirmar em cada um, efeitos positivos ou negativos. Há momentos, que o reflexo da nossa imagem consegue criar produtos resolutos e práticos. Ou seja, nos concentramos em todo o nosso ser e, em troca, consideramos esta reprodução sendo um momento eficaz para encontrar onde, e o que nos falta. No entanto, essa avaliação poderá pender contra, quando estiver centrada demasiadamente em aspectos desfavoráveis da personalidade. Para construir autoconfiança, é preciso investigar sobre tais raízes, captando os valores e descartando as escusas. A confiança é elemento essencial do qual todos somos providos. A diferença do seu uso, aparece com a anuência das prerrogativas particulares a cada indivíduo. Algumas pessoas, estão interessadas em identificar-se com suas pertinentes capacidades do que outras. Tudo depende da cognição, das possibilidades e mestria de dar bom uso a essa dimensão. Exemplo; Pensamos que a autoconfiança é algo que os outros possuem e que nos estamos excluídos, esquecendo que a vida é análoga. Na modernidade, medimos desigualdades pela via material, seja o que não conseguimos obter ou ainda não alcançamos. Tal interpretação não é alteridade, pois não se mede o ser, pelo ter. Como estamos tratando do indivíduo é não dos acessórios, verificamos que podemos, sim, encontrar um par de aptidões nas quais somos limitados, assim interpretar, que estas nossas deficiências podem ser compensadas pelos talentos que também faltam aos demais, eis, a igualdade. Aperfeiçoamento ou queda, dependem da forma que escolhemos dar a essa governança. O que não significa que o nosso semelhante, alcançando objetivos maiores, estará tirando ditas conquistas dos nossos cofres. Senão, que ele foi atento em discernir efetivas qualidades de si mesmo, em pró desse crescimento, isso é autoconhecimento. Os que sofrem de baixa autoconfiança, experimentam um ciclo de afastamento social. Isto é inevitável, dado que quando nos percebemos desinteressantes, tendemos a isolar-nos e a construir uma linguagem onde somos melhor compreendidos interiormente. Ela, por si, encontrará as suas zonas de conforto, o que leva muitas vezes a situações convenientes. Estas bolhas de refrigério emocional podem não ajudar a escapar dessa crise, criando bloqueios de recuperação de uma estima desgastada. No entanto, esses espaços interiores vão certificar-se como ambientes seguros, se observando a salvo temporariamente de julgamentos e críticas, mesmo inexistentes. Outro sinal de genuinidade de baixo apreço, é a agitação emocional que frequentemente causa agonia, motivada por coisas que para outros não requereriam nenhuma atenção. Porém, isto não nega que para quem percorre por estas aflições, tais composições se mostram vitais nesse momento específico. Tal condição, também impede a tomada de decisões saudáveis, devido à tendência para a retração social, falta de confiança e negação de competências. O medo pode afligir a disposição, de tal modo que não lograremos tirar pleno partido do que a comunidade disponibiliza como recursos para abrirmos caminho. As conexões sociais se tornarão torturantes, quando deveriam ser uma boa fonte de prazer e oportunidades. Se está passando por este enquadramento emocional, não seja duro consigo, nem se prive de gozar das relações que construí, faça um balanço de si, abstenha-se de arranjar desculpas e retorne mesmo que pausadamente ao seu normal. Procure reencontrar seu olhar menos crítico, seu brilho. Fomos dotados de talentos e habilidades incríveis, podemos usá-los a nosso favor, muitas vezes precisamos nos desconstruir para erguer-nos refeitos e fortalecidos. Como retomar o amor-próprio e consignar a dignidade? Parece que encontramos muitos obstáculos que eventualmente nos compelem a desenvolver inseguranças. A triste verdade é que a autoconfiança pode ser muitas vezes custosa de alcançar, sempre que passar por nós tentaremos suprimi-la. Nós tratamos com severidade, enquanto, damos muita consideração aos outros. Zombamos por vezes dos nossos erros, ao tempo que contemplamos quão estúpidos nos tornamos. Odiamos cometer equívocos e acreditamos que outras pessoas podem ter um desempenho melhor de vida. Dizemos que não somos tão bem-parecidos e inteligentes quanto gostaríamos, incapazes de produzir determinadas afirmações positivas sobre si. A ironia, porém, é que uma grande maioria nos admira, pensam o oposto do que consideramos ao nosso respeito. É óbvio, que a baixa concepção pessoal