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  • O Psicopata.

    “O psicopata não consegue perceber em si o mal que pode provocar a outros.” Dan Mena. Por Dan Mena. A complexa trama da personalidade. A psicanálise abordou a psicopatia de várias maneiras, utilizando contribuições de diferentes autores. Embora sob diferentes perspectivas dentro da nossa própria asserção, geralmente definido como uma condição caracterizada por déficits no desenvolvimento emocional da empatia e do superego. Através das nossas lentes visualizamos uma abordagem profunda da sua complexidade quanto sua atuação e efeitos mentais, aquelas que transbordam pela formação da personalidade. A partir da análise de diversos teóricos, examinarei seus traços característicos, origens na infância e os conflitos intrapsíquicos relacionados com o papel do desdobramento do self. Como uma condição que transcende as fronteiras do entendimento convencional, se tornou alvo de investigação, cujo foco reside na análise da psique, explorada por proposições focadas na formação do indivíduo, seu emocional e os mecanismos de defesa. (''superego''; é o aspecto moral da personalidade do indivíduo, conforme a ''teoria da psicanálise'' é responsável por “domar” o Id, ou seja, reprimir os instintos inaugurais, primordiais e originários do ser, com base nos valores morais e culturais). ''O psicopata é aparentemente um indivíduo que não se preocupa em reprimir os seus desejos infantis e que se comporta como se não tivesse superego''. Eidelberg. Boa leitura. Psicopatas não têm problemas de autoestima, pelo contrário, têm um sentido exagerado, grandioso e egoísta da sua própria condição e importância perante a sociedade. São atraídos pela emoção, perigo, negação da realidade e excitação, que enxergam como obstrutiva da sua omnipotência infantil. Quando limitada à sexualidade, entram aqui os pedófilos, que se infiltram em organizações de caridade, religiosas, entidades fraternas, particularmente compostas por jovens, atraídos pela disponibilidade de possíveis vítimas. O diagnóstico do sociopata, ligado a este perfil, pode ser reintegrável a sociedade, mas as tentativas terapêuticas não são eficazes se sua personalidade lateral for sociopática. A privação de liberdade não os assusta, nem corrige, serve apenas para aperfeiçoar suas práticas. Embora sejam responsáveis pelos seus atos, são também vítimas da própria condição disfuncional por natureza, possuindo uma estrutura mental anormal e diferente do resto das pessoas, considerados absolutamente incapazes de se adaptar. Exibem as seguintes características: Falta de empatia: Têm dificuldades em se conectar emocionalmente com os sentimentos e necessidades dos outros, não conseguem entender ou se importar com o sofrimento alheio. Superficialidade e charme: Apresentam um fascínio pessoal, sedução e atração superficial, que pode atrair os outros, utilizado como ferramenta de manipulação e para obter ganho pessoal. Falta de remorso ou culpa: Não sentem pesar, arrependimento, compunção, contrição genuínas por seus atos prejudiciais e podem racionalizar minimizando seus comportamentos violentos e ruinosos. Práticas antissociais: Tendem a violar as normas sociais e as leis, apresentam hábitos impulsivos, agressivos, irresponsáveis, proibidos, inconcessos e ilícitos. Manipulação e mentira: São habilidosos em influenciar para manejar os outros e atender seus próprios interesses, enganam e engendram situações para obter benefícios. Falta de planejamento a longo prazo. Podem ter dificuldade em planificar e considerar as consequências a longo prazo de suas ações, buscando gratificação imediata, na sua concepção tudo é urgente, iminente. Ausência de relações afetivas estáveis: Suas relações interpessoais são tidas como superficiais e instáveis, possuem dificuldades em estabelecer vínculos emocionais genuínos. Desenvolvimento do superego e falso self. A psicopatia pode estar ligada a falhas no desenvolvimento do superego, a instância interna que coordena às normas morais e sociais. Winnicott e Melanie Klein discutem a formação do falso self, como uma máscara que esconde o verdadeiro ego, muitas vezes resultante de um ambiente não muito acolhedor na infância. Por esse ângulo, pode ser vista como uma construção defensiva, um disfarce para uma carência de desempenho emocional saudável. Pode ser entendida como uma luta entre impulsos primitivos e a incapacidade de internalizar normas e valores. Além disso, a qualidade das relações na formação infantil persuade essa elaboração distorcida que afunila para esse contexto clínico. A teoria dos vínculos do apego de John Bowlby também lança luz sobre as origens das relações sociais deficitárias. Neste tema, gosto de me aproximar de Bowlby, ele foi um psicanalista inglês nascido em 1907, na Inglaterra, ficou conhecido por ser o primeiro analista a ter proposto um modelo de desenvolvimento e funcionamento da personalidade — ou chamada ''teoria dos instintos'', que se distancia um pouco da tese das pulsões de Freud. A teoria dos vínculos de apego utiliza uma abordagem fundamental para compreender o desenvolvimento emocional e os relacionamentos, enfatizando a importância dos laços emocionais formados entre bebês e seus cuidadores primários, influenciando como interagem e se relacionam ao longo de suas vidas. Se baseia nos seguintes pontos-chave: Vínculos primordiais: Como seres gregários que somos, temos uma necessidade inata de formar laços afetivos seguros com figuras de apego, geralmente nossos pais ou seus substitutos. Ditas associações proporcionam segurança emotiva e ajudam a regular sentimentos, comoções, sensações, vivências e respostas ao estresse. Fases de desenvolvimento: Identifica várias fases do progresso evolutivo do apego. A fase de “prender” (0-2 meses) envolve a proximidade física, enquanto a fase de “focalização” (2-7 meses) implica na preferência por figuras específicas. A fase de “seletividade” (7-24 meses) envolve a busca de proximidade com figuras fraternas e confiáveis. Comportamentos de apego: Descreve essas condutas e atitudes; pelas via do choro, sorrir e procurar pelo contato visual que incentivam os cuidadores a se aproximarem e cuidarem do bebê. Essas idiossincrasias são básicas para a formação dos laços originais. Modelos internos: Destacam a formação de “arquétipos internos de trabalho”, representações mentais das relações com os cuidadores. Esses standards e cânones influenciam como nos vemos a si e aos outros, moldando seus futuros relacionamentos e interações sociais. Estilos de apego: Foram identificados três principais estilos de apego: seguro, ansioso e fugitivo. O estilo seguro envolve confiança nas relações e na expressão de emoções. O ansioso exibe preocupação excessiva com o abandono. Fugitivo, é qualificado por resistência à intimidade e independência excessiva. Impacto na vida adulta: Estabelece que os padrões de apego formados na infância influenciam a capacidade de estabelecer relações saudáveis na vida adulta. Considerações clínicas. A psicanálise oferece insights valiosos para abordagens terapêuticas com indivíduos com traços psicopáticos. A análise pode ajudar a desvendar os conflitos intrapsíquicos, permitindo ao paciente explorar suas defesas e padrões destrutivos. No entanto, são muito resistentes. A natureza desafiadora da psicopatia levanta questões sobre a eficácia das intervenções tradicionais. Freud não abordou explicitamente a psicopatia, mas suas teorias sobre o desenvolvimento do superego e as conflagrações entre os instintos básicos podem ser aplicadas à compreensão das peculiaridades psicopáticas. O superego, é uma parte da personalidade que internaliza os padrões morais e sociais, e um déficit no desenvolvimento adequado do superego que contribui para traços psicopáticos. Klein explorou as primeiras etapas do desenvolvimento infantil. Ela descreveu o “posicionamento esquizo-paranóide”, em que as crianças podem ver o mundo como dividido entre “bom” e “mau”. De um ponto de vista psicopatológico, isso pode alavancar para a falta de empatia característica dos psicopatas, visto eles apresentarem dificuldade em se perceber e relacionar ditas emoções em contextos complexos. (Esquizo-paranóide, termo introduzido por Melanie Klein para indicar um ponto no desenvolvimento de relações objetais antes de o bebê haver reconhecido que as imagens da mãe boa e da mãe má, com as quais esteve relacionado, se referem à mesma pessoa). Winnicott se ocupou da formação do self e a importância do ambiente na infância. Sua noção de “falso self” poderia ser relacionada à psicopatia, sugerindo que ela pode se desenvolver como uma adaptação defensiva para mascarar um verdadeiro self prejudicado. (O self é descrito como instância psíquica fundamental que contém os elementos que compõem a personalidade, mas não contém o núcleo da existência genuína do indivíduo. Assim, o protagonista da existência é o "ser interior", e o self atua como coadjuvante principal na formação da personalidade). Kernberg desenvolveu a teoria dos distúrbios de ''personalidade narcisista'' e ''borderline''. Embora não seja exclusivamente sobre a psicopatia, seus conceitos sobre déficits na integração de identidade, empatia e a relação entre o self e os outros, podem ser aplicados na sua compreensão. (Borderline, em sua origem, remete a uma divisão, uma fronteira. Em linhas gerais, na psicanálise, trata-se da fronteira entre a neurose e a psicose. Esse é talvez um dos poucos aspectos consolidados e aceitos no período inicial das investigações). Kohut focou na psicologia do self e na importância do seu desenvolvimento saudável. Incorporou parte da teoria do “espelho” e a necessidade de espelhamento saudável na infância que têm implicações na compreensão das origens da psicopatia. (Kohut, fala de um estágio do self fragmentado ou corpo-self fragmentado, que seria anterior à formação de um self propriamente dito. Nesse momento primitivo da existência, o self seria constituído de partes corporais ou funções mentais individuais). Edith Jacobson: Estudou a relação entre os distúrbios de personalidade e os processos de defesa. Seu trabalho sobre “o self patológico” ajuda a entender como esses distúrbios podem surgir como uma interação complexa entre o self e os mecanismos de defesa. (Jacobson, não é associada diretamente ao conceito de "self patológico", ela fez contribuições significativas para a compreensão do desenvolvimento emocional na infância e as dinâmicas interpessoais. Suas teorias se concentram na importância da identificação projetiva e introjeção no desenvolvimento do self e na formação de laços. Embora não tenha introduzido diretamente o termo "self patológico", sua abordagem influenciou a compreensão para contextos psicanalíticos mais amplos. É uma condição complexa que pode variar em grau e manifestação segundo a abordagem e a definição, pode diferir entre diversas teorias e disciplinas, incluindo a psicanálise, psicologia, psiquiatria e a criminologia. Portanto, deve ser feita considerando uma variedade de óticas. “O psicopata é um mestre da dissimulação; ele pode fazer você acreditar que ele é o homem mais gentil que já conheceu.” Hare. Um exemplo de caso de psicopatia na clínica psicanalítica: Marina, uma mulher de 35 anos, buscou auxílio na terapia para lidar com seu relacionamentos interpessoais tumultuados e problemas no trabalho. Ela me descreve suas dificuldades em manter amizades, namoros, parcerias, relacionamentos duradouros, bem como complicações recorrentes do seu comportamento no ambiente profissional. Sua história de vida: Ela me compartilha sua trajetória na infância, descrevendo sua relação tensa com seus pais, e afirma que; ''frequentemente mentia e manipulava para conseguir o que queria, desde pequena''. Desta conduta, atitudes e maneiras de lidar com a família, não parecia sentir transgressão, arrependimento ou remorso por suas ações e muitas vezes se envolvia em brigas e conflitos. Marina, também fala sobre sua habilidade de se adaptar a diferentes situações, mudando sua aparência e personalidade para se encaixar. Dinâmicas psíquicas: Ao longo da terapia, emergem seus padrões de comportamento que indicam traços psicopáticos. Ela parece ter uma falta de empatia pelo sofrimento dos outros e um foco em seus próprios interesses. Não demonstra preocupação genuína pelas consequências de suas ações nas relações interpessoais, afetivas ou profissionais. A análise sugere que seu superego não parece ter se desenvolvido de maneira saudável, levando à ausência de utilização de normas morais internalizadas. Suas relações: Ao explorar a formação dos seus laços, admite que muitas vezes manipula as pessoas ao seu redor para conseguir apenas o que quer e reconhece que muitas vezes se sente entediada nas suas ligações, não se importando seriamente com eles. As relações parecem ser superficiais e voláteis, com ciclos de idealização e desvalorização. O trabalho terapêutico. A terapia psicanalítica com Marina envolveu a exploração profunda de suas dinâmicas e vivências, defesas e padrões comportamentais. Se visou compreender suas motivações inconscientes, a guiando na exploração das origens de seus traços psicopáticos identificados na infância e nos vínculos das suas relações familiares. O objetivo, foi promover a cognição, a autoconsciência e, possivelmente, a releitura atualizada da sua vida. O intuito trata de imprimir mudanças, realinhar procederes, revisar ações, reações e fortalecer atuações mais legítimas. Este case, ilustra como um caso de psicopatia pode ser abordado na clínica psicanalítica. O âmago do tratamento está na essência da investigação aparentemente imperscrutável das suas origens, sejam funcionais ou mentais, buscando uma compreensão mais cavada dos seus padrões comportamentais. É importante lembrar que cada caso é único, e uma assimilação clínica adequada deve ser baseada nas necessidades individuais do paciente. Literatura e personalidade antissocial. Um livro que aborda a psicopatia na psicanálise é “A Personalidade Antissocial” (em inglês: “The Antisocial Personalities”) de David T. Lykken. Embora não seja estritamente psicanalítico, explora a psicopatia e a personalidade antissocial sob uma perspectiva psicológica e científica. No entanto, é importante observar que frequentemente e discutida em diversas outras áreas como a psicologia clínica e a criminologia. Você pode encontrar insights sobre a psicopatia em obras que abordam a formação da personalidade, desenvolvimento emocional, defesas psicológicas e dinâmicas intrapsíquicas. Uma visão baseada em estudos científicos e pesquisas clínicas, se baseia em sua própria pesquisa e em estudos empíricos para analisar os traços que compõem a personalidade. Abre um caminho quanto a possível origem biológica e genética, assim como os fatores ambientais que podem contribuir para o seu progresso e desenvolvimento. Examina a relação entre a personalidade antissocial e o comportamento criminoso, fornecendo dicas sobre por que algumas pessoas com essa personalidade são mais propensas a cometer crimes e apresentar comportamento delinquente. Os desafios na identificação e avaliação da psicopatia, destaca a complexidade e as nuances envolvidas na compreensão dessa condição. O tratamento e a intervenção para indivíduos com seus atributos, consideram as implicações para o sistema legal e a sociedade em geral, questões éticas relacionadas à responsabilidade e punição de indivíduos com essa personalidade.  O livro é uma contribuição significativa a partir de uma perspectiva psicológica e científica. Houve diversos indivíduos ao longo da história que são considerados psicopatas notórios, devido aos seus comportamentos delinquentes, falta de empatia e manipulação. No entanto, é importante lembrar que o diagnóstico retrospectivo de psicopatia pode ser complexo e controverso. Vejamos alguns exemplos de indivíduos associados a seu perfil; Ted Bundy (1946 – 1989): Bundy é talvez um dos psicopatas mais famosos da história. Ele era um assassino em série que cometeu uma série de homicídios brutais nos anos 1970. Sua aparência charmosa e habilidades de manipulação lhe permitiram atrair suas vítimas para situações perigosas. Bundy demonstrava absoluta falta de remorso pelos seus crimes. Jeffrey Dahmer (1960 – 1994): Conhecido como “O Canibal de Milwaukee”, era um assassino em série que matou e desmembrou 17 homens jovens, exibia traços de psicopatia, incluindo uma atitude fria e calculista. John Wayne Gacy (1942 – 1994): Conhecido como “O Palhaço Assassino”, foi responsável pelo assassinato de pelo menos 33 jovens. Escondia suas atividades criminosas por trás de uma fachada de homem de negócios e ativista comunitário. Aileen Wuornos (1956 – 2002): Foi uma assassina em série que matou sete homens entre 1989 e 1990, alegou agir em legítima defesa, mas sua personalidade instável, dificuldades interpessoais e histórico de abuso contribuíram para a percepção de traços psicopáticos. Charles Manson (1934 – 2017): Embora não tenha cometido assassinatos pessoalmente, Manson liderou o culto “A Família Manson” e orquestrou uma série de assassinatos em 1969. Sua capacidade de manipular seguidores e incitar violência demonstrou traços claros de psicopatia. Richard Ramirez (1960 – 2013): Conhecido como “Night Stalker”, assassino em série e estuprador que aterrorizou a Califórnia durante a década de 1980. Ele demonstrou comportamento sádico e uma indiferença chocante em relação ao sofrimento das vítimas. Esses são apenas alguns exemplos, é importante lembrar que o termo “psicopata” não trata de um diagnóstico clínico formal, mas sim de uma identificação singular usada para descrever um conjunto de personalidades associadas a seus comportamentos antissociais. Muitas vezes, essas figuras históricas são estudadas para entender os fatores que podem levar a tal configuração. Uma vez que ele(a) não considera o seu comportamento errado, não tem nenhuma motivação para o alterar. Nem todas as pessoas diagnosticadas com ''Distúrbio da Personalidade Anti-Social'' são psicopatas, mas, determinados critérios acima descritos qualificam de alguma forma uma perturbação e um comportamento alinhado e próximo. No que diz respeito à sua identificação, uma das grandes dificuldades que os psicanalistas, psicólogos, psiquiatras, criminologistas e outros profissionais encontram, é que eles(as) estão em todo lugar, não são próprios ou característicos de um determinado grupo, nível sócio-cultural ou econômico. O que se torna evidente, é que onde quer que haja uma oportunidade de lucro, haverá sempre um psicopata preparado para se aproveitar, seja em termos de poder, prestígio, dinheiro ou sexo. Frases que ajudam a compreender sua temática; “A psicopatia não é um diagnóstico que pode ser aplicado com facilidade ou simplicidade.” Cleckley. “Os psicopatas sabem a diferença entre certo e errado; eles simplesmente não se importam.” Martha Stout. “As pessoas se perguntam como alguém pode se tornar um psicopata. Penso: como alguém pode não se tornar um?” Ellis. “Os psicopatas têm um jeito de encantar, manipular e seduzir as pessoas.” Robert D. Hare “A psicopatia é como um iceberg; a parte visível é apenas uma pequena parte do que está realmente acontecendo.” Robert Hare Vários livros importantes na área da psicanálise e psicologia que abordam o tema. Aqui estão alguns deles: "Sem Consciência: O Mundo Perturbador dos Psicopatas Que Vivem Entre Nós" por Robert D. Hare. "O Conceito de Borderline: Uma Investigação Psicanalítica" por James F. Masterson. "A Criança Psicopata: Uma Realidade Ignorada" por Dante de Rose Jr. "The Psychology of Criminal Conduct" por James Bonta e D.A. Andrews. "Máscaras da Personalidade" por Theodore Millon e Roger D. Davis. A psicopatia é um assunto complexo, multidimensional e polifacetado, muitas vezes abordado por diferentes campos clínicos; da psicanalise, psicologia e psiquiatria. Portanto, uma abordagem completa do tema requer, e sugiro que seja, pela consideração de diferentes panoramas. Ao poema; ''O tom sombrio da mente'' De Dan Mena. Nas abissais do ser, um enigma aflora, Nas sombras da mente, um ser inconsequente, Arquétipos escuros emergem eloquentes, Se torna bem claro, um tipo que mente, Psicopatia de lampana heterodoxalmente. Contornos sem remorsos de uma psique doente, Na mente intricada, onde traços convergem, Face escura da empatia, sem nenhuma sintonia, Inclinação inconsciente da mente que o guia. Um ser sem coração, remorso ou reflexão, A falta de consciência, o jogo da manipulação, Um indivíduo habilidoso na sua atuação, Detalhes, dessa perturbada condição. Lacan observou com olhos penetrantes, Os sinais, as nuances, dos seus traços marcantes, Coração de gelo e enganos perpetuantes, Ego inflado e moral titubeante. O inconsciente explorado por Freud com maestria, Onde emergem a formação de feridas antigas, A infância, o trauma, raízes de histórias protetivas, Um mergulho profundo nessas águas remoídas. Ações cruéis, sem remorso aparente, Nessa impulsividade, a busca complacente, Ausência insatisfeita de uma alma incompleta, Culpas e paixões, banais e obsoletas. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130

  • O Sujeito.

    “O sujeito não é um conceito explicitamente construído, mas algo que emerge das nossas próprias entrelinhas e caminhos, se tem um lugar... seu nome é linguagem e libido”. Dan Mena - Por Dan Mena. O ser cartesiano, o sujeito como um lugar vazio.   O conceito de sujeito, é um tema íntimo ao campo das ciências humanas, descrito por sua natureza multifacetada que abarca uma variedade de interpretações e definições. No âmbito filosófico, ganha destaque via uma compreensão desenvolvida historicamente a partir do pensamento de René Descartes. Dado o escopo limitado deste artigo, a análise completa não considera todas as suas nuances, onde simplificarei a fim de atender aos propósitos em questão. Posteriormente, irei trabalhar em outros autores, principalmente sobre a base lacaniana-psicanalítica. O rol fundamental na filosofia marca uma mudança paradigmática na compreensão do ''eu'' individual e da relação entre a consciência e o conhecimento. O sujeito cartesiano, como articulado na sua obra; “Meditações sobre a Filosofia Primeira”, é um elemento essencial na epistemologia do método filosófico que influencia diretamente como se abordam questões de certeza, ceticismo e fundamentação do saber. Sujeito, é aquele que pensa, duvida e reflete, alcança a certeza de sua própria existência (segundo ele), através do famoso ditado; “Cogito, ergo sum”, (Penso, logo existo), que afirma sua realidade como um ser pensante. Desta forma, é imediatamente acessível à própria experiência consciente, se tornando o ponto de partida indubitável para a busca do saber. Esse homem cartesiano é constituído por sua interioridade e subjetividade, a certeza do eu, enquanto sujeito pensante, ele se baseia na autoconsciência e no exercício do pensamento reflexivo. Mesmo no cenário do ceticismo radical, em que todas as crenças podem ser questionadas, sua existência permanece inabalável, o que transcrito, se revela pela “res cogitans”, (coisa pensante) em contraposição à “res extensa”, (coisa extensa) do mundo material. No entanto, esse ser não é isolado. Através do Deus garantidor da verdade, se estabelece numa ponte entre o sujeito individual e o mundo exterior, conferindo à realidade objetiva uma base sólida e confiável, um intermediário entre a mente e a realidade externa, mediada pela garantia divina. De certa forma, dita idealização inaugura uma abordagem moderna da subjetividade e da cognição, ao enfatizar a importância da reflexão individual, que estabelece bases para a investigação racional, enquanto, simultaneamente, delineia os contornos da relação entre a consciência e a realidade. O sujeito pensante, embora criticado por posteriormente ter sido visto como excessivamente centrado no indivíduo, desencadeou um legado filosófico que moldou a epistemologia e a filosofia da mente por muitos séculos. Em essência, ele pode ser compreendido como equivalente ao “eu”, em uma realidade supostamente irredutível, onde sua existência não pode ser posta em dúvida, uma vez que o próprio ato de duvidar já pressupõe a própria extensão dele. No campo linguístico, é identificado como o componente de uma sentença, que está sujeita à predicação, em outras palavras; o sujeito é a entidade à qual atribuímos ou negamos determinadas características singulares. Boa leitura. “Meditações sobre a Filosofia Primeira”, como obra central na filosofia, foi escrito no século XVII. O livro é composto por seis meditações, nas quais se exploram questões básicas sobre a natureza do conhecimento, a existência de Deus, a relação entre mente e corpo e a certeza epistêmica. Primeira meditação. Se inicia com uma jornada de dúvida metódica, questionando a confiabilidade de suas crenças e sentidos. Levanta a noção de um “gênio maligno” que poderia estar enganando a mente em todas suas percepções. O objetivo dessa dúvida radical é encontrar um ponto de partida indubitável para a construção do conhecimento. Segunda; Se firma a célebre afirmação acima anotada, “Cogito, ergo sum”… (Penso, logo existo), a própria dúvida pressupõe um sujeito que dúvida, estabelecendo a existência do sujeito pensante como algo provado e primacial. Esse a se intitular “res cogitans”, é o ponto de partida seguro para a sapiência. Terceira; Análise sobre a relação entre o sujeito pensante e Deus, expõe um argumento ontológico para sua existência, afirmando que a ideia de um ser perfeito não pode ter sido originada pelo sujeito finito, mas deve ser causada por um ser supremo e Infinito. Deus, portanto, garante a confiabilidade da circunspecção humana. Quarta; Explora a relação entre mente e corpo como substâncias distintas, diferentes naturezas, onde a interação entre as duas se dá através da glândula pineal, embora esse ponto tenha sido alvo de críticas posteriores. Quinta; Teoria da verdade clara e distinta, como critério para a certeza, lugar das ideias percebidas de forma clara e diversa que são verdadeiras e constituem o fundamento desse no meu entender ''suposto saber''. Sexta; Se reafirma a primazia da razão como guia para a verdade, a existência de Deus como garantia da cognição, percepção, discernimento, lucidez e clareza do ser. Esta obra, que desafia as certezas tradicionais da época e estabelece o método cartesiano da dúvida metódica como um caminho para a busca do conhecimento fundamentado, influenciou profundamente a filosofia moderna, assistindo para valer o desenvolvimento do racionalismo e moldando o pensamento subsequente sobre a mente, a gnose e a existência. É notável que tanto na perspectiva cartesiana quanto na linguística, o termo “sujeito”, denota uma vacuidade conceitual. Qualquer afirmação acerca de um indivíduo pode ser objeto de dúvida pelo próprio que a indaga. Todo atributo que se outorgue a ele, não pode servir como sua representação última, uma vez que o próprio detém a capacidade de questionar o mérito da qualificação que realiza, se necessário, o refazer, mudar ou eliminar. Nesse dimensionamento, ele emerge como uma entidade inicialmente desprovida de conteúdo. Esse princípio, também se aplica à concepção linguística de sujeito: a palavra “João”, considerada isoladamente, carece de qualquer significado particular, sua ''significação'' é conferida somente quando associada a um predicado, como, por exemplo, exemplificado na sentença que segue; “João é um aluno de Daniel.”. Portanto, o sujeito “João”, em sua natureza conceitual é um espaço inicialmente vazio a ser preenchido por predicados necessários para ser elaborado como tal. O que o sujeito é, e o que um significante representa para outro significante? Para a psicanálise, é aquele que se constitui na relação com o ''Outro'' através da linguagem. É em referência a essa ordem simbólica que se pode falar em sujeito e subjetividade a partir de Freud, e, em especial, após a produção teórica de Lacan. No enfoque, o sujeito é concebido como uma construção complexa que emerge da interação entre o inconsciente, a linguagem e as dinâmicas simbólicas. Diferente das visões tradicionais, onde é frequentemente considerado um ente individual, estável e autônomo, se introduz aqui uma compreensão mais intricada e interligada do tema. O sujeito não é uma entidade preexistente, mas é instituído, se concebe através do processo de entrada na linguagem e da interação com os sistemas simbólicos da cultura e da sociedade. A sua formação ocorre no contexto desse complexo, no qual será inserido em estruturas simbólicas que irão moldar sua identidade e subjetividade. Como analistas exploramos o inconsciente, sendo o lugar onde os desejos, os conflitos e processos mentais não conscientes estão ativos. O “sujeito do inconsciente” que emerge através da interação entre a linguagem e o desejo inconsciente, não é coeso nem estável, mas sim, fragmentado, composto por diferentes reconhecenças e representações emblemáticas. A ''teoria do espelho'', (a teoria do espelho, afirma que só conseguimos enxergar características em outras pessoas que também existam, ou já existira algum dia, em nós. Nosso papel, é aprender sobre nós mesmos, através das relações sociais, relevantes para a definição do sujeito em sua abordagem existencialista. O sujeito em si, começa a se desenvolver quando a criança que nele habita reconhece sua própria imagem no espelho, fato que marca o início da formação da identidade. No entanto, essa identificação e personalidade em trânsito de criação será sempre parcial, repartida, desagregada e desmembrada, sob a reflexão de diferentes percepções e influências simbólicas). Numa síntese; podemos compreender o termo ''sujeito'' como um lugar vazio, onde a amplitude do que se diz a respeito de alguém pode ser afixada em dúvida pelo próprio sujeito. Qualquer atributo que sobre ele(a) recaia, não serve como legítimo representante em última instância. De forma que; quando o próprio(a), possuí a capacidade de colocar sua competência em xeque e, se necessário, ele faz sua eliminação, o ser se constitui em um lugar de ausência e vazio. A mesma interpretação podemos dar a linguística dele: a palavra, onde “João”, considerado circunstancialmente, isoladamente, não possui lógica, razão, cabimento, nem fundamento de sentido existencial, só passa a adquir conteúdo e sentido semântico quando a ele(a) e outorgado(a); característica, virtude, critica, atributo, propriedade, qualidade, mediante algum predicado adjunto a sentença; exemplo; “João joga tênis com Daniel.”. Logo fica claro, que o sujeito “João”, considerado em si, ocupa como sujeito um lugar de vácuo que necessita de qualificações preceptorias. Signo, significante e significado na psicanálise lacaniana. O que são predicados senão palavras?. A noção de significante provém de Ferdinand de Saussure, um linguista que propôs uma visão estruturalista da linguagem. Ela seria formada por elementos chamados signos, que, por sua vez, seriam compostos de duas perspectivas entrelaçadas: o ''significante'' e o ''significado''. O significante; (o significante se mantém como condição de uma operação que se constitui em uma cadeia e é nessa cadeia, que ele se faz presente a partir de uma ausência. O elo dos significantes torna a condição dele(a) possível, e é nela que subsiste, (Lacan, 1966)… seria a parcela material do signo linguístico (o som da palavra, por exemplo). Já o significado; (na experiência psicanalítica é extremamente volátil, evanescente, como um fluido que desliza ao longo do arcabouço de significantes que seria o sentido de tal). A teoria da linguagem de Saussure é estrutural porque pressupõe que o valor de um determinado signo não é dado teoricamente, mas depende da relação com os demais signos do sistema linguístico. Um dos pilares da linguística moderna, se concentra na estrutura e funcionamento dos signos. Ele rejeita a visão tradicional como sendo um simples meio de comunicação, e em vez disso, propõe uma abordagem elementar que analisa os componentes linguísticos em relação aos seus sistemas internos. O conceito fundamental do “signo linguístico”, é composto por duas partes inseparáveis: o “significante” (a forma sonora ou escrita) e o “significado” (a ideia ou conceito associado). A relação entre essas partes é arbitrária, ou seja, não há uma conexão entre a forma e o conteúdo de uma palavra, portanto, dita arbitrariedade é um princípio que define a temática. Outra chave que será equalizada é a ''oposição binária'', na qual os significados emergem das diferenças entre os signos num sistema linguístico. Essas, dependem das relações de contraste, e não de significados peculiares, o que implica que as palavras não têm um significado fixo e absoluto, mas ganham sentido em relação a outras. “A Teoria dos Signos de Saussure: Uma Exploração Semiótica”, é uma análise esquadrinhada dos contributos para o campo da semiótica; (semiótica; para Charles Peirce 1839 – 1914, na sua teoria geral das representações, considera os signos sob todas as formas e manifestações que assumem, (linguísticas ou não), enfatiza a propriedade de convertibilidade recíproca entre os sistemas significantes que a integram). Nesta obra inova quanto a compreensão dos ''signos e da linguagem'', ao introduzir o enunciado na forma de tese, a definindo como uma entidade composta por uma relação arbitrária entre um significante, (na maneira perceptível) e um significado, (pelo conceito mental). A natureza relacional deles, destaca que a sua acepção é determinada por sua relação contrastante com outros sinais e símbolos em um sistema linguístico, que se encaixam opostamente entre a linguagem como um sistema abstrato de regras e a fala individual daqueles que se expressam verbalmente. ''O sujeito na psicanálise não é um conceito explicitamente construído, mas algo que emerge das nossas próprias entrelinhas e caminhos, se tem um lugar seu nome é linguagem e libido. Aparece como estranho e alheio ao ego que me identifico, porque de alguma forma se dissimula no inconsciente escondido. Impreteríveis pulsões de energia que tanto insistimos?… onde a repetição é sempre um imperativo''. Dan Mena. A oposição binária. Também conhecida como o princípio da ''oposição contrastante'', se refere à ideia de que os signos linguísticos ganham crédito por meio das diferenças e alteridades que têm com relação a outros paralelos em um sistema de expressão. Mais claramente, os elementos da língua adquirem sentido em relação às distinções que existem entre eles e os demais elementos. Por exemplo; em um par de oposição binária como “grande” e “pequeno”, o peso de cada palavra deriva da diferença entre elas. “Grande” não tem sentido absoluto em si, mas é entendido em contraste com o “Pequeno”, sendo essa disparidade básica da razão da dessemelhança e diferença oposta de ambas. Os signos não têm significado pertencente, mas obtêm a sua essência pela relação com outros sinais e símbolos. Isso importuna que a identidade e o preceito de um termo linguístico moldado pelas relações de contraposição com outros termos. A oposição binária é demandante para entender como nossa linguagem funciona num sistema complexo, onde a significação é construída no caminho das diferenças e suas relações, como conjunto de sinais interconectados. Língua e fala, uma estrutura abstrata. O conceito de “langue” (língua) e “parole” (fala), se fixa como uma estrutura abstrata e sistêmica, sendo repartida, compartilhada por uma comunidade ou grupo, enquanto a fala é a expressão concreta e individual da língua, a mesma se veicula em situações específicas. Essas posições transcendem a própria locução e se estendem a disciplinas como a semiótica, a antropologia e a filosofia. Sua aproximação estruturalista moldou como entendemos a fala como um sistema de signos, a importância das relações internas e a discricionariedade no erguimento de determinadas caracterizações. Destarte, Lacan foi guiado pela experiência com as formações do inconsciente; chistes, atos-falhos, sonhos, lapsos, etc, reinventa a obra de Saussure, argumentando que a linguagem seria constituída essencialmente de significantes e não de signos, e que o significado não teria uma relação fixa com o significante. O know-how psicanalítico teria demonstrado que o significado é extremamente volátil, evanescente, como um fluido que desliza ao longo da cadeia de significantes. Nesse sentido, a noção de signo deveria ser relativizada, já que uma relação mais ou menos fixa entre significante e significado estaria restrita a uma dada conjunção. Por outro lado, na linguagem na totalidade, isto é, no lugar do ''Outro'', lugar que ele define como o “tesouro dos significantes”. Para ampliar a compreensão do tema trago algumas citações importantes; “O sujeito é dividido entre o consciente e o inconsciente.” Sigmund Freud. Sugere que o sujeito é uma entidade complexa, composta tanto por aspectos conscientes quanto inconscientes, e que muitos dos processos mentais ocorrem abaixo da superfície do pensamento consciente. “O sujeito é uma construção histórica e cultural.” Michel Foucault. Argumenta que o sujeito não é uma entidade fixa e universal, mas sim uma construção que varia ao longo do tempo e do contexto cultural, moldada por sistemas de poder e normas sociais. “O sujeito é um efeito da linguagem.” Julia Kristeva. Enfatiza que a linguagem não apenas expressa o pensamento, mas também é fundamental para a formação do sujeito. A linguagem é uma ferramenta através da qual a identidade e o sentido são construídos. “O sujeito é uma entidade em constante transformação.” Erik Erikson. Afirma que a identidade do sujeito é um processo contínuo de desenvolvimento ao longo da vida, influenciado por experiências, relações e contextos culturais. “O sujeito é moldado pela relação com os outros.” Melanie Klein. A abordagem de Klein enfatiza como as primeiras relações interpessoais, especialmente com os cuidadores, influenciam a formação da personalidade e das dinâmicas psíquicas do sujeito. “O sujeito é afetado pelo inconsciente coletivo.” Carl Jung. Ele introduz o conceito de inconsciente coletivo, onde os padrões universais e simbólicos compartilhados pela humanidade também desempenham um papel na formação da psique individual. “O sujeito é uma construção de narrativas.” Paul Ricoeur. Destaca como as histórias que contamos sobre nós mesmos e nossa vida são centrais para a construção da identidade do sujeito, moldando como nos percebemos e nos relacionamos com o mundo. O sujeito não é isolado, não é em si uma concepção individualista, mas isso não o torna coletivo necessariamente, não sobre uma apreciação sociológica ou comunitária, nem uma coisa, nem outra.  Assim, pode ser apreciado na sua imiscuição, misturado com a alteridade que não é ''Um'', mas é dependente do ''Outro''. A psicanálise instaura um tipo de sujeito regido por uma lógica que não é a da identidade, mas a da alteridade; (a alteridade envolve a relação constitutiva do sujeito com, e a partir do outro, entendendo que trabalhar com ela demanda o reconhecimento e o trabalho com às diferenças. Essa dimensão possibilita questionar sobre as concepções de disparidade elaboradas por psicanalistas que atuam na prática clínica, mas de uma alteridade que no seu determinismo o faz com insuficiência — uma particularidade onde a estrutura desse ''Outro'' já está barrada). Irremediavelmente, considerar o sujeito da psicanálise como livre, pode ser contraditório, porque sujeito, como adjetivo, também significa estar exposto a algo, visto que na etimologia da palavra deriva do particípio ''sujeitado''. O sujeito traz consigo, portanto, a ideia de sujeição, isto é, de estar subordinado a algo, e se o sujeito é sujeito, se está sujeito, como sujeitado é, não é livre, é se a liberdade não é sem o ''Outro'', então fechamos a questão, quando também é certo e líquido, que como crianças começamos como tais, (sujeitos). Ao poema; ''Espelhos da Alma'' — De Dan Mena. No mundo do pensamento, um sujeito singular, Cartesiano em sua busca, a verdade perscrutar, Com “Cogito, ergo sum”, Descartes nos declarou, O ''eu'' como ponto de partida, onde tudo deu start. No cogito se alicerça, o sujeito que está em foco, Uma certeza indubitável onde a dúvida é pouco, Na razão e no método ele habilmente sustenta, Um sujeito pensante em sua mente cinzenta. O sujeito cartesiano, consciente e pensador, Na dúvida metódica, ele encontra seu labor, Questiona o mundo, os sentidos, seu valor, A existência racional de existir, se elaborar. Na ''res cogitans'', o sujeito se ajusta, No pensar ele existe, sua presença acusa, Na cognição desbrava seus véus, Sujeito cartesiano em seus próprios réis. Um ser que com dúvida assoma, Duvidando de si, sua essência inspeciona, Uma mente racional em busca do axioma, Se encontra, cria, desfaz e tudo relaciona. Trazendo luz a psicanálise adentra, Na genialidade de Lacan a alma penetra, O lugar onde o sujeito se denomina, Jornada complexa onde a mente caminha, O plural da linguagem que o determina. No simbólico manifesta-se o laço da trama, Na busca significante que a psique inflama, Em espelhos e fantasias ele se retrata, No espelho do eu, se reclama. O sujeito como efeito do enunciado, Na linguagem encontra seu predicado, Cada rima, cada verso, tecem o discurso, A suposta narrativa do terreno fecundo.   No âmago da mente inconsciente arguto, Lutando com sonhos, desejos, oriundos, Emaranhado de memórias históricas e anseios, Busca sentido nos mais lascivos apegos. No divã da análise a voz e absoluta, se ergue alta, Descobrindo as origens das raízes que exalta, O sujeito em movimento explora suas queixas, Emergindo do breu aquilo que o cega, que nega. Final da jornada uma compreensão se levanta, O sujeito se aceita, resolve e exalta, Segredos exterioriza que logo se familiariza, Repletos de história que o traumatizam. Arquétipos que agora dançam em sintonia, A psicanálise investiga, pois cada um tem sua valia. No divã das palavras vastas, silenciosas ou vazias, O sujeito se encontra nas suas infinitas teorias. No âmago da alma, o divino se abriga, Além do racional, há Deus que tudo domina, A fé em Deus que a alma engrandece, Num Ser supremo que tudo transcende, Da subjetividade ele É o alicerce. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130

  • A Fixação.

    “A fixação é uma forma de resistência ao crescimento. Ela nos impede de nos tornarmos quem realmente somos.” Lacan - por Dan Mena. A infância é um período de descobertas e aprendizados. Durante essa fase, grande parte da personalidade de cada indivíduo é moldada, assim como nossa percepção de mundo e a maneira como compreendemos experiências, emoções, afetos, gostos e desejos, que começam a se solidificar nessa etapa inicial da vida. Mas você sabe o que é uma fixação? É um conceito que pertence à teoria freudiana da psicanálise, onde a libido de uma pessoa pode se direcionar a um objeto de desejo com grande intensidade. Esse elemento pode ser outra pessoa, mas também imagens ou até mesmo coisas. Seguindo essa ideia, se origina prematuramente e influenciará a vida da pessoa na fase adulta, criando certa dependência em relação ao seu desejo objetal, podendo ficar preso(a) a uma fase do desenvolvimento psicossexual infantil. Para compreender o que acabo de explicar, é necessário entender o significado de libido na teoria psicanalítica. Ela se refere ao desejo sexual, e essa é a concepção mais popular de uso comum, incluindo toda a energia que motiva seus comportamentos introjetados. A essa forma de potência psíquica que direciona a ação para um objetivo, chamamos de pulsão. A libido seria um afeto ligado a ela e direcionada pelo indivíduo. O importante, é que na infância, diferentes períodos pulsionais se desenvolvem, guiando a libido conforme a fase em que o sistema nervoso se encontra. Na nossa mente existem estados primitivos que, em certas circunstâncias, podem ser restabelecidos e detonam um gatilho quando surgem determinadas dificuldades. Assim, a força libidinal e retirada dos objetos exteriores e reenviada para si próprio. Encontramos seis fases do desenvolvimento psicossexual, que serão os motivos desencadeantes se a pessoa continuar ancorada em dito ciclo. Boa leitura. Elas se sucedem à medida que a criança cresce, existem pulsões muito instintivas, como a pulsão de vida, sendo simplesmente o instinto de sobrevivência. No entanto outras estão relacionadas à sexualidade, que Freud as divide assim; Fase Oral: ocorre no primeiro ano de vida. Fase Anal: verifica-se entre dezoito meses e três anos. Fase Fálica: intercorre entre três e seis anos. Complexo de Castração: a quarta fase, a partir dos seis anos, é quando a criança vê seus desejos edípicos frustrados. Período de Latência: também a partir dos seis anos, mas até a puberdade, considerada uma espécie de pausa no desenvolvimento da sexualidade. Fase Genital: é a última, começa na puberdade, momento em que os interesses sexuais do indivíduo se desenvolvem. Essas seis fases ocorrem sucessivamente desde o nascimento até a juventude, mas a psicanálise acredita haver pessoas que não as completam as mesmas, ficando 'fixadas' em alguma delas. Como isso pode ser identificado? Oral: Onde a boca é a zona erógena central, uma fixação pode surgir se as necessidades de alimentação e conforto não forem adequadamente atendidas. Isso pode levar a comportamentos como o hábito de chupar o dedo na vida adulta, procurando conforto emocional através da oralidade. Anal: O controle dos esfíncteres é central, uma fixação pode se manifestar se a criança enfrentar conflitos em relação à autoridade e ao controle. Resulta em comportamentos obsessivos e uma necessidade pujante de controle em áreas da vida adulta como o caso do perfeccionismo. Fálica: Quando ocorre o complexo de Édipo, uma fixação pode surgir se os sentimentos de desejo e rivalidade não forem adequadamente resolvidos. Isso pode levar a comportamentos de sedução ou uma busca incessante por aprovação e reconhecimento dos outros. Complexo de Castração: Envolve confrontar a ansiedade de perder o amor dos pais. Esse complexo pode resultar em inseguranças profundas em relação ao sexo oposto, medo de intimidade e dificuldades em estabelecer relacionamentos saudáveis consigo mesmo e o corpo. Latência: Pode ocorrer se as questões de autoestima e competência não forem ajustadas. Isso pode se manifestar em baixa autoestima, falta de confiança em utilizar habilidades e dificuldades em assumir responsabilidades na vida adulta. Genital: Uma fixação pode ocorrer se questões de identidade sexual e orientação não forem resolvidas. Isso pode levar a conflitos internos em relação à própria identidade e dificuldades em aceitar a diversidade sexual. Exemplo de um caso típico. Podemos observar esse estado em indivíduos psicóticos. Geralmente eles(as) apresentam uma disposição psíquica de ruptura com a realidade, obrigados a suprimir e retirar completamente suas necessidades libidinais dos seus objetos amados, onde transferem esta  posição de agente para o seu próprio ego. Isto produz nos psicóticos sintomas megalômanos e um retrogresso a um estado de narcisismo pelo qual a criança teve um desenrolar psíquico normal. Se o indivíduo não consegue resolver os desafios em um momento específico, a energia libidinal pode permanecer “retida”, afetando o amadurecimento posterior. Interpretando a interconexão nas fases psicossexuais. Como se exibem? Se você é alguém que denota exímio contentamento, alegria exagerada, idealismo e otimismo, proclama uma certa facilidade na forma de enxergar a vida, como uma equação muito simples. Possui um traço de tendências egocêntricas concentradas em si, digamos uma dependência de certa forma. Se demonstra um interesse particular e objetivo pela linguagem, se envolve em todo tipo de diálogos, debates, ideologias, conversas, controversas, repete ideias, um desejo insaciável por conhecimento, então, pode estar fixado(a), devido a uma superproteção na fase oral incorporativa-passiva. Caso manifeste traços de gula na alimentação, desejos excessivos e incontroláveis por mastigação, se identifica como um(a) comprador(a) compulsivo(a), invejoso(a), pessimista e dependente de companhia, bem como; costuma roer unhas, chupar dedos, inveterado(a) fumante, mastiga chicletes continuamente, tem preferência por sexo oral, então pode estar fixado(a) a uma frustração na fase oral incorporativa-dependente. Se sua personalidade é exageradamente ativa, nunca para, é possível que você tenha uma fixação na fase oral-agressiva devido a uma superproteção familiar. Se está caracterizado(a) por usar de um cinismo acentuado, uma interpelação do outro de tom brusco, irônico(a), sarcástico(a), humorístico, invasivo(a), critico(a), usa de indiferenças e possui uma tendência a obter prazer em machucar o outro emocionalmente, magoar, julgar sem fundamentos, pode indicar uma fixação devido à frustração na fase oral-agressiva. Você expõe um comportamento exagerado por ordem, limpeza, detalhamento, organização, pode refletir uma formação de reação contra o desejo de confrontar conflitos. Isso se manifesta em um foco excessivo na pontualidade, rotina ou em manter tudo em seu suposto devido lugar. Também, pode se manifestar via comportamentos obsessivo-compulsivos e ações voltadas para agradar os outros, como dar presentes ou ser caridoso sobremaneira. Esses contornos podem estar relacionados a uma fixação na fase anal-expulsiva. Especialmente vaidosa(o), econômico(a), possui um desejo de reconhecimento público, teimoso(a) na exibição da sua imagem, procura a fama incondicionalmente, potencializa sua masculinidade ou feminilidade, possivelmente esteja fixado(a) na fase anal-retentiva. Na fase fálica, pode se manifestar através da curiosidade extrapolada, exibicionismo, exploração dos outros, demonstrações superes de masculinidade ou feminilidade, ambição desmedida, egoísmo, narcisismo e tendência a homossexualidade. Nunca se sente à vontade em relações heterossexuais, evita contato com pessoas do sexo oposto, pratica atos sexuais que não deseja compartilhar com seu parceiro ou se envolve em comportamentos violentos, isso indica uma fixação na fase de latência. “A fixação é um estado no qual um indivíduo fica preso a um estágio anterior do desenvolvimento psicossexual. Isso pode acontecer quando o indivíduo não pode lidar com os conflitos e ansiedades associados a uma determinada fase.” (Freud, 1905). “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”. Neste livro, Freud propõe uma visão revolucionária sobre o desenvolvimento psicossexual, desafiando tabus sociais e tradicionais concepções sobre a sexualidade. As aberrações sexuais. São comportamentos que desviam do padrão considerado normativo regular. Esses desvarios não devem ser vistos apenas como perversões, mas sim como manifestações diferentes da sexualidade que não é restrita apenas à genitalidade, mas se manifestam de maneiras diversas. A transformação da puberdade. A transformação da sexualidade na adolescência e a emergência dos desejos sexuais direcionados para outros indivíduos, será o ápice motor onde a criança experimentará sentimentos conflitantes em relação aos pais e como essas conflagrações podem moldar a sexualidade adulta. Em qualquer um dos estágios podem resultar em traços de personalidade, comportamentos e confrontos emocionais específicos. A resolução bem-sucedida dos embates em cada ponto, resulta em conflagrações saudáveis da personalidade. No entanto, fixações não resolvidas podem levar a comportamentos repetitivos e dificuldades emocionais. Diversas abordagens. São os colaboradores de Freud que estabelecem distinções mais sutis do tema, dependendo do momento (início, consolidação ou fim de uma fase) em que ocorrem as fixações ou do que é traumático, como é construído (percebido) o exteriorizado. Distinção baseada no momento: Seus auxiliares sugeriram que as fixações podem ser prováveis de ocorrer em certos pontos, como o início de uma fase, quando o indivíduo está mais vulnerável a influências externas. Diferença baseada no traumático: Pode ser algo que ocorre no interior do sujeito, como uma experiência de perda ou separação. Jung foi um aluno de Freud, ele desenvolveu sua própria teoria psicanalítica (o que o levou a sua eliminação da escola freudiana), que também incorporava o conceito de fixação. No entanto, ele enfatizou a ideia de que tal não estava apenas relacionada ao fenômeno psicossexual, mas também, ao desdobramento geral da personalidade. Ele introduziu o conceito de “complexo”, que se forma quando experiências não resolvidas ou traumáticas resultam em um foco excessivo de energia em determinados aspectos do ego. Esses predicados podem causar comportamentos e emoções desequilibradas ao longo da vida.  Cooperações de Melanie Klein. No período de vida precoce, no qual a fixação pode ocorrer devido a traumas ou interações parentais disfuncionais, puxa a ''teoria dos objetos internos'', que sugere que as primeiras perícias emocionais formam “objetos” mentais que irão influenciar a maneira como vamos perceber o mundo ao nosso redor. A criança internaliza essas imagens das figuras parentais, chamadas de “objetos internos”, que representam os aspectos bons e maus das relações emotivas. Esses soflagrantes internos desempenham um papel significativo na formação do “self”, e na maneira como a criança interage com outros e com seu interior reprimido. São duas posições principais que elas sustentam: a esquizo-paranoide e a depressiva. Na conformação esquizo-paranoide, percebe o mundo de maneira fragmentada e polarizada, projetando aspectos bons em um objeto e maus em outro. Na depressiva, integra esses objetos, reconhecendo a ambivalência e complexidade das emoções, onde ditas demarcações podem levar a padrões repetitivos de relacionamento e comportamento na maturidade. Teoria do desenvolvimento de Winnicott. Winnicott acreditava que o desenvolvimento emocional salutar depende da capacidade do bebê em estabelecer uma relação significativa com sua mãe ou cuidador. Conceitos de “holding” (sustentação) e “objet transitionnel” (objeto transicional) são fundamentais para os primeiros anos de vida. 1 - O termo “holding”, não se refere apenas à ação física de segurar a criança nos braços, mas também ao cuidado emocional e disponibilidade do cuidador de atender às necessidades básicas dele. É a capacidade de proporcionar um espaço de confiança, acolhimento e apoio, onde ele(a) se sinta seguro para averiguar o mundo e se manifestar emocionalmente. Particularmente importante nos estágios originais, quando o infante ainda não consegue regular suas emoções e precisa da presença constante e sensível dos pais para se sentirem amparados. Através da sustentação, um senso de confiança básica se estrutura no mundo das relações interpessoais, formando a base para a construção de um "self" saudável. Não é apenas uma tarefa física, mas também, uma responsabilidade emocional quando essa função é desempenhada de maneira adequada ele(a) se sente aceito, amado e valorizado participando ativamente na formação da identidade sólida e saudável de gerir laços na vida adulta. 2 - O “objet transitionnel” (objeto transicional), se relaciona a um objeto físico, frequentemente um objeto de apego, como um cobertor, um urso de pelúcia, chupeta, fralda, brinquedo, ou outro reconfortante, que ele(a) escolhe para se acalmar, logo, desempenha um papel sintomático na transição entre o mundo interno e externo. Surge em um estágio onde a criança começa a perceber a separação entre ela mesma e sua mãe ou cuidador. Serve como um ponto de conexão entre ela e o mundo ao seu redor, preenchendo a lacuna entre o interno, fantasias, emoções, necessidades e o externo, objetos reais e pessoas. O objeto em questão tem características de ambos, representando uma parte da criança e sua ligação com o ambiente. Permite que lide com a ansiedade da separação, oferecendo conforto e segurança. Ao abraçar ou interagir com o objeto, pode recriar sentimentos de proximidade e ligação normalmente experimentados com a figura de afeto. Gradualmente, à medida que amadurece emocionalmente o objeto transicional tende a perder sua importância, mas deixa uma marca duradoura na expansão da sua capacidade de lidar com seus sentimentos e extensão das transições. Ditas realidades não são abruptas, mas sim facilitadas por esses instrumentos que atuam como uma ponte emocional. A continuidade, Winnicott descreve o “falso self” como uma adaptação defensiva que algumas crianças desenvolvem para se ajustar às demandas de seus protetores, muitas vezes suprimindo aspectos genuínos da sua personalidade. Essa supressão pode levar a ditos enquadramentos, onde certos ângulos do self não são plenamente florescentes. O indivíduo pode então continuar a se comportar de maneira adaptada e agradável para evitar desencadear reações negativas dos outros. Ditos balizamentos ocorrem quando o ambiente não fornece um ambiente suficientemente bom, (“good enough environment”) para o desenvolvimento saudável do self, uma atmosfera facilitadora permite que a criança percepcione uma sensação de continuidade e autoconfiança, o que é essencial para superar fixações e desenvolver um self autêntico e legitimo da sua personalidade. Pela visão de Lacan. Ele reconceituou muitos temas psicanalíticos, incluindo a fixação, em sua busca para expandir a compreensão da psique humana. Incorporou a ideia de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, uma vez que acredita que os processos psíquicos são mediados pela linguagem e pelos significantes. Essa dimensão linguística deu origem a conceitos-chave, como o “estádio do espelho” e a “função do Nome-do-Pai”, que influenciaram sua compreensão. A fixação como consequência da linguagem, não é apenas uma estagnação de energia libidinal, mas também o resultado do modo como os significantes e a sua exterioridade moldam o sujeito. Às psicopatologias latentes são produtos da falha na integração adequada desses eloquentes na estrutura do self. Portanto, não é apenas uma questão de libido presa em um estágio de evolução, más uma linguagem que se entrelaça com as vivências. O ''Estádio do Espelho'' e a ''Formação do Eu'', exploram a formação da identificação, indicam que a fixação ocorre quando o indivíduo não consegue integrar adequadamente a imagem refletida no estádio do espelho, resultando em uma divisão do self. Isso pode levar a uma busca constante por uma completude impossível ou uma alienação do ''eu do corpo'', contribuindo para o aparecimento de dinâmicas como às manias obsessivas e psicológicas. O papel da linguagem e dos significantes incidem quando não conseguem se vincular de maneira coesa na mente do sujeito, levando a lacunas e mal-entendidos que o afetam, afunilando finalmente na dificuldade de expressar sentimentos adequadamente e em compreender a si, como também aos outros. Caso clínico de fixação utilizando o “objeto a” de Lacan. Norberto meu cliente, é um homem de 45 anos, procurou tratamento psicanalítico devido a uma sensação constante de vazio e insatisfação em sua vida. Ele me relata ter muitas dificuldades em estabelecer conexões significativas com os outros, e sente que sua vida carece de propósito e sentido. Embora seja um empresário bem-sucedido, chegou a um ponto em que percebe que sua carreira e êxito não lhe proporcionam a realização que deseja. Durante as sessões, compartilha suas experiências que incluem uma infância marcada por ser negligenciado emocionalmente pelos pais. Conta que frequentemente eram ausentes, desatenciosos e grosseiros. Por otra parte, devido a compromissos profissionais e uma vida social agitada terceirizavam sua existência. Ele cresceu num ambiente familiar se sentindo isolado, e buscava logicamente atenção de seus pais, más, era assiduamente ignorado. Dentro das suas falas, silêncios e narrativas, ditas e não ditas, explorei a possibilidade de que sua fixação pudesse estar relacionada a uma busca constante por reconhecimento e validação. Tudo sugeriu ele estar preso em um ciclo repetitivo, onde sua meta inconsciente de conseguir aprovação externa para acomodar e preencher o vácuo emocional resultante de sua infância fragmentada era predominante. O ajudei a interpretar e perceber como sua diligência desenfreada por conquistas profissionais, posição social, anseios de proximidades emocionais e validação de reconhecimento estavam conectados às suas primeiras experiências negativas desse desamparo infantil. Neste tratamento, foi importante usar o conceito lacaniano do “objeto a”, que representa o ícone do desejo inatingível e insaciável do ser. Para o paciente, o “objeto a” pode estar representado pela legitimação que nunca recebeu dos seus pais. Uma vez guiado, ele conseguiu explorar suas emoções subjacentes e reconhecer que sua imperativa demanda por abonação estava se perpetuando nesse suposto lugar do vazio emocional que o angustiava e frustrava. Ao compreender esse dinamismo entre suas condutas passadas e atuais, iniciou o enfrentamento de um processo para se desvincular das fixações históricas que o mantinham preso em padrões insatisfatórios. ''A noção de frustração, quando colocada em primeiro plano na teoria analítica, é remetida à primeira idade da vida (…) trata-se de condições reais, que supostamente devemos localizar nos antecedentes do sujeito através da experiência analítica (…) A noção de frustração é considerada portanto, como um conjunto de impressões reais, vividas pelo indivíduo em um período do desenvolvimento (…) qualificada de primordial, em relação à qual se formarão (…) e se inscreverão suas primeiras fixações, aquelas que permitiram descrever os tipos dos diferentes estágios instintivos'' (Lacan 1956). Outro caso clínico usando os ''padrões arquetípicos'' de Jung. Ana, é uma mulher de 39 anos, sondou pelo tratamento devido a uma sensação persistente de estagnação em sua vida. Relatou nas entrevistas iniciais possuir amplas dificuldades em se adaptar a novas situações e percebe que a cada dia que atravessa está perdendo oportunidades importantes de viver com qualidade, tanto na área profissional quanto emotiva. Ela é uma artista talentosa, mas tem medo de encarar novos desafios, modificar estilos e variar expressões. Uma vez que entrou em análise, durante as sessões me participa e conta pormenores muito claros de sua infância conturbada, frisando que muitos desses detalhes são persistentes em seus sonhos. Cresceu em um ambiente altamente controlador, agressivo, opressivo e com regras rígidas de conformidade moral. Seus pais a forçaram a seguir uma carreira tradicional que a levou a uma grande frustração vocacional, tendo que seguir um caminho que não era da sua escolha. Foram quase vinte anos sustentando dito desvio impositivo, até que se libertou para sua real vontade. Destarte conseguiu corrigir o problema, seu aferro permaneceu localizado na resistência a introdução de novas práticas, traquejo de vida e adquisição de novos conhecimentos, que ficaram relacionados à influência dos complexos arquetípicos em sua fase infantil. A abordagem de Jung dos ''padrões arquetípicos'', aproxima a compreensão do arcabouço de padrões repetitivos de comportamento e resistência , devido à influência de complexos vividos. Aqui é possível trabalhar com o conceito de “persona” e “sombra”, de forma que Ana seja incentivada a perfazer aspectos não expressos de sua personalidade, como resultado de paradigmas ligados aos papéis sociais que foram exigidos compulsóriamente, identificando ditos esquemas que moldaram suas escolhas e comportamentos. Paulatinamente ela começa a reconhecer que seus parâmetros estão assentados em medos estruturados na sua infância. Sobre ditas perspectivas, ela iniciou um processo na superação e re-elaboração dos seus modelos fastidiosos, que permitirão um crescimento positivamente transformador. Esses modelos de cânones standards podem ser encontrados em todas as culturas e épocas, expressos em mitos, lendas, contos de fadas, sonhos, obras de arte, poesia e literatura. Quais são eles? O herói: Personagem que parte em uma jornada para enfrentar um desafio ou uma adversidade, é um símbolo de coragem, força e determinação. O salvador: Ele vem para salvar o dia como ícone da esperança e renovação. O sábio: Possui conhecimento e sabedoria, se apresenta pela iluminação e compreensão. A criança: Marca de inocência, criatividade e potencial. A mãe: Representa a nutrição, proteção e amor incondicional. O pai: Personifica a autoridade, força e estrutura. O amante: Traduz o romance, paixão e intimidade. O trickster: Astuto e travesso, personifica a ambiguidade e dualidade. Os padrões arquetípicos podem nos ajudar a entender a nós mesmos e o mundo ao nosso redor, nos fornecem uma linguagem para falar sobre nossas experiências mais estudas e significativas. Exemplos práticos de como podem ser aparentados no cotidiano; Um homem que se vê como um herói, pode ser motivado a correr riscos e enfrentar desafios desnecessários. Uma mulher que se identifica com a mãe pode sentir um forte instinto de cuidar dos outros exageradamente. Um jovem que está passando por uma crise de identidade pode se sentir atraído pelo arquétipo do trickster. (ambíguo). Regressão e fixação caminham juntas. A regressão é um mecanismo de defesa que leva à reversão temporária ou a longo prazo do ego para um estágio anterior de desenvolvimento, o indivíduo pode recorrer a esse subterfúgio para lidar com a ansiedade, fobias e outras queixas. Isso pode acontecer em resposta a um estresse ou trauma que podem ser de dois tipos: 1 - Libidinal: É a reversão da libido para uma fase anterior ao prosseguimento psicossexual. 2 - Defensivo: É o retrocesso do ego para um estágio preliminar de desenvolução para evitar a ansiedade. Fixação e regressão. Uma pessoa que foi abusada(o) sexualmente na infância pode desenvolver uma fixação oral e se tornar dependente ou possessiva(o). Um indivíduo que está se sentindo inseguro em um novo emprego pode retornar à fase anal e se tornar obstinado ou controlador. Quem está enfrentando um trauma, pode regressar à fase fálica e se comportar de forma infantil, imatura e violenta. Assim, podemos deduzir que a fixação é inseparável da regressão, uma vez que implica a presença dos objetos de satisfação que se caracterizam por uma determinada fase, atuando na vida presente do adulto regressivamente. Desta forma, a neurose se configura como um ''modo de resposta'' a “toda dificuldade na sua vivência madura”, como resposta a; “qualquer dificuldade no exercício da relação de objeto mais evoluída”, (Bouvet, 1956). Este modo de ''feedback'', detectado em modalidades infantis, correspondem a modelos de organização que já deveriam ter sido apagados no caminho da maturação do ego. A fixação se infiltra no eu adulto, e a sua manifestação numa tipologia ocorre já no sujeito amadurecido. Bouvet os denomina como traços de caráter; eis as características que separam o pré-genital do genital (…). Os pré-genitais são indivíduos com um ''eu'' fraco, (…) a estabilidade, a coerência do ''eu'' depende da relação com um objeto significativo, (…) que sustentam relações extremamente próximas, (…) se apresentam com violência, falta de nuances e absolutismo, (…) absolutização dos desejos de uma criatura. Os órgãos genitais, por outro lado, possuem um ''eu'' que não depende de um objeto significante, (…). O objeto significante, (…) põe em jogo a sua individualidade (…) A perda, por mais dolorosa que seja, não perturba de modo algum a solidez da sua personalidade. Para o adulto, a regressão aos pontos de fixação vertem pelos rasgos de caráter. Se concretizam pela tipologia pré-genital e a fixação de objetos na modalidade de satisfação, seja no estado pre-genital, (oral o anal), atuando como consequência no presente do indivíduo.  Fixação e regressão podem ser tratadas na terapia psicanalítica, o objetivo é auxiliar o paciente a compreender suas experiências infantis e a lidar com os enfrentamentos associados a um estágio anterior da sua vivência. “A regressão é um mecanismo de defesa que leva à reversão temporária ou a longo prazo do ego para um estágio anterior de elaboração. Isso pode acontecer em resposta a um estresse ou trauma.” (Freud, 1920). A técnica da associação livre que utilizamos confere a interpretação e manejo da transferência para ajudar o(a) mesmo(a) a acessar memórias e sentimentos reprimidos. Ao fazer isso, o analisado pode se reconectar com suas experiências e entender como elas influenciam seu comportamento atual. “Fixação e regressão são dois conceitos importantes na psicanálise que podem ser usados para compreender a personalidade e o surgimento de sintomas psicológicos.” (Laplanche e Pontalis, 1967). Diversos livros que abordam o tema; “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (1905): Apresenta as ideias iniciais sobre o desenvolvimento psicossexual e os estágios nos quais a energia libidinal se fixa, influenciando o desenvolvimento da personalidade. “A Interpretação dos Sonhos” (1899): Embora não seja centralmente focado na fixação, este livro é uma obra que explora muitos conceitos fundamentais da psicanálise, incluindo os do desenvolvimento psicossexual que podem influenciam o complexo abordado. “Além do Princípio do Prazer” (1920): Neste livro, Freud discute a ideia de que a vida psíquica é guiada por pulsões de vida e morte. Isso também tem relevância para a compreensão das fixações, ao abordar as forças que moldam a psique humana. “Psicologia das Massas e Análise do Eu” (1921): Embora não seja especificamente sobre fixação, neste livro, Freud discute a influência do inconsciente coletivo nas massas e como as dinâmicas psíquicas podem ser compreendidas em grupos. Isso pode ter implicações para a compreensão de fixações do contexto social. “A fixação é um fenômeno muito comum na infância. É raro que um indivíduo atravesse as diferentes fases do desenvolvimento psicossexual sem que haja algum grau de fixação.” (Freud, 1905). “A regressão pode ser um mecanismo de defesa muito eficaz. Pode auxiliar o indivíduo a lidar com a ansiedade e o estresse, evitando que ele tenha que enfrentar conflitos ou traumas que ainda não foram resolvidos.” (Freud, 1920). “Fixação e regressão podem ter um impacto significativo no desenvolvimento da personalidade. Podem levar a problemas emocionais e comportamentais na fase adulta.” (Laplanche e Pontalis, 1967). Ao poema; Fixação por Nilson Ferreira. Estou propondo um coração Suponho um corpo Quase louco Num querer em vão Estou propondo o meu desejo Depois da fala Um lento beijo Pra acalmar o coração. Estou propondo um louco amor O agito e a calma Proponho a alma Desse sonhador Estou propondo uma verdade Trancada no coração Não é sonho, nem costume É fixação. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130

  • O Pessimismo.