pode impedir o crescimento, nos empurrar ladeira abaixo, para os domínios medíocres de uma vida monótona e supérflua. Ficaremos atrelados às lacunas dos impossíveis, das humilhações e do excesso de humildade. Não existe tal mundo, tendemos a não ouvir as vozes que nos encorajam, preferimos nos centrar em construir as contingências das exequibilidades. As raízes da confiança descendem da experiência, boa amiga do tempo e excelente professora. O desenvolvimento da afirmação, pode de repente amanhecer, chegar como um sopro de vida, nos despertando de um longo sono. Do seu eu interior vem o clamor que articula o que deve ser realizado. Esta voz, num certo sentido subjetivo de pensamentos nobres, deseja nos resgatar e colocará tudo a nossa frente. Cabe a si, aceitar que estas coisas são suas e devem ser abraçadas. O que quer que digamos sobre nós, será registrado em nosso inconsciente, suas consequências dependerão das teses mais dominantes que catalogamos. Assim, tanto podemos introduzir incertezas, criando um ambiente ideal para nos puxar para baixo, quanto elevar nossas crenças positivas, tirando partido dos seus benefícios. “No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: um estribilho antigo um carinho no momento preciso o folhear de um livro de poemas o cheiro que tinha um dia o próprio vento…” Mario Quintana Por Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- Controle Emocional.
Os benefícios do gerenciamento emocional. Lidando positivamente com nossas emoções... O gerenciamento emocional é um dos principais benefícios que conseguimos obter deste processo. Assim como a identificação dos nossos pontos fortes e fracos. Podemos visualizar, de que modo alcançar objetivos, lidar positivamente com nossas emoções, apontar trajetórias e descobrir a força por trás da nossa tomada de decisões. Conhecer-nos, principalmente frente às turbulências, abre uma possibilidade inteligente, ao indagar-nos; o que podemos aprender diante de tal situação? Assim mesmo, é essencial, em algumas fases, onde surgem muitas dúvidas de ação, trabalhar nesta tarefa. Será útil e valioso para cuidar do bem-estar geral. A dor nos ensina, a experiência reafirma a assertividade, o que funciona e o que não, conforme os critérios e condução que aplicamos. Agirmos com a clareza de pensamentos elaborados, preconiza saídas tangíveis para os problemas. Quando esta alternativa é desprezada, ficamos reféns da angústia, então ela cresce, se torna maior. Não é um processo fácil de acessar, requer força de vontade, motivação, dedicação e incumbências, as quais temos tremenda teimosia de praticar. Ansiedade e baixa autoestima, estão profundamente relacionadas a fuga desse estratagema mental, propenso a desenvolver reveses. Também, inclinação a manifestar sintomas ansiosos com mais predisposição. Cuidarmos da maneira de reparar ao nosso respeito, ajuda a nos sentirmos melhor, propiciando uma qualidade de vivência superior. Promover esse discurso interno, é um guia, que nos encoraja a aceitar novos desafios, estruturando a criação de uma identidade sólida. Aqui parafraseamos dois grandes pensadores; “Conhecer a si próprio, é o grande saber.” Galileu Galilei “Todo reparo interior, toda renovação para melhor, dependem exclusivamente da aplicação do próprio esforço.” Immanuel Kant Para contribuir na prática desta sua possível análise, pontuaremos alguns tópicos presentes na consolidação das ideias e sentimentos que nos fundam. Estas doutrinas adquiridas no seio da família, coletadas entre amigos, religião e comunicação social, formulam de alguma maneira as opiniões, juízos, conceitos e noções que dão sentido e direção a nossa vida. Obviamente que tais temas estão muito vivos em nosso cotidiano, mas nem sempre são pensados. Aprofundando e refletindo sobre eles, conseguiremos avaliar as condutas e nossas relações, é quais, as considerações que tecemos a esses entornos. Ecologia, Relacionamentos, Amor, Alegria, Carreira, Trabalho, Estudos, Lazer, Sexo, Esportes, Amizade, Popularidade, Mundo, Política, Justiça, Segurança, Democracia, Paz, Atualidade, Autenticidade, Coerência, Crítica, Beleza, Arte, Cultura, Imagem, Verdade, Religião, Respeito, Responsabilidade, Autonomia, Família, Dinheiro, Saúde, Ética, Redes Sociais, Futuro. De que forma reconhecemos estas abordagens? Qual o peso destes tópicos na nossa vida? Vamos reflexionar... Por Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- Autoconceito.
Este atinar ao conhecimento próprio, é a porta de entrada para a verdade... Sua ausência, nos impede visualizar o que está intercorrendo conosco. Desejar a precisão sincera, é o ponto decisivo dessa conquista psíquica interiorizada. A ocultação das realidades que nos abalam, não desejam essa verbalização, que por sequela, bloqueiam o genuíno espírito de atuação. Sua ausência, nos impede visualizar o que está intercorrendo conosco. Desejar a precisão sincera, é o ponto decisivo dessa conquista psíquica interiorizada. A ocultação das realidades que nos abalam, não desejam essa verbalização, que por sequela, bloqueiam o genuíno espírito de atuação. O reconhecimento da individualidade passa por si mesmo, como uma unidade particular e permanente ao longo da vida. Seria o eu, opinião, imagem e sentir da minha personalidade e práticas? Composição do núcleo primacial da pessoa e sua construção. O autoconceito, tem influência nas expectativas, formulando comportamentos estabelecidos através das relações sociais que angariamos. Essa profundidade dimensional do indivíduo, poderia incluir duas vertentes: uma, cognitiva, embasada na autoimagem, outra afetiva, que envolve uma ponderação de valor, então, a autoestima. A real ratificação da identidade, sugere uma constituição pessoal, que visa reconhecer e avaliar as atuais competências que possuímos, habilidades, fracassos, conquistas, aptidões e objetivos alcançados, que dão propósito e posicionamento a existência. Por outro lado, há os afetos que nos atravessam, mas nem sempre cruzam os limites do racional. Identificá-los, nos permite deslocar esse o seu espaço, expandir para o campo das estimas conscientes, e essa, é uma maneira soberana e poderosa de aprimorar a conciliação de autoimagem. Tomando consciência dessas emoções, que estão lutando para chegar à superfície de nossa mente, serão examinadas com mais detalhamento, redundando em melhores escolhas. Esta figura de transparência mostra o valor do super conhecimento, agora, exponencialmente capazes de usar nossos pontos fortes, agir firme nas fraquezas, e retificar os desvios negativos da personalidade. Aqui podemos nos deter, parafraseando Buda — Sidarta Gautama; “A paz vem de dentro de nós, não a encontraremos fora.” Personalidade; Reunião dos tópicos ou das características psíquicas que, analisadas de modo único, diferenciam um indivíduo, normalmente tendo em conta aspectos sociais. Identidade; Qualidade de idêntico, paridade absoluta, circunstância de um sujeito ser aquele que diz ser ou presume que seja. Podemos ser encontrados nos devotando sob duas perspectivas; a do ser e a do social. Interpretadas e lidas a partir de explicações que surgem, como elementos diferentes do resto, e as aspirações de identificação que nos separam do grupal. Independente de serem próximas: quais seriam as bases dessas sustentações? 1 — Percepções e expectativas extraídas de nossos semelhantes; 2 — Experiências individuais, frustrações, conquistas, sucessos e fracassos; 3 — Convivência com os sentimentos de autoconfiança, estima e eficiência; 4 — Provas, testemunhos, comentários, qualificações, informações, levantadas por outros ou por si; 5 — Autocrítica, avaliação de julgamentos, condutas e comportamentos. A nossa imagem, pode ser respaldada segundo a visão que cada um tem de sua aparência física, percebida e reconhecida por outras. É a revelação, através da qual nos contemplamos, e pela que nos constatam, sendo significativa, visto que se torna mediadora das nossas relações interpessoais. O retrato dessa estampa, tem uma carga emocional aditiva, que afeta, às vezes, drasticamente a nossa autoestima. Por outro lado, pesquisas mostram que mesmo as pessoas com dificuldade em aceitar sua aparência, não se aceitam como um eu total: portanto, fragmentadas, onde a forma corporal pode influenciar o autoconceito. Muitos dos complexos que surgem, são, na verdade, baseados em defeitos imaginários que acreditamos serem prendados e atribuídos. Por vezes, reforçados com apelidos carregados da infância, piadas de pares, amigos ou familiares. Estes, afetam o progresso saudável dos laços sociáveis na maturidade. Estas considerações, (entre outras), destacam a dimensão que ocupa esse autoconhecimento, fazendo dos objetivos desta intervenção, um pilar das edificações realistas e pragmáticas que nos coabitam. Por Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130
- Autognosia - Autoconhecimento.