    “O pessimista, se queixa do vento; o otimista espera que ele mude; o realista ajusta as velas.” Nietzsche. Por Dan Mena. A motivação para superar a nós mesmos é um dos motores impulsionadores que nos fazem avançar, que nos levam a evoluir. No entanto, em algumas ocasiões, nossa motivação é afetada, diminuída, após passarmos por uma sequência de infortúnios na vida, perder alguém querido, más notícias, tentativas fracassadas ou projetos não concluídos. A partir desse ponto, começamos a enxergar tudo ao nosso redor de maneira mais negativa. Então, como uma sombra, irrompe o pessimismo como uma atitude psicológica, uma forma de pensamento que pesa e julga tudo o que acontece ao nosso redor, transformando o conjunto para o plano desfavorável. Normalmente, esse fator tende a ser aplicado às crenças que temos sobre si, e não sobre os outros. Na verdade, nossa autoimagem negativa está sempre projetada, e costuma ser mais acentuada em detrimento da visualidade mais positiva que temos dos outros, o que inclui supervalorizar suas qualidades, supostas realizações e características admiráveis, ou até mesmo, um estilo de vida social invejado. Muitas vezes ele será potencializado e distante da realidade desse ''outro''. Eis o processo básico da comparação social, onde contrapomos o que percebemos ou acreditamos deduzir, com o que acreditamos ter ou não. O resultado desse trágico julgamento pode ser desastroso para nossa vida, em momentos em que vemos tudo que nos íntegra de maneira rebaixada e desvalorizada. Esse raciocínio comparativo, contextualizado sob uma percepção depreciada; tipo não sou tão bom, bem-sucedido ou feliz quanto outros, é contagiado, infeccionado por uma série de vieses subjetivos que acrescentamos a nossa realidade, onde introduzimos nela o produto do nosso estado emocional, que assumimos como sendo completamente verdadeiro, o que nem sempre é de fato. O pessimismo, pode ser entendido, confrontado como uma tendência a ver as coisas negativamente, esperando o pior dos resultado em situações futuras, muitas vezes, as quais carregam emoções como tristeza, desespero, angústia e desânimo. Na psicanálise, algumas ideias e conceitos podem ser relevantes para sua compreensão. É importante notar que não é uma abordagem clínica que se concentre especificamente nele, em vez disso, buscamos sua ilação, que se mistura por via de outros temas patológicos e postulados. Quais seriam então os elos por onde puxamos sua captação? Alguns aspectos da nossa técnica incluem observar: A Teoria do Instinto de Morte: Em “Além do Princípio do Prazer” (1920), onde Freud introduziu a noção chamada de “pulsão de morte”, lugar que a psicologia se mostra ligada a um impulso intrínseco em direção à obliteração, o que poderia ser interpretado como um elemento pessimista da sua teoria. Pulsão de Eros e de Destruição: A “pulsão de vida” (Eros), ou energia psíquica que nos impulsiona em direção à busca de prazer, sobrevivência e conexões emocionais. Representa o instinto construtivo e afirmativo, frequentemente associado à sexualidade, que desempenha um rol relevante na nossa ação e motivação comportamental. A “pulsão de morte” (Thanatos), relacionada a impulsos autodestrutivos, portam uma certa tendência a nos conduzir em direção à agressão e à busca da inércia, que operam ativamente de forma contrária a Eros. Se configura como uma das principais forças que moldam o comportamento em conflito com o instinto de preservação e sobrevivência. Essa dualidade do ser, pode ser vista como uma ambiguidade entre forças construtivas e destrutivas que agem na psique. “O pessimismo é, em certo sentido, um excesso de otimismo. Uma vez que é uma posição daqueles que, de fato, buscam refúgio em uma vida que acreditam ser mais segura, mais verdadeira e mais significativa.” Freud. A identificação. Inconsciente: Postulamos a existência do inconsciente, uma parte da mente onde pensamentos, desejos e emoções reprimidos residem. Essa absorção subconsciente influenciam nossos afetos, emoções, sentimentos e atos, contribuindo para o envolvimento em situações negativas mal resolvidas, irresolutas. Conflito intrapsíquico: A ideia de que a mente está em luta permanente consigo mesma, se deve a predisposições inconscientes, que se chocam com as normas e valores da sociedade, direcionando o sujeito ao surgimento de embates céticos, éticos e morais. Defesa: Utilizamos estratégias defensivas para lidar com ditas emoções perturbadoras, algumas incluem a negação, a projeção e a repressão, que inseridos num panorama pessimista evitam a confrontação com aspectos dolorosos da vida que não queremos suportar. A natureza do pessimismo. O cenário conflagrado entre as pulsões são a fonte dessa contingência, que sobrenadam no seu próprio embate psicológico. As frustrações que surgem quando nossos desejos não são plenamente satisfeitos, seja devido às demandas da sociedade ou à realidade da mortalidade, podem levar a estados de angústia, ansiedade e negativismo. O ego, como uma das três estruturas da mente (com o id e o superego), age como mediador, buscando encontrar um equilíbrio entre às inclinações de vida e morte, muitas vezes através dos mecanismos de defesa acima anotados. Temos aqui dois players neste ambiente; o da repressão e o da sublimação. A ''repressão'' desempenha um giro na forma como o pessimismo é confrontado ao nível psicológico, sendo utilizado como gatilho pelo qual os desejos inaceitáveis ou ameaçadores que nos habitam são empurrados para o inconsciente. No entanto, uma vez reprimidos, podem encontrar expressão em formas disfarçadas, como sintomas neuróticos, sonhos, chistes, ou mesmo na visão pessimista de mundo. Já a ''sublimação'' é uma engrenagem que permite que os estímulos destrutivos da pulsão de morte sejam redirecionados para atividades socialmente aceitáveis e criativas, como a arte, trabalho, esportes; ou seja, transformados em realizações culturais, artísticas e intelectuais. Depressão e autodestruição, exemplo de cases. Uma paciente de nome fictício Andrea, mulher de meia-idade que busca tratamento devido a uma profunda depressão. Ela narra que se sente vazia, sem esperança e frequentemente tem pensamentos suicidas. Como qualquer indivíduo, possui uma pulsão de vida e deseja conexão, satisfação, amor e obter prazer na vida. No entanto, esses desejos não foram adequadamente satisfeitos devido a relacionamentos fracassados, opressivos, e traumas emocionais do seu passado sentimental. Os pensamentos suicidas, que neste caso representam a pulsão de morte, eis, Thanatos em ação, trabalhando como um impulso inconsciente em direção à sua autodestruição, sendo uma expressão clara dessa pulsão manifestada. A depressão que a acompanha, na nossa visão clinica, é uma luta entre Eros e Thanatos. Outro exemplo; Criação artística como sublimação; Consideremos um paciente chamado Carlos, ele enfrenta uma luta constante com sentimentos de raiva, ódio, frustração e um senso subjacente de pessimismo. Ele tem uma forte pulsão de vida direcionada para a criatividade artística, expressará suas emoções e experiências por meio de sua arte, o que lhe proporciona contentamento, alegria e prazer. No entanto, ele também lida com uma pulsão de morte interiorizada, seus sentimentos de ira, cólera, irritação, furor, agressividade e pessimismo podem ser interpretados como manifestações dessa pulsão. Ele se sente atraído por temas sombrios ou perturbadores no exercício e aplicação da sua arte. Em ambos os exemplos aqui apresentados, a análise psicanalítica ajuda a revisitar a dualidade entre Eros e Thanatos. Tanto Andrea precisa ponderar às razões por trás de sua depressão, incluindo os antagonismos internos entre o desejo de viver (Eros) e a pugna inconsciente de se autodestruir em (Thanatos). Carlos, por outro lado, pode se beneficiar ao compreender como suas criações artísticas funcionam como uma forma virtuosa de sublimação, canalizando sua energia destrutiva para algo positivo, produtivo e criativo. Esses exemplos clínicos simplificados obviamente, destacam como a psicanálise aborda a complexa interação entre as forças de vida e morte na psique, mostrando como o pessimismo pode ser uma manifestação dessa luta intrapsíquica que alimenta consequentemente uma depressão. Conflitos entre o Ego e o Superego. A formação de estados pessimistas; Ego (Eu): O Ego é a parte da mente que lida com a realidade e age como um mediador entre os impulsos do Id (inconsciente) e os padrões morais do Superego. Ele equilibrará as demandas do Id por gratificação imediata com as expectativas sociais impostas pelo Superego. Superego: Representa os valores, normas e moral internalizados do indivíduo na sociedade e das figuras de autoridade. Age como a ''consciência" e nos impõe padrões éticos e morais. Quando o Ego age de maneira contrária aos princípios do Superego, pode desencadear sentimentos de culpa e ansiedade largamente limitadores. A constituição dessa colisão entre o Ego-Superego surge quando ambos se enfrentam numa disputa. Por exemplo; imaginem uma pessoa chamada Maria que cresceu com altas expectativas familiares de obter o suposto sucesso social. Se o Ego de Maria não consegue atender a essas expectativas pré formatadas devido aos desafios na vida, pode ocorrer uma peleja entre o desejo dela é os seus contemporâneos em cumprir ditas esperadas viabilidades do (Superego) e o seu julgamento, como uma incapacidade de realizá-las (Ego). Sentimentos de culpa: Quando o Ego de Maria percebe que não está cumprindo os padrões do Superego, se levantam na sua mente sentimentos de opressão. Ela começa a se sentir culpabilizada por não estar à altura das expectativas dos seus pais e núcleos de atuação, mesmo que essas viabilidades e hipotéticas promessas sejam irreais ou excessivamente rígidas. Estado de Pessimismo: Vemos portanto, que o conflito prolongado entre o Ego e o Superego, acompanhado de sentimentos persistentes de inadequação, pode levar ela a um estado dessa natureza. Maria pode começar a acreditar que nunca será boa o suficiente, e o fracasso inevitável, independentemente de seus esforços e competências empenhadas. A análise dessas vertentes na formação de estados pessimistas, destaca como as demandas internas e externas podem colidir, resultando nessas interpretações emotivas. Através da psicanálise, podem ser explorados e trabalhados para promover uma compreensão mais profunda e alargada, eventualmente, possam atingir uma resolução mais livre e saudável. Psique e a subjetividade em Lacan. Jacques Lacan, psicanalista francês, abordou questões relacionadas em sua obra de uma maneira que se diferencia de outros. Embora não seja considerado adentrado ao pessimismo no sentido clássico, suas ideias sobre a psique e a subjetividade indicam aspectos conectados ao assunto. Uma das caracterizações paira sobre o “desejo”, onde nossos quereres, sempre incompletos, estão a todo momento na direção de encontrar algo mais. Essa ideia pode ser interpretada como descrente, no sentido de que sugere que tal determinante pode levar à insatisfação crônica. Também falou sobre o “gozo” (jouissance em francês), que se refere a uma forma de prazer além da jucundidade experimentada como dolorosa. Essa noção pode estar relacionada a uma vivência negativa, ao explorar as complexidades do prazer e do amargor que compõem parte dessa experiência de vida. Seu foco nessa leitura se aproxima da falta e na castração, como uma sensação primitiva do indivíduo, algo sempre ausente ou perdido na nossa vivência, ideia que pode ressoar com a sensação pessimista de que algo está inerentemente incompleto na nossa existência. A relação entre o indivíduo e a linguagem, como estrutura da bagagem subjetiva é frequentemente alienante, levantando questões sobre a possibilidade de uma comunicação autêntica e de compreensão mútua entre as pessoas. “O homem está condenado à liberdade.” Lacan. Esta frase destaca a ideia de que a liberdade do ser humano, particularmente em relação ao seu próprio psiquismo e à sua busca de sentido, pode ser uma carga pesada e desafiadora. Embora não seja uma afirmação direta de pessimismo, sugere a complexidade e as responsabilidades inerentes à condição da nossa essência primitiva como sapiens. Pessimismo na filosofia. Visto por uma corrente filosófica e psicológica, tem raízes tanto na filosofia quanto na psicologia, e se desenvolveu ao longo da história como uma dimensão que enfatiza o aspecto negativo da vida e da nossa condição. Na filosofia antiga: Foi um tema explorado pelos estoicos e os epicuristas na Grécia antiga. Os estoicos, por exemplo, enfatizaram a necessidade de aceitar o destino e as adversidades da vida como inevitáveis, buscando a tranquilidade através da virtude e da indiferença às emoções. De outro ângulo, os epicuristas, enquanto não necessariamente pessimistas, promoveram a busca do prazer moderado e a minimização da dor como uma maneira de alcançar uma vida mais satisfatória. Filosofia moderna: Floresceu durante o período da filosofia pôs-moderna, com pensadores como Schopenhauer e Nietzsche. Schopenhauer via a vida como permeada pela aflição, argumentava que a vontade de viver era a própria causa do sofrimento. Nietzsche, muitas vezes interpretado como um filósofo pessimista, apresentou uma visão mais complexa, explorando ideias de superação e transformação pessoal. “O pessimismo pode ser uma maneira de proteger a si mesmo contra a possibilidade da desilusão, mas também pode ser uma prisão que impede o crescimento e o desenvolvimento pessoal.” Winnicott. Existencialismo: Movimentos posteriores como o existencialismo abordaram o derrotismo de várias maneiras. Sartre e Albert Camus percorreram a ideia do absurdo da vida e a falta de sentido inerente, o que pode ser interpretado como cepticismo. Sartre, tinha uma perspectiva existencialista única sobre a vida e o pessimismo. Uma de suas frases mais notáveis sobre esse tema é: “O homem está condenado a ser livre.” Sartre. Nesta citação, destaca a liberdade fundamental do ser para fazer escolhas e determinar o próprio destino. No contexto existencialista, esse arbítrio espelha uma representação da responsabilidade esmagadora que pode nos levar ao pessimismo, ao implicar que somos responsáveis por nossas próprias vidas e decisões, mesmo em um mundo aparentemente sem significado. Explorou a angústia existencial, a liberdade e a responsabilidade em suas obras, como; “O Existencialismo é um Humanismo”, suas reflexões abordam questões relacionadas ao otimismo e ao pessimismo na busca de significado em um mundo aparentemente absurdo. Escrito por Sartre e publicado em 1946, este livro é uma transcrição revisada de uma palestra que ele deu em 1945, na qual ele defende os princípios fundamentais do existencialismo e responde às críticas que essa filosofia havia recebido na época. O livro começa com ele declarando que o existencialismo é uma filosofia que coloca o ser humano no centro de todas as preocupações filosóficas. Ao contrário de outras filosofias, não é uma forma de determinismo, mas enfatiza a liberdade e a responsabilidade individual. Afirma que somos condenados à liberdade, o que significa, que somos livres para fazer escolhas, mas também nos tornamos incumbidos por ditas escolhas, o que pode ser angustiante. Discute o conceito de "má-fé", que é quando as pessoas negam sua liberdade e tentam se esconder atrás de desculpas ou normas sociais. Critica a ideia de que podemos jogar culpa na sociedade ou a natureza por nossas ações, argumentando que, mesmo em circunstâncias difíceis, ainda somos agentes das nossas predileções, preferências e seleções. A questão da "essência" e da "existência", que, ao contrário de objetos inanimados, não têm uma substância pré-determinada; em vez disso, nossa presença precede a essência, o que significa, que somos livres para criar nosso próprio sentido de vida. Ao reconhecer nossa liberdade e abraçar nossa consciência, podemos viver vidas autênticas e significativas. "O Existencialismo é um Humanismo" é uma obra importante que contribui para a compreensão da filosofia existencialista. Pessimismo na psicologia: Da Personalidade: Frequentemente estudado nesse contexto do ego, a teoria da personalidade pessimista sugere que as pessoas têm tendência a ver as situações negativamente e esperar por resultados desfavoráveis. Esse traço pode ser uma característica estável e influenciar a maneira como interpretamos e respondemos às experiências de vida. Psicologia Clínica: Associado a distúrbios como a ansiedade e depressão, às tendências negativas são persistentes e desfavoráveis de si mesmas, do mundo e do futuro, agravando determinadas condições de saúde mental. “O pessimismo pode ser considerado, psicanaliticamente, como a forma mais sutil de autodestruição.” Erik Erikson. Schopenhauer: O pioneiro do pessimismo filosófico. Nascido em 1788, o filósofo alemão foi conhecido por seu olhar pessimista da vida e da existência, influenciou o pensamento existencialista e a filosofia do século XIX, considerado um dos pioneiros no tratado filosófico do tema. Ele apresentou sua teoria embaçado na vontade como fonte de sofrimento, uma das ideias centrais consta de que ela é a força motriz por trás de toda ação, é a origem de toda angústia. A vontade insaciável por satisfação de desejos e necessidades nos leva inevitavelmente ao sofrimento, pois raramente conseguimos o que desejamos duradouramente. O desejo é repetitivo, levando a uma sensação de vazio e descontentamento. Como uma força cega que opera em nós, não é guiada pela razão, mas sim, pelo impulso de sobrevivência e reprodução. Isso, segundo ele, torna a vida guiada pela vontade inerentemente caótica e muitas vezes cruel por gratificações que conduzem ao conflito e à competição desenfreada. Argumenta, que a única maneira de escapar do dissabor causado pela vontade é através da negação do próprio querer. Isso pode ser alcançado por meio da contemplação estética, da renúncia aos desejos e da elevação espiritual. A arte, em particular, desempenha um papel crucial na capacidade de transcender a vontade, e intervém no sentido de permitir que apreciemos momentos de alívio a esse tormento.  No pensamento existencialista, filósofos como Nietzsche foram inspirados por suas reflexões. “A vida oscila como um pêndulo para a frente e para trás entre a dor e o tédio.” Schopenhauer. Essa frase encapsula sua visão de que a vida é marcada por sofrimento e insatisfação, e que essas experiências muitas vezes alternam entre momentos de dor intensa e um tédio apático. Perspectivas ceticistas em um mundo em constante mudança. Em um mundo em acelerada evolução, a busca determinante pelo progresso e bem-estar parece ser o objetivo predominante das massas, onde as dimensões negativas continuam a ter uma relevância duradoura. Embora possam parecer desencorajadoras à primeira vista, oferecem insights valiosos sobre a nossa condição e natureza. A crítica da ilusão, a sociedade moderna nos encoraja a perseguir uma falsa felicidade por meio do consumismo, o sucesso material e o individualismo desenfreado. Neste ponto, os pessimistas nos lembram, de que essa persecução leva a um inevitável vazio materialista existencial, de constante insatisfação gerada pela busca de prazeres efêmeros e objetos descartáveis que nos afastam da verdadeira realização. A aceitação da condição do indivíduo, também nos convida a enfrentar a realidade crua de uma vida composta é até marcada de certa forma pela incerteza e impermanência do ser. Destarte, essa seja uma mensagem difícil de aceitar para todos nós, a confrontação com nossas fragmentações e vulnerabilidades, o que inclui a finitude, pode nos levar a uma apreciação mais profunda dos momentos de alegria e significado do agora em diversas áreas. Enquanto algumas visões otimistas nos vendem que o sentido particular da vida está ligado à busca da suposta ventura, os pessimistas sugerem que sua essência está na aceitação das provações e autenticidade, o que nos desafia a repensar nossas prioridades e considerar o que realmente importa. A resiliência, por paradoxal que pareça, reconhece o sofrimento e a adversidade como partes inevitáveis da vida, somos incentivados a desenvolver nossa capacidade de enfrentamento e superação. Em vez de nos iludirmos com uma busca constante por prazeres banais, podemos aprender a cultivar a adaptabilidade emocional a compaixão por nós mesmos e fraternidade pelos outros. Ditas abstrações aqui apresentadas, nos convidam a olhar para além das ilusões da sociedade contemporânea, e a explorar questões mais angulares sobre o seu significado, o sofrimento e a invulnerabilidade que nos afeta indistintamente. Portanto, a relevância contínua dessas perspectivas residem na nossa capacidade de nos provocar a abraçar a totalidade da experiência de viver, que inclue a dor, encontrando acepção mesmo em meio às dificuldades que ela inevitavelmente nos expõe. O estilo explicativo pessimista pode ser uma armadilha perigosa em nossa caminhada, nos levando a acreditar que não há saída, que tudo dará sempre errado, que nunca conseguiremos mudar determinada realidade. No entanto, en toda arapuca sempre há uma saída, e, neste caso em particular, esse escape seria aprender a ser mais otimista. A boa notícia e que é possível, apenas precisamos estar dispostos a adotar uma interpretação diferente em relação às causas motivadoras. Devemos cultivar a esperança, aprender a nos respeitar e cuidar de nós mesmos. Ser supostamente feliz, embora não seja uma estação é algo possível. Frases que ajudam na compreensão do conceito; ''Utopicamente o pessimismo carrega uma overdose de otimismo, ao procurar na anulação do sofrimento um impossível e perfeito lugar seguro para o significante da vida.'' Dan Mena. “O pessimismo é o reflexo da decepção interna que temos em relação às nossas próprias expectativas não atendidas.” Melanie Klein. “O pessimismo é uma tentativa de evitar o sofrimento, mas, paradoxalmente, muitas vezes leva a um sofrimento ainda maior.” Anna Freud. “O pessimismo, quando não é apenas uma expressão da depressão, pode ser um mecanismo de defesa contra a ansiedade e o medo do desconhecido.” Karen Horney. “O pessimismo pode ser uma resposta à sensação de impotência diante de eventos traumáticos, mas é importante lembrar que a psique humana também possui uma incrível capacidade de resiliência.” Irvin D. Yalom. Estes quatro ensaios esquadrinham o pessimismo em várias disciplinas, incluindo a psicanálise; "O Mal-Estar na Civilização" Sigmund Freud. Neste livro clássico, Freud explora o conflito entre as demandas da sociedade civilizada e os instintos individuais, o que pode levar a sentimentos de pessimismo e insatisfação. Outros; “Pessimismo: Filosofia, Ética e Psicanálise” Ehud Lamm e Raz Chen-Morris (Editores). “O Pessimismo na Psicanálise: Uma Reflexão sobre o Sofrimento Humano” Marco Werle. “Pessimism: Philosophy, Ethic, Spirit” Joshua Foa Dienstag. Ao poema; por Giacomo Leopardi — Pessimismo. “[…] Enquanto é rubra a flor De nossa idade acerba, A alma oca e soberba Cem doces pensamentos cria em vão, Morte e velhice ignora; nada adverso Supõe no corpo o homem galhardo e são Mas louco é quem não vê A asa veloz da juventude voar E como junto ao berço A pira e a urna estão” Minha crítica. Desde Platão sabemos que é efêmera a vida. O que Leopardi amplia é a extensão da consciência do efêmero, na ausência de uma esperança no futuro porvir. Por isso, é um poeta que recomendo, apenas para ser lido por quem amadureceu o pensamento é sua própria existência, para aqueles que não lhe faltam degraus necessários para continuar firme, otimista apesar das adversidades, das angústias, seguindo na aceitação universal da nossa divina finitude. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130

  • O Ódio.

    ''Não suportar ser odiado, nos converte no alvo perfeito daqueles que utilizam o ódio como ferramenta de manipulação'' Dan Mena. - Por Dan Mena. O ódio é conhecido como a antipatia ou aversão por algo, ou alguém cujo mal é desejado. A palavra é de origem latina ''odium''. Sinônimo de hostilidade, rancor, ressentimento, que gera um sentimento de profunda inimizade e rejeição, leva à maldade para com uma pessoa ou ao desejo de confronto. Freud abordou o tema em várias de suas obras, sua definição está relacionada aos conceitos sobre a psicodinâmica humana. Considerado um aspecto da agressão e sua relação com o instinto de morte (Thanatos). Nessa visão, se traduz como uma emoção intensa que surge como parte da nossa experiência, inerente à natureza própria do ser, e pode ser direcionada para objetos externos, como outras pessoas, inclusive, se voltar para o próprio indivíduo. É uma emoção poderosa que tem sido objeto de interesse na psicanálise desde os primórdios da nossa disciplina. Sob um panorama único, vamos além de um entendimento simples, exploramos suas raízes. Boa leitura. O ódio inconsciente sofrido pelo sujeito perverso. Tanto para o homem como para a mulher, a perversão que implica uma ruptura profunda entre a “sexualidade genital madura”, enquanto força vital, renovadora e amorosa, e a lubricidade precária que ela denota, que corresponde, na realidade, a etapas primitivas do desenvolvimento: a “pré-genitalidade” (antes do Complexo de Édipo) […]. O seu contexto nas relações de família. A capacidade de tolerarmos o sentimento de ódio direcionado a si é um elemento capital nas mecânicas saudáveis entre pessoas. Esse princípio, se torna particularmente relevante no espectro das relações de família, por exemplo; os pais atuam perante seus filhos como figuras limitadoras, impõem a eles contenções, controles e moderações aos seus desejos durante o desenvolvimento. Nesse cenário, é natural que as crianças, em sua busca por autonomia, liberdade e satisfação dos seus quereres, possam experimentar sentimentos de ódio e fúria em relação aos pais. A nossa capacidade como genitores de sustentar e segurar ditas contendas hostis, sem ampliar ou alargar os desgostos e mágoas que surgem destas contendas, é uma árdua tarefa. Lidar com essa sanha dirigida a nós, exige uma capacidade elevada, que será elementar para possibilitar que seja diligenciada a criação de um ambiente familiar salutar, onde tanto crianças quanto adolescentes se sintam livres para emitir seus afetos, sentimentos, embates e conflitos apropriadamente. No entanto, é importante ressaltar, que essa habilidade não pode ser limitada apenas aqueles que são pais, mas deve ser concebida por todos nós, qualquer indivíduo que almeje e ambicione firmar relações sociais, de amizade, emocionais e pessoais, benéficas, positivas e favoráveis para a vida em sociedade. Não contemporizar, não saber jogar com a crítica, desaprovação, rejeição, opinião, discordância, critério, nos torna alvos cativos e fáceis daqueles que aprenderam a usá-lo. O ódio, é uma ferramenta poderosa nas mãos de pessoas cruéis, que nos torna vulneráveis a manipulações por aqueles que não hesitam em sua utilização como instrumento de submissão, controle e retenção de liberdades. A habilidade de suportarmos sermos odiados, sem desenvolver ressentimentos ou buscar vingança, é uma qualidade indispensável para dar sustentação aos relacionamentos interpessoais em diversas esferas da convivência contemporânea. Aqueles que dominam essa competência equilibradamente, estão mais aptos a promover dinâmicas de relacionamentos construtivos, lidando eficazmente com conflitos e desafios. ''O amor e o ódio não são cegos, mas ofuscados pelo fogo que carregam''. Nietzsche. Às consequências de não ter aprendido a lidar com ele pelo Complexo de Édipo. O Complexo de Édipo, descreve um estágio do desenvolvimento infantil onde a criança experimenta sentimentos ambivalentes em relação aos pais. A criança desenvolve desejos amorosos pelo progenitor do sexo oposto (Complexo de Édipo positivo), e sentimentos de rivalidade e hostilidade em relação ao progenitor do mesmo sexo (Complexo de Édipo negativo). Através desse processo, a criança aprende a lidar com seus sentimentos de ódio de maneira saudável, transformando-os em formas mais aceitáveis de expressão emocional, como competição saudável e desenrolar de ambições. A resolução bem-sucedida do Complexo é crucial para o desenvolvimento da identidade e a capacidade de estabelecer relacionamentos adequados na vida adulta. Destarte, se uma criança não consegue lidar com às afeições de ódio durante o Complexo de Édipo, podem levar a problemas psicológicos posteriores. Por exemplo, a incapacidade de resolver adequadamente esse conflito pode resultar em sentimentos de culpa, ansiedade e insegurança em relacionamentos íntimos futuros. Além disso, a pessoa pode desenvolver mecanismos de defesa inadequados para lidar com o ódio não resolvido, como a projeção, onde ela(e) atribui seus próprios sentimentos de desafeto a outras pessoas. Isso pode levar a conflitos frequentes e dificuldades em estabelecer relacionamentos duradouros. Por esta razão, a psicanálise enfatiza a importância de aprender a lidar com tal animosidade de maneira construtiva durante o desenvolvimento infantil, pois isso desempenha um papel importante na formação da personalidade. A falta desse aprendizado, pode resultar em consequências psicológicas significativas e dificuldades emocionais ao longo da vida. “A procura é satisfeita, mas, o desejo permanece sempre suspenso na sua insaciabilidade (a não realização do impossível), estando intimamente relacionado com o fato dos sujeitos, podem, por vezes, ao odiar seu parceiro, usar a ilusão de estar fazendo amor, senão equivocadamente associado à esperança de que a gratificação fisiológica seja totalmente plena. A procura sexual, nestas circunstâncias, não conduz a um sentimento de contentamento, mas sim de tristeza e frustração, sobretudo, à sua repetição imediata e incessante”. A psicodinâmica do ódio. O ódio é uma emoção universal, muitas vezes ligada à agressão e ao instinto de morte. Sob a lente da psicanálise, é examinado em relação a outros pilares, como a repressão, projeção e complexo de Édipo. Instinto de Morte: Dois bacorejos governam o nosso comportamento. Eros (o instinto de vida) e Thanatos (o de morte). O ódio é associado a impulsos de Thanatos, representando a parte destrutiva da nossa natureza primitiva. É a expressão da agressão e da hostilidade em relação a objetos internos e externos. Repressão e o inconsciente: A importância da repressão na regulação das emoções intensas, incluindo o ódio como instrumento para lidar com a ansiedade gerada por ele, quando reprimimos esses sentimentos no inconsciente somos levados a duelos psicológicos e sintomas neuróticos. Projeção e o ''Outro''. Associado a projeção, podemos atribuir nossos envolvimentos odiosos a outras pessoas ou objetos, muitas vezes como uma forma de evitar lidar com essas estimas interiorizadas. A projeção pode criar pugnas interpessoais e mal-entendidos. Complexo de Édipo e relações parentais: Por sua vez, está ligado ao Complexo de Édipo, uma fase crucial do desenvolvimento psicossexual infantil. Durante esse estágio, as crianças experimentam sentimentos ambivalentes em relação aos pais, incluindo o ódio. Esses afetos desempenham um rol básico na formação da personalidade adulta. Três dos principais tipos de ódio. Narcísico: Ocorre quando um indivíduo direciona seu ódio para partes de si, percebidas como inaceitáveis ou indesejadas. Isso pode ser resultado de um conflito interno entre o ''ego e o superego'', onde o ''ego'' sente que não atende aos padrões impostos pelo ''superego''. Esse tipo de emotividade pode levar a baixa autoestima e repulsa. Projetado: O projetado envolve rumar sentimentos de irritação e raiva para terceiras pessoas ou objetos, muitas vezes como uma forma de lidar com sentimentos intoleráveis em si. A projeção é um mecanismo de defesa comum, onde o indivíduo projeta seus traços indesejados, criando um alvo para seu ódio. Isso leva a conflitos interpessoais e relações prejudicadas. Destrutivo: Sua forma extrema, desencadeada por experiências traumáticas ou feridas profundas. Pode levar a comportamentos destrutivos em relação a outros. A psicanálise explora suas origens, ligadas geralmente a experiências de abuso ou negligência na infância. O ódio segundo Lacan. Para compreender o ódio na teoria lacaniana, é primordial considerar o papel central do desejo. Como motor fundamental da psicodinâmica humana, é inerente à nossa condição, mas sua relação com o ódio é complexa. O desejo é o ''Outro'', essa importância da relação entre o sujeito e o “Outro”, não se refere apenas a outra pessoa, mas a um espaço simbólico que engloba a linguagem, as normas sociais e expectativas culturais. O desejo surge dessa relação como uma resposta ao ''não satisfeito''. Isso ocorre porque o mesmo é mediado pela linguagem e pelas estruturas simbólicas, que não podem abarcar plenamente seu hermetismo e obscuridade. Quando um sujeito encontra obstáculos para a realização do seu querer, devido a barreiras estabelecidas, pode experimentar o ódio, direcionado-o para o ''Outro'', percebido como um impedimento à sua satisfação. Constituídos por meio da linguagem e da interação com esse significante, aparece, de fato, quando o sujeito se depara com limitações e frustrações nesse processo de constituição. Como o ódio é experimentado e expresso, pode variar amplamente entre os indivíduos. Alguns o podem internalizar, redirecionado-o para si, conduzindo a sentimentos de autodescarto e depressão, enquanto outros, podem externalizá-lo, focado para certos objetivos que podem resultar em agressão e contendas. A dualidade das emoções. Emoções não são simples e lineares, senão multifacetadas, compostas por diversas camadas e influenciadas por inúmeros fatores contextuais. Amor e ódio não são exceções a essa complexidade. Para entender sua relação devemos analisar a psiquismo por trás dessas emoções. O amor é frequentemente associado a sentimentos de carinho, afeição, compaixão e desejo de proximidade emocional com outro ser, por outro ângulo, também relacionado a aversão, raiva, hostilidade, distanciamento e destruição. Fatores como experiências passadas, traumas, vínculos interpessoais, identidade pessoal e cultural, entre outros, reconhecem que ambos afetos se desenvolvem em planos diversos e nem sempre são opostos irreconciliáveis. Sua coexistência, destaca que podem existir na mente, onde dita dualidade não é necessariamente paradoxal. Por exemplo; como foi citado acima, em relacionamentos complicados, como o amor entre pais e filhos, pode haver momentos de intensa afeição e, ao mesmo tempo, de frustração e raiva. Essa ambivalência é uma clara demonstração das suas complexidades. Não é simplesmente uma emoção negativa a ser suprimida, senão que desempenha um papel na autorreflexão no processo de formação da identidade, necessário a reação de injustiças percebidas, resistência a opressões ou uma força motriz para a mudança interior. Pode ser uma maneira de definir a própria identidade, cercada em contraposição a grupos ou valores vistos como ameaçadores, em movimentos sociais, pode ser direcionado a sistemas de poder injustos, impulsionando a luta por direitos e igualdade. Como uma forma de autodefesa psicológica, em situações que um indivíduo se sente ameaçado ou vulnerável, pode insurgir como uma barreira emocional destinada a lhe proteger de ferimentos emocionais adicionais. Em vez de simplificar eles em uma dicotomia, nos incentiva a mergulhar na sua reflexão, reconhecendo que ambos desempenham funções relevantes em nossa experiência emocional e na formação da identidade. ''O amor é o ódio no casal se fundem entre a relação sexual e o orgasmo, experimentam a mesma integração que ocorre nessa bipolaridade. A capacidade de viver plenamente essa suposta preocupação com o ser amado, esse ''Outro'', que está na base de toda a relação afetiva autêntica. Tal verificação deve pressupor a associação, união, reunião e anexação do amor e do ódio como elementos da sua composição, ou seja, incluir a tolerância dessa imprecisão ambivalente no seu contexto romantizado. Esta complacência, necessária a essa compreensão, é também ativada na relação sexual, que envolve a mistura do prazer e de atos libidinosos e agressivos que têm lugar na intimidade das relações pessoais''. Dan Mena. O ódio e o corpo. O conceito de energia psíquica, que chamamos de “libido”, não está ligada apenas a impulsos sexuais, mas também a alavancas agressivas e destrutivas, é visto como uma manifestação dessa força belicosa. Quando reprimido ou mal direcionado, pode se manifestar no corpo de maneiras intrigantes. A relação entre ele e o fisiológico se torna aparente quando observamos como essa emoção pode se manifestar fisicamente. Estudos clínicos relatam que o ódio crônico ou intenso pode levar a uma série de problemas de saúde. Quais suas implicações psicofísicas? Estresse crônico: O ódio é uma emoção altamente estressante, quando uma pessoa está constantemente consumida por ele, seu corpo está em um estado de estresse, que levam a problemas de saúde a longo prazo, como doenças cardíacas, hipertensão e distúrbios gastrointestinais. Problemas cardiovasculares: A resposta do corpo muitas vezes envolve um aumento na pressão arterial e na frequência cardíaca. Com o tempo, isso pode contribuir para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, como hipertensão, doenças cardíacas e acidentes vasculares cerebrais. Sistema imunológico comprometido: O estresse causado pode enfraquecer o sistema imunológico, tornando o corpo mais suscetível a infecções e doenças. Problemas musculares: A tensão muscular é uma resposta comum, pode levar a dores de cabeça, dores nas costas e problemas musculares. Problemas gastrointestinais: Quando intenso, afeta o sistema gastrointestinal, causando úlceras, síndrome do intestino irritável e outros distúrbios digestivos. Distúrbios do sono: Dificulta o sono, resultando em insônia, que por si só, está associada a uma série de reveses de saúde. Problemas de saúde mental: Não afeta apenas o corpo, mas também a saúde mental, contribui para o surgimento de transtornos de humor, depressão e ansiedade, inclusive, agrava condições pré-existentes e comorbidades. Comportamento destrutivo: Leva a condutas autodestrutivas, como abuso de substâncias, alcoolismo, automutilação e pensamentos suicidas. Impacto nas relações: Não é apenas prejudicial para o indivíduo que o experimenta, mas também pode causar danos significativos nos relacionamentos, laços familiares, amizades e amorosos, podem ser afetados negativamente pelo fel não controlado. Ciclo vicioso: Cria um circuito no qual a pessoa se sente mais odiada, e, à medida que expressa mais execração a um aumento do isolamento social, expressos numa sensação contínua de ressentimento. A meta do sujeito odioso. O principal alvo do sujeito dominado pelo ódio é destruir seu objeto, um elemento específico da sua fantasia imaginária e inconsciente, como também de seus adjacentes conscientes; no fundo, o objeto é desejado e necessário ao odioso, e sua destruição igualmente ansiada e necessária para sua elaboração. Esse paradoxo disruptivo, está no centro da nossa investigação psicanalítica sobre esse afeto, onde sabemos que nem sempre é psicopatológico. Como analistas, consideramos que pode ser uma resposta a um perigo real, uma ameaça direta à sobrevivência do indivíduo ou à de seus familiares. É uma estruturação normal da raiva, que visa eliminar essa possível ameaça. No entanto, pode ser influenciada por motivações involuntárias, como a busca por vingança, ao se tornar uma predisposição crônica de caráter. Isso é sempre refletido na psicopatologia da agressão. Sua forma extrema, exige a eliminação física do objeto, podendo se manifestar em; perturbar, perseguir, ferir, chegar ao crime, como o assassinato ou a desvalorização do objeto, promovendo sua destruição psicológica, manipulação emocional, que pode ser generalizada como um extermínio simbólico de todos os seus parâmetros sociais. Engloba todas as relações agressivas potenciais com os ''outros'' significantes, que compõem seu universo negativo de personalidade. Essa forma de zanga, é observada nas estruturas antissociais comportamentais, se manifestam no suicídio, onde o sujeito se identifica como o objeto odiado, articulando seu autoeliminamento como única maneira de eliminar a ''coisa'' ou ''outro''. Indivíduos com ''síndrome do narcisismo maligno'', um caráter narcisista, agressivo, egocêntrico, com tendências paranoides e antissociais, transferências “psicopáticas”, como o traço transferencial dominante. Tentam sistematicamente explorar, aniquilar, castrar e desumanizar outros significantes, (inclusive o analista, rsrs), num grau que desafia os esforços deste(a) para proteger algum lugar da relação objetal primitiva, que seja de fato boa. Ao mesmo tempo, pode parecer que a transferência, (na análise), está livre da agressão, dominada por um engano crônico, pela busca de um estado do self primitivo, totalmente bom, que elimina todos os objetos, por exemplo; usando o álcool, pornografia ou drogas, e por meio de tais esforços inconscientes e conscientes, tentar envolver o analista no seu plano destrutivo. A filosofia nos oferece várias perspectivas. Platão: Em sua obra “A República,” discute as emoções, ele o considera como uma emoção negativa que deve ser controlada pela razão. Para Platão, a educação e o autocontrole são essenciais para superar esse sentimento rudimentar e alcançar a harmonia na sociedade. Aristóteles: Argumenta que surge quando alguém percebe uma injustiça ou uma afronta pessoal. Destarte anota, a importância da virtude, sugerindo que a riqueza moral pode ajudar a equilibrar as emoções, incluindo o ódio. Espinoza: O considera como uma emoção negativa que surge da falta de compreensão e conhecimento, ambos são essenciais para superar esse sentimento negativo e alcançar a paz interior. Kant: O relaciona com à moralidade, algo incompatível com o imperativo categórico, um princípio de sua ética, onde defende o respeito pelos outros como um dever moral, implicando não odiar o próximo. Nietzsche: Tem uma visão mais ambígua, reconhece que pode ser uma força motivadora e transformadora, no entanto, alerta para os perigos do ódio descontrolado, que conduzem à destruição e à crueldade. Levinas: Combina sua relação com à ética e à responsabilidade. Quando não reconhecemos a humanidade do indivíduo o reduzimos a um objeto, assim, a importância do reconhecimento e do respeito por ele sobrevêm como uma resposta. Arendt: Discute o ódio político em seu trabalho, traz uma visão de como tal pode ser explorado por regimes totalitários e ideologias para justificar a violência, manipulação das massas e a opressão, ainda, destaca a importância da vigilância contra a ira política. Gerir o ódio é um desafio complexo. Pode ser um processo demorado, onde será importante ser gentil consigo mesmo e buscar apoio quando necessário, seja de amigos, parceiro(a), familiares ou terapeutas. O objetivo não é abortar sua existência, mas aprender a lidar com ele de maneira construtiva para promover o bem-estar. Autoconsciência: O primeiro passo é reconhecer e aceitar que você está sentindo ódio. A autoconsciência é fundamental para entender a origem desse sentimento e como ele está lhe afetando. Explore a Origem: Tente entender por que está sentindo malevolência. Isso pode envolver reflexão sobre suas experiências passadas, traumas, frustrações ou antagonismos que contribuíram para o seu aparecimento. Comunique-se. Se ele está relacionado a outra pessoa, considere uma comunicação aberta e honesta. Expressar seus sentimentos de uma maneira instrutiva pode ajudar a resolver alguns mal-entendidos. Autocontrole: Trabalhe na regulação emocional. Pratique técnicas; análise, relaxamento, meditação ou respiração profunda, para acalmar a mente quando sentir raiva. Empatia: Tente se colocar no lugar da pessoa, isso pode ajudar a entender melhor suas motivações e criar intropatia, o que pode diminuir sua presença. Terapia: Considere fazer terapia, ela pode ajudar a desenvolver estratégias para enfrentá-lo de maneira saudável. Atividade física: Se exercitar regularmente libera tensões e reduz a agressão acumulada. Arte e criatividade: Expressar suas emoções por meio da arte, música ou escrita, pode ser uma maneira positiva de lidar com seus reflexos. Limitação da exposição: Evite situações ou pessoas que ativem seu fastio, quando possível. Isso pode incluir reduzir a exposição a conteúdo ou mídias que provocam emoções escusas. Aprendizado e crescimento: Use o potencial da repulsão como uma oportunidade de crescimento pessoal. Pergunte a si o que essa emoção está tentando lhe ensinar e como você pode evoluir à partir dela. Citações na psicanálise que auxiliam na compreensão do tema; “O ódio é uma defesa contra o sofrimento, uma tentativa de se proteger contra a dor que o amor pode trazer.” Freud. “O ódio é uma maneira de lidar com a frustração e a impotência. É a expressão de nossos conflitos internos projetados no mundo exterior.” Melanie Klein. “O ódio pode ser uma reação a uma ferida narcísica, quando nos sentimos ameaçados em nossa autoestima ou identidade.” Kohut. “O ódio não é inato, mas é aprendido e internalizado ao longo do tempo. Ele reflete nossas experiências e relações passadas.” Anna Freud. “O ódio pode ser uma forma de autoproteção, uma maneira de nos distanciar emocionalmente quando nos sentimos vulneráveis ou feridos.” Otto Kernberg. “Na psicanálise, o ódio não é visto como algo destrutivo, senão, uma expressão das complexidades psíquicas, que requerem reparo cuidadoso para serem exploradas.” Dan Mena. Reflexão final. Finalizando com uma interpelação; seria o ódio uma leitura de uma falha emocional? Daquilo que não está onde gostaríamos, é do processo das posturas pessoais que adotamos para adentrar na plataforma dos modos de contato para amar, desejar e gozar? Vimos que não é possível separar amor e ódio. Ele nos coloca a violência em termos da pulsão de morte, expressando que nele (o ódio) há aquilo que nós e estranho, não menos intensos dos motivos com os quais se promove. Quando tratado sem os intervalos do amor, a sua coerência aponta mais para aquilo que é distante, diferente, incomum, exótico, o vizinho, o amigo(a), quem pensa, sente, veste, fala, narra, goza, é, de qualquer forma diferente, do que eu falsamente ''não sou'', então, o(a) detesto. Estamos então numa outra ordem lógica, onde o sujeito do nosso tempo é um indivíduo desterrado de si, encapsulado, que deseja, más, quer distância do que rejeita de si propriamente, do humano. Por isso, quando odiamos, estamos apontando para nos mesmos, essa reprovação do ''Outro''. Mas que ''Outro'' é esse?, o que faz dele(a) ser meu objeto odioso? O ''Outro'', supostamente detestado, possui então alguma coisa… que agora lateralmente, sob outro aspecto, ''e aquela que eu não tenho''. A questão é, que sem uma análise, sem o desejo do analista em sua função, é muito difícil para um sujeito se confrontar com aquilo radicalmente estúrdio da sua fragmentação emocional, aquilo, que lhe é íntimo, singular e familiar. O lugar da minha estranheza, a que me ensina sobre meu exílio contemporâneo, está dentro de cada um, para ser dito ou não, silenciado, gritado ou deliberado. Qual a sua escolha? Ao poema; O ódio. Por Wislawa Szymborska. Vejam como ainda é eficiente, como se mantém em forma o ódio no nosso século. Com que leveza transpõe altos obstáculos. Como lhe é fácil – saltar, ultrapassar. Não é como os outros sentimentos a um tempo mais velhos e mais novos que ele. Ele próprio gera as causas que lhe dão vida. Se adormece, nunca é um sono eterno. A insônia não lhe tira as forças; aumenta. Religião, não religião – contanto que se ajoelhe para a largada Pátria, não pátria – contanto que se ponha a correr. A Justiça também não se sai mal no começo. Depois ele já corre sozinho. O ódio. O ódio. Seu rosto num esgar de êxtase amoroso. Ah, estes outros sentimentos – fracotes e molengas. Desde quando a fraternidade pode contar com a multidão? Alguma vez a compaixão chegou primeiro à meta? Quantos a dúvida arrasta consigo? Só ele, que sabe o que faz, arrasta. Capaz, esperto, muito trabalhador. Será preciso dizer quantas canções compôs? Quantas páginas da história numerou? Quantos tapetes humanos estendeu em quantas praças, estádios? Não nos enganemos: ele sabe criar a beleza. São esplêndidos seus clarões na noite escura. Fantásticos os novelos das explosões na aurora rosada. Difícil negar o páthos das ruínas e o humor tosco da coluna que sobressai vigorosamente sobre elas. É um mestre do contraste entre o estrondo e o silêncio, entre o sangue vermelho e a neve branca. E acima de tudo nunca o enfada o tema do torturador impecável sobre a vítima conspurcada. Pronto para novas tarefas a cada instante. Se tem que esperar, espera. Dizem que é cego. Cego? Tem a vista aguda de um atirador e afoito olha o futuro – só ele. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130

  • A infidelidade.

    ''Infidelidade é a parte oculta de um desejo que age para desvelar a demanda reprimida do eu. Uma dimensão inconsciente, que usa o gozo como pretexto da transgressão'' Dan Mena. — Por Dan Mena. O ser não é monogâmico por natureza, ao ser habitado pela inquietação e deambulação dos seus desejos, de um gozo, que mina sua estabilidade pulsional em relação a qualquer laço amoroso. Antes de falar em ''infidelidade'', vamos fazer um parêntesis necessário, para refletir numa pontuação que antecede sua análise… A relação sexual existe? A que podemos chamar de infidelidade? A ideia da relação sexual como um “não existe a relação sexual” significa, segundo Lacan, o verdadeiro entrelaçamento erótico reconhecido, o qual seria impossível no sentido pleno da sua realização. Por quê? Estamos sempre mediados pela linguagem e pelo simbólico. O “simbólico”, por sua vez, se refere ao reino das palavras, da linguística, onde tais símbolos e significados moldam nossa compreensão de mundo. A expressão, como um sistema metafórico, nos separa da experiência puramente sensorial e coloca sobre ela uma camada de significantes entre esse ambiente perceptual e a nossa humanidade. Por outro lado, o “real”, sendo aquilo que nos escapa à tal simbolização, é a vivência direta e crua, muitas vezes traumática, que não pode ser integralmente representada no jargão da nossa narrativa e locução. A sexualidade, como um aspecto fundamental do traquejo do sapiens, está no limiar entre ditas dicotomias. O ''Desejo e a Castração'', onde a voluptuosidade é moldada pelo ''Complexo de Édipo'', no qual, quando crianças, experienciamos desejos incestuosos em relação aos pais do sexo oposto. A resolução desse complexo, envolve a aceitação da castração figurativa, ou seja, a captação cognitiva básica de que como crianças não temos total acesso ao ''objeto'' do desejo. Isso estabelece bases sólidas para a formação da identidade sexual primária do indivíduo e a entrada ao mundo emblemático da cultura. Ao ampliarmos essa ideia muito bem abalizada pela psicanálise, podemos afirmar que a excitação é um ''desejo do outro'' (o desejo do ''Outro'' significa que o sujeito se oferece, não como aquele que completa totalmente esse Outro, pondo fim à sua falta, mas sim, como aquele que constantemente suscita sua carência, condição precípua, para que a própria ausência do sujeito se reproduza). Isso implica, que nossa perpétua inegável ânsia por satisfação sexual esteja sempre relacionada e conectada com o que o Outro deseja, tornando essa relação sexual ainda mais complexa. Boa leitura. Então, a que podemos intitular de infidelidade? Qualquer definição que se encontre é inexata e tendenciosa, vai sempre pender para uma predisposição moral, ética, religiosa, de objeto, de relação, de julgamento, da lei, etc. Ausência de fidelidade. Falta de fé religiosa? No entanto, se procurarmos seu oposto, na palavra “fiel”, podemos encontrar respostas claras, para citar algumas; Aquele que mantém a fé, ou é constante nos seus afetos, no cumprimento das suas obrigações e não defrauda a confiança do outro nele(a) depositada. Exatamente, conforme a verdade bíblica é os mandamentos. O que tem em si, condições e circunstâncias exigidas pelo uso a que se destina. Pela lei, pelo pacto nupcial, etc. Da sua indefinição se tange a fidelidade. A fidelidade não é atribuída apenas aos seres humanos, mas também às coisas e a muitos outros conceitos na modernidade. A memória, uma foto, um relógio, uma religião, um compromisso, pacto, preferência por algo, uma marca, enfim, é usada recorrentemente. É interessante refletir sobre seu oposto, essa curiosa perspectiva, porque é como se dentro da mesma indefinição da palavra ''infidelidade'' existissem segredos, sem mais explicações, como se ela quisesse ser um fantasma, fugir da sua ilustração. Apesar das múltiplas coordenadas que podemos usar para entender seu politeísmo, o que é ou não deslealdade, pois também dependem da lei, da moral imposta, do contrato, do pacto escrito ou não que se estabelece com o outro, o qual é o(a) parceiro(a). Isso torna o tema absolutamente subjetivo, uma vez que cada casal tem seus próprios acordos e regras, e a transgressão deles, pode também evidenciar ser sinônimo de presumida infidelidade, não só como uma violação sexual. Embora as distorções que lhe pairam, o que mais manifestamente estabelece o seu caráter é o segredo e a mentira, a tentativa de desnortear, desencaminhar ''desbussolar'' rsrs, o par, em relação a criar uma ponte entre ambos, de promover o corte, a descontinuação e a divisão do acordo monogâmico da exclusividade. Os traídos podem de alguma maneira se colocar em uma posição de sentimento de culpa, porque acreditam que todo o desarranjo possa advir de algum descuido dele(a). Por isso é bom lembrar, que ninguém obrigou o parceiro a praticar o ato(os), o fez porque quis, pelas suas próprias convicções e desejos. “O ser humano vive em constante medo de ser magoado e isso dá origem a grandes conflitos. Como nos relacionamos entre nós causa tanta dor emocional que, sem razão aparente, ficamos zangados e sentimos ciúmes, inveja e tristeza. Até mesmo dizer “eu te amo” pode ser assustador. Más, mesmo que ter uma interação emocional nos cause angústia e medo, continuamos a praticar, a nos relacionar, casar e ter filhos''. (Ruiz, 2015). Implicações clínicas e sociais. A inexistência da relação libidinosa, (sexual), tem implicações profundas na nossa clínica. Sugere que a busca por satisfação, é, em última instância, uma demanda por reconhecimento, e não somente uma interação unicamente integrada ao prazer físico. No mundo contemporâneo, onde a sexualidade é frequentemente objetificada, banalizada e comercializada. A psicanálise nos convida a olhar essa complexidade subjacente à nossa busca por intimidade e comprazimento. Ela incita a navegar como o desejo e a castração moldam nossas vidas sexuais e incursionar na linguagem e o simbólico que estão sempre presentes, mesmo nos momentos mais privativos e reservados. A questão da não existência da relação sexualizada, nos desafia a ir além das aparências e a considerar seu contexto como um fenômeno amalgamado, mesclado, combinado e composto entre o simbólico e o real. O entusiasmo que nos envolve no campo do erotismo está sempre presente em nossas vidas, rastreando esse sentido de riqueza intensa que na maioria da sua escala nos condiciona a uma sujeição. Já a infidelidade pode ser vista como uma manifestação complexa de desejos, identidade e linguagem. Seguem alguns pontos-chave sobre como discorremos no tema: Triângulo Edípico: Lacan se baseou na teoria do Complexo de Édipo de Freud para entender a dinâmica da infidelidade. Ele argumentou que pode ser vista como uma tentativa de lidar com conflitos edípicos não resolvidos. Por exemplo, um indivíduo pode buscar uma relação fora do casamento como uma forma de satisfazer desejos não reconhecidos ou para escapar do sentimento de culpa associado a eles. Desejo e falta: A ideia de que o desejo humano é intrinsecamente ligado à falta, como uma busca por algo que está ausente na relação existente. É uma tentativa de preencher uma lacuna emocional ou simbólica que não está sendo satisfeita na relação principal. Linguagem e significante: O conceito de “significante” na psicanálise, se refere às palavras e símbolos que usamos para comunicar e atribuir significado. A falha de confiança, pode ser uma tentativa de encontrar novos significantes, novas formas de expressar desejos e identidades que não estão disponíveis na relação atual. O Outro: É à figura do pai ou da autoridade que exprime o mundo simbólico e as regras sociais. A infidelidade pode ser uma maneira de desafiar ou subverter ditas normas impostas por esse “Outro”, e buscar uma identidade ou satisfação fora dessas regras rígidas impostas. Objetificação: Envolve uma forma de objetificação, onde o parceiro ou amante é reduzido a um objeto de desejo, uma tentativa de lidar com a ambivalência e a complexidade das relações interpessoais. A fidelidade pura do reino animal. Os cisnes se destacam na natureza como um exemplo notório de animais que estabelecem vínculos conjugais sólidos, permanecendo com um único parceiro ininterruptamente ao longo da sua existência. Neles, não há espaço para traições de nenhuma índole. A atração sexual pelo parceiro(a), permanecerá imaculada e dedicada integralmente ao seu companheiro(a) que será único(a) e inseparável. Esta fidelidade, é uma manifestação direta do instinto dessa espécie, (embora existam outras), uma característica totalmente questionável aos seres humanos. De fato, conseguimos imitá-la? A resposta a essa indagação é inequívoca: não, não podemos replicar tal honradez do cisne, (sem generalizações), pois nossa natureza é regida não apenas pelo instinto, más também pelo desejo, (ausente neles), e isso muda todo o jogo. Sem questionar, julgar ou qualquer outro ponto que possa ser levantado quanto a moral… o que obviamente não excluem a possibilidade de sua existência singular oposta, em determinados casos muito particulares. Nestes tempos, qual o indivíduo que uma vez selecionado seu primeiro parceiro(a), permaneceu até o fim da vida com o mesmo(a)? Você conhece alguém? A dança dos cisnes. No reino animal, está completamente ausente, é a enérgica e movimentada experiência do desejo sexual, a qual é sempre turbulenta, buliçosa, assim como a frenética trilha do prazer pulsional, na hermética vivência da eroticidade. Esse exemplo de diferenciação, quando verificado provadamente que os cisnes aqui citados, acasalam costumeiramente porque não conhecem o gozo, a qual é uma característica específica da humanidade. Ao contrário do instinto de nos alimentarmos, para o ser humano não apenas o fazemos para satisfazer necessidades vitais, mas também, carregamos consigo um prazer que será potencializado e sexualizado. Esse fenômeno é evidenciado nas crises bulímicas, onde a pessoa não busca apenas se saciar do alimento, mas sim encontrar o deleite no ato em si. Consequentemente, essa relação que nutrimos com corpo é marcada por certas perturbações, que se diferenciam da harmonia instintiva encontrada em ditos animais. O elemento que nos afeta, e identificado nessa relação de gozo que nos habita, um componente mais potente do que as próprias necessidades naturais que regulam o tino essencial e original de autopreservação. Freud deixa muito clara essa posição intrigante pela noção da pulsão de morte, para evidenciar que seu poder, nos impulsiona a buscar a ledice do regozijo para além do princípio de sobrevivência e autopreservação, a qual transcende o hedonismo; (hedonismo, filosofia de vida que defende a busca por prazer como finalidade da vida humana. Sua perquisição move as paixões, os desejos e todo o mecanismo da vida, sendo, portanto, na visão de hedonistas, a primeira e mais completa ponte para a finalidade última da vida: a imaginada felicidade). Existe apenas um momento do qual estamos isentos de viver sob o domínio do gozo, durante o sono, que parece não perturbar o corpo. (O termo gozo em psicanálise não se refere a um prazer, mas sim a um mal para o sujeito, exatamente por implicar em sua destruição. Na transgressão o gozo consistiria no ultrapassamento das barreiras que fazem impedimento ao ''Objeto'', havendo a tentativa de encontrar a ''Coisa''). Durante esse período, separamos e desconectamos do mundo externo e do corpo físico, nos envolvendo narcisticamente, retirando a libido, que será transferida para o corpo em repouso. O desejo sexual do nosso ser, irrompe essencialmente como uma demanda impetuosa, há nele um excesso transbordante que abala e atravanca nossa serenidade. Em contraposição, será esta uma virtude rígida para os cisnes, que mantêm através de seus instintos uma inarredável posição de postura, dedicação, estima, lealdade, paixão e respeito, que infelizmente foge ao sapiens. Como psicanalistas, tocamos no tema sensível da infidelidade como uma dinâmica inconsciente, exercício inveterado das relações de objeto, que aparecem na infância, afetos escoltados e auxiliados por laços psicológicos agregados, como a projeção e a cumplicidade, este último, que se firma como um contrato, um acordo implícito entre o casal sobre a prática da sonhada exclusividade sexual. A traição sob uma visão psicológica é visualizada como um ato provocador dos ciúmes no parceiro, o que se traduz como um ''ato narcísico'' (seria um exibicionismo, um sentimento de indiferença em relação ao outro, a ausência de empatia e a incapacidade de se relacionar, são aspectos únicos que definem o ato narcísico). A deslealdade, falsidade, hipocrisia, fingimento, o ato em si, que escrito em todas suas possibilidades e formas, desloca dois aspectos funcionais da sua essência: a violação de um suposto compromisso cívico obrigatório, explícito ou implícito, e a quebra da confiança, que decorre na transmissão emocional da dor e decepção do parceiro(a). A promiscuidade, tanto em homens quanto em mulheres casados(as), é examinada como uma busca por satisfação emocional além da euforia sexual. Aqui preciso fazer um parêntesis, para não incitar o mal-entendido técnico; A psicanálise aborda a promiscuidade como um comportamento sexual que possui raízes no funcionamento psicológico e emocional. É importante notar que nossa matéria não julga, muito menos a promiscuidade como certa ou errada, más, visamos compreender suas dinâmicas. Portanto, algumas perspectivas sobre o assunto inferem: Infância e relações de objeto: Experiências na infância desempenham um papel medular na formação do comportamento sexual adulto. As relações entre a criança e seus cuidadores, especialmente os pais, podem influenciar a maneira como o indivíduo se relaciona com os outros mais tarde. Traumas, abusos ou negligência na infância, cooperam e participam para o desenvolvimento de comportamentos sexuais licenciosos, como uma tentativa de preencher lacunas afetivas e buscar validação de fragmentações infantis. Mecanismos de defesa: Comportamentos dissolutos também podem ser versados como mecanismos de defesa psicológica. Indivíduos com dificuldade em lidar com emoções intensas, como a ansiedade ou o medo do abandono, podem recorrer à suposta promiscuidade como uma maneira de evitar o envolvimento emocional profundo. Isso permite que eles(as), mantenham uma certa distância afetiva e emocional do possível par, acionando um gatilho de fuga para evitar sua presumível exposição das vulnerabilidades que carrega. Busca de autoestima: Estarei sendo muito assertivo em dizer que, geralmente, a libertinagem sexual pode ser uma inquirição por validação. Indivíduos que se sentem carentes de amor tem sua autoconfiança abalada, portanto, se entregam a relações pobres sexualmente, como uma forma de obter e angariar temporariamente esses sentimentos de apreciação e importância que se negam. Compulsão sexual: A existência de compulsões, onde o controle total sobre impulsos sexuais tem um certo comprometimento psíquico, leva necessariamente a comportamentos sexuais heterogêneos e repetitivos, que certamente serão prejudiciais para a pessoa e seus relacionamentos. Conflitos internos: Confrontos psicológicos não resolvidos, como aqueles relacionados à orientação, identidade sexual, questões de autoimagem, favorecem a promiscuidade. Buscar múltiplos parceiros(as), pode ser uma maneira de lidar com esses duelos e conflagrações como uma tentativa de encontrar sua resolução mental e emotiva. Influências sociais e culturais: Influências sociais e culturais desempenham rol preponderante na devassidão. Normas, regras, pressões sociais, moda, internet, mídias e acesso facilitado a encontros, incentivam consciente e inconscientemente, subliminarmente, a construção de um universo polígamo. Sob outros ângulos, a infidelidade pode se manifestar como o desejo de manter a atratividade, experimentar a emoção da novidade ou mesmo, como uma exteriorização inconsciente de oposição, rivalidade e hostilidade em relação ao parceiro, que se transpõe como uma vingança, sob a máscara da deslealdade. Quando a promiscuidade é explícita, frequentemente reflete conscientemente a aspiração de conquista nos homens e o de se sentirem desejadas no caso das mulheres. Embora a maioria concorde, que a intimidade e a afirmação de confiança recíproca são elementares para um prazer sexual fantasiosamente completo, a desordem que emana desse vínculo persegue escuros objetivos, como deslumbrar, impressionar, sobressair em relação ao parceiro(a), sobretudo, no que diz respeito a consistência, sensualidade e aspecto projetivo dessa sexualidade. É possível identificar claramente, que esses encontros que se articulam nas sombras das atividades extra conjugais ou que transbordam as relações, são mais do que simples aventuras sexuais. Destarte, se constroem em pró de metas pessoais e processos psíquicos planificados, preparados meticulosamente, com objetivos resolutos, que podemos dar o nome de envolvimentos de conquista. “A civilização é uma tentativa de instalar uma forma de vida na qual a necessidade de defesa contra os instintos agressivos possa ser suficientemente satisfeita sem restringir muito a satisfação dos instintos eróticos.” Freud, em ''Totem e Tabu''. Don Juan e Messalina. Personagens como “Don Juan”, A síndrome de Don Juan — é um transtorno caracterizado pela compulsiva necessidade de seduzir, se envolver facilmente em relacionamentos amorosos e criar laços tênues, pouco duradouros ou quase inexistentes. Pessoas com donjuanismo, não se interessam pelo sexo em si, são mais comprometidos com o processo do cortejo sentimental. Podemos convocar também o caso de “Messalina” (Messalina foi uma imperatriz que viveu entre o ano de 20 e 48. Terceira mulher do imperador romano Cláudio, não à toa, teve seu nome associado à infidelidade e traição. Certa vez, ela teria desafiado uma prostituta, Scylla, para uma competição de sexo por 24 horas), frequentemente, ambos os casos literários, personificam aqueles, que, ao tentar sustentar um ego desconfortável e inseguro, pretendem se convencer do antagônico e recorrentemente aos outros, de sua imaginária segurança e falso domínio. Seja na conquista, quando se trata dos homens ou na capacidade de serem cobiçadas e fêmeas desejáveis para as mulheres. Para os tipos Don Juan, o ponto alto do prazer não está no ato sexual em si, mas na obtenção de realizações emocionais, que pela sedução e flerte levem ao orgasmo que hipoteticamente consigam provocar. O que de fato representa o verdadeiro êxito da sua glória alcançada, o troféu, que indica sua bem-sucedida empreitada. Destarte, pode o sedutor ser frustrado, se a sua missão falhar, quando a mulher não atingir o êxtase no ato sexual, (ou simular), o que será percebido por ele como um ato falho, visto esvaziado do seu propósito, pois não atendeu às expectativas psicológicas do seu destino. Ao contrário do que se pressupõe do universo masculino, mulheres que mantêm uma postura reservada e menos acessível, são vistas como desafios mais atraentes, fascinantes e cativadoras, muitas vezes, assustadoramente sensuais do ponto de vista sexual para os homens. Enquanto a mulher preserva uma certa distância e se recusa a manter intimidade sexual, ela permanecerá encantadora e admirada. No entanto, ao ceder seus encantos, ou mesmo pela exposição do corpo, perderá parte do seu valor, pois após a consumação sexual ou perca do interesse visual. Homens com ditas características partem imediatamente para a próxima é necessária realização da manutenção da sua vulnerabilidade e fraqueza emocional. Contemporaneamente, em nossa cultura, quando um casal mantém um vínculo afetivo consistente e uma relação sexual recompensadora, a monogamia se sustenta; (podemos dizer que apresenta relação direta com dois afetos, discutidos de forma mais abrangente, quais sejam o amor e o ciúme, enquanto se constituem como um arranjo afetivo, cuja principal característica é a exclusividade), estes, preferem à fidelidade como caminho da satisfação sexual. No entanto, essa unigamia possível pode em alguns casos não satisfazer os desprovimentos narcísicos de um, que estão relacionados à insegurança do eu, é, sustentados sem uma resolução, sem um saber de si, que vão se mover na forma de outros indicativos sintomáticos. Vejamos algumas frases, principalmente de psicanalistas, que ajudam a compreender a temática; “A infidelidade não é um sinal de falta de amor, mas sim uma indicação de que algo na relação está quebrado.” Freud. “A infidelidade é muitas vezes um grito por autonomia. É a maneira de um parceiro dizer: 'Preciso de algo que não estou encontrando em nosso relacionamento.” Esther Perel. “A traição é um sintoma de um problema mais profundo, muitas vezes relacionado às partes ocultas e não resolvidas do eu.” Jung. “A infidelidade pode ser vista como uma busca por completude, uma tentativa de preencher vazios emocionais que estão enraizados na infância.” Lacan. “Trair não é apenas quebrar uma promessa, é também quebrar um vínculo de confiança e uma parte do eu.” Rollo May. “A traição pode ser um chamado para explorar questões de identidade, desejo e autenticidade em um relacionamento.” Irvin Yalom. “A traição deixa uma ferida que é difícil de curar porque destrói não apenas a confiança no parceiro, mas também a confiança em si.” McLaughlin. “A traição é muitas vezes uma expressão do desejo reprimido. Pode ser vista como uma manifestação do inconsciente buscando satisfação.” Ferenczi. Nas sociedades modernas há uma tentativa plausível de alcançar a monogamia nas relações de casal, visto que nas antigas a poligamia era fortemente predominante. Destarte, esse aspecto biológico do nosso ser animal, a evolução e o inconsciente, agem, e podem trair tudo aquilo que tentamos alinhar neste tempo, nesse norte. Continua sendo um fenômeno intricado e melindroso que suscita indagações sobre suas causas e impactos nas relações amorosas. Seja então analisado como um evento isolado ou crônico, é um sintoma, afinal, que reflete a fragilização dos laços afetivos no seio dos relacionamentos. Isso ocorre devido ao aumento de mecanismos de defesa psicológicos levantados, tal como a cisão, (no processo de ''cisão'', ocorre um mecanismo de integração entre psique, soma e meio ambiente. A cisão ajuda a organizar o que antes estava desorganizado, separando o bom do mau, e mais adiante evoluirá para a ambivalência, passando então a existir o “e”, que se aplica ao mesmo objeto. Bom “e” mau, a identificação projetiva com um ou ambos os parceiros). Simultaneamente, o indivíduo tenta manter inalterada e preservar uma parte do vínculo com seu par, onde os aspectos da relação são percebidos como essenciais para a continuidade pessoal e conjugal. Embora essa, digamos, incorreção do sujeito, possa ser examinada no âmbito do par, não podemos deixar de lado ou excluir a responsabilidade do ''infiel aos pactos''. Nesta investigação psicodinâmica do indivíduo, é preciso incorporar e considerar sua história de vida, desenvolvimento evolutivo da identidade, seu ego e a internalização dos modelos pelos quais de identificou nas figuras paternas. Observar a influência dos padrões e arquétipos sociais, arcabouços culturais e morais, quanto a visão das condutas sexuais, que devem ser reputadas e classificadas, já que encarnam um papel relevante na formação das alianças que estabelecemos na caminhada para a maturidade. O que podemos falar então quanto a pessoa traída? Responderei a essa pergunta, não sem antes fazer outras… Quantas formas de traição existem? Acredito que hoje, com a ampliação dos meios de comunicação, centenas. Então, no típico julgamento do padecente, (vitima) há uma certeza de nunca ter traído? Seria apenas a junção carnal ou ato sexual a única maneira justamente configurada e interpretada de uma perfídia infidelidade? Para não ficar apenas no subjetivo, darei nome a outras. Os 10 pontos de atenção sobre infidelidade. Conjugal: Esta é a forma mais comum de traição na qual um parceiro rompe um compromisso de exclusividade sexual ou emocional em um relacionamento amoroso. Emocional: Quando um parceiro desenvolve uma conexão emocional com alguém fora do relacionamento, mesmo que não haja envolvimento físico. Isso pode incluir compartilhamento de sentimentos e confidências íntimas com outra pessoa. Financeira: Envolve esconder ou gastar dinheiro sem o conhecimento, ou consentimento do outro, o que pode levar a conflitos significativos em um relacionamento. De Confiança: Quando alguém quebra a crença de fiabilidade ao mentir, enganar, violar acordos estabelecidos ou divulgar segredos íntimos. De Amizade: Quando um amigo próximo ou confidente se revela desleal, compartilhando informações pessoais, fofocando ou tomando ações que prejudicam a relação de amizade. Profissional: Se um colega ou superior de trabalho age de maneira desleal, como roubar ideias, receber crédito indevido pelo trabalho de outra pessoa ou sabotar as oportunidades de carreira de alguém. Familiar: Membros da família que quebram a fiúza confiança ou agem contra os interesses de outros membros de maneira prejudicial. Traição a Si: Às vezes, a infidelidade pode ser voltada para o próprio indivíduo, quando age contra seus próprios valores, necessidades ou objetivos, comprometendo seu próprio bem-estar. Cultural ou Social: Que envolve a quebra das normas ou expectativas sociais, como agir contra crenças religiosas, éticas ou morais de uma comunidade. Eletrônica: ? Neste ponto, não vou nem fazer citações dada a amplitude, deixarei que cada um faça sua própria análise. E agora? Nesta concepção mais abrangente, como deve ser avaliado, pela dimensão, extensão, grandeza, largueza, lateralidade, amplitude, etc., podemos afirmar conclusivamente que nunca traímos e fomos infiéis? Que a dita traição ou infidelidade estariam, portanto, apenas no campo da sexualidade? Quanto as consequências, uns a podem vivenciar como um trauma, outros, serem motivados a vingança, enquanto alguns, ainda podem experimentar grande desilusão e raiva, por fim, uma pequena parcela, humildemente perdoar. A escolha de continuar ou encerrar o relacionamento dependerá, na maioria, dos mecanismos de defesa individuais e das circunstâncias específicas a cada caso. Uma verdade precisa ser apresentada, o apontador, (sofrente), geralmente apenas julga o infrator(a), nunca o faz sobre um crivo que o inclua, é uníssono, está sempre com a caneta na mão, é apenas sabe escrever sobre o ''Outro''. Logo, o traído pode se dizer isento se observar os 10 pontos da infieldade acima discriminados? Finalmente, a dor é um elemento central na infidelidade, ao representar uma ferida narcísica, temos a consciência do quão pouco podemos diante de um destino que parece, sejamos sinceros, aleatório e inclemente conosco, ao ver que quase nada podemos controlar. Nossa incapacidade de, às vezes, aliviar a nossa dor nos revela o quão diminuta e nossa própria condição humana, frágil, insondável, misteriosa e hermética. No entanto, quero concluir com uma palavra de otimismo, aventando que, apesar das nossas multiplicidades, heterogeneidades e desafios conectados a essa infidelidade que ninguém escapa, nosso mundo também comporta e acomoda pares, que se esforçam para construir relacionamentos duradouros baseados no afeto e no amor mútuo, em contraposição a uma cultura de consumo, descarte, mediocrização e vulgarização. Ao poema; A Podenga Portuguesa — Infidelidade. Ai que vontade tenho eu que sejas de vez, só meu e possa por fim assumir o meu erro de querer quem não preciso mas que me dá sempre um sorriso depois de me fazer sofrer. Ai que vontade que eu tenho dar-te um beijo de todo o tamanho à frente de quem quiser ver nesse momento vou querer que me agarres com força que me deixes louca até que o corpo me doa e os olhos voltem a ver. Ai como queria ter-te um dia mesmo depois de ver o que fizeste e que podes fazer comigo também eu sei mas esta vontade é tão grande que ultrapassa aquilo que antes eu criticava e não entendia talvez já aí sabia que o que via seria eu. E em vez de aprender julguei e agora que cá cheguei não sei como sair. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130

  • O Fantasma.