Um desconhecimento deficiente da autognosia; (conhecimento de si). Provoca; Falta de reflexão, impulsividade, necessidade de aprovação, dar interesse e magnitude a opinião alheia, pouca disposição a aceitar ajuda e ser facilmente influenciável nas decisões. O que é possível compreender... Qual o dano deste distanciamento do eu? Um desconhecimento deficiente da autognosia; (conhecimento de si). Provoca; Falta de reflexão, impulsividade, necessidade de aprovação, dar interesse e magnitude a opinião alheia, pouca disposição a aceitar ajuda e ser facilmente influenciável nas decisões. Cinco passos para iniciar um processo introspectivo; 1 — Biografia; Espelhar e retratar nossas memórias infantis e adolescentes, assimilar e reviver psiquicamente a importância de todos os traços possíveis de serem lembrados; 2 — Estima; Tomar posse consciente das nossas características, atributos essenciais e virtudes, assim como dos defeitos; 3 — Contexto; Perceber qual o nosso meio, o ambiente, condições, conceitos de valor e normas sociais, culturais, materiais e morais que nos cercam; 4 — Observação; Identificar as divergentes emoções, sensações, sentimentos e atitudes que nos distinguem dos outros; 5 — Aceitação; Uma vez exercitadas as 4 premissas anteriores, seremos capacitados e preparados a se aceitar plenamente. Lembraremos uma célebre frase gravada no Templo de Apolo na Grécia, onde podemos ler; conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os Deuses. Quase todos nós, já ouvimos esta sentença. Um aforismo afamado, legado da antiguidade grega, que nos insta a indispensabilidade do saber é do autoconhecimento. O que conseguimos compreender desta proposição? Conhece-te a ti mesmo e Sócrates. Segundo Platão, Sócrates compareceu ao Templo de Apolo, onde o oráculo proclamou ser ele o homem mais sábio daquela época. A resposta dele foi inesperada, com sua popular frase ele respondeu. Apenas sei que nada sei. O que ele quis afirmar? Grande partidário do conhecimento de si mesmo, dedicou muito tempo da existência para tentar entender a sua natureza. Assim sustentou, que nenhum indivíduo conseguia praticar o mal de forma consciente e propositadamente era o resultado da própria ignorância sobre si. Conhece-te a ti mesmo, aponta ser o passo preliminar para o verdadeiro atinar. Desejar instruir-se do mundo à nossa volta, é em primeiro lugar, reputar sobre nós. Alcançar o discernimento e identificar-nos, via um processo, uma demanda aperfeiçoada incessantemente. A aplicação desse método, muda a interação com o planeta e com as pessoas, abrindo uma janela de possibilidade para o novo. Ainda outra leitura desta frase, pode ser entendida como a obrigação e posse de noção de identidade e personalidade, não concedendo muita importância ao que outros pensam e formulam ao nosso respeito. O que nos provoca a situar-nos em aspectos conscientes? Personalidade, atuações, comportamentos e sentimentos. Todos promovem e estimulam o detalhamento da visão pessoal, viajando ao âmago da alma e do espírito. Obviamente, seria fundamental saber no mínimo quem se é, visto que temos tantas outras perguntas existenciais incompletas. Qual seria, portanto, a importância desse papel? Ao atingir um grau de aproximação com nosso autoconhecimento, é possível elaborar uma intervenção substancial em nossa mente. Esta consciência de discernimento, logra ser um elemento útil e poderoso para impulsionar uma vida recompensadora, gratificante, emocionalmente enriquecedora e equilibrada. A introspecção, permite ouvir-nos, reformulando esse auscultar do real e verdadeiro. Sem dúvidas, as crises que enfrentamos, incluem um aporte natural de amadurecimento pessoal. Mais claramente portam ocasionalmente ansiedade e sofrimento. O que nos leva a olhar outro aspecto dessa síntese, o que nos agrada e vice-versa, precisa ser caracterizado e assimilado. Estranhamente, temos uma certa facilidade para elevar os nossos pontos fortes e virtudes, enquanto rejeitamos os defeitos, ocultamos imperfeições críticas, quando de fato elas nos definem e deveriam ser acolhidas. Por Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130