    “Fantasmas são protagonistas íntimos e secretos que regulam nossa vida emocional.” Dan Mena — por Dan Mena. A revelação do fantasma. Nos primórdios da psicanálise, nos seus atendimentos na clínica, Freud recebia narrativas de cenas de abuso sexual e sedução com muita frequência dos pacientes. No entanto, em determinado momento percebeu que muitas dessas exposições eram fantasiosas, criadas e desenvolvidas imaginariamente pelos próprios contadores. Isso significa que alguns deles, que afirmavam ter experimentado abusos, estavam influenciados por algum elemento psíquico, que mais tarde identificou como “fantasmas”. Em consequência, isso nos coloca numa aparente ambiguidade entre o fantasma e a realidade. No entanto, para a psicanálise, o concreto não é simplesmente um conjunto de fatos objetivos; em vez disso, é algo construído através do discurso. O conceito de “fantasma”, se configura como peça fundamental na compreensão da psicanálise. Se refere logo, a cenas ou explanações internas que moldam a experiência do sujeito, mesmo que essas passagens não correspondam à realidade direta e determinada. Ditas expressões surreais são elementares para a compreensão da subjetividade e do funcionamento psíquico, já que demonstram como a mente lida com a veridicidade percebida e a transforma em significados abstratos. Portanto, o conceito desafia a ideia tradicional de realismo incontestável, destacando a importância da dimensão psíquica na construção da experiência de vida. Boa leitura. Identificação pela visão da psicanálise. Seu conceito se constitui inicialmente na interpretação de ser uma defesa ampla do indivíduo contra o real. Uma espécie de tela metafórica que dissimula o encontro com o factível, que torna a percepção desse aspecto suportável ao sujeito. Há algo que vem do tangível, aquilo que é intolerável para nós, que precisamos camuflar, disfarçar, encobrir e ocultar. Neste artigo quero apresentar uma visão geral da sua caracterização, destacando como sua construção estrutural influencia nosso comportamento e emoções. Uma peça significativa na representação do xadrez complexo e abstrato dos desejos e conflitos inconscientes, que moldam a psicodinâmica individual. Como um mecanismo de defesa psicológica, são estratégias que o ego utiliza como parte consciente para lidar com confrontos emocionais recorrentes, que auxiliam e mantém a estabilidade psicológica. Nesse encadeamento, se maneja representando construções mentais. Citarei três visões; Freud, introduziu a ideia desses autores como componentes fundamentais da psique, agindo na forma de conteúdos internos, desejos e conflitos não resolvidos, muitas vezes fixados na infância, que continuam ativos no amadurecimento, exercendo influência sobre o comportamento e as emoções adultas. Entrelaçado ao Complexo de Édipo, vertendo como uma fonte primordial, onde a sexualidade e dinâmicas familiares desempenham condutas e práticas essenciais. Por sua vez, Jung expandiu a noção, incluindo os elementos do inconsciente coletivo, não apenas como produtos do passado individual de alguém, mas também, como manifestações de arquétipos, ideias e símbolos compartilhados por toda a humanidade, que sugestionam, manipulam os sonhos, mitos e a imaginação. Posto isto, são inevitavelmente ligados a experiência individual, história cultural e à herança simbólica da existência. Uma perspectiva única sobre o tema é inserido mais adiante por Lacan, que o liga a estruturas narrativas que moldam a identidade e a compreensão do sujeito, no sentido das elucidações simbólicas de excitações inconscientes e confrontações com a falta e o vazio. O fantasma, é o eixo de captura do corpo pulsional (objeto perdido) no laço com o ''Outro'', portador de uma ausência. Esse ''Outro'', que se constitui psiquicamente por meio das operações de alienação e de separação. Intervenções estas, que são pilares para a compreensão da formação do sujeito e da própria psicanálise como matéria. Operações de alienação: Se referem ao processo pelo qual nos integramos a linguagem, na cultura e sociedade em que estamos inseridos. Isso ocorre durante o desenvolvimento, quando crianças, começamos a internalizar as normas, valores e significados que permeiam costumes, comportamentos, condutas, etc. Como sujeitos, nascemos em uma condição de “não ser”, (um estado de falta) e só nos tornamos sujeitos ao entrar na linguagem. Durante ditas operações constitutivas, começamos a adotar identificações com figuras significativas, como nossos pais, que serão modelos para construção da nossa identidade. Essas referências moldam a autoimagem e o senso de pertencimento à cultura. No entanto, a alienação também implica uma perda. À medida que nos integramos às praxes contemporâneas, perdemos a sensação de unidade e totalidade que experimentamos antes da entrada na linguística. A abstração, gera uma sensação de falta e incompletude que continuará nos instigando ao longo da vida. Operações de separação: Representam o processo pelo qual começamos a nos distanciar das identificações e demandas dos outros, especialmente das figuras parentais. É uma etapa básica no desenvolvimento psíquico. Enquanto elas enfatizam a identificação com os outros e a conformidade com as normas sociais, destacam concomitantemente a necessidade do sujeito se diferenciar e se tornar independente. Isso envolve reconhecer que as sinalizações anteriores não são idênticas ao self, que o sujeito tem desejos e necessidades individuais e particulares. Através das realizações de separação, buscamos uma relação mais equilibrada com outros, onde podemos manter a própria singularidade e autonomia, ao mesmo tempo, em que participamos de diversos rols de integração. É um processo que envolve reconhecer e lidar com a falta inerente à nossa condição existencial. Alienação e separação, descrevem o esquema da formação do sujeito na psicanálise. A alheação, envolve também às recognições sociais, enquanto a separação se refere à busca pela autonomia e pela diferenciação do self em relação a terceiros. O fantasma tem como função substituir uma/várias ações/es desejante/s que por ''N'' motivos, condições, ambiente, etc, não podem ser factualmente atendidas e concretizadas. Nessa conjuntura se recria a aspiração do ser, via um sistema de atos imaginários, sustentados pela satisfação almejada como viabilidade da sua contingência. Assim, o desejo será parcialmente realizado na ficção fantasiosa do inconsciente, caso seja reproduzido na realidade. Por esta razão, passou a ser conhecido pelo termo de realidade psíquica, (a realidade psíquica é uma construção capaz de abrigar o desejo na mesma medida em que o toma como causa das associações e representações possíveis à sua realização, onde toda atividade é mediada pela fantasia). Utiliza uma dinâmica mental que liberta o que estava recalcado e reprimido, uma satisfação de ambiência instantânea do desejo e, assim, desoprime a tensão psíquica. Ele se dispersa habilmente, se dilui, então se repete ciclicamente, comandando pensamentos de forma sutil e simulada, onde fantasmagoricamente não é percebido mentalmente. Seus efeitos espectrais são sentidos emocionalmente, sem sabermos que eles estão provocando dita emoção. Sentimentos intensos de amor, ira, ódio, rejeição, nojo, ciúme, paixão, entre outros, quando avocados, intervêm na forma do fantasma, que pela sua transmutação acalmam a flama do desejo sexual, que na sua agressividade exige uma compensação urgente e imediata. Darei um exemplo prático (trecho) da clínica, e como o conceito de fantasma é explorado na psicanálise. Ilustrarei, por meio de um diálogo abreviado paciente-analista, a presença de uma fobia específica, como a acrofobia (medo de altura). Paciente: Júlia — Sessão de Psicanálise: Daniel: Olá, Júlia, boa tarde. Como você tem se sentido desde a nossa última sessão? Júlia: Tenho passado bem, más, tive outra experiência horrível daquelas que se repetem nos sonhos, foi no final de semana. Daniel: Pode me detalhar… me contar mais sobre isso? Lembra bem do sonho? Júlia: Claro. Ficou muito vivo na minha memória, porque fiquei aterrorizada. Eu estava em uma viagem com alguns amigos e decidimos subir uma trilha que era muito íngreme, tipo uma montanha, apesar que tinha muito mato e não dava para ver o topo, quase nada do trajeto. Num primeiro momento, nem passou pela minha cabeça a questão da altura, talvez foi por isso que não tive medo. Júlia: Silencio, choro… Júlia: Desculpa. Daniel: Por quê? Toma teu tempo, estou te ouvindo, quando quiser recomeça. Júlia: Já passou… então, num determinado momento da subida o mato ficou mais baixo, e comecei a ver que estamos a uma altura considerável, e às margens do caminho passaram a ficar estreitos e escorregadios. Júlia: Pausa… pensei que poderia superar naquele momento esse meu medo de altura, mas assim que cheguei a um ponto que tive uma visão mais ampla do local, tudo começou a girar, minhas pernas ficaram fracas, comecei a tremer. Basicamente entrei em pânico. Estava desmaiando, alguém me segurou pela mochila, e, meio que perdi o sentido, desliguei. Quando voltei, não sabia nem onde estava. Daniel: Parece que foi uma experiência assustadora. Você consegue lembrar de algum incidente semelhante em sua infância? Júlia: Não, não me lembro de nada traumático relacionado a altura nessa fase. Sempre fui assim desde que me lembro, até no ônibus me sentia enjoada, vomitava, sentia náuseas. Nunca consegui subir num brinquedo de parque de diversões. Daniel: Exploremos isso mais profundamente. Pode ser que esse pânico de altura esteja ligado a algum evento ou sentimento inconsciente. Se lembra de qualquer sonho recorrente ou pensamento que você possa associar a essa fobia? Júlia: (após um momento de reflexão); Bem, eu costumava ter um sonho bastante estranho e pavoroso quando era menina. O sonho sempre começava assim...eu caminhava até o borde de um cume, me vendo parada, observando uma paisagem linda, estava em uma montanha muito alta. Nunca vinha acompanhada, de repente, sem ouvir ou ver alguém, era empurrada para o abismo. O problema, que além de estar caindo, batia em pedras e a queda era interminável. Júlia: Eu caía por muito tempo, era algo interminável, acordava muito angustiada, gritando e assustada. Daniel: Quando você acordava… lembrava de algum rosto? Uma imagem? Qual era sua primeira representação do sonho? Júlia: Sim, sem definição, um homem. Também quando sou empurrada, sinto uma mão grande, é a força que sou arremessada, é muito violenta, fotrte, não podia ser uma mulher. Daniel: É um detalhe muito interessante, Júlia… quero que me conte o sonho novamente...a sessão continua… Esse sonho cíclico de Júlia, pode ser um exemplo clássico de como um fantasma inconsciente está influenciando sua fobia de altura. Neste exemplo, a paciente apresenta uma queixa que não pode ser relacionada exclusiva e diretamente a uma experiência traumática na infância. No entanto, ao explorar seus sonhos e memórias associadas, começo a identificar a presença de um “fantasma” inconsciente. A experiência fictícia de ser empurrada para o abismo pode representar um desejo reprimido ou um conflito infantil não resolvido, relacionado à altura, aos pais ou uma possível queda. Deste ponto, a análise vai cavando, investigando, interpretando, ouvindo repetidas vezes a mesma história, de formas diferentes, explorando o tema com suas lateralidades para guiar o indivíduo a desvendar suas sombras, até compreender as origens dos sintomas. Trabalhar na resolução dos conflitos subjacentes, até superar medos e prosseguir para novas resoluções e temas que irão surgindo na medida que melhorar seu bem-estar emocional. Como podem se manifestar? Substituição de desejos: Frequentemente surgem como uma forma de comutar libidos e lascívias inconscientes que são socialmente inaceitáveis ou moralmente condenadas. Por exemplo, um indivíduo pode ter fantasias de agressão sexual, mas, devido às normas sociais e legais, não podem agir sobre ditas vontades. Nesse caso, o fantasma pode ser uma maneira condutora de satisfazer esses quereres imaginários, sem a necessidade de uma ação delitiva efetiva. Atenuação de conflitos: Servem como um meio de aliviar embates afetivos internos, proporcionando uma saída para a raiva, medo, desejo ou ansiedade, permitindo que se lide com elas de uma maneira menos avassaladora. Essa amenização pode ser uma forma de autoproteção psicológica. Proteção do self: Os fantasmas, como mecanismos psíquicos, são usados para proteger a integridade do self. Quando uma pessoa confronta situações emocionalmente desafiadoras, cria seus próprios duendes, espectros e assombrações, que o/a colocam em um papel mais poderoso ou menos vulnerável, ajudando a preservar sua autoestima e imagem. Deslocamento de tensões: Em alguns casos, funcionam como uma forma de mover inquietações de uma situação real para uma imaginária. Por exemplo, alguém pode ter embates não resolvidos com um membro da família, e esses antagonismos podem se manifestar em devaneios que envolvam figuras de autoridade ou poder. Alívio temporário: Também oferecem um abrandamento provisório das pressões emocionais e dos desejos não realizados. Embora essa satisfação seja apenas imaginária, pode fornecer um certo grau de conforto e redução da angustia e ansiedade. Mecanismos de defesa: Os recursos de proteção e amparo, como a negação, a projeção e a sublimação, estão interligados com a formação de fantasmas. Um indivíduo pode negar a presença de desejos incestuosos conscientemente, que podem emergir na forma de alijamento das metáforas inconscientes. Explorar às queixas de um paciente pode ser fundamental para entender suas oposições implícitas, subentendidas e latentes, assim como identificar os mecanismos de defesa que estão em ação. Revisitar esses lêmures, examiná-los de forma mais consciente, leva a insights íntimos e marcados minuciosamente para à resolução de pugnas. No geral, fantasmas são inconscientes, o inconsciente, por sua vez, em sua fundura contém elementos que desejam atingir a consciência. Más, sabem que é muito difícil de alcançar, por isso, enquanto o ego está ocupado com outras coisas da nossa rotina, eles se aproveitarão desse descuido e começarão a causar estragos, se infiltrando nesse vácuo de consciência que oferecemos. Isso também acontece nos sonhos, quando o ego não está no controle cognitivo, eles agem. Outra observação clínica e percebida quando o sujeito está muito interessado e conectado ao objeto, lugar pela qual sua imaginação também é mobilizada, dando origem a um comportamento emocional inadequado, o que o/a levará a embates com ele. Ditas ações praticadas servem para transformar o fantasma inconsciente em ação real. Portanto, os sintomas que são uma manifestação dolorosa desses ambientes psíquicos, regem, imperam, predominam, se estabelecem no inconsciente desde a infância. Essas revelações são localizadas nas mais polifacetadas expressões, sejam em sintomas como sonhos ou atos subsequentes das relações interpessoais, da vida emocional. Se fosse possível encontrar um lugar para eles, podíamos certamente enquadrá-los na conspiração do conluio infantil, na representação como uma dominação sexual ou agressiva, de um protagonista forte sobre um personagem fraco. Esta comparação cinéfila, pode dar sentido a um filme produzido no próprio complexo de Édipo, onde a estrela, personagem principal, tenta dominar ou ser dominado pelo outro. Na ação que o fantasma executa, o indivíduo pode estar alocado nas mais diversas interpretações, horas como o todo-poderoso, outras, apenas no controle ou mesmo como um abusador. A cena do fantasma é uma emoção que se faz presente, não é uma contemplação para ser admirada. É uma perspectiva que se mostra, está evidente do ângulo que o fantasma é vivo em nosso interior, recomendando condutas, sugerindo atos, aquele bichinho que fala no ouvido, mas o indivíduo não o vê, explicitamente. Se posiciona na tensão, joga na intensidade, se revela nas condutas e posicionamentos ou aparece no equilíbrio mediado entre forças opostas, inimigas, infensas ou nas ambíguas, benfeitoras, carinhosas e amáveis. Frases de psicanalistas que ampliam a compreensão sobre o tema: “Os fantasmas do passado são os arquitetos do presente.” Melanie Klein. “Na psicanálise, explorar os fantasmas internos é como abrir as portas do inconsciente.” Jung. “Os fantasmas são as memórias silenciosas que moldam nossa psicodinâmica.” Lacan. “Em nossos sonhos, os fantasmas encontram sua voz e contam suas histórias.” Freud. “Na mente humana, os fantasmas são personagens-chave nas narrativas emocionais.” Winnicott. “Os fantasmas são as sombras que dançam nos cantos mais profundos de nossa psique.” Adam Phillips. “A jornada da autoconsciência muitas vezes começa com a busca e a compreensão de nossos fantasmas pessoais.” Bion. “Os fantasmas do passado são como velhos amigos que continuam nos acompanhando.” Erich Fromm. “Nossos fantasmas pessoais nos lembram que somos todos complexos e multifacetados.” Winnicott. No seminário intitulado “A Lógica do Fantasma” de (1966 – 67) Lacan atribui uma centralidade ao conceito, no que concerne ao processo de cura psicanalítica. Ele postula que o paciente deve necessariamente confrontar seu “fantasma inconsciente fundamental”, o qual serve como base de sustentação de seu desejo e a forma como experimenta o gozo. No início do tratamento, o “fantasma” muitas vezes se apresenta como algo de difícil visualização para o analista, que deve empreender um esforço para descobrir ao longo da terapia. Como uma forma de defesa do sujeito contra a castração, ou seja, é a maneira pela qual se protege dela, imposta pelo “Outro”. O “Outro” aqui mencionado, que se refere ao grande ''Outro'' da linguagem, e a ordem simbólica que molda a realidade libidinosa. Portanto, o “fantasma” funciona como uma espécie de escudo psíquico que protege o sujeito do questionamento… O que o Outro deseja de mim? Ao final da análise, se espera que o sujeito tenha passado por transformações significativas em sua forma de defesa, de experimentar o gozo e de sustentar equilibradamente o seu próprio desejo. Destarte, seja inegável, que o fantasma distorce a percepção da realidade, ele não está completamente separado desta, ao possuir uma estrutura simbólica e discursiva, aonde se identificam diversos tipos complexos, sendo os mais comuns, o “da prostituição”, o “Don Juan” o “a mãe fálica” e o “da Liberdade”, entre outros. Se trata, afinal, do indivíduo adquirir um saber de si sobre o seu fantasma, lugar onde o gozo continua a ser da sua total responsabilidade, más, já não mais afirmará que ele responde exclusivamente ao desejo do Outro. É precisamente este ser capaz, que lhe abrirá uma oportunidade de se distanciar, se desprender dele, abandonando o querer ser ansiosamente algo para o Outro, lugar este, onde o sujeito, diz Lacan... pode ocupar verdadeiramente a posição do analista. Ao poema. De um fantasma, Leoni. Na minha vida fluida de fantasma Sou tão leve que quase nem me sinto. Nem há nada mais leve nem tão leve. Sou mais leve do que a euforia de um anjo, Mais leve do que a sombra de uma sombra Refletida no espelho da Ilusão. Nenhuma brutal lei do Universo sensível Atua e pesa e nem de longe influi Sobre o meu ser vago, difuso, esquivo E no éter sereníssimo flutuo Com a doce sutileza imponderável De uma essência ideal que se volatiza... Passo através das cousas mais sensíveis E as cousas que atravesso nem se sentem, Porque na minha plástica sutil Tenho a delicadeza transcendente Da luz, que flui través os corpos transparentes. Sou quase imaterial como uma idéia... E da matéria cósmica que tem Tantos e variadíssimos estados Eu sou o estado-alma, quer dizer O último estado rarefeito, o estado ideal: Alma, o estado divino da matéria!... Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130

  • A Intimidade.

    “Intimidade é o nível mais profundo da vivência psicossocial, apenas possível pela exposição das nossas vulnerabilidades” Dan Mena. Por Dan Mena. O que queremos dizer quando empregamos o termo intimidade? Quais são as questões com as quais nos esgrimimos nas nossas vidas? A psicanálise oferece uma lente poderosa para a compreensão da intimidade, revelando como nossos desejos, traumas e relações moldam nossa capacidade de nos conectarmos amplamente com outros. Ela se manifesta em diferentes espectros de nossa vida, e, verificamos logo, como ditas complexidades são inerentemente ligadas a experiências interpessoais que permeiam nossas conexões. Analisaremos uma dimensão essencial da vivência, que abrange desde relações românticas e familiares até conexões indagas com amigos, inclusive a mais importante, aquela que estruturamos consigo. Em seu trabalho “A Interpretação dos Sonhos” (1900), Freud objeta, que os sonhos revelam desejos e pensamentos íntimos, muitas vezes reprimidos e recalcados em nosso inconsciente. “Os sonhos são a estrada real para o inconsciente.”. Essa citação freudiana, ressalta como a psicanálise, desde seu início, estava ligada à exploração das camadas sondas da psique, onde a intimidade de nossos anseios e perturbações mais escavas residem. Também Jung, introduziu a ideia do "Self" como um centro unificador da mente, em seu livro “Memórias, Sonhos, Reflexões” (1961), ele escreve: “A busca da intimidade com o Self é uma jornada interior que nos conecta com nossos aspectos mais profundos e autênticos.” Uma jornada rumo à aceitação de nosso Self como um processo íntimo e essencial para a saúde psicológica. A fidedignidade envolve a noção do “Eu Verdadeiro” ou do "Self, Autêntico”, que incluí a aceitação de todos os aspectos de si, inclusive, aqueles que podem ser desconfortáveis. Genuinidade se relaciona com a remoção das máscaras sociais na busca pela intimidade pessoal, visto, que frequentemente usamos dessas defesas psicológicas, como a repressão, para esconder nossos verdadeiros desejos e medos. (O self é uma instância psíquica que contém os elementos que compõem a personalidade, mas não abarca o núcleo da existência legítima do indivíduo. O protagonista da existência é o “ser interior”, e o self, que atua como assistente principal na formação da personalidade.) Boa leitura. A singularidade da intimidade. A noção de particularidade na intimidade nos permite vislumbrar a especificidade radical que lhe está implícita, característica essencial da nossa prática analítica. O íntimo nos remete para o que é mais próprio de si, e, por outro lado, para a sexualidade, inequivocamente ligada ao pudor. (O pudor como barreira ou limite que protege o mais íntimo do sujeito, uma proteção que forjamos contra nossa dissolução subjetiva, onde o conceito de limite é crucial. O limiar que pode ser respeitado, violado ou ultrapassado, cabe a cada um, na sua abrangência). A palavra deriva da raiz latina ''intimus'', que significa mais íntimo. Se explana em um espaço privado, no qual os outros não se devem intrometer, por conseguinte, uma relação interpessoal que envolve a pessoalidade física e emocional de uma relação essencialmente peculiar. O psicanalista Theodore Rubin a descreve como ''uma proximidade bondosa, que inclui cuidados mútuos não competitivos, trabalho em prol de objetivos comuns… confiança, zelo e disponibilidade, troca de sentimentos e autorrevelações de ternura'', (Rubin, 1989). Essa dialética na esfera da estreiteza, da privança do próprio “corpo-mente” que (Wrye, 1998), cita. Destarte, se entrelaça como um elo da relação entre pessoas, onde ambas se comunicam e se constituem por si. Na perspectiva de um adulto socializado, contemporaneamente atrelado a cultura ocidental, ser íntimo de si e estar seguro de uma condição prévia para criar essa divisa com outros, aqueles que precedem o repartimento deste espaço em direção a um ''sentido do eu''. A nossa relação natural e peculiar, reflete a forma significativa do manejo do corpo, em transição com a nossa mente nascente, tanto consciente quanto inconsciente. No relativo à introdução desta formação no ser, será de suma importância como nos tocaram, beijaram, acariciaram, alimentaram, recebemos a higiene, trataram, nos seguraram no colo, se dirigiram ao falar conosco, às maneiras que aprendemos a brincar juntos e dividir os afetos. Em diferentes facetas e modos, podemos ter sido ignorados pelos pais ou cuidadores, constritos, excessivamente reprimidos, invadidos fisicamente, castigados, abandonados física e emocionalmente, constrangidos, forçados, obrigados, etc., o que delimitará, certamente demarcar a forma comportamental do corpo-mente e sua futura elaboração. Nossas relações íntimas primárias, sujeitas a um certo decorrer pela primazia do ''outro'', que se instituem e firmam na sujeição dele, campo especialmente abalizado pela leitura psicanalítica e às relações de objeto. Razão, pela qual estaremos sempre a mercê da emblemática dependência que surge do desamparo precoce, mesmo quando envidamos grande esforço e resistência para nos tornarmos independentes desta sina primitiva, para a qual levantamos grandes defesas protetivas para fugir dessa inevitável carência e sujeição. Não é tão intima e privada quanto pensamos. Sua definição não está incisa numa regra inflexível, é cônsona, não pode ser transladada como ambígua ao que é público. Contudo, e afiliada a manifestações psíquicas que delineiam a experiência de privacidade, como os sentimentos de vergonha e acanhamento que estabelecem uma esfera de validação. Ela se manifesta como um modo de comunicação observável também em uma prática comum entre crianças. Contar segredos, onde o tal incógnito, não compreende necessariamente informações tão substanciais assim. No entanto, o ato de compartilhar uma confidência, independente da sua relevância, cria uma relação especial entre duas pessoas, que as compromete de fato entre si. Logo, essa confiança depositada pode ter um peso, uma carga de confiança, a tona cientes, que o dito confiado deve ser sigiloso, e que da nossa dimensão individual não possui mais importância do que para aquele que a revela. Na nossa época, existe uma percepção universal de que há uma inclinação para a evidenciação, exteriorização e exposição da intimidade, principalmente no tocante as redes sociais e outros meios. No entanto, essa abordagem é um tanto simplista, pois em último caso, existe um discurso público sobre o assunto, onde o íntimo não é fatalmente oposto ao comum coletivo. Esse desarranjo conceitual moderno, pressupõe estabelecer uma equidade entre o que seria íntimo e o que é caseiro, doméstico e familiar. A intimidade em si, extrapola o ''sui generis'', porque se vincula de muitas formas ao social, que muitas vezes e esquecido na sua leitura. Embora todos, nos tornamos comunicadores em várias esferas do conhecimento, é importante observar que, apesar de termos muitos contatos, principalmente online, poucos são os laços de verdadeira intimidade. A pessoalidade e privacidade sempre envolvem o outro, mas ocorre com nossa anuência e presença, à medida que estamos dispostos a permitir que a palavra adentre, promova uma certa transformação, reconhecendo nossa condição de seres falantes. No que tange a clínica, a psicanálise e fundamentada na intimidade, visto que estabelece uma forma de comunicação distinta da cotidiana, daí que firma seu caráter específico. O cliente-paciente que fala, narra, conta, não está trocando informações com o psicanalista, ele não flui meramente como transmissor de informações, mas sim, recupera por ela(e) sua própria posição de fala, e ao fazer isso, a perde, se extravia desse lugar, à medida que o recupera. Isso que Lacan descreverá como “destituição subjetiva”. (A destituição subjetiva foi um conceito lacaniano para marcar o fim de análise. O sujeito entra em análise dizendo: “Não sei o que está acontecendo comigo”, e começa a falar da pressuposta autoria que os outros têm sobre suas queixas. Ele(a) não sabe por que tem tais sintomas, (o conjectura que sabe), mas tem dedos para apontar… porque por si, não pode suportá-los, logo, precisa atribuir a culpa consignada. Mas será que falando podemos encontrar aquilo que somos, que nos constituí entre erros e acertos? Aquilo que ocorre quando o sujeito se reconhece na opacidade de um objeto pulsional que o estabelece e, ao mesmo tempo, lhe escapa da sua verdade?. Essa é a tal opacidade que Lacan indica toda vez que fala do advento do ''objeto a'' em sua condição de resto. Ao tentar falar sobre o desejo, há um momento em que chegamos ao ponto do cordão umbilical, onde não podemos ir adiante, eis que se infiltra, a ideia de destituição subjetiva. Ela consiste em dizer que, no final da análise, o sujeito saberá alguma coisa. A intimidade está ligada ao conceito de “objeto a” e nossa relação com o desejo. Considerações importantes: Objeto a: Representa um objeto perdido ou inalcançável medial para nossos quereres. Não, é algo físico real, mas sim algo conectado a excitação, associado a fantasias. A busca desse elemento-objeto, pode ser vista como uma tentativa de preencher um vazio interiorizado. Desejo e falta: O desejo está cravado na nossa ausência primitiva, na sensação de que algo está faltando. Essa inexistência supressiva é o que impulsiona a libido e a torna interminável. A busca pelo ''objeto a'' é uma tentativa de lidar com essa carência como necessidade. Intimidade e o Outro: Na relação com o esse outro e que o sujeito busca realizar seus desejos, encontrar um sentido de norte para seu desprovimento. A busca pelo ''objeto a'', envolve o sentido de reconhecimento, que virá pela satisfação vivida nos olhos do outro. Desejo inconsciente: A volúpia, concupiscência, excitamento e assanhamento inerentemente ao homem (ser), é inconsciente e muitas vezes irracional. Portanto, a intimidade envolve a exploração dos desejos instintivos inconscientes que moldam nosso comportamento, condutas e relacionamentos. Por que procuramos a intimidade? Ela nos permite confirmar nossos estados interiorizados e as formas como se consolidam e revigoram. Serão ampliados via relações interpessoais, onde ditos laços desejados, juntamente com às experiências individuais, vão permitir uma validação. Destarte, seja desejada a intimidade é uma peculiaridade que não pode ser a contra-gosto ou viabilizada por estratégias pre-concebidas. Sua integridade está no marco imprevisível da espontaneidade irregular dos afetos. Más, quando isso se apresenta por um querer, acontece da forma mais intensa, prazerosa e deliciosa. Esse encontro de dois mundos, de sentir no outro e com o outro, um compartilhar real, que nos vislumbra e apresenta o que somos numa dimensão de observação, distinção e pensamentos que justificam nossa extensão de subsistência, tanto para si quanto para outros. Esta importante abonação para o ser, serve como instrumento expiatório para dar peso à experiência de vida, aquela que somos implicados, ao abrir a janela da permissão de aceder à mente e o coração do outro, já que esse ''outro'', nos compreende e acolhe. Necessidades relacionais se diferenciam das instintivas porque são, na verdade, necessidades internas; vejamos suas diferenças: Instintivas; são aquelas que estão presentes desde o nascimento e são necessárias para a sobrevivência do indivíduo. São exemplos, a fome, sede, sono, sexo, fisiológicas, etc. Relacionais; surgem da interação com o meio ambiente. São exemplos, amor, aceitação, afeto, carinho, acolhimento, etc. Necessidades instintivas e relacionais estão intimamente relacionadas, visto que ambas precisam ser satisfeitas para podermos sobreviver e se desenvolver. No entanto, relacionais são essenciais para a saúde mental e emocional, relevantes para o ir em frente do ego, o qual é a parte da personalidade responsável pela nossa adaptação ao mundo. O ego precisa de amor, aceitação e benquerença para se dilatar e amplificar de forma saudável. Sua frustração concomitante, pode levar a problemas emocionais como a baixa autoestima, ansiedade e depressão. Um exemplo da sua manifestação: Um bebê chora quando está com fome, mas também quando precisa de atenção e afeto. Ele(a) pode se recusar a comer, se não se sentir amada(o) e aceita(o) pelos pais. Um adulto pode desenvolver problemas de relacionamento se tiver dificuldade em expressar seus sentimentos ou se sentir rejeitado pelos outros. Associação livre. Um exemplo prático (trecho) da clínica, e como o conceito de intimidade aparece. Por meio de uma narrativa abreviada paciente-analista, a presença de uma queixa específica. Cenário: ansiedade, insegurança, medo… Daniel Olá, Vítor. Como você está hoje? Como foi tua semana… me conta? Continuemos daquele ponto, onde você falava sobre questões relacionadas à intimidade e ao seu relacionamento com Sara. Vítor: Obrigado Daniel, estou bem, tive uma semana tranquila no trabalho, foi bom. Emocionalmente estou um pouco ansioso, meu normal, né? rsrs… mas estou pronto para continuar a trabalhar nisso. Andei pensando… acho que meu problema central é que, quando as coisas começam a ficar mais sérias, eu começo a me distanciar emocionalmente de Sara. Daniel: Compreendo Vítor. Essa tendência de você se afastar dela emocionalmente quando a intimidade aumenta é uma reação comum em muitas pessoas. Você mencionou que seus pais não eram muito expressivos quando se tratava de doar afeto. Como você acha que essa experiência da tua infância com eles moldou sua maneira de se relacionar com os outros hoje? Acredita que sua ansiedade levada a esse nível seria o normal da sua personalidade? Vítor: Acho que cresci vendo meus pais, que raramente demonstravam afeto um pelo outro. Eles não discutiam suas emoções, e as conversas sobre o relacionamento eram praticamente inexistentes. Talvez eu tenha internalizado essa ideia de que não se deve compartilhar muito emocionalmente. Não, não acho que minha ansiedade esteja em uma normalidade, me incômoda bastante…(silêncio… abaixa a cabeça e reflete). Daniel: É interessante que você tenha identificado essa possível conexão Vítor. As experiências da infância frequentemente influenciam nossos padrões de relacionamento na vida adulta. O medo de você se machucar, que já me mencionou anteriormente, também pode estar relacionado a essas experiências passadas. Como você acha que esse medo se manifesta no teu relacionamento com Sara? Vítor: Acho que… pausa… hummm… quando sinto que as coisas estão indo bem demais, começo a me preocupar em ser machucado novamente. Às vezes, isso me faz criar desculpas para terminar o relacionamento ou me afastar dela antes que as coisas fiquem sérias. Daniel: Novamente? Me conta algo sobre esse passado que está no ''novamente''? Então, não, é algo sério? Vítor: Não, não é bem isso que quis dizer… não gostaria de falar agora sobre esse passado que me machucou… outro momento! Daniel: Então, tudo bem… você pode dizer isso de outra forma. Quero ouvir de novo? Gostaria de entender melhor essa dicotomia. (cria outra posição… agora se implica emocionalmente). Daniel: Parece que você está usando a criação dessa distância e afastamento como uma forma de proteção contra possíveis feridas… isso é uma estratégia de autopreservação que você desenvolveu para evitar a dor. No entanto… já pensou na possibilidade que essa postura também pode estar te impedindo de experimentar o lado satisfatório dessa convivência? Como você se sente sobre essa possível estratégia que montou? Vítor: Sim, eu sei que não é saudável agir dessa forma, más, é como se houvesse uma barreira enorme que não consigo atravessar. Daniel: Entendo completamente, Vítor… você acha que Sara é importante para você? Ou tanto faz? Vítor: É, sim, não tem a ver com ela, ela é uma mulher incrível. Daniel: Tem a ver com quê? Te ouvindo… tive a sensação de que parece que só você dá as cartas...e se ela terminasse hoje? Vítor: Não pensei nisso… Daniel: Imagina que ela acabasse agora com você? Como você vai se sentir? Vítor: Ficarei arrasado… sofrerei um bocado…(pausa longa)… ela é importante para mim. Daniel: Pois é... Agora você percebe que iria sofrer da mesma forma? Não seria uma melhor posição baixar essa guarda? Vítor: Vendo por esse lado, você tem razão… de uma forma ou outra, parece que o resultado seria o mesmo. Daniel: Parece que de ambos os ângulos… você só espera pela dor? Quer dizer… você só anda com o pé no futuro? O primeiro passo para a transmutação de pensamentos é a conscientização, você esta aqui porque deseja entender como eles estão te afetando, e algo necessário a essa questão é você viver o presente com toda sua força, sem medos. Vítor: Isso que você me falou foi reconfortante de ouvir Daniel, eu realmente quero mudar e superar essas questões. Daniel: A mudança é um processo Vítor, e estamos aqui para percorrê-lo juntos. Com tempo, reflexão e compreensão, acredito que você pode alcançar seus objetivos. Estou comprometido em te apoiar nessa jornada rumo a relacionamentos mais saudáveis e uma vivência íntima emocional mais comprometida. Continua…(o nome do paciente é seu implicado foram alterados para preservar o sigilo profissional). A intimidade é um processo que envolve diversos fatores, como: Confiança: Necessita que confiemos uns nos outros para compartilhar pensamentos, sentimentos e experiências mais íntimas. Vulnerabilidade: Requer implicação, ser exposto, e que nós tornemos vulneráveis reciprocamente. Aceitação: A intimidade só é possível quando somos aceitos e compreendidos pelas pessoas. Intimidade pode ser difícil de alcançar, ao exigir enfrentar medos e inseguranças. No entanto, é uma experiência recompensadora que pode trazer grande felicidade e satisfação. Frases que contribuem para sua compreensão: “A intimidade é um estado de mútua confiança e abertura entre duas pessoas, que permite que elas compartilhem seus pensamentos, sentimentos e experiências mais íntimos.” Freud. “A intimidade é a capacidade de nos conectarmos com os outros em um nível profundo e autêntico.” Jung. “A intimidade é um estágio do desenvolvimento psicossocial onde os indivíduos buscam relacionamentos próximos e significativos.” Erikson. “A intimidade é a capacidade de nos relacionarmos com os outros de forma honesta e genuína.” Horney. “A intimidade é a capacidade de nos sentirmos seguros e aceitos por outra pessoa.” Winnicott. O ir e vir do seu espírito. A intimidade é um aspecto essencial do desenvolvimento, na medida que permite nos conectar em um nível autêntico. Na psicanálise, é um objetivo do próprio processo terapêutico. Quando vivida desde o seu ápice, é de fato uma relação com nossa verdade, gangorra do vai e vem, desse espírito de comunhão. Por essa via, nos define como sapiens, mas só ganha sua real substância quando dialoga, trata, confraterniza, enlaça com nossas capacidades únicas de conhecer e do não saber, interpretar bem ou mal, que se sujeitam entre si hipoteticamente, para formar parte de uma suposta realidade de unificação. Ditas dimensões do sentimento e do calvário do dissabor, também permitem um encontro de mentes que transcodificam essa verdade. Se evocasse agora Bion, ele diria que o sofrimento é um encontro emocional consigo mesmo, que enfatiza a nossa finitude, incompletude e responsabilidade primárias, ao mesmo tempo, ligadas às primeiras memórias de solidão. Assim, vivenciar um vínculo estreito, envolve sofrer com ele e, como consequência, desafia nossa competência e habilidade em compreender essa fragmentação e fragilidade que acompanham muitos clientes como Vitor. Ansiosos(as) de poder superar barreiras emocionais para formar vínculos íntimos e responsáveis com seus parceiros. Essa riqueza paradoxal, que inclui a solidão, tornam a angústia um do outro mais suportável, que envolve tolerar a incerteza e a ambiguidade. Quando estamos íntimos de alguém, devemos estar dispostos a nos expor a um risco emotivo, pois sabemos que podemos ser feridos ou rejeitados. Afinal, é disso que se trata, de compartilhar nossos pensamentos e sentimentos, um processo de partilha que não pode ser renunciado, pois nos auxilia do inerente desamparo existencial, eis a equação, compreender o outro para acolher a si. Ao poema; Intimidade por José Saramago. No coração da mina mais secreta, No interior do fruto mais distante, Na vibração da nota mais discreta, No búzio mais convolto e ressoante, Na camada mais densa da pintura, Na veia que no corpo mais nos sonde, Na palavra que diga mais brandura, Na raiz que mais desce, mais esconde, No silêncio mais fundo desta pausa, Em que a vida se fez perenidade, Procuro a tua mão, decifro a causa De querer e não crer, final, intimidade. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130

  • O impostor.

    “A Síndrome do Impostor é o conflito inconsciente entre o desejo de ser reconhecido e o medo profundo de ser exposto como uma farsa.” Dan Mena — por Dan Mena. Neste artigo, vou discorrer sobre algo muito interessante, o impostor. O que seria isso? Em alguma oportunidade já teve a sensação de que as conquistas que obteve na vida provém de golpes de sorte? Ou talvez sinta, que não é merecedor(a) das coisas que recebe? Que seu valor está deturpado da realidade sobre o que outros projetam e pensam ao seu respeito? Tem medo de ser desmascarado(a), ser descoberto(a) como uma fraude? Se respondeu afirmativamente a alguma destas perguntas, você pode estar sofrendo da ''Síndrome do Impostor''. É um fenômeno psicológico que faz com que as pessoas afetadas sintam que nunca estão à altura da tarefa designada ou que são incapazes de aceitar que merecem o que obtiveram como resultado do seu trabalho, capacidade e esforço. Destarte, não seja reconhecido como uma perturbação ou doença, afeta igualmente ambos os sexos, e é muito mais frequente do que imaginamos, por isso, fique tranquilo(a), já que seis em cada dez pessoas sofrerão deste evento ou autoincriminação durante sua trajetória de vida. Existem inúmeras causas que podem levar à sua origem, algumas das quais seriam: a dinâmica familiar durante a infância, baixa estima, superproteção infantil, falta de reconhecimento no ambiente familiar, diferenças profissionais, deturpação e deformação da percepção de sucesso, fracasso ou insucesso em empreitadas, alto conceito de competitividade, rivalidade e disputas por posições sociais marcadas entre homens e mulheres, etc. A principal caraterística que provoca seu surgimento é a distorção cognitiva, geralmente baseada em crenças limitantes. Uma visão exagerada, potencialização das capacidades e habilidades pessoais, atribuídas a um suposto sentido de sucesso, percebidas como razões e fontes exteriorizadas. A insegurança, ideias e pensamentos sabotadores que viajam juntos no sentindo da criação de um medo imaginário, fantasioso, que permanentemente invade e ataca a psique. Digamos, uma certa ameaça de estar vestindo um disfarce que pode cair a qualquer momento, que dissimula seu agir é pode ser escrachada. Um problema comum, que pode afetar pessoas de todas as idades, classes sociais e profissões. Boa leitura. Visão psicanalítica. A psicanálise oferece uma perspectiva da síndrome a partir da teoria da personalidade de Freud, é possível compreender como se desenvolve e se manifesta. E o impacto significativo na vida das pessoas. Pode causar ansiedade, depressão, dificuldade de concentração e produtividade, e até mesmo o abandono de oportunidades de sucesso. No livro "The Secret Thoughts of Successful Women: Why Capable People Suffer from the Impostor Syndrome and how to Thrive in Spite of it”, (Os pensamentos secretos de mulheres de sucesso: por que pessoas capazes sofrem com a síndrome do impostor e como prosperar apesar disso) — de Valerie Young, destaca cinco tipos: Habilidades: Precisa alcançar resultados imediatos, se esforçar duramente por suas metas e objetivos, o que a(o) faz se sentir pouco competente, pois não o considera ser ou ter como um talento natural. Desprezam o auxílio, a assistência, a ajuda, porque isso os(as) incômoda, acreditam piamente em sua capacidade de realizar tudo por conta própria. Seus talentos são vistos como brumas, escuras e opacas. Egocêntrico(a): Tem a firme convicção de que pode conquistar tudo de forma independente, sozinho(a), que sua prosperidade depende apenas de alcançar seus propósitos e fins, que incluir um terceiro, seria prejudicial ao seu escopo. De fato, solicitar auxílio é para eles(as), uma evidência de que são enganadores(as), fraudatórios(as), (soando permanentemente nas suas cabeças). Perito: Visto como um(a) especialista nos seus círculos, porém, não se sente ou habilita como merecedor(a) de tal condição. Estabelece metas subjetivas e inalcançáveis para ser verdadeiramente experimentado, resultando na constante sensação de ser um(a) impostor(a), pois sempre haverá algo perturbavelmente desconhecido. No sentido que crê que sabe tudo, portanto, se limita. Perfeccionista: Estabelece metas excessivas, cria suas próprias dificuldades para alcançá-las, alimenta sua crença de que não é bom ou boa o suficiente para elas. Além disso, mesmo quando atingem suas metas não conseguem usufruir e desfrutar do sucesso. Acreditam que sempre podem fazer melhor, deflagrando um sem fim de tarefas desafiadoras. Preocupação, ansiedade, angústia e insegurança criam o tom da sua vida. Super-humano. Para camuflar sua insegurança, trabalha a um ritmo incessante, ''workaholic'', (viciado em trabalho), precisa estar constantemente provando seu valor e obtendo validação externa. Precisam ser bons em tudo, dar exigência e crítica constantes de si. Que decorrências pode ter? Incapacidade de reconhecer e apreciar suas realizações. Aumento do nível de stress no dia a dia, nesse medo de ser descoberta(o) o que a aflige(a). Desconforto emocional causado pelo sentimento de culpa por “enganar” metaforicamente os outros. Procrastinação das tarefas ou trabalhar excessivamente para provar que o seu sucesso se deve ao trabalho e não ao talento. Dificuldade em pedir promoções ou aumentos salariais. Não acreditar nas suas habilitações e qualidades, trabalhar abaixo do seu possível potencial. Desconformidade na execução de tarefas… tudo podia ser feito melhor. Freud e a síndrome do impostor. A teoria da personalidade de Freud é baseada na ideia de que o desenvolvimento humano é influenciado por fatores conscientes e inconscientes. O inconsciente, por sua vez, é um baú de pensamentos, sentimentos e desejos reprimidos da consciência. Como um sintoma inconsciente, criam uma imagem de si mesmas(os) de inabilidade e imperícia, mesmo quando a sua realidade é positiva e diferente da formulada. Esse desenho desfavorável de si, pode ser resultado de experiências traumáticas ou de confrontos incônscios. Por exemplo, uma pessoa criticada por seus pais durante a infância pode desenvolver uma limitação de que não é boa o suficiente. Em sua obra “Psicologia das Massas e Análise do Ego,” Freud abordou no “Ideal do Ego”, essa representação idealizada do self, reconhecendo que tal aspiração imaginária, inevitavelmente resultaria em um sentimento de insatisfação, uma vez que a realização desse arquétipo permaneceria inatingível. Diante da impossibilidade de alcançar o sublime, levanta a questão de como lidamos com esse descontentamento e desprazer, especialmente, quando eles são influenciados pela cultura e o social. Uma resposta possível para essa questão, seria a aceitação dessa inviabilidade, impraticabilidade da coisa, que, sem dúvida, preservaria o nosso desejo. No entanto, para adotar essa dimensão, teríamos que resistir às pressões do discurso da sociedade. Eis ao que Lacan denominou de “imperativo de gozo” que diz; “Há, portanto, um impossível de se cumprir; goze o que gozar o sujeito, ele estará sempre em dívida e culpa com o supereu, ninguém a gozar, senão o supereu. O supereu é o imperativo de gozo — Goza!” (Lacan, 1972 – 73/1985).” Aqui entra Freud como o “superego” O superego é entendido como uma instância psíquica que observa e supervisiona constantemente os pensamentos e comportamentos do sujeito, comparando-os com os ideais estabelecidos e impondo, severamente, a realização do que é, na verdade, inatingível''. Quanto mais o sujeito se esforça para se conformar aos padrões impostos pelo superego e pela cultura, mais ele(a) fica aprisionado(a) a tirania do imperativo de buscar um prazer idealizado. Eles acabam por bloquear o acesso ao seu verdadeiro desejo. A profundidade desse comprometimento com o ideal e com o imperativo do gozo levanta questões sobre até onde o sujeito está disposto a ir para se conformar com padrões inatingíveis e as implicações disso para sua saúde mental. Esse peremptório de gozo e à compulsão de buscarmos satisfação e prazer, muitas vezes de maneira autodestrutiva, se deve a pressões internas que não estão alinhadas com nosso desejo consciente. Ao tratar da lei moral, a partir do “Mal-estar na civilização” (Freud, 1930 — Lacan, 1959), nos remetem ao próprio paradoxo do supereu, que se alimenta da renúncia exigida por ele. A função do supereu é reforçar as imposições da civilização, sua missão, nos demandar a renúncia pulsional, ditas resignações da qual se alimentam a agressividade e a destrutividade. Tanto a consumação de uma quanto a outra, nessas abdicações e desistências, haverá infelicidade, pelo impossível mandamento superegoico da renegação a pulsão. O que funda a civilização é uma necessidade não de regular as pulsões sexuais, mas sim de estabelecer uma proteção contra a agressividade do próximo, o gozo. Ou seja, o que se configura como um mal é o nosso gozo, a agressividade contra o outro, que também se volta contra nós. Superar o medo do êxito. Dominar o temor do triunfo, da vitória e prosperidade é muitas vezes uma preocupação que permeia o desenvolvimento pessoal. Dúvidas e fragmentações psíquicas em relação às nossas capacidades formam parte desse receio de alcançar finalidades e propósitos. Como podemos confrontar as vozes que as alimentam? Fazer uma autoavaliação objetiva, adaptada a mensuração do progresso pessoal. Reconhecer e valorizar nossos talentos individuais, mesmo que essas aptidões nos conduzam por caminhos não convencionais. Sair do quadrado, explorar o nosso potencial de maneira única. Validar os próprios feitos e realizações via uma compreensão mais sólida das suas origens. Desvincular eventos e feitos positivos da sorte ou acidentes fortuitos. Estabelecer metas alcançáveis com um senso de controle sobre o caminho. Usar uma abordagem gradual na construção da autoconfiança e na habilidade de reconhecer cada etapa em direção aos fins. Abandonar a ideia de perfeição que gera ansiedade e autocrítica negativa. Reconhecer a natureza imperfeita da condição do ser, cientes que possuímos habilidades e competências únicas. Desenvolver um controle sobre os pensamentos desautorativos que boicotam e danificam nossa autoestima. Reconhecer quando esses pensamentos negativos surgem e evitar declarações limitantes, como “não mereço”. A mudança de paradigma envolve substituir o não consigo pelo tentarei. Ajustar a linguagem interna para começar a reverter e cultivar uma mentalidade autoafirmativa. Aprender a aceitar elogios sem a necessidade de justificá-los. Desenvolvimento da autoestima de maneira sustentada, saudável e autêntica. Ansiedade existencial e a valorização do sucesso na modernidade. A ansiedade existencial é um desafio para à nossa experiência de vida e sua busca por significados. Encarar eles, bem como a disposição para enfrentar dificuldades, fazer renúncias e lidar com fracassos é inevitável. Esta jornada requer muita dedicação e não pode ser abordada de maneira extemporânea. Carregamos conosco uma série de incertezas, inquietações, zelos, escrúpulos, melindres e desconfortos relacionados aos obstáculos que se denotam. Preocupações, são geralmente exacerbadas por uma forma de ansiedade que pode ser irracional, conhecida como'' ansiedade existencial'', (está na essência do ser, pode surgir com várias características: ansiedade de morte, de falta de sentido, vazio ou culpa. A ansiedade de morte, seria a última e absoluta manifestação do “não ser”, o fim inevitável a que todos nos dirigimos irremediavelmente), que reúne também o medo do insucesso em nossos projetos. Em “O Futuro de uma Ilusão” de (1927), Freud fala: “O medo do infortúnio é uma das maiores fontes de ansiedade humana; mas se ele vier, é que os instintos, aos quais a própria adversidade foi infligida, terão desempenhado um papel na trama da vida''. ''A resiliência é uma qualidade valiosa da qual precisamos dar mão, como uma competência dimensional de perceber o social e o mundo que gira nos entornos. Aqueles que alcançam o sucesso dos seus objetivos frequentemente passaram por grandes reveses e mudanças, certamente, utilizando às oportunidades de aprendizado que se cruzaram no decurso, onde por esta razão, ambiguidade de propostas e dúvidas não devem ser vistas como perigos, mas como catapultas que vão nos impulsionar. “Nós podemos pensar em nós mesmos como tendo três inimigos poderosos: o super-ego, que reprime os nossos desejos; a realidade exterior, que frustra nossas tentativas de satisfazer esses desejos; e o superego, que inflige punições de ansiedade — medo do mundo exterior, pavor do superego e pânico do castigo.” Como seres naturalmente dependentes que somos daqueles ao nosso redor, necessitamos dessa presença do outro, para legitimar essa segurança emocional. A valorização que estes ''outros'' desempenham e um alicerce retificante na elaboração da ufania, amor-próprio e autoestima. “A necessidade de amar e ser amado é o princípio vital mais básico do psiquismo individual. É a necessidade de ser aceito e não rejeitado pelos outros.” “O Mal-Estar na Civilização” (1930). Para evitar confrontar esses sentimentos que nos habitam, recorremos a estratégias de mentirmos a si, ao mesmo tempo, tapeando os outros, seja de forma consciente ou inconsciente, embalamos a percepção do olhar de terceiros, escondendo nossa capacidade de enfrentar essa debilidade. Lidar com a possibilidade do insucesso, passa por uma leitura fria da sociedade contemporânea, onde o encantamento e a fascinação pelo seu antagônico ''suposto'' êxito se vincula a aspectos concretos, ligados a realizações financeiras, posição social, vaidade, poder, títulos educacionais, fama, etc. Essa avaliação que pesa sob o crivo da sociedade nos torna subjugados a arbítrios, que muitas vezes condicionam o valor puramente essencial da vida. Parece, que nestes tempos, a materialidade se sobrepõe ao indivíduo. Aqui podemos engajar Bauman, com seu conceito brilhante de “sociedade líquida” onde argumenta da natureza fluida, instável e volátil das sociedades recentes, lugar das relações sociais, instituições e valores caracterizados por uma ausência de solidez e constante mudança. O materialismo, manifestado como uma demanda incessante por bens de consumo, impulsionados pela incerteza e satisfação de uma segurança fantasiosa. Na realidade, um esforço imaginário e insustentável para preencher vazios emocionais impossíveis de serem completos. “Na sociedade líquida nada retém sua forma por muito tempo, os acordos são transitórios e as obrigações evaporam, o excesso de peso — físico, moral, social e político se tornam uma grande desvantagem.”. Toda essa fragmentação anotada, narra esse percurso em direção ao aparecimento ''do impostor''. Essa dinâmica que nos leva a uma preocupação constante com a busca por validação externa gera um gatilho interiorizado de sermos uma farsa. Vamos a uma situação real, aonde o paciente relata (num trecho da sua análise), uma queixa que pode ser relacionada a ''Síndrome do Impostor''. Daniel: Bom dia Lucas, vamos seguir daquele ponto que você estava falando sobre estar sobre pressão… como você está hoje? Lucas: Estou bem, obrigado, é você?. Daniel: Estou grato pela sua presença, motivado. Lucas: Agradeço por isso, quase que fugi, rsrs. Sabe Dan, tenho sentido essa pressão esmagadora aumentar ultimamente. Sinto que estou enganando todos ao meu redor e que, mais cedo ou mais tarde, vão perceber que não sou tudo aquilo que imaginam. Daniel: Entendo. É importante que você mencione e possa dar nome a esse sentimento. Me conta mais sobre quando esses sentimentos começaram a surgir? Lucas: Isso tem sido um problema desde a minha adolescência, mesmo quando obtinha sucesso nas coisas, eu sempre pensava que foi sorte, que foi uma coincidência ou que outras pessoas eram melhores em esconder suas falhas do que eu. Às vezes, me sinto como se estivesse apenas “fingindo” ser uma pessoa bem-sucedida e feliz. Daniel: Você mencionou que sente que está “disfarçando”… me dá um exemplo específico de quando e como se sentiu assim? Lucas: Deixa ver… pensa… uma situação que aconteceu recentemente no meu trabalho… fui promovido para gerência regional da empresa. Embora meus chefes pareçam confiantes em mim, nos resultados e habilidades, sinto que estou apenas representando um papel e que, a qualquer momento, isso vai cair por terra, que não sou digno dessa posição. Desde a semana retrasada, não consigo conciliar o sono, pensando em estratégias, melhoras, acredito que tudo o que está posto não sustentará meu trabalho. (segue relatando detalhes). Daniel: É compreensível que essa nova posição no trabalho te cause ansiedade. Quando você se sente assim… o que passa pela sua mente? Há algum pensamento recorrente que te atormente? Você pode dar nome a essa aflição? Lucas: Sim, sempre me pego pensando e dando voltas no assunto, fico inseguro, parece que tudo o que faço dará errado, que não tenho as habilidades que as pessoas pensam que tenho. Sinto que…(pausa longa)… quando Evaristo meu gerente geral descobrir quem sou de verdade, serei humilhado, chutado da minha cadeira e ridicularizado pelos colegas de trabalho. Daniel: Esses pensamentos de ser rejeitado por seu chefe ou achincalhado são muito significativos. Você já teve experiências reais no passado que isso realmente aconteceu com você? Lucas: Bem, eu lembro sim… tinha um professor na escola que costumava fazer comentários sarcásticos sobre meu desempenho, piadinhas, na frente de toda a classe. Era sempre comigo a coisa, Isso me deixava extremamente envergonhado. Não podia contar isso em casa, porque meu pai era o tipo ignorante, e minha mãe apoiava tudo o que ele fazia, inclusive me bater com um cinto de fivela quando tirava nota ruim. Daniel: Me fala do seu pai…(longo relato). Na quarta quero que você fale mais sobre ele. Daniel: Agora fala mais sobre a escola é o professor… Como você acha que esses sentimentos afetaram suas relações pessoais? Lucas: Não sei… será que tem a ver? Talvez isso tenha me abalado, nunca parei para pensar nisso… pode ser. Vou pensar mais. Lucas: A questão é, que o assunto está tirando meu sossego, estou agindo como uma criança que não sabe o que está fazendo. Mesmo nas minhas relações pessoais, sinto que minha mulher vai me abandonar também. Isso me fez afastar de amigos e de me isolar emocionalmente. Daniel: Me fale da sua esposa… da sua relação. Lucas: Eu não converso essas coisas com ela, está pouco se c........com meus problemas. Daniel: Como você chegou a essa conclusão? Lucas: Não sei, é o que penso. Daniel: Encerremos por hoje…(corte)… te espero na segunda Lucas. Lucas: Dan, você não quer saber o que penso sobre ela? Daniel: Não, hoje não. (O nome real do paciente e seu implicado foram trocados para preservar o sigili profissional) Frases de psicanalistas sobre o tema; “O sucesso na vida é frequentemente acompanhado por um senso de realização e autoestima, os quais são fortalecidos quando compreendemos e aceitamos nossos próprios conflitos internos.” “O fracasso pode ser visto como uma oportunidade para a mudança e a transformação, à medida que exploramos as motivações inconscientes por trás de nossas ações.”. — Reflete, a ideia de que o fracasso pode ser um catalisador para o crescimento pessoal. “A análise psicanalítica da Síndrome do Impostor sugere que, por trás da autocrítica intensa, há um desejo profundo de validação e aceitação.” Dan Mena. “A Síndrome do Impostor é o sentimento de que você não é inteligente, competente ou talentoso, apesar das evidências em contrário.” Young. “A única coisa que as pessoas com a Síndrome do Impostor têm em comum é que todas acham que são uma fraude, não importa o quão inteligentes ou bem-sucedidas sejam.” Sandberg. “A Síndrome do Impostor impede que as pessoas internalizem seus sucessos, levando-as a acreditar que são apenas o resultado de sorte ou de enganar os outros.” Clance. “A Síndrome do Impostor faz você pensar que, a qualquer momento, as pessoas vão descobrir que você não sabe o que está fazendo.” Cannon-Brookes. “A Síndrome do Impostor não é um reflexo de sua competência, mas sim de suas inseguranças e autocríticas.” Amy Cuddy. “Na psicanálise, a Síndrome do Impostor é como um quebra-cabeça emocional, onde as peças de autoestima e autoimagem não se encaixam harmoniosamente.” Dan Mena. “A Síndrome do Impostor é como um monstro imaginário que sussurra em seu ouvido, dizendo que você não é bom o suficiente, mesmo quando a evidência prova o oposto.” — Tara Brach Finalizo o tema com às definições de Hillman, psicólogo da área da psicologia arquetípica e analítica. Embora não tenha focado especificamente no tema, suas ideias são relacionadas a essa questão; Persona e autenticidade: Explorou a ideia de que frequentemente usamos personas ou máscaras sociais, para se adaptar às expectativas da sociedade. Uma forma de procurar uma conexão mais autêntica com o nosso self interior. Complexidade da identidade: Argumenta que somos seres complexos com múltiplas facetas, e que cada aspecto de nossa identidade merece ser reconhecida e explorada. O sentimento de ser um “impostor” pode surgir quando uma parte de nossa identidade é suprimida ou não reconhecida. Aceitação de contradições: Enfatizou a necessidade de aceitar as contradições e paradoxos da nossa psique. O sentimento de ser uma fraude, pode surgir quando tentamos simplificar demais nossa identidade ou negar partes dela. Imaginação e criatividade: Valorizou a imaginação e a criatividade como ferramentas para sondar a complexidade da psique. Nossa imaginação pode nos ajudar a entender e abraçar diferentes singularidades de nós mesmos. Não se trata apenas de tratar o problema, mas de um aprofundamento na direção da compreensão do self. O sentimento de ser um impostor pode ser enxergado como uma oportunidade para investigar e compreender melhor quem somos. Ao poema de Manuel de Barros. A poesia está guardada nas palavras. É tudo que eu sei. Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexão com a realidade. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado e chorei. Sou fraco para elogios. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130

  • Impotência Masculina.

    “A impotência masculina é um sintoma complexo, onde o homem teme perder sua masculinidade, interferindo na sua capacidade de funcionar sexualmente.” Dan Mena. Por Dan Mena. Com os avanços da medicina, pesquisa e desenvolvimento da química farmacêutica deste século, não seria um impossível que tivéssemos chegado a algum comprimido milagroso que pudesse ser chamado de pílula da felicidade. No entanto, no campo sexual, remédios como Cialis e Viagra não deram conta de suprir integralmente a deficiência daqueles que acudem ao seu uso para dar frente a problemas de impotência, sem mencionar ainda, seus perigosos efeitos colaterais. Para remontar há um pouco da história, a primeira notícia escrita que trata do conteúdo foi encontrada num papiro de 2000 a.C. Foi neste documento transcrito que se fala de dois tipos de impotência, a natural, em que o homem era incapaz de completar o ato sexual, e a sobrenatural, que era a ação ligada aos deuses, aos quais se lhe atribuíam os poderes de potência. Neste sentido, Hipócrates discursa sobre o tema, citando casos de pacientes moradores de cidades abastadas e personalidades tão ricos quanto, é concluiu, que dita causa estava relacionada com a equitação, dado o cavalo ser o meio de transporte tradicional naquele momento. Faz então uma anotação interessante, observando que esse fator de risco, ao qual a plebe não estava exposta, visto que ter equinos era considerado uma posse importante, assim, os mais pobres, aparentemente não sofriam de tal queixa pela ausência de tal patrimônio. Ele deduz que, como os nervos do pênis precisavam de energia e do espírito para ficarem eretos, a ereção acontecia pela insuflação de ar, teoria mantida até Da Vinci verificar em 1505, que uma acumulação de sangue acontecia no pênis ereto, mudando a teoria anterior pela sua comprovação. Passado o tempo, tais reparos passaram despercebidos até ao início do século XX. Atualmente, falamos de impotência ao tratar de uma situação continuada, um episódio isolado não é considerado um sintoma qualificador. A persistência e frequência da queixa é o início de uma sinalização para os homens, que precisam procurar ajuda para o problema em algum momento. Infelizmente, e, a pesar de afetar mais de 55% da população masculina, a maioria resiste ao enfrentamento, não admitindo seu problema de virilidade e renegando se consultarem com um médico ou especialista para tratar o inconveniente. Por sua vez, hoje temos dados muito precisos quanto ao funcionamento sexual, a ereção envolve a vasculatura e o sistema nervoso simpático, que controla a reatividade vascular. Freud entra nessa análise, confrontando a definição dos afetos, e incluindo o fator emocional que pode estar incluso, elemento ao qual a psiquiatria e os fármacos estão agora ponderando, englobando o ataque de pânico e a impotência masculina. Em 1912 Freud disserta “Sobre a degradação generalizada da vida amorosa”, e introduz o seu desdobramento em termos de impotência psíquica, fazendo a seguinte alusão: “Se o praticante de psicanálise se perguntar qual é a condição para a qual lhe é mais frequentemente pedida ajuda, deve responder que, para além da ansiedade nas suas muitas formas, é a impotência psíquica”. Assim, deixa muito clara a admissão desse marco psíquico para a matéria, acrescentando não haver indivíduo que não tenha passado por um período de anorgasmia. Boa leitura. “A impotência psíquica, se refere à incapacidade de um indivíduo em enfrentar e resolver conflitos internos, levando a uma sensação de paralisia emocional e mental em sua vida.” Dan Mena. A degradação da vida amorosa: Complexo de Édipo: O Complexo de Édipo é a formação de relações amorosas durante a infância, que desenvolvem sentimentos de amor e desejo pelo genitor do sexo oposto, são emoções ambivalentes em relação ao genitor. Esses embates, podem deixar uma marca duradoura nas relações amorosas adultas. “O Complexo de Édipo é o núcleo de toda neurose, e o destino do indivíduo está selado para sempre quando se torna irreversível.” A degradação da vida amorosa pode ocorrer quando as resoluções do Édipo são inadequadas ou quando os sentimentos ambivalentes não são devidamente processados. Por exemplo, sentimentos de rivalidade com o genitor do mesmo sexo não resolvidos, podem levar a problemas de intimidade. Recalque e fantasias sexuais: Os desejos sexuais nem sempre são expressos abertamente e podem ser submetidos ao recalque, empurrados para o inconsciente, reprimidos, influenciam negativamente a vida sexual na maturidade. “As fantasias sexuais são tão intimamente entrelaçadas com nossos sentimentos emocionais que é difícil, se não impossível, fazer distinções rígidas entre elas.”. Não conseguir reconhecer ou lidar com ditas lascívias sexuais provoca o descontentamento nas relações. Pulsões de vida e de morte: Pulsões de vida (Eros) e de morte (Tânatos) como forças motivadoras na psique, estão associadas a potências que promovem a vida, incluindo o amor e o desejo sexual, enquanto Tânatos representa forças destrutivas e autodestrutivas. “A psicanálise considera o amor como uma das forças da natureza que utiliza todos os meios ao seu alcance para fazer progredir seu trabalho. O homem se esforça para preservar sua própria vida e prosperidade; seu amor é uma expressão deste esforço.” A degradação ocorre quando as pulsões de Tânatos, como a autossabotagem emocional, influenciam negativamente os laços. Isso pode resultar em padrões destrutivos de comportamento ou na escolha de parceiros impróprios. Transferência e Contratransferência: A transferência se refere a sentimentos e emoções de um indivíduo para outro, geralmente o terapeuta. A contratransferência é a resposta emocional do terapeuta à transferência do paciente. Esses conceitos podem ser aplicados às relações amorosas, onde as experiências passadas moldam como as pessoas se relacionam e como interpretam o comportamento de seus parceiros. “A transferência é o instrumento pelo qual o paciente busca e obtém a satisfação de seus desejos inconscientes.” Quando as transferências não são reconhecidas ou exploradas de maneira saudável, por exemplo; se um indivíduo transfere sentimentos de uma figura parental para um parceiro amoroso sem consciência disso, isso pode levar a crises de relacionamento. A impotência psíquica. Não podemos falar do tema sem também abordar a ''impotência psíquica'' como sinalizei na introdução, que, na perspectiva da psicanálise, afeta o fisiológico, porque é desencadeada por um gatilho emocional. A sua compreensão deve necessariamente incluir as teorias do inconsciente, do complexo de Édipo e da sexualidade. Além disso, constatemos as suas implicações clínicas. Este sentimento de insuficiência ou inadequação surge sob múltiplas manifestações e possíveis causas, como resultado de conflitos entre desejos conscientes e conteúdos reprimidos. Um indivíduo pode se sentir impotente em situações sociais devido a ansiedades relacionadas com a infância ou com acontecimentos traumáticos, que foram contidos e refreados. Através do Complexo de Édipo, vemos, que crianças desenvolvem desejos inconscientes em relação aos seus pais, que podem ser acompanhados por sentimentos de culpa, inadequação emocional e impotência, resultantes em desajustes quando não são adequadamente resolvidos. Podemos experimentar impotência nas relações íntimas devido a uma ligação intensa a um dos pais durante nossa infância, incluindo os tabus. Esta ligação pode produzir uma competição em relação ao parceiro, dando origem ao sintoma. Como isto se traduz na prática clínica? Uma resposta reside nos mecanismos de defesa, estratégias psicológicas utilizadas pelo ego para se proteger do conflito. Estes dispositivos recorrem à negação, ignorando psiquicamente a existência do problema, recorrendo à medicação química ou à minimização para evitar este choque enraizado. Neste sentido, damos grande importância à infância do sujeito, investigando um período crítico no seu desenvolvimento psicológico. Os traumas ou experiências negativas podem ter tido um impacto duradouro, como o abuso ou a negligência, levando a sentimentos de impotência que persistem na idade adulta. Por conseguinte, é importante abordar, identificar e trabalhar estas memórias reprimidas e os sentimentos a elas associados para apoiar a sua recuperação equilibrada. A impotência não existe isoladamente e está muitas vezes interligada com outras perturbações, como a depressão, a ansiedade e, sobretudo, as inquietações da personalidade. O caminho para desarmar a impotência deve, portanto, ser orientado pelas necessidades individuais do paciente e por um conhecimento profundo da sua história e das suas experiências de vida. Diferenças entre a impotência psicogênica e a impotência orgânica. A diferença entre a impotência psicogênica e a orgânica é que nela a ereção noturna ou matinal é preservada independentemente da antecipação da relação sexual. Também é típico que não ocorra com todos os objetos sexuais; um homem é impotente com uma mulher e não com outra, não tem impotência orgânica. A psicogênica, também conhecida como disfunção erétil, se refere à inépcia recorrente ou persistente de um homem para conseguir ou manter uma ereção suficientemente firme para a concretude da relação sexual, devido a fatores psicológicos e não a causas físicas. Ao contrário da disfunção erétil de origem física, que pode estar relacionada com problemas médicos, como doenças cardiovasculares, diabete, problemas hormonais ou lesões neurológicas. As causas da impotência psicogênica podem incluir: Ansiedade: O stress, a ansiedade de desempenho ou a preocupação com o desempenho sexual podem interferir com a capacidade de um homem manter uma ereção. Depressão: Pode afetar negativamente a função erétil, reduzindo o interesse pelo sexo e diminuindo a excitação sexual. Trauma sexual: Experiências sexuais traumáticas ou abuso no passado podem levar a problemas de impotência psicogênica. Problemas de relacionamento: Conflitos ou tensões no relacionamento podem contribuir para a disfunção erétil psicogênica. Culpa ou vergonha: Os sentimentos de culpa ou vergonha relacionados com o sexo, ou a sexualidade podem afetar negativamente a função erétil. Impotência orgânica — Algumas das causas mais comuns de impotência orgânica são: Doença cardiovascular: Problemas como a hipertensão, a arteriosclerose (endurecimento das artérias) e a doença cardíaca podem impedir o fluxo sanguíneo para o pênis, afetando a ereção. Diabete: Pode danificar os nervos e os vasos sanguíneos, o que pode causar problemas de ereção. Distúrbios hormonais: Desequilíbrios desta ordem, como a insuficiência de testosterona. Problemas neurológicos: A lesão da medula espinal, a esclerose múltipla e outras condições neurológicas podem interferir. Efeitos secundários de medicamentos: Antidepressivos, antipsicóticos e anti-hipertensivos, podem ter efeitos secundários. Cirurgia ou lesão pélvica: Uma lesão ou cirurgia na pélvis, ou na zona genital pode danificar os nervos, ou os vasos sanguíneos necessários para a ereção. Causas psicanalíticas da impotência masculina: Conflito intrapsíquico: Os conflitos interiores não resolvidos podem manifestar-se sob a forma de impotência. Por exemplo, os sentimentos de culpa ou de ansiedade relacionados com a sexualidade podem bloquear a função erétil. Abordagens terapêuticas pontuais da psicanálise. No seu texto “Inibição, Sintoma e Angústia”, de 1925, Freud descreve como a função sexual sofre perturbações muito diversas, que se resumem na impotência psíquica. A fixação infantil intensa, a barreira do incesto e a frustração nos anos de desenvolvimento seguintes à puberdade, que estão presentes na grande maioria dos homens, justificariam a expectativa de que seja uma aflição universal da cultura, e não a doença determinante de alguns sujeitos. Longe do que se poderia pensar, a liberação dos costumes sexuais também não serviriam para modificar sua presença, o que denota que a libertação dos costumes não significa necessariamente a libertação do desejo. Destarte, às relações sexuais são apenas uma das múltiplas formas de expressão na vida do indivíduo, o objetivo original da nossa pulsão sexual não é a procriação, mas sim, a obtenção de prazer. Desta forma, podemos concluir que o dito comportamento sexual de uma pessoa é, portanto, o protótipo de todas as suas outras reações. A função sexual, que outrora é afetada por diversas tensões e desconfortos, onde a maioria das quais são apenas simples inibições, como a incapacidade de escrever ou de falar em público, bem como nas relações sexuais, a incapacidade de amar e se entregar ao ato desinibidamente. Entrando no domínio fisiológico dos órgãos genitais, a disfunção erétil pode ser diagnosticada em todos os homens que não têm uma ereção suficientemente rígida para permitir a penetração, bem como naqueles que a perdem após uma mudança de posição ou pouco depois da penetração. Os principais sintomas de inibição na área da resposta sexual nos homens. Desprazer psíquico (desejo sexual hipoativo) Falta de ereção (disfunção erétil) Ejaculação precoce Falta de ejaculação (perturbações do orgasmo) Ausência de sensação de prazer durante o orgasmo. O outro ângulo. No entanto, se seguirmos a Lacan, alguns determinantes vão tomar outra direção, onde a operação analítica vai contra a lógica do ''Um'' que impõe a “ereção” como condição. E essa lógica produz a impotência. A eficácia da análise deriva da desabituação da forma parasitária dessa gravidez fálica, a “dominância imaginária do atributo fálico”. Por isso, nem tudo é gozo fálico e, seja o que for, é importante que a predominância imaginária não opere como condição mutilante do gozo que aí é possível. Nesta condição, como psicanalistas, somos absolutamente contrários à urgência. Quando o Viagra chegou ao mercado, muitos pensaram ser a panaceia para a impotência masculina. No entanto, apesar da sua utilização generalizada e após mais de 20 anos, a impotência continua a ser um dos sintomas mais frequentes na clínica. Quando falamos de impotência, não devemos pensar apenas numa ereção ou num pênis flácido, mas em várias situações em que o sujeito, seja na posição masculina ou feminina, não obtém o sucesso esperado. Assim, a impotência tem um valor subjetivo muito importante, pois o desejo só é reconhecido pelos seus reveses. Digamos, olhando por uma janela metafórica lateral da coisa, há, sim, um certo idealismo que se defende que, se o objetivo não é atingido, é porque não se estava verdadeiramente motivado. Na impotência e a impossibilidade na visão psicanalítica da escola lacaniana, há uma diferença fundamental entre esses dois fatores. A impotência não seria outra coisa senão o ''inverso'' de uma vontade de poder, o pesadelo que retorna para àquele que inflou seu ser, é seu ter, até o ponto de estourar o balão. Portanto, o lamento do impotente seria a queixa imprópria e enganosa daquele que, querendo tudo, sufocou o seu próprio desejo. Se quisermos inverter esta situação, ou seja, despertar o seu desejo, o mais adequado é desmascarar essa vontade de realização que o impotente camufla e esconde de si próprio e dos outros. A pessoa afetada pela impotência precisa de uma boa dose, ou melhor, de múltiplas pequenas doses de impossibilidade, daquilo a que chamamos castração, a lei que faz descer os mortais à terra, para renunciarem a uma parte desse gozo que os prende, que os incapacita, mental e fisicamente. Quem não renuncia a algo, não aposta no fato de que na vida também se lançam os dados. Por essa razão, assumir a impraticabilidade e inexequibilidade do impedimento, é a nossa condição de sinônimo de recuperar o desejo, com o efeito mobilizador de nos lançar na procura.  Na sua análise da sexualidade e da impotência sexual, Lacan se centrou em questões psicológicas e simbólicas, e a sua abordagem olha fortemente em conceitos-chave da sua teoria geral, como a linguagem, o desejo e o complexo de castração; Desejo e castração: A sexualidade está intrinsecamente ligada ao desejo e à castração simbólica. O complexo de castração se refere à consciência da criança de que não pode ter a mãe só para si, uma vez que o pai existe como figura de autoridade e posse simbólica da mãe. Esta compreensão é base para o desenvolvimento psicológico e sexual do indivíduo. Falta e desejo: O desejo é marcado por uma falta fundamental. Esta ausência é vivida numa busca constante de algo que ''não está'' e que nunca pode ser totalmente satisfeito. No contexto da impotência sexual masculina, isso pode ser interpretado como uma luta para manter uma ereção ou para satisfazer plenamente uma parceira, o que se torna um desejo inatingível e impossível de sustentar. Falo e castração: O conceito de “falo” como símbolo de poder e realização. A castração simbólica implica a perda desta concretude e, na idade adulta, a impotência pode ser vista como uma manifestação desta, uma vez que o homem se sente privado da sua capacidade de satisfazer plenamente sua companheira. Função fálica: Como uma forma de simbolizar a autoridade e o poder associados à masculinidade na cultura. A impotência sexual pode ser interpretada como uma ameaça a esta função fálica e a uma consequente perda de autoridade simbólica para o homem. Se fizermos um resumo, segundo Lacan, a impotência sexual pode ser interpretada como uma manifestação da luta do homem para satisfazer um desejo inatingível e para manter a sua autoridade simbólica no domínio da sexualidade. Esta dimensão sublinha a importância de considerar os aspectos simbólicos e psicológicos na compreensão da impotência sexual masculina do ponto de vista lacaniano. Função sexual masculina normal requer… Uma libido preservada A capacidade de atingir e manter a ereção do pênis Ejaculação Detumescência As principais estruturas anatômicas do pênis estão envolvidas na função erétil são os corpos cavernosos e o corpo esponjoso, situados à volta da uretra. Uma cápsula conjuntival, a túnica albugínea, envolve cada um destes corpos. A estrutura microscópica é uma massa de músculo liso que contém uma rede de vasos revestidos por endotélio. A tumescência peniana resultante em ereção se deve ao aumento do fluxo sanguíneo na rede lacunar após o relaxamento total das artérias e do músculo liso dos corpos cavernosos, à compressão subsequente do músculo liso trabecular contra a túnica albugínea fibroblástica, resultando no encerramento passivo das veias emissárias e na acumulação de sangue nos corpos. Se a ereção for completa e o mecanismo valvular estiver funcionando corretamente, os corpos se tornam cilindros não compressíveis, dos quais não sai sangue, então, eis a ereção. O sistema nervoso central exerce uma influência importante, estimulando ou antagonizando as vias medulares que medeiam a função erétil e a ejaculação. Um olhar sobre a Teoria das Relações de Objeto. A impotência relacionada com conflitos inconscientes em torno dos objetos de desejo e da intimidade vai até à dificuldade em manter uma ereção, o que pode refletir ambivalência em relação ao ''objeto'' de desejo e fundar preocupações inconscientes sobre a intimidade. Klein deu importantes alicerces para a compreensão da mente e da sexualidade. O seu trabalho esclareceu como os indivíduos interiorizam isso, e como sensibilizam, movem e influenciam a vida emocional e sexual, onde esses instrumentos de desejo se interligam a psicologia. Essa abordagem que se centra nas relações interpessoais e na forma como interiorizamos e geramos representação mental dos laços. Desde o nascimento, os homens temos uma relação profunda com objetos externos, inicialmente com nossa mãe, que desempenha um papel vital na elaboração dos afetos e a sexualidade. Eles equivalem e constituem pessoas ou partes delas, significativos na vida de cada um. Inicialmente, o principal elo de desejo é a nossa mãe, que ocupa uma estrutura na formação da psique do bebê. Ele interioriza a mãe como uma concepção mental (objeto interno) e forma uma relação ambivalente com ela. Por exemplo, um bebê pode desejar intensamente ela, mas também pode sentir raiva ou ciúmes. Estes sentimentos paradoxais, são interiorizados e cruzam posteriormente nas relações interpessoais ao longo da vida. A relação ambígua e dúbia com tais objetos de desejo, que começa com a mãe, tem implicações profundas para a construção da proximidade nas relações adultas. Os indivíduos podem transportar esta hesitação para suas relações, que se manifestam como medos da interação com a estreiteza, pavor da rejeição ou dificuldade em confiar nos outros. Vamos a uma sessão de análise que trata do problema; Daniel: Boa tarde, Mario como vai? Por favor, se sinta à vontade para se acomodar. Gostaria de te lembrar que nossa conversa é confidencial, e estamos aqui para trabalhar juntos em busca de uma compreensão dos seus desafios. Posso pedir que você compartilhe um pouco mais sobre o assunto da semana passada? Mario: Estou bem, obrigado Daniel. Essas dificuldades de lidar com a impotência sexual dos últimos anos tem afetado muito minha autoestima e principalmente meu relacionamento. Estou casado há cinco anos, e amo minha mulher, mas sinto que não estou conseguindo satisfazê-la sexualmente. Daniel: Sim, entendo, é você sabe o que não está fazendo sexualmente para fazer tal dedução? Mario: Não, é uma percepção… ao mesmo tempo que o problema de fato inclui insuficiência física. Ela tenta disfarçar. Daniel: Para que eu possa compreender melhor a situação, fala um pouco mais sobre a história do seu relacionamento com ela, e quais são os momentos em que essa insuficiência se tornou mais evidente? Mario: Tudo começou na faculdade, tivemos um namoro incrível, casamos e corria tudo bem, há cerca de dois anos, comecei a ter problemas em manter a ereção durante o ato. Isso me deixa ansioso, e isso só piora as coisas. Ela é compreensiva, mas, como se repete com frequência, sinto que estou decepcionando. Daniel: Seria possível você identificar alguma mudança significativa em sua vida ou situação pessoal que coincidiu com o início desses problemas, é das decepções? Mario: Não consigo pensar em nada em particular. Minha vida tem sido estável, e não houve nenhum evento traumático que eu possa relacionar diretamente a isso. Mas eu me preocupo muito com o trabalho e o dinheiro, então, talvez isso possa estar jogando um papel. Daniel: A ansiedade em relação a essas áreas pode se manifestar dessa forma, no entanto, também pode ser útil explorar mais seu passado e a sua história pessoal para identificar eventuais influências inconscientes. Mario: Sim, faz sentido, sempre fui autoexigente e tive uma educação religiosa rígida. Pode ser que isso contribua? Daniel: A educação religiosa rigorosa e padrões altos de exigência, podem, de fato, influenciar a maneira como você se relaciona com sua sexualidade. Como pensa que sua educação e valores morais moldaram sua visão sobre a intimidade? Mario: Cresci em um ambiente onde o sexo era muito tabu, tudo muito puritano, posso ter internalizado essas crenças. Daniel: Você se sente confortável em continuar adentrando nesse processo? Mario: Sim, estou disposto a falar tudo, sinto que minha vida está em jogo aqui, não apenas meu relacionamento. Daniel: Sua disposição é um passo importante. Mario: Estou sempre tenso, o que inclui coisas fora do quarto. Daniel: Me conta as coisas que estão além do dormitório? Mario: Quero mencionar algo que acho estranho. Houve uma vez, no passado, tive um caso extraconjugal, foi um resquício de uma relação que tinha antes de me casar… o que quero dizer, na verdade… e que não tive problemas de ereção naquela situação. Isso me confunde ainda mais. Daniel: Quero saber detalhes sobre esse episódio específico? Como você se sentiu naquele momento em relação à pessoa com quem teve o caso? Mario: Me senti mais relaxado, foi como se não houvesse pressão, e isso fez com que as coisas fluíssem naturalmente. Daniel: Isso nos sugere haver aspectos emocionais e psicológicos envolvidos. Me conta mais… como foi a transa? Discursa sobre por 8 minutos. Ok. Quero que você retome a fala da relação de vocês… Na sua opinião… esquecemos por um momento a questão fisiológica. Qual seria o desejo da sua esposa na sua opinião? Mario: Tenho algumas teorias… porque ela não fala. Daniel: Qual seriam suas suposições… fantasias, desejos? Mario: Discorre por alguns minutos… Daniel: Seu desejo de reconectar com sua esposa é compreensível, e um objetivo valioso para nosso trabalho junto. Além disso, você mencionou anteriormente que teve uma educação religiosa rigorosa e que a preservação dela no seio da família era valorizada. Como essas crenças e valores podem ter influenciado sua compreensão da sexualidade na infância? Mario: Minha infância foi bastante conservadora, frequentávamos regularmente a igreja. Me lembro que qualquer menção a sexo era evitada em casa, e as crenças enfatizavam cumprir mandamentos, coisas do tipo. Daniel: Você sentiu que essa educação religiosa rígida criou alguma ansiedade ou culpa em relação ao sexo durante sua infância, ou adolescência? Mario: Sim, definitivamente. Na adolescência, tive sentimentos de angústia e culpa intensos quando comecei a sentir atração por mulheres… parecia que eu estava cometendo um pecado quando olhava para a bunda ou seios. Daniel: Qual a sua opinião atual sobre isso? Mario: Estou começando a ver como esses fatores podem estar ligados… pode ser que essa base, a pressão para seguir uma perfeição comportamental e a ansiedade tenham se combinado para criar essa situação. Outras perguntas desenvolvidas durante a análise…(não incluirei as respostas)… Daniel: Como você descreveria hoje a dinâmica emocional entre você e sua esposa fora do quarto? Existem momentos específicos em que você percebeu uma mudança que possa estar implicada aos seus desafios na vida sexual? Daniel: Durante seus episódios de impotência sexual, como você lida com a comunicação com sua esposa? Vocês já tiveram conversas abertas sobre esses problemas? Daniel: Além do caso extraconjugal que mencionou, você consegue identificar outras circunstâncias em que sua impotência sexual não foi um problema? O que havia de único nessas situações que você acredita possa ter contribuído para sua capacidade de relaxar? Daniel: Como percebe a presença ou ausência de fantasias sexuais em sua vida? Se sente à vontade Mario para compartilhar essas excitações com sua esposa? Daniel: Existem coisas específicas que te provocam ou que gostaria de comentar sobre sexualidade? Daniel: Como sua esposa lida com isso? Já discutiram as necessidades emocionais dela em relação à intimidade? Daniel: Considerou a possibilidade de incluir ela na terapia? Para abordar essas questões de privacidade, lubricidades e comunicação em conjunto? A sessão de hoje chegou ao fim meu caro, nos encontraremos na próxima semana. A articulação da sexualidade. A compreensão da sexualidade é profundamente multifacetada, ambas escolas das quais me identifico academicamente, tanto freudiana quanto lacaniana, nos oferecem uma dimensão complexa da relação entre o sexo, o desejo, a castração e as diferenças de gênero. Freud enfatiza que a compreensão da sexualidade exige a inscrição do sexo no Complexo de Édipo, que desempenha um papel relevante na formação da psique infantil. O sujeito homem faz o seu próprio percurso de ruptura, permeado de tentativas falhas de continuar emocionalmente preso aos braços da mãe, mas deve recomeçar esta história de amor encontrando outro. Esta função de corte original, nos permite fugir do arcabouço ilusório de sermos o objeto de desejo da nossa mãe. Aqui, o falo assume a posição de uma premissa universal para o órgão sexual masculino, mas também, se torna um símbolo mais amplo de autoridade e desejo. Como Freud observa em “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (1905), “O falo se torna o representante do desejo materno e a criança passa a se ver como da posse deste objeto” (Freud, 1905). Lacan avança a compreensão da sexualidade ao introduzir o conceito de função fálica. Ele argumenta que a dinâmica da diferença sexual é inaugurada quando a atribuição imaginária do falo cessa, e tanto homens quanto mulheres são constituídos como sexuados na dialética fálica. Essa ideia, ele apresenta em “O Seminário, Livro 20: Mais, Ainda” (1972), observando que “o falo é fundamental como significante, e esse significante está no imaginário da mãe, a qual é a base do ego infantil” (Lacan, 1972).  A castração, como chave para a angústia, ressalta que seja ela o preço a que devemos pagar pela necessária estrutura simbólica. A castração é uma ameaça que paira sobre a psique, gerando ansiedade e angústia. Em “O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise” (1964), Lacan enfatiza que “a castração é o que torna a nossa sexualidade abstrusa e intrincada por ser o elemento que introduz a falta no campo do desejo” (Lacan, 1964). Nas relações de gênero, como consignado por ambos, influenciam essa experiência sexual, trazendo a tona a inveja do pênis, mencionada por Freud em “Introdução às Teorias Sexuais Infantis” (1908), é vista como uma fonte de frigidez feminina, enquanto a ameaça de castração está relacionada com a impotência masculina, sem deixar de reconhecer às diferenças sexuais e suas implicações nas rotas eróticas e românticas de cada. Logo deduzimos que o encontro sexual envolve uma busca labiríntica, hermética e enigmática pela satisfação do desejo, mesmo quando esse comprazimento é ilusório. Finalizando, o desejo por sua vez é uma força motriz, mas também uma fonte de ansiedade que envolve a angústia. “O sujeito, na presença do seu desejo, o antecipa como satisfeito, mas teme a satisfação, e se torna dependente do outro” (Lacan, 1957 – 1958). Por isso, é bem verdade que nenhum homem se separa definitivamente de uma mulher, enquanto uma mulher o faz a qualquer momento dele. Ele, figurativamente, nunca irá se separar da sua mãe, mas uma mulher, ao desunir de um homem retorna à sua mãe, e é por isso que para ela é tão singular e simples equacionar o problema. Em tal condição, se apresenta ao homem uma escolha inevitável, aquela que estará sempre como uma ponte entre o seu objeto incestuoso ou a de viver o sexo maduro, eis, portanto, uma renúncia difícil, pois um, tem de abdicar do outro. A figura valorosa do pai simbólico e capital nesta leitura, diria substancial, para este desmame, através do qual como crianças devemos nos distanciar do poder hipnótico que exerce a efígie materna. Essa identificação com o pai, com o ''ideal do pai'' é a solução que nos e ofertada como homens para lidar com essa extensão, medida e espaço do nosso narcisismo primário. O gozo do homem e da mulher não se entrelaçam, se há algo que possa ser convocado, é o ideal do gozo do ''Outro''. Esse provável lugar, onde o fracasso do desejo masculino, onde a mulher é conduzida a postular a ideia de possuir o órgão dele. Ato, que não exige potência, senão que se espalhe, exatamente, porque é lá, onde se aguarda pela falha, enquanto o outro dará o que não tem, e esta, será, a própria definição do amor. O gozo da mulher está nela própria e não se junta ao ''Outro''. Se existe uma afirmação conclusiva, posso dizer… a mulher encontra no homem a sua ausência primordial e mestra do verdadeiro falo, por consequência, seu desejo alcança a impossível satisfação. Nada pode emparelhar, chegar mais próximo do perfeito gozo do que o orgasmo masculino, nesse instante de implícita comunhão apenas o falo pode ser realizado e satisfeito, pois um homem só goza... se ela realmente o almejar, cobiçar e desejar. Ao poema; A metafísica masculina. Lúcia Scarlati A ladainha é antiga Antes do homem ser, já tem de ser Homem. Engole o choro! Você é macho ou o quê? Foi assim com o meu pai, e com o pai dele, e com o pai do pai dele, e, antes dele, houve outro pai com quem também foi assim. Nessa História, é mais Homem quem mais forte é. Cabra macho ou herói, Guerreiro ou lutador, Patrão. De toda forma, Senhor. Soberano. A dúvida espreita – Sou ou não sou? Será que sou? - mas logo silencia. Homem não duvida. Homem sabe. Homem é. E, por isso, Homem manda. Homem é autoridade, é disciplina, é Lei. E, por isso, Homem é obedecido, Nunca contradito. Homem é ser pronto e inteiro. Ou o homem teria que assumir que não é Homem, que era um pouco menos, ou nem tanto assim. O Homem nada se torna. Não se transforma, Não cresce e nem floresce. Alheio ao tempo, o homem se perde em seus labirintos. Desorienta-se sem nunca conhecer seus caminhos. Enfim, acossado por suas próprias dissonâncias. Quer tanto ser… Que busca, ainda hoje, reencontrar o ser prometido em guerras infindas e sem sentido. Quis tanto… Mas, calado, guarda o gosto acre do tempo desperdiçado. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130

  • A Insegurança.

    “Assim como a raiz da árvore busca água nas entranhas da terra, a insegurança se alimenta da profundidade do inconsciente humano.” Dan Mena. Por Dan Mena. De onde vêm os medos e as inseguranças que carregamos? Desde a psicanálise se revelam nossos processos de crescimento e como a verdadeira transformação acontece a partir da real complexidade que nos compõem, tendo em conta o funcionamento mental e a maior descoberta psicanalítica: o inconsciente. Crescimento, mudança, ser diferente a cada dia da existência. Em ''Inibição, Sintoma e Angústia'', Freud descreve nossos medos reais e morais, inclusive, os inter-relacionados como os neuróticos. Existe um temor precursor e pioneiro do qual devemos ter um certo grau de tolerância para não ficarmos ancorados nesse instante, esse que se repete, cada vez que damos um passo adiante na nossa vida. Os desejos, devem incluir a labor necessária para os alcançar, e não falo de desejos como as coisas que dizemos que almejamos; digo dos atos, onde o inconsciente está inerentemente entrelaçado. A caminhada necessária para atingirmos metas não são mais do que palavras, ditas narrativas elaboradas nos permitirão nomear uma realidade para que ela possa de fato existir. Muitos de nós, vivemos como se o amanhã fosse eterno, esticamos tudo, nessa imaginária auréola de imortalidade, ou na sua fantasia. Conceitos como a culpa inconsciente podem nos levar a sabotagem, a não tolerarmos os próprios sucessos. A energia psíquica, a libido, é a força que necessitamos para poder elaborar as mudanças imprescindíveis, que por vezes, através de processos neuróticos, dificultam, inibem e nos conduzem as doenças, estagnando esta potência vital, vigor essencial utilizado nos processos criativos, anseios, projetos, encontros com os outros, amor e trabalho. A mente é dividida em três níveis: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente. Essa estrutura tripartite é essencial para podermos entender como a insegurança progride nas nossas vidas e pode tomar conta dos seus processos. No nível consciente, estamos cientes de pensamentos, sentimentos e percepções. No entanto, a maioria do tempo opera no nível inconsciente, onde pensamentos e desejos são suprimidos ou reprimidos. É nesse gabarito estrutural que as raízes da hesitação, indecisão e vulnerabilidades nos abordam e podem ser encontradas, já que muitos dos medos, ansiedade e insegurança que as alimentam são mantidas fora da consciência. A maioria de nós se sente inseguro(a) por vezes, mas alguns, tem esta companhia na maior parte do percurso, eis o problema. O tipo de infância que tivemos, traumas passados, experiências recentes de fracasso ou rejeição, solidão, abandonos, traições, ansiedade social, crenças negativas sobre si, o perfeccionismo, ter um pai, mãe ou parceiro desmedidamente críticos, podem contribuir para a instauração da insegurança. Boa leitura. “A insegurança é o estado básico do ser humano, e a busca constante por segurança é o que nos impulsiona.” Freud. Ansiedade e a insegurança. Freud desenvolveu uma teoria labiríntica sobre a ansiedade, que está ligada à insegurança. A ansiedade, é uma emoção básica que surge quando a mente está em conflito, entre impulsos instintivos, demandas da sociedade e as exigências do ego. Como exemplo, posso citar o medo infantil de ser separado da figura de apego, geralmente a mãe. Esse amedrontamento é uma manifestação inicial de hesitação, ao representar a preocupação que o mundo externo seja possivelmente ameaçador, logo, a conexão imperiosa com a figura de afeto será essencial para a defesa, preservação e resguardo emocional da criança. O ego, superego e id, também serão significativos para tal compreensão, sendo o ego responsável por mediar o encontro entre o id que contém impulsos e desejos primitivos, e por fim, o superego, que representa a nossa voz internalizada da moral e estruturação das normas sociais. Quando o ego falha em equilibrar essas forças, a ansiedade pode aumentar, nos levando a sentimentos de fragmentação e fragilidade emocional. Em “A Interpretação dos Sonhos,” ele amplia a visão de como essas dinâmicas podem revelar desejos inconscientes e desassossegos coibidos, fornecendo uma rica fonte de insights sobre a insegurança e suas estruturas. Em “O Ego e o Id,” se versa a dinâmica entre o ego, o superego e o id, e como o ego lida com a angústia, um aspecto medular para entender o tema. Desenvolvimento da personalidade. Os estágios da progressão psicossexual da personalidade representam uma fase específica do desdobramento evolutivo infantil, durante a qual como crianças vamos enfrentar conflitos e desafios psicológicos. A maneira como despachamos esses embates, terão um impacto direto na formação da pessoalidade e na possibilidade da formação de inseguranças. Quais são eles? Oral: Surge nos primeiros anos de vida, onde a boca é a zona erógena dominante. As experiências durante essa fase, como problemas de alimentação ou desmame precoce, podem afetar a segurança e a confiança em futuros relacionamentos. A insegurança pode se manifestar como medo da rejeição ou dependência excessiva. Anal: Ocorre durante o treinamento do controle de esfíncteres. A pugna entre a satisfação e a repressão de impulsos na eliminação pode influenciar como alguém lida com questões de autonomia e controle. Inseguranças podem surgir quando há uma tendência a ser excessivamente controlador(a) ou submisso(a). Fálico: O estágio fálico é marcado pelo complexo de Édipo para meninos e complexo de Electra para às meninas. Aqui, neste circuito a criança desenvolve sentimentos de desejo pelo progenitor do sexo oposto e cria rivalidades com seu oposto do mesmo sexo. De acordo como essas dinâmicas serão resolvidas, podem surgir receanças ligadas à identidade de gênero, ciúmes e ansiedades de castração. Latência: A partir do 7º ano e até a puberdade, segue uma latência, ou seja, não há ausência da sexualidade, mas sim uma detenção, congelamento da sua evolução. Esse período é marcado pelo distanciamento de novas descobertas sobre o corpo e a sexualidade e não se instaura o funcionamento de uma nova zona erógena. Nessa fase, ocorrem a escolarização, alfabetização, socialização e início da intelectualidade, concomitantemente a formação de valores. Etapa genital: A puberdade é um período de grandes transformações físicas e fisiológicas. A ela segue a adolescência, período de importantes acontecimentos psicológicos. Ambas as fases se estendem até a vida adulta, onde a sexualidade surge agora impulsionada por uma nova onda instintiva, marcada por suas características adultas: primazia dos genitais sobre as demais zonas erógenas e escolha de um objeto fora do próprio corpo, normalmente outra pessoa. Por primazia dos genitais, se entende o lugar que a genitália passa a ocupar como a principal via de descarga das tensões sexuais. Do ponto de vista psicológico, o fim de toda essa evolução deve nos conduzir à capacidade de desenvolver afetos, amar, produzir e criar. Os possíveis desvios desses desígnios podem ocorrer por fixação a uma das fases acima anotadas, etapa esta, que já devia ter sido superada ou por um factível regresso a ela. É importante ressaltar, que não é inevitável que os traquejos em cada estágio levem à insegurança. A resolução bem-sucedida dos embates em cada ponto, podem promover um senso de segurança emocional. No entanto, se esses duelos não forem resolvidos adequadamente, podem persistir como fontes de ansiedade e insegurança ao longo da vida. Por exemplo, um indivíduo que enfrenta uma fixação ou retrocesso a um estágio particular do amadurecimento, pode carregar consigo traços comportamentais associados a esse período. Isso pode se manifestar como uma insegurança relacionada à dita fase específica, uma obstinação, como um desejo constante de atenção e aprovação em decorrência de questões não satisfeitas e incompletas no estágio fálico. Insegurança e a Teoria do Ego de Erik Erikson. Erikson foi um psicólogo e psicanalista, conhecido por sua teoria sobre a desenvolução psicológica, cunhou a expressão ''crise de identidade'', (são episódios nos quais se pode perder o contato com o mundo externo ao afundar em pensamentos e sentimentos próprios que lembram o passado ou sentir ansiedade e angústia quando se olha para o futuro). Propôs também uma teoria psicossocial que expandiu as ideias de Freud. Embora em contraste com a teoria psicossexual freudiana, ele enfatiza a promoção da identidade ao longo da vida e aborda questões sociais e emocionais cruciais em cada estágio. Considero uma extensão análoga, por isso, acho importante dar voz. Postulou uma série de crises que afrontamos nos diferentes estágios, cada colapso envolve um choque entre duas forças psicossociais opostas, como confiança versus desconfiança na infância ou identidade versus confusão de papéis na adolescência. Como esses eventos são assentes, tem implicações diretas para a identidade e, por extensão, para a elaboração da insegurança. Exemplos de estágios críticos na teoria de Erikson e como se relacionam com o assunto: Confiança versus Desconfiança (Infância): No primeiro ano de vida, as crianças desenvolvem um senso de afirmação em relação aos cuidadores ou podem amplificar uma suscetibilidade básica em relação ao mundo. A insegurança pode surgir, se ditas necessidades básicas infantis não forem atendidas, levando a uma falta de credibilidade nos outros e em si mesma(o). Identidade versus Confusão de Papéis (Adolescência): Durante a puberdade, como jovens rivalizamos e disputamos questões cruciais relacionadas à formação da identidade. Se não conseguimos estabelecer uma identificação sólida, podemos experimentar confusão de papéis e insegurança sobre quem somos, e o que podemos esperar da vida e do futuro. Para embasar sua análise, destaco sua obra “Infância e Sociedade,” que adentra nas implicações do estágio de confiança versus desconfiança e como a falha na resolução dessa crise pode levar a sentimentos de insegurança. Além disso, “Identidade: Juventude e Crise”, (muito bom), que aborda a formação da personalidade e suas conexões com a irresolução. A abordagem de Klein, à psicanálise infantil. Seguindo esta linha para a compreensão do progresso emocional e da psicopatologia infantil, Klein se concentrou na análise das fantasias inconscientes das crianças, (as fantasias representam uma forma de leitura subjetiva, organizada a partir dos desejos e dos mecanismos de defesa, da realidade dos fatos. Trata-se do que Freud denomina realidade psíquica, a qual tem suas bases na infância e nas fantasias filogenéticas), e como essas quimeras podem influenciar a visão de si e do mundo ao seu redor. Uma das contribuições mais destacadas foi sua ênfase nas primeiras relações mãe-filho. Experiências e vinculações nessa estação inicial da vida têm um esbarrão expressivo, visto que projetamos partes de nossas mentes internas nos outros, principalmente, na figura materna, em um processo conhecido como ''projeção introjetiva'', (introjeção, de acordo com o prefixo intro (para dentro) e do latim iacere (lançar) - lançar para dentro - é um mecanismo psíquico inconsciente pelo qual incorporamos qualidades dos objetos do mundo exterior). Às relações mãe-filho, são particularmente relevantes para a compreensão da insegurança, já que irrealidades e utopias inconscientes sobre a mãe podem variar de sentimentos de amor e proteção a ódio e perseguição. Essas iluminações, podem se tornar fontes de insegurança emocional quando não devidamente compreendidas e processadas. Por exemplo, uma criança que idealiza devaneios de ódio na mãe, pode desenvolver sentimentos de culpa e insegurança em relação a essas emoções negativas. Isso pode abalar sua autoimagem e desempenho em relações futuras, criando um ciclo de divisão afetiva. Fatores sociais e culturais na insegurança — Contexto contemporâneo. Para compreender essa extensão na sociedade atual, é essencial considerar os fatores sociais e culturais que moldam nossa psique. Esses coeficientes interagem com nossos desejos, impulsos e conflitos inconscientes. 1 - Influências da mídia e das normas sociais: A mídia desempenha um cenário significativo na criação de padrões de beleza, êxito, sucesso e felicidade que muitas vezes são inatingíveis. Essas representações projetadas nos seus canais de comunicação, podem criar sentimentos de impropriedade nas pessoas, pois elas se comparam e defrontam perante esses padrões estabelecidos. Essas analogias arquetípicas, podem ser vistas como projeções de desejos não realizados ou ansiedades inconscientes. Isso nos leva inconscientemente a uma luta constante para alcançar e copiar modelos, exemplos, arquétipos irreais que subsidiam a formação da insegurança. 2 - Pressão social e expectativas sociais: A coação social para o sujeito se encaixar em determinados quadrados e seguir normas predefinidas e regras impostas, também podem contribuir, assim como a internalização dessas expectativas geram ambiguidades entre nossos desejos internos e as demandas externas. Por exemplo, um indivíduo pode se sentir inseguro por não atender às expectativas da sociedade em relação à carreira, posição social, moda, casamento ou família, mesmo que essas não se alinhem com seus desejos e necessidades relacionais. 3 - Autoimagem e Redes Sociais: Elas têm um alto custo psíquico e implicação na constituição da insegurança contemporânea. Pessoas frequentemente apresentam versões altamente editadas de si, maquiadas(os), montadas(os) e superfluamente retocadas e idealizadas(os) de suas vidas para o universo online. Essa curadoria mascarada da realidade nos levam a que sejam feitas comparações prejudiciais, uma falsa transmissão e sensação de que os outros estão vivendo vidas mais alegres, felizes, melhores, perfeitas e bem-sucedidas. Estas analogias interligadas a redes sociais, estão intimamente associadas a sentimentos de inveja, narcisismo e insegurança. Além disso, a busca por validação nos meios eletrônicos pode refletir na necessidade de gratificação do ego e a ansiedade em relação ao provável julgamento dos outros. Quais as principais características de uma pessoa insegura? Uso da falsa modéstia e forte sentimento de autodúvida. Necessidade imperiosa de exibir e mostrar realizações. Demanda permanente de receber elogios e atenção. Tendência para o perfeccionismo e exagerada competitividade. Medo do julgamento, da crítica negativa e da avaliação de terceiros. Acometem diligências na tentativa de transmitir dúvidas e inseguranças. Estado de baixa autoestima, erguendo barreiras defensivas constantes. Formas mais comuns de insegurança e como lidar com elas. Insucessos e rejeições: Quando verificamos os acontecimentos mais recentes das nossas vidas observamos que podem afetar muito o nosso humor e como nos sentimos, visto que grande parte do nosso parâmetro de bem-estar se baseia em acontecimentos do presente momento. O maior contributário negativo da suposta felicidade é o fim de uma relação, seguido da morte de um cônjuge, perda de emprego e acontecimentos problemáticos de saúde. Por sua vez, a insatisfação e infelicidade influenciam a autoestima, fracassos e rejeições podem causar um duplo golpe na nossa confiança. O desprezo, desacolhimento ou negação, nos transportam inevitavelmente a um espelhamento de si e às outras pessoas, de uma forma escusa, pelo menos durante algum tempo. Aqueles que têm uma autoestima mais propensa a baixa, são mais reativos ao fracasso, sabe, aquelas experiências que se apoderam de nossas velhas crenças escusas sobre a nossa autoestima e as ativa. Nesse instante, pode ser útil compreender que o insucesso é uma tarimba da vida, um know-how onipresente a todos(as). Ferramentas que auxiliam na insegurança baseada na frustração: Dê a si mesmo o tempo suficiente para se recuperar e se ajustar ao novo normal. Interaja com a vida, seguindo seus interesses e curiosidades. Procure os amigos e a família para se distrair e confortar. Obtenha feedback de pessoas em quem confia verdadeiramente. Persevere, continue a avançar em direção aos seus objetivos. Esteja disposto(a) a tentar uma estratégia diferente, se necessário. Falta de confiança e ansiedade social. Muitos de nós sentimos falta de autoconfiança em situações sociais como eventos, apresentações, festas, reuniões familiares, entrevistas de trabalho, compromissos, etc. O medo de ser avaliado(a) pelos outros, que possam vir imaginariamente descobrir que não temos confiança suficiente, pode conduzir a sentimentos angustiantes. Como resultado, evitamos situações sociais, sentimos agonia ao antecipar contingências e incorporamos consequentemente sentimentos de constrangimento e desconforto. As experiências passadas podem nutrir um sentimento de não pertencimento, de não ser importante, interessante ou simplesmente não corresponder naturalmente a determinada situação. Se você cresceu sob a mira de pais críticos ou sendo pressionado(a) para ser popular, bem-sucedido(a), etc, floresceu sensível à forma como supostamente os outros lhe enxergam. Este tipo de insegurança se baseia normalmente em crenças distorcidas sobre a autoestima e o grau de avaliação que fazem ao nosso respeito Na maioria das vezes, pessoas se concentram mais na forma em como se refletem do que em julgar os outros. Aqueles que muito qualificam terceiros e os excluem e cancelam, estão geralmente encobertos das suas próprias inseguranças e, por isso, que suas banais opiniões podem ser inexatas, entanto que ditas medem e valorizam atributos superficiais em vez de avaliar o caráter e a integridade do indivíduo. "Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais sobre Pedro do que de Paulo" Freud. Combate em situações sociais. - Evitar a participação na situação social só piora as coisas. Por isso, vá a uma festa ou a um encontro mesmo que esteja nervoso(a). A sua ansiedade deve diminuir quando se envolver com outros, trocar experiências e pontos de vista. - Pense em assuntos e coisas sobre as quais pode falar, como acontecimentos atuais, filmes, atividades de lazer, passatempos, trabalho ou família. - Estabeleça um objetivo limitado e realista, como falar com pessoas novas, fazer amizades ou descobrir mais sobre seus interesses. - Perceba mais os outros para combater a intensa concentração em si próprio(a), desfoque de si. - Se lembre de todas as razões e motivos pelos quais pode ser interessante ser um bom amigo, ajudar o próximo ou ser parceiro, acima de qualquer situação. - Seja observador(a), note algumas semelhanças ou competências que possa aprender com elas(es). Idealização e insegurança. Muitos utilizamos padrões muito elevados em tudo o que fazemos. Talvez nossa intenção seja ter o melhor desempenho, obter melhores notas na faculdade, usufruir de um excelente emprego, desfilar o melhor carro, apresentar aquele impossível corpo perfeito, morar no apartamento mais bem decorado, ter filhos muito bem educados em colégios caros ou um parceiro ideal. Infelizmente, a vida nem sempre corre exatamente como desejamos, mesmo que nos esforcemos. Há uma parte do resultado que, pelo menos em certa medida, está fora do nosso controle. Patrões podem ser críticos, os empregos podem ser escassos, parceiros podem resistir ao compromisso, podemos ter genes que dificultam alcançar um corpo idealizado, além do natural envelhecimento. Isso significa estar constantemente condicionado(a) a desilusão, se culpando pela improvável e irreal imperfeição, o que ativará o gatilho da sua insegurança. Dar o nosso melhor e trabalhar arduamente pode ser uma vantagem competitiva, destarte, outros aspectos potencializados do perfeccionismo não são visivelmente saudáveis. Se achacar constantemente por não ser suficientemente bom ou boa na sua estreita avaliação, pode te levar à depressão, sofrer distúrbios alimentares, viver a fadiga crônica e estimular o estresse. Combater o perfeccionismo. Se avalie com base no esforço que realiza, aquilo que pode ser sustentável, minimamente controlado, e não no resultado que possa depender de fatores externos. O perfeccionismo se enquadra num pensamento ambivalente, é o tudo ou nada, o limite das bordas, tentando encontrar as zonas intermediárias. Há uma forma mais compassiva de ver uma situação, que radica em considerar as circunstâncias quando se avalia. Há sempre um resquício positivo, alguma coisa que aprendemos, mesmo que o resultado não tenha sido o melhor. Perfeccionistas possuem uma autoestima condicionada, gostam de si quando estão no topo, e não se toleram, se desprezam, quando as coisas não correm como almejado. Podemos aprender a apreciar a si, também, quando as coisas não saem bem. Vamos nos focar nas qualidades interiores como a construção do caráter, a sinceridade e bons valores, e não apenas nas notas que obtemos, no salário que recebemos ou no número de pessoas que achamos que estimam nossa companhia. O complexo de inferioridade. Frequentemente ouvimos uma certa associação popular do sujeito inseguro ao que Alfred Adler desenvolveu como o ''complexo de inferioridade'', um conceito chave na psicologia individual, uma das escolas de psicologia que se desenvolveu no início do século XX. Na época, surgiu como uma alternativa às teorias psicanalíticas. Enquanto Freud enfatizava o papel do complexo de Édipo na formação da personalidade, Adler aduzia que a sensação de inferioridade era uma força motriz mais importante. Suas ideias tiveram grande implicação na psicologia e na psicoterapia. Sua tese funda as raízes na infância, onde nós captamos naturalmente inferiores aos adultos. Ele disse; “A inferioridade é um sentimento que pertence a todos os seres humanos. […] Ela surge na infância, quando percebemos nossas limitações e medimos a diferença entre nossa capacidade e a dos maiores de idade.”. Pessoas inseguras travam uma luta pela predominância que pode levar a um choque negativo nas suas relações. Um exemplo, ''se sentem felizes se fizerem outros infelizes''. Este tipo de comportamento é típico da neurose, no entanto, nem todas as pessoas inseguras são caracterizadas como tal. Tudo depende do grau de desconfiança que possuem em relação às capacidades ou realizações passadas. Indivíduos instáveis emocionalmente tendem a agir e a pensar condicionadas(os) entre a necessidade de se destacarem e de provarem aos outros que são importantes, e alimentam um profundo sentimento de invalidez e inadequação. Nos casos mais graves, são altamente dependentes, não são ninguém se os outros não as valorizarem e validarem, ou seja, se tornam invisíveis para si próprias(os). "A inferioridade é uma ficção que apenas prejudica a mente. A sensação de inferioridade nos impulsiona a superar nossos limites." Adler. Para resumir sua tese anotarei 7 pontos relevantes; Contribuições para a psicologia: Desempenhou um rol importante na psicologia individual e influenciou terapias psicodinâmicas posteriores, como a cognitivo-comportamental. Deu uma compreensão mais holística da psicologia, considerando não apenas os aspectos intrapsíquicos, mas também os sociais e culturais na formação da personalidade. Críticas e controvérsias: Embora suas ideias tenham sido influentes, enfrentaram críticas. Alguns psicólogos argumentavam que sua teoria é menos fundamentada em evidências empíricas do que outras abordagens. A noção do “complexo de inferioridade” pode ser considerada simplista em comparação com aquelas mais contemporâneas. Compensação e busca por superioridade: Como um impulso central na vida humana, afirmou em “A Individual Psychology of Alfred Adler” (1956): “A busca pelo sucesso está no centro de nossas vidas. Qualquer outra coisa, é insignificante em sua comparação.” Estilos de vida: Desenvolveu a ideia dos “estilos de vida” individuais como uma maneira de compreender como lidamos com esse ponto da inferiorizaçao. Em; "The Science of Living” (1929): cita; “Cada indivíduo cria seu próprio estilo de vida a partir de suas experiências infantis e tentativas de superar suas sensações de inferioridade.” Inferioridade fictícia e real: Diferenciou entre subalternidade fictícia e real, destacando a importância da primeira. Como ele explicou em ''Problems of Neurosis: A Book of Case Histories'' (1929). “A fictícia é mais importante para a compreensão da psicologia do que a real, ela impulsiona nosso desenvolvimento e é um motivador essencial.” Relação com a sociedade: A influência dela na formação do complexo, como argumentou em “Understanding Human Nature” (1927); “Não é apenas o mundo interior de um indivíduo que importa, mas também sua relação com a sociedade, ela pode agravar ou aliviar os sentimentos de inferioridade.” Desenvolvimento pessoal e psicoterapia: Via a psicoterapia como um meio de auxiliar as pessoas, como narra em “The Practice and Theory of Individual Psychology” (1927); “O objetivo da psicoterapia é auxiliar as pessoas a entenderem seus estilos de vida, encontrar maneiras mais saudáveis de lidar com a inferioridade e alcançar uma sensação de harmonia.” Uma sessão resumida de psicanálise que aborda o assunto em questão. Daniel: Olá, boa noite Mônica? Como tem passado? Mônica: Boa noite Daniel, bem, eu acho. Um pouco ansiosa, como sempre. Daniel: O sempre, é a palavra que queremos eliminar não é?… Poderia me contar mais sobre o que te faz ''sempre'' te sentir insegura? Mônica: Acho que tem a ver com a minha falta de confiança em mim mesma, me sinto inadequada, incompetente, inferiorizada, como se não fosse boa o suficiente em várias áreas da minha vida. Daniel: Como essa falta de confiança se manifesta? Me dá exemplos práticos? Mônica: Me lembro de uma vez que fui convidada para uma festa de colegas de trabalho. Todos pareciam tão confiantes e bem-sucedidos, e eu me senti completamente deslocada deles. Fiquei o tempo todo me preocupando se estavam me julgando, todos olhavam para mim, para minha roupa, meu cabelo, parecia que eu era o centro das atenções, quando era exatamente o oposto que eu desejava. Daniel: Por acaso numa festa, ninguém olha para ninguém? Como se sentiu nessa situação? Houve algum incidente específico dirigido verbalmente? Ou foi apenas uma percepção que te fez sentir insegura? Mônica: Não, ninguém me dirigiu alguma crítica direta. Havia uma conversa sobre o trabalho e realizações no grupo que eu estava, e eu senti como se não tivesse nada realmente importante para compartilhar e falar sobre mim. Isso me lembrou de todos os momentos em que falhei no trabalho ou não atingi minhas metas, isso aprofundou minha hesitação naquele momento. Fiquei triste, não consegui relaxar. Daniel: Nota como essa situação ativou memórias de momentos anteriores? Você acha que essas experiências passadas podem estar contribuindo para sua falta de confiança no presente? Como aconteceu nessa roda de colegas. Mônica: Sim, acho que sim. Vivi situação semelhante na escola, na faculdade, quando eu me sentia de fora das atividades em grupo ou não me apercebia tão talentosa quanto meus colegas de classe. Daniel: Suas memórias estão muito interconectadas e podem estar alimentando sua insegurança atual. Essas vivências passadas moldam nossa visão de nós mesmos. Como essas histórias estão influenciando sua voz crítica interna? Mônica: Sinto como se elas estivessem constantemente me lembrando que eu não sou tão boa assim, que nunca alcancei o que se espera de mi. Daniel: Entendo. Essa voz interior Mônica, pode ser muito poderosa. Daniel: Voltemos a festa, por um momento. Parece que foi um evento desafiador para você. Se lembra como seu corpo reagiu naquele momento? Houve alguma sensação física associada à sua insegurança? Mônica: Sim, meu coração começou a bater mais rápido, minhas mãos ficaram suadas e eu senti um aperto forte no peito. Foi como se todas as minhas inseguranças estivessem se reunindo para me atacar e se manifestando fisicamente. Daniel: Compreendo. Essas reações podem ser indicativos da intensidade de suas emoções naquele momento. Se lembra de algum pensamento específico que passou por sua mente na festa? Algo que tenha alimentado sua vulnerabilidade? Mônica: Eu me lembro de pensar que todos à minha volta eram melhores do que eu, parecia estar num filme, aonde todos eram protagonistas e eu era a copeira que os servia. Estavam todos rindo, aparentavam ser muito inteligentes, felizes e confiantes. Eu forçava meu sorriso, me senti uma fraude, como se estivesse fingindo ser alguém que eu não era e que estava no lugar errado... deslocada. Daniel: É interessante como você se descreve como um embuste. Isso me faz pensar em algo chamado “síndrome do impostor,” onde as pessoas duvidam de suas próprias realizações, com medo de serem expostas, como um falseamento de si. Você já se sentiu assim em outras situações? Mônica: Sim, muitas vezes no trabalho principalmente. Mesmo quando alcanço às coisas, sinto que não mereço e que, em breve, todos descobrirão que não sou tão competente assim. Daniel: Essa síndrome muito comum pode estar ligada a esses sentimentos. Mesmo pessoas hábeis e capazes a experimentam. Já sentiu algo semelhante na infância? Havia alguma figura importante da sua infância que era muito crítica, severa, impositiva com você? Mônica: Minha tia, ela cuidava de mim, ficava falando que eu não ia ser ninguém, que era preguiçosa, burra e mal-educada. Fora que me surrava, me fechava no banheiro por horas e gritava para outros ouvirem. Por outro lado, meus pais, tinham expectativas muito altas ao meu respeito, às vezes, eu sentia que nunca ia conseguir atender a essas perspectivas. Daniel: Como você acha que isso afetou sua autoimagem e sua confiança ao longo dos anos, na medida que foi amadurecendo? Mônica: Isso me tornou muito crítica em relação a mim. Tudo o que faço, preciso refazer, senão o faço, tenho a impressão de não ter feito devidamente. Também percebo agora, te falando, que sempre achei difícil aceitar elogios e reconhecer minhas conquistas. Parece que só consigo olhar e me concentrar nas falhas. Daniel: Compreender esses padrões é um passo importante para podermos trabalhar em direção a uma maior autoaceitação. Daniel: Quero voltar um pouco no tempo... que você fale mais da sua infância. Me conta uma história, um episódio que você acredita tenha contribuído para sua insegurança na vida adulta? Mônica: Claro, quando eu tinha cerca de 7 anos, estava participando de uma competição de desenho na escola. Eu costumava gostar muito de desenhar, estava empolgada com isso. Passei muito tempo fazendo o trabalho e realmente coloquei todo o meu esforço nele. Mônica: Bem, quando entreguei meu desenho ao professor, ele o olhou e disse… o que é isso? Que estava confuso e fora do tema. Ele disse isso na frente de toda a turma, e todos começaram a rir do meu desenho. Eu me senti tão envergonhada… Daniel: Parece uma memória muito negativa do episódio. Daniel: Deve ter sido doloroso e impactante para você. Como afetou sua autoimagem e estima na época? Mônica: Acho que foi nesse ponto que comecei a acreditar que sou um fracasso. Eu me lembro de ter chorado naquela noite e prometido a mim mesma que nunca mais tentaria algo criativo, fiquei com pavor de ser ridicularizada novamente. Daniel: É compreensível que isso tenha causado uma sequela em sua autoconfiança e na forma como você se vê. Monica, veja como eventos traumáticos ou humilhantes na infância podem ter criado um terreno fértil de autocríticas negativas. O que essa memória influenciou suas interações e escolhas ao longo dos anos? Mônica: Acho que desde então, passei a hesitar em me destacar, tomar decisões ou expressar minha criatividade, ser julgada e ridicularizada não foi mais uma opção, então acabei me mantendo na minha zona de conforto. Daniel: Parece que essa memória moldou muitas das suas escolhas e comportamentos. Nosso objetivo aqui é compreender essas influências, trabalhar e permitir que você se sinta mais confiante e capaz. Daniel: Você concorda Mônica que estamos começando a entender as raízes da coisa? Mônica: Estou começando a ver quem sou hoje, nunca falei destas coisas para ninguém. É estranho perceber como falando do assunto, estou me sentindo mais aliviada, é, como algo que aconteceu quando era criança continua vivo em mim. Daniel: A boa notícia é que agora estamos conscientes disso. Mônica: Estou totalmente aberta e pronta para encarar minhas limitações, por isso estou aqui. Daniel: Isso é muito encorajador de ouvir. Até a próxima, continue refletindo sobre o que discutimos hoje. Boa noite! Finalizando, a insegurança se manifesta como uma constante e debilitante incerteza em relação a diversos aspectos da vida, incluindo os desvios de identidade. É um estado psíquico que estrangula nossas iniciativas e engendra uma busca permanente pela validação externa, como se essa legitimação fosse uma bandeira para a conquista de uma ilusória paz interior que nunca será alcançada plenamente. Contudo, a irresolução emocional não é um fenômeno isolado, senão uma legítima condição do ser. A vida, em sua essência, é frágil, rápida e fugaz. Se consome, tem na sua proposta mudanças radicais e inesperadas, e até mesmo, uma possível extinção iminente, algo que negamos e negligenciamos inconscientemente. Assim, planteamos, alimentamos e debruçamos em expectativas permeadas de esperanças e certezas no futuro, acreditando piamente que a vida se desdobrará de acordo com nossos desejos. Destarte, seu curso desviará na maioria de nossos roteiros incrivelmente desenhados, nos impondo uma transição, aquela contraposição corajosa a ser enfrentada, onde os ventos do incógnito do inexplorado e misterioso se farão sempre presentes. Entretanto, isto não implica que devamos incluir a insegurança como uma base permanente na nossa caminhada e projetos de vida. Talvez, deveríamos reconhecer que a vida tem vida própria, tem potência, força inquebrável e inevitável, de alguma forma, mesmo sem nossa aprovação ou entendimento, ela é. Por outro ângulo, vejamos seu lado positivo, no sentido que ditas imprecisões nos desafiam a uma adaptação dinâmica, da qual o Homo sapiens é a prova viva do êxito, da nossa habilidade, resiliência e superação. Seria, portanto, este conjunto de sinapses que atuam como um estímulo incentivador da vida, autenticando o presente a ser vivenciado. Por esta razão, devemos aprender a confiar em nossas próprias capacidades históricas, buscando a importante validação interna em vez de depender demasiadamente da aprovação de terceiros. Podemos com toda certeza acolher a insegurança como parte importante do nosso processo evolutivo, de crescimento e desenvolvimento pessoal, olhando para ele, não como uma montanha insuperável, más, sim, como uma catapulta que pode nos lançar para além dela.     Frases de psicanalistas que ajudam a dar compreensão ao tema. “A insegurança é a sombra que cresce quando a luz da autoestima é ofuscada pelas nuvens da dúvida interior.” Dan Mena. “A insegurança é muitas vezes a manifestação de conflitos internos não resolvidos, especialmente em relação às figuras parentais.” Klein. “A insegurança emocional pode surgir quando a mãe falha em ser suficientemente boa em sua função de cuidadora.” Winnicott. “A insegurança pode ser vista como uma resposta à ansiedade e ao medo do desconhecido. A análise pode ajudar a desvendar esses medos ocultos.” Anna Freud. “A insegurança emocional muitas vezes é o resultado de uma falta de simbolização adequada das experiências traumáticas da infância.” Lacan. “A insegurança pode ser mitigada através da empatia e do apoio emocional, permitindo que o indivíduo desenvolva uma autoestima mais sólida.” Kohut. “A insegurança crônica muitas vezes está enraizada em neuroses básicas não atendidas, como a necessidade de amor e afeto.” Horney. “A insegurança nas relações interpessoais pode ser um sinal de dificuldades na construção da identidade e na integração do self.” Chodorow. Vamos ao poema; A insegurança e o amor — Luciano Fonseca.   Na insegurança das palavras Ou na do jeito de olhar É que começam nossos medos De sorrir ou de chorar. Na insegurança o desejo Tende a nos abandonar Pelo medo de um beijo Ou pelo medo de tocar. Com a insegurança um toque quente Tende sempre a gelar Por não ter já definida Há questão de aceitar. Na insegurança do momento Estamos sempre a aceitar O medo de sofrer E o medo de sonhar. A insegurança da minha vida Eu vou ter de superar Pois eu nasci para sorrir Eu nasci para amar. Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130

  • A Mulher Não Existe.

    “Não se nasce mulher, torna-se mulher.” Beauvoir. Por Dan Mena. A afirmação muito provocadora de Jacques Lacan de que “a mulher não existe” é um ponto de partida para adentrar no hermetismo da identidade feminina pela nossa visão psicanalítica. Desafiando as noções convencionais de identidade de gênero, é, questionando a ideia de que “a mulher” pode ser minimizada a uma categoria estática e homogênea. Podemos, então, examinar a suposta inexistência dela sob a perspectiva do Simbólico, do Imaginário e do Real, enquanto consideramos suas implicações para o discernimento da feminilidade, devendo necessariamente passar sobre às discussões contemporâneas. Partindo dos primórdios, Freud propôs uma abordagem muito criticada pelos movimentos feministas, ditos como sexistas, uma vez que promoveriam o conceito de inveja do pênis como determinante dessa existência. Contemporaneamente ele aborda a questão a partir de diversos ângulos teóricos, iniciando os estudos na década de 1920. Neste período da história da psicanálise surge o interesse cultural pelo feminino, pelo corpo, particularmente pelo aparecimento da histeria. Estes sintomas histéricos que chamaram a mulher para o seu reparo, atenção sobre a substância corporal da sua constituição. Ditas manifestações e ocorrências incitaram a neurologia da época, como elementos dissociativos de conversão e os fenômenos psicossomáticos reais, que não correspondem às redes do sistema nervoso. A histeria, presente no feminino, enredou o saber médico e distorceu as leis neurocientíficas, o que virá consequentemente a constituir a psicanálise. Este atiçamento lacaniano, que choca num primeiro momento, não implica absolutamente em negar a existência das mulheres, senão questiona a ideia central de uma essência ou identidade feminina fixa e universal, uma leitura muito mal compreendida que pode ser facilmente explicada. Boa leitura. “A identidade da mulher é moldada desde a infância por meio de relações interpessoais e pela busca de sua própria identidade.” Chodorow. Como captar sua assimilação? Construção: A identidade feminina não é algo inerente ou biologicamente determinado, mas sim uma elaboração social e cultural. As normas de gênero, papéis sociais e expectativas variam amplamente entre as diferentes culturas e ao longo do tempo. Portanto, não podemos definir a identidade feminina de maneira genérica. Complexidade da Psique: A mente e super intrincada, sabemos que ela é moldada por experiências, linguagem e simbolismos. Mulheres são submetidas a uma variedade de influências desde a infância, incluindo relações familiares, normas sociais e representações culturais que contribuem para a formação de sua identidade. Rejeição de Estereótipos: Ao questionar a existência de uma “mulher” universal e absoluta, se está na verdade, rejeitando arcabouços simplistas de gênero, onde representações fixas de feminilidade são redutivas e limitantes, lugar que a identidade de uma mulher é muito mais multifacetada do que qualquer categoria padronizada poderia capturar. Abordagem Simbólica: Usando os conceitos como o Simbólico, o Imaginário e o Real para analisar a construção da identidade feminina, é, como ela será fortemente influenciada pelo registro do Simbólico, sendo o domínio da linguagem e das normas sociais. Essas regras, que moldam como as mulheres se veem é são vistas pelos outros(as). Respeito pela Singularidade: Ao negar dita existência de uma identidade ecumênica, se convida à consideração da especificidade, onde cada mulher é única em sua experiência e personalidade, sendo extremamente importante respeitar essa unidade, em vez de impor categorias pré-determinadas ou colocar sua excepcionalidade em um conceito de caixinha. O Simbólico: Normas, Linguagem e Gênero. O Simbólico é o registro da linguagem e das idealizações sociais, onde as normas e papéis de gênero são construídos. A identidade feminina é moldada por uma multiplicidade de discursos que impõem expectativas e limitações. Seria logo, a base fundamental na criação de uma esfera feminina, e, ao mesmo tempo sua natureza opressiva. “O Simbólico é o lugar onde as normas de gênero são inscritas na psique, moldando a identidade feminina de acordo com padrões pré-determinados.” O Imaginário: Autoimagem e Representações Sociais. O registro do fantasioso lida com a imagem e a percepção, incluindo a reprodução e translado que as mulheres têm de si mesmas, e a metáfora, que a sociedade projeta sobre elas. Neste domínio, a elevação dessa identificação é consumida por conceituações sociais, estereótipos e pressões culturais. “A identidade feminina no imaginário, é fortemente moldada por estereótipos, que podem limitar a autonomia e a autopercepção das mulheres.” O Real: Uma Realidade Inapreensível. Reconhecer que o Real e o registro dessa bagagem não mediada, que permanece inapreensível e elusiva. A vivência das mulheres não pode ser completamente capturada pela linguagem ou pelas estruturas cívicas. “O Real representa a realidade inacessível, aquilo que transcende a linguagem e as fundações sociais. A identidade feminina não pode ser totalmente apreendida por categorias predefinidas.” Então, o quê significa ser mulher? É importante reconhecer que esta abordagem pode ser interpretada como uma simplificação excessiva. Esta proposta, sugere que não é possível explicar de uma forma geral o que ''significa ser mulher''. Embora, o que isso pode designar, dar sentido para cada mulher esteja relacionado e conectado com suas tramas discursivas e proscritivas, onde posso citar exemplos; ser bonita, mãe, amante, sensual, profissional, independente, esposa, poderosa, promíscua, sexy, rapariga, mandona, feia, submissa, etc., o que, ao mesmo tempo, não se esgota nelas. “A mulher não é um 'outro' a ser compreendido, mas sim um sujeito com uma psicologia única e complexa.” Kristeva. Por esta razão, persistimos na questão da peculiaridade que as excede, extrapola o que é possível reconhecer conscientemente, e que possa de alguma forma ser filtrado pelas palavras que a ela própria transbordam. Autora de uma originalidade que parte do excepcional, e contrafeita obliquamente por aspectos inconscientes e pulsionais. Mas, para além da discussão exegética de Lacan, não seria inadequada sua correlação com os pressupostos feministas modernos. A questão do que é ser mulher se debate sob dita teorização, onde diferentes refutações, réplicas e respostas continuam a coletar implicações de toda ordem, seja sociais, políticas e culturais. Nomeadamente, a questão política do feminismo impõe uma permanente controvérsia global. Podemos citar como um paradigma, óticas e prismas, onde uma mulher trans não é considerada mulher, e para outras(os) sim. Assim, podemos verificar claramente que ditas interpretações partem de ideologias feministas que em algum ponto apelaram para certas abordagens lacanianas positivamente, as apoiando, enquanto outras, se posicionaram reprovando, criticando e combatendo. Virando a página para um retrocesso cronológico, a adolescente acessará o universo adulto cerceada pela lei e regras sociais imperativas que vão coibir, censurar, reprimir e tolher o livre exercício do seu desejo, condicionada, logo, a uma moral sexual que a define perante si e outras mulheres e homens como um tipo X de mulher. Destarte, e ao contrário do seu congênere masculino, precisará controlar os seus impulsos sexuais, desenvolver controles para suas lascívias, geralmente baseadas no pavor e consequências possíveis de todo tipo de perseguição que resultariam da concretude da sua satisfação, ou julgada sob princípios rígidos e morais. Fosse pouco, ainda deverá enfrentar o desequilíbrio narcísico que a própria dubiedade e hesitação da feminilidade incorpora. Por fim, vale destacar os três destinos da sexualidade feminina; em primeiro lugar, uma sina sem destino; ou seja, uma ausência de sexualidade, ou melhor, eu diria, uma sexualidade não partilhada. O segundo: tendência a desenvolver a masculinidade, por consequência o lesbianismo, a terceira: a feminilidade definitiva, quando a mulher toma o pai como modelo e identifica o seu marido com ele, faz então dele o seu objeto de amor e, ao mesmo tempo, rivaliza com ele. Uma última afirmação acontece dentro dessa tricotomia, com o marido, ela recicla sua má relação infantil com sua mãe. A anatomia não é suficiente para definir o que determina ou faz uma mulher ou um homem, diz Freud, “[…] o que constitui a masculinidade ou a feminilidade é um caráter incógnito e misterioso que a anatomia não pode aprender”; “[…] tanto os homens como as mulheres são bissexuais num sentido psicológico, eu deduziria, que eles decidiram tacitamente fazer coincidir o ativo com o ”masculino”. e o passivo com o “feminino”. Fica evidente, portanto, que tanto no aspecto ativo como no passivo da sexualidade há uma satisfação da economia libidinal. “A mulher não é uma simples cópia do homem. Ela tem suas próprias necessidades e desejos, sendo igualmente válidos.” Horney. A psicologia feminina, o inconsciente coletivo e os arquétipos. Para escapar da dimensão lacaniana, será necessário adentrar na introdução ao conceito de inconsciente coletivo. Jung o define como “uma camada profunda da psique que contém elementos universais compartilhados por todas as culturas e sociedades humanas” (Jung, 1968). O inconsciente compartilhado é a fonte dos arquétipos, os quais são imagens e padrões simbólicos inatos que moldam nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos. Eles transcendem a experiência individual e são comuns, conjuntos e coletivos. É uma parte fundamental da psique que intervêm em nossa compreensão de mundo e de nós mesmos. Para ilustrar essa penetração, cito: “O inconsciente coletivo é como um vasto oceano, cujas profundezas abrigam inúmeras criaturas e tesouros desconhecidos. Ele é a fonte inesgotável das nossas experiências mais profundas e arquetípicas” (Jung, 1968). Representações universais da feminilidade. Essas estruturas citadas anteriormente representam os aspectos essenciais do traquejo das mulheres, o que influenciará como elas se veem, interagem com os outros e compreendem a feminilidade em um contexto mais amplo. Um dos esquemas femininos mais conhecidos é o da ''Grande Mãe''; “uma montagem interpretativa da maternidade, fertilidade e do cuidado maternal” (Jung, 1959). A Grande Mãe simboliza a ligação entre a mulher e a natureza, e sua influência pode ser vista em mitologias e narrativas culturais de diferentes sociedades ao longo da história. Posso resumir da seguinte forma: Representação da Maternidade e da Fertilidade: A “Grande Mãe” é vista como uma catadura polivalente da maternidade e da fertilidade. Simboliza a capacidade de criar e nutrir a vida, refletindo o papel vital da mãe na sobrevivência e no desenvolvimento da criança. Símbolo de Cuidado e Proteção: Além da maternidade, também é associada ao cuidado com o bebê e sua salvaguarda, espelha o desejo primário de segurança e proteção, especialmente nas fases iniciais da vida. Conexão com a Natureza: Está muitas vezes ligada à natureza e vista como uma personificação da terra ou do biossistema selvagem, com uma conexão profunda entre o ser e o mundo natural. Aspectos Negativos: Seus enfoques como possessividade, controle excessivo e domínio. Possuem uma polaridade, o que significa que podem ser expressos de maneiras positivas ou negativas, dependendo das circunstâncias e da trama psicológica de um indivíduo. A anima é a personificação. Embora Jung não tenha especificamente abordado o conceito de “Sophia” ou “Sabedoria,” suas ideias sobre individuação, autoconhecimento, busca de significado e a importância dos símbolos podem ser interpretadas como sinônimos da busca pela sapiência interior. Para destacar a importância dos cânones standards da mulher, ele escreveu: “A Anima é o arquétipo da feminilidade na psique masculina. Ela configura a dimensão feminina na tarimba de cada homem e desempenha um papel primacial na compreensão das mulheres e de si” (Jung, 1963). Individuação e Autoconhecimento: O processo de se tornar um indivíduo único e completo, onde; “Individuação significa se tornar um em si, e não como o ''outro'' quer que sejamos”, isso assinala a importância de se conhecer profundamente em vez de ser definido pelas expectativas externas. Busca de Significado: Significado da vida; “O sentido da nossa existência não reside no que fazemos, mas no que somos e nos tornamos” Jung. Isso reflete sua crença de que a realização pessoal está estreitamente ligada à compreensão de quem somos. Conexão com o Inconsciente: A relação entre o consciente e o inconsciente; “Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro acorda” Jung. Essa citação, ressalta a importância de explorar o mundo interior, o que está alinhado com a ideia de buscar a sabedoria interna. Símbolos e Mitos: Quanto ao papel dos símbolos e dos mitos na psicologia; dize; “Os mitos são as histórias de nossos desejos mais profundos” Jung. Isso sugere que eles podem nos ajudar a acessar nosso saber de si, e a compreender os desejos mais agudos, impetuosos e íntimos. “A Sophia, ou Sabedoria, é um arquétipo que transcende a ideia de uma feminilidade meramente biológica. Ela simboliza a busca do conhecimento e da compreensão, tanto para homens quanto para mulheres” (Jung, 1968). A psicologia feminina é enriquecida por essa teoria do inconsciente coletivo e dos arquétipos. Sua experiência é tocada por imagens e padrões simbólicos que transcendem as fronteiras culturais e temporais. Ao explorar esse conceito pela teoria junguiana, a psicologia se destaca pela riqueza e diversidade dos domínios e competências das mulheres no contexto mais amplo da psique. Para ser mulher. O surgimento da psicanálise foi numa era marcada por uma mentalidade conservadora, nessa época se buscava privar as mulheres dos seus quereres, caprichos e do direito ao prazer. A análise psicanalítica restitui à mulher a obtenção da dimensão sexual, e, por meio da prática clínica, cava essa divergência em contraposição do masculino e feminino. Freud, foi equivocadamente associado a uma tentativa de oprimir e negar os direitos as diferenças de gênero. Opostamente, como pai da matéria que foi, tem o mérito de ter se envolvido e desafiado em dita disparidade arcaica, refletindo sobre um dos elementos essenciais que constituem a nossa natureza, a sexualidade. Nossa aproximação mais atualizada ao tema não é essencialista, Lacan submerge em diferentes prismas, pensamentos e sentidos pelas quais estabelecemos contato com o mundo real e a formação de uma identidade tida como expressão. Atualmente, essas fisionomias sociais estão em constante mudança, antes mais definidas, agora, se formam conforme os prazeres individuais, moldadas ao bel-prazer de cada um. Sua evolução ocorre na esfera da era capitalista, onde a exultação desse deleitamento está inciso em cada sujeito, ocupando o majestoso lugar de um impossível ideal. No entanto, mesmo diante dessa truculência embaralhada, podemos encontrar rastros e traços comuns que interrelacionam o prazer como resultado do real. Falo então de uma jucundidade, um deleite associado à essência mais única da existência de cada pessoa, onde não se considera mais a questão da diferença sexual; e, que por sequela do regozijo e satisfação se constrói essa diferença, que traz à existência do corpo feminino. Esse sistema econômico numulário está perfeitamente enfileirado com esse prazer que exclui a pessoa hetera e suas diferenças, mas que não apresenta nenhum obstáculo em perfazer e disponibilizar todas as variedades sexuais disponíveis. Destarte, no tocante a parte feminina da coisa, para ser mulher é preciso exercer a sexualidade, mas para ser uma respeitável, ainda é preciso reprimir o desejo. Também, manter a postura moral e se opôr à impulsividade. Para ser valorizada como mulher, é preciso ter experiências sexuais e não pode ser vista como ultrapassada, tola ou ignorante. Isso pressupõe que ela deva ser sexy, sedutora, cativante, e deva usar todas essas ferramentas para manipular os mecanismos do desejo e se tornar uma narcisista que prefere ser amada a amar. O que quer uma mulher? “A grande pergunta que nunca foi respondida e que não consigo responder, apesar de meus trinta anos de pesquisa na alma feminina, é: ''O que quer uma mulher?” Freud. Seria muita petulância eu poder responder dito questionamento, já que o próprio Freud admite sua não conclusão e improficiência. É pensando bem… por que deveria ser conclusivo? Talvez a resposta esteja exatamente aonde não deva ser localizada, no próprio mistério de não se revelar, de ser subjetivo. De qualquer forma, sou tentado, me permito errar, como homem, analista, a tecer minhas considerações pessoais, longe de querer qualquer aprovação ou aproximação com a impossibilidade da sempre abstrata verdade feminina. Vamos lá. A compreensão dos anseios femininos tem sido uma área de investigação e reflexão na psicanálise, condição que pode ser encontrada, não no que ela representa no seu discurso, na narrativa que faz de si, mas no lugar que ela pode encontrar no desejo, o qual é determinante o desejo sexual. Uma mulher não pode se definir, nem mesmo dizer o que é, enquanto mulher, mas sim, consegue saber o que deseja perfeitamente. É estes seus intrínsecos quereres serão concretizados, a contra corrente do que for, mais tarde, menos tarde, nada a impedirá. Pode afirmar também, que o que lhe falta é um homem, mas quando vai a caça de uma resposta que possa dar nome a essa relação entre ambos, tida como o laço da excitação sexual sua linguagem falha, da curto-circuito. Destarte, não encontrará nesse percurso uma chave conclusiva que lhe indique o caminho mais seguro para alcançar o ''outro'' com o qual o rol dessa libido vai progredir, se garantir, embora, nem será mesmo um indicativo para uma satisfação que se consubstancie e afirme com o deleitamento desse presumível ''outro''.  A dualidade dos desejos femininos: Gozar e Ser Amada. A mulher, como sujeito da psicanálise, se encontra frequentemente confrontada com uma ambiguidade desejante, o desejo de gozar e o de ser amada. Essa duplicidade formativa cria uma tensão psicológica intrincada, como observado por Lacan; O que uma mulher quer?. Ela está sempre no meio de uma ponte, entre gozar e ser querida e amada, se debate perante o desafio de equilibrar essa gangorra por prazer pessoal e a necessidade de amor, paixão e reconhecimento. Eis o seu tormento, tal embate, de ser dividida, fragmentada pelo gozo do par, de ser ultrapassada pela sua própria fruição do desfrute e com uma exigência de amor impossível de comprazer. Esse dilema, que se entrecruza na relação com o gozo, pode criar uma complexidade adicional em suas vidas amorosas, onde a busca por amor assume uma intensa demanda emocional e afetiva. “Ela deseja o que não tem, aceitando que nunca o terá” (Lacan, 1960). O Homem como símbolo do desejável. Uma das características distintivas da psicologia feminina, é a busca pelo desejo no outro, especialmente no homem. A mulher regularmente o reconhece como o símbolo do que é ambicionável para ela. Essa dinâmica assume um papel preponderante na busca da satisfação; “é o homem que o tem e, portanto, que nele está o símbolo do que é desejável para ela” (Lacan, 1960). Mas quando os homens veem as mulheres a partir da lógica masculina, da razão fálica, dizem; “O desejo feminino é possessivo, querem nos castrar, amarrar, nos ter ao seu serviço, querem tirar até nossas palavras, procuram em nós o que lhes falta… ”. E isso, para um homem neurótico é absolutamente intolerável. Ele se perguntar sobre como goza uma mulher lhe é particularmente difícil, ao não permitir que suas defesas elaboradas o auxiliem, e assim negando, produz apenas as respostas que lhe interessam ao próprio contentamento machista. Em; ''A Lógica do Fantasma'', Lacan explica; “segurar a questão do gozo feminino” abre “a porta a todos os atos perversos”. “Se o homem deseja a mulher, só a alcança caindo no campo da perversão”. A Mulher como instigadora do desejo. Uma faceta intrigante da psicologia feminina é sua capacidade de incitar o desejo nos outros, de fazer com que talentosamente anseiem por ela. Buscam ativamente fazer as pessoas falarem, criando assim desejos. “A mulher, também quer fazer as pessoas falarem, o que é fazer com que elas desejem” (Soler, 2007). Essa capacidade de provocar o desejo nos outros é um elemento importante na sua dinâmica, lugar que de forma alguma pode ser generalizado ou reduzido a estereótipos, sua singularidade precisa ser enxergada particularmente. Estão sempre mais sintonizadas com o aspecto singularizante do gozo, de maneira muito diferente dos homens. Frequentemente têm fantasias duradouras, intermináveis e fixas, que não se encaixam nas normas tradicionais de gênero, lidam de forma incrível coma a ideia do “Real” de maneira única e habilidosa. Homem ou mulher enfrentam à rejeição do feminino. Seja para eu me afirmar homem ou mulher, haverá sempre uma questão a ser solucionada, a de saber como resistir, enfrentar, contrapor à rejeição do feminino. Cada um que se assina como tal, quer se chame homem ou mulher, tem de lidar com esta recusa. Mulheres resistem muito mais, podem defender bravamente essa posição de refutação e objeção. A história evidência que carregar o corpo de uma mulher é em si um perigo, uma constante ameaça, porque torna o vazio e o gozo espalhado e presente em todo o corpo. As mulheres existem uma a uma, individualmente, sem ter nada em comum, elas simplesmente coexistem não só com os homens, mas também no convívio com outras. Opostamente, homens se definem numa unicidade por sua condição sexual referida ao falo, de onde podemos extrair e encontrar uma frase popular após uma desilusão amorosa: “Os homens são todos iguais, é só isso que querem”. Deduzimos, portanto, que o amor em si, não resolve o contraditório dos prazeres, me parece que o prazer feminino está na exclusão, num sentimento de estar mais num consenso com a provável solidão. Aquela coisa da má companhia, aonde entra outro velho ditado que pode ser aplicado; “antes só do que mal acompanhada” confirma ser muito verdadeiro. Afinal? Como se sustenta o narcisismo feminino? No homem há uma conciliação entre o gozo e a satisfação narcísica, por outro lado, o gozo feminino ultrapassa, extrapola a mulher, que não a identifica. Apesar dos orgasmos, ela perseverará, desacreditando se é realmente uma verdadeira mulher. Será compulsoriamente sujeita a se discernir pelo amor de um homem, e o que ela espera dele é que a torne seu desejo, que a admita como tal, a reconheça como sua causa, concupiscência e assanhamento, pois o narcisismo feminino é puramente o lugar do desejo. Logo, eu poderia continuar discursando, é um tema inesgotável, aonde deixei para trás pontos tecnicamente imperdoáveis da teoria psicanalítica, más não e esse meu propósito, eu equaciono, corto, pulo, misturo e tento resumir. Para encerrar, Freud estava trabalhando no tema da compaixão, o humor como sucessor da dor, onde ele cita: “A piada e sua relação com o inconsciente”, neste ponto, ele relaciona Twain com um texto: “O Diário de Adão e Eva” capítulo: “Depois da queda”, onde Eva fala assim… e me parece um texto muito assertivo quanto tudo o dito, pertinente. ''Quando olho para o passado, o jardim me parece um sonho. Era lindo, encantadoramente lindo, mas agora está perdido e não o verei mais. Ele me ama mais do que pode, eu o amo com toda a força da minha natureza apaixonada, e penso, que isso é próprio da minha idade e do meu sexo; se me perguntarem porque o amo, descubro que não sei, e não me interessa saber; por isso, suponho que este tipo de amor não é o produto do raciocínio e da estatística. Acho que deve ser assim. Amo certos pássaros pelo seu canto, mas não amo o Adão pelo seu canto, no entanto, lhe peço que cante, porque quero aprender a gostar de tudo o que lhe interessa; não é pela sua inteligência que o amo, não, não é por isso. Não é pela sua inteligência tal como ela é, porque não foi ele que a criou. Não é pela sua graciosidade e consideração, e pela sua delicadeza que o amo. Não, não é isso. Acho que é algo que ele traz consigo, e não sei porque é que ele quer esconder isso de mim. Não é pelo seu cavalheirismo que o amo. Não, não é isso. Então, por que é que o amo? Simplesmente porque é um homem, acho eu. É forte e bonito, o amo por isso, o admiro e me orgulho dele, mas poderia amá-lo sem essas qualidades. Sim, acho que o amo simplesmente porque é meu, e é um homem. É algo que acontece e não tem explicação. Sou Eva, sou apenas uma mulher e sou a primeira que se debruça sobre esta questão''. Se por todos os motivos elencados, em algum momento da sua vida ler, assistir o ouvir alguém dizendo… “A Mulher não existe”, agradeça, pois ao ''não existir a mulher'' ela terá a inigualável oportunidade de se ''fazer existência'', ao seu modo, na sua forma, no seu desejo. Ao poema de Gilka Machado — Ser mulher. Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada para os gozos da vida: a liberdade e o amor; tentar da glória a etérea e altívola escalada, na eterna aspiração de um sonho superior… Ser mulher, desejar outra alma pura e alada para poder, com ela, o infinito transpor; sentir a vida triste, insípida, isolada, buscar um companheiro e encontrar um senhor… Ser mulher, calcular todo o infinito curto para a larga expansão do desejado surto, no ascenso espiritual aos perfeitos ideais… Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza! ficar na vida qual uma águia inerte, presa nos pesados grilhões dos preceitos sociais! Até breve, Dan Mena. Membro Supervisor do Conselho Nacional de Psicanálise desde 2018 - CNP 1199 Membro do Conselho Brasileiro de Psicanálise desde 2020 - CBP 2022130

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Este conteúdo é baseado em 10 anos de prática clínica em psicanálise, respaldada por minha formação e registros profissionais junto ao; Conselho Nacional de Psicanálise (CNP 1199) e Conselho Brasileiro de Psicanálise (CBP 2022130).  
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